Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 7 de 12 · parte 2/5

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Um Defeito de Cor

Capítulo cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

A dona Maria Augusta fez sinal para que eu ficasse calada e fosse para a cozinha, enquanto parecia que iam

derrubar a porta, gritando para que abríssemos logo, que era a polícia. Peguei o meu bilhete de escrava de ganho, mas eles nem prestaram atenção em mim.

Quando a porta foi aberta, três soldados invadiram a casa, tal qual o preto tinha acabado de fazer.

Não havia muito onde procurar, e depois de uma rápida olhada pelos cômodos, estavam perguntando à dona Maria Augusta onde estava o preto. Ela respondeu que não sabia de preto nenhum e que, como tinham visto, só estávamos nós duas em casa, que podiam vasculhar onde quisessem. Eles pegaram a lamparina que eu estava usando na cozinha e foram olhar cada canto do quintal. Fiquei com medo de que houvesse manchas de sangue por lá, e havia, mas com a iluminação fraca eles nem perceberam. Imaginei que o preto devia ter se machucado ao passar pela cerca de arame, o que de fato tinha acontecido. Ele estava fugindo dos soldados e, na pressa, acabou se cortando.

Dando-se por satisfeitos, mas não muito convencidos, os soldados foram embora e nem pediram o meu bilhete, talvez imaginando que eu fosse escrava da casa, por terem me encontrado na cozinha, atiçando o fogo.

Depois que eles saíram e a dona Maria Augusta espreitou para ter certeza de que não estavam do lado de fora da porta, fez um aceno para que eu a seguisse até o quarto do padre Heinz, pondo as mãos sobre os lábios, em pedido de silêncio. Não sei como ela conseguiu arrastar a pilha de revistas e papéis para colocá-la de volta sobre o esconderijo, depois que o preto entrou em um espaço no qual mal cabia agachado e encolhido.

Afastamos os papéis, e assim que puxei a tábua que o cobria, ele se levantou com os olhos esbugalhados e bastante assustado, por causa da quantidade de sangue que escorria pelo seu rosto. A dona Maria Augusta o iluminou para examiná-lo melhor e fomos para a

cozinha, onde ela pôs água para ferver. Quando limpou o rosto dele com um pano molhado, vimos que a situação não era tão grave, apenas um corte longo na testa, mas não muito profundo, que ela pressionou com um pano e depois cobriu com açúcar. As pedrinhas de açúcar foram ficando manchadas de vermelho, mas cada vez menos, até que o sangue estancou de vez.

Eu estava curiosa para saber direito o que tinha acontecido, mas como nenhum dos dois falava nada, achei melhor continuar com meu trabalho, pois não precisavam da minha ajuda. Finalmente o homem abriu a boca para um pedido de desculpas e um agradecimento, que a dona Maria Augusta nem se deu ao trabalho de responder antes de voltar para o quarto.

Mas disse que ele podia ficar mais um pouco, até ter certeza de que o corte não voltaria a sangrar, e que deveria permanecer no quarto do padre, pois logo a casa estaria cheia de gente. Mal começou a clarear, as outras mulheres foram chegando, e assim que tive chance fui até o quarto. Ninguém estranhou, já que eu entrava lá várias vezes à procura de alguma coisa para ler enquanto os cookies assavam. O preto estava sentado a um canto, de olhos fechados e com a mistura de sangue seco e açúcar ainda cobrindo o corte. Ele vestia apenas uma calça de tecido rústico, parecida com a que os escravos usavam nas fazendas ou nos trabalhos mais pesados na cidade, e a respiração já voltava ao normal.

Pelo menos estava bem mais compassada do que quando o tiramos de dentro do esconderijo.

Fiz barulho de propósito, para saber se estava dormindo, mas logo ele se mexeu e pôs a mão na frente dos olhos, para protegê-los da claridade que entrava pela porta entreaberta. Fingi procurar um livro, mas não consegui conter a curiosidade e perguntei o que tinha acontecido.

Ele disse que estava fugindo da polícia quando se lembrou da casa do padre Heinz, e por isso estava lá. É

claro que não fiquei satisfeita com aquela explicação, e

quando percebi que ia dar o assunto por encerrado, fui me sentar perto dele, para ver se o estimulava a contar mais. Ele então começou a falar que tinha fugido havia mais de três meses de um engenho nas cercanias de São Salvador, em Cruz do Cosme, e desde então vagava pela cidade.

Admirei ainda mais o padre Heinz quando o homem comentou que todos os escravos fugidos da cidade sabiam que na casa do padre podiam encontrar ajuda a qualquer hora. Primeiro, passavam pela casa dele para trocar de roupa, pois ela acabava denunciando um escravo fujão, como eu poderia ver nos anúncios de jornal que comunicavam a fuga de pretos. Além das marcas no rosto ou de algum defeito físico, os donos sempre descreviam a roupa com que o escravo tinha fugido.

Então, para ficarem um pouco mais seguros, eles trocavam de roupa entre si, escolhendo uma que fosse bem diferente da roupa com que tinham sido vistos pela última vez. Ele, que disse se chamar Jacinto, tinha fugido usando calça e blusa de listras azuis, trocadas por uma roupa igual à que os carregadores de cadeirinha usavam, na tentativa de se passar por um deles. O que funcionava muito bem durante o dia, mas que podia causar problemas à noite, como tinha acontecido com ele, que tinha saído de um batuque na Barroquinha e voltava para o porto, onde costumava dormir. Deparou com três soldados fazendo a ronda e começou a correr antes mesmo que o interpelassem, como faziam com todo preto visto na rua depois de anoitecer. Um carregador não estaria trabalhando àquela hora, o que já levantava suspeitas. Ele achou que os soldados fossem desistir logo, mas, por azar, os três tinham muito fôlego e o seguiram bem de perto. Só conseguiu despistá-los porque, em vez de tentar chegar pela porta da frente, teve a sorte de achar a picada pelo mato, que ia dar no quintal.

