Uma Vida Pequena
IV. O Axioma da Igualdade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
[ IV ]
O Axioma da Igualdade
1
NA NOITE ANTES DE partir para Boston para o casamento de seu amigo Lionel, ele recebe uma mensagem do Dr. Li dizendo que o Dr. Kashen havia morrido. “Ataque cardíaco; muito rápido”, escreve Dr. Li. O funeral será na sexta-feira à tarde.
Na manhã seguinte ele segue de carro diretamente para o cemitério e, do cemitério, para a casa do Dr. Kashen, uma estrutura de madeira de dois andares em Newton, onde o professor costumava promover um jantar de fim de ano para todos os seus alunos da pós-graduação. O acordo era que ninguém deveria falar sobre matemática naquelas festas.
– Podem falar de qualquer outra coisa – dizia a eles. – Menos de matemática.
Só em ocasiões como as festas do Dr. Kashen ele conseguia ser a pessoa menos socialmente inepta no ambiente (e era também, não por coincidência, o menos brilhante), e o professor sempre o fazia começar a conversa.
– Então, Jude – dizia –, no que anda interessado ultimamente?
Pelo menos dois de seus colegas – ambos cursando o Ph.D. – tinham formas leves de autismo, e ele via como se esforçavam para conseguir conversar, o quanto se esforçavam para manter os modos à mesa. Por isso, antes dos jantares, ele pesquisava as novidades sobre os mundos dos jogos online (que um deles adorava) e do tênis (que o outro adorava), de modo a fazer perguntas que os dois pudessem responder. O Dr. Kashen queria que seus alunos um dia conseguissem achar um emprego, e, além de ensinar matemática, também considerava que era sua responsabilidade socializá-los, ensinar-lhes como se comportar entre outros.
Às vezes o filho do Dr. Kashen, Leo, que era cinco ou seis anos mais velho que Jude, comparecia aos jantares. Ele também tinha autismo, mas, diferentemente de Donald e Mikhail, o dele era imediatamente perceptível e acentuado o bastante para que, apesar de ter completado o ensino médio, não tivesse conseguido frequentar mais do que um semestre da universidade e só tenha conseguido encontrar trabalho como programador de uma companhia telefônica, onde passava dia após dia sentado numa salinha reparando telas e telas de códigos. Leo era filho único e ainda vivia com o pai e com a irmã do Dr. Kashen, que fora morar com eles depois que a esposa do Dr. Kashen morrera.
Na casa, Jude conversa com Leo, que parece paralisado e balbucia uma coisa ou outra, desviando o olhar enquanto fala, e, depois, com a irmã do Dr. Kashen, que era professora de matemática na Northeastern.
– Jude – diz ela –, que bom ver você. Obrigada por vir. – Ela segura sua mão. – Meu irmão sempre falava de você, sabia?
– Ele era um professor fabuloso – responde. – Me ensinou muito. Lamento.
– Sim – disse ela. – Foi tudo muito rápido. Coitado do Leo – os dois se viram para Leo, que está olhando para o vazio –, não sei como ele vai lidar com isso. – Ela dá um beijo de despedida em Jude. – Mais uma vez, obrigada.
Lá fora, o frio é implacável e o para-brisa está coberto por uma camada de gelo. Ele segue devagar até chegar à casa de Harold e Julia, entrando e chamando por eles.
– Olha ele aqui! – diz Harold, materializando-se da cozinha, limpando as mãos num pano de prato. Harold o abraça, o que começara a fazer a certa altura, e por mais que se sinta desconfortável, Jude pensa que seria ainda mais desconfortável tentar explicar por que gostaria que Harold parasse com aquilo. – Sinto muito por Kashen, Jude. Fiquei chocado quando descobri. Esbarrei com ele na faculdade dois meses atrás e parecia em ótima forma.
– E estava – responde, desenrolando o cachecol enquanto Harold pega seu casaco. – E nem era tão velho assim: estava com setenta e quatro anos.
– Jesus – diz Harold, que acabou de completar sessenta e cinco. – Que bom pensar nisso. Vá levar as coisas para o quarto e venha até a cozinha. Julia está presa numa reunião, mas daqui a uma hora mais ou menos já deve estar em casa.
Ele larga a bolsa no quarto de hóspedes – o “quarto do Jude”, que é como chamam Harold e Julia; o “seu quarto” –, tira o terno, coloca outra roupa e volta à cozinha, onde Harold espia uma panela no fogo como se estivesse olhando para dentro de um poço.
