Um Defeito de Cor

Ana Maria Gonçalves · Capítulo 12 de 12 · parte 2/4

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Um Defeito de Cor

Capítulo dez

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Despedida Os ibêjis partiram em um domingo, no dia dezessete de dezembro de um mil oitocentos e sessenta e cinco, na goeleta espanhola Assunción, e havia uma verdadeira multidão para se despedir deles. Aliás, desde a sexta-feira a nossa casa esteve cheia de visitas, gente que tinha se deslocado dos mais variados lugares, amigos com quem eu não me encontrava havia um bom tempo.

Tive a maior surpresa com a chegada da Jacinta levando o Abimbola e a Conceição, e aquela foi a última vez que vi os dois velhos amigos. Menos de um ano depois eles morreram, primeiro o Abimbola e logo em seguida a Conceição, sem qualquer doença aparente, apenas pelo cansaço de viver, o mesmo do qual a sinhazinha tanto reclamava.

Eu ficava pensando em como era estranho eu ainda chamá-la de sinhazinha, visto que era mais velha que eu, que já me sentia velha o bastante. Logo que acabou a festa, entrei no quarto e me sentei à secretária que tinha mandado colocar bem defronte da janela e escrevi para a sinhazinha, dizendo como me sentia, o quanto estava triste e feliz com a partida dos meus filhos, que, finalmente, estavam começando suas vidas. Passei a noite escrevendo e reescrevendo aquela carta, buscando as palavras certas, talvez por medo de acabar de escrevê-la e ficar na cama rolando de um lado para

outro, sem conseguir dormir.

Eu estava cansada, muito cansada; afinal, tinha recebido quase duzentas pessoas para jantar, amigos meus e dos ibêjis. Depois do jantar, todos ficaram para apreciar a Burrinha e a banda de músicos que mandei buscar em Porto Novo, e apareceram mais alguns curiosos que dançaram e cantaram até bem mais de meia-noite. Antes disso eu já tinha mandado as crianças para a cama, para que estivessem descansadas no dia seguinte, mas pelo menos o João eu sei que pulou a janela e voltou a se encontrar com os amigos na praia.

Era uma despedida, e não me preocupei em chamar a atenção dele no dia seguinte; até achei bom que tivesse se divertido, porque teria muitas preocupações e muito estudo pela frente. O navio partiria logo depois do almoço, e fiz questão de ir até a cama de cada um deles, acordá-los e perguntar se era aquilo mesmo que queriam, se estavam certos daquele caminho para suas vidas. Não sei o que faria se dissessem que não, mas preferi perguntar, até para me isentar de qualquer culpa em caso de arrependimento quando já estivessem na França. A Maria Clara estava muito mais segura do que o João, pelo menos aparentemente, muito alegre com a oportunidade que se apresentava.

Por causa da felicidade dela, percebi que eu teria dado tudo o que consegui na vida para ter proporcionado a você as mesmas alegrias. Havia um cômodo na casa, como no solar da sinhá Ana Felipa, que era quase como uma continuação do quarto principal, e foi lá que tomamos o nosso pequeno almoço, somente nós três, eu, o João e a Maria Clara, quando aproveitei para dar a eles as últimas instruções e recomendações para a viagem. O

acompanhante ficaria algum tempo na França, até que saísse o resultado do teste de admissão e até que meus filhos se acostumassem ao lugar e às pessoas com que teriam que conviver.

Eu tinha pedido que ele ficasse pelo menos seis meses, para ter certeza de que os ibêjis saberiam onde e com quem procurar ajuda, caso precisassem. Depois disso, eles seriam assistidos somente por uma espécie de tutor, um representante de uma casa comercial francesa com a qual eu já tinha feito negócios e que, mediante pagamento, ficaria responsável por administrar o dinheiro mandado para a França a cada três meses, pagar todas as despesas deles e dar a quantia de que eles precisavam para os gastos pessoais, precisava entregar aos deuses e confiar nas minhas crianças, confiar que elas fariam o melhor que podiam fazer, cada qual de acordo com seus ideais e à sua maneira, já que eu não estaria por perto.

Como toda ajuda seria muito bem-vinda, procurei um babalaô e uma vodúnsi, que foram até a minha casa e fizeram oferendas nos quartos dos santos para que tudo desse certo. Fora o período em que o João trabalhou naquela fazenda, ele e a Maria Clara nunca tinham passado muito tempo longe um do outro, e o presente do Abimbola foi muito oportuno, um lindo pingente para cada um. O da Maria Clara representava o João, e o do João representava a Maria Clara.

Era imperdoável que eu ainda não tivesse pensado nisso, como a minha avó tinha feito quando fui separada da Taiwo com a morte dela. Seria um jeito de eles estarem sempre juntos, mesmo separados. Apesar de estarem a curta distância, o padre Jean-Pierre comentou que não se encontrariam freqüentemente, cada qual com seus afazeres e morando em locais onde o outro não poderia entrar, próprios só para moças ou para rapazes.