Aquela não tinha sido a primeira fuga do Jacinto, como pude ver pelo F que tinha gravado no rosto. Ele percebeu que eu estava olhando e disse que não aceitava ser escravo e vinha fugindo desde que tinha chegado ao Brasil, havia mais de dez anos. Às vezes fugia por poucos dias e depois voltava, aproveitando o tempo para se divertir ou para participar de rebeliões.

Orgulhava-se de ter participado de pelo menos cinco grandes, inclusive no Recôncavo. Disse que até conhecer o padre Heinz e a dona Maria Augusta, tinha vontade de matar todos os brancos que encontrava pela frente, porque era exatamente isso que eles faziam com os pretos. Quando não matavam de uma vez, matavam aos poucos, com trabalho, humilhação e castigo, além de tristeza.

O Jacinto parecia gostar da conversa, como se precisasse desabafar e pôr para fora a grande raiva que estava sentindo, e eu estava gostando de ouvir. Fui até a cozinha e tirei os cookies do forno, aproveitando para levar para ele um copo de água e o meu farnel, um arroz de hauçá que eu tinha comprado no caminho, na noite anterior. Esperei que ele comesse e o incentivei a continuar. O Jacinto então falou da última rebelião da qual tinha participado, depois de ter se juntado a uns pretos no Quilombo do Urubu. Lembrei-me de que era o quilombo onde estavam a Verenciana, o filho dela, a Liberata e pelo menos um dos pretos fugidos durante a rebelião na Fazenda Nossa Senhora das Dores, em Itaparica. Contei isso ao Jacinto e ele comentou que naquele momento eles estavam em outro lugar, porque o Quilombo do Urubu tinha sido dizimado. Disse também que não deveria me preocupar com meus conhecidos porque um esconderijo nem era tão importante assim.

Importantes eram as amizades feitas nos quilombos, onde todos formavam uma grande família que continuava se ajudando, independentemente do local.

Depois de uma rebelião esses laços ficavam ainda mais fortes, pois a luta unia os pretos e fazia com que se

importassem mais uns com os outros, pois muitas vezes a força estava na quantidade de gente reunida em busca de liberdade. Eu me surpreendi com a inteligência e o propósito das palavras dele, o que me fez entender perfeitamente porque não aceitava ser escravo.

Uma luta

Pedi ao Jacinto que me contasse exatamente o que tinha acontecido no Urubu, e muitos anos depois percebi que a grande falha estava mesmo na precipitação. A rebelião do Urubu estava marcada para o dia vinte e cinco de dezembro de um mil oitocentos e vinte e seis, no Natal, quando as pessoas estariam mais preocupadas com as celebrações, relaxando a vigilância. A maioria dos rebelados era nagô, como o Jacinto, comandados por um preto de quem ele não sabia o nome por ser mais seguro assim, e pela sua mulher, a Zeferina, que seriam declarados rei e rainha de um novo império nagô, se tudo tivesse dado certo. O Jacinto se lembrava do nome da Zeferina porque ela se tornou um exemplo para todos eles, enfrentando os soldados armados apenas usando arco e flecha, depois de ter gritado o tempo inteiro durante a luta, animando os guerreiros e não deixando que se dispersassem. O desacerto começou na noite do dia dezesseis de dezembro, por causa de uns escravos fugidos que estavam vivendo em Cajazeiras, no distrito de Pirajá. Eles foram vistos por uma família de lavradores quando levavam farinha de mandioca e carne roubadas para o esconderijo, e, com medo de serem denunciados, atacaram e mataram essa família, da qual sobreviveu apenas uma mulatinha chamada Brígida, de sete ou oito anos de idade, que ficou bastante ferida e foi levada para o hospital. Desatinados com a matança, os pretos aproveitaram para assaltar e roubar mais algumas casas na região e depois rumaram para o sítio do Urubu, na freguesia do Cabula, onde sabiam da existência de um quilombo.

O paradeiro deles foi denunciado pela população, revoltada com a morte dos camponeses e com os ataques às outras casas. Na manhã de dezessete de Dezembro, o quilombo do Urubu foi visitado por alguns capitães-do-mato

corajosos,

que

achavam

que

conseguiriam controlar a situação sem saber ao certo o tamanho do quilombo. Foram postos para correr, e três deles acabaram mortos e mutilados, entre os quais um ex-escravo cabra que teve tratamento cruel, pois foi considerado um traidor.

Os capitães que conseguiram escapar pediram ajuda a um piquete de doze soldados que encontraram pelo caminho, sendo que a esses se juntaram mais soldados da milícia de Pirajá. O Jacinto estava no quilombo quando os policiais chegaram, todos juntos e bem armados. Como os quilombolas ainda não estavam preparados como queriam, com a rebelião combinada apenas para o dia vinte e seis, tinham poucas armas para se defender: apenas alguns arcos e flechas, facas, facões, navalhas, foices e duas ou três espingardas enferrujadas.

As armas, as que usariam para invadir São Salvador, matar os brancos e escravizar os mulatos, chegariam somente na noite do dia 20, quando os escravos da cidade se reuniriam aos aquilombados do Urubu, levando tudo o que conseguissem. As armas eram roubadas dos senhores de escravos ou em assaltos a policiais, quartéis e matadouros, e também seriam os instrumentos de trabalho, principalmente os de trabalho no campo. Como estavam desprevenidos, homens, mulheres e crianças lutaram como puderam, aos gritos de "morra branco e viva preto". Nenhum dos policiais era inteiramente branco, a maioria era de pardos, mulatos e até mesmo pretos.

