Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 12 de 12 · parte 4/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo dez

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Certo dia, o João apareceu em casa com um médico, que tinha ido até lá especialmente para me atender. Um desperdício, pois ele disse exatamente o que eu já sabia, que não havia nada a fazer, receitando apenas um ungüento para aliviar a dor. Ele disse que eu teria outros problemas, nada que eu já não soubesse também, como a bexiga mais solta, a vontade de beber muita água, e que, se eu me machucasse, era possível que os ossos não mais colassem e que o sangue nunca mais parasse de correr. Mas o pior seriam as palpitações do coração e o cansaço, com os quais já estava acostumada. Eu achava que já era a minha hora, que seria tudo como o destino quisesse, e só tinha tristeza por realmente ter acabado a esperança de um dia te ver. Minha cegueira também me deu uma coisa boa, que foi a presença da Jacinta, que disse não ter coragem de me abandonar naquelas condições. Na época, a Geninha ainda estava na Missão, cada vez mais querida e respeitada pelos missionários e pelos moradores das aldeias que visitava, educando e convertendo selvagens.

Avó

Ainda pude ver mais ou menos o rosto da minha

primeira neta, a quem deram o meu nome, Luísa, nascida menos de um ano após o casamento do João e da Isabel. Mas pouco tempo depois eu já não distinguia a forma de nada, nem feições, apenas borrões, parados ou em movimento, com cores cada vez mais suaves.

Conheci a menina quando a levaram até Lagos, para que eu pudesse batizá-la na qualidade de avó e madrinha.

Sabendo do problema, o padre Clement aceitou fazer o batizado na minha casa, onde os convidados me pareceram mais curiosos para me verem cega do que para serem apresentados à minha neta.

Devem ter ficado decepcionados, porque eu não tinha saído de perto da Jacinta enquanto ela fazia os preparativos, e no dia sabia exatamente onde estavam os talheres, os enfeites e onde se sentou cada pessoa à mesa. Acabada a festa, também fiz questão de levar cada convidado até a porta ou até o quarto onde dormiria, mostrando tudo de que precisaria. Foi desse jeito que surgiu a dúvida que perdura até hoje em África, se sou mesmo cega, pois quem não sabia, se não me olhasse bem nos olhos embaçados, nunca poderia dizer. Eu apenas ando apoiada em uma bengala, o que nem significa nada, pois as bengalas são muito comuns em África; conferem nobreza e importância aos que estão autorizados a usá-las. Mas eu, como só ficava dentro de casa, não pedi autorização a ninguém, a rei nenhum, e nunca fui incomodada.

Depois do batizado, a Isabel e a Luisinha ficaram mais algum tempo hospedadas na minha casa, enquanto o João foi até Topo a pedido do padre Courdioux, que estava abrindo uma escola agrícola por lá. O padre queria a ajuda do João para começar uma plantação de coco destinada à produção de copra. Essa fazenda cresceu bastante durante certo período, mas não sei direito por que não deu certo, fechando há bem pouco tempo. Foi uma das paixões do meu filho e ajudava a sustentar a Missão, chegando a ter muitas crianças

morando lá, plantando coco, produzindo copra e farinha de mandioca, e criando galinhas, porcos, vacas e ovelhas.

Após o nascimento da Luisinha, perguntei à Maria Clara quando ela ficaria pejada, e a resposta não foi nada animadora, pois eu acreditava que não viveria muito tempo mais. Acredito que ela também pensou a mesma coisa e quis me dar a alegria de estar presente no nascimento do filho ou da filha da minha única filha, e quando o João e a Isabel comunicaram que estavam esperando o segundo filho, ela disse que também estava pejada. Foi uma noite muito alegre a daqueles comunicados, véspera de Natal de um mil oitocentos e setenta e oito, quando todos largaram suas casas e foram passar alguns dias comigo. Depois daquele Natal, isto se tornou um hábito e provocou uma situação bastante interessante alguns anos depois.

Tudo começou logo depois do nascimento do César, o segundo filho do João e da Isabel. A meu pedido, por eu estar cega e não sair de casa, quando estava em Lagos a Isabel sempre ficava comigo, e não na casa dos pais.

Menos de uma semana depois do parto dela, mandei buscar a Maria Clara, para que ela também tivesse o filho perto de mim. Acho que se eu não tivesse feito isso, ela não teria ido, sempre com as idéias de independência, querendo trabalhar até a última hora.

Mas o Beaulieu sabia muito bem cuidar de tudo e, para ajudá-lo, a Geninha pediu alguns dias de dispensa na Missão e assumiu as aulas da Maria Clara. A turma era pequena, não mais que vinte meninas, pois a Maria Clara disse que assim elas aprendiam melhor. Dois dias depois que ela chegou em casa nasceu o Maurice, e não gosto de me lembrar daqueles dias.