A despedida foi bastante triste, acompanhada por mim, pela Aina, pela Geninha, pelos padres Bouché e Borghero, alguns convidados da festa do dia anterior e os curiosos. O Assunción era um navio grande e me pareceu novo, bem conservado, robusto para enfrentar

os perigos do mar, o que me acalmou um pouco. Havia dois escaleres em serviço, mas eu tinha alugado outro, para que todos os convidados pudessem ir a bordo sem que atrasássemos o embarque dos passageiros. Foi assim que ficamos dentro do navio até o último minuto permitido, até que o capitão foi pessoalmente pedir nossa retirada e me tranqüilizar, dizendo que daria atenção especial aos meus filhos.

No navio eu estava me sentindo bastante estranha, e por mais de uma vez cheguei a pensar em pedir que desistissem da viagem, que ficassem comigo em Lagos.

Mas sabia que aquela seria uma atitude bastante egoísta e tratava de me abraçar a eles, um de cada lado, sem saber quando estaríamos juntos novamente daquele jeito. Os dois ficariam juntos no mesmo país, na mesma região, na mesma aventura, mas eu estaria sozinha.

Depois de ver o navio virar apenas um pontinho contra o mar e o céu, fui para casa pensando se aquela não seria uma boa época para visitar o Brasil, ficar alguns dias com a sinhazinha em São Sebastião ou na Cidade Imperial de Petrópolis, onde ela passava temporadas, pois tinha herdado a casa pertencente à sinhá Ana Felipa. Mas depois achei melhor esperar um pouco, até que os ibêjis estivessem perfeitamente adaptados à nova vida.

Vida em Lagos

Preciso ser breve, pois o tempo está acabando, mas interrompo um pouco nossa história para te contar o que aconteceu em África até o presente momento, este em que relato tudo à Geninha. Eu sempre tive notícias do Brasil, seja por intermédio da sinhazinha ou das filhas dela, sei tudo que aconteceu, e gostaria que você também soubesse sobre a África, a terra que talvez pudesse ter visitado ou onde teria morado comigo. Vou fazer isso em separado para tentar não me alongar muito

comparando

acontecimentos

gerais

com

acontecimentos pessoais. Eu deveria deixar este relato por último, por não ter tanta importância caso não dê tempo, mas não resisto, pois quero que você leia por último as coisas que me são mais caras, as que eu realmente queria que você compreendesse.

Logo depois da partida dos ibêjis, correu em África a notícia de que o Brasil estava em guerra com o Paraguai, e não foram poucos os brasileiros dispostos a participar das batalhas, para onde diziam que estavam sendo enviadas grandes quantidades de escravos que, se sobrevivessem, ganhariam a liberdade. Mas acho que ninguém chegou a embarcar, nem os que se gabavam de, no Brasil, serem reconhecidos como valentes e guerreiros, os deportados por causa das rebeliões e que por sinal, àquela altura dos acontecimentos, já estavam bem velhos. Nos dois anos seguintes, minha casa foi bastante frequentada pelo padre Bouché, e finalmente, em mil oitocentos e sessenta e oito, ele conseguiu instalar a Missão Francesa em Lagos, para onde foram também alguns padres de São Tomé.

Isso aconteceu bem perto do Natal e, para nossa alegria, foram feitas celebrações como as que eu tinha visto em São Salvador, com altar preparado, missa à meia-noite, ceia e tudo o que os brasileiros quiseram, para competir com o Christmas dos sarôs, cujas igrejas também viviam lotadas. Na missa inaugural, o padre comentou sobre a instalação da escola, para a qual esperava contar com a colaboração dos presentes. Não éramos muitos porque não cabia muita gente dentro da igreja modesta, que decepcionou a todos, uma minúscula construção de bambu na Broad Street.

Esse casebre foi motivo de vergonha frente às enormes churchs dos protestantes, e hoje acredito que foi esse mesmo o propósito dos padres, que queriam fazer com que contribuíssemos com muito dinheiro. Se foi isso, deu certo, pois logo um novo prédio foi erguido em Oke Ite,

ainda modesto, mas muito melhor, para o qual forneci trabalhadores e material. Naquela época, estimulada pelos padres que continuaram a se hospedar na nossa casa, apesar de já terem o alojamento da Missão, voltei a freqüentar a igreja.

Participava da festa de Natal, da procissão do Corpo de Cristo, da Epifania, da cantata do ofício de Nossa Senhora, que acontecia depois da missa do sábado, e das novenas, sobretudo a da Imaculada Conceição, a mais concorrida, a mais bonita, tão grandiosa que até parecia a festa da Nossa Senhora da Praia, em São Salvador.

Para enfeitar a igreja, os comerciantes brasileiros mandaram buscar na Bahia quadros e estátuas de Santo António, São Francisco e São Benedito, entre outros, todos os paramentos e quatrocentos lampiões que, acesos ao mesmo tempo, lembravam fogo de vista.

A igreja de Oke Ite ficou linda, mesmo pequena, e seria substituída, alguns anos depois, pela catedral construída com tijolos fabricados em olaria que ajudei a montar no terreno doado pelo governo de Lagos, em Ebute-Metta.