Os que tinham passado para o outro lado, e isso só fez aumentar a raiva dos revoltosos, querendo se vingar dos

traidores. Na fuga pelos matos, alguns ainda conseguiram resistir depois de chegarem a um terreiro de candomblé (Candomblé: palavra em iorubá que quer dizer festa, ou o local onde ela se realiza), que também se escondia nas matas do Urubu, sendo que o responsável por tal candomblé, um pardo chamado António, foi inocentemente preso e condenado a trabalhos forçados, acusado de participar da rebelião.

Entre os pegos, apenas o António e a Zeferina receberam tal condenação, enquanto os outros foram devolvidos aos donos ou soltos dias depois, ou ainda deportados para outros sítios.

Dois revoltosos morreram na prisão em virtude dos ferimentos e acabaram virando heróis, assim como o grupo que foi encontrado nos escombros do quilombo por um batalhão de duzentos soldados enviados pelo presidente da província da Bahia, depois de ouvir rumores e davam a rebelião como muito mais séria do que realmente tinha sido. Os soldados daquele batalhão, se não mentiram para encobrir o que tinham feito criaram mais cinco heróis, pois disseram que tinham encontrado os cinco cadáveres formando uma roda, como se tivessem se degolado uns aos outros.

Depois de lutar o quanto podia e perceber que seria mais útil vivo, participando de novas rebeliões, o Jacinto conseguiu fugir para a mata, mesmo ferido. Tinha um corte profundo em uma das pernas, como mostrava a cicatriz com cerca de um palmo, e estava junto com um companheiro também ferido, mal conseguiam cuidar um do outro. Embrenharam-se no mato o mais que puderam, e quando já estavam ficando sem forças, subiram em uma árvore, tomando cuidado para que o sangue dos ferimentos não pingasse lá de cima, o que poderia denunciá-los.

Ficaram escondidos entre as folhas da árvore o resto da tarde e a noite toda, quando já não havia mais perigo de

serem capturados, mas de serem atacados por animais.

No dia seguinte, como nenhum dos dois conhecia a região, ficaram vagando, e à noite já não tinham mais forças nem para subir em uma árvore novamente. E essa foi a sorte, pois foram encontrados pelo padre Heinz, que chegava de viagem e cortava caminho por aqueles matos. O padre se assustou tanto quanto os dois, não só por encontrá-los ali, como também pelo estado deles, e os cumprimentou duas vezes, a português e em iorubá, dizendo que era padre, amigo e queria ajudar. O Jacinto, que não confiava em nenhum branco, sorriu ao me contar que, no estado lastimável em que se encontrava, não quis conversa e mandou que aquele homem enorme e saudável, acompanhado de um burrico, mantivesse distância se quisesse continuar vivo.

O padre percebeu que a ameaça era infundada, que os dois não tinham condições de atacar ninguém, e resolveu ficar por ali, dizendo que não se aproximaria, mas que precisava descansar um pouco. Abriu o embornal que trazia atado ao lombo do burro e tirou de lá um saco com carne-seca e farinha, às quais não comeu nem a quarta parte, colocando tudo de volta no mesmo lugar. Amarrou o burro em uma árvore e foi procurar água, pedindo que os dois vigiassem as coisas dele. O Jacinto e o companheiro primeiro hesitaram, achando que era uma emboscada, mas, morrendo de fome, começaram a discutir se deviam ou não assaltar o branco. O padre Heinz deve ter ficado por perto vigiando porque só se aproximou algum tempo depois que a fome dos dois tinha vencido a resistência e o orgulho. Ele apenas fechou o embornal e nada comentou, deixando o cantil com água ao alcance dos pretos enquanto tirava um cochilo. O que ele queria era dar mais uma prova de confiança ao Jacinto e ao amigo, ou uma oportunidade para que seguissem sozinhos, se fosse isso mesmo o que queriam, se estivessem em condições depois de terem se alimentado e bebido água. Mas não estavam, e nem mesmo sabiam para que lado seguir, tanto que

resolveram esperar que o padre acordasse e oferecesse ajuda.

Mas o padre nada ofereceu, apenas se levantou e disse que, como já estava alimentado e descansado, precisava seguir viagem, pois tinha várias providências a tomar em São Salvador. Eles já iam deixá-lo partir quando o companheiro do Jacinto, que estava um pouco pior que ele, perguntou se São Salvador ficava muito longe. O

padre respondeu que dependia; que se fosse no lombo do burro, em menos de quatro horas estariam na cidade, mas se fosse em passo lento de quem não conseguia caminhar direito, pelo menos umas dez horas. O Jacinto e o companheiro se levantaram com algum esforço, e até chegar a São Salvador, se revezaram no lombo do burro, que teve a carga aliviada e carregada nas costas pelo padre Heinz, que também servia de apoio para o homem que ia caminhando. Entraram em São Salvador à noite, pelos fundos da casa, o mesmo caminho que o Jacinto tinha feito na noite anterior, quando me surpreendeu na cozinha, e foram entregues aos cuidados da dona Maria Augusta.

Quando estava curado, o Jacinto voltou para seu dono, pois tinha caráter apesar de tudo, e sua liberdade seria conseguida com dinheiro para comprar a carta ou quando todos os pretos fossem livres. O padre Heinz e a dona Maria Augusta eram os únicos brancos que ele respeitava, porque também eram os únicos que o tinham tratado com respeito. O Jacinto sabia de muitas coisas que eu também queria saber, e parecia gostar de falar sobre as lutas, mas eu não podia ficar ouvindo, tinha que providenciar os cookies. Passei o resto do dia na cozinha, dando uma fugida de vez em quando, mas ele estava sempre dormindo, inclusive quando fui embora, no fim da tarde. Nunca mais o vi, mas me lembro do seu nome porque anos mais tarde, em São Paulo, conheci uma pessoa que também se chamava Jacinto.