– Estou tentando fazer um molho à bolonhesa – diz ele, sem se virar –, mas alguma coisa não está dando certo. Fica separando, está vendo?
Ele olha.
– Quanto azeite de oliva você colocou?
– Bastante.
– Quanto é bastante?
– Bastante. Demais, obviamente.
Ele sorri.
– Deixa que eu dou um jeito.
– Graças a deus – diz Harold, afastando-se do fogão. – Estava esperando que você dissesse isso.
Durante o jantar, conversam sobre o pesquisador preferido de Julia, que, segundo ela, pode estar tentando se mandar para outro laboratório, e sobre as últimas fofocas que circulam pela faculdade de direito, e sobre a antologia de ensaios sobre o caso Brown contra o Conselho de Educação, que Harold está editando, e sobre uma das gêmeas de Laurence, que está para casar, até que Harold diz, abrindo um sorriso:
– E então, Jude, o dia do grande aniversário está chegando.
– Faltam três meses! – gorjeia Julia, e ele geme. – O que pretende fazer?
– Nada, provavelmente – responde.
Não tinha planejado nada e também proibira Willem de fazer qualquer plano. Dois anos antes, ele deu uma grande festa para os quarenta anos de Willem em Greene Street e, embora os quatro tenham sempre dito que iriam a algum lugar para celebrar os quarenta anos de cada um, não foi bem assim que aconteceu. Willem estava filmando em Los Angeles no verdadeiro dia do seu aniversário, mas, depois de encerradas as gravações, eles foram a Botswana fazer um safári. Mas tinham sido só os dois: Malcolm trabalhava num projeto em Pequim e JB... bem, Willem não disse nada sobre convidar JB, e ele também não.
– Você tem de fazer alguma coisa – diz Harold. – Podemos dar um jantar para você aqui, ou na cidade.
Ele sorri, mas nega com a cabeça.
– Quarenta é quarenta – diz. – É só mais um ano.
Quando criança, no entanto, jamais pensou que chegaria aos quarenta: nos meses seguintes ao episódio do carro, sonhava às vezes com a vida adulta, e, embora os sonhos fossem muito vagos – nunca sabia ao certo onde estava morando ou o que estava fazendo, ainda que na maioria dos sonhos estivesse andando, às vezes até correndo –, era sempre jovem; sua imaginação se recusava a avançar até a meia-idade.
Para mudar de assunto, ele conta sobre o funeral do Dr. Kashen e sobre o discurso de homenagem feito pelo Dr. Li.
– As pessoas que não amam a matemática sempre acusam os matemáticos de tentarem torná-la complicada – dissera o Dr. Li. – Mas qualquer um que ame a matemática sabe que, na verdade, é o contrário: a matemática recompensa a simplicidade, e os matemáticos a valorizam acima de qualquer outra coisa. Assim, não é surpresa nenhuma que o axioma preferido de Walter fosse também o mais simples nos domínios da matemática: o axioma do conjunto vazio.
“O axioma do conjunto vazio é o axioma do zero. Ele declara que deve haver um conceito de nada, deve haver um conceito de zero: zero de valor, zero itens. A matemática supõe que exista um conceito do nada, mas pode prová-lo? Não. Mas ele tem de existir.
“Se quiséssemos filosofar, que é o que estamos fazendo hoje, poderíamos dizer que a própria vida é o axioma do conjunto vazio. Começa em zero e termina em zero. Sabemos que ambos os estados existem, mas não temos consciência de nenhuma das duas experiências: esses estados são partes necessárias da vida, ainda que não possam ser vividos. Podemos pressupor o conceito do nada, mas não o provar. Mas ele tem de existir. Assim, prefiro pensar que Walter não morreu, mas, em vez disso, provou por si mesmo o axioma do conjunto vazio, provou o conceito do zero. Sei que isso o deixaria muito feliz. Uma mente sofisticada urge por um fim sofisticado, e a mente de Walter era a mais sofisticada de todas. Com isso, me despeço dele; desejo que tenha encontrado a resposta ao axioma que tanto amava.”
Os três ficam em silêncio por algum tempo, refletindo sobre tudo aquilo.
– Por favor, me diga que esse não é o seu axioma preferido – fala Harold de repente, e Jude cai no riso.
– Não – responde. – Não é.