Estive muito empenhada na construção da catedral, inclusive mandei buscar no Brasil um dos mestres-de-obras, o que finalizou a construção depois que o primeiro se desentendeu com o padre supervisor. O

altar-mor e a cátedra do bispo foram esculpidos pelo carpinteiro Baltazar dos Reis, que também fazia trabalhos para mim, o mais hábil carpinteiro que já conheci, que fazia objetos, móveis e enfeites que ganhavam todos os concursos dos quais ele participava.

Da festa inaugural da obra, quando todos nós carregamos tijolos de Ebute-Metta, do outro lado da laguna, até o terreno de Oke Ite, seguidos por banda de música e pelo governador de Lagos, até o dia da inauguração, foram três anos, quando então houve uma festa maior ainda. A catedral não saiu como os padres

planejavam porque, nos últimos meses, e com o mais caro por fazer, as doações rarearam, afetadas pelos tempos cada vez mais difíceis. A Inglaterra, um dos países que mais negociavam com a África, passou por uma grande recessão, começada em um mil oitocentos e setenta e três, que afetou demais o comércio do óleo de palma.

O preço já estava ruim, com os fazendeiros e comerciantes dizendo que quase não tinham lucro algum, mesmo quando imitavam o que os ingleses faziam com a bebida que nos vendiam, isto é, misturando várias coisas ao produto para fazê-lo render mais. Os comerciantes da costa estavam sendo ainda mais afetados porque de novo os fazendeiros do interior queriam

negociar

diretamente

com

as

casas

exportadoras estrangeiras. Eles davam um jeito de interditar as rotas comerciais e os mercados, e para reabri-los impunham os preços pelos quais queriam vender seus produtos.

Uma das boas conseqüências da abertura da escola católica em Lagos foi que aumentou o número de fiéis brasileiros e até mesmo de selvagens, pois em Lagos, ao contrário do que acontecia em Uidá, não era proibido converter selvagens. Mas quando se convertiam, eles passavam a ser considerados estrangeiros, já que o rei entendia que tinham renunciado ao país, à cultura e à religião, adquirindo modos estrangeiros. Eram todos católicos e pertencentes a uma nova nação, e muitos se convertiam e aprendiam a falar português somente por causa disso, para serem aceitos como brasileiros, muito mais valorizados.

Mas não era uma conversão verdadeira; muito pelo contrário, era cheia de interesse, como tinha acontecido com os muçurumins em África ou no Brasil, convertidos somente para se sentirem, de acordo com a palavra do profeta, homens iguais a todos os outros homens, pretos

ou brancos, livres ou escravos. Entre os muçurumins, a separação de brasileiros e selvagens era muito maior, pois uns não aceitavam a conversão dos outros, principalmente os selvagens, que duvidavam da fé dos brasileiros e até mantinham mesquitas separadas.

Voltando à escola da Missão Francesa, não eram muitos os franceses que falavam outras línguas além do francês e do inglês, e por isso, quando estavam tentando converter brasileiros e selvagens, tiveram que convocar professores e catequistas que falassem português e línguas africanas.

Eles aproveitavam alunos que já tinham se formado nas escolas de Uidá ou de Porto Novo, e o padre Bouché garantiu que a Maria Clara tinha lugar reservado quando quisesse, principalmente depois que começaram a oferecer ensino próprio para moças e, mais tarde, até uma escola separada só para elas. Isso aconteceu com a chegada das freiras missionárias, que acabaram com a escola mista e tinham mais de cinqüenta alunas dos mais variados locais e idades, o que era um bom número.

Entre os missionários franceses e os administradores ingleses, ao contrário do que se poderia imaginar, não havia grandes conflitos, porque nenhum deles queria se indispor conosco, os brasileiros, que nos dávamos bem com ambos os lados. Os religiosos precisavam do nosso dinheiro e da nossa fé, e os administradores precisavam da nossa capacidade de trabalhar e de usar técnicas que selvagens e sarôs não conheciam, principalmente na agricultura. Para os sarôs, os preguiçosos, ficavam os cargos administrativos, e para nós, os brasileiros, o trabalho, a inteligência e a iniciativa que faziam a África crescer. Um dos governadores com quem me dei melhor foi o Sir Alfred Moloney, um homem sábio e gentil que ficou em Lagos por muitos anos e enfrentou períodos de grandes dificuldades, sempre muito justo e enérgico, como precisava ser.

Foi ele quem fundou a Estação Botânica de Lagos, pois

dizia que os comerciantes e fazendeiros não podiam ficar dependentes de um só produto, no caso- a palma. A Estação cultivou mudas de café, de cacau da Bahia e de algodão do Egito, além de árvores para a produção de borracha e de madeiras nobres. Foi ele também quem instalou uma grande novidade, com a qual todos nos maravilhamos e que nos colocou em contato direto com a Inglaterra, o telégrafo. Mais tarde, seguindo um projeto que ele tinha começado, nos surpreendemos com as estradas de ferro que começaram a cortar o interior, acompanhando as principais rotas comerciais.

Enquanto o Sir Moloney espalhava o progresso pelo interior, os missionários espalhavam as missões.