O parto nem foi tão difícil, e estive presente até o momento em que a aparadeira pegou a criança, disse que era um menino, mostrou à Maria Clara e depois o

colocou nos meus braços. Ajudada pela Jacinta, fiz com ele a mesma coisa que tinha feito com a Luisinha e o César, levei o meu neto até os quartos santos, rezei e o apresentei aos orixás e voduns. Depois, entreguei o menino para a Jacinta e permaneci no quarto dos voduns em silêncio, como fazia todas as vezes que queria tomar alguma decisão ou apenas estar em paz, sozinha.

Acho que fiquei lá dentro mais de quatro horas, e quando saí percebi uma estranha movimentação pela casa, muitos passos apressados e muitos sussurros. Tive certeza de que estavam me escondendo alguma coisa e fui direto ao quarto da Maria Clara, que não respondeu à minha pergunta sobre estar tudo bem. Foi a Jacinta quem me disse que ela estava dormindo, descansando, pois já tinha perdido muito sangue e continuava perdendo. Na hora eu soube que aquilo era coisa de abiku, e ninguém ainda tinha pensado nisso. Mandei que fossem atrás de todos os babalaôs e sacerdotes que encontrassem, dizendo que precisavam livrar uma mãe da força de um abiku do fogo.

Fiquei estranhamente tranqüila, porque tinha certeza de que ela seria salva; de algum modo eu já sabia o fim daquela história. Era como se eu tivesse dormido enquanto estava no quarto dos voduns, sonhado e recebido a visita da minha mãe ou da minha avó, não sei, pois senti a presença das duas, que me contaram tudo que ia acontecer. No sonho, como naquela hora, eu já sabia das complicações, mas que depois acabaria tudo bem.

Apareceram representantes dos orixás, dos voduns e dos santos católicos, todos juntos na minha sala ou no quarto da Maria Clara, e não falavam uns com os outros, mas respeitavam as respectivas crenças. O Beaulieu se assustou com a minha tranqüilidade, dizendo que, ao me observar, a sua fé era posta à prova, pois os seus santos não lhe davam tanta calma. Naqueles dias ele ficou o

tempo todo ao lado da cama da Maria Clara, saindo apenas nos momentos em que ela estava lúcida e perguntava por que ele não estava na escola cuidando dos alunos. Ele não parecia capaz de cuidar de coisa alguma, e foi a Geninha quem ficou responsável por tudo.

O sangramento não dava trégua e minha filha enfraquecia a olhos vistos, perdendo as cores e ficando só pele e osso, como eu tinha ouvido as pessoas sussurrarem perto de mim, quando achavam que, além de cega, eu tinha ficado surda também. Ela tinha leite e fazia questão de dar o peito à criança, embora todos desaconselhassem, dizendo que precisava guardar toda a força para si.

As pessoas pediam que eu conversasse com ela, dissesse que não podia, mas eu era a primeira a pegar a criança chorando de fome e colocar no peito da mãe, mesmo quando ela estava inconsciente ou dormindo. A Jacinta dizia que aquilo era errado, que a criança podia pegar a doença da mãe, mas eu e minha filha sabíamos que não era assim, e que seria bom ela amamentar aquele menino que precisava se acostumar com ela, precisava se acostumar com o ayê para não sentir tanta falta do Orum, precisava começar a gostar da mãe.

Dias depois, quando melhorou, a Maria Clara contou só para mim que tinha sonhado várias vezes com uma moça e uma velha, que disseram para ela ter calma e fé, pois tudo acabaria bem. Uns quinze dias depois do parto ela parou de sangrar, e mais uma semana já estava bem-disposta, embora muito magra e ficando cansada com qualquer atividade. Nesse meio tempo, escondido do Beaulieu, providenciei a cerimônia do nome para o meu neto, que o babalaô aceitou fazer no meu quarto dos orixás.

Encomendei também sacrifícios para Xangô e Nana, além de todos os rituais necessários para segurar abikus, como eu tinha feito com você. A primeira vez que a Maria Clara saiu da cama foi para ir ao batizado católico da criança, que o Beaulieu tinha pressa de fazer, talvez assustado com o estado de saúde da mãe, embora o menino estivesse forte e saudável. O batizado também foi feito na nossa casa, pelo padre Courdioux, uma cerimônia rápida e simples, na qual a Isabel e o João foram madrinha e padrinho do Maurice, compadrio que retribuiriam tempos depois, no nascimento da Catarina.

Mas muito antes do nascimento da Catarina, houve toda a confusão com a Adenike.