Mais histórias

A semana passou sem grandes novidades, a não ser pela recusa do Fatumbi em me contar onde estava morando e quem era seu novo dono, depois que a sinhá vendeu os negócios do sinhô José Carlos. Eu já tinha perguntado duas vezes e ele não se dignava a responder, mudando de assunto como se não tivesse ouvido. Na sexta-feira, dia de ritual, ele chegou mais cedo à loja, subiu para conversar comigo e gostou de ver que eu tinha comprado livros novos. Como eu não estava esperando por ele, não tinha guardado os meus orixás. Não que os escondesse, pois a minha companheira de quarto, a Claudina, também era devota dos orixás, que os muçurumins pareciam tolerar, assim como faziam com os santos católicos da Vicência.

O Fatumbi conhecia os orixás, e contou que pelo menos durante um mês por ano, em alguns casos até mais, os muçurumins faziam jejum desde a hora em que o sol surgia até a hora em que desaparecia, evitando até engolir saliva. Daquilo eu já sabia, o que não sabia era que essa tradição, o Ramadã, estava explicada em um dos versos do oráculo de Ifá. Não o jogo que o Babalaô Gumfiditimi tinha feito para mim; esse a que o Fatumbi se referia era um outro, mais simples, com dez búzios, e que podia ser jogado por babalaôs e por ialorixás (Ialorixás: sacerdotisas" do candomblé) O décimo verso do Oráculo de Ifá conta que Nana, a velha mãe d'água e mãe de todos, inclusive dos muçurumins, estava muito doente. Os búzios foram jogados e indicaram que seus filhos deveriam fazer sacrifícios aos orixás. Mas, em vez de dar comida a eles, resolveram dar comida a Nana, e todos os dias a alimentavam com mingau e milho. Nana não melhorava, e quando estava para morrer, chamou os filhos e ordenou que, daquele momento em diante, quando cada ano se completasse, eles deveriam passar fome por

trinta dias, não podendo comer ou beber nada durante o tempo em que o sol permanecesse no céu. Aquela era a origem do jejum dos muçurumins, tomada dos iorubás. O

Fatumbi disse também que os filhos de orixás consideravam todos os muçurumins filhos de Oxalá, que tem o branco como a cor símbolo e a água como elemento, duas coisas muito importantes nos cultos dos muçurumins. Ele perguntou se eu já tinha ouvido falar em odus e eu disse que sim, mas o que eu não sabia era que um deles orientava a conversão à religião dos muçurumins.

O Fatumbi disse que a religião de Alá tinha sofrido algumas mudanças quando chegou à África, levada pelos mercadores árabes que lá estiveram muito antes dos portugueses. E outras mudanças também ocorreram no Brasil, porque era necessário fazer o possível para que a crença continuasse existindo. Como os escravos eram muito vigiados, nem sempre conseguiam fazer as cinco orações diárias como o profeta tinha ensinado, e cada um fazia do jeito que dava, o mais próximo possível do ideal.

Eu sabia que o mesmo tinha acontecido com a religião dos orixás, pois em África, cada orixá é cultuado em uma determinada região, da qual é o protetor. No Brasil, por causa da falta de liberdade e de espaço para que cada orixá tivesse seu culto separado, foram todos misturados no candomblé. O Fatumbi já sabia disso, pois tinha se tornado muçurumim havia pouco mais de vinte anos e conhecia muitas coisas comuns às duas religiões. Eu quis saber quais, e ele me falou que os anjonus (Anjonus: espíritos tribais cultuados nas religiões africanas), eram bem parecidos com os djins (Djins: gênios), e perguntou se eu já tinha um tira (tira: amuleto muçulmano que fazia bastante sucesso também entre os não-convertidos, semelhante aos escapulários católicos e aos patuás do candomblé que, na Bahia, são considerados detentores de grande poder protetor) eu respondi que não, mas que

já tinha visto vários pretos usando, mesmo os que não eram muçurumins, e ele então ficou de me dar um.

O desejo

No domingo, antes de ir para a carpintaria, onde prestava serviços para a cooperativa, o Francisco passou na loja para me ver. O alufá Ali, que abriu a porta, não gostou que alguém fosse me procurar lá, mesmo eu dizendo que o Francisco era de confiança e que não apareceria mais. Marcamos um encontro para o fim da tarde, quando ele confessou sua impaciência para esperar a hora de se ver liberto e estar comigo quando quisesse. Eu disse que para mim também era difícil, mas que ainda éramos novos e teríamos um longo tempo pela frente, juntos. Não sei por que falei aquilo, pois já tinha certeza de que não era o que eu queria. Na época eu não sabia direito o que estava acontecendo, mas acredito que a convivência com homens como o padre Heinz e o Fatumbi, mesmo que eu não tivesse nenhum interesse neles, fez com que eu perdesse a vontade de estar com o Francisco. Ele era um homem bonito, carinhoso e atencioso, e parecia gostar mais de mim à medida que eu começava a evitá-lo. Fomos para a Baixa dos Sapateiros e nos sentamos quase no meio da rua, onde ele contou sobre as abordagens da sinhá, provocando em mim muito menos ciúme do que seria esperado.

O Francisco disse que não estava agüentando, ela tinha ficado ainda mais ousada depois que ele tinha pedido para se tornar um preto de ganho, como eu. A sinhá sorriu muito antes de responder, gargalhou, e perguntou se o que ele queria era se afastar dela por não estar mais conseguindo manter o respeito. Ela o acusou de estar com medo de não mais resistir, e por isso pedia para se afastar, mas que o pedido nem seria considerado, porque precisava dele dentro de casa.

Todos já tinham percebido o interesse e zombavam do Francisco, dizendo que ela também queria um crioulinho

como o Banjokô.