Abeokutá, Oyó, Ijebu... Não sem grandes dificuldades para converter os pagãos, a não ser por algumas crianças que eram dadas para que os padres cuidassem ou como garantia de empréstimos em dinheiro, que eles também

faziam

para

complementar

os

parcos

rendimentos que ganhavam dos brasileiros ou recebiam da França. Quanto mais entravam pelo interior, fora das rotas comerciais, mais distantes os selvagens estavam do que eles chamavam de "palavra de Deus".

Os problemas entre brasileiros e ingleses começaram a aparecer depois do governo do Sir Moloney, e ocorreram porque nós, os brasileiros mais ligados à política, que participávamos ativamente das associações, achávamos que o governo inglês seria transitório, que logo estaríamos ocupando cargos mais importantes. Como isso não aconteceu, e depois que o governo britânico tornou obrigatório o ensino em inglês em todas as escolas da colônia e o uso da libra como moeda única, abrindo inclusive um banco, acabamos nos unindo aos selvagens. Era o que nos restava, pois inicialmente os sarôs estavam do lado dos ingleses.

Apoiando os selvagens, começamos até mesmo a nos interessar um pouco pela cultura deles, ou fingíamos nos interessar só para aborrecer os ingleses, e alguns jornais até publicaram textos em línguas africanas, principalmente em iorubá. Comemoramos com muita festa o primeiro número do jornal Iwe Irohin Eko, editado pelos sarôs mais rebeldes, que tinham os mesmos textos em inglês e em iorubá. Isso de alguns sarôs se unirem a nós foi muito bom, e era interessante ver que o desentendimento deles com os ingleses nem era tanto político, como o nosso, mas sim religioso, principalmente com a Church Missionary Society.

Eles chamavam de "cisma", e primeiro foram os batistas, depois os anglicanos e os metodistas que fundaram religiões independentes. Os missionários franceses tinham muito medo de que isso acontecesse também com os católicos, mas era um medo infundado, pois gostávamos de ser católicos, brasileiros e estrangeiros, sempre unidos.

Havia muitos jornais em Lagos, o Anglo-African, de que já te falei e que durou pouco, o Lagos Times, o Lagos Observer, o Lagos Standard, e mais alguns que também não duraram muito tempo, como foi o caso do Iwe Irohin Eko. Mandei muitos exemplares desses jornais para o Brasil, para a Carolina, a filha mais velha da sinhazinha, pois ela não acreditava que tínhamos tantas atividades em Lagos. Acho que ainda hoje muita gente do Brasil faz uma idéia errada de como vivemos, imaginando que, ao retornar, voltamos a ser selvagens. Nunca foi assim, temos muitos bailes nas associações, com música e músicos brasileiros, muitas festas de batizados, noivados e casamentos, tudo muito distinto e luxuoso, no Glover Memorial Hall, com reportagens em quase todos os jornais da região.

Temos muitas lojas com artigos bonitos e importados, além de caros, ao longo da Campos Square, da Campbell Street, da Kakawa Street, da Bangbosh Street e da Tibunu Square, onde também fica o Restaurant do

Rocha, hotel e restaurante simples, mas muito bem administrado. É lá que se hospedam quase todos os estrangeiros que passam por Lagos, e nem se queixam muito, dizendo que já tinham ficado em lugares piores, mesmo na Europa. Quase tudo isso de que estou falando era e ainda é administrado pelos brasileiros, como só haveria de ser. Temos também um hipódromo muito ativo e confortável, com até dois animados scratch meetings por semana, celebrados com almoços ou teaparties.

Eu tenho dois cavalos, dois grandes vencedores, o The Thunder e o Sunset, em homenagem a Xangô e ao navio inglês no qual voltei à África. Não tive esse problema por ter voltado em navio de carga, com poucos passageiros, mas muitos brasileiros dão os nomes dos seus navios aos cavalos e por isso há vários nomes repetidos, no caso de um navio que transportou muita gente. Há também alguns navios com nomes bem populares, ou porque dão sorte nos páreos ou porque mais retornados neles tinham enriquecido, e estes batizam vários cavalos que às vezes caem na mesma corrida e precisam ser apelidados de Primeiro, Segundo, Terceiro, e assim por diante. Fica até parecendo nome de rei ou de rainha.

Mas gostei mesmo foi quando surgiram os ríckshaws para alugar, que muito me fizeram recordar das cadeirinhas de arruar de São Salvador e de São Sebastião do Rio de Janeiro. Tão logo descobri o contato do fabricante, tratei de comprar o meu, lindo, um modelo inglês, laqueado e acortinado, que despertou muita inveja. Hoje já tenho uma carruagem, maior e mais luxuosa, mas às vezes ainda gosto de usar o rickshaw. As brasileiras de Lagos também andam muito bem-vestidas, com roupas e acessórios da França, da Inglaterra e do Brasil, sempre na última moda. Participei de grandes festas no Glover Memorial Hall, no Phoenix Hall e no Carvalho Hall, como representações

dramáticas e concertos musicais de companhias da África mesmo, como a da Escola Católica, ou visitantes de várias partes do mundo.

