Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 12 de 12 · parte 3/4

Páginas do PDF

Um Defeito de Cor

Capítulo dez

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Talvez a dedicação da Aina fosse até por isso, por ela não ser brasileira e querer viver entre nós, tendo que provar o merecimento. De qualquer maneira, fiz o que pude, providenciando para que ela fosse enterrada em Ikoyi, com direito a jazigo, placa e lápide cheia de desenhos e pinturas coloridas, com local para oferendas.

Sei que ela aprovaria, e era o mínimo que eu podia fazer.

Enfim, com a morte de mais uma amiga de longa data, eu estava ficando cada vez mais só, e talvez por ter me queixado tanto, o ano de um mil oitocentos e setenta e três levou de volta meus ibêjis, que foram recebidos com grande festa, maior que a festa da partida.

A volta

As primeiras pessoas que souberam da volta da Maria Clara e do João foram os missionários franceses de Uidá, pois um deles tinha acabado de voltar de Paris, depois de se encontrar com a Maria Clara por lá. Era para ser

segredo, inclusive para mim, mas ela provavelmente se esqueceu de avisar o missionário e logo a cidade inteira já estava sabendo. Assim que tomou conhecimento, e imaginando que eu já estava informada, a Jacinta viajou para Lagos, porque sabia que eu precisaria dela para preparar a festa da chegada, já que não tinha mais a Aina.

Tentei disfarçar a surpresa, mas não consegui, e fiz a Jacinta repetir várias vezes tudo que tinha ouvido.

Mandei um empregado até Uidá para saber a data e confirmar se o navio ia chegar lá mesmo ou em Lagos, e passamos mais de duas semanas cuidando de tudo, desde o envio de convites para todas as pessoas que os ibêjis conheciam até a contratação da banda para tocar no ancoradouro.

Quando viram aquelas pessoas esperando por eles, alguns rostos facilmente reconhecíveis e outros nem tanto, os ibêjis pareceram encabulados, mas não surpresos. Eles deviam imaginar que não conseguiriam desembarcar em África sem que eu ficasse sabendo antes, pois isso era coisa de que eu tinha grande medo, de que algum dia um deles batesse na minha porta e eu não o reconhecesse, depois de tanto tempo. Como, com certeza, aconteceria em relação a você. Digo

"aconteceria" porque sei que não vai acontecer. Aliás, tenho menos de um dia de viagem e rogo conseguir chegar até onde quero, mas, caso não consiga, preciso ir pelo menos até o lugar a partir de onde a Geninha possa continuar. A boa Geninha, que tanta companhia me fez naqueles anos de ausência dos ibêjis e que esperou pacientemente a volta deles para me fazer um pedido.

Quando já haviam se passado uns quinze dias que eu tinha meus filhos junto de mim, a Geninha nos chamou, a mim e à mãe dela, que ainda estava em Lagos me ajudando, e perguntou se podia entrar para a Missão Católica, onde já havia algumas freiras missionárias.

Está certo que as freiras tinham chegado apenas um mês ou dois antes, mas eu deveria ter desconfiado que aquele era o sonho da Geninha, já que não tinha ido para a França com os ibêjis. Eu deveria ter imaginado que ela queria continuar estudando, ou, pelo menos, que queria fazer algo melhor do que ajudar a cuidar de mim e da casa, trabalho impróprio para alguém com a inteligência dela. Mais do que depressa falei com o padre Clement, que inclusive se mostrou muito grato por tê-la na Missão. As freiras iam montar a nova escola, separada dos meninos, e precisavam de moças letradas que soubessem falar português e as ensinassem, para que elas tivessem como se comunicar com as alunas.

Foi nessa escola que a Maria Clara começou a dar aulas, para logo em seguida pegar uma turma da escola dos ingleses também. Até então, nenhum mestre podia trabalhar ao mesmo tempo para os ingleses e os franceses, e ela foi a primeira, o que se justificava pelas minhas amizades e, é claro, pelo diploma e a experiência dela, além do conhecimento. Muitos padres iam até a minha casa ver os livros que ela tinha comprado em Paris e conversar sobre os tais filósofos de quem ela não parava de falar, sempre citando uma frase ou outra. Eu apenas olhava, cada dia mais maravilhada e orgulhosa.

Minha filha estava uma mulher, na aparência e no jeito de ser, muito diferente da menina que tinha partido. Pela primeira vez na vida ela parecia mais velha que o irmão, que não tinha mudado muita coisa. Ele também estava formado, entendedor das construções, mas parecia muito mais novo do que quando partiu. Voltou desenvolto, com novas maneiras, novo jeito de se comportar e se vestir, rindo mais, com mais prazer na vida. Eu gostava de ficar olhando para eles, tentando imaginar como teriam se dado as mudanças, a cada dia, a cada semana, mês e ano, e em muitas noites cheguei a invadir seus quartos no escuro, como tinha feito tantas vezes quando eram crianças.

