Uma Vida Pequena
Dedicatória
Para Jared Hohlt
meu amigo, com amor
Sumário
LISPENARD
I
STREET
O PÓS-
II
HOMEM
III VAIDADES
O AXIOMA
IV DA
IGUALDADE
OS ANOS
V
FELIZES
CARO
VI
CAMARADA
LISPENARD
VII
STREET
[ I ]
Lispenard Street
1
O DÉCIMO PRIMEIRO APARTAMENTO só tinha um armário, mas tinha uma porta de correr de vidro que dava para uma pequena sacada, da qual ele podia ver um homem sentado do outro lado da rua, ao ar livre, apenas de camiseta e short embora fosse outubro, fumando. Willem ergueu a mão para cumprimentá-lo, mas o homem não acenou de volta.
No quarto, Jude sanfonava a porta do armário, abrindo e fechando, quando Willem entrou.
– Só tem um armário – falou.
– Tudo bem – disse Willem. – Eu não tenho nada para guardar mesmo.
– Nem eu. – Sorriram um para o outro. A corretora foi ao encontro deles. – Vamos ficar – disse Jude.
De volta ao escritório da corretora, foram informados de que não poderiam alugar o apartamento.
– Por que não? – perguntou Jude.
– Vocês não ganham o suficiente para cobrir seis meses de aluguel e não têm poupança – disse a corretora, subitamente ríspida. Ela verificara o crédito e a conta bancária deles e tinha concluído que devia haver algo de errado com dois homens na casa dos vinte anos, que não eram um casal, tentando alugar um apartamento de um quarto num trecho sem graça (mas mesmo assim caro) da rua 25. – Vocês têm alguém que possa ser seu avalista? Um empregador? Pais?
– Nossos pais já morreram – disse Willem rapidamente.
A corretora suspirou.
– Então sugiro que diminuam suas expectativas. Ninguém responsável por um edifício bem-administrado vai alugar para candidatos com o perfil financeiro de vocês.
Ela se levantou com um ar conclusivo e olhou fixamente para a porta.
Quando contaram o episódio a JB e Malcolm, eles o transformaram numa piada: o piso do apartamento estava cheio de cocô de rato, o homem do apartamento em frente quase havia tirado a roupa toda, a corretora ficara transtornada porque estava flertando com Willem e ele não havia correspondido.
– E quem quer morar na 25 com a Segunda Avenida, no fim das contas? – perguntou JB.
Estavam no Pho Viet Huong, em Chinatown, onde se encontravam duas vezes por mês para jantar. O Pho Viet Huong não era grande coisa – o pho era curiosamente açucarado, o suco de limão tinha gosto de sabão e pelo menos um deles passava mal depois de cada refeição –, mas não deixavam de frequentá-lo, tanto por hábito como por necessidade. Dava para tomar uma tigela de sopa ou comer um sanduíche no Pho Viet Huong por cinco dólares, ou comer um prato principal que custava entre oito e dez dólares, mas era muito maior, e dava para guardar metade para o dia seguinte ou para um lanche mais tarde. Só Malcolm nunca comia o prato todo e não guardava a outra metade, e, quando estava satisfeito, colocava o prato no centro da mesa, para que Willem e JB – sempre famintos – comessem o resto.
– Claro que não queremos morar na 25 com a Segunda Avenida, JB – disse Willem pacientemente –, mas não temos escolha. Não temos nenhum dinheiro, lembra?
– Não entendo por que não ficam onde estão – disse Malcolm, que agora remexia seus cogumelos e o tofu (sempre pedia o mesmo prato: shimeji-preto e tofu refogado num molho marrom viscoso) sob os olhares de Willem e JB.
– Não posso – disse Willem. – Esqueceu? – Devia ter explicado aquilo a Malcolm uma dezena de vezes nos últimos três meses. – O namorado de Merritt está se mudando para lá, por isso eu tenho de sair.
– Mas por que você tem de sair?
– Porque o aluguel está no nome de Merritt, Malcolm! – exclamou JB.
– Ah, tá – disse Malcolm. Ficou em silêncio. Sempre esquecia detalhes que considerava sem importância, mas também nunca parecia se ressentir quando as pessoas perdiam a paciência com seus esquecimentos. – Certo. – E empurrou os cogumelos para o centro da mesa – Mas você, Jude...
– Não posso ficar na sua casa para sempre, Malcolm. Seus pais vão me matar um dia desses.
– Meus pais adoram você.
– Legal da sua parte dizer isso. Mas vão deixar de me adorar se eu não sair, e logo.
Malcolm era o único dos quatro que morava com os pais e, como JB gostava de dizer, se tivesse a casa de Malcolm, também faria o mesmo. Não que a casa de Malcolm fosse particularmente incrível – era, na verdade, cheia de rangidos e malconservada, e Willem certa vez se ferira com uma farpa simplesmente ao deslizar o braço pelo corrimão –, mas era grande: um casarão de vários andares no Upper East Side. A irmã de Malcolm, Flora, três anos mais velha, mudara-se do porão recentemente, e Jude ocupara seu lugar como uma solução temporária: os pais de Malcolm acabariam requisitando o espaço para convertê-lo no escritório da agência literária de sua mãe, e isso significava que Jude (que de qualquer forma vinha tendo dificuldade para descer a escada até o porão) precisaria procurar seu próprio apartamento.
E era natural que ele fosse morar com Willem; tinham sido companheiros de quarto durante toda a faculdade. No primeiro ano, os quatro dividiram um espaço que consistia em uma sala comum de concreto, onde ficavam suas mesas e cadeiras e um sofá que as tias de JB tinham levado numa van alugada da U-Haul, e em um segundo cômodo, muito menor, onde havia dois beliches. Esse quarto era tão estreito que Malcolm e Jude, deitados nas camas inferiores, podiam estender o braço e pegar na mão um do outro. Malcolm e JB dividiam um dos beliches; Jude e Willem, o outro.
– Negros contra brancos – dizia JB.
– Jude não é branco – respondia Willem.
– E eu não sou negro – acrescentava Malcolm, mais para chatear JB do que por acreditar nisso.
– Muito bem – disse JB agora, puxando para si o prato de cogumelos com os dentes do garfo –, eu convidaria os dois para ficar na minha casa, mas acho que iam detestar.