Achavam que ela precisava arrumar novo marido, o que, afinal, não devia ser difícil para uma viúva nova, bonita e rica. A Esméria tinha insinuado o assunto perto dela, que desconversou, mas começou a receber algumas pessoas nas noites de quinta-feira para conversar e jogar cartas. O padre Notório era dos mais entusiasmados, não faltava uma única noite e sempre aparecia acompanhado do seminarista Gabriel, que já era um rapagão. O Francisco não gostava dele, à maneira dos homens que desprezam pessoas como o padre Notório e seu protegido, ainda mais com as brincadeiras que o Tico e o Hilário faziam, relembrando a cena que tinham visto no riacho, em Itaparica.

Depois que voltei a pedir ao Francisco que tivesse calma, que ainda daríamos um jeito na nossa situação, ele me deixou na loja, onde peguei minhas coisas e segui imediatamente para a casa do padre Heinz, agradecida por não ter mais que carregar os ingredientes. Como estava me tornando freguesa constante, comprando cada vez em maior quantidade, a mercearia entregava na casa do padre e eu passava lá apenas para fazer os acertos. O padre Heinz tinha chegado de mais uma de suas viagens, e ele e a Adeola ficaram comigo na cozinha por um bom tempo, pondo a conversa em dia.

Perguntei pelo Jacinto mas ele não tinha notícias, pois era bastante recomendável que pretos como ele não deixassem rastros quanto ao paradeiro, para ficarem mais protegidos. A dona Maria Augusta contou como eu me assustei, e ele disse que era melhor me acostumar e até aprender a tomar providências sozinha, já que trabalhava durante toda a noite de domingo para segunda. Aos domingos o número de fugas era maior, pois os pretos aproveitavam que era dia de guarda e que os senhores estavam menos atentos. Ele disse que fazia questão de ajudar os pretos, pois embora não

concordasse com a fuga, achava que eles tinham todo o direito de lutar pelo que nunca deveria ser negado a um ser humano, a liberdade. Como a casa do padre era bastante conhecida por dar refúgio a todos os fujões em apuros, esse era um dos motivos pelos quais não dava abrigo a nenhuma das pretas que cozinhavam lá durante o dia. Os fujões quase sempre apareciam durante a noite, e, nestes casos, quanto menos gente soubesse da história, melhor.

As crenças

Aproveitando que o padre Heinz tinha saído para atender ao chamado de uma senhora doente, perguntei à Adeola como eles tinham se conhecido, e ela comentou que era uma história interessante. De maneira indireta, tinham sido apresentados pela quarta esposa do Babalaô Gumfiditimi, a Trindade. Antes do casamento com o babalaô, a Trindade vivia amasiada com o padre Heinz, mas não se conformava com a recusa dele em dar um filho a ela, coisa com a qual a Adeola não se importava.

Mas o fato é que o padre devia ter os seus motivos, dizia que se a Trindade ficasse pejada, não rejeitaria a criança, que não tinha culpa alguma, mas seria contra a vontade dele.

A Trindade nasceu em África e estava acostumada com homens que tinham várias esposas, e isso não foi motivo para se afastar do Babalaô Gumfiditimi quando o conheceu em uma festa do Bonfim. Ele fez a corte e ela passou a freqüentar o sítio com a desculpa de consultar o Ifá, que tinha inclusive falado que seria feliz ao lado dele, mais feliz do que se continuasse com o padre Heinz. Foi ela mesma quem contou tudo isso ao padre, que entendeu e respeitou sua decisão de ser a quarta esposa do babalaô. Tanto entendeu que foi entregá-la pessoalmente, para saber onde ela ia morar e para ajudar a levar as poucas coisas que ela possuía.

Coincidentemente, naquele dia, um domingo, a Adeola

tinha ido até lá para se consultar, o que estava acostumada a fazer desde o tempo em que sua mãe era viva. Ela e o padre Heinz conversaram bastante enquanto o babalaô dava uma consulta. Ela esperando a vez de ser atendida e ele esperando para dizer ao babalaô que gostava muito da Trindade e queria que ela fosse bem tratada. Todos estavam tensos, achando que poderia surgir algum desentendimento entre os homens, menos a Trindade, que tentava acalmá-los dizendo que conhecia muito bem os homens que tinha escolhido. E, de fato, eles se deram muito bem. Não que tivessem ficado amigos, mas o Babalaô Ggumfiditimi já tinha visitado o padre Heinz várias vezes, e o padre, junto com a Adeola, tinha ido ao casamento e às cerimônias de nome dos filhos da Trindade.

Essa história contada pela Adeola mostra bem a mistura das religiões, que valia mais entre os pretos, da África ou da terra, já que os brancos agiam como donos de tudo, inclusive da única crença verdadeira. Batizar os pretos com nomes de brancos e obrigá-los a renegar a fé que tinham em África antes mesmo de pisarem na nova terra era um modo de mostrar isso. Os estrangeiros, exceto os portugueses, nem se importavam muito, e os ingleses, principalmente, eram bastante tolerantes, deixando que seus pretos seguissem a fé que quisessem, desde que o trabalho fosse bem-feito.

Dentro das casas, e de portas fechadas, também era grande o número de sinhás que apelavam para as mandingas às pretas, prometendo cortar as línguas delas se comentassem com alguém.. era assunto que corria entre elas, como a Antônia já tinha ouvido das outras mucamas quando acompanhava a sinhá Ana Felipa aos chás com as amigas. As pretas riam ao contar tais histórias, pois na maioria das vezes enganavam a sinhás, fazendo a mandinga errada ou então dizendo que precisavam

de

muito

dinheiro

para

comprar

determinados produtos de África, bastante caros em São

Salvador. As sinhás, sem terem a mínima noção do que elas falavam e também por acharem que não era tanto dinheiro assim, do ponto de vista delas, davam o que as pretas pediam, sem saber que patrocinavam muita comida e bebida nos batuques pela cidade afora.

