Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 7 de 12 · parte 4/5

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Um Defeito de Cor

Capítulo cinco

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

O quarto estava vazio, e foi então que prestei atenção à algazarra vinda do fundo do quintal. Lá estavam todos eles, o Banjokô, a Esméria, a Maria das Graças, o Francisco, o Raimundo, e, para minha surpresa, o Tico e o Hilário, todos sentados ao redor de um fogareiro de onde saía um cheiro muito bom de comida. A Esméria estava cozinhando, e do jeito que preferia, no quintal.

Ela só cozinhava dentro de casa porque a sinhá exigia, dizendo que era coisa de selvagens fazer comida ao ar livre.. O Banjokô se divertia com o Francisco, que o atirava para o alto e o pegava antes da queda, com o menino rindo a se fartar. Também sorri aliviada e me

aproximei da roda, perguntando se podia saber o motivo de tanta alegria, mas eles disseram ser surpresa para depois do jantar. Fingi estar brava com o Tico e o Hilário, contando como a Esméria tinha ficado preocupada, e todos nós também, querendo saber onde eles estavam. Eles disseram que isso fazia parte da surpresa, embora todos os outros já soubessem.

Foi um jantar alegre, e naqueles breves momentos eu me esqueci das preocupações, comendo milho assado, arroz com carne-seca frita, banana frita, farinha de mandioca e inhame cozido. Depois de comer, o Banjokô adormeceu no meu colo, e o Francisco sugeriu que o colocasse na cama para ficarmos à vontade,! abraçados mais juntinhos. Deixei o Banjokô dormindo no quarto e desci, curiosa para saber da tal surpresa, mas os meninos disseram que iam se divertir mais um pouco, improvisando um batuque com um pedaço de tronco de árvore, cantando e fazendo com que todos dançássemos, inclusive a Esméria, que estava muito feliz depois de beber dois copos do vinho que pegamos da sinhá. Eu nunca tinha visto a Esméria beber, a não ser um dia ainda na fazenda, quando ela provou uma bebida de uma garrafa que o sinhô José Carlos tinha deixado pela metade.

Comentei sobre esse dia e ela riu ao se lembrar da coceira na língua quando pôs o líquido na boca. A Maria das Graças alertou que estávamos falando e rindo muito alto, que os vizinhos poderiam reclamar ou chamar a polícia. Mas já era tarde, e, com aquele barulho, o Banjokô já tinha acordado e descido sozinho para a sala,! e se não fosse eu me lembrar de buscar os guizos, que eu tinha deixado lá, [ para que a Esméria me ajudasse a fazer um fio, ele teria conseguido cumprir o trato.

O trato

Já havia algum tempo que os meninos estavam planejando uma viagem até o Recôncavo, e a ausência da sinhá foi uma oportunidade a ser aproveitada. Assim que receberam o dinheiro e pegaram mais cookies comigo, foram direto para o cais, onde já tinham tratado vaga em um saveiro que fazia comércio entre a capital e aquela região. Além de conhecer o Recôncavo, de que muito se falava na capital, eles tinham a idéia de levar meus cookies para serem vendidos lá, pois estavam gostando de ganhar dinheiro e perceberam que eu ganhava ainda mais vendendo para um mercado, e como em São Salvador o senhor Rui Pereira exigia exclusividade, foram procurar em outros locais.

De fato conseguiram fregueses em Candeias e Cachoeira, a começar a entrega na semana seguinte,!

viagem que sempre alternariam entre os dois. A venda dos cookies por lá inteirou as passagens de volta e ainda sobrou dinheiro, que eles resolveram gastar por conta e compraram presentes para todos nós, tendo certeza de que conseguiriam restituir a parte que me cabia.

Os outros já sabiam sobre a viagem e a boa surpresa que eles tinham para me contar, as grandes encomendas semanais, mas ninguém ainda sabia dos presentes, até o Banjokô encontrá-los. O que era para ser motivo de alegria perdeu a graça e quase se transformou em tragédia, porque eles tinham deixado o saco com os presentes escondido na sala, atrás do sofá. Lugar que, por coincidência, era o preferido pelo Banjokô para se esconder quando estava brincando, ou mesmo fora das brincadeiras.

Ele já tinha desaparecido uma vez, deixando todos em polvorosa procurando por toda a casa e até na mata além do quintal, para depois ser encontrado dormindo atrás do tal sofá. Era lá também que se escondia quando tinha visita na sala, surgindo de repente, fazendo graça quando a sinhá o chamava para tocar piano. E foi lá que

ele tinha ido parar naquela noite, quando deve ter acordado com o barulho que estávamos fazendo e achou o saco com os presentes que seriam distribuídos depois do jantar. Ele tinha puxado o saco para a frente do sofá e se sentado no chão, espalhando as muitas coisas que estavam lá dentro. Entre elas havia o presente da Esméria, uma caixinha de costura completa, como ela dizia que tinha vontade de ter quando via a da sinhá, cheia de alfinetes e agulhas. Foi o brilho de uma dessas agulhas que eu vi desaparecer dentro da boca do Banjokô quando ele se assustou com o meu grito. Mais tarde ele disse que queria enfiar a linha e por isso tinha levado a agulha à boca, não sabendo que era o contrário.

Eu corri para o lado dele enquanto gritava por ajuda, e com as duas mãos, uma em cada fileira de dentes, segurei a boca do Banjokô aberta, ficando mais aliviada ao perceber que ainda dava para ver a ponta da agulha no fundo da garganta. O Raimundo foi buscar uma lamparina de mão para enxergarmos melhor, e a Esméria e a Maria das Graças andavam feito loucas pela casa, procurando alguma coisa que puxasse a cabeça da agulha antes que o Banjokô a engolisse, pois a boca dele era muito pequena e mão nenhuma conseguia entrar até o fundo. O Tico e o Hilário não sabiam o que fazer e só falavam que a culpa era deles, que se o Banjokô morresse eles também se matariam, e foi preciso que o Francisco gritasse para que ficassem quietos e procurassem ser úteis.