Entre as apresentações mais bonitas, eu me recordo de uma escrita para comemorar o aniversário de D. Pedro II e outra para o jubileu da rainha Vitória, as duas organizadas por nós, os brasileiros, que recebemos carta de agradecimento da própria rainha. A Companhia Dramática Brasileira, de Lagos mesmo, está sempre apresentando pequenas comédias, dramas, cantigas, números de violão e de violino, tudo organizado pelas Sociedades, mas seu grande sucesso foi a comédia de Molière, "Le Bourgeois Gentilhomme". Esta peça também foi apresentada em outras cidades, sempre muito aplaudida, o que nos encheu de orgulho.

Outra grande festa foi quando a Catedral ganhou nova pintura para receber a visita de um bispo, que ainda participou de três festas e um banquete inesquecível, como ele próprio disse, mesmo estando acostumado às melhores mesas da Europa. Mas nada superou a alegria da festa que comemorou a libertação de todos os escravos do Brasil, em um mil oitocentos e oitenta e oito, quando o governador Sir Moloney disse que mandaria vapores para buscar todos que quisessem voltar para Lagos. A essa festa, realizada na praça da Catedral, não compareceram somente os brasileiros, mas foi motivo de diversão também para sarôs, estrangeiros e selvagens.

As viagens dos vapores ingleses para buscar brasileiros não deram muito certo. Depois de duas ou três com a lotação completa, já não havia mais muita gente querendo retornar, ou as pessoas não sabiam, mas a quantidade de passageiros não foi mais suficiente para continuar justificando despesa tão grande. Um dos retornados me contou que nem todos os libertos queriam voltar para a África, preferindo aproveitar a liberdade no país onde tinham sido escravos, talvez

algum tipo de vingança, uma afronta aos antigos donos.

Mas sempre um ou outro estava retornando, aos poucos, com passagens compradas em navios que faziam comércio, e novamente toda a comunidade se reunia no porto para receber possíveis parentes, amigos ou conhecidos. Nos dias de chegada de navio não havia aula e o comércio fechava, pois as pessoas preferiam adquirir mercadorias que acabavam de chegar do Brasil. Às vezes aparecia alguém na minha casa pedindo ajuda em dinheiro para desembarcar a bagagem de algum brasileiro, pois os administradores ingleses cobravam taxas elevadas de importação das mercadorias que chegavam ao porto, mesmo as acompanhadas e de pequena monta, o que incluía a bagagem pessoal.

Estranhamente, eles adotaram esse hábito mesmo depois de terem brigado muito para que os reis africanos o abandonassem, alegando que ele dificultava a ida de mais brasileiros para Lagos.

Tudo o que se comenta ultimamente, e devo dizer que estamos no dia vinte de setembro de um mil oitocentos e noventa e nove, é a viagem do Aliança, um velho patacho que já tinha feito inúmeras viagens Lagos—São Salvador. Um dos desentendimentos recentes que tive com os seus irmãos foi por causa dessa última viagem do Aliança, da notícia e da tristeza que ele levou até Lagos em junho deste ano. A Bahia está sofrendo com uma epidemia de febre amarela e os navios que saem de lá têm que carregar boletim de saúde para todos os passageiros e tripulantes, mas na pressa de viajar ou por irresponsabilidade mesmo, o capitão Ao Aliança arrumou atestados falsos para todos os viajantes.

Deu azar, porque um ou alguns deles estavam com a febre, que rapidamente se alastrou, matando onze passageiros durante a viagem e mais um depois que o patacho ancorou em Lagos. Sabedoras do que estava acontecendo, as autoridades de Lagos não deixaram que

ninguém fosse à terra e mandaram outra embarcação para recolher os passageiros, a bordo da qual eles tiveram que ficar de junho até o início deste mês, quando um oficial-médico britânico achou que não haveria mais problemas. Antes, as autoridades tinham se esforçado para fazer com que o capitão retornasse à Bahia com tudo o que tinha levado, mas não conseguiram convencê-lo.

Quando os passageiros e tripulantes finalmente foram autorizados a desembarcar, foi sem os pertences, que tinham ficado no Aliança e possivelmente estavam contaminados.

Houve

grande

comoção

e

uma

mobilização em Lagos para ajudar os retornados, pois eles perderam tudo o que tinham, economias de uma vida inteira, em dinheiro ou em mercadorias, como cachaça, tabaco e carne-seca, e também todas as roupas e objetos de uso pessoal. Antes de embarcar ainda fiz mais uma coisa por eles, doei tudo o que era de uso pessoal e exclusivo meu, como as roupas e os sapatos que não trouxe comigo agora e que nunca mais usaria mesmo.

O relato

Tive muita pena, todos nós tivemos, e foi por medo da febre amarela que o João e a Maria Clara não queriam que eu e a Geninha embarcássemos para o Brasil. Por mim, sei que não há perigo algum, essa febre não terá tempo de me pegar, mas temo por ela, que eu nem queria que viesse, como se não a conhecesse, como se ela não vivesse fazendo sacrifícios por mim, dizendo ser em paga de tudo que já fiz por ela. Mas não há o que pague esta companhia, e vou morrer devendo muito, pois acho que ninguém sabe o valor que esta viagem tem para mim. Às vezes fico pensando no que há de errado com os seus irmãos, que se preocuparam com a tal febre a ponto de ameaçarem me trancar em casa, se eu continuasse insistindo em fazer essa "loucura", como

eles disseram quando me despedi.