Ele dorme até tarde no dia seguinte e à noite vai ao casamento. Como ambos os noivos moraram no Hood, Jude conhece quase todos os convidados. Aqueles que não faziam parte do mundo do Hood – os colegas de Lionel de Wellesley, e os de Sinclair de Harvard, onde ensina história da Europa – ficam próximos uns dos outros como se para se protegerem, com um ar entediado e confuso. O evento é casual e levemente caótico – Lionel começa a atribuir tarefas aos convidados no momento em que chegam, tarefas que a maioria ignora: seu dever é fazer com que todos assinem o livro de presença; Willem fica encarregado de ajudar as pessoas a encontrarem suas mesas – e as pessoas circulam dizendo como, graças a Lionel e a Sinclair, graças àquele casamento, não terão que ir ao reencontro de vinte anos de faculdade. Estão todos ali: Willem e a namorada, Robin; Malcolm e Sophie; e JB com seu novo namorado, a quem ele ainda não conheceu. Jude sabe, antes mesmo de ver a lista de lugares, que serão colocados na mesma mesa.
– Jude! – gritam para ele pessoas que não vê há anos. – Como vai você? Cadê o JB? Acabei de falar com Willem! Acabei de ver Malcolm! – E então: – Vocês quatro ainda são tão próximos como eram?
– Ainda nos falamos – diz –, e estão todos bem. – É a resposta que ele e Willem combinaram de dar.
Tenta imaginar o que JB está dizendo, se está tangenciando a verdade, como ele e Willem, ou se está mentindo na cara dura, ou ainda se, num ataque de sinceridade digno de JB, estaria falando a verdade:
– Não. Quase não nos falamos mais. Só tenho contato com Malcolm atualmente.
Não via JB há meses e meses. Tem notícias dele, é claro: por meio de Malcolm, de Richard, de Henry Young Negro. Mas não o vê mais, porque, mesmo passados quase três anos, ainda não consegue perdoá-lo. Havia tentado e tentado. Sabe bem o quanto está sendo irascível, cruel e intolerante. Mas não consegue. Quando vê JB, ele o vê fazendo a imitação, ele o vê confirmando naquele instante tudo o que sempre temeu e que pensou aparentar, tudo o que sempre temeu e achou que os outros pensavam dele. Mas nunca pensou que seus amigos o viam daquele jeito; ou, pelo menos, nunca pensou que lhe diriam. A precisão da imitação o entristecia, mas o fato de que era JB quem a fazia o deixava devastado. Quando é tarde da noite e não consegue dormir, a imagem que às vezes lhe vem à mente é a de JB arrastando a perna num semicírculo, com a boca aberta, babando, e as mãos à frente feito garras: Eu sou o Jude. Meu nome é Jude St. Francis.
Naquela noite, depois de levarem JB para o hospital e o internarem – JB estava grogue e balbuciante quando chegaram, mas depois se recuperou e ficou furioso, violento, urrando para eles, se debatendo contra os plantonistas, tentando se desvencilhar dos braços deles até que o sedaram e o arrastaram, todo mole, pelo corredor –, Malcolm foi embora num táxi e ele e Willem pegaram outro para voltarem para casa, em Perry Street.
Não conseguira olhar para Willem no táxi e, sem nada para distraí-lo – nenhum formulário para ser preenchido, nenhum médico com quem falar –, começou a sentir frio, apesar da noite quente e úmida, e suas mãos começaram a tremer. Willem esticou o braço e pegou sua mão direita, segurando-a com a esquerda pelo restante do longo e silencioso percurso a caminho do Baixo Manhattan.
Passou bastante tempo no hospital enquanto JB se recuperava. Decidiu que ficaria por lá até ele melhorar; não poderia abandoná-lo, não depois de tudo pelo que passaram juntos. Os três se alternavam em turnos e, depois do trabalho, ele sentava ao lado do leito de JB no hospital e lia. Às vezes JB estava acordado, mas, na maior parte do tempo, não. Estava se desintoxicando, mas o médico também descobrira que JB tinha uma infecção renal, por isso ficou internado na ala principal do hospital, recebendo soro no braço, enquanto o rosto lentamente perdia o inchaço. Quando estava acordado, JB implorava pelo seu perdão, às vezes dramática e suplicantemente, e às vezes – quando estava mais lúcido – em voz baixa. Estas eram as conversas que Jude achava mais difícil.