O João não quis começar a trabalhar logo, como a irmã, disse que estava cansado e precisava de uns dois meses, durante os quais saía com os amigos, bebia muito, ia aos bailes e voltava tarde para casa. Eu me preocupava, com medo de que ele tivesse adquirido aqueles hábitos em França e não conseguisse mais se livrar deles. Mas não queria atrapalhar nosso relacionamento com cobranças ou questionamentos, e deixei o tempo tomar providências no meu lugar.

Eu sabia que podia confiar nele, no meu menino, que certo dia chegou para mim e disse que queria viajar, passar alguns dias em cada uma das obras que tínhamos em andamento para ver como os empregados trabalhavam, o que estava bom e o que precisava ser mudado de acordo com o que tinha aprendido. Ficou mais de seis meses fora e eu sempre recebendo notícias de onde ele passava, todos elogiando a capacidade e a personalidade do João, sempre cordial, sempre amigo de todos, sem fazer desfeita alguma por ser meu filho ou por ter estudado.

Quando o João voltou para Lagos, estava em companhia do Felipe, que queria conversar comigo para dizer que tanto ele quanto o Rafiki já estavam muito cansados, que o João era jovem, gostava de trabalhar e sabia o que estava fazendo, e poderia substituir um deles ou treinar alguém para fazê-lo. Fiquei um pouco preocupada com essa decisão que me pareceu repentina, porque os dois ainda eram muito bons, apesar de velhos. Mas achei que tinham razão, que estava mesmo na hora de descansar e aproveitar o bom dinheiro que já tinham ganhado.

Quem era eu para contestar, já que tinha feito isso bem antes deles? Eu tinha cinqüenta por cento do capital da empresa, os outros cinqüenta estavam distribuídos entre os dois mais o Crispim e o Dionísio, que ainda continuariam por algum tempo. Conversando, decidimos que o melhor seria o Rafiki e o Felipe indicarem pessoas

para coordenar as equipes, e o João serviria a todas elas, de obra em obra, dando assistência a todos no local ou a partir do escritório de Uidá. O escritório estava vazio, pois a casa de comércio inglesa que o alugava tinha fechado as portas alguns meses antes.

Enquanto o João viajava, às escondidas eu tentava arrumar casamento para a Maria Clara, pois ela já estava com vinte e cinco anos. Na idade dela eu tinha você e o Banjokô, e já tinha passado por tantas coisas que ela nem podia imaginar. Mas a Maria Clara dizia que ainda não estava na hora, que não estava preparada, que pensaria nisso mais tarde, depois que abrisse a escola.

Mas os bons pretendentes estavam cada vez mais raros, e alguns poucos que ela aceitou conhecer, em jantares que eu oferecia, não serviram para ela, pois não sabiam conversar sobre nada além de comércio, confirmando um daqueles meus medos, de ela ficar boa demais para qualquer homem que conhecesse.

Os selvagens eram atrevidos e ela achava muita graça neles, mas só fiquei tranqüila depois que ela jurou que não pretendia se casar com nenhum deles, com nenhum dos muitos insolentes que iam me pedir para namorar com ela sem que ela tivesse conhecimento. Quando ela me disse que por enquanto não queria esses selvagens, ou

brasileiros,

ou

mesmo

estrangeiros,

fiquei

desapontada, mas depois aceitei, porque era exatamente de conversa interessante que eu sentia falta no Francisco, por exemplo, quando o comparava ao Fatumbi, ao padre Heinz ou, mais tarde, ao seu pai ou a quase qualquer um dos muçurumins. Eu não tinha coragem de perguntar, pois ela era muito reservada, mas achava que nem conhecia homem.

E isso era bom, pois eu queria que ela se casasse com um brasileiro, e eles davam mais valor às moças puras.

Nenhuma das minhas tentativas de apresentá-la a alguém deu certo, e resolvi esperar que ela tomasse a

iniciativa, o que aconteceu de uma maneira bastante imprevista.

A escola

Em um mil oitocentos e setenta e sete, a Maria Clara se desentendeu com o padre responsável pela escola católica e resolveu que estava na hora de abrir a dela.

Havia alguns anos que os missionários tinham começado a aceitar crianças selvagens para compensar a saída dos brasileiros, principalmente dos mais pobres, que precisavam dos empregos oferecidos para as pessoas que falassem inglês, ou seja, que estudassem na escola britânica.

A maioria das crianças selvagens era dada, vendida ou hipotecada aos padres, isso no caso dos meninos, pois as meninas eram sempre bem-vindas, porque poucos pais brasileiros ou selvagens deixavam suas filhas estudarem, preferindo que elas se casassem logo. Portanto, as meninas estavam na escola para receber um mínimo de instrução para se casarem com os jovens brasileiros, o que nem sempre correspondia ao tipo de instrução que os noivos esperavam.

O que deixava a Maria Clara bastante chateada era que o tratamento dado às crianças brasileiras e às selvagens era bastante distinto, chegando a prejudicar o aprendizado dessas últimas. Ela disse que, quanto às crianças, até poderia dar um jeito, mas nunca conseguiria fazer nada para ajudar os missionários pretos ou selvagens a receberem tratamento melhor, como somente ela recebia, constrangida.

