Um Defeito de Cor
Capítulo cinco
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Quando o sarã começou, eu estava em dúvida se descia ou não para me encontrar com o Alberto. Apesar de muito querer, acabei decidindo que não, pois não estava me sentindo muito bem, e depois inventaria uma desculpa qualquer ou contaria a verdade, mas tive que mudar de idéia. Os muçurumins começaram a rezar cada vez mais alto, tentando encobrir uma cantoria na rua.
Fui observar da fresta da janela do quarto da Euá, e vi o Alberto e dois amigos cantando e tocando guitarra do outro lado da rua. Antes que os muçurumins se irritassem, desci para a rua e saí caminhando em direção ao Pelourinho, fazendo sinal para que ele me seguisse. Na pressa de sair da loja, eu tinha esquecido de pegar meu bilhete e disse ao Alberto que não poderia ficar muito tempo na rua, pois havia o risco de ser presa por estar sem o documento provando que eu tinha autorização para circular àquela hora. Ele disse que estando com ele não haveria problemas, mas eu sabia que não era bem assim, ainda mais porque ele estava
bêbado.
Queria que o acompanhasse até o sobrado do Campo Grande, mas respondi que não estava me sentindo bem e tinha sérios problemas a resolver. Ele então perguntou se os problemas eram meus ou da minha sinhá, me segurando pelo braço e insistindo em saber o que tanto me incomodava. Não sei se estava irritada com ele por estar bêbado ou pelo que tinha feito em frente à loja, o que eu provavelmente teria adorado em outro lugar e outra ocasião, mas sentia vontade de deixá-lo falando sozinho no meio do largo e ir para casa. Só não fiz isso porque tive medo de que ele aprontasse mais alguma e piorasse a minha situação com os muçurumins. Eu não podia ficar sem ter onde morar, ainda mais depois de o alufá Ali ter dito que não me cobraria o aluguel daquele mês.
Tentei fazer com que o Alberto entendesse que eu realmente tinha um problema sério e só por isso não tinha descido para o encontro, como tínhamos combinado. E também que, no momento, eu não via como ser ajudada, a não ser ele me deixando ir embora para pensar nas providências que tinha que tomar, e que, assim que pudesse, voltaria a procurá-lo,, pois sabia onde. Ele pareceu compreender e me explicou onde morava, para o caso de eu precisar, mas estava chateado ao tomar o rumo do Terreiro de Jesus, provavelmente para se encontrar com os amigos e continuar bebendo e se divertindo. Voltei para a loja ainda antes do fim do sarã e chorei durante horas. Estava confusa, com medo do que poderia acontecer, medo de nunca mais ver o Banjokô, como acontecia com muitas mães que eram separadas dos filhos. Mal o dia amanheceu, e como eu não tinha conseguido mesmo dormir, levantei e fui para a casa do padre Heinz fazer cookies.
Sempre os amigos
Trabalhei o sábado inteiro, tentando me concentrar no que estava fazendo para que o dia passasse mais depressa. O dia e a noite, porque eu tirava um cochilo no chão da cozinha entre uma fornada e outra. No domingo de manhã, cheguei à confraria antes mesmo de a Esmeralda abrir a porta e fui a primeira a ser atendida pelo Gregório. Pelas contas dele, que confiei estarem certas, eu tinha de crédito o valor de cinqüenta e oito mil réis, valor que poderia pegar na hora que quisesse.
Ele também confirmou a avaliação do Sebastião, dizendo que eu e o meu filho teríamos que dar à sinhá por volta de setecentos e cinqüenta mil réis. Fiquei bastante desanimada ao perceber que não tinha nem a décima parte disto, e o Gregório ficou de ver o que poderia ser feito em relação ao restante. Muito dinheiro também para o caixa da confraria, que tinha comprado cinco cartas nos últimos dias. Fiquei de procurá-lo no fim do dia, quando teria as contas das últimas entradas, e como era longe para eu voltar até a casa do padre Heinz e fazer mais cookies, resolvi arriscar uma ida ao solar, para ver como estavam as coisas por lá.
Eu não quis chamar porque sabia que a sinhá estava em casa, provavelmente recebendo visitas, e fiquei à espreita, torcendo para que alguém aparecesse no jardim, o que não aconteceu. Desanimada, tomei o caminho da loja, com a intenção de fazer as contas do que já tinha e de quanto ainda precisava. No caminho encontrei o Sebastião, o Francisco e o Raimundo, que estavam sentados em frente à Igreja do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho, esperando por mim.
Fiquei muito feliz com o presente que me deram, o dinheiro que o Sebastião e o Francisco tinham tomado do caixa da confraria deles, suas contribuições, e disseram que eu podia contar com cento e quatro mil réis, sendo que quase noventa mil pertenciam ao Sebastião.
Eu não tinha como recusar, mesmo porque eles sabiam que era um empréstimo, que eu pagaria assim que fosse possível. Além do mais, o Sebastião tinha ganhado a liberdade e não precisava mais do dinheiro para a carta, e o Francisco ainda tinha muito para pensar em comprar a dele a curto prazo. Mas confesso que o gesto do Francisco me deixou emocionada, principalmente porque percebi que poderíamos nunca mais nos encontrar depois que ele fosse para a corte. Agradeci e, mesmo ainda não sendo o fim da tarde, me despedi e disse que estava com pressa para voltar à confraria.