JB vivia num loft enorme e encardido em Little Italy, cheio de corredores estranhos que terminavam em becos sem saída vazios e disformes, e em cômodos inacabados, com as paredes de gesso abandonadas pela metade. O lugar pertencia a outra pessoa que eles conheciam da época da faculdade. Ezra era artista, não dos bons mas também não precisava ser, porque, como JB gostava de frisar, jamais precisaria trabalhar em toda a sua vida. E não só ele jamais precisaria trabalhar, como os filhos dos filhos de seus filhos também nunca teriam de trabalhar: poderiam fazer arte ruim, invendável e sem valor durante gerações, e ainda assim teriam condições de comprar por capricho as melhores tintas que quisessem e lofts enormes e pouco práticos no Baixo Manhattan, os quais poderiam desfigurar com suas más decisões arquitetônicas, e, quando enjoassem da vida de artista – como JB tinha certeza de que aconteceria a Ezra um dia –, tudo que precisariam fazer seria chamar os curadores da sua fundação particular, e ganhariam uma montanha de dinheiro, quantia essa que nenhum deles quatro (bem, talvez não Malcolm) jamais sonharia ver na vida. Ao mesmo tempo, valia a pena conhecer uma pessoa como Ezra, não só porque deixava JB e alguns de seus outros amigos de faculdade ficarem em seu apartamento – havia sempre quatro ou cinco pessoas entocadas em vários cantos do loft –, mas porque era uma pessoa de boa índole e generosa por natureza, que gostava de dar festas exageradas em que quantidades nababescas de comida, drogas e álcool eram liberadas.
– Peraí – disse JB, botando o hashi na mesa. – Acabei de me lembrar... tem uma pessoa na revista que está alugando o apartamento de uma tia. Para os lados de Chinatown.
– Quanto custa? – perguntou Willem.
– Provavelmente nada... ela não sabia quanto pedir. E quer botar alguém lá que ela conheça.
– Acha que podia falar com ela por nós?
– Melhor... vou apresentar vocês a ela. Podem dar um pulo no escritório amanhã?
Jude suspirou.
– Não vou poder sair do trabalho. – E olhou para Willem.
– Não se preocupe, eu posso. A que horas?
– Hora do almoço, por aí. Uma hora?
– Estarei lá.
Willem ainda estava com fome, mas deixou JB comer o restante dos cogumelos. Depois ficaram todos ali por um tempinho; às vezes, Malcolm pedia sorvete de jaca, a única unanimidade no cardápio, comia duas colheradas e parava; ele e JB acabavam com o resto. Mas, desta vez, Malcolm não quis o sorvete, e eles pediram a conta para que pudessem conferi-la e dividi-la centavo por centavo.
–
No dia seguinte, Willem encontrou JB no escritório. JB trabalhava como recepcionista numa revista pequena, mas influente, localizada no SoHo, que cobria o mundo das artes no Baixo Manhattan. Era um emprego estratégico para ele; seu plano, como explicara a Willem certa noite, seria tentar fazer amizade com um dos editores e convencê-lo a publicar uma matéria sobre ele na revista. JB calculava que isso levaria cerca de seis meses, o que significava que ainda tinha outros três pela frente.
JB ostentava, no emprego, uma expressão perpétua de leve descrença, tanto por estar trabalhando, quanto por ninguém ter reconhecido ainda seu dom especial. Não era um bom recepcionista. Embora os telefones tocassem mais ou menos constantemente, ele quase nunca os atendia; quando alguém queria falar com ele (o sinal do celular no edifício era instável), tinha de seguir um código especial de deixar tocar duas vezes, desligar, depois ligar de novo. E ainda assim ele às vezes não conseguia atender – suas mãos estavam ocupadas debaixo da mesa, penteando e trançando cabelos emaranhados num saco preto que mantinha a seus pés.
JB atravessava, conforme definiu, sua fase capilar. Recentemente decidira tirar férias da pintura para fazer esculturas de cabelos negros. Cada um dos amigos passara um exaustivo fim de semana seguindo JB por barbearias e salões de beleza no Queens, no Brooklyn, no Bronx e em Manhattan, esperando do lado de fora enquanto JB entrava para pedir aos proprietários quaisquer restos de mechas que pudessem ter, para depois arrastar um saco de cabelos cada vez mais estranho pela rua. Entre suas primeiras obras estava “A maça”, uma bola de tênis que ele tinha esfolado, cortado pela metade e enchido de areia antes de cobri-la de cola e esfregá-la diversas vezes num tapete de cabelos, fazendo com que as cerdas se movessem como alga marinha debaixo d’água; e “O kwotidiano”, no qual cobriu vários utensílios domésticos – um grampeador; uma espátula; uma xícara de chá – com cabelos. Agora vinha trabalhando num projeto em larga escala, que só revelava aos amigos em fragmentos, mas que envolvia pentear e trançar muitas peças a fim de formar uma corda aparentemente interminável de cabelos negros encrespados. Na sexta-feira anterior, ele os atraíra com a promessa de pizza e cerveja para que o ajudassem a trançar, mas, depois de muitas horas de trabalho tedioso, ficara claro que não havia nenhuma pizza e cerveja à vista, e eles foram embora um pouco irritados, mas não completamente surpresos.
Todos já estavam cheios do projeto dos cabelos, embora Jude – o único entre eles – achasse as obras maravilhosas e dignas de serem consideradas significativas um dia. Como agradecimento, JB dera a Jude uma escova coberta de cabelos, mas depois pedira o presente de volta quando um amigo do pai de Ezra parecera interessado em comprá-la (o que não aconteceu, mas JB não devolveu a escova a Jude). O projeto de JB se mostrara difícil também em outros aspectos; numa outra noite, quando sabe-se lá como os três foram novamente ludibriados a ir até Little Italy para pentear mais cabelos, Malcolm havia comentado que os cabelos fediam. O que era verdade: não fediam a algo nojento, mas simplesmente ao odor metálico e penetrante de um escalpo não lavado. Mas JB dera um de seus chiliques homéricos e chamara Malcolm de negro autodepreciativo, de Pai Tomás e traidor da raça, e Malcolm, que muito raramente perdia a calma, mas que se enraivecia diante de acusações como essas, jogara seu vinho na sacola de cabelos mais próxima, se levantara e saíra batendo os pés. Jude correra, da melhor maneira que pôde, atrás de Malcolm, enquanto Willem ficara para trás para acalmar JB. Embora os dois tenham feito as pazes no dia seguinte, no fim Willem e Jude se sentiram (injustamente, eles sabiam) um pouco mais zangados com Malcolm, pois, no fim de semana seguinte, tiveram de voltar ao Queens, caminhando de barbearia em barbearia, para tentar substituir a sacola de cabelos que ele havia estragado.
– Como vai a vida no planeta negro? – perguntou Willem a JB agora.
– Negra – disse JB, enfiando a trança que desembaraçava de volta na sacola. – Vamos andando; eu disse a Annika que estaríamos lá à uma e meia.
O telefone em sua mesa começou a tocar.
– Não vai atender?
– Vão ligar de novo.