Para avisar o João eu mandei uma carta, mas três dias depois ele estava em Lagos e, junto com a irmã, fingia não entender meus motivos para atravessar o Atlântico a essa altura da vida, depois de ter deixado passar tantas oportunidades quando era mais nova e tinha saúde, com os três sarôs, nos vapores britânicos ou em qualquer outro navio que eu quisesse. Eles sempre souberam de você, e durante todos esses anos acompanharam meus esforços para encontrá-lo, e apresentaram argumentos que achavam razoáveis para me provar que já era tarde demais. Mas o que é razoável para mim nem sempre é o certo, e foi só quando eu disse que partiria mesmo sem a concordância deles, pois não precisava dela, que perceberam que não adiantava insistir.

Tive a idéia de fazer este relato três dias antes da partida, quando pedi a ajuda da Geninha e mandei comprar papel. O que eu imaginava ser uma carta de dez, doze páginas, porque sabia que não viveria até te encontrar, já se transformou em tantas que nem temos coragem ou tempo para contar, colocadas em uma pilha enorme aqui ao lado da minha cama. Sorte que percebemos isso ainda antes de embarcar, quando então mandei comprar mais papel, muito mais, a Geninha acaba de me avisar que nem foi tão exagerado quanto imaginamos a princípio.

Passando os dias dentro desta cabine, ditando o que ela vai escrevendo, somente agora, no final da viagem, é que começo a pensar no que significa voltar ao Brasil, embora eu nada vá ver dos lugares dos quais ainda me lembro. A Geninha verá por mim, e também fica encarregada de fazer com que tudo isto chegue às suas mãos, e sei que ela o fará, mesmo tendo pistas que, de tão velhas, podem não ser de grande ajuda. Mas antes de falar disso, tenho que te contar o que me levou a fazer essa viagem em tais condições, e preciso voltar

àqueles últimos dias de um mil oitocentos e sessenta e cinco, quando seus irmãos embarcaram para Paris, deixando-me sozinha em Lagos.

Não que eu esteja me queixando, mas acho que eles nunca deram muito valor ao meu sacrifício, ao quanto foi penoso deixar que partissem depois de ter perdido todos os outros filhos.

Notícias

Esperei dois longos meses pelas primeiras notícias, cartas do padre Jean-Pierre e da Maria Clara. O padre contava da excelente viagem e que já tinha procurado a pessoa que ficaria responsável pelos ibêjis quando ele fosse embora, e que naquele momento estava começando a levá-los para conhecer muitos lugares bonitos de Paris. De fato, a carta da Maria Clara dava conta de que estavam adorando a cidade, muito maior e mais bonita do que imaginavam. Encantaram-se com os modos e a elegância das pessoas, e a beleza, a altura e a grandeza dos prédios e das pontes, como o João tinha mandado me dizer, provavelmente pensando em fazer igual quando voltasse à África.

Já a Maria Clara preferia falar dos jardins e dos parques, e tinha gostado principalmente dos passeios a Montmartre, ao Pandiéon, à Praça Vendôme, aos diversos palácios da cidade e arredores, e ao interessante Père Lachaise. Lembro-me de que na segunda carta ela comentou que riu bastante depois de ter lido a minha pergunta sobre o Père Lachaise, se era algum missionário que o "Père" Jean-Pierre tinha apresentado a eles. Mas tenho a meu favor o fato de ela só ter comentado na segunda carta que o Père Lachaise era um lugar, um cemitério, coisa que quase nem tínhamos em África e que ainda me traz recordações de maus momentos no Brasil, por causa da Cemiterada, que tinha causado a minha prisão e depois a fuga, sem nem

saber do quê.

Nem sempre o João a acompanhava em tais passeios, pois estava estudando bastante para passar no teste de admissão da École Polytechnique. A terceira carta da Maria Clara, cinco meses depois de terem chegado a Paris, avisava que ele era o segundo aluno africano aceito na instituição, fazendo com que eu me sentisse muito mais orgulhosa do que já estava só com o esforço que ele fazia. Mais três meses, o padre Jean-Pierre estava de volta a Lagos e me tranqüilizou bastante, dizendo que tinham ficado em boas mãos e estavam gostando muito dos cursos e da nova vida. Continuei recebendo notícias por intermédio da Maria Clara, que escrevia de duas a três vezes por mês, falando também do irmão, que ela via no último fim de semana de cada mês. Do João, durante todos aqueles anos, nunca recebi carta, mas também já esperava, ainda mais tendo quem desse notícias por ele. Foi muito difícil ficar longe deles, principalmente quando eu me lembrava de que não tinha me dedicado muito a ser uma boa mãe quando eram crianças, preocupada com os negócios e com a Casas da Bahia.