A Antônia tinha inclusive ouvido histórias de algumas pretas que enriqueceram, compraram a carta de alforria e viviam folgadas com o dinheiro que obrigavam suas ex-sinhás a pagar a elas, chantagem ou ameaça de o feitiço se inverter, caso não fosse renovado. Os casos até que eram bastante simples; ou as sinhás queriam ficar pejadas ou fazer com que os maridos parassem de dormir com outras, principalmente com as escravas, ou que abandonassem o vício da bebida e do jogo, ou então que elas próprias não fossem descobertas em suas escapadas conjugais. Havia também casos em que pediam cura de doenças já tratadas sem sucesso pelos doutores! ou mesmo meios de conseguirem mais dinheiro para comprar os vestidos e as jóias de que tanto gostavam.

A ajuda

As semanas passavam sem que eu percebesse, e em um domingo em que fui levar o dinheiro da sinhá Ana Felipa, a Esméria contou que a sinhazinha Maria Clara já tinha voltado da Europa, que estava linda e provavelmente tinha ficado pejada durante a viagem. Ela também tinha perguntado por mim e pedido à Esméria que me desse a morada para que eu fosse visitá-la. A cada encontro nosso, o Banjokô parecia mais distante, e daquela vez nem havia o Francisco para nos reaproximar, pois ele tinha saído para a cooperativa ainda na noite anterior.

Mas até fiquei aliviada por ele não estar lá, porque assim que falei da necessidade de ir embora cedo para começar a fazer os cookies da semana, a sinhá comentou que provavelmente eu estava indo procurar alguém com quem me deitar pela rua, já que não tinha encontrado na

casa dela. Ela estava muito envelhecida e amarga, e desejei de verdade que encontrasse alguém, ou que pelo menos conseguisse se deitar com o Francisco. Mesmo que brigássemos muito, mesmo que muitas vezes eu tivesse vontade de esganá-la, queria que ela fosse feliz do mesmo modo que fazia o Banjokô feliz, ou o José, por mais que isso fosse difícil de admitir.

Eu estava ganhando um bom dinheiro com os cookies e o ricepudding, e já não me interessava muito fazer as entregas nas casas, o que tomava muito tempo e não dava tanto lucro, então contratei o Tico e o Hilário. Eles, que já adoravam andar pela cidade, ficaram felizes com um motivo para isso, ainda mais porque viram nas entregas uma oportunidade de travar conhecimento com os escravos dos estrangeiros.

Eram escravos mais reservados, como eu já disse, talvez por falarem outra língua e se julgarem superiores aos escravos dos brasileiros, assim como seus donos também se julgavam melhores que os brancos da terra.

O Tico e o Hilário gostaram tanto da nova função, e a teriam feito mesmo se fosse de graça, acho, que passaram a visitar mais casas e conseguiram novos fregueses. A Esméria, que andava preocupada com o futuro deles, ficou radiante, porque temia que a sinhá se cansasse de sustentar os dois vagabundos e os vendesse, ou simplesmente os mandasse embora do solar. Aliás, eu também não entendia como ela ainda não tinha feito isso. Meu trabalho aumentou bastante, pois além de continuar responsável pela entrega na mercearia às terças-feiras, para dar conta das novas encomendas, eu cozinhava aos domingos, às segundas e quintas-feiras.

Quase todo o meu tempo livre também era passado na casa do padre Heinz, na biblioteca ou conversando com ele, e acabamos conseguindo realizar um antigo projeto de quando sua igreja ainda não tinha sido vetada. O

padre Heinz gostaria de montar uma escola para crianças, uma escola que as ensinasse não apenas a ler e a escrever, mas também a brincar e a acreditar na esperança de ser alguém, apesar das condições em que viviam. Ele nem queria falar em fim da escravatura, mas em meios de suportá-la melhor, pois o preto com um pouco de conhecimento era mais valorizado e tinha maiores chances de comprar a alforria. O padre Heinz disse que eu era exemplo disso e que minha participação como professora seria muito importante.

Acredito que ele tenha falado professora para me agradar, mas sabia muito bem em que eu seria mais útil em

um

problema

que

nunca

imaginei

que

enfrentaríamos, o de convencer as mães de que a escola era boa para seus filhos. A maioria delas nem queria saber de conversa, alegando que letras não enchiam barriga de ninguém, que era muito melhor que seus filhos permanecessem como estavam, nas ruas, fazendo pequenos trabalhos e tomando um rumo na vida, apesar da pouca idade. Era aí que eu entrava, porque, apesar de o meu sucesso com as vendas dos cookies não estar relacionado a saber ler e escrever, ou não muito, eu inventava uma história qualquer que ligasse uma coisa à outra, e assim conseguíamos vencer as resistências.

A segunda dificuldade foi com as próprias crianças, que, sem terem quem olhasse por elas, viviam com grande liberdade, mesmo as escravas. Quando pegas pelos soldados,

eram

devolvidas

aos

donos

com

a

recomendação de que fossem castigadas e mais vigiadas. Mas ninguém tinha tempo para fazer isso, sendo que logo em seguida elas já estavam nas ruas novamente, roubando ou fazendo um trabalho e outro para conseguir comida. Aliás, comida era a única coisa que importava, e foi por aí que começamos, dizendo a elas que então fossem apenas conhecer a escola e fazer uma refeição. Tentávamos prendê-las com brincadeiras interessantes, que dessem a idéia do que aprenderiam,

mas a maior parte ia embora assim que devorava a cuia de mingau servida pela dona Maria Augusta.

A grande freqüência era de crianças pretas, mas apareceram também algumas mulatas e brancas pobres, aquelas cujas mães não proibiam a mistura com os pretos, apesar de viverem em situações tão ou mais miseráveis que a nossa. Havia muitos mendigos pelas ruas da cidade de São Salvador, muitos brancos que não conseguiam colocação que achassem digna deles, o que significava um emprego público, e preferiam mendigar a fazer o trabalho braçal destinado aos pretos.