Duas esposas

Por causa de tudo que aconteceu com a Maria Clara no nascimento do Maurice, a Isabel, que também precisava de cuidados porque tinha dado à luz havia menos de uma semana, foi passar alguns dias na casa dos pais. Foi lá que as pessoas contaram para ela, pois na minha casa ninguém tinha coragem de nos incomodar. Ela tinha saído de Uidá quase dois meses antes do nascimento, porque seria arriscado deixar a viagem para a última hora. O João, assim que a viu bem instalada e bem cuidada, pegou o caminho de volta com a desculpa de que precisava resolver assuntos urgentes no trabalho.

Eu, que bem sabia como funcionava a Casas da Bahia, não entendia que houvesse assunto urgente que não pudesse ser resolvido a partir de Lagos mesmo, a não ser acompanhar alguma obra, o que não era o caso. Mas não falei nada porque não quis arrumar problemas para ele. Antes tivesse falado, porque, apesar de ter ficado do lado dele, de tê-lo apoiado porque era meu filho, eu não concordava com o que ele tinha feito. Mal a pobre da Isabel começava a sentir saudades do marido, ele já tinha colocado outra mulher dentro de casa, uma mulata muito bonita, ex-escrava do Chachá Julião que o João comprou e libertou, ou ganhou de presente, não sei e nem quis saber ao certo. O pai da Isabel foi conversar comigo, dizendo que ela não voltaria para casa enquanto meu filho não pusesse a outra mulher para fora. Mandei chamar o João e exigi que ele explicasse o que estava acontecendo, para saber que providências eu deveria tomar.

O João disse que gostava das duas, que a Isabel sempre seria a primeira mulher, a mulher a quem ele devia mais obrigações e que mandaria na casa. A outra era mais velha que o João e, de início, suspeitei que tivesse feito algum feitiço para prendê-lo, e muito bem-feito, porque meu filho estava decidido a não abrir mão da presença dela na casa. Pelo que ele me contou, o que era possível para um filho contar a uma mãe, ele gostava muito mais de se deitar com a Adenike do que com a Isabel, o que não foi surpresa nenhuma para mim, pois eu sempre disse a ele que a Isabel era muito nova, que não tinha como saber das coisas que exigem experiência.

Minha maior surpresa foi quando pedi que levasse a Adenike para conversar comigo e ele contou que ela não podia fazer viagens, pelo menos por enquanto, pois estava pejada e, segundo ela, de ibêjis. O João achava que era mesmo o pai, pois antes de se mudar para a casa dele, a moça, mesmo liberta, morava na casa do Chachá Julião, onde ele ia sempre se encontrar com ela. Isso acontecia desde antes do casamento com a Isabel, e ele sabia pelos guardas do Chachá que a moça não recebia visita de mais ninguém, a não ser dele e de mulheres da família dela. Eu não podia deixar desamparados aqueles meus dois netos, sagrados ibêjis, e percebendo a felicidade do meu filho, prometi conversar com a Isabel.

Quando chamada, a Isabel apareceu na minha casa junto com os meus dois outros netos, o pai, a mãe e três irmãos, que não queriam concordar de maneira alguma com a situação. Primeiro, deixei bem claro que estava do lado do meu filho, e depois contei sobre os ibêjis e

prometi que a Isabel seria sempre a primeira esposa, a que manda, e que muitos brasileiros já tinham adotado esse hábito africano de ter várias mulheres, e então eles mudaram de idéia. Não queriam perder aquele casamento, não queriam deixar de fazer parte da minha família, o que era motivo de muita honra.

Um dos empregados já tinha me contado que certa vez viu os pais dela entrarem em uma loja e, ao saberem que o comerciante não queria vender para pagamento a prazo, perguntaram se ele sabia com quem estava falando e disseram ser da minha família, que a filha deles estava casada com o João Andrade da Silva, filho da sinhá Luísa. A Isabel voltou para a casa de Uidá, os ibêjis do João nasceram em setembro, e em dezembro apareceram todos para celebrar o Natal na minha casa.

A Maria Clara com o Beaulieu e o Maurice, o João e a Isabel com a Luisinha, o César e mais um na barriga, e a Adenike com os ibêjis, que, na véspera da Epifania, foram batizados com os nomes de Cosme e Damião.

Fiquei bastante feliz, pois os três adultos e as crianças da família do João pareciam viver na mais completa harmonia.

A Adenike era uma mulher bastante simples e prestativa, que ajudava muito a Isabel, tratando dela quase como uma filha. A Maria Clara repreendeu o irmão, com o apoio do Beaulieu, mas ele estava feliz e, sendo assim, por mim estava tudo bem. Naqueles dias, logo após o ano-novo, o Beaulieu conseguiu fazer com que a Adenike fosse batizada antes dos filhos dela, recebendo o nome de Elisabete, mas continuei usando seu nome africano, tendo como desculpa os esquecimentos da velhice. Ela ficava feliz por conservar o nome dado pelos pais, que ainda moravam perto de Topo, onde ela tinha sido capturada. Eu gostava do jeito prático dela, que, como quem não queria nada, foi tomando conta da casa, das crianças, ganhando a confiança e o carinho de todos nós.