A caminho do Baixo Manhattan, JB se queixou. Até agora ele havia concentrado seu poder de sedução num editor sênior chamado Dean, que eles chamavam de DeeAnn. Tinham ido a uma festa, os três, no apartamento dos pais de um editor júnior no edifício Dakota, onde cômodos cobertos de quadros se sucediam uns aos outros. Enquanto JB conversava com seus colegas de trabalho na cozinha, Malcolm e Willem passearam juntos pelo apartamento (Onde estava Jude naquela noite? Trabalhando, provavelmente), observando uma série de fotos de Edward Burtynsky penduradas no quarto de hóspedes, um conjunto de caixas d’água dos Becher montado em quatro fileiras de cinco fotos acima da escrivaninha no gabinete de trabalho, um enorme Gursky flutuando acima das meias estantes na biblioteca e, na suíte principal, uma parede inteira de Diane Arbuses, cobrindo o espaço de tal forma que sobravam apenas alguns centímetros de parede nua no alto e na soleira. Estavam admirando uma foto de duas garotas com síndrome de Down, com rostos tão meigos, brincando para a câmera em seus maiôs apertados demais e infantis demais, quando Dean se aproximara deles. Era um homem alto, mas tinha um rosto pequeno e esburacado, parecendo uma marmota, que lhe emprestava um ar selvagem e pouco confiável.
Os dois se apresentaram e explicaram que estavam ali porque eram amigos de JB. Dean contou que era editor sênior da revista e que cuidava de toda a cobertura de artes plásticas.
– Ah – disse Willem, com o cuidado de não olhar para Malcolm, antecipando sua reação. JB dissera a eles que tinha o editor de artes como alvo; devia ser ele.
– Já viram algo assim? – perguntou Dean, apontando para os Arbuses.
– Nunca – disse Willem. – Eu amo Diane Arbus.
Dean se retesou, e suas minúsculas feições pareceram formar um nó no centro do rosto pequeno.
– É DeeAnn.
– Hein?
– DeeAnn. O nome dela se pronuncia DeeAnn.
Quase não conseguiram sair da sala sem cair no riso.
– DeeAnn! – falara JB depois, quando lhe contaram a história. – Cristo! Que merdinha pretensioso.
– Mas é o seu merdinha pretensioso – dissera Jude. E desde então passaram a se referir a Dean como “DeeAnn”.
Infelizmente, porém, parecia que, apesar das incansáveis investidas de JB em DeeAnn, ele não chegara mais perto de sair na revista do que três meses antes. JB até deixara DeeAnn chupá-lo na sauna da academia de ginástica e, ainda assim, nada. Todo dia JB achava um pretexto para passear pela redação e bisbilhotar o quadro de avisos em que as pautas dos próximos três meses ficavam escritas em cartões brancos, e todo dia ele estudava a seção dedicada aos jovens artistas em ascensão procurando seu nome, e todo dia ficava desapontado. Via, em vez disso, os nomes de gente sem talento e de artistas hypados, pessoas a quem se deviam favores ou pessoas que conheciam pessoas a quem se deviam favores.
– Se um dia encontrar o nome de Ezra ali, vou me matar – sempre dizia JB, ao que os outros retrucavam: “Não vai encontrar, JB” e “Não se preocupe, JB, você vai aparecer ali um dia” e “Para que você precisa deles, JB? Você vai encontrar outra coisa”, ao que JB replicava, respectivamente: “Vocês têm certeza?” e “Não acredito nessa porra” e “Investi pra caralho desta vez, três meses inteiros da porra da minha vida, é melhor eu aparecer na porra do quadro ou essa merda toda terá sido uma perda de tempo, como tudo mais”, “tudo mais” significando, aleatoriamente, a pós-graduação, a volta a Nova York, a série dos cabelos ou a vida em geral, dependendo de quão niilista ele se sentia no dia.
JB ainda estava se queixando quando chegaram à Lispenard Street. Willem era relativamente novo na cidade – só vivia ali havia um ano – e ainda não tinha ouvido falar da rua, que não passava de uma viela com dois quarteirões de comprimento, situada um quarteirão ao sul da Canal Street. Mas até JB, que crescera no Brooklyn, também não ouvira falar dela.
Encontraram o prédio e apertaram a campainha do 5C. Uma garota atendeu, sua voz cheia de estática e cavernosa pelo interfone, e abriu a porta do prédio. Dentro, o saguão era estreito, com o pé direito alto e pintado num marrom-cocô malhado e brilhoso que os fez sentir como se estivessem no fundo de um poço.
A garota os esperava na porta do apartamento.
– Oi, JB – disse, e então olhou para Willem e ruborizou.
– Annika, este é o meu amigo Willem – disse JB. – Willem, Annika trabalha no departamento de arte. Gente boa.
Annika baixou o olhar e estendeu a mão ao mesmo tempo.
– Prazer em conhecê-lo – disse para o chão.
JB chutou o pé de Willem e sorriu para ele. Willem o ignorou.
– Legal conhecer você, também – falou.
– Muito bem, esse é o apartamento. É da minha tia. Ela morou aqui por cinquenta anos e acabou de se mudar para um retiro de idosos.
Annika falava muito rápido e aparentemente tinha decido que a melhor estratégia era tratar Willem como um eclipse e não olhar para ele. Ela falava cada vez mais rápido sobre a tia e como ela sempre dizia que a vizinhança tinha mudado e como nunca ouvira falar da Lispenard Street até que se mudara para o Baixo Manhattan e como lamentava que o apartamento ainda não tivesse sido pintado, mas sua tia literalmente acabara de se mudar e só tiveram oportunidade de fazer uma limpeza no último fim de semana. Ela olhava para tudo, menos para Willem – para o teto (estanho decorado), para o assoalho (rachado, mas de tacos), para as paredes (nas quais as molduras de quadros pendurados muito tempo atrás haviam deixado sombras fantasmagóricas) –, até que Willem teve de interromper gentilmente e perguntar se podia dar uma olhada no resto do apartamento.
– Ah, sim, à vontade – disse Annika. – Vou deixá-los a sós.
Mas começou a segui-los, falando rapidamente com JB sobre alguém chamado Jasper e como ele começara a usar a fonte Archer para tudo, e será que JB não achava que parecia um pouco arredondada demais e estranha para o corpo do texto? Agora que Willem estava de costas, ela olhava para ele, seu blá-blá-blá tornando-se mais genérico quanto mais ela falava.