Como nem eu nem o padre Heinz tínhamos experiência em ensinar, falei com o Fatumbi, e ele aceitou ajudar por algum tempo, indo até a casa do padre duas tardes por semana. Assim que foram apresentados, os dois homens passaram a agir como se fossem amigos desde sempre, conversando horas seguidas. O Fatumbi me pediu que guardasse segredo, que não contasse a ninguém da loja e nem ao bilal Sali ou ao Ajahi, mas logo ele mesmo se traiu de propósito ao pedir a ajuda de todos, qualquer contribuição, para que conseguíssemos continuar servindo comida para o número cada vez maior de crianças que começaram a aparecer.

Além de dinheiro, os muçurumins também doaram muitas lousas velhas, que já não serviam mais para o estudo do Alcorão ou para as mandingas, mas que ainda estavam em excelente estado para serem usadas nas aulas. O Fatumbi fez todos os planos de aula e ainda conseguiu improvisar cadernos com folhas de papel coladas umas nas outras, que as crianças adoraram. Era papel barato, do mesmo que as pretas usavam para embrulhar quitutes, que ele colava cuidadosamente, usando goma feita de farinha de mandioca. Eu o ajudava durante as aulas, prestando atenção para aprender como ele fazia, e logo assumi uma turma. Mas as melhores aulas só eu tinha o privilégio de freqüentar,

que eram as conversas entre o padre e o Fatumbi, nas quais se falava de tudo, de livros a religião.

Eles respeitavam todas as devoções e concordavam quando o assunto era a conversão forçada, que aquilo que se fazia com os pretos não era certo. O padre Heinz dizia que, com a desculpa de salvar almas pagãs, facilitou-se o trabalho do diabo, entregando a ele cristãos de pouca fé, presos à nova crença apenas pelo medo, por obrigação, mas que tinham no fundo da alma as crenças nascidas em África, que não podiam ser arrancadas. O Fatumbi dizia que na religião dele também acontecia isso, que mesmo em África, muitos se convertiam apenas de mentira, para provarem das palavras com que Alá pregava a igualdade entre os homens.

E para agravar a situação, ainda havia as guerras entre as tribos e os povos, e muitas vezes um rei se convertia apenas para ter proteção política, ou então para conquistar outros reinos, justificando uma guerra em nome de Alá e obrigando todo o seu povo a segui-lo. Eu sabia que existiam escravos em África e o Fatumbi disse que eram em quantidade muito maior do que eu poderia imaginar, porque em alguns lugares eles eram tão bem tratados que nem pareciam escravos, mas eram.

Entre os mandingas, os escravos tinham direito a comida, roupas, casamento e meação de terra com seus donos, e no reino do Congo os escravos eram considerados parte da família, como se fossem filhos de ventre, podendo ter seus próprios escravos e até substituir os pais adotivos, se estes viessem a faltar.

Quando disse ao Fatumbi que em São Salvador eu também já tinha ouvido falar de escravos que tinham escravos, ele mudou de assunto e eu fiquei bastante desapontada, pois queria saber sua opinião sobre isso.

A sinhazinha

Com o trabalho e a escola, nem percebi que já havia passado muito tempo, desde que a Esméria tinha me dado a morada da sinhazinha, sem que eu tivesse ido visitá-la. Depois que o Tico e o Hilário disseram que ela tinha visitado novamente a sinhá Ana Felipa e se queixado do meu sumiço, arrumei um tempo e fui. Eu não sabia como ela ia me tratar, por causa do tempo sem nos vermos! e porque muitas coisas tinham acontecido em nossas vidas. Escolhi a melhor roupa, um vestido que mais parecia de sinhá, e chamei no portão da casa dela, no Barris.

Chamei várias vezes, e como ninguém atendia, já estava indo embora quando ela me gritou através de uma janelinha de vidro que se abriu na porta principal.

Estranhei ouvir meu nome de branca, Luísa, pois desde que tinha saído da casa da sinhá ninguém mais me chamava assim. Eu fazia questão do Kehinde, que, na verdade, era meu único nome, já que não tinha sido batizada. Estranhei também quando ela mesma foi abrir o portão, às pressas, decerto para que ninguém a visse, e me conduziu direto ao quarto do casal.

Aparentemente, a sinhazinha não tinha mudado muito, e só quando estávamos a portas fechadas foi que mostrou que também não tinha mudado a amizade que um dia disse sentir por mim, comentando que eu estava muito bonita e que se sentia feliz por me ver novamente, o que demonstrou com um abraço. Fiquei sem jeito de retribuir, o que fez com que ela rapidamente me indicasse uma cadeira e se sentasse em outra, em um quarto muito parecido com o da sinhá. Ela percebeu que eu tinha reparado e sorriu, comentando que a sinhá Ana Felipa tinha cuidado de toda a decoração da casa, para que ela e o marido pudessem ocupá-la assim que desembarcassem. Não existiam hospedarias decentes na cidade e a sinhazinha disse que não se sentiria à vontade no solar da sinhá, já que não havia nenhum vínculo afetivo entre as duas, e até já tinham dividido a herança

do falecido.

Ao falar no pai, ela se lembrou do Banjokô e perguntou por ele. Respondi que estava bem, mas sem saber ao certo, porque já havia quase um mês que eu não ia até o solar. O Tico e o Hilário sempre me davam notícias dele, geralmente recados da Esméria ou da Antônia, mantendo-me razoavelmente informada das novidades, como ele estar aprendendo a tocar piano. A sinhazinha firmou a suspeita da Esméria de que estava mesmo pejada, de três meses, o que ainda não se fazia notar, mas que já servia para deixá-la muito feliz, ela e o doutor José Manoel.