Para passar o tempo, eu lia muito os livros mandados pela sinhazinha, e pouco tempo depois pela Carolina, que sempre se gabava e me agradecia por ter dado nome a uma personagem famosa, pois o doutor Joaquim tinha se tornado um dos escritores mais famosos do Brasil. Eu também escrevia bastante, muitas e longas cartas, pelo menos três por semana, sentindo-me velha para ter outras diversões e, ao mesmo tempo, feliz por poder usar minha velhice para fazer o que bem quisesse, somente as coisas de que mais gostava. Depois de ter trabalhado tanto, por tanto tempo e quase sem descanso, uma preocupação atrás da outra, eu simplesmente esperava a vida acabar de dizer a que tinha vindo, torcendo para receber a notícia que agora

sei que já me esperava. Agora vejo que a lyd Kumani estava certa, ela e o Prudêncio, que tinham falado que o momento estava próximo, que o destino não falharia, embora eu já nem acreditasse nisso ultimamente, tenho que confessar.

Não sei onde arrumava tanto assunto para tratar com a sinhazinha, mas os dias chuvosos ou os que eram refrescados pelo vento harmatã, uma desavença entre os empregados da casa ou algum desconhecido que eu via pelas ruas ou pela praia, qualquer coisa era motivo para linhas e mais linhas. A sinhazinha também parecia ter tempo e solidão de sobra, pois as cartas dela eram tão longas e pensativas quanto as minhas. Digo pensativas porque mais pareciam uma conversa do que uma carta, uma conversa com um espelho ou algo assim, como se estivéssemos pensando em voz alta, sem a necessidade de alguém para nos ouvir.

As cartas para a Maria Clara eram diferentes, eu tentava não demonstrar a falta e a tristeza que sentia, e falava apenas de coisas que podiam interessá-la ou ao João, como notícias dos amigos que tinham ficado, das visitas que eu recebia e das festas, e depois comentava algo sobre

a

última

carta

recebida,

aconselhava,

recomendava e abençoava. Ela tinha muito mais novidades para contar, e era bom compartilhar as descobertas de uma pessoa tão curiosa como ela. Foi com ela que comecei a me interessar por Filosofia, palavra bonita da qual o padre Borghero me explicou o significado.

Ela falava muito mal de Rousseau, um filósofo para quem as mulheres nunca poderiam almejar igualdade com os homens, para quem as mulheres não deviam estudar, ao contrário do que diziam dois outros de quem ela sempre me falava muito bem, acho que Condorcet e Diderot.

Anos franceses

No final de um mil oitocentos e sessenta e nove, a Maria Clara estava formada professora, mas não quis voltar para casa, dizendo que esperaria pelo irmão. Insisti um pouco, mas logo percebi que não adiantaria nada, pois, além da curiosidade, ela tinha herdado a minha teimosia. Mas eu queria que ela voltasse logo porque receava que estivesse passando da hora de se casar, pois quase todos aqueles pretendentes de antes da viagem já estavam casados. Não que eu achasse que para isso tinha um tempo certo, mas sabia por experiência que, depois de certa idade, depois de certa sabedoria, é muito mais difícil arrumar um homem à nossa altura, um que nos agrade e com quem seja possível viver.

Eu gostava do John, mas eu era melhor do que ele, e às vezes tinha que ficar cuidando dos pensamentos para não desgostar, para não achar que estava perdendo meu tempo. Antes de se formar, a Maria Clara já tinha começado a dar aulas na escola da soeur Marie-Térèse, como mestra-assistente, e quando tomou a decisão de permanecer em Paris, foi convidada a assumir uma matéria só para ela. Contou isso com tanto gosto e tanto jeito que me convenceu de que precisava daquela experiência, que seria importante para quando voltasse à África e abrisse a própria escola. Estava também freqüentando alguns cursos em uma universidade, a Sorbonne, a única aluna africana, e os professores gostavam muito dela. Eu só soube disso na volta, pois ela tinha ouvido um dos missionários me dizer que as moças eram aceitas lá, mas que não era recomendável.

Acho que ela fez o que eu faria, depois de ter visto que era suficientemente esperta para freqüentar qualquer ambiente. O João não ia muito bem no curso, mas por querer, pois a irmã disse que ele era um farrista, um janota, que frequentava muitas festas com os amigos. Eu não me importava, a não ser quando o preceptor

escrevia pedindo mais dinheiro antes do prazo combinado, pois o João tinha exigido uma quantia maior do que a que lhe cabia. Foi mais por causa desses amigos, que eu não sabia quem eram, que fiquei muito preocupada quando os missionários contaram que Paris estava em guerra, que os cidadãos e, principalmente, os estudantes estavam indo para as ruas, lutar contra os exércitos.

Eu queria tomar o primeiro navio para lá, mas não deixaram, disseram que era arriscado chegar à cidade naquele momento, e em tal navio, em meu lugar, seguiram duas cartas para a Maria Clara. Na primeira eu exigia que voltassem imediatamente, e na segunda, depois de me aconselhar com o padre Clement, disse que ficassem por lá mesmo até a situação se acalmar a ponto de ser possível tomarem um navio e não parecer que estivessem fugindo de alguma coisa. Mandei as duas cartas porque havia outras coisas importantes escritas na primeira, misturadas ao pedido de retorno.