Quando cheguei, estava havendo uma assembléia, e logo percebi que discutiam o meu caso. O Gregório tinha falado sobre o meu problema e eles acabavam de votar, decidindo que eu não teria o direito de pegar todo o dinheiro naquele mês, que teria que esperar mais um pouco. Achei que pudesse ter sido por eu não estar presente, que poderiam ter achado que não estava muito interessada ou necessitada, e pedi a palavra. Comecei explicando os motivos pelos quais tinha me ausentado, mas uma das mulheres se levantou e disse que aquele caso já estava decidido, que precisavam passar para o seguinte porque ainda tinham várias questões a resolver, sendo apoiada por todos.
A Esmeralda olhou para mim e disse que eles tinham razão, e que mais tarde conversaríamos. Saí para a rua e me sentei na porta da confraria, invejando a felicidade dos pretos que caminhavam de um lado para outro com suas roupas de domingo e garrafas de bebida debaixo do braço. Eu não achava justo me negarem o empréstimo, sendo que o Gregório havia dito que, desde que eu tinha me inscrito, era uma das pessoas que mais contribuíam.
O meu dinheiro já tinha ajudado a libertar pessoas, e eles não queriam deixar que o mesmo acontecesse comigo, em situação de emergência. O dinheiro que o Sebastião e o Francisco tinham emprestado, o presente da Antônia e da Esméria, o adiantamento concedido pelo
senhor Rui Pereira, mais o que eu tinha para receber nas próximas semanas e o disponível na confraria somavam quase duzentos mil réis. Em último caso, eu poderia tentar convencer a sinhá a aceitar esse valor de entrada e me dar um prazo para pagamento do restante, mas não acreditava que ela fosse concordar.
Quando a Esmeralda foi conversar comigo, achei que ela estava certa, embora fosse uma decisão difícil de aceitar.
Ela e o Gregório tinham conversado depois da minha saída e decidido resolver o caso em assembléia, pois não podiam decidir com o coração, e sim fazer o melhor para todos. Eu era nova na confraria, e apesar de ser uma das melhores contribuintes, havia gente participando desde o início, que tinha prioridade. Assim como eu achava que o meu caso era mais urgente, todos tinham seus problemas e suas prioridades, eu não poderia ser favorecida, ainda mais com duas cartas. Se me dessem o dinheiro de que precisava, o caixa da confraria ficaria quase sem nada ao beneficiar apenas duas pessoas, enquanto havia muitos outros que só precisavam de cinqüenta ou de cem mil para conseguirem o mesmo intento. De qualquer forma, eu ainda podia contar com o que me era de direito, o que já pagara,» cinqüenta e oito mil.
Na segunda-feira, o Tico e o Hilário passaram na loja para pegar os cookies e pedi a eles que fizessem a entrega da terça-feira, para o senhor Rui Pereira, pois queria mais tempo para pensar nos meus problemas.
Resolvi procurar a sinhá imediatamente e tocar no assunto da compra das cartas, e a conversa foi mais fácil do que eu tinha imaginado. Ela me recebeu na mesa do desjejum e disse que estava com pressa, que tinha muitas providências a tomar.
Fui direto ao assunto e ela não deixou transparecer nenhuma reação, abaixando o rosto na direção da xícara, e então disse para eu passar dentro de três dias, À
quando já teria mandado nos avaliar. À tarde, na loja, o Fatumbi voltou a falar comigo sobre a conversão, e continuei não me sentindo à vontade para aceitar. Muito mais do que comigo, eu achava que seria uma traição à minha avó, principalmente porque ela não tinha gostado dos muçurumins do navio. Eu admirava os muçurumins, respeitava a crença deles, achava bonita a devoção que tinham, mas nunca seria um deles e não queria enganar o Fatumbi em relação a isso. Pelo que conhecia de mim, ele devia imaginar o que eu estava pensando e disse então para eu ter fé, que com ela tudo se resolvia.
A Adeola ainda não sabia dos meus problemas e me ouviu atenta quando fui procurá-la no ponto. Ela disse que não tinha dinheiro para emprestar, mas deu uma sugestão que pensei em usar em último caso. Ela e o padre Heinz tinham como me ajudar a fugir com o Banjokô, e em poucos dias arrumariam tudo, até um lugar onde pudéssemos nos esconder por algum tempo.
Achei que era uma boa idéia e ela me pediu para esperar pela volta do padre, o que deveria ocorrer ainda naquela semana. Pedi a opinião do Fatumbi e ele foi contra, dizendo que eu não tinha a mínima idéia do que era viver fugindo, ainda mais com uma criança pequena. Eu não tinha pensado nesse lado, o da dificuldade, mas mesmo assim continuei considerando a idéia, para então perceber que era um grande egoísmo.
O Banjokô vivia muito bem na casa da sinhá, tinha boas roupas, um bom quarto, brinquedos, comida à vontade, horários certos para comer e dormir, estava aprendendo a tocar piano e a sinhá tinha grandes planos para ele, como colocá-lo para estudar assim que ficasse um pouco mais velho. Por outro lado, eu era a mãe dele, não ela.
Ela sempre seria a dona, impondo sua vontade, fazendo dele o que bem quisesse e não o que ele pudesse vir a querer de fato. Eu não me espantaria se, na corte, ela o mandasse estudar para ser padre, apoiada pelo padre Notório, achando que o Banjokô deveria ficar agradecido
por seguir tão nobre carreira. Com a influência do padre Notório, ela logo conseguiria para ele uma dispensa do defeito de cor, que não permitia que os pretos, pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião, no governo ou na política.