Não queria abrir mão das regalias, do tratamento igual ao recebido pelos missionários brancos, mas não achava justo que não fosse do mesmo jeito para todos, independentemente da cor ou do lugar onde tinham nascido, pois todos faziam o mesmo trabalho. De certa

forma, os mestres eram considerados missionários, embora muitos não o fossem. Mas nem todos os missionários eram mestres, e ser mestre também não ajudava em nada se fosse preto. Quando eu soube que a Geninha também estava recebendo tratamento inferior ao das missionárias francesas, resolvi interferir. Chamei os padres Bouché, Durieux, Cloud e Courdioux para um jantar e pedi que a Maria Clara levantasse a questão. O

padre Bouché muito me decepcionou ao defender que os missionários selvagens não precisavam receber enxoval e alimentação iguais aos dos europeus, pois isso seria um luxo para eles.

Para o padre, eles deveriam permanecer o mais próximo possível das pessoas com as quais tinham que trabalhar, e o trabalho era a catequização e conversão de selvagens, não recebendo nem meias, nem casacas e nem pára-sol branco, além de fazerem as refeições junto com os alunos. A partir daquele dia, passei a gostar bastante dos padres Cloud e Courdioux, que achavam que não deveria haver diferença, que os selvagens só teriam o respeito dos seus se fossem tratados do mesmo modo que os irmãos europeus, provando que era essa uma das intenções da religião católica, tratar todos de modo igual perante Deus.

A discussão durou várias horas, com todos querendo explicar melhor seus pontos de vista, mas no final acabou prevalecendo a idéia do padre Bouché, e naquela mesma noite a Maria Clara comunicou sua saída. O

padre, sentindo-se traído, ficou vários dias sem aparecer na nossa casa, mas não conseguiu recusar o convite para o noivado duplo, da Maria Clara e do João, acontecido no início de um mil oitocentos e setenta e seis. Uma das festas mais comentadas de Lagos, pelo menos até a festa do casamento, duplo também. A Maria Clara tinha saído da escola, pois a ela interessava apenas educar crianças, mas a Geninha permaneceu, porque queria mesmo era educar a própria alma e depois as almas das outras

pessoas, não se importando com o tratamento recebido.

Noivados e casamentos

Nem sei se naquela época sua irmã gostava mesmo do noivo ou se isto só aconteceu depois de se conhecerem melhor, mas fiquei surpresa no dia em que ela chegou em casa e disse que tinha um pretendente para me apresentar. Aquilo não era muito usual, mas não me importei, pois já estava ficando preocupada com a solteirice dela. O escolhido parecia outra provocação ao padre Bouché, pois era um missionário francês que, para se casar com ela, estava abandonando não só a Missão mas também a escola, onde lecionava História e Geografia.

Perguntei como o namoro tinha começado e ela disse que não importava, que o importante era que finalmente estava para se casar, como eu sempre quis e na hora em que ela se achava preparada. Além do mais, o futuro marido seria de grande ajuda na montagem da escola, pois era missionário e mestre experiente, que compartilhava muitas de suas idéias, principalmente sobre métodos de educação mais modernos que os usados na Missão.

Eu preferia que ela se casasse com um brasileiro, mas o Beaulieu era boa pessoa, tranqüilo, educado, alto, calvo e tão magro quanto um homem poderia ser para ainda se agüentar de pé, e falava muito baixo um português bastante errado. Também usava longas barbas e longos cabelos, sempre presos debaixo de um chapéu de palha que não tirava quase nunca, nem dentro de casa, para proteger a pele clara do sol forte da África. Ou seja, era um homem muito feio, e assim que o conheci, pedi que meus netos saíssem à minha filha. Quando as pessoas começaram a receber o convite para o noivado, muitos ingleses foram me visitar, com medo que eu passasse para o lado dos franceses. Fiz questão de dizer que o

Beaulieu tinha sido uma escolha da minha filha, que eu não tinha interferido em nada, o que causava grande surpresa a todos. Mas era verdade, e eu também não teria interferido se ela tivesse escolhido um selvagem, embora ficasse muito mais triste.

Quando a Maria Clara comunicou ao irmão que pretendia se casar, ele comentou que seria uma excelente oportunidade para se casar também, mas que faltava o mais importante, a noiva. Isso era fácil de encontrar,

principalmente

porque

eu

era

constantemente visitada por mães brasileiras em busca de noivos para suas filhas, pois o João era um excelente partido, o melhor da região. Elas não falavam diretamente, mas levavam consigo as meninas muito tímidas e bem vestidas, como se expostas em vidraças, e não paravam de enumerar as qualidades delas, para, no final, perguntarem se meu filho não pretendia se casar, se já tinha pretendente. Eu falava da importância do João, sobre ele precisar viajar bastante e não ter muito tempo para cuidar de família, mas as mães insistiam, dizendo que gostariam que ele conhecesse suas filhas para conversar, pois a juventude precisava manter unida a comunidade brasileira.