– Jude, me desculpe – dizia. – Eu estava fora de mim. Por favor, diga que me perdoa. Fui ridículo. Eu te amo, você sabe disso. Nunca quis magoar você, nunca.
– Sei que você estava fora de si, JB – respondia. – Sei disso.
– Então diga que me perdoa. Por favor, Jude.
Ficavam em silêncio.
– Vai ficar tudo bem, JB – dizia.
Mas não conseguia fazer as palavras – eu te perdoo – saírem de sua boca. À noite, sozinho, as repetia uma vez após a outra: eu te perdoo, eu te perdoo. Seria tão simples, ralhava consigo. Faria JB se sentir melhor. Diga, ordenava a si próprio enquanto JB o observava, com o branco dos olhos manchado e amarelado. Diga. Mas não conseguia. Sabia que estava fazendo JB se sentir pior; tinha noção disso, mas ainda assim não conseguia dizer. As palavras eram como pedras, presas sob sua língua. Não conseguia soltá-las, simplesmente não conseguia.
Depois, quando JB passou a ligar para ele todas as noites da clínica de reabilitação, estridente e pedante, mantinha-se em silêncio durante seus monólogos sobre como se tornara uma pessoa melhor, como descobrira que não podia contar com ninguém além de si mesmo, e como ele, Jude, precisava ver que a vida era muito mais que só o trabalho, e deveria viver cada momento e aprender a se amar. Ele ouvia, respirava e nada dizia. E então JB voltou para casa e precisou se reajustar, e ninguém teve muitas notícias dele durante alguns meses. Seu contrato de aluguel do apartamento fora suspenso, e ele voltou a morar com a mãe enquanto reorganizava a vida.
Então, um dia, ele telefonou. Era início de fevereiro, quase sete meses exatos depois que o levaram para o hospital, e JB queria vê-lo e conversar com ele. Sugeriu a JB que o encontrasse num café chamado Clementine, perto do prédio de Willem e, enquanto se espremia entre as mesas quase coladas umas às outras rumo a um assento na parede dos fundos, percebeu por que havia escolhido aquele lugar: porque era pequeno demais, apertado demais, para que JB o imitasse. Ao reconhecer isso, sentiu-se bobo e covarde.
Não via JB fazia bastante tempo, e JB curvou-se sobre a mesa e o abraçou, de leve e com cuidado, antes de sentar.
– Você está ótimo – falou.
– Obrigado – respondeu JB. – Você também.
Por cerca de vinte minutos, conversaram sobre a vida de JB: tinha entrado para os Viciados em Metanfetamina Anônimos. Continuaria morando com a mãe por mais alguns meses, até decidir o que fazer depois. Voltara a trabalhar, na mesma série que fazia antes de ser internado.
– Que bom, JB – falou. – Estou orgulhoso de você.
Então os dois ficaram em silêncio, olhando para as outras pessoas. A algumas mesas de distância, havia uma garota com um longo colar dourado, enrolando-o e desenrolando-o entre os dedos. Observou-a conversar com a amiga, enroscando e desenroscando o colar, até ela olhar em sua direção e ele virar a cabeça.
– Jude – começou JB –, agora que estou completamente sóbrio, queria me desculpar com você. Foi horrível. Foi... – Ele balançou a cabeça. – Foi cruel. Não sei... – Parou outra vez, e os dois ficaram em silêncio. – Sinto muito – falou. – Sinto muito.
– Eu sei, JB – falou Jude, sentindo uma espécie de tristeza que nunca sentira antes.
Outras pessoas já haviam sido cruéis com ele, já haviam feito com que se sentisse mal, mas não eram pessoas que ele amava, não eram pessoas que ele sempre torcera para que o vissem como alguém inteiro, sem avarias. JB fora o primeiro.
Ao mesmo tempo, JB também fora um dos primeiros a se tornar seu amigo. Quando teve o episódio de dor na universidade que fez seus colegas de quarto o levarem ao hospital onde conheceu Andy, foi JB, Andy lhe contaria depois, quem chegou com ele nos braços, e foi JB quem exigiu que ele fosse atendido primeiro, quem fez um tremendo escarcéu no setor de emergência até acabar sendo expulso de lá – mas não antes que um médico fosse chamado.