Mas o meu filho não era católico, apesar de ser batizado e ter um nome cristão, pois sempre estaria ligado aos orixás e ao Orum, por ser um abiku. Eu podia sentir isso nele, que sempre pedia que eu ou a Esméria contássemos histórias sobre os orixás, que ele chamava de "santinhos da África", e o seu preferido era Ogum, mesmo sem saber que era a ele que pertencia sua orí.
Ficando comigo, e apesar de todas as coisas com as quais teria que se acostumar, ele seria feliz do jeito que uma criança deveria ser, como nos passeios que fizemos à praia e à casa da sinhazinha. Quando conheceu a Carolina, ele nunca tinha tido contato com outras crianças, e estranhou ao perceber que no mundo não existiam só adultos.
A avaliação
Eu não sabia o que fazer e resolvi deixar que o destino resolvesse por mim, e parece que foi isso que aconteceu quando, no dia marcado, voltei ao solar da sinhá. Ela me entregou um papel em que estavam as nossas avaliações, dando o total de dois contos e duzentos mil réis. Um conto para o Banjokô e um conto e duzentos para mim. Olhei o papel e nem tentei fingir que não sabia ler, pois lá estava escrito com todas as letras o valor de uma escrava de dezoito anos, criada de dentro, com excelente saúde, falando português e inglês, sabendo ler, escrever e comerciar muito bem, capaz de ter ganho próprio de mais de dez mil réis por mês, e do seu filho de seis anos, criado como se fosse de casa, de excelentes maneiras e muito inteligente, bem-educado e que sabia tocar piano.
Assustei-me tanto com o fato de ela ter todas aquelas informações que só consegui dizer que estávamos avaliados muito acima do valor de mercado, ao que ela respondeu que pretos iguais a nós não existiam no mercado, e que, portanto, eu não poderia afirmar aquilo.
A avaliação tinha sido feita por um profissional, como certificava a assinatura, e ela queria receber o valor de uma vez, não poderia fazer a prazo, a custo de perder um investimento tão alto.
Somente anos mais tarde, quando eu também estava na corte, fiquei sabendo como ela tinha conseguido todas aquelas informações a meu respeito. Achei que estava vencida e que deveria me conformar, mesmo porque, enquanto esperava pela sinhá na sala, tinha pedido a todos os orixás que me indicassem o caminho, que a conversa com ela fosse esclarecedora o suficiente para que eu soubesse pelo que lutar. Saí do solar imaginando que precisava aceitar minha venda, que o Banjokô seguiria com ela para a corte e que talvez nunca mais nos víssemos. Ou, se algum dia ainda tivéssemos a oportunidade, seria bem possível que as nossas vidas fossem tão diferentes que ele não me reconhecesse mais como mãe. Meu maior medo era que, criado pela sinhá, ele começasse a sentir vergonha de mim.
Não eram raros os casos em que isso acontecia, eu mesma sabia de um, pois, antes de o Tico e o Hilário passarem a entregar as encomendas nas casas dos fregueses, certa vez o senhor Amleto pediu que eu levasse alguns cookies até a casa dele. Assim que bati no portão e falei dos cookies, a preta que me atendeu foi chamar a cozinheira, que perguntou se eu não poderia dar a receita, já que o senhor Amleto gostava demais daqueles cookies e queria que ela aprendesse a fazer.
Ela tentava e ele nunca ficava satisfeito, sempre achando um defeito ou outro, ou vários de uma vez. Pedi que me entendesse, mas eu não podia dar a receita, pois vivia daquilo. A mulher disse que eu estava certa, e que
por ser muito mão fechada é que ele queria que ela aprendesse, pois só não era sovina com a mãe. Comentei que era uma atitude louvável, mas ela disse que não, que ele realmente dava tudo que a mãe precisava para viver com conforto, mas aquela bondade toda era dor na consciência ou medo de que a mulher revelasse o segredo. Ele vivia dizendo para quem quisesse ouvir que era filho de mãe portuguesa e pai inglês, mas a mãe era uma pobre coitada, uma preta forra que ele fazia de tudo para manter escondida. Dizia-se órfão e tratava muito mal a mulher, quando, morta de saudade, ela resolvia aparecer para dar uma olhada no filho e nos netos. Para disfarçar, ele dizia que era uma velha ama-de-leite por quem tinha muita consideração, mas todos na casa sabiam a verdade. Por sorte, ele tinha nascido mulato claro e inteligente, e usava de mil artimanhas para parecer mais claro ainda.
Dormia com o cabelo untado de babosa e preso com touca, e toda manhã passava horas no toucador, disfarçando as origens africanas. Eu me lembrava daquela história e achava que o Banjokô, quando crescesse, poderia fazer o mesmo comigo, caso fosse viver com a sinhá. E quem poderia recriminá-lo por querer uma vida melhor? Não uma mãe, mesmo tendo que passar por humilhações. Preocupado, o Sebastião apareceu na loja para conversar comigo. Inconsolável, contei sobre os mais de dois contos de réis, e ele me disse para não desanimar, que haveríamos de dar um jeito. Quando soube, a Esméria brigou com a sinhá e disse que queria a carta de alforria naquele exato momento, pois já estava deixando a casa. A sinhá disse que ela podia partir quando quisesse e que depois mandasse avisar onde estava, ou fosse ela mesma buscar a carta dentro de alguns dias. A Esméria apareceu na loja com o Hilário, para logo se arrepender e implorar à sinhá que a deixasse voltar, pois não sabia o que tinha dado nela e queria ficar até a viagem para a corte.