JB observava Annika observando Willem. Ele nunca a vira assim, tão nervosa e adolescente (em geral era mal-humorada e silenciosa, chegando, na verdade, a ser temida no escritório por ter criado na parede acima de sua mesa uma elaborada escultura em forma de coração com lâminas de estilete), mas ele via uma porção de mulheres se comportando daquela maneira perto de Willem. Todas faziam o mesmo. Seu amigo Lionel costumava dizer que Willem devia ter sido pescador numa vida passada, pois atraía gatas por onde passava. E, no entanto, na maior parte do tempo (mas não sempre), Willem não se dava conta da atenção que despertava. JB perguntara certa vez a Malcolm por que ele achava que aquilo acontecia, e Malcolm dissera que era porque Willem não percebia. JB apenas grunhira em resposta, mas era assim que via as coisas: Malcolm era a pessoa mais obtusa que conhecia e, se até mesmo Malcolm reparava como as mulheres reagiam ao redor de Willem, era impossível que o próprio Willem não percebesse. Depois, Jude oferecera uma interpretação diferente: ele sugerira que Willem não reagia a todas as mulheres de propósito, para que os outros homens ao seu redor não se sentissem ameaçados por ele. Isso fazia mais sentido; Willem era querido por todo mundo e não gostava que as pessoas se sentissem mal, e por isso era possível, inconscientemente, pelo menos, que fingisse uma espécie de ignorância. Ainda assim, era fascinante de ver e os três nunca se cansavam daquilo, nem de zombar de Willem depois, por mais que ele apenas sorrisse e não dissesse nada.
– O elevador funciona bem aqui? – perguntou Willem abruptamente, virando-se.
– O quê? – respondeu Annika, assustada. – Sim, é bastante confiável – emendou, compondo um sorriso estreito com os lábios finos, que, como percebeu JB com um nó no estômago de constrangimento por ela, sugeria uma intenção de flerte. Ah, Annika, pensou ele. – O que exatamente você pretende trazer para o apartamento da minha tia?
– Nosso amigo – respondeu JB, antes que Willem pudesse fazê-lo. – Ele tem problemas para subir escadas e precisa que o elevador funcione.
– Ah – disse ela, corando de novo. Voltou a olhar para o chão. – Foi mal. Sim, ele funciona.
O apartamento não impressionava muito. Havia um pequeno vestíbulo, pouco maior que a área de um capacho, do qual se projetavam a cozinha (um cubículo quente e engordurado) à direita e uma sala de jantar à esquerda, que acomodaria talvez uma mesa de carteado. Uma meia parede separava esse espaço da sala de estar, com suas quatro janelas, cada uma delas listrada com grades, dando para o sul com vista para a rua coberta de lixo, e, por um pequeno corredor à direita, se chegava ao banheiro com seus candeeiros leitosos e uma banheira de esmalte desgastado e, adiante, o quarto, que tinha outra janela e era comprido, mas estreito; aqui, dois estrados de madeira foram dispostos paralelamente, cada um encostado numa parede. Sobre um dos estrados já havia um futon, uma coisa volumosa e sem graça, pesada como um cavalo morto.
– O futon nunca foi usado – disse Annika.
Contou uma longa história sobre como pretendera ir morar no apartamento e tinha até comprado o futon para isso, mas nunca chegara a usá-lo porque acabara se mudando com seu amigo Clement, que não era seu namorado, apenas um amigo e, céus, que retardada ela era de dizer aquilo. Enfim, se Willem quisesse o apartamento, ela acrescentaria o futon no pacote, de graça.
Willem agradeceu.
– O que acha, JB? – perguntou ele.
O que ele achava? Achava que era um muquifo. Claro, ele também morava num muquifo, mas estava lá por escolha própria e porque era de graça, e o dinheiro economizado com o aluguel poderia ser gasto em tintas, suprimentos, drogas e um táxi de vez em quando. Mas, se Ezra decidisse um dia começar a cobrar aluguel dele, de jeito algum ficaria lá. Sua família podia não ter o dinheiro de Ezra, ou o dinheiro de Malcolm, mas em nenhuma circunstância permitiria que ele jogasse dinheiro fora morando num muquifo. Encontrariam algo melhor para ele ou lhe dariam uma graninha mensal para ir levando. Mas Willem e Jude não tinham esse tipo de escolha: precisavam pagar tudo sozinhos e não tinham dinheiro, por isso estavam condenados a morar num muquifo. Assim sendo, aquele era provavelmente o muquifo ideal – era barato, ficava no Baixo Manhattan e sua futura senhoria já estava apaixonada por cinquenta por cento deles.
Então “Acho perfeito” foi o que JB disse a Willem, que concordou. Annika deu um gritinho. E, depois de uma conversa apressada, estava fechado: Annika tinha um inquilino e Willem e Jude tinham um lugar para morar – tudo antes de JB lembrar a Willem que não se importaria se o amigo lhe pagasse um prato de yakisoba no almoço, antes de voltar ao escritório.
–
JB não era dado à introspecção, mas, no trem a caminho da casa da mãe naquele domingo, não pôde deixar de experimentar uma leve sensação autocongratulatória, combinada a algo próximo de gratidão, por ter a vida e a família que tinha.
Seu pai, que havia emigrado para Nova York do Haiti, morrera quando JB tinha três anos, e, embora JB sempre gostasse de pensar que se lembrava de seu rosto – bondoso e gentil, com uma pequena tira de bigode e bochechas arredondadas como ameixas quando sorria –, ele nunca saberia se apenas achava que lembrava, tendo crescido vendo a fotografia do pai na mesinha de cabeceira da mãe, ou se lembrava de verdade. Ainda assim, aquela fora sua única tristeza quando criança e, no entanto, parecia mais uma tristeza obrigatória: não tinha pai e sabia que as crianças sem pai sofriam com essa ausência em suas vidas. Mas ele próprio jamais sentira esse tipo de anseio. Depois que o pai morrera, sua mãe, uma haitiano-americana de segunda geração, fizera doutorado em pedagogia, enquanto lecionava na escola pública perto de casa que não achava boa o bastante para JB. Quando ele entrara para o ensino médio como bolsista numa escola particular cara a uma hora de trem de onde moravam no Brooklyn, a mãe era diretora de outra instituição, uma escola técnica em Manhattan, e professora adjunta no Brooklyn College. Um artigo no The New York Times comentara sobre seus métodos de ensino inovadores e, embora fingisse aos amigos que não se importava, JB sentia orgulho da mãe.
Ela sempre estivera muito ocupada durante a infância do filho, mas JB nunca se sentira negligenciado, nunca sentira que a mãe amava seus alunos mais do que o amava. Em casa ficava também a sua avó, que cozinhava tudo o que ele quisesse, e cantava para ele em francês, e lhe dizia literalmente todo dia que ele era um tesouro, um gênio, o homem da sua vida. E havia suas tias, a irmã de sua mãe, que era detetive em Manhattan, e a namorada dela, uma farmacêutica e também americana de segunda geração (embora fosse de Porto Rico, não do Haiti), que não tinham filhos e o tratavam como seu próprio. A irmã de sua mãe gostava de esportes e o ensinou a pegar e arremessar uma bola (algo que, até na época, não lhe inspirava o menor interesse, mas acabou se tornando uma habilidade social útil depois), e a namorada se interessava por arte; uma de suas recordações mais antigas era a de uma visita com ela ao Museu de Arte Moderna, onde se lembrava claramente de olhar para One: Number 31, 1950 emudecido de admiração, mal ouvindo a tia enquanto ela explicava como Pollock fizera a pintura.