Eles então começaram a juntar os presentes, e entre as muitas coisas da maldita caixinha, viram uma pinça, que passaram para as mãos menos nervosas da Maria das Graças, que, enfim, conseguiu puxar a agulha. Quando soltei a boca do Banjokô, ele estava apenas um pouco assustado e com falta de ar, sem ter noção de que estava para cumprir o trato feito com os abikus. Chorou por muito tempo, dizendo que eu o tinha machucado ao segurar sua boca com tanta força, e depois voltou a

dormir nos meus braços.

Daquela vez não o larguei mais, e aproveitei para conversar com todos sobre o que o Babalaô Gumfiditimi tinha dito, pedindo que ficassem muito atentos quando eu não estivesse perto. Não quis deixar meu filho dormir sozinho, e então o Francisco juntou duas esteiras no porão e as colocou lado a lado no quarto do Banjokô, onde ficamos os três, bem abraçados. Antes de dormir rezei muito, agradecendo a todos os deuses, santos, orixás, djins, voduns e entidades mágicas que conhecia, e principalmente a Oxum, que tinha aparecido no meu jogo de opelê.

No dia seguinte eu também não fui até a loja, e passei todo o tempo com o Banjokô como se fosse uma sombra.

Fiz os desenhos no corpo dele e amarramos fitas com guizos nos tornozelos e nos pulsos, o que ele achou muito divertido, correndo pelo quintal a balançar os braços e a levantar bastante os pés antes de batê-los no chão, divertindo-se com o barulho. O Fatumbi apareceu no fim da tarde, preocupado com o meu sumiço. Ele estava voltando da casa do padre Heinz e ninguém lá tinha notícias minhas, e nem na loja, onde passou em seguida. Foi então até a casa do bilal Sali, que indicou o solar da sinhá.

Ele ainda não conhecia o Banjokô, e os dois se deram tão bem que brincaram durante horas, o que fez com que o Fatumbi se distraísse, perdendo o horário do sarã, a missa semanal na loja do alufá Ali. E como já tinha perdido mesmo, resolveu ficar um pouco mais, conversando com a Esméria e com a Maria das Graças, que já conhecia da fazenda, sem nunca terem se falado por lá. Mesmo sem ser parente delas, o Francisco teve que autorizar a conversa. Eu me sentia mais segura quando o Fatumbi estava por perto, e foi ótimo vê-lo se dando com a Esméria, a pessoa que mais gostava de mim. Comentei isso com eles e disse que seria a pessoa

mais feliz do mundo se pudéssemos morar todos juntos, livres e com dinheiro para bem gastar, sem saber que pouco tempo depois nos lembraríamos daquela noite, falando sobre as surpresas do destino.

Passeios

O Francisco deu a idéia de usar a liteira da sinhá para irmos até a casa do padre Heinz, mas não tive coragem porque chamava muita atenção e poderíamos ser denunciados. Com as novas encomendas, as que os meninos levariam para o Recôncavo, eu teria que começar a fazer os cookies no sábado, e não mais no domingo. Não queria sair de perto do Banjokô durante muito tempo, e levá-lo comigo, só se fosse de liteira, na qual ele já estava acostumado a andar. O Francisco também queria carregá-lo nos ombros, mas a Esméria foi contra, dizendo que poderia ser perigoso sair com o menino, que não estava acostumado com a rua e nem com outras pessoas que não fossem as da casa.

A Maria das Graças sugeriu cozinhar no solar mesmo, enquanto a sinhá estivesse fora. O Tico e o Hilário foram até a casa do padre Heinz e pegaram as minhas coisas, algumas formas e os saquinhos e fitas das embalagens, e passamos o sábado na cozinha, fazendo cookies e conversando. Os meninos estavam ansiosos para repor o dinheiro que tinham usado nas passagens de volta e nos presentes, e começaram as vendas no sábado mesmo, no Terreiro de Jesus, onde encontraram o João Benigno. O

preto estava encarregado de me procurar e comprar todos os cookies que eu tivesse naquela tarde, porque o senhor Amleto ia receber o senhor cônego visitador e queria impressionar. Com a sorte que tiveram e com o dia ganho, eles voltaram logo para casa e sugeriram que fôssemos todos à casa da sinhazinha para conhecer a Carolina, pois só eu tinha ido lá.

Quando estávamos nos preparando para sair, a Esméria

comentou que o ar estava com cara de chuva e resolvemos deixar para o dia seguinte, com acerto. Foi muito bom estar com eles como uma grande família, na qual estavam faltando o Sebastião e a Antônia, e eu acrescentaria também o Fatumbi, o padre Heinz e a Adeola. Ficamos conversando e planejando passeios para os dias seguintes, pena pensar que aquilo ia acabar, e acho que todo mundo sentia o mesmo, tanto que, para aproveitarmos mais a companhia e dormirmos juntos, estendemos um tapete de esteiras na cozinha e conversamos até tarde. Quem mais se divertiu foi o Banjokô, achando tudo aquilo uma grande festa, pois, tendo o próprio quarto desde muito novo, não se lembrava de já ter dormido ao lado de tanta gente, quando ainda ficava comigo no porão...

No dia seguinte, um domingo, a caminho da casa da sinhazinha, apostamos queimado para quem encontrasse a melhor desculpa para a sinhá ficar para sempre na corte, e nos esquecemos de que o Banjokô estava atento à conversa, queria saber de tudo que via, perguntava para que tudo servia e como se chamava. Foi então que o Francisco comentou que aquela era a primeira vez que estava vendo a cidade, pois nunca descia da liteira nos passeios com a sinhá, que sempre deixava as cortinas fechadas. Fiquei feliz por estar apresentando o ao meu filho, pensando que, quando crescesse, ele se lembraria de que estava com a mãe quando viu determinada coisa pela primeira vez.