Ela tinha se arrependido por causa do Banjokô, para poder ficar com ele pelo tempo que fosse possível e me manter informada do que acontecia no solar. Mas a sinhá disse que não queria saber de preta ingrata, que só não tirava a promessa de alforria porque não compensava pagar a passagem de uma velha até a corte, e que ela poderia ficar apenas o tempo de providenciar a carta. Como havia uma vaga no quarto da Euá depois da morte da Vicência, falei com o alufá Ali e ele concordou, depois que o Fatumbi também se responsabilizou pela Esméria, mas voltou a dizer que não queria mais que toda aquela gente continuasse indo atrás de mim.
A sinhá sabia que a Esméria estava sempre em contato comigo e mandou dizer que já tinha um comprador para mim, que o irmão do sinhô José Carlos apareceria para me buscar dentro em pouco, para trabalhar na fazenda do Recôncavo. Eu já estava me conformando em ser vendida para alguém da capital,, onde talvez pudesse continuar vendendo meus cookies e juntando dinheiro, o que não seria possível trabalhando em uma fazenda. O
Hilário tinha sido o portador deste recado, e estava com vergonha de dizer que a sinhá tinha concordado em vender as cartas dele e do Tico a prestação, por um valor que era menos da metade do que valiam, duzentos mil réis cada um. Estava claro que era uma atitude para me deixar ainda com mais raiva dela.
No sábado, fiz apenas os cookies do senhor Rui Pereira, porque já estavam pagos, e avisei aos meninos que os clientes deles infelizmente ficariam sem a remessa da semana, e à noite tive um sonho que me fez ir atrás do Francisco na oficina de carpintaria. Por sorte, ainda o peguei por lá no seu último domingo, pois, como disse, não valia a pena continuar depois de ficar sabendo da mudança; teria que começar de novo na corte. O sonho tinha sido com a minha avó, ainda dentro do navio na viagem para o Brasil, e, em delírio, ela não parava de repetir o nome do Francisco. Eu ainda não sabia o que
aquilo significava quando ficamos lado a lado, olhando o mar do mesmo ponto onde tínhamos estado na primeira vez que saímos, do alto da escarpa que descia por trás do Palácio do Governo. Eu parecia ter algo muito importante para dizer a ele, ou ele a mim, mas eu não sabia o quê, e não soube mesmo depois de irmos embora, quando resolvi acompanhá-lo de volta à oficina para encontrar o Sebastião. Ele tinha conversado com o jovem bacharel da confraria, e ficara sabendo que a sinhá podia cobrar por mim o que quisesse, desde que justificasse isso, e parecia que ela tinha conseguido.
O próprio bacharel ficou espantado quando o Sebastião contou tudo o que eu podia fazer, e naquele momento me lembrei do que a Esméria tinha falado quando soube que estava aprendendo a ler e a escrever, ainda na fazenda. Ela comentou que uma escrava não precisava daquilo, que eu sonhava muito alto, que o melhor a fazer era me contentar com a condição de bem servir aos meus donos. Imaginei que estaria em melhores condições se tivesse seguido tais conselhos, e me doía muito saber que, na hora em que ela estava livre e que poderíamos morar juntas, quem sabe até trocando com a Claudina e ficando no mesmo quarto, estava voltando para uma fazenda, talvez para um serviço qualquer no engenho, para morar na senzala e dividir uma baia com pessoas com as quais provavelmente não teria afinidade alguma.
Os caminhos
Procurei a sinhazinha querendo pedir para trabalhar com ela, ou pelo menos que ela falasse com o tio que queria me comprar, mas não a encontrei em casa. Tinha ido passar alguns dias na fazenda de uma amiga, aproveitando que o José Manoel fizera uma viagem a trabalho. Eu já estava ficando desesperada, e tentava pensar no Babalaô Gumfiditimi e no que ele disse sobre ter fé. Decidi ir até o sítio perguntar ao Ifá se teria que
fazer alguma coisa, alguma oferenda especial para que tudo terminasse bem, porque todos os caminhos pareciam
fechados.
Ia
caminhando
com
esses
pensamentos, já no largo do Terreiro, quando o Alberto saltou na minha frente. Fiquei feliz por vê-lo, para me distrair um pouco, e aceitei o convite para um novo passeio até o Campo Grande, sabendo que poderia não voltar a vê-lo se não conseguisse resolver meus problemas, não queria perder aquela oportunidade.
Quando chegamos à porta do sobrado, com um sorriso matreiro ele enfiou a mão no bolso e pegou uma chave, fazendo sinal para que eu tirasse os sapatos e entrasse em silêncio, sem fazer barulho. Subimos as escadas com vontade de rir, e só depois que eu já estava dentro do quarto, foi que ele desceu, subindo logo em seguida com duas garrafas de vinho e algumas fatias de pão. Ficamos sentados na cama, conversando, ele querendo saber se meus problemas já estavam resolvidos, se eu tinha mais cookies para vender e por que na última terça-feira tinha mandado um rapaz no meu lugar para fazer a entrega do senhor Rui Pereira.