Ele achou engraçado quando comentei isso, e mesmo eu tentando explicar, não sabia quem eram as moças, pois todas as que conhecia da época em que tinha morado na cidade já estavam casadas. Então, sempre com a permissão dele e com a ajuda do padre Courdioux, selecionei algumas e as convidei para um chá. As mais bonitas, porque eu sabia que o João dava importância a isso, e mais inteligentes, porque ele ainda não sabia, mas provavelmente sentiria falta de alguém com quem conversar sobre coisas interessantes.

O convite não se estendia às mães, e a Jacinta, que ainda não tinha voltado para Uidá, teve muito trabalho para impedi-las de entrar na nossa casa. Mais ou menos

conformadas, elas formaram um grupo na praia e ficaram se provocando sobre as qualidades das filhas, sobre elas serem as mulheres perfeitas para um homem como o João, conforme a criada ouviu quando foi servir um refresco.

Eu queria que as meninas conversassem a sós com meu filho, sem as mães, pois era assim que aconteceria depois de se casarem. A escolhida dele, uma brasileira de quinze anos chamada Isabel, a mais bonita entre elas, não era a minha preferida. Mas não falei nada para depois não ser culpada, caso alguma coisa desse errado.

Diziam que o pai dela estivera envolvido com traficantes, e por isso a minha relutância inicial em relação à menina, mas com o passar do tempo, e já durante os preparativos para o casamento, ela me conquistou com um jeito muito espontâneo e curioso.

Com a minha ajuda e a da Maria Clara, que tínhamos muito para ensinar, ela seria uma mulher bastante razoável. Logo que ficou tudo acertado com a família dela, que tinha Souza como apelido, apesar de não terem nenhum parentesco com o Chachá, a Isabel foi passar alguns dias na minha casa. O João estava em Uidá e, portanto, receber a moça não daria margem a falatório, e ela aproveitou bastante todas as informações que dei sobre o meu filho, do que ele gostava e não gostava, o que ele pensava da vida, do que ele precisava em uma companheira.

la ouviu tudo calada, sem contestar, feliz por estar aprendendo e, com certeza, mais feliz ainda por ter sido a escolhida. Meus filhos também estavam sendo abençoados com bons casamentos e eu me sentia grata por isso. Pensava muito em você naquela época, se tinha se casado e com quem, se tinha filhos, se era feliz. E

sabe o que mais eu pensava? Se você ainda comia açúcar...

Entre a escolha do João e a festa de noivado passaram-se menos de dois meses, e o casamento foi marcado para quatro meses depois, no dia vinte e sete de setembro. Os padres disseram que era um bom dia, em que se comemora o dia de São Vicente de Paulo, fundador da Congregação da Missão na França, que teve uma vida muito interessante, tendo sido inclusive capturado por piratas muçurumins e levado para a África como escravo, mesmo sendo branco. Graças a Deus ele conseguiu se libertar e voltou a Paris, onde viveu fazendo muita caridade e obras das mais importantes, como a Missão, além de ter sido confessor e orientador muito influente de reis e rainhas. Para o noivado foram convidadas poucas pessoas, umas setenta, entre os parentes da Isabel e os padres, que representavam os parentes do Beaulieu. Inúmeros curiosos ficaram na praia, do lado de fora, olhando o movimento e cercando quem saía para saber o que estava acontecendo, o que tinha sido servido, essas coisas.

A festa de casamento também aconteceu na minha casa, com alguns móveis novos e muitos enfeites fabricados pelo Van-Van. Achei que a família da Isabel ia reclamar, querendo para ela a honra de receber, mas nem tocaram no assunto e nem perguntaram se eu queria sugestões ou ajuda de qualquer espécie, inclusive financeira.

Estranhei mas achei bom, porque assim pude fazer tudo do meu jeito, já que a Maria Clara também não se interessou, mais preocupada com a montagem da escola em uma ampla casa que eu tinha comprado, mandado reformar e dado para ela e o Beaulieu como presente de casamento.

Para o seu irmão e a noiva dei a casa de Uidá, pois nunca mais tinha voltado lá e nem pretendia voltar. O

João, para nos deixar mais do que preocupados, foi para lá e só apareceu duas horas antes da cerimônia religiosa, quando mandamos tranqüilizar a noiva, que estava se aprontando na casa dos pais.

A cerimônia foi linda, celebrada por três padres e muitos irmãos auxiliares, na modesta catedral toda enfeitada com flores de laranjeira e de seda branca, iguais a umas flores que eu tinha visto na loja da madame Finot, em São Sebastião do Rio de Janeiro. Aliás, elas foram feitas em França mesmo, encomendadas por intermédio de uma das missionárias de Lagos que conhecia missionárias de Lyon, que faziam flores para sustentar o convento onde moravam. Para a festa, um jantar, apareceram todos os meus amigos, mesmo os que moravam mais longe, gente que eu não via há bastante tempo.