Quando chegamos à casa da sinhazinha, foi que me preocupei por ter levado o Banjokô, pois não sabia como ela iria tratá-lo sabendo que era seu meio-irmão. Fomos muito bem recebidos, e ela deu um longo abraço na Esméria, que ficou emocionada ao ver a Carolina, pois tinha acompanhado o crescimento do sinhô José Carlos, da sinhazinha Maria Clara e, naquele momento, estava diante da terceira geração da família Gama. Ela nos levou às lágrimas, inclusive o marido da sinhazinha, que

nos acompanhou até o quarto e depois desceu para fazer sala ao amigo advogado, o de Coimbra. A Esméria cozinhou um caldo de resguardo para a sinhazinha, que todos nós acabamos tomando junto com a comida que a cozinheira preparou, a mesma servida para os donos da casa e a visita. A sinhazinha não falou nada sobre o Banjokô, tratou-o normalmente, como se trata uma criança que não se conhece muito bem, elogiou e conversou. Muito educada, não demonstrou qualquer desconforto ou desaprovação, mesmo porque o menino não tinha culpa alguma de também ser filho do pai dela.

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Na volta para casa, a Esméria comentou que o Banjokô não conhecia o mar, o que foi motivo para prolongarmos o passeio e levá-lo até a praia. Ele foi se divertindo pelo caminho, não deixando que ninguém o carregasse, porque estava adorando andar inclinado nas ladeiras que levam à cidade baixa. Quando chegamos à praia, estreita faixa de areia clara e grossa que se estendia até onde a água lutava com um lençol de pedras, ele primeiro quis o meu colo, mas depois se acostumou ao contato dos pés com a areia. Ele quase nunca andava sem sapatos, a sinhá não deixava por ser coisa de escravos, e a areia estava quente demais para a pele sensível dos pezinhos dele.

Mostrei que a areia molhada era mais fresca e logo tivemos que tirar a roupa dele, que tinha perdido o medo e queria tomar banho. O banho era a hora do dia de que ele mais gostava, e acredito que estava vendo o mar como uma imensa e divertida bacia, na minha companhia e na do Francisco, enquanto segurávamos os braços dele. Os outros tinham se deitado e estavam tirando um cochilo, como muitas das pessoas que estavam na praia àquela hora em que o sol já não era tão forte. Foi com muito custo que conseguimos tirar o Banjokô da água quando o tempo começou a esfriar, prometendo que voltaríamos em breve. Depois de chorar

um pouco, ele foi para casa dormindo nos braços do Francisco, que me ajudou a dar outro banho, pôr a roupa e estender uma esteira na cozinha, onde ele ficou ao meu lado, perto da Maria das Graças e da Esméria, enquanto fazíamos mais uma grande porção de cookies.

Na segunda-feira, o Tico e o Hilário passaram pela loja e levaram recado para que a Claudina separasse algumas roupas e me enviasse, pois eu queria estar bem-vestida no dia seguinte, ao fazer a entrega na loja do senhor Rui Pereira. Deixei o Banjokô aos cuidados da Esméria, depois de muito falar sobre o trato dos abikus, e parti, torcendo para que o homem estivesse por lá. No fundo eu até queria, mas não tinha a menor esperança de ter alguma coisa com ele, um dos homens mais bonitos e mais bem-vestidos que já tinha visto.

Ele tinha feito muito ao me cumprimentar, e eu não pensava que a nossa aproximação pudesse passar disso.

E ainda havia o Francisco, com quem eu estava convivendo muito bem naqueles dias. Não tínhamos mais a mesma paixão do início, quando não podíamos nos ver que já íamos logo nos deitando, mas também era bom o carinho em que o desejo tinha se transformado. Já fazia quase uma semana que estávamos o tempo todo juntos e era bom, mas isso não me impedia de também gostar de ser olhada pelo branco da loja de ferragens.

Eu sabia que ele era português porque, no dia em que falou comigo, percebi o jeito de pronunciar as palavras, igual ao marido da sinhazinha.

Alberto

Ao chegar perto da loja, caminhei o mais devagar que pude para não repetir o tombo, atenta ao chão à minha frente, bem à frente, para não andar de cabeça baixa.

Foi quando o vi de longe, antes que ele me visse. Tempos depois ele disse que naquela manhã eu parecia flutuar, quase sem tocar o calçamento de pedras irregulares, como se estivesse presa ao tabuleiro que levava na cabeça, e não ao chão. Quando parei na porta do senhor Rui Pereira para esperar o carregador que vinha logo atrás com a encomenda, ele me cumprimentou novamente, tirando o chapéu e inclinando a cabeça antes de me dirigir um sorriso, que retribuí. Demorei mais que o necessário conversando com o senhor Rui Pereira e dando notícias da minha sinhá, e nem me lembro o que inventei. Mas a demora surtiu efeito, pois o homem entrou logo a seguir, cumprimentou novamente e ficou parado ao meu lado sem saber o que fazer, até que pediu para experimentar um cookie. O senhor Rui Pereira sorriu e balançou a cabeça, talvez por já saber com quem estava tratando, dizendo que tais cookies estavam fazendo muito sucesso na colônia. Ele queria dizer entre os portugueses

Como eles, mas também poderia ser entre os brasileiros, o povo da ex-colônia, e foi essa a pergunta que fiz, a que colônia ele se referia, a dele ou a nossa, incluindo-me entre os brasileiros. A conversa ficou animada entre os dois, que elogiaram a minha observação, pois, como amantes da terra brasileira, consideravam Portugal como sendo a colónia, porque sabiam da importância que o novo país tinha para a Coroa portuguesa, mesmo após a independência. Depois de algum tempo, em que eu só ouvia, resolvi que já era hora de ir embora e o homem se dispôs a me acompanhar.