Eu disse que eram coisas chatas sobre as quais não queria falar, e contei da primeira vez que tinha visto o mar, em Uidá, e da primeira vez que tinha visto as ilhas do Frade e de Itaparica e a cidade de São Salvador. Ele também tinha impressões parecidas da cidade, vista do navio que o levara embora de Portugal. O primeiro beijo só aconteceu depois da primeira garrafa de vinho, da qual eu não tinha bebido mais do que dois copos, pois ele era bem mais rápido, além de o vinho ser amargo, como a sinhá gostava.
Eu não tive a mínima vontade de me esquivar daquele beijo, como achava que as boas moças deveriam fazer, e logo já estávamos deitados, o corpo dele pesando de uma
maneira
muito
gostosa
sobre
o
meu.
Diferentemente do que se passou na primeira vez que
me deitei com o Francisco, não me lembro muito bem da seqüência em que as coisas aconteceram. Era diferente, de uma maneira suave e calma, como se tivéssemos todo o tempo do mundo para ficar naquele quarto, como se não houvesse mais nenhum problema a ser resolvido do lado de fora da porta, como se fosse a coisa mais normal do mundo eu estar ali, abrindo as pernas para um branco. Somente depois me lembrei dos conselhos da Adeola e da Claudina, mas tinha cumprido muito bem a primeira parte, que foi aproveitar. Ele era bastante carinhoso e me deixou à vontade, como se também estivesse gostando de ficar comigo, como se estivesse me vendo como uma mulher e não como uma preta.
Estávamos felizes, tranqüilos, com vontade de sentir e dar prazer, e era só isso que contava, era só isso que eu sentia: vontade de deitar a cabeça no peito dele para descansar.
Bebemos a segunda garrafa de vinho em meio a muitas brincadeiras, e continuamos nos divertindo e nos provocando por boas horas, e só nos lembramos de ir embora quando a claridade começou a entrar pela janela, que tínhamos deixado aberta para aproveitar a fresca da madrugada. O Alberto desceu na frente para ver se a dona Isaura já tinha se levantado, e me chamou depois de abrir a porta da rua, por onde entrava o início de um lindo dia. O céu estava mudando de azul-escuro para azul-claro, e a cidade começava a acordar quando ele me deixou na porta da loja. Não fizemos promessa de um novo encontro, mas eu tinha certeza de que aconteceria.
Subi para o quarto e dormi muito bem, sem conseguir me lembrar da última vez que isso tinha acontecido.
Quando acordei não estava com vontade de me levantar, de ir para a rua e enfrentar os problemas, pois queria prolongar aquela sensação de tranqüilidade que o Alberto tinha me deixado. Quando finalmente consegui sair da esteira, já passava do meio da tarde, mas mesmo
assim saí em direção ao Rio Vermelho, onde ficava o sítio do Babalaô Gumfiditimi. Quando comecei a sair da região habitada, percebi que, estava escuro e com o meu torto senso de direção, não conseguiria chegar até o sítio. O que eu menos queria era ficar sozinha, e a companhia dos muçurumins não seria suficiente, já que quase não trocávamos palavra. Mas não tive escolha, voltei para o quarto, armei um altar e chorei e rezei por um bom tempo, pedindo que os orixás me mostrassem uma solução ou me fizessem conformar-me com o destino.
Quando consegui dormir, sonhei novamente com a minha avó, balbuciando o nome do Francisco, o que me deixou ainda mais aflita, sem a mínima idéia do que isso queria dizer. O Babalaô Gumfiditimi também tinha dito que o Francisco teria um papel muito importante na minha vida, e uma coisa devia ter relação com a outra.
Fiquei imaginando se não seria alguma reprimenda da minha avó por eu ter me deitado por vontade própria com um branco, que ela estaria querendo me dizer que o Francisco era melhor para mim. Por outro lado, o Babalaô Ggumfiditimi tinha dito que ele não era o homem da minha vida. Eu esperava que o Ifá pudesse me dizer o significado daquele sonho, e assim que o dia clareou, ganhei a rua.
Oxum Não tinha ainda cruzado o Largo do Pelourinho quando encontrei a Claudina, que abriu um enorme sorriso ao me ver. Ultimamente, quase não nos encontrávamos, e ela não estava a par dos últimos acontecimentos quando me deu a notícia de que tinha vendido todos os bilhetes da rifa, o que tinha dado pouco mais de seis mil réis, e feito o sorteio. Fez tudo sozinha para não me incomodar, e estava indo pegar a Oxum e levar até o canto, para entregar a prenda à vencedora. Eu fiquei atônita, pois tinha me esquecido daquela rifa, tinha me esquecido de
dizer que não precisava mais, que por mais dinheiro que conseguíssemos, nunca teríamos o valor necessário. E
também não queria mais entregar a Oxum, depois da promessa que tinha feito a ela na noite anterior. Mas a Claudina não podia ler meus pensamentos e ficou decepcionada com a minha falta de reação. Sentindo-me ingrata, eu disse que voltaria com ela para me despedir da Oxum, antes que a levasse. Quando estávamos quase na porta de casa, a Claudina parou para conversar com uma conhecida e eu subi na frente, para ficar um pouco sozinha com a Oxum e explicar que não queria fazer aquilo, não queria me separar dela, mas não tinha jeito.