Naquele nosso primeiro Natal com a família aumentada, as duas noras ficaram um bom tempo na minha casa, e foi bastante agradável ter a presença de crianças. Elas permaneceram em Lagos porque o João tinha ido até Oshgobo ver uma fazenda da qual o Chachá Julião queria que ele cuidasse. Ou melhor, tinha arrumado para ele comprar, mas essa notícia ele só nos deu quando voltou, já com o negócio fechado. Naquela época, juntei mais dois arrependimentos aos vários que já carregava, quase todos em relação aos filhos. O primeiro, de não ter levado a sério a verdadeira vocação do João, que era cuidar de fazendas, como ele dizia desde pequeno e eu achava ser apenas influência do pai.

O outro, de ter dito à Maria Clara que gostaria que ela também me desse netos, porque talvez ela já intuísse que não deveria. Acho que ela não queria, pelo menos não naquele momento. Inclusive, nem se importou muito quando soube que não poderia mais ficar pejada, e até o Beaulieu estava bastante conformado, dizendo que Deus sabe o que faz, o que dá e o que toma. Por que será que tenho pelo menos um arrependimento em relação a cada um dos meus filhos? Arrependimentos por falta ou por excesso de zelo, mas nunca por falta de querer bem, e é isso que me consola.

Companhia

Quando as mulheres do João foram embora, senti muita falta delas, principalmente da Adenike, que, sem saber, já estava pejada de novo. Isso foi pouco antes de a Jacinta também voltar a Uidá para cuidar do Juvenal, que estava doente, na casa da Rosinha. Foi quando a Geninha se ofereceu para tirar mais uma licença e ficar comigo por um tempo, o que muito me comoveu, pois ela poderia muito bem ter escolhido ajudar a mãe a cuidar do pai. Eu não queria aceitar, pois sabia como ela gostava do que fazia, mas diante da insistência dela, que aqui ao meu lado não me deixa mentir, tive que ceder, e

confesso que com muito gosto.

Eu já estava acostumada com ela, que, sabendo da minha cegueira, não insistia em mudar as coisas de lugar, como fizeram algumas mulheres contratadas para tomar conta de mim. Conversávamos muito, ela lia em voz alta os livros e jornais de que eu gostava, discutíamos sobre eles, recebíamos visitas, e acho que ela também apreciava a minha companhia, porque foi ficando além do previsto. Nunca perguntei quando voltaria à Missão para não parecer que queria vê-la longe de mim, e ela aproveitava as manhãs, quando eu sempre dormia até tarde, para visitar alguns selvagens, falar sobre Deus e dar aulas de escrita e leitura. Mas sempre estava em casa quando eu me levantava, dizendo que se ela era os meus olhos, eu era a sua mão direita, a que ela não tinha e que, na verdade, nunca fez falta. Veja agora você, é com a mão esquerda, que deve estar mais do que cansada, que ela está escrevendo tudo isso.

Apesar da dedicação da Geninha, eu me sentia cada vez mais só, e, à maneira dos abikus, querendo voltar logo para o Orum. Desde o início eu tinha falado para a Maria Clara que o Maurice era um abiku, que ela precisava tomar cuidados especiais com ele, mas ela nunca acreditou, nunca levou a sério, e muito menos o Beaulieu, que dizia que certas coisas só aconteciam a quem acreditava nelas. Quando me falavam isso, eu me arrependia de ter criado a Maria Clara tão à brasileira, tão sem conhecer os segredos da África. Afinal de contas, era em África que ela tinha nascido e estava morando, e deveria saber que cada lugar tem as suas próprias crenças. Não estou falando sobre as crenças das pessoas, que isso a Maria Clara respeitava bastante, por conviver com pessoas tão diferentes.

Mas a crença do lugar mesmo, a que vem da terra, das árvores, do vento, das águas, do céu, da claridade e da escuridão. Como eu tinha muito tempo disponível, ficava

pensando em tudo isso, e era muito fácil perceber, pelo menos para mim, como a África era diferente do Brasil, mesmo para quem não podia "ver" essa diferença. Se de uma hora para outra eu pudesse estar em cada um dos lugares por onde já tinha passado, sem ser avisada qual era, com certeza poderia adivinhar. Sentir. Mas a Maria Clara não sabia disso e não fui capaz de fazê-la entender, e por isso ela não tomou os cuidados de que o Maurice precisava. Quando o menino ia me visitar só com a ama, uma africana, eu pedia a ela que fizesse as pinturas, que colocasse a tira de búzios amarrada no tornozelo dele e desse os banhos de ervas.