Durante o ensino médio, quando um pouco de revisionismo pareceu necessário para ele se distinguir e, especialmente, causar desconforto em seus colegas de turma ricos e brancos, ele alterou a verdade de sua condição: tornou-se outro garoto negro sem pai cuja mãe só completara os estudos depois que ele nasceu (deixou de mencionar que fora o doutorado que ela completara, por isso as pessoas presumiam que fosse o ensino médio) e cuja tia trabalhava nas ruas (de novo, presumiam que fosse prostituta e não detetive). Sua foto de família favorita fora tirada por seu melhor amigo no ensino médio, um menino chamado Daniel, ao qual ele revelara a verdade pouco antes de deixá-lo tirar o retrato da família. Daniel vinha trabalhando numa série de fotos sobre, como ele chamava, famílias “quase à margem da sociedade”, e JB tivera que corrigir às pressas a percepção de que sua tia era meretriz e sua mãe tinha um nível de escolaridade baixo antes de deixar o amigo entrar na casa. A boca de Daniel se abrira, mas nenhum som emergira, e então a mãe de JB chegara à porta e mandara que saíssem logo do frio, e Daniel tivera de obedecer.
Daniel, ainda atônito, posicionara-os na sala de estar: a avó de JB, Yvette, sentada em sua cadeira favorita de espaldar alto, e, de pé, sua tia Christine e a namorada, Silvia, de um lado; e JB e sua mãe do outro. Mas então, pouco antes de Daniel tirar a foto, Yvette exigira que JB ocupasse o seu lugar.
– Ele é o rei da casa – dissera a Daniel enquanto as filhas protestavam. – Jean-Baptiste! Sente-se!
Ele se sentou. Na foto ele apertava os dois braços da poltrona com suas mãos rechonchudas (já era rechonchudo na época), enquanto de cada lado as mulheres lhe lançavam olhares amorosos. Ele próprio olhava diretamente para a câmera, com um sorriso largo, sentado na cadeira que devia ter sido ocupada por sua avó.
A fé que elas depositavam nele, em seu triunfo, persistia inabalável, de maneira quase desconcertante. Estavam convencidas – mesmo quando a convicção do próprio JB era testada tantas vezes que tinha dificuldade em sustentá-la – de que um dia ele seria um artista importante, que seu trabalho seria exibido nos principais museus, que as pessoas que ainda não lhe tinham dado oportunidades não tinham consciência do seu dom. Às vezes ele acreditava nelas e se deixava levar por toda aquela confiança. Outras vezes ficava desconfiado – a opinião delas parecia tão oposta à do resto do mundo que ele se perguntava se não estariam sendo condescendentes com ele, ou eram simplesmente loucas. Ou talvez tivessem mau gosto. Como podia o julgamento de quatro mulheres diferir tanto do das outras pessoas? As chances de que a opinião delas fosse a certa não eram lá muito boas.
E, no entanto, ele se sentia aliviado todo domingo nessas visitas secretas à casa, onde a comida era abundante e grátis e a avó lavava a sua roupa, e onde cada palavra que ele dizia e cada rascunho que mostrava era admirado e elogiado. A casa de sua mãe era território familiar, um lugar onde ele sempre seria reverenciado, onde cada costume e tradição parecia feito sob medida para ele e para suas necessidades particulares. A certa altura da noite – depois do jantar, mas antes da sobremesa, enquanto todos descansavam na sala de estar vendo televisão e o gato de sua mãe descansava no colo dele – JB olhava para suas mulheres e sentia algo inflar dentro de si. Pensava então em Malcolm, com seu pai incrivelmente inteligente e sua mãe afetuosa, mas desligada, e depois em Willem, com seus pais mortos (JB estivera com eles uma única vez, no fim de semana da mudança no fim do primeiro ano de faculdade, e ficara surpreso ao ver como eram taciturnos, formais, tão diferentes de Willem) e finalmente, é claro, em Jude, com seus pais completamente inexistentes (o que era um mistério – conheciam Jude havia quase uma década e ainda não sabiam ao certo quando ou se chegara a ter pais, somente que seu passado era triste e não devia ser comentado), e sentia uma onda calorosa e fluida de felicidade e gratidão, como se um oceano estivesse subindo em seu peito. Tenho sorte, pensava ele, e então, porque era competitivo e avaliava sua posição diante de seus pares em cada aspecto da vida, sou o mais sortudo de todos. Mas nunca pensava que não merecia aquilo, ou que deveria se esforçar mais para expressar sua apreciação; sua família ficava feliz quando ele estava feliz, e por isso sua única obrigação com elas era ser feliz, viver exatamente a vida que queria, nos termos que queria.
– Não temos as famílias que merecemos – dissera Willem certa vez, quando estavam muito chapados. Ele, naturalmente, falava de Jude.
– Concordo – respondera JB.
E concordava mesmo. Nenhum deles – nem Willem, nem Jude, nem mesmo Malcolm – tinha a família que merecia. Mas, secretamente, ele fazia uma exceção a si mesmo: ele tinha a família que merecia. Elas eram maravilhosas, verdadeiramente maravilhosas, e ele sabia disso. E, o que é mais, ele as merecia, sim.
– Chegou meu garoto brilhante – dizia Yvette sempre que ele entrava em casa.
Nunca lhe ocorrera que ela pudesse não estar totalmente certa.
–
No dia da mudança, o elevador quebrou.
– Que merda – disse Willem. – Eu perguntei a Annika sobre isso. JB, você tem o número dela?
Mas JB não tinha.
– Deixa para lá – falou Willem. De que adiantaria mandar uma mensagem para Annika no fim das contas? – Foi mal, gente – falou para todo mundo. – Vamos ter de subir pelas escadas.
Ninguém pareceu se incomodar. Era um belo dia de meados do outono, frio, seco e com vento, e eles eram oito para transportar não muitas caixas e apenas uns poucos móveis – Willem, JB, Jude, Malcolm, o amigo de JB, Richard, a amiga de Willem, Carolina, e dois amigos dos quatro que se chamavam ambos Henry Young, mas que eles denominavam de Henry Young Asiático e Henry Young Negro, a fim de distingui-los.