Foi a cobra, que nem eu nem ninguém mais viu de novo pela casa. Depois que eu já tinha dito à Oxum tudo o que queria e ia descer para entregá-la à Claudina, a cobra apareceu de repente, pulando em cima de mim. A primeira reação foi me proteger, jogando a Oxum contra ela, e quando olhei para o chão tingido de dourado, a idéia surgiu inteirinha, como um raio de sol iluminando minha cabeça. Naquele segundo fiquei sabendo exatamente o que fazer e tudo que ia acontecer depois.
Procurei a cobra e não encontrei nem rastro dela, e ela não poderia ter saído do quarto, que estava com a porta fechada.
Quando fui pegar a Oxum, olhei o chão ao meu redor e ele estava coberto com um pó dourado que tinha caído de dentro da estátua de madeira. Reparei melhor nela e percebi que sua racha tinha aumentado de tamanho e mostrava um grande talho, e era de lá que escorria o pó.
Cheguei com ela perto da janela, onde estava mais claro, e percebi que ainda havia muito mais lá dentro. Forcei um pouco a abertura e a estátua se partiu ao meio, deixando ver que guardava uma verdadeira fortuna.
Ouro em pó e pepitas, e também muitas outras pedras de cores variadas, brilhantes, pequenas, parecendo vidro transparente, tomando conta de todo o oco da estátua, que não era tão pequena.
Na hora eu soube que aquilo valia muito dinheiro e que era dele que eu deveria partir para realizar meus sonhos. O de liberdade e o sonho no qual era dito o nome do Francisco, que tinha acabado de se revelar.
Os planos
Enrolei a Oxum em um pano, onde também coloquei o pó que recolhi do chão, e escondi tudo atrás dos livros.
Peguei um pouco do dinheiro da rifa que a Claudina tinha me dado, e fui atrás dela na rua, dizendo que não queria mais dar a minha Oxum e que ela tinha que ir comigo comprar outra. A Claudina não entendeu nada, mas eu disse que era importante, que muitas coisas tinham acontecido sem que ela soubesse e eu não podia mais me desfazer da Oxum. Fomos até uma rua perto da Baixa dos Sapateiros, onde ficavam muitos artesãos, e adquirimos uma Oxum ainda maior e mais vistosa. A Claudina então seguiu para o canto e eu voltei para casa, para pensar nas próximas providências.
A primeira foi procurar o Francisco e convencê-lo a fazer o que eu precisava que fizesse. Eu o vi trabalhando no jardim do solar e marcamos um encontro perto do Forte de São Diego, quando a sinhá subisse para a sesta.
Assim que ele chegou, contei todo o plano, sem dar tempo para que dissesse alguma coisa. A princípio ele comentou que não daria certo, que era muito arriscado, mas garanti que daria certo sim, que ele não me perguntasse as razões, mas eu tinha certeza de que tudo ia sair exatamente como o planejado. Então ele se animou e começou a dar sugestões sobre certos detalhes nos quais eu ainda não tinha pensado, completando a idéia. O Francisco levou recado para que o Tico e o Hilário me encontrassem no dia seguinte naquele mesmo local, no fim da tarde. Novamente passei a noite em claro, enquanto repassava cada etapa do plano, para ver se não tinha me esquecido de nada, de nenhum detalhe que pudesse pôr tudo a perder.
Não contei tudo ao Tico e ao Hilário, apenas a parte da qual participariam, mostrando que também seriam beneficiados. Eles aceitaram na hora e ficaram de marcar um encontro meu com o Sebastião, para quem falei tudo, pedindo que não contasse nada à Esméria. A parte dele era bem simples, mas muito importante, e primeiro ele ficou encarregado de falar com a sinhá que queria receber a carta dele no mesmo dia que a Esméria, para que não tivesse problemas depois. Ele também precisava pedir à sinhá que preparasse as cartas do
Tico e do Hilário, tomando como garantia o dinheiro que tinha prometido pagar mensalmente a ele e à Esméria.
Depois de tudo combinado, fui falar com a Adeola, para saber se ela teria como armar uma fuga em cinco dias.
Apesar do pouco tempo, ela disse que sim, bastando confirmar onde e quando encontrar a pessoa que queria fugir. Fiquei aliviada quando o Tico confirmou um detalhe que seria essencial, a presença do padre Notório na cidade, e então passei na casa do Manuel Calafate e deixei recado para o Fatumbi, para ele me encontrar na loja o mais depressa possível.
O Fatumbi apareceu um pouco antes de escurecer, participou da reza no salão e subiu para falar comigo.
Para ele eu contei tudo que o Sebastião sabia e um pouco mais, pois ninguém desconfiava da existência das pedras e do ouro. Primeiro ele olhou fascinado, pois, como eu, nunca tinha visto tal riqueza. Depois ficou com os olhos marejados, sabendo o quanto aquilo significava para mim, e então tive certeza de que podia confiar no meu amigo. Pedi que providenciasse a venda de tudo aquilo, pois eu não sabia como, onde ou para quem vender, além de achar que poderia ser enganada.
O Fatumbi também não tinha a mínima idéia, mas alguns amigos talvez pudessem ajudar, um deles inclusive tinha enriquecido em Minas Gerais, negociando o ouro que
comprava escondido ou roubava das minas do ex-dono.
Eu disse que tínhamos cinco dias e que precisava de pelo menos três contos de réis, que ele prometeu conseguir, e talvez até um pouco mais. Depois de três dias, o Fatumbi me entregou três contos, novecentos mil e quarenta réis, sendo que fiquei com três contos e quinhentos mil e insisti para que ele aceitasse o resto.