Mas tudo tinha que ser desfeito antes de eles voltarem para casa, pois a Maria Clara tinha avisado que ia despedi-la se ficasse sabendo que ela estava dando corda às minhas crendices. E assim foi até que o Maurice morreu, pouco tempo antes de completar sete anos, e nem mesmo então pude falar alguma coisa, repreendê-la, porque a dor dela já era grande demais, a dor que eu conhecia tão bem e que não tem igual no mundo.

Abiku

Sempre me pareceu que as mulheres do João disputavam para ver quem daria mais filhos a ele, pois tiveram uma criança atrás da outra. Luísa, César, Francisco, Maria Eulália e Maria Eugenia são os nascidos do casamento com a Isabel. Com a Adenike, Cosme e Damião, os ibêjis, a Catarina e a Romana.

Contando com o Maurice, da Maria Clara, eu tinha dez netos. Depois nasceu o Joaquim, que teve papel muito importante nas nossas vidas, e já conto o porquê.

Quando o João comprou a fazenda de Oshgobo e comentou que queria plantar cacau, contei que a família de um amigo da Bahia tinha fazendas de cacau.

Imediatamente, ele pediu que eu escrevesse para o tal amigo e perguntasse se ele podia dar algumas

explicações ou até mesmo fornecer mudas. Tentei tirar a idéia da cabeça dele, porque tinha perdido totalmente o contato com o Hilário desde a morte do Tico. Mas o João insistiu tanto que ditei uma carta para a Geninha e mandei para a Bahia, para o endereço da casa do Tico, pensando que desta maneira não obteria resposta. A surpresa foi geral quando, quase três meses depois, chegou uma carta do Umâncio, filho do Hilário, que estava morando na casa que tinha sido do Tico.

Eu não conhecia esse rapaz, nunca tinha ouvido falar dele, e nem sabia que o Hilário tinha filho. Na carta, o Umâncio contava da morte do pai e dizia que sempre teve vontade de me conhecer, que já tinha ouvido falar bastante de mim, como também tinha vontade de conhecer a África. Sem que convidássemos, ele se ofereceu para fazer a viagem, à própria custa, é claro, ele e a esposa, e ficar na nossa casa até esclarecer todas as dúvidas do João. A carta já levava a data marcada da viagem, e quando a recebemos, faltava menos de um mês para a chegada dos dois hóspedes indesejados, ainda mais porque iam desembarcar em Lagos, por causa da minha morada na carta, achando que o João morava comigo.

Mandei avisar imediatamente o João, para que estivesse em Lagos no dia da chegada deles. Pelo que me contaram, o Umâncio não se parecia com o Hilário, tinha a pele mais clara e o cabelo esticado, e o imaginei como o senhor Amleto, do Terreiro de Jesus. Levaram muitos presentes, coisas das quais eu já estava com saudades, mas que não compensaram o incômodo de tê-los em casa, com seus modos de brancos, arrogantes e desdenhosos, reclamando de tudo, das pessoas, dos bichos, do calor, da comida e dos criados. O João e o Umâncio foram para a fazenda, e a mulher dele, uma crioula de voz estridente e muito faladeira chamada Amélia Cristina, ficou perturbando a paz da minha casa, dando ordens e tratando a Geninha como se fosse uma

das escravas dela.

Tivemos um pouco de sossego quando ela conseguiu encontrar outra brasileira esnobe, que a levou para passar um tempo em sua casa. Por mim, queria mais era que ficasse por lá até a volta do marido, que só aconteceu mais de um mês depois da partida para Oshgobo.

Quando o Umâncio manifestou a vontade de passar mais alguns dias em África antes de retornar a São Salvador, eu disse ao João que não agüentava mais, que o levasse para Uidá. Na ida para Lagos, o João tinha levado o filho mais velho, o César, para passar alguns dias na casa dos outros avós, os pais da Isabel, onde havia muitos primos da idade dele. Quando estavam de partida para Uidá, os avós resolveram fazer um piquenique de despedida para o César, e o Maurice foi convidado. Aliás, o Maurice também estava passando uma temporada na casa dos avós do primo, divertindo-se um pouco, já que, por ser filho único, não tinha ninguém com quem brincar e ficava quase o tempo todo ao pé dos pais, na escola.

Durante o piquenique, feito em Ikoyi, os adultos se distraíram um pouco e não perceberam que as crianças tinham se afastado da área segura para nadar, entrando cada vez mais na região de mangue entre as lagunas.

Nem eu nem a Geninha fomos ao piquenique. Eu, porque não saía mais de casa, e ela porque ficou me fazendo companhia. Rezamos o dia inteiro, como se soubéssemos que estava para acontecer uma tragédia. Eu tinha acordado com um aperto no peito, comentei com a Geninha, ela disse que também não estava muito boa e me convidou para acompanhá-la em um rosário.