Vou chamá-lo de Alberto porque não sei a quantas pessoas ele disse o nome verdadeiro, pois nem a mim disse, preferindo ser chamado pela alcunha, que também não vou revelar. Sei o nome certo de ouvir falar, nas poucas vezes que estive com ele perto de quem o conhecia. Mas fiquemos com Alberto porque a essa altura um nome já não tem importância alguma. Vestia-se à moda dos brancos distintos, e era uma honra para mim caminhar ao lado dele, mesmo em silêncio, e queria que muitas pessoas nos vissem juntos, felizes e trocando

algumas palavras. Naquele dia ele usava uma casaca azul-escura com botões dourados, colete azul-claro bordado no mesmo tom da casaca, camisa branca com folho e gravata de seda preta dando duas voltas no colarinho e terminando em um laço.

As calças eram brancas, com puxadeiras. Usava cabelos pretos compridos, caindo sobre a gola da casaca, penteados para trás e untados com banha de cheiro. O

rosto era moreno claro e muito expressivo, marcado por suíças, e os olhos, de um castanho quase verde, um pouco escondidos pela sombra do chapéu alto, um castor. Reparei nas mãos grandes de dedos compridos e finos, quase ossudos, que ele prendia nos bolsinhos da casaca. Já tínhamos andado um bom trecho quando ele me perguntou para onde eu estava indo, e respondi que era para a Vitória. Não conversamos quase nada mais, a não ser um comentário sobre o sol forte que já brilhava àquela hora da manhã, e concordamos sobre a bonita vista que se tinha do mar na Praça do Palácio, onde ele disse que ficaria para depois ir tratar de uns negócios na misericórdia. Antes de nos despedirmos, perguntou quando eu voltaria ao mercado e afirmou que estaria me esperando.

Resolvi passar no ponto para conversar com a Adeola, pois estava com vontade de contar sobre ele para alguém e queria ter a chance de vê-lo um pouco mais, quando fosse até a Misericórdia. A Adeola me alertou para ter cuidado, que homens como ele queriam apenas dormir conosco, as pretas.

Se eu quisesse isso também, que fosse em frente, mas que não esperasse nada mais. Eu tinha vontade de dizer que não, que ele era diferente, mas pensei melhor e achei que ela tinha razão. A Adeola disse que o caso dela era exceção, estar junto por tanto tempo, quase seis anos, com um branco que realmente gostava dela, e que talvez isso acontecesse por ele ser padre, por não poder

assumir abertamente uma relação, o que nem todas as mulheres aceitavam de bom grado.

Achei que ela disse aquilo com verdade, mas não era o que eu queria para mim. Queria alguém com quem ter uma família normal, que me ajudasse a cuidar do Banjokô e que me desse outros filhos. De acordo com o Babalaô Gumfiditimi, eu ainda teria pelo menos mais dois, um menino e uma menina, e eu acreditava muito nele depois do que tinha acontecido ao Banjokô, o caso do presente do viajante. Contei à Adeola e ela disse que faria uma oferenda aos orixás por mim, em agradecimento. Preocupada com o que ela tinha acabado de me dizer, e como o Alberto estava demorando, se é que pretendia mesmo aparecer na Misericórdia, voltei para o solar e passei muitos dias sem vê-lo.

Pouco mais de um mês depois daquele encontro, a Esméria recebeu carta da sinhá, avisando que estaria de volta dentro de uma semana, e achei melhor começar a preparar o Banjokô para a separação, para que ele não sentisse tanto. Nós não nos largávamos quando eu estava no solar; ele tinha reaprendido a gostar de mim e me chamava sempre de lyá mi querida. Saíamos muito juntos, principalmente para os banhos de mar, de que eu gostava quase tanto quanto ele, acompanhados às vezes da Esméria e quase sempre do Francisco, que levavam uma trouxa de comida para que pudéssemos ficar mais tempo sem voltar para casa.

Eu tentava tomar cuidado para que o Banjokô não pegasse muito sol, pois, com certeza, a sinhá não ia gostar da cor mais escura que ele já tinha adquirido.

Estava longe de ser preto, mas também não passava mais por filho de branco, como ela gostaria que acontecesse. Foi com a carta dela, dirigida à Esméria, mesmo sabendo que a Esméria não era letrada, que tomamos consciência de que aqueles dias bons iam terminar. A minha principal preocupação era com o

Banjokô, que tinha se acostumado a uma vida mais livre e divertida, saindo todos os dias para passear e achando que aquilo seria o normal dali em diante. Não sabíamos como garantir que ficasse calado, mesmo conversando sempre com ele e dizendo que os passeios e a minha presença na casa eram segredos nossos, que a sinhá não poderia saber. Mas ele era mais esperto do que imaginávamos, e certo dia em que eu falei que não iríamos à praia, disse que então pediria a tyá mi dindinha para levá-lo quando ela voltasse.

Voltei a dormir na loja e a aparecer no solar somente à tarde, quando tentava convencer o Banjokô, e a mim também, de que os dias de praia e passeio tinham terminado. À noite, em conversas com a Claudina, eu gostava de ouvir as histórias que ela contava sobre seus homens, pois nunca conheci alguém que tivesse tido tantos. E não era por má vida, pois já tinha encontrado quem quisesse pagar e não aceitou, mas se deitava apenas com quem lhe despertasse interesse, tendo se interessado por todos os tipos de homens, pretos, mulatos, brancos, brasileiros, estrangeiros, de todas as profissões, pobres e ricos, e até mesmo por um índio.

Contei sobre o Alberto e ela repetiu o mesmo conselho da Adeola, mas também contou casos de pretas que viviam de portas adentro com homens brancos.