Ela disse que sentia muito sono e que estava cochilando quando cheguei, por isso tinha demorado para abrir a porta. Foi então que reparei na cama malfeita e perguntei pelos criados, pois não tinha visto nenhum no andar de baixo da casa. Ela comentou que tinha teimado com o doutor José Manoel para manterem os criados que tinham em Portugal, por já estarem acostumados a fazer o serviço como ela gostava, mas que isso tinha sido um grande erro. Em Portugal eram ótimos, ela quase não precisava chamar a atenção ou pedir que alguma coisa fosse feita, mas tudo mudou pouco tempo depois de terem chegado ao Brasil. Eram criados e não escravos, e a sinhazinha não tinha como impedi-los de sair às ruas, que eram interessantes demais, como o copeiro logo notara.

Ele começou a passar noites fora de casa e a voltar de manhã, geralmente bêbado e imprestável para o trabalho, dormindo o dia inteiro. A mucama contou que ele estava enrabichado por uma crioula e passava noites com ela, com quem gastava boa parte das economias, cobrindo a moça de presentes. O outro criado também começou a acompanhá-lo e foi mais ousado ainda, porque às vezes passava dias sem aparecer na casa. Não tardou que as duas criadas também mudassem

completamente em relação ao trabalho, primeiro porque estavam revoltadas por terem que substituir os dois fanfarrões, e depois porque começaram a se inteirar dos costumes da terra e souberam que provavelmente eram as únicas criadas brancas da região. Haviam outras, mas nenhuma fazia o trabalho pesado como elas, mas apenas o de servir de damas de companhia das sinhás ou de tutoras das crianças. A sinhá tentou conversar com elas, que alegaram não terem cruzado o mar para passarem por pretas, e ficaram sinhás das suas vidas, fazendo apenas os serviços que lhes apeteciam. Tinham medo do doutor José Manoel, e quando ele estava em casa, faziam o ambiente parecer o mais normal possível. A sinhazinha contava essa história, preocupada com a atitude a tomar, que provavelmente seria embarcá-los de volta, mas achando tudo muito divertido, imitando o jeito de falar dos portugueses. Ela me perguntou se eu sabia de alguém que poderia substituí-los, porque a barriga estava crescendo e logo precisaria de criados em que pudesse confiar, e fiquei muito feliz ao saber que não queria escravos, mas sim criados, a ganho, não importando se pretos ou crioulos.

Passamos uma tarde agradável, sendo que depois fomos tomar chá na cozinha, onde uma das criadas se negou a me servir. A sinhazinha então pegou o bule e serviu ela mesma, como faria com uma amiga importante, para que eu não ficasse encabulada. Mas na hora em que eu estava me preparando para ir embora, chamou a mulher e ordenou que acompanhasse a senhora dona Luíza até o portão, não sem antes ter passado a mão na maior faca que tinha na cozinha e brincar com ela no ar, na direção da portuguesa. A mulher saiu correndo e gritando "ais jisuses" e obedeceu sem que precisasse ser mandada duas vezes.

Enquanto isso, da cozinha, minha amiga acompanhava a cena sem conseguir conter o riso. Aquela foi a primeira vez que um branco abriu uma porta para eu passar, e

confesso que uma alegria muito boa me acompanhou até a loja, onde, na calçada, o Francisco estava à minha espera. Não devo ter feito uma expressão muito simpática, pois ele logo se desculpou, dizendo que precisava falar sobre algo muito importante. Já estava escurecendo e não era recomendável, principalmente para ele, que não tinha bilhete, ficarmos no meio da rua, então pedi permissão ao alufá Ali para conversarmos no quintal. O Francisco tinha notícias do Banjokô e e um recado do Sebastião sobre uma cooperativa na Barroquinha, aconselhando que eu fosse me inscrever logo. Peguei a morada e o nome da pessoa que eu deveria procurar e agradeci ele ter se arriscado, saindo às escondidas para falar comigo. Ele disse que não era nada, pois estava com saudades, e me convidou para passarmos juntos o próximo dia santo, quando não precisaria trabalhar.

As irmandades Na manhã seguinte ao encontro com o Francisco, acordei bem cedo e fui para a Barroquinha falar com uma mulher chamada Esmeralda, que gostou de saber que eu também era jeje como ela e muitas outras mulheres que já faziam parte da confraria.

Ela dizia confraria, mas também podia ser chamada de junta, cooperativa, irmandade ou sociedade. Qualquer pessoa podia se inscrever, mas estava dando preferência às mulheres, já que as outras confrarias eram formadas por muitos homens, e as mulheres tinham algumas idéias diferentes, preocupações bastante próprias, como o cuidado com o futuro dos filhos. A Esmeralda já era forra, tinha conseguido a liberdade depois de comprar, ela mesma, uma pretinha recém-chegada de África e treiná-la para deixar em seu lugar na casa da antiga dona, uma freira do Convento do Desterro. A pretinha de nome Anunciação, já estava fazendo parte da confraria com jóia de entrada paga pela Esmeralda e

contribuições mensais feitas com o que ela própria conseguia, depois de ter sido colocada a ganho. Eu me surpreendia com arranjos que se podia fazer para conseguir a liberdade, e nem imaginava que naquela época ainda não sabia de quase nada, ainda não tinha tomado conhecimento de um mundo às escondidas vivido pelos pretos e crioulos, forros ou não.

O que eu tinha que fazer, era pagar cinco mil réis para mim e cinco mil para o Banjokô e continuar com o pagamento mensal de pelo menos quinhentos réis, mais o que eu pudesse conseguir. Quanto mais pagasse, mais pressa poderia acumular a quantia de que precisava para comprar as cartas. Se eu não tivesse o dinheiro para as nossas jóias, a Esmeralda disse que poderia indicar pretos que emprestavam a juros, mas, felizmente, não era necessário. Eu já tinha guardado mais de quinze mil réis, e mesmo tendo que ceder parte do dinheiro para a confraria, a título de colaboração e custos administrativos, ficava mais tranqüila por não ter que guardar dinheiro em casa.

Continuar: parte 3 de 5