Aquilo me acalmou um pouco e resolvemos continuar, rezando um terço seguido de outro, esquecidas do tempo. Acho que esqueci até mesmo da reza, como se ela precisasse apenas do meu corpo, deixando a mente

livre para pensar nos problemas, ou para não pensar em nada, o que era melhor ainda.

Fomos interrompidas pela Amélia Cristina, que entrou na casa como se estivesse fugindo de todo o exército de amazonas do rei do Daomé e disse que tinha acontecido uma coisa tão terrível que nem tinha coragem de contar.

Ela se trancou no quarto e não falou mais nada, por mais que eu batesse na porta e insistisse em perguntar, até que desanimei e pedi que a Geninha fosse ter com a Maria Clara para ver se ela sabia de alguma coisa.

Preocupados e sabendo menos ainda, a Maria Clara e o Beaulieu foram para a minha casa, e estávamos todos juntos quando o João entrou, amparado pelo Umâncio e seguido por uma multidão de chorosos e curiosos.

Uma das coisas que mais me afligem é não poder olhar nos olhos dos meus filhos para saber o que eles estão sentindo, e naquele dia acho que teria visto a tristeza e depois o desespero do João quando notou a presença da irmã e do cunhado. Ele começou dizendo que a culpa era toda dele, que tinha se descuidado, que precisava ser punido, já que não morreu no lugar dos meninos. Depois disso, começou a chorar e não conseguiu falar mais nada, mas já sabíamos do que se tratava ao percebermos que o César e o Maurice não estavam com ele.

Tristes mortes

O primeiro a se recuperar e ter coragem de fazer perguntas foi o Beaulieu, e ficamos atônitos ouvindo a história contada pelo Umâncio. Ele disse que estavam no piquenique e algumas crianças apareceram gritando que o Maurice tinha se afogado. Quando os adultos chegaram ao local, não viram nem o Maurice nem o César, que, segundo as crianças que ficaram na beira da lagoa, tinha entrado na água para salvar o primo e afundou junto com ele. As crianças não sabiam de mais nada, a não ser que os dois tinham sumido nas águas

escuras da lagoa e não voltaram à tona. Alguns adultos entraram atrás deles, inclusive o Umâncio e o João, mas não encontraram nada.

Desistiram depois de procurar por mais de meia hora, sabendo que não era possível alguém sobreviver a todo aquele tempo debaixo d'água. Foi então que aconteceu outra coisa terrível, que até agradeço por não ter visto, pois a Maria Clara e o Beaulieu, sempre tão calmos e educados, começaram a gritar, acusando o João e o Umâncio de irresponsáveis. Ao ouvir a discussão, a Amélia Cristina saiu do quarto e gritou de volta com a Maria Clara e o Beaulieu, dizendo que os irresponsáveis eram eles, que não estavam por perto para cuidar do filho, pois ela, o marido e o tio não tinham tal obrigação, eles é que deviam estar pedindo desculpas ao João por terem levado o filho dele à morte também, na tentativa de salvar o primo. Não sei onde arrumei forças para interferir, mas, na hora, mandei que ela se calasse e saísse imediatamente da minha casa, que deixasse uma morada para onde eu mandaria as coisas deles mais tarde.

Quando ficamos apenas nós, os da família, mandei um dos empregados a Uidá para buscar a Isabel, mas sem contar o motivo. O João não parava de se desculpar com a Maria Clara e o Beaulieu, que àquela altura apenas choravam em silêncio. Pedi que permanecessem assim, calmos e calados, que não dissessem mais nada, pois, feridos e nervosos como estavam, poderiam se arrepender de muitas palavras mais tarde. Disse ao João que não se culpasse, que tudo era destino, que ele não teria como evitar aquilo nem se estivesse segurando os dois meninos pelas mãos, pois o chamado do Orum é muito forte. Depois que disse essa última frase fiquei arrependida, pois tive quase certeza de que a Maria Clara soube que eu estava falando sobre o fato de o Maurice ser um abiku, e ela não ter feito nada para segurá-lo conosco.

Algumas pessoas tinham continuado a busca na lagoa e chegaram com os dois corpinhos do jeito que tinham sido encontrados, um no abraço do outro, e meus dois filhos também se abraçaram, como se estivessem seguindo o exemplo. Não tivemos como evitar as visitas, os pêsames e as homenagens falsas e verdadeiras, e fizemos o funeral e o enterro das crianças o mais rápido possível, porque é muito triste ver corpinhos tão novos sem vida e sem frutos, como também tinha sido o caso do seu irmão, o Banjokô.

Depois que a Isabel chegou de Uidá e se despediu do filho, depois que os padres encomendaram os anjinhos e rezaram uma missa na sala da minha casa, mandei abrir uma cova no quintal e colocamos os dois juntinhos lá dentro, do jeito que estavam. No dia seguinte, quando já estávamos novamente só os da casa, plantamos um iroco por cima, para que pelo menos a árvore crescesse e desse frutos. Depois do enterro dos dois netos de uma só vez e depois que a casa voltou a ficar silenciosa, nunca entendi tão bem a sinhazinha quando ela dizia que queria morrer.