Toda a sociedade de Lagos, Uidá, Porto Novo, Badagris, Aguê, Abeokutá, Popô e de outras cidades das redondezas, todos muito bem vestidos e levando presentes maravilhosos. Fiquei bastante emocionada ao entrar na igreja levando meus dois filhos pelos braços, um de cada lado, enquanto a Isabel e o Beaulieu esperavam no altar. A cerimônia, apesar de dupla, foi a mais

rápida

possível,

pois

a

igreja

estava

insuportavelmente cheia e quente.

Quando chegamos em casa, já havia uma multidão nos esperando e fiquei aflita, com medo de que a comida e a bebida não fossem suficientes. Mas a festa durou a noite toda e ainda sobrou muita coisa; os convidados comeram, beberam, cantaram, dançaram e guardaram para sempre na memória uma das melhores festas que já tinham visto e ainda veriam. Isso não fui eu quem disse, mas os jornais e os convidados mais importantes. Eu tinha gastado muito mais do que imaginava, muito mais que o valor de uma boa casa, mas tudo foi da melhor qualidade, desde os ingredientes usados para preparar as comidas até as bebidas, os enfeites, as porcelanas, os cristais e a prataria, muitas coisas que nunca mais voltei a usar por falta de ocasião à altura.

No dia seguinte à festa, quando eu ainda estava às

voltas com os convidados que tinham ficado para dormir, os quatro recém-casados seguiram para a lua-de-mel em Uidá, onde o Julião Félix de Souza emprestou para eles uma bela casa no Bairro Brasil, chamada de Lisséssa, a

"casa sob a árvore de Lissé". Muito bonita, de bom gosto, ampla e confortável, com tijolos vermelhos e janelas envidraçadas, toda cercada de varandas sustentadas por balcões de madeiras tropicais. Poucos anos depois, o Julião seria nomeado o novo Chachá, o IV.

Tenho que te contar um pouco da história desse Chachá mesmo que isso nos roube um tempo precioso, porque ela foi importante para mim. Eu a acompanhava com verdadeiro interesse, por intermédio do João ou de qualquer pessoa que chegasse de Uidá ou de Abomé; não deixava ninguém descansar até que me pusesse a par de todos os acontecimentos. O Julião foi o Chachá de que mais gostei, e não apenas porque ele era um dos melhores amigos do João, mas também por ser homem de grandes idéias, muito trabalhador e justo, embora tivesse quase recuperado a fortuna do pai, o primeiro Chachá, fazendo o que ele também fazia e eu reprovava, o tráfico de escravos.

Chachá Julião

Acho que o Julião foi um dos últimos comerciantes de escravos de toda a costa e um dos únicos na época, conseguindo ganhar um bom dinheiro por causa da falta de concorrência. Os escravos dele eram mandados para São Tomé e Príncipe, e não para o Brasil. Ele também esteve várias vezes na Bahia, em São Salvador, onde fazia comércio com tabaco e açúcar, sempre voltando com bonitos presentes para mim. Na verdade, o Julião foi o último Chachá do Daomé, sucedido pelo irmão Lino, que nem chegou a ocupar o cargo direito. Primeiro, porque havia muitos conflitos entre a família De Souza e a família do rei do Daomé, sem falar nos desentendimentos causados pelos franceses, ingleses e portugueses, e depois porque morreu pouquíssimo

tempo depois de ser nomeado.

Hoje o Daomé está sem Chachá, e não sei se algum dia algum rei vai voltar a honrar o pacto de sangue feito entre o D. Francisco e o príncipe Gakpé, devolvendo o cargo que pertence à família De Souza. Isto seria muito importante não só para a família, mas para todos os brasileiros que também se sentem desprestigiados com a falta de um representante. Acho que deixei a África e estou deixando a vida em boa hora, pois não agüentaria nos ver perdendo todo o prestígio que lutamos tanto para conquistar e ao qual temos direito, pois aquela parte do Daomé não seria nada sem o nosso trabalho. É

por isso que se torna ainda mais lamentável o que aconteceu ao Julião e à sua família.

O Chachá Julião enfrentou tempos muito difíceis quando o Daomé estava passando por uma disputa, tendo de um lado os portugueses, um pouco apoiados pelos ingleses, do outro os franceses, e no meio os brasileiros e os daomeanos. O Chachá achava justo que os portugueses saíssem vencedores, pois já estavam estabelecidos havia muito tempo e tinham investido muito mais no Daomé do que qualquer outra nação. Era também uma forma de retribuir a confiança que o governo português tinha depositado nele e em sua família, em anos e anos de parcerias comerciais. Mas, acima de tudo, os portugueses eram os que se davam melhor com os brasileiros, e alguns deles inclusive se consideravam brasileiros também, só por falarem português.

Como não queria brigas e era uma das pessoas mais influentes da costa, o Chachá Julião tentou resolver o impasse. A França tinha estabelecido um protetorado em Porto Novo e disputava Cotonu com o rei Glèglè, cercando a cidade com tratados de protetorado assinados com vários reinos e aldeias nas vizinhanças, bloqueando algumas importantes rotas comerciais e prejudicando os comerciantes brasileiros. Percebendo a

nossa importância em Porto Novo, o residente responsável francês procurou o Chachá e pediu que ele nos convencesse a ficar do lado dos franceses e contra o rei do Daomé, de quem também queriam tomar Cotonu e Uidá.