Malcolm, que, quando as pessoas menos esperavam, se mostrava um administrador eficiente, designou as tarefas. Jude subiria até o apartamento e controlaria o tráfego e a localização das caixas. Carolina e Henry Young Negro, que eram fortes, mas baixos, carregariam as caixas de livros, de tamanho manejável. Willem, JB e Richard carregariam os móveis. Ele e Henry Young Asiático levariam todo o resto. A cada descida, todos deveriam levar as caixas achatadas por Jude e empilhá-las no meio-fio perto das latas de lixo.
– Precisa de ajuda? – perguntou Willem a Jude em voz baixa quando todo mundo começou a se separar para cumprir as tarefas.
– Não – disse ele, secamente, e Willem observou sua subida vacilante e lenta pela escada, que era íngreme e com degraus altos, até o perder de vista.
Foi uma mudança fácil, rápida e sem drama, e depois de todos ficarem um tempinho por ali, desembrulhando pacotes de livros e comendo pizza, os outros partiram, para festas e bares, e Willem e Jude foram finalmente deixados a sós em seu novo apartamento. O lugar estava uma bagunça, mas só a ideia de arrumar as coisas já era muito cansativa. E assim relaxaram, surpresos pela rapidez com que a tarde caíra e pelo fato de que tinham um lugar para morar, um lugar em Manhattan, um lugar pelo qual podiam pagar. Ambos haviam notado os olhares educadamente inexpressivos nos rostos dos amigos ao verem o apartamento pela primeira vez (o quarto com suas duas camas estreitas – “Parece algo saído de um sanatório vitoriano” fora a descrição que Willem fizera a Jude – obtivera a maioria dos comentários), mas nenhum dos dois se importava: era deles e tinham um contrato de dois anos, e ninguém os poderia tirar dali. Conseguiriam até economizar um dinheirinho, e para que precisavam de mais espaço, afinal? Claro, ambos ansiavam por beleza, mas isso teria de esperar. Ou melhor, eles teriam de esperar por ela.
Os dois conversavam, mas os olhos de Jude estavam fechados e Willem sabia – pelo constante palpitar de suas pálpebras, igual às asas de um beija-flor, e pelo modo como sua mão estava fechada em um punho tão apertado que Willem podia ver os filamentos verde-mar de suas veias saltitando sob o dorso da mão – que ele estava sentindo dor. Sabia pela postura rígida das pernas de Jude, pousadas sobre uma caixa de livros, que a dor era intensa, e sabia também que nada podia fazer por ele. Se dissesse “Jude, deixe eu pegar uma aspirina para você”, Jude diria “Estou bem, Willem, não preciso de nada”, e se dissesse “Jude, por que não se deita?”, Jude diria “Willem, estou bem. Pare de se preocupar”. Então fez o que todos eles aprenderam a fazer ao longo dos anos quando as pernas de Jude doíam, que era dar alguma desculpa, levantar-se e deixar o ambiente para que Jude pudesse ficar deitado sem se mexer e esperar a dor passar sem ter de conversar ou gastar energia fingindo que estava tudo bem e que se sentia apenas cansado, ou que tinha cãibras ou qualquer explicação furada que pudesse inventar.
No quarto, Willem encontrou o saco com seus lençóis e arrumou primeiro seu futon e depois o de Jude (que tinham comprado na semana anterior a preço de banana daquela que logo seria a ex-namorada de Carolina). Separou suas roupas em camisas, calças, cuecas e meias, destinando-as a caixas de papelão individuais (recém-esvaziadas de seus livros), que enfiou debaixo da cama. Deixou as roupas de Jude onde estavam e foi até o banheiro, que limpou e desinfetou antes de tirar da bolsa e separar as pastas de dente, os sabonetes, as lâminas de barbear e os xampus deles. Uma vez ou duas parou o trabalho para se esgueirar até a sala de estar, onde Jude continuava na mesma posição, de olhos ainda fechados, sua mão ainda cerrada, a cabeça ainda virada de lado, o que impedia Willem de ver sua expressão.
Seus sentimentos por Jude eram complicados. Ele o amava – aquela parte era simples – e receava por ele, e às vezes se sentia tanto como seu irmão mais velho e protetor quanto seu amigo. Sabia que Jude ficaria e já ficara bem sem ele, mas às vezes via coisas em Jude que o perturbavam e o faziam sentir impotente e ao mesmo tempo, paradoxalmente, mais determinado a ajudá-lo (embora Jude raramente pedisse ajuda de qualquer tipo). Eles todos amavam Jude, e o admiravam, mas Willem sentia que Jude o deixara ver um pouco mais de si – só um pouquinho – do que mostrara aos outros, e sentia-se inseguro quanto ao que deveria fazer com aquele conhecimento.
A dor em suas pernas, por exemplo: desde que o conheciam, sabiam que tinha problemas nelas. Era difícil não perceber isso; ele usara bengala durante toda a faculdade e, quando mais jovem – era tão novo quando o conheceram, dois anos mais moço do que eles, que ainda estava em fase de crescimento –, só caminhava com a ajuda de uma muleta ortopédica e usava um aparelho atado com talas em suas pernas, cujos parafusos externos, encravados em seus ossos, diminuíam sua capacidade de dobrar os joelhos. Mas nunca se queixara, nem uma vez sequer, embora também nunca desdenhasse das queixas do próximo; no segundo ano de faculdade, JB escorregara no gelo e quebrara o pulso, e todos eles lembravam a rebordosa que se seguira e os gemidos teatrais de JB, seus gritos de sofrimento, e como se recusara a deixar a enfermaria da universidade por uma semana depois que botaram o gesso, recebendo tantas visitas que o jornal da faculdade publicara um artigo sobre ele. Havia outro sujeito no dormitório, um jogador de futebol que havia rompido o menisco, que dizia sem parar que JB não sabia o que era dor, mas Jude fora visitar JB todo dia, assim como Willem e Malcolm, e lhe demonstrara toda a compaixão pela qual o amigo ansiava.
Certa noite, pouco depois que JB se dignara a ter alta e voltara ao dormitório para desfrutar de outra salva de atenções, Willem acordara e encontrara o quarto vazio. Isso não era incomum, na verdade: JB estava na casa do namorado e Malcolm, que tinha aulas de astronomia em Harvard naquele semestre, estava no laboratório, onde agora dormia todas as noites de terça e quinta. O próprio Willem muitas vezes estava em outro lugar, normalmente no quarto da namorada, mas ela pegara uma gripe e ele tinha ficado em casa aquela noite. Mas Jude estava sempre lá. Nunca tivera namorada ou namorado e sempre passava a noite no quarto, e sua presença na cama de baixo da de Willem era tão familiar e constante quanto o mar.