A Maria Clara e a Isabel nunca mais tiveram filhos. Do problema da minha filha nós já sabíamos, mas a Isabel parece ter enterrado a fertilidade junto com o César, mesmo fazendo várias oferendas a Nana, a Oyá e a Oxum. A única criança que nasceu depois disso foi o Joaquim, filho da Adenike, mas que foi criado pela Isabel, como se fosse filho dela, como se substituísse o filho morto. Hoje ele chama as duas mulheres de mãe, no que foi copiado por alguns dos outros irmãos ou meios-irmãos, os que ainda não tinham idade para achar a situação estranha.

Como uma compensação não pensada mas necessária, quando tiveram idade, todos foram mandados para a escola da Maria Clara, que ampliou as instalações para receber os meninos e criou outra ala, que é cuidada pelo

Beaulieu. E assim se passaram mais dez, doze anos, já nem sei, até o dia do casamento da Luisinha, a filha mais velha do João e da Isabel. Há muitas outras histórias nesse meio tempo, mas acabo de ouvir o apito do navio avisando que já chegamos, e, se ainda me lembro, temos mais alguns minutos até a aproximação e o trabalho do prático.

Guardando as esperanças

Se eu tivesse mais tempo e mais forças, gostaria de continuar contando tudo o que nos aconteceu enquanto as crianças cresciam, enquanto eu esperava a morte chegar e era cuidada pela Geninha com uma dedicação de filha, que é como a considero também, com o endosso da Maria Clara. Andei muito doente nos últimos três anos, e só não morri porque o encontro já estava marcado para daqui a pouco, assim que eu terminar esse meu pedido de desculpas.

Porque é assim que vejo tudo isso, como um grande mea-culpa. Muito maior do que o pedido ao João, à Maria Clara, ao genro, às noras e a todos os netos que foram se despedir de mim no porto de Lagos, onde eu e a Geninha tomamos este navio. Tentaram me convencer a ficar, argumentando que eu não agüentaria a viagem, que não teria como te encontrar e nem sabia se você ainda estava vivo ou morando no mesmo lugar, em São Paulo.

Mas nada disso teve importância, pois eu tinha certeza de que precisava vir, precisava te contar tudo que estou contando agora. Se vai chegar as suas mãos, também não sei, mas me lembro muito da história que foi vivida pelo pai do Kuanza, guardada pelo filho e escrita por mim, para depois sumir no meio da travessia desse mar.

Se alguém vai contá-la a alguém qualquer dia desses eu não sei, mas fiz o que tinha que ser feito.

Eu queria dar um presente especial à Luisinha, a primeira neta a se casar, e pensei que dentro do baú de coisas que eu tinha levado do Brasil poderia haver algo que tivesse a necessária importância. Isso foi há cerca de três meses, e o casamento se realizou em um desses dias em que eu já estava aqui no navio. Não pude esperar por ele, uma das únicas coisas de que tenho pena. Havia anos que eu não mexia naquele baú, desde a mudança para Lagos, e sabia apenas que estava guardado em um armário, no meu quarto.

Quando os ingleses desocuparam o escritório de Lagos, deixaram uma caixa cheia de papéis que o João nem abriu, achando serem coisas minhas, pessoais, pois nela estava escrito o meu nome, e não o nome da Casas da Bahia. Ele levou essa caixa para Lagos e me entregou, mas como todas as pessoas com quem eu me correspondia já sabiam da minha nova morada, tantos anos depois da mudança, eu também não quis abrir, achando que ia encontrar papéis do escritório, anotações antigas sobre casas já construídas. Quase mandei que jogassem a caixa fora, mas pedi que guardassem junto do baú, esperando que algum dia alguém pudesse ver para mim do que se tratava, mas acabei me esquecendo dela.

Quando a Geninha foi procurar o baú, acabou encontrando a caixa, e ao abri-la, além dos papéis de trabalho, como eu imaginava, viu três cartas remetidas de São Paulo, todas do mesmo ano, um mil oitocentos e setenta e sete, com intervalo de três ou quatro meses entre uma e outra. A primeira era mais um aviso, em que o filho do advogado amigo do doutor José Manoel dizia que tinha te encontrado e que em breve mandaria mais notícias. Na segunda carta, ele dava muitos detalhes sobre você, contando tudo sobre a sua vida, que você era amanuense e que também advogava em favor dos escravos, conseguindo libertar muitos deles. Que você estava casado, tinha filhos e era maçom, que escrevia

poesias e era muito respeitado por publicar artigos belíssimos e cheios de inteligência nos jornais mais importantes da cidade, e dava inclusive a sua morada.