Algumas se juntavam aos estrangeiros que tinham acabado de chegar ao Brasil e eram de grande utilidade para eles, que chegavam quase sem dinheiro e com a esperança de fazer fortuna na nova terra. Elas então indicavam onde morar e muitas vezes até os acolhiam, chegando a sustentá-los com os serviços de cozinheira, vendedora, passadeira, engomadeira ou o que estivessem acostumadas a fazer. Caso progredissem, tornando-se prósperos comerciantes, elas podiam ser recompensadas com dinheiro ou com a continuação do relacionamento. Havia os que, depois de conquistarem fortuna e posição, não queriam mais saber delas, mas

também havia muitas pretas vivendo no luxo, servidas por vários escravos. Alguns destes homens, depois de ganhar dinheiro, levavam suas pretas para viver com eles na Europa, onde algumas até tinham títulos de condessa ou parecidos. Nem eram tão raras assim, mas desse assunto não se falava muito porque, segundo a Claudina, os brancos apenas toleravam ou fingiam não saber de tais relações, com vergonha da fraqueza dos seus iguais que tinham caído em tentação ou sido aprisionados por feitiços, como quase sempre achavam.

Segredos

Na sexta-feira, o Fatumbi apareceu cedo na loja e perguntou se eu podia fazer um grande favor para ele.

Mesmo se não pudesse, arrumaria um jeito, depois de tudo que ele já tinha feito por mim, pois me sentia grande devedora. Parecia preocupado e estava mais calado que de costume, preferindo subir ao meu quarto onde conversamos com mais tranqüilidade. Disse que poderia me contar do que se tratava, mas para a minha segurança preferia que eu não soubesse, e «passou um bilhete que deveria ser entregue a um homem chamado Manuel Calafate, que morava no segundo sobrado da Ladeira da Praça, perto do Lar e Igreja Nossa Senhora de Guadalupe. É claro que no caminho eu não agüentei de curiosidade e abri o bilhete, mas não adiantou nada, porque estava escrito em árabe, com os desenhos que representavam as letras que só os muçurumins entendiam.

O sobrado era uma loja, e quando o próprio Manuel Calafate abriu a porta, depois de olhar por uma fresta, percebi que haviam mais muçurumins lá dentro.

Imaginei que estavam em reunião importante, com todos sentados em círculo no chão da sala. O Manuel Calafate só falou comigo depois que eu disse as palavras que o Fatumbi tinha me ensinado, que não sei como se escreve, mas me lembro do som até hoje, ai-á-lá-li-salá,

que significa "eis o meu coração". Depois que eu disse isso, ele estendeu a mão, como se estivesse esperando pelo bilhete, e agradeceu com um movimento de cabeça e com as palavras barica-da-subá, "Deus lhe dê bom dia", que eu já conhecia por ser este o modo como o Ajahi e o bilal Sali nos cumprimentavam na casa do Mrs.

Clegg.

Passei o fim de semana na casa do padre Heinz, por conta do aumento das encomendas de cookies, que o Tico e o Hilário pegaram na segunda de manhã, antes de um deles partir para o Recôncavo. Fui então para o solar, sem imaginar que a sinhá tinha chegado assim que os meninos saíram, e por isso eles não me avisaram.

Depois a Esméria contou que tinha mandado o Raimundo atrás de mim, mas nos desencontramos por ele ter ido primeiro até a loja. Por não saber de nada, fiz como estava acostumada, pulei o muro e empurrei a porta da sala sem a menor cerimônia, chamando pelo Banjokô.

Ele estava sentado no colo dela, no sofá, abrindo os diversos presentes comprados na corte, e quase foi atirado ao chão quando ela me viu e se levantou de repente, não sei se de susto ou de raiva. Fiquei parada na porta sem saber o que fazer, enquanto o Banjokô correu na minha direção me chamando de lyá mi querida e passando os bracinhos em volta das minhas pernas.

Em um abraço apertado, ele perguntou por que eu não tinha ido lá no dia anterior e contou que a sinhá tinha comprado muitos presentes para ele, puxando a minha mão para que eu fosse vê-los. A sinhá então chamou a Esméria e pediu que levasse o Banjokô para o quarto, junto com os presentes que o Francisco e o Sebastião correram para recolher.

Mal ficamos sozinhas, ela perguntou o que eu estava fazendo ali e o que o menino quis dizer com não ter aparecido no dia anterior. Eu disse que só tinha passado

para ver meu filho, mas não confirmei se estava fazendo aquilo com certa freqüência ou não, pois sabia que mais tarde ela faria várias perguntas ao Banjokô, e saberia toda a verdade. Achei que ela fosse me destratar e, por um momento, era o que parecia ter em mente. Mas se calou antes de começar com os gritos e disse calmamente que eu já podia ir embora. Se o que eu tinha ido fazer lá era ver o Banjokô, a minha missão já estava cumprida, mas que voltasse no dia seguinte, por volta das nove horas, quando teria um comunicado importante a fazer e queria a presença de todos os escravos da casa.

Antes de sair, parei perto da Antônia e pedi a ela que dissesse à Esméria as palavras "abiku" e "viajante com presentes", e que era muito importante que fizesse isso com a maior urgência.

Passei o dia inquieta, tentando imaginar o que a sinhá poderia ter de tão importante para comunicar, e não consegui me alegrar nem mesmo com a festinha que estava sendo realizada na loja para comemorar a compra da carta de alforria do Salum. Foi preparado um jantar especial, para o qual eu e a Claudina fomos convidadas, e ficamos na cozinha com a Khadija e o bebê, a Fatu e a Euá. Na sala, além do Salum, estavam o Seliman, o alufá Ali e os dois filhos, Omaii e Ossomani, o bilal Sali, o Ajahi e mais dois homens que depois vim a conhecer como Aprígio e Conrado, e que, apesar dos nomes, também eram muçurumins. Curiosamente, o Fatumbi não apareceu.