Fiel aos brasileiros e aos portugueses, e ao rei do Daomé, é claro, o Chachá se recusou a prestar tal serviço, trocando uma recompensa tentadora em dinheiro pela inimizade dos franceses. A situação se agravou quando alguns missionários portugueses foram se estabelecer em região considerada dos missionários franceses, as cidades de Abomé, Calavi e Godomé. O

meu amigo, o superior da Société des Missions Africaines de Lyon, se queixou às autoridades francesas, que foram até o rei pedir a expulsão dos missionários portugueses. Querendo se isentar da responsabilidade, o rei Glèglè disse aos franceses que aquele não era assunto da competência dele, mas sim do Chachá.

Enquanto isso e em surdina, em Lisboa já estava sendo negociado o acordo para um protetorado português no Daomé com o apoio da Inglaterra, que tinha medo de que a França tomasse a região e até fez vista grossa ao tráfico de escravos com as ilhas de São Tomé e Príncipe e dentro do próprio Daomé. Isso para que os portugueses pudessem cumprir uma das exigências do rei Glèglè, que queria vender para eles todos os escravos prisioneiros de guerra, a serem enviados para trabalhar nas fazendas, que seriam montadas para desenvolver o interior. Reconhecendo aquela derrota, a França fez um acordo com o rei Atanlê e tomou sob sua proteção as cidades de Grande Popô e Aguê. Como havia muitos brasileiros por lá, quem intermediou esses acordos foram os sobrinhos do próprio Chachá Julião, dois filhos do Isidoro, o Chachá anterior, causando grande desentendimento dentro da família.

Para conseguir os escravos que seriam comprados por

Portugal, o rei Glèglè deixou provisoriamente em seu lugar o príncipe Kondo, que seria o próximo rei do Daomé, e foi ele mesmo atacar as cidades que eram protetorado francês. Para piorar a situação, e ajudados pelos portugueses, os daomeanos ainda tomaram de volta algumas cidades que já eram dos franceses, como Grande Popô e Aguê, que, juntamente com Uidá, Godomé e Boca do Rio, passaram a ser protetorado português. Novamente complicando a situação do Chachá Julião, o rei Glèglè o indicou como governador dessas regiões, com a patente de tenente-coronel do exército português.

Os franceses não aceitaram os reveses e fizeram grandes protestos em África e na Europa, sem resultado, e mantiveram seu pavilhão hasteado em todas as casas de comércio e de particulares francesas, enquanto os prédios oficiais ostentavam o pavilhão português. Os franceses começaram então a nos bajular, os brasileiros, porque perceberam que o Chachá governava de acordo com os nossos interesses, o que fez com que a comunidade se fortalecesse bastante, dando ainda mais poder ao Chachá, que começou a se tornar mais poderoso que o rei Glèglè.

Foi nessa época que recebi a visita de dois brasileiros, uns dois ou três anos antes da proclamação da República do Brasil, que estavam conversando com os brasileiros mais influentes da costa para saber o que achávamos de ter o Daomé sob protetorado brasileiro, e não português, como o primeiro Chachá já tinha proposto a D. Pedro I quando da independência do Brasil. Eu não quis opinar, dizendo que, por estar confinada à casa, não acompanhava muito bem as disputas políticas da região.

Tudo mentira, porque acompanhava com grande interesse, era o que me restava e distraía, e acredito que fui uma das pessoas que mais tiveram informações sobre

aquilo tudo, de todas as partes. Das resoluções de Abomé eu ficava sabendo por intermédio dos meus amigos comerciantes de Uidá; sobre o Chachá, por intermédio do João e dele próprio, que sempre me visitava quando ia a Lagos. Sobre os portugueses e os franceses, e um pouco menos sobre os ingleses, quem me contava eram os missionários, com os quais sempre mantive boas relações.

Quando os selvagens invejosos perceberam que o governo do Chachá fortalecia os brasileiros, que até começavam a ter ambições políticas na região, trataram de difamar o Chachá diante do rei Glèglè e do príncipe Kondo. Os dois, que também já estavam enciumados, acharam por bem acreditar nas mentiras mais absurdas, como a existência de um plano do Chachá para vender aos portugueses parte do território do Daomé, e a acusação de que ele estava roubando, ao negociar com os portugueses um valor muito maior do que o pedido pelo rei, referente aos escravos, ficando com a diferença e a comissão que lhe era de direito.

Eu não acredito nisso, mas o modo de vida do Julião levava a crer que ele estava ganhando muito dinheiro, pois adquiria várias casas e dava grandes festas, não economizando em nada. Acho que foi em um mil oitocentos e oitenta e sete que o rei mandou chamar o Julião a Abomé com um pretexto qualquer. Desconfiado de que algo não estava certo, o Chachá levou com ele alguns colaboradores, entre os quais quase se incluiu o João, que só não foi por sorte e por ter que resolver alguns problemas urgentes em uma das fazendas que tinha acabado de comprar.