A terceira carta pedia para confirmar se eu tinha recebido as duas anteriores e avisava que não escreveria mais se isso não fosse feito. A Geninha já teve que lê-las para mim tantas vezes que sabemos todas as três de cor, e se eu as tivesse esquecido, ela poderia dizê-las para você. Mas as três estão aqui comigo, como uma espécie de confirmação de tudo que te contei sobre a busca.

Lembra-se de que comentei que, enquanto andava atrás de você em São Sebastião e recebia cartas da Bahia, eu ficava olhando para elas durante um bom tempo antes de abrir? Eu retardava a abertura e ficava imaginando que ali dentro estaria o nome e a morada da pessoa para quem você tinha sido vendido, antegozando o momento de te encontrar.

Então, eu nunca pensei que retardaria por tanto tempo, por tantos anos, com o risco de não mais te encontrar onde é indicado. E nem ao menos pude aproveitar o tempo de contemplação imaginando o que elas trariam, pois não sabia que existiam. Também sou culpada de nos ter roubado mais estes anos, todos os que se passaram desde que você foi encontrado.

Depois que a Geninha leu as cartas que davam notícia do seu paradeiro, e depois que nos recuperamos do susto, da alegria, da tristeza, da incredulidade, nem sei, pois era tudo junto, ela achou mais uma carta. Também estava fechada, remetida por alguém chamado Esteban e datada de três meses antes da primeira carta do advogado de São Paulo. Sabe quem é o Esteban?

Lembra-se dele? O filho do Buremo e da Rosário, aquele que tinha aprendido comigo as primeiras letras. Já pensei demais nisso, e não tenho a mínima idéia de como esta carta chegou até Uidá. Minha morada pode ter sido fornecida pela sinhazinha, que fez segredo de

que tinha ido visitar meus amigos na casa da dona Balbiana, apesar de eu ter pedido para não ir. Ou eles podem ter enviado a carta para São Salvador, pois sabiam que eu era de lá, e, de São Salvador, alguém a enviou para Uidá. Isso até era possível, porque quase toda a Bahia sabia da existência em Uidá de uma Kehinde, ou de uma dona Luísa, ou sinhá Luísa, que tinha enriquecido depois de montar uma firma que construía casas. Bem, já não me importo mais em saber como ela chegou, mas apenas com as notícias.

Você deu alguma importância quando contei que o Maboke, aquele tatá kisaba que alugava um cômodo na casa da dona Balbiana, disse que os espíritos dos mortos perseguem seus assassinos, atrapalhando a vida deles por todo o sempre ou até que seja feito um trabalho de limpeza? Se você disser que sim, reconheço que minha culpa é maior do que eu imaginava, pois não me importei. Não pensei que aquele homem que tinha tentado me assaltar na estrada para o sítio onde morávamos em São Salvador estivesse incluído nesse tipo de espírito. Isto é, nunca me vi como uma assassina, apenas como uma pessoa se defendendo de outra.

Mesmo sem entender quase nada, a Geninha não me fez uma pergunta sequer, nem sobre o Piripiri, pois foi por causa dele que o Maboke conseguiu descobrir o que havia de errado na minha vida.

O que aconteceu foi que, ao ir embora de São Sebastião, em troca do lenço encarnado deixei para o Piripiri exatamente a bolsinha que estava usando naquela noite em São Salvador. Nem consigo imaginar o Maboke vivo trinta anos depois da minha partida de São Sebastião, mas foi isso que aconteceu, ele e o Piripiri vivos e ainda amigos, só não sei se morando no mesmo local. Por algum motivo qualquer, o Maboke tinha visto a bolsa entre os guardados do Piripiri e teve uma visão comigo, quando ficou sabendo de tudo que tinha acontecido e do quanto aquele espírito já tinha me prejudicado. Ainda

continua prejudicando, mas sei que logo vamos acertar as nossas contas. Vou procurar por ele no Orum, pois acho que a minha culpa por ter tirado a vida dele já foi expiada há muito tempo.

E ele ainda prejudicou você, te afastando de mim, dificultando a sua vida por causa das decisões erradas que eu tomava, às vezes até sem saber por quê. Será que isso explica nossos desencontros? Será que você acredita em tudo que acabei de contar? Espero que sim, e fico até pensando se não foi mesmo o melhor para você. Quanto a mim, já me sinto feliz por ter conseguido chegar até onde queria. E talvez, num último gesto de misericórdia, qualquer um desses deuses dos homens me permita subir ao convés para respirar os ares do Brasil e te abençoar pela última vez.

Fim.

EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO• SÃO PAULO 2006

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Gonçalves, Ana Maria

G624d Um defeito de cor / Ana Maria Gonçalves. - Rio de Janeiro:

Record, 2006.

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Ana Maria Gonçalves

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