Eles não consumiam bebida alcoólica e por isso a Khadija tinha preparado dois tipos de chá muito amargos, que bebemos para acompanhar a carne de carneiro assada, o inhame e o arroz machucado com leite e mel. Todos estavam trajando abadás e rezaram agradecendo a carta do Salum, a comida e a bebida, dizendo bi-si-mi-lâi.No fim da festa, o casamento do Salum e da Euá ficou marcado para dentro de um mês, dois dias antes de começar o Ramadã.

Deixei para fazer a entrega no mercado à tarde, e acabei tendo que adiar para a quarta-feira, quando não encontrei o Alberto, e fiquei mais chateada por não saber se ele tinha me esperado na terça-feira do que pelo fato de não tê-lo visto. Mas de manhã eu não podia faltar à reunião na casa da sinhá, onde cheguei muito antes do combinado. Ela ainda não tinha descido para o desjejum e ninguém imaginava o motivo do comunicado, nem o Sebastião e a Antônia, que foram as suas companhias de viagem. Para que o tempo passasse mais rápido, pedi a eles que me contassem sobre a corte, da qual disseram maravilhas. Não sobre a cidade em si, que acharam mais feia e mais suja que São Salvador.

Mas contaram das pessoas que conheceram, todas muito bonitas e bem-vestidas, e das festas freqüentadas pela sinhá, pelo padre Notório e o seminarista Gabriel.

Tinham visto inclusive a caravana do imperador D.

Pedro, e ficaram sabendo que muitos pretos da Bahia estavam indo para a corte, principalmente os forros, porque lá se ganhava mais dinheiro. Visitaram alguns sítios nas redondezas e acharam as paisagens muito bonitas, particularmente as de um sítio no meio da serra, onde tinham ficado por quase duas semanas em um casarão de religiosos.

O comunicado

A sinhá desceu e a Antônia serviu o desjejum enquanto esperávamos na cozinha, em silêncio. Quando ela finalmente nos chamou à sala, dizendo que não queria perguntas sobre o que ia falar, comunicou que tinha decidido se mudar para a corte, acompanhando o padre Notório em necessidades profissionais, e com ela iriam o José, meu filho, a Antônia, a Maria das Graças, o Francisco e o Raimundo. A Esméria e o Sebastião, por já terem trabalhado o suficiente e sempre com lealdade, seriam libertados e receberiam cada um a quantia de um conto de réis, pagos no prazo de três anos, pelo que ela

deixaria alguém encarregado. Nada disse a meu respeito, e estávamos todos tão surpresos que ninguém ousava perguntar, até que ela percebeu que já tinha conseguido me deixar nervosa por causa do destino incerto, e complementou dizendo que eu seria vendida e que estávamos dispensados. Eu, o Tico e o Hilário, que só foram tomar conhecimento das novidades algum tempo depois. Ninguém sabia onde o Hilário estava, e o Tico tinha partido para o Recôncavo, onde os dois estavam ganhando um bom dinheiro com a venda dos cookies e de outras mercadorias que levavam de São Salvador.

Sem ter forças para reagir, vi a sinhá deixar a sala e subir para o quarto sem se importar com o estrago que estava fazendo em muitas vidas, principalmente na minha. Mesmo tendo motivos para ficar muito feliz por causa do Sebastião e dela própria, a Esméria me abraçou e chorou comigo, enquanto todos foram em silêncio cuidar dos afazeres e pensar nas mudanças.

Sem nada entender, o Banjokô ficava perguntando o motivo do meu choro, mas eu não podia explicar para ele que a sinhá ia nos separar. O Francisco o levou para o quintal e a Esméria e o Sebastião se sentaram ao meu lado, no degrau da varanda dos fundos, dizendo que estaríamos sempre juntos e que, mais calmos encontraríamos uma maneira de resolver os problemas.

Mas a única solução que eu via era dar um jeito de comprar a minha liberdade e a do Banjokô, mas para isso era preciso dinheiro, muito mais do que eu possuía.

A primeira coisa que pensei foi em subir ao quarto da sinhá e pedir que me levasse para a corte. Pedir por caridade, por amor a todos os santos de devoção dela, que não me vendesse e me deixasse ir para a corte, mas a Antonia achou que não seria boa idéia demonstrar que era isso o que eu mais queria. Estava claro que ela desejava me punir. O Sebastião se ofereceu para me acompanhar à confraria e conversar com a Esmeralda,

para ver o que poderia ser feito en relação ao dinheiro.

Pelas nossas contas, eu tinha pouco mais de sessenta réis, ainda a descontar a taxa de administração, que seria proporcional ao dinheiro que eu precisaria retirar e o que eu já tinha amortizado.

A Esmeralda ouviu minha história e disse que teríamos que esperar até domingo para falar com o Gregório, pois só ele podia fazer as contas do que eu precisava e ter uma idéia mais exata do quanto valíamos eu e o Banjokô.

Aquela era uma informação importante, e o Sebastião propôs uma ida até a confraria dele, ver se alguém poderia nos ajudar. Deram uma informação não muito segura, porque o prestamista também só aparecia aos domingos, mas disseram que poderia ser um valor em torno de quinhentos mil réis para mim e duzentos e cinqüenta mil réis para o Banjokô, como o Sebastião já tinha imaginado. Era muito dinheiro, setecentos e cinqüenta mil réis. O Sebastião se ofereceu para trocar a liberdade dele pela minha e a do meu filho, pois a sinhá estava disposta a pagar um conto de réis a ele, do qual ainda sobrariam duzentos e cinqüenta mil. Mas não aceitei, por ter certeza de que a sinhá também não aceitaria. Afinal, ela não estava interessada em dinheiro, e sim em me castigar.