Podia ver o amor de JB por ele nas pinturas que o retratavam. Lembrava um verão em Truro, vendo JB fazer seus esboços, quando percebeu pela expressão em seu rosto, pelo sorrisinho que abria, e pelo jeito cuidadoso e delicado como seu longo antebraço se movia pelo papel, que desenhava algo que lhe era caro, algo que estimava.
– O que está desenhando? – perguntou, e quando JB se virou para ele e levantou o bloco, pôde ver que era um retrato dele, do seu rosto.
Ah, JB, pensou. Ah, vou sentir sua falta.
– Acha que pode me perdoar, Jude? – pediu JB, olhando para ele.
Não tinha palavras, só foi capaz de balançar a cabeça.
– Não consigo, JB – respondeu, no fim. – Não consigo. Não consigo olhar para você e não ver... – Parou. – Não consigo – repetiu. – Sinto muito, JB, de verdade.
– Ah – disse JB, engolindo em seco. Ficaram ali sentados por um bom tempo, sem dizer nada.
– Sempre vou desejar que coisas maravilhosas aconteçam a você – falou para JB, que assentiu com a cabeça lentamente, sem olhar para ele.
– Bem – disse JB finalmente, levantando.
Ele também se levantou e estendeu a mão para JB, que olhou para ela como se fosse algo extraterrestre, examinando-a, apertando os olhos em sua direção. Até que enfim a segurou, mas em vez de apertá-la, levou seus lábios até ela e parou. E então JB lhe devolveu sua mão e foi embora do café desnorteado, quase correndo, esbarrando nas mesinhas – “Licença, licença” – no caminho.
Ele ainda vê JB de vez em quando, normalmente em festas, sempre inseridos em grupos, e os dois são educados e cordiais um com o outro. Jogam um pouco de conversa fora, o que é a parte mais dolorosa. JB nunca mais tentou abraçá-lo ou beijá-lo outra vez; aproxima-se já com a mão estendida, e ela a pega, e os dois se cumprimentam. Enviou flores para JB – com um bilhete curtíssimo – quando a mostra “Segundos, Minutos, Horas, Dias” foi inaugurada e, por mais que não tenha comparecido à noite de inauguração, esteve na galeria no sábado seguinte, a caminho do trabalho, e passou uma hora deslocando-se lentamente de um quadro para o outro. JB planejara incluir a si mesmo na série, mas no fim acabou desistindo: estavam lá apenas Jude, Malcolm e Willem. Os quadros eram lindos, e ao estudá-los, pensou não tanto nas vidas que retratavam, mas na vida de quem os criara – tantas daquelas pinturas haviam sido feitas quando JB estava num de seus estados mais lastimáveis, mais perdidos, e ainda assim eram decididas e sutis, e vê-las significava imaginar a empatia, a ternura e o encanto da pessoa que as fizera.
Malcolm continuou amigo de JB, embora tenha sentido a necessidade de se desculpar por isso.
– Ora essa, Malcolm – respondeu Jude, depois que Malcolm confessara, pedindo sua permissão. – Claro que deve manter sua amizade com ele.
Não queria que JB fosse abandonado por todos eles; não queria que Malcolm tivesse que provar sua lealdade a ele repudiando JB. Queria que JB tivesse um amigo que o conhecia desde os dezoito anos, desde que era o sujeito mais engraçado e inteligente da universidade e tanto ele como todo mundo sabiam disso.
Mas Willem nunca mais falou com JB. Depois que JB voltou da reabilitação, Willem ligou para ele e disse que não poderia mais ser seu amigo e que ele sabia o porquê. E aquele foi o fim. Jude ficou surpreso com aquilo, e triste, pois sempre gostara de ver JB e Willem gargalharem juntos e alfinetarem um ao outro, e adorava quando os dois lhe contavam coisas sobre suas vidas: eram tão destemidos, tão corajosos; eram seus emissários num mundo menos inibido e mais alegre. Sempre souberam tirar prazer de tudo, e Jude sempre admirara essa qualidade nos dois, e sentia-se grato por estarem dispostos a compartilhar aquilo com ele.
– Sabe de uma coisa, Willem – disse ele uma vez –, espero que o motivo por ter deixado de falar com JB não seja o que aconteceu comigo.
– Mas é claro que é pelo que aconteceu com você – respondeu Willem.
– Mas isso não é motivo – retrucou.
– Claro que é – disse Willem. – Não há motivo melhor que esse.