Ele finalmente estava realizando o grande sonho de possuir fazendas compradas com o próprio dinheiro, como tinha me dito uma vez, quando ainda não passava de uma criança. Eu já tinha até me esquecido daquela promessa e me arrependi muito por não ter percebido

antes o propósito dele ao trabalhar tanto na Casas da Bahia,

pois

nunca

o

tinha

visto

tão

feliz.

Verdadeiramente feliz, com sua vocação de fazendeiro. E

por causa de uma fazenda ele não estava na comitiva que acompanhou o Chachá até Abomé, que incluiu alguns comerciantes e os parentes que ainda não tinham passado para o lado da família liderado pelos filhos do Isidoro.

Quando o Julião chegou à corte, já havia um tribunal, que o julgou e condenou pelo roubo do equivalente a cinqüenta mil francos, dinheiro que deveria ter sido repassado ao rei por conta da venda de prisioneiros escravos aos portugueses. Várias pessoas inventaram outras acusações, inclusive seus irmãos e sobrinhos e, é claro, os franceses. Os brasileiros e portugueses se sentiram abandonados, principalmente porque o rei e o príncipe, não sabendo ler nem escrever, tinham deixado que o Chachá cuidasse do contrato de protetorado com os portugueses.

Com a prisão do Julião, todos os seus poderes foram revogados, e os soberanos do Daomé decidiram que tal contrato não tinha mais validade, que o Chachá também tinha enganado os portugueses alegando que não repassava o dinheiro da venda dos escravos porque os portugueses eram maus pagadores. Tudo mentira.

Percebendo o bom momento, os franceses pressionaram e conseguiram fazer com que Portugal renunciasse ao protetorado da costa do Daomé, deixando o caminho livre para eles. Como o Chachá continuava negando que tinha feito tudo aquilo, resolveram submetê-lo à prova da verdade pelo vodum, o que acabou condenando-o de uma vez por todas. Isso eu não entendo; não consigo compreender os interesses e as forças que agiram por trás desta suposta verdade envolvendo os voduns.

Culpado, o Chachá foi executado com toda a sua

comitiva, tendo sido poupadas apenas duas pessoas.

Uma delas foi um irmão que o havia traído, mas que acabou envenenado em Uidá dias depois, por um emissário do Abomé. A outra foi salva na última hora pela mãe, que enviou muitos presentes ao rei por uma comitiva de mais de quarenta pessoas, valendo-se da influência da mãe do rei, que intercedeu pelo filho da amiga.

As duas faziam parte da sociedade de culto das mulheres da corte de Abomé, a que tinha sido presidida pela minha amiga Agontimé.

Dias depois, o rei mandou matar todos os filhos do Chachá Julião, para não correr o risco de uma vingança e para mostrar que punia exemplarmente quem ousava traí-lo. Como parte da punição, todos os bens do Julião passaram para a corte, e o lindo teto da Lisséssa foi arrancado, a casa da qual ele tanto se orgulhava e onde foi enterrado. Não por consideração dos familiares que ainda restavam, mas porque não quiseram deixar que ele fosse enterrado junto com os parentes em Singbomey.

Nem sei se todos os parentes acreditavam mesmo na culpa do Chachá Julião, mas não queriam arrumar mais problemas com o rei, e negaram a ele as honras que os Chachás anteriores tinham recebido. Os portugueses também foram punidos, embora alguns tivessem ajudado o rei a condenar o Julião depois de acreditarem que tinham sido difamados, e as tropas reais, comandadas pelo exército de amazonas do Daomé, atacaram e queimaram todas as casas que abrigavam guarnições portuguesas.

Eu acompanhava aquilo tudo com grande aflição, e fiquei muito feliz quando pude ajudar uma das únicas sobreviventes, a Agboéssi, uma das esposas do Julião.

Quando se casou com ele, ela ainda era uma criança e

não tinha esse nome, mas o de Alon Coba, filha do rei Toyi, de Agoué-Adjigo. Acho que ela era a esposa preferida, pois tinha acompanhado o Julião em muitas viagens que ele fez a Lagos, e vi o carinho que tinham um com o outro. Durante muitos anos a Agboéssi não conseguiu segurar filho, e ao consultar o Vodum-Fá, descobriu que isso só aconteceria depois que se internasse em um convento e cumprisse obrigações com o vodum.

Assim foi feito, com o Julião sempre dizendo que sentia muita falta dela, enclausurada em um convento de Aguê.

Passado o tempo necessário, o Julião foi buscá-la, mas os sacerdotes não quiseram deixá-la sair até que todas as outras jovens que tinham entrado na mesma época também tivessem condições de fazer a cerimônia de liberação. Isso poderia durar anos, pois a cerimônia não era barata e muitas vezes os pais das jovens precisavam de muito tempo para juntar o dinheiro. Desesperado, o Julião pagou as cerimônias de todas as jovens, para ter a esposa de volta imediatamente. Logo em seguida ela ficou pejada e deu à luz um menino, o Feliciano, um texossu, uma criança sagrada, que estava no colo dela naquela noite em que, desesperada, ela bateu à porta da minha casa.