Na manhã seguinte, fui até o mercado entregar os cookies, pois não poderia perder uma chance sequer de ganhar dinheiro. Depois segui até a casa do padre Heinz, para ver se ele tinha alguma idéia que pudesse me ajudar, mas ele tinha viajado sem data para voltar, inclusive dando férias para as crianças da escola, pois o Fatumbi não conseguiria fazer tudo sozinho. Lembrei-me do Fatumbi, mas não sabia onde ele morava e, sem pensar muito, fui procurá-lo na casa onde ele tinha me pedido para levar o bilhete, na Ladeira da Praça, onde acabei encontrando. Ele não me convidou para entrar e pareceu contrariado por me ver ali, mas depois de saber o motivo, sugeriu que conversássemos na loja, no meu

quarto, para onde eu deveria voltar e esperar por ele, que naquele momento estava resolvendo alguns assuntos importantes.

A Claudina estava em casa naquele dia, pois tinha ficado a noite toda em um batuque e não se sentia em condições de trabalhar. Esperei que o Fatumbi chegasse e contei a história para os dois, que ficaram de pensar em uma maneira de me ajudar, já que não tinham dinheiro. Enquanto conversávamos, o Tico e o Hilário apareceram para entregar o dinheiro da venda dos cookies, um vindo direto do Recôncavo e o outro, do cais, onde tinha ido esperar pela chegada do irmão.

Portanto, não tinham passado pelo solar e não sabiam do acontecido. Eles puderam subir ao meu quarto depois de um pedido do Fatumbi, e ficaram muito revoltados com os rumos que suas vidas poderiam tomar depois de vendidos. Não havia a certeza de permanecerem juntos e nem na cidade, muito menos a de serem colocados a ganho para que pudessem continuar como vendedores.

Os dois foram até o solar para saber se havia alguma novidade e voltaram ainda mais desorientados, porque, além de a sinhá não querer falar com eles, tinha comentado com a Antonia que queria tudo pronto para a mudança dentro de um mês no máximo. A Claudina perguntou se eu tinha algo de valor e propôs passar uma rifa entre as pessoas que conhecia, ao que eu agradeci e disse que a coisa de maior valor que possuía era a estátua de Oxum que a Agontimé tinha dado, bonita e de madeira nobre. Ela já tinha elogiado aquela estátua e disse que muitas pessoas poderiam ficar interessadas nela. Lembrei que o Babalaô Gumfiditimi tinha dito que Oxum ia me ajudar quando eu mais estivesse precisando, o que significava que aquela rifa poderia dar um bom dinheiro. Assim que a Claudina saiu toda arrumada, e enquanto o Tico e o Hilário estavam conversando entre eles, sem prestar atenção ao que dizíamos, o Fatumbi comentou que, se eu me convertesse, ele poderia tentar conseguir com os

muçurumins um empréstimo em uma caixa que eles mantinham para se ajudarem. Na hora pensei que não seria justo, que não me converteria de fato e sim por interesse, mas resolvi não falar nada, pois podia ser que viesse a precisar daquela ajuda.

No fim da tarde voltei ao mercado e conversei com o senhor Rui Pereira, dizendo que a minha sinhá se sentia imensamente constrangida, mas mandava perguntar se podia contar com um adiantamento, o que ele pudesse, para ajudá-la a sair de uma dificuldade. Ele coçou a cabeça, abriu a caixa de dinheiro e voltou a fechá-la, para então responder que confiava em mim e que podia dar um mês de adiantamento. Quando disse "confio em você", percebi que sabia que não existia sinhá nenhuma, e passei a admirá-lo por isso. Ao voltar para a loja, o Francisco estava me esperando com um recado da Esméria e mil réis que ela e a Antônia tinham guardado de gratificações ganhas durante anos de trabalho e que queriam que ficassem comigo.

Fiquei emocionada com a atitude das duas, e mandei o Francisco de volta com muitos agradecimentos e com a promessa de que eu pensaria em um jeito de ajudar o Tico e o Hilário. Claudina voltou com os bilhetes da rifa, vendeu alguns para os muçurumins da loja e separou outros para levar ao batuque, à noite. Mesmo sendo a estátua de um orixá, o Fatumbi pegou alguns números e disse que também ia ajudar, assim como o Tico e o Hilário. O alufá Ali me liberou do pagamento do aluguel naquele mês, dizendo que era o que podia fazer por mim. Passei mais uma noite em claro pensando em como conseguir mais dinheiro, mas me sentindo um pouco melhor, alentada pela solidariedade e o carinho daqueles amigos que estavam se mobilizando para me ajudar.

O homem

Na quinta-feira fui para a casa do padre Heinz fazer

mais cookies para vender pelas ruas, coisa que eu não vinha fazendo porque o lucro não compensava muito.

Mas, em vista da situação, qualquer dinheiro seria muito bem-vindo. Na volta, fiz um pequeno desvio e passei em frente à loja de ferragens, e o homem gordo, que estava na porta, correu para chamar o Alberto. Ele surgiu na porta sem o casaco, como quem não queria perder tempo em vesti-lo, e fez um sinal para que eu esperasse um pouco. Segui caminhando devagar, feliz por tê-lo visto e por ele querer falar comigo. Já composto, o Alberto me a alcançou e perguntou para onde eu estava indo, ao que eu respondi que ia vender alguns cookies no Terreiro de Jesus.