Não sabia ao certo o que o levara a descer da cama e parar por um minuto, entorpecido, no centro do quarto silencioso, olhando ao redor como se Jude pudesse estar pendurado no teto como uma aranha. Mas notou então que a muleta havia sumido e começou a procurar por ele, chamando seu nome baixinho na área comum que dividiam e, quando não obteve resposta, deixou a sala e atravessou o corredor rumo ao banheiro comunitário. Saindo da escuridão do cômodo, encontrou o banheiro tão iluminado que chegou a sentir-se nauseado. As lâmpadas fluorescentes emitiam seu zunido suave e contínuo, e ele estava tão desorientado que foi surpreendido menos do que deveria ter sido quando viu, no último reservado, o pé de Jude estendido por baixo da porta, com a ponta da muleta ao seu lado.
– Jude? – sussurrou, batendo à porta, e, quando não ouviu resposta, disse: – Vou entrar.
Abriu a porta e encontrou Jude no chão, com uma perna encostada no peito. Tinha vomitado, e parte do vômito formava uma poça no chão à sua frente, e outras partes formavam uma crosta nos lábios e no queixo, uma leve mancha pontilhada adamascada. Seus olhos estavam fechados e ele suava, e com uma das mãos segurava o cabo encurvado da muleta com uma força que, como Willem reconheceria depois, só vem de um extremo desconforto.
Na ocasião, porém, ele estava assustado e confuso, e começou a fazer a Jude pergunta atrás de pergunta, nenhuma das quais ele estava em condição de responder, e só depois que tentou colocar Jude de pé foi que o amigo soltou um grito, e Willem entendeu como era forte a dor.
Ele conseguiu, de algum jeito, meio arrastar e meio carregar Jude até o quarto, colocá-lo na cama e limpá-lo o melhor que pôde. Àquela altura o pior da dor parecia ter passado, e, quando Willem lhe perguntou se devia chamar um médico, Jude sacudiu a cabeça.
– Mas, Jude – disse, baixinho –, você está com dor. Temos de buscar ajuda.
– Nada vai ajudar – disse ele, ficando em silêncio por uns momentos. – Só preciso esperar.
Sua voz estava sussurrante e fraca, pouco familiar.
– O que posso fazer? – perguntou Willem.
– Nada – respondeu Jude. Os dois ficaram quietos. – Mas, Willem... pode ficar um pouco comigo?
– Claro – respondeu.
Ao seu lado, Jude tremia e se sacudia como se sentisse frio, e Willem tirou a manta da própria cama e o cobriu. A certa altura ele estendeu a mão debaixo da coberta e encontrou a mão de Jude, abrindo o punho cerrado do amigo para poder segurar a palma úmida e calejada. Fazia muito tempo que não segurava a mão de outro homem – desde a cirurgia do próprio irmão muito anos atrás – e Willem se surpreendeu ao ver como era forte o aperto de Jude, como eram musculosos seus dedos. Jude tremeu e bateu o queixo durante horas, e Willem acabou se deitando ao seu lado e caindo no sono.
Na manhã seguinte, acordou na cama de Jude com a mão latejando e, quando a examinou, viu as manchas roxas onde os dedos de Jude o haviam apertado. Levantou-se, um pouco oscilante, e caminhou até a área comum, onde encontrou Jude lendo à sua mesa, com as feições indistintas sob a luz forte do fim da manhã.
Jude ergueu o olhar quando Willem se aproximou e então se levantou, e, por um tempo, eles simplesmente se entreolharam em silêncio.
– Willem, desculpe – disse Jude por fim.
– Jude – falou ele –, não há por que se desculpar.
E ele sentia aquilo, de verdade.
– Desculpe, Willem, desculpe – repetia Jude, apesar disso, e, por mais que Willem tentasse tranquilizá-lo, ele não se aquietava.
– Só não conte para Malcolm e JB, tá? – pediu.
– Pode deixar – prometeu ele.
E nunca contou, embora não tenha feito nenhuma diferença, porque Malcolm e JB também acabariam vendo Jude sofrendo de dor, embora só poucas vezes em episódios tão intensos como o que Willem presenciara aquela noite.
Willem nunca discutiu aquilo com Jude, mas, nos anos que se seguiram, ele o veria com todo tipo de dor, dores grandes e dores pequenas, o veria estremecer diante de pequenos ferimentos e, às vezes, quando o desconforto era muito forte, o veria vomitar, ou se dobrar no chão, ou simplesmente apagar e ficar impassível, como fazia agora na sala de estar. Mas, embora fosse um homem que cumpria suas promessas, havia uma parte dele que se perguntava por que nunca tocara no assunto com Jude, por que nunca o fizera falar como era aquela sensação, por que nunca ousara fazer o que o instinto lhe mandara fazer uma centena de vezes: sentar-se ao lado dele e massagear suas pernas, tentar forçar de volta à submissão aqueles terminais nervosos rebeldes. Em vez disso, ali estava ele no banheiro, mantendo-se ocupado, enquanto a poucos metros um de seus melhores amigos estava sentado num sofá nojento, empreendendo a jornada lenta, triste e solitária de volta à consciência, de volta à terra dos vivos, sem ninguém ao seu lado.
– Você é um covarde – falou para seu reflexo no espelho do banheiro.
Seu rosto o encarou, exausto. Na sala de estar só havia silêncio, mas Willem parou na porta, onde não podia ser visto, e esperou que Jude voltasse para ele.
–
– O lugar é um muquifo – tinha dito JB a Malcolm, e, embora não estivesse errado (só o vestíbulo dava arrepios a Malcolm), ele ainda assim voltou para casa sentindo-se melancólico e pensando uma vez mais se continuar morando com os pais era realmente preferível a viver num muquifo só seu.
Logicamente, é claro, ele devia ficar onde estava. Ganhava muito pouco e trabalhava muito, e a casa dos pais era grande o bastante para que pudesse, em teoria, nunca os ver, se assim desejasse. Além de ocupar todo o quarto andar (que, para ser honesto, não era muito melhor que um muquifo, de tão bagunçado – sua mãe deixara de mandar a faxineira subir para limpar depois que Malcolm gritara com ela porque Inez havia quebrado uma de suas maquetes), ele tinha acesso à cozinha e à máquina de lavar e à toda gama de jornais e revistas que seus pais assinavam, e, uma vez por semana, acrescentava algumas roupas ao desgastado saco de pano que a mãe deixava na lavanderia a seco a caminho do escritório e que Inez recolhia no dia seguinte. Não tinha orgulho daquilo, é claro, nem do fato de ter 27 anos e sua mãe ainda ligar para o escritório dele quando fazia as compras da semana, a fim de perguntar se ele comeria morangos se ela os comprasse ou para saber se ele queria truta ou outro peixe no jantar daquela noite.