Estava fugindo dos soldados do rei Glèglè, que tinham ordem de não deixar sobre o solo africano nenhuma descendência do Julião. Foi a Geninha quem atendeu e imediatamente deixou que ela entrasse, levando os dois até meu quarto. Ela me pediu algum dinheiro, um pouco de comida e alguém para escoltá-la até Aguê, onde se esconderia no convento, pois sabia que os guardas não teriam coragem de entrar lá, por respeito e temor aos voduns. Isso já faz mais de dez anos e, até onde sei, o plano deu certo.

Meus olhos

Acho que agora devo continuar nossa história, e talvez só tenha contado sobre o Julião para adiar o acontecimento seguinte. Devo confessar que é algo que só tive coragem de considerar depois do casamento dos seus irmãos, como se não pensar afastasse a possibilidade de acontecer, pois eu estava ficando cega.

Percebi isso logo depois da morte da sinhazinha, e primeiro atribuí a vista embaçada à falta de prática, a não mais me sentar e escrever todos os dias, como fazia desde a volta à África.

Continuei escrevendo cartas para a Maria Clara e para a Carolina, a filha da sinhazinha, mas não na mesma quantidade. Comecei então a escrever para mim mesma todos os dias, colocando no papel as coisas que me aconteciam e os pensamentos mais importantes, mas não consegui continuar por muito tempo. Faltava a outra pessoa, a sensação de ser entendida e compreendida mesmo conversando a sós, como eu achava que fazia com a sinhazinha. Nos últimos dias antes da volta da Maria Clara, quando eu escrevia uma carta por semana para ela e outra carta a cada dois meses para a Carolina, o problema se agravou, e deixei definitivamente de escrever. Para a Maria Clara eu não precisava mais justificar, porque ela estava em casa, mas disse à Carolina que precisava parar de escrever para poupar os olhos que, de uma hora para outra, começaram a doer bastante.

Queimar é a palavra certa, como se uma brasa tivesse caído dentro deles. Minha sorte foi que acontecia em um olho de cada vez, que logo em seguida ficava muito vermelho, todo ele, para depois a vermelhidão ir se reduzindo ao que se parecia com vários riozinhos de sangue. Nesses dias eu evitava sair do quarto, que deixava sempre fechado para que o menor número de pessoas soubesse o que estava acontecendo. Quando tudo passava e a cor voltava ao normal, eu sentia que enxergava um pouco menos, como se aquela região onde

tinham se formado os riozinhos tivesse morrido para sempre.

Rios e morte, imagens sempre muito presentes na minha vida. Mas a Maria Clara percebeu, contou ao João, e eles queriam que eu fosse ao médico. Eu prometia e não cumpria, dizendo que não agüentaria uma viagem longa à procura de um, mas que aproveitaria uma visita dele a Lagos, quando acontecesse, e que na verdade aquilo não era nada, doença de velho, coisa sem importância.

Na semana anterior ao casamento eu tinha tido uma dessas crises e fiquei com medo de não sarar até o dia, mas deu tudo certo, e o olho vermelho foi atribuído à emoção de uma mãe que estava casando de uma só vez os dois únicos filhos. Mas depois do casamento, depois que a Maria Clara e o Beaulieu foram viver na casa deles, perto da minha, e que o João e a Isabel foram para a casa de Uidá, as crises se tornaram mais frequentes e comecei realmente a ter medo. De alguma maneira eu já sabia que não havia o que fazer, que estava mesmo ficando cega e cada dia mais agradecida por ter visto minha filha vestida de noiva.

O João estava lindo, de roupa de gala completa, mas nada se comparava à beleza da Maria Clara na roupa que ela mesma desenhou e levou para uma costureira brasileira fazer, com seda branca comprada de um comerciante de tecidos inglês. Era um vestido simples, quase sem roda, com a saia enfeitada de flores de laranjeira e cauda de veludo de seda, que foi carregada por dois pajens também vestidos de branco. Nas mãos ela levava uma corrente e um crucifixo de prata, presente dos padres. Aquela imagem, em que ela mais parecia um anjo iluminado, compensaria todos os anos seguintes, da mais completa escuridão.

Eu tinha grande dificuldade de enxergar em lugares de muita claridade. A luz fazia com que as coisas

perdessem o contorno, como se as cores estivessem gastas e desbotadas, e quase comecei a trocar o dia pela noite. Eu já tinha certeza de que em breve não enxergaria mais nada e me lembrava muito do alfarrabista Albino, de quem o senhor Mongie tinha me falado. Lembra-se dele? Aquele que, mesmo cego, ainda atendia os fregueses, sabendo de memória onde estavam todos os livros. Foi o que tentei fazer, andando pela casa e observando muito bem o lugar de cada coisa, os móveis, os objetos, os espaços e caminhos livres. Antes de ficar completamente cega, eu já conseguia fazer quase tudo de olhos fechados, para desespero da Jacinta, que não sabia direito o que estava acontecendo e me acreditava louca.

Continuar: parte 4 de 4