Nem tão resto assim, pois era muito dinheiro. Mas o Fatumbi merecia, e só concordou quando falei que estava tudo bem se ele quisesse dividir com o padre Heinz, ou com qualquer outra pessoa que estivesse precisando.
O Francisco me avisou que a Esméria, o Sebastião, o Tico e o Hilário já estavam com as cartas em mãos, e que o Sebastião tinha sugerido a fuga para Minas Gerais. Achei interessante aquela coincidência, porque nenhum dos três sabia sobre o presente da Oxum.
Quando fui falar com a Adeola, ela já tinha conseguido uma carta de alforria falsa e precisava do nome da sinhá e, se possível, de algum papel assinado por ela, para que pudessem imitar a assinatura. Eu disse que faria melhor ainda, que emprestaria cartas verdadeiras assinadas por ela, de onde poderiam copiar tudo, os termos, a data e a assinatura.
Para a fuga, dei a ela alguns mil réis para que tudo fosse muito bem providenciado, e disse que, se precisasse de mais dinheiro, era para falar comigo. No dia seguinte, o Tico e o Hilário foram me mostrar as cartas deles e pedi que emprestassem uma delas para a Adeola. Eu só tinha esquecido que, depois de receber a carta, a Esméria sairia do solar para ir morar na loja, ficando difícil de esconder dela toda aquela agitação.
Ela se mudou para o quarto da Euá e ficava o tempo todo perguntando o que estava acontecendo, para onde eu estava indo e quando voltaria. Pedi que tivesse paciência, pois eu estava tratando de assuntos muito
importantes, que só poderia revelar depois de tudo terminado. Procurei a Adeola e soube que ela só precisava de mais um dia e então tudo estaria pronto.
Fui me encontrar com os meninos e pedi que avisassem ao Sebastião e ao Francisco que agiríamos no dia seguinte, logo após o almoço.
A ação
Durante o almoço, o Sebastião substituiu a Antônia no serviço de mesa e misturou na comida da sinhá algumas ervas que a fariam dormir por três ou quatro horas.
Assim que terminou de comer, ela disse que se sentia um pouco indisposta e foi se deitar. O Sebastião deu ordens ao Raimundo, em nome da sinhá, para percorrer algumas fontes e pegar amostras de água, porque ela desconfiava que era a água que estava causando tanta indisposição.
Depois, colocou um pano na janela do quarto do Banjokô, indicando que era a hora de eu bater palmas no portão, que ele fingiu atender. Entrou na casa dizendo à Antonia e à Maria das Graças que era um mensageiro do padre Notório avisando que ele passaria pelo solar logo mais à tardinha. Conforme tínhamos combinado, ele deu uma olhada na despensa e disse que não havia nada para servir ao padre, pois, arrumando as coisas para viajar, a sinhá não estava mais fazendo compras. Disse ainda que não estava se sentindo bem, com uma dor na perna incomodando muito, e perguntou se elas não poderiam ir ao mercado. Logo que as duas tomaram certa distância, o Tico, o Hilário e eu, que estávamos à espreita, entramos na casa. Os dois meninos logo vestiram as librés do Francisco e do Raimundo e pegaram a liteira, com a intenção de levar o padre Notório até o solar a qualquer custo, nem que precisassem dizer que a sinhá estava morrendo.
O Francisco, muito nervoso, juntou as coisas dele em
uma trouxa, que deixou encostada no muro da frente, em um lugar fácil de pegar quando saísse correndo. Um amigo da Adeola, vestindo camisa de chita colorida e calça branca, estaria esperando por ele do lado de fora.
Conferi mais uma vez os papéis que a Adeola tinha providenciado, dei ao Francisco a carta falsa, que ninguém diria não ser verdadeira, e cinqüenta mil réis, para que ele não passasse necessidade. Ao lado da trouxa dele coloquei a do Banjokô, com algumas mudas de roupa e os dois brinquedos de que ele mais gostava.
Já estava tudo preparado e ainda teríamos um bom tempo pela frente, pois os meninos precisariam de pelo menos duas horas para voltar com o padre notório. Eu e o Francisco nos escondemos no quarto do Banjokô, para que a Antônia e a Maria das Graças não nos vissem, caso voltassem antes de tudo acontecer. Ficamos olhando o Banjokô dormir e eu pensei que todas aquelas pessoas estavam se mobilizando por causa dele, e comecei a sentir um pouco de medo de não dar certo. Ou, pior ainda, de não estar fazendo o que era melhor para ele, mas o melhor para mim. Comentei isso com o Francisco e ele me puxou para junto do peito, dizendo que também estava com medo, mas que tudo ia terminar bem.
Ele então começou a fazer carinho no meu rosto e nos beijamos, sabendo que não ia ficar só naquilo. Fomos para o quarto ao lado e nos deitamos pela última vez, com pressa e com muito desejo, talvez mais para nos acalmarmos do que por vontade. Voltei para o quarto do Banjokô e ele foi para o da sinhá, depois de relembrarmos o que tinha que fazer. Primeiro, ele deveria pegar todas as roupas dela, colocar dentro da camarinha e passar a chave, que colocaria no parapeito da janela. Depois deveria verificar se o tinteiro estava no quarto e amarrar a corda na varanda, por onde desceria, mas ainda deixando-a enrolada para o lado de dentro, para ninguém notar da rua. E só então deveria se deitar ao lado dela, sem roupa e com muito cuidado, e começar
a acariciá-la e a dizer aquelas coisas que todas as mulheres gostam de ouvir. Quando ela acordasse, ainda estaria um pouco tonta, e antes que pudesse reagir, o Francisco já a teria provocado o suficiente para que quisesse se entregar a ele. E foi exatamente assim que aconteceu, imagino.