As coisas seriam mais fáceis, porém, se seus pais respeitassem os mesmos limites de espaço e tempo que Malcolm. Além de esperarem que ele tomasse café da manhã com eles diariamente e o brunch todo domingo, eles também passavam toda hora por seu andar para uma visita, batendo à porta e girando a maçaneta ao mesmo tempo, o que, como Malcolm lhes dissera inúmeras vezes, anulava o propósito da batida. Sabia que estava sendo malcriado e ingrato ao pensar assim, mas às vezes tinha pavor de voltar para casa por causa da inevitável conversa fiada que teria de aguentar antes que pudesse escapulir para o quarto como um adolescente. Tinha medo de como seria a vida na casa sem Jude por lá; embora o porão fosse mais reservado que o seu andar, seus pais também deram para passar por lá quando Jude estava em casa, e, certas vezes, quando Malcolm descia para ver o amigo, encontrava o pai doutrinando Jude sobre algo chato. Seu pai gostava muito de Jude – dizia frequentemente a Malcolm que o garoto possuía peso e profundidade intelectuais de verdade, ao contrário de seus outros amigos, que eram basicamente um bando de doidivanas – e, com ele indo embora, seria a Malcolm que o pai regalaria com suas histórias complicadas sobre o mercado e as realidades financeiras globais em transformação e vários outros tópicos que não interessavam muito a Malcolm. Na verdade, às vezes suspeitava de que o pai teria preferido Jude como filho: ele e Jude tinham frequentado a mesma faculdade de direito. O juiz para o qual Jude trabalhara fora o mentor do pai em sua primeira firma. E Jude era promotor assistente na divisão criminal da Promotoria, exatamente o mesmo lugar em que seu pai trabalhara quando jovem.
“Escreva o que eu digo: aquele garoto vai longe” ou “É tão raro encontrar, no início da carreira, alguém que vai alcançar o sucesso por seu próprio mérito”, anunciava seu pai com frequência para Malcolm e sua mãe depois de falar com Jude, parecendo satisfeito consigo mesmo, como se fosse de certa forma responsável pelo talento de Jude, e, naqueles momentos, Malcolm evitava olhar para o rosto da mãe e para a expressão consoladora que certamente encontraria.
As coisas também seriam mais fáceis se Flora ainda estivesse em casa. Enquanto ela se preparava para ir embora, Malcolm tentou sugerir que poderia dividir o novo apartamento de dois quartos em Bethune Street com ela, mas Flora simplesmente não entendeu suas numerosas indiretas ou simplesmente preferiu não as entender. Ela não parecia se incomodar com o tempo excessivo que os pais demandavam deles, o que significava que ele podia passar mais tempo em seu quarto trabalhando com suas maquetes e menos tempo no andar de baixo, na sala de estar, remexendo-se durante os intermináveis festivais de filmes de Ozu promovidos pelo pai. Quando era mais jovem, Malcolm ficava magoado e ressentido pela preferência do pai por Flora, tão óbvia que os amigos da família comentavam a respeito. “Flora Fabulosa”, seu pai a chamava (ou, em vários momentos de sua adolescência, “Flora, a Firme”, “Flora, a Furiosa” ou “Flora, a Fera”, embora sempre de forma elogiosa), e até mesmo hoje – embora Flora tivesse quase 30 anos – ainda tinha um carinho especial por ela. “A Fabulosa fez um comentário muito espirituoso hoje”, contava durante o jantar, como se Malcolm e sua mãe não falassem sempre com Flora, ou, depois de um brunch no Baixo Manhattan, perto do apartamento de Flora, “Por que a Fabulosa tinha de se mudar para tão longe de nós?”, embora ela só estivesse a quinze minutos de carro de distância. (Malcolm achava isso particularmente irritante, pois o pai sempre lhe contava suas histórias sobre como se mudara das Granadinas para o Queens quando criança e como se sentira para sempre um homem encurralado entre dois países, e que um dia Malcolm também deveria ir morar fora, pois aquilo realmente o enriqueceria como pessoa e lhe daria uma nova visão de mundo, muito necessária, etc., etc. E, no entanto, se Flora ousasse se mudar da ilha, para não dizer morar em um outro país, Malcolm não tinha dúvida alguma de que o pai ficaria desolado.)
Malcolm não tinha apelido. Ocasionalmente, seu pai o chamava pelos sobrenomes de outros Malcolms famosos: “X”, ou “McLaren”, ou “McDowell”, ou “Muggeridge”, supostamente aquele que inspirara o nome de Malcolm – mas sempre parecia mais uma repreensão do que um gesto afetuoso, um lembrete do que Malcolm deveria ser e claramente não era.
Malcolm tinha a sensação de que era tolice ainda se importar com o fato de que o pai não parecia gostar muito dele, que dirá lastimar. Até sua mãe dizia o mesmo. “Você sabe que Papai não fala por mal”, argumentava ela de vez em quando, depois que o pai proferia um de seus solilóquios sobre a superioridade geral de Flora, e Malcolm – querendo acreditar nela, embora também notando com irritação que a mãe ainda se referia a seu pai como Papai – rosnava ou resmungava qualquer coisa para mostrar a ela que não se importava. E às vezes – de novo, com uma incrível frequência – ele ficava irritado por passar tanto tempo pensando nos pais. Aquilo era normal? Não havia algo de patético nisso? Tinha 27 anos, afinal! Era isso o que acontecia quando você morava na casa dos pais? Ou seria só com ele? Seguramente este era o melhor argumento possível a favor de sair de casa: dar um jeito de deixar de ser tão criança. À noite, enquanto os pais encerravam sua rotina lá embaixo, com o estrondo dos canos velhos ao lavarem o rosto e o súbito baque do silêncio quando diminuíam a temperatura dos aquecedores da sala de estar, sons mais precisos do que qualquer relógio ao indicar que eram onze horas, onze e meia, meia-noite, Malcolm fazia listas daquilo que precisava resolver, e rápido, no ano seguinte: seu trabalho (que não ia para a frente), sua vida amorosa (inexistente), sua sexualidade (não resolvida), seu futuro (incerto). Os quatro itens eram sempre os mesmos, embora às vezes a ordem de prioridade mudasse. Também consistente era sua capacidade de diagnosticar com precisão o estado de cada uma dessas questões, além de sua extrema incapacidade de encontrar soluções.
Na manhã seguinte ele acordaria decidido: ia sair de casa e dizer aos pais que largassem do seu pé. Mas, quando chegava ao andar de baixo, lá estava sua mãe preparando o café da manhã (enquanto o pai há muito saíra para o trabalho), dizendo que ia comprar hoje as passagens para a viagem anual que faziam a St. Barts e perguntando se ele podia avisar quantos dias gostaria de passar com eles por lá? (Seus pais ainda pagavam suas férias. Ele sempre evitara mencionar isso aos amigos.)
– Sim, mãe – dizia.
E então tomava o café da manhã e saía, entrando no mundo em que ninguém o conhecia e no qual podia ser qualquer um.