A resposta da sua irmã dizia que a situação por lá já não era boa fazia algum tempo e ela não tinha dito nada para que eu não me preocupasse, e prometeu escrever pelo menos uma carta por semana dando notícias, mas elas nunca chegavam com regularidade. Os trabalhadores de Paris tinham invadido a sede do governo, exigido a queda de Napoleão III e proclamado a Terceira República, em uma tal de Comuna de Paris. Quando não chegava navio ou quando chegava atrasado, eu passava dias terríveis, inquieta, sem dormir, mandando rezar missa, fazer sacrifício para Xangô e para Naná e conversando com minha mãe e minha avó para que os voduns delas protegessem os meus ibêjis.

Tudo estava muito pior em Paris do que me contavam, e fiquei um pouco mais tranqüila quando a escola do João, que era dirigida por militares, foi transferida para Bordeaux. A Maria Clara disse que estava segura fora da

cidade e que tudo seria melhor com o poder nas mãos dos trabalhadores, e eu tentava acreditar. Cada navio que chegava da Europa era portador de notícias alarmantes, quase sempre desencontradas, mas tidas como a pura verdade, como a ocupação de Paris pelas tropas alemãs, o cerco pelo exército prussiano, gente passando fome e cada um fazendo o que bem entendia, sem um governo para ordenar tudo, pois as autoridades tinham fugido para Versailles. Mas os governantes ainda tinham o apoio dos franceses mais ricos e dos outros governos da Europa, que não queriam que os trabalhadores de seus países tivessem os trabalhadores franceses como exemplo.

Foi então que o exército se reorganizou e, armas em punho, arrasou os revoltosos, em dias e dias de muito derramamento de sangue pelas ruas. Isso foi até o final de um mil oitocentos e setenta e um, quando, para me deixar ainda mais desalentada, parei de receber as tão esperadas e desejadas cartas da sinhazinha. Na hora em que soube da chegada de um navio e da ausência de carta dela, fui acometida pela certeza da morte, mas me neguei a acreditar até que a Carolina escreveu confirmando. Disse que a mãe tinha morrido tranqüila, sentada à secretária escrevendo em um caderno em que ela contava o dia-a-dia como se estivesse conversando com o doutor José Manoel.

Sinhazinha

Foram dias de muita tristeza para mim, mesmo sabendo que minha amiga finalmente tinha ido para onde queria ir, para junto do marido. A morte estava rondando aqueles dias, pois logo em seguida chegou carta da Maria Clara contando que Paris já estava tranqüila, mas ao custo de mais de quarenta mil vidas. Pensar na quantidade de pessoas que deviam estar chorando a morte dessas tantas outras me acalmou um pouco, fez com que eu parasse de me sentir a única sofredora em

todo o ayê. Embora tempos depois tenha me penitenciado ao perceber que, o que eu mais lamentava nem era a perda da amiga de longa data, mas sim o fato de não ter mais com quem conversar quando conversava comigo mesma.

Ou seja, lamentava a falta que ela me fazia, e não a falta dela, já que não nos encontrávamos havia tanto tempo.

Percebi isso lendo as cartas da Maria Clara e os estudos que ela me mandava sobre Filosofia, e também porque a Carolina começou a me escrever, muitas vezes querendo saber coisas sobre a mãe e também a meu respeito. Ela se lembrava bem de quem eu era, principalmente dos dias que passamos todos juntos naquele sítio na Bahia, logo depois da rebelião dos muçurumins, quando o Banjokô tinha sido o melhor amigo dela. Na verdade era tio, filho torto do avô, mas isso eu não contei porque sabia que era segredo de família, e segredo meu também, que não me sentia à vontade para conversar sobre isso nem com a sinhazinha.

A Carolina se lembrava de como eu era antes de fazer todas aquelas minhas viagens à sua procura, algo de que nem eu mesma me lembro direito. Savalu, Uidá, Ilha dos Frades, São Salvador, Itaparica, São Luís, Cachoeira, São Sebastião, Santos, São Paulo, Campinas, Uidá, Lagos. Era lá, em África, que eu deveria morrer, onde tinha nascido. Mas aqui estou, indo morrer no Brasil, na sua terra. Será que posso considerar isso uma última homenagem? Como a única coisa que uma mãe à beira da morte pode fazer por um filho?

Aina

A sinhazinha era um pouco mais velha do que eu, mas a Aina era mais nova, e morreu cerca de um ano após a morte da minha amiga brasileira, depois de muito comer, beber e dançar na festa de batizado de um dos netos, filho do Aderonke. Morte em hora feliz, que aproveitou

os últimos convidados da festa para emendar uma serenata noite adentro, mas que quase não pôde ser agraciada com uma cerimônia católica.

Eu não conhecia muito bem o padre que tinha ficado responsável pela Missão Católica em Lagos durante uma viagem dos meus amigos, e é claro que a Aina tinha que morrer justo na ausência deles.

O interesseiro só aceitou encomendar o corpo depois que prometi um sino novo para a catedral, e além de tudo a Aina não tinha sido batizada nem recebido a extrema-unção, coisas que, segundo ele, tornam a pessoa um verdadeiro cristão. Mas a Aina ia às missas, mais vezes e com mais devoção do que muitos batizados que eu conhecia, até mais do que eu, que também não sou batizada, apesar de ter ido para o Brasil. Supunha-se que todo brasileiro retornado era batizado, como mandavam as autoridades brasileiras.

Continuar: parte 3 de 4