Quando a liteira carregando o padre Notório apontou no fim da rua, o Sebastião estava vigiando e foi me avisar.
Como o Francisco tinha deixado a porta aberta, entrei no quarto no exato momento em que a sinhá estava embaixo dele, visivelmente feliz. Talvez por efeito das ervas, ou porque estava gostando, ela demorou a perceber minha presença, e tive que falar alguma coisa antes que perdêssemos a chegada do padre. Quando ela perguntou o que era aquilo, eu disse que primeiro era melhor que ela olhasse pela janela, e depois conversaríamos. Ela ficou parada e tive que puxá-la da cama, de onde saiu tentando pegar o lençol para se cobrir, e viu exatamente o momento em que o padre descia da liteira, estacionada no jardim.
A sinhá era uma mulher inteligente e perguntou o que eu queria, enquanto argumentava que precisava se vestir para então podermos conversar direito. Enquanto falava, abriu as gavetas das cômodas e não encontrou nada, e também tentou forçar a porta da camarinha, sem sucesso. Mostrei a ela a chave que estava no parapeito da janela e fingi atirá-la no jardim, quando na verdade ela caiu na sacada, e perguntei se podíamos conversar ou se ela preferia que eu chamasse o padre.
A sinhá olhou para o Francisco e mandou que saísse do quarto, mas ele não obedeceu, dizendo que era melhor ela ouvir o que eu tinha a propor. Mostrei os papéis que estavam comigo, que eram a minha carta de alforria e a do Banjokô, pelas quais pagaríamos até um pouco mais do que eu achava justo, um conto de réis pelas duas.
Naquele momento, percebi que havia uma falha no
plano, pois nós não tínhamos nenhuma testemunha de que ela tinha se deitado com o Francisco de livre e espontânea vontade.
Ela poderia ter me dito para chamar o padre, confrontaríamos as versões da história, ela diria que tínhamos tramado para chantageá-la e acabaríamos presos. As cartas precisavam ser assinadas logo, antes que passasse o efeito das ervas e do susto e ela começasse a raciocinar direito. Pedi que o Francisco a segurasse e dei um tapa no rosto dela, dizendo que ia apanhar muito se não assinasse logo, e em seguida coloquei as cartas e o dinheiro em cima da secretária. O
Francisco a levou até lá e, ainda um pouco atordoada, ela assinou.
Eu não estava acreditando que tinha funcionado, e mais para comemorar do que para provocá-la, dei um beijo no Francisco e saí do quarto. O Sebastião estava me esperando ao pé da escada, para passar pela sala com o menino no colo e levá-lo até o portão sem chamar a atenção do padre. Ele deveria levar o menino até o padre e distraí-lo, fazendo com que o Banjokô tomasse a bênção, avisando que a sinhá já ia descer.
Enquanto isso eu passei despercebida! fiquei esperando no portão, com as cartas assinadas, com um conto a menos, com a minha vida e a do meu filho para cuidar, além de um medo muito grande de não conseguir. O
Francisco estava vigiando da janela, e quando me viu sair, vestiu a roupa, pegou a chave da camarinha da sinhá, que estava caída na varanda, e jogou para dentro do quarto, para que ela se vestisse e recebesse o padre, dizendo a ele o que bem entendesse. Depois, desceu pela corda e seguiu o homem que o estava esperando na rua. Àquela altura o Sebastião já estaria fugindo com o Tico e o Hilário, que tinham alugado espaço em uma loja no largo do Guadalupe. Peguei a primeira cadeirinha que vi, dizendo para o Banjokô que ele passaria uns
tempos com a iyd mi e com a Esméria, e que seria muito divertido.
Quando entrei na loja com o Banjokô no colo e a trouxa dele na cabeça, a Esméria estava parada no alto da escada, dizendo que já tinha conversado com a Claudina e trocado de quarto com ela. Não perguntou nada sobre o Banjokô, mas mostrei as duas cartas para ela, que, mesmo não sabendo ler, reconheceu que eram iguais à dela. A Esméria então comentou que estava muito feliz por mim e pelo meu filho, mas que, assim que eu pudesse, gostaria de saber o que tinha acontecido.
Prometi que contaria e fui falar com o alufá Ali e com a Khadija, que estavam no quarto de costura. Mostrei o Banjokô a eles e perguntei se podíamos ficar, pagando, é claro, e que eu inclusive fazia questão de dispensar a ajuda que tinham me dado, não cobrando o mês.
Disseram que meu filho era lindo e muito bem-vindo, e o saudaram e abençoaram à maneira deles.
À noite, quando o Banjokô adormeceu e eu estava inquieta demais, a Esméria sugeriu que eu desse uma volta, que ela cuidaria do menino, que, por enquanto, não estava dando trabalho algum. Tudo para ele era festa e novidade, e até mesmo dormir no chão, sobre a esteira, ele tinha achado divertido. Ao abrir a porta, dei de frente com o Alberto parado do outro lado da rua, encostado à parede de uma casa. Ele caminhou na minha direção e saímos andando de mãos dadas rumo ao Campo Grande.