Ele me disse para não ficar brava, mas que queria saber como ajudar, pois o senhor Rui Pereira tinha comentado que a sinhá estava passando por dificuldades. Fiquei espantada por ele ter se interessado e por saber que conversava a meu respeito e mais ainda quando disse que queria comprar todos os cookies que eu tinha no tabuleiro. Eu ia dizer que não precisava, mas vi no rosto dele uma expressão tão feliz por ser útil que só consegui sorrir de volta. Aquela ajuda seria muito bem-vinda, e fiquei quieta quando ele tirou o tabuleiro da minha cabeça e jogou todos os saquinhos na direção de um bando de crianças que brincavam na rua. Foi bom ver a alegria delas recolhendo os pacotes do chão, mais espertas que os adultos que também avançaram. .O

Alberto pegou na minha mão e disse para corrermos dali antes que nos prendessem por perturbação da ordem pública. Tirei os sapatos e o segui, rindo da situação e de nós dois, esquecida dos problemas. Quando chegamos ao Campo Grande, ele me convidou para um refresco e eu aceitei, pois a corrida tinha me dado sede.

Ele bateu na porta de um sobrado simples mas muito simpático, pintado de novo, e uma senhora muito distinta abriu a porta e um sorriso afetuoso quando o viu. Ele entrou e ela já ia fechando a porta quando fui

puxada para dentro e recebi um olhar nada amistoso.

Sem tirar os olhos de mim, a mulher disse que gente como eu não entrava naquela casa, comentário que o Alberto ignorou fazendo festinhas na cintura dela, dando beijos na bochecha e me empurrando para que eu subisse uma escada que havia logo em frente à porta.

Quando eu já estava nos últimos degraus, ele entregou meu tabuleiro para a mulher e disse para ela colocar ali um refresco, uma garrafa de vinho e alguns petiscos, e levar lá em cima. A mulher ficou praguejando, enquanto ele tirava a chave da algibeira e destrancava uma das portas, a segunda em um longo corredor, e abria caminho para que eu entrasse primeiro. Deixou a porta aberta até que a mulher fosse levar o que tinha pedido, aproveitando para pôr a cabeça para dentro do quarto e dar mais uma olhada em mim.

Era um quarto pequeno, com uma janela na parede em frente à porta e, sob a janela, um baú. No canto à direita, um mancebo, e no canto à esquerda, um espelho com pés. Atravessando o quarto, uma cama de solteiro caprichosamente arrumada com lençol de linho branco que soltava um cheiro muito bom de limpeza. Primeiro perguntei se tal senhora era a mãe dele, e ele riu com uma gargalhada, dizendo que sua santa mãezinha tinha ficado em Portugal, mais precisamente debaixo do solo de Portugal. Mesmo ele tendo falado aquilo sorrindo, eu disse que sentia muito. Aquele era apenas um quarto de aluguel que mantinha para as noites em que ficava até mais tarde no trabalho, ou quando tinha alguma festa para ir, pois morava longe. Ou para levar companhias, eu completei, e ele negou, dizendo que, conforme eu pude ver, a senhoria, dona Isaura, não aceitava visitas femininas, e só tinha me deixado entrar por ter visto que eu era uma moça decente e que nós só queríamos conversar.

Enquanto me passava o copo de refresco e abria a garrafa de vinho, servindo dois copos, ele disse que

primeiro de tudo vinham os negócios, e perguntou quanto me devia pelos cookies. Eu estava sem jeito de cobrar, mas ele tirou quinhentos réis do bolso e colocou nas minhas mãos, dizendo que só queria saber se a quantia era suficiente. Na verdade, era mais do que o dobro, e agradeci tanto a ele quanto a Oxum, que devia estar mesmo me ajudando. Apenas conversamos a noite inteira, e o Alberto não fez nenhuma pergunta que me deixasse embaraçada ou constrangida. Quis saber onde eu tinha nascido, como era Savalu e quando e como eu tinha chegado ao Brasil.

Contou também as mesmas coisas sobre ele, sobre Portugal e Lisboa, dizendo que nunca mais voltaria para lá, pois tinha gostado do Brasil e era sócio da loja de ferragens onde o conheci, ele e o homem gordo, que se chamava Joaquim. Por causa do sotaque português do Alberto, eu me lembrei do marido da sinhazinha e decidi procurá-lo no dia seguinte, para ver se podia me explicar tudo sobre a compra de cartas de alforria. Bebemos duas garrafas de vinho e rimos muito, e continuamos rindo rua afora quando ele me acompanhou até a loja, onde tive que acordar o alufá Ali para que abrisse a porta, e recebi dele uma reprimenda por estar chegando àquela hora. Mas a noite e o vinho me fizeram bem, pois finalmente consegui dormir bastante, acordando no dia seguinte quase a hora do almoço. E muito bem-disposta, porque havia uma combinação para outro encontro, logo mais à noite.

À tarde saí perguntando de porta em porta até encontrar o escritório do doutor José Manoel, no Terreiro de Jesus, que me atendeu muito bem quando soube que eu queria algumas informações sobre como fazer para comprar a minha carta, e a do Banjokô. Tanto ele quanto o seu sócio, me tranqüilizaram, dizendo que se eu tivesse o dinheiro pedido, a sinhá teria que vender as cartas.

Disseram também que provavelmente ela pediria uma avaliação oficial para que fossem determinados os

valores corretos, e só depois disso poderiam me ajudar.

Eu deveria falar com a sinhá o mais depressa possível,»

o que decidi fazer logo na segunda-feira de manhã, depois de conversar com o Gregório no domingo, pois ele poderia me dar uma idéia prévia dessa avaliação e de como obter um empréstimo na confraria.

Voltei para a loja e esperei pelo Fatumbi, que já tinha passado por lá e deixado aviso dizendo que chegaria mais cedo ao sarã, para conversar comigo. Ele queria saber das providências tomadas e se havia alguma novidade, e contei sobre o encontro com o marido da sinhazinha. O Fatumbi me disse para não confiar muito nos brancos, ainda mais um branco que tinha ligação com a sinhá, pois, por mais boa vontade que ele tivesse em ajudar, se desse algum problema ele acabaria ficando do lado dela. Eu achava que o doutor José Manoel era confiável, mas não custava ser prudente naquele assunto, que era tão importante para mim.

Continuar: parte 5 de 5