Nunca passara por aquilo antes, então não tinha uma real compreensão do quanto era lento, triste e difícil terminar uma amizade. Richard sabe que ele e JB e Willem e JB não se falam mais, embora não saiba a razão – ou pelo menos não soube por Jude. Hoje, depois que anos já se passaram, ele nem mesmo continua a culpar JB; só não consegue esquecer. Uma parte pequena de si, mas que não podia ser ignorada, sempre se perguntava se JB voltaria a fazer aquilo; tinha medo de ficar sozinho com ele.
Dois anos atrás, no primeiro ano em que JB não foi a Truro, Harold perguntou se havia algum problema.
– Você nunca mais falou dele – disse.
– Bem – começou, sem saber como continuar. – Não somos mais... não somos mais amigos como antes, Harold.
– Sinto muito, Jude – disse Harold após um breve silêncio, e ele assentiu com a cabeça. – Pode me contar o que aconteceu?
– Não – respondeu, concentrado em arrancar as folhas dos rabanetes. – É uma longa história.
– E acha que é algo que pode ser reparado?
Negou com a cabeça.
– Acho que não.
Harold soltou um suspiro.
– Sinto muito, Jude – repetiu. – Deve ter sido algo ruim. – Ficou em silêncio. – Sempre gostei de ver vocês quatro juntos, sabe? Vocês tinham uma ligação especial.
Jude assentiu com a cabeça outra vez.
– Eu sei – falou. – Concordo. Sinto falta dele.
Ainda hoje ele sente falta de JB; acha que sempre sentirá. E sente ainda mais em eventos como aquele casamento, em que normalmente os quatro teriam passado a noite falando e rindo de todo mundo, despertando inveja e sendo quase desagradáveis pelo prazer que compartilhavam, o prazer que um tinha em estar na companhia do outro. Mas, agora, ali estão eles, JB e Willem cumprimentando-se com um aceno de cabeça por sobre a mesa, Malcolm falando depressa para tentar suprimir qualquer tensão, e as outras três pessoas sentadas à mesa, a quem eles quatro – sempre pensará neles como eles quatro; nós quatro – começam a interrogar com uma intensidade inadequada, rindo exageradamente de suas piadas, usando-as como escudos humanos involuntários. Ele está sentado ao lado do namorado de JB – o belo garoto branco que sempre quis –, que está na casa dos vinte, acabou de se formar em enfermagem e está claramente encantado por JB.
– Como era JB na universidade? – pergunta Oliver.
E ele responde:
– Bem parecido com o que é hoje: engraçado, sagaz, provocador e esperto. E talentoso. Sempre teve talento, sempre.
– Humm – diz Oliver, pensativo, olhando para JB, que está ouvindo Sophie falar com uma concentração que parece exagerada. – Na verdade, nunca vejo JB como uma pessoa engraçada.
E então Jude também olha para JB, perguntando a si mesmo se Oliver teria interpretado JB de maneira incorreta ou se JB havia de fato se tornado outra pessoa, alguém que ele não reconheceria hoje como a pessoa a quem conheceu por tantos anos.
No fim da noite, beijos e apertos de mão são trocados, e quando Oliver – a quem JB claramente não contou nada – diz a Jude que deviam se ver novamente, os três, pois ele sempre quis conhecê-lo, um dos amigos mais antigos de JB, Jude sorri e responde algo vago, acenando para JB antes de ir para fora, onde Willem o aguarda.
– Como foi para você? – pergunta Willem.
– Normal – responde, sorrindo para ele. Jude acredita que aqueles encontros são mais difíceis para Willem do que para ele. – E para você?
– Também – diz Willem. Sua namorada encosta o carro no meio-fio; estão hospedados num hotel. – Ligo para você amanhã, tudo bem?
De volta a Cambridge, ele entra na casa silenciosa e segue com o passo mais leve possível até seu banheiro. Lá, recolhe o estojo escondido debaixo do ladrilho solto próximo ao vaso sanitário e se corta até se sentir completamente vazio, estendendo os braços sobre a banheira e assistindo à porcelana ganhar um tom rubro. Como sempre faz quando encontra JB, questiona se tomou a decisão certa. Tenta imaginar se todos os quatro – ele, Willem, JB, Malcolm – ficarão acordados até mais tarde aquela noite, pensando no rosto um do outro e nas conversas, boas ou más, que tiveram entre si naqueles mais de vinte anos de amizade.
Ah, pensa ele, se ao menos eu fosse uma pessoa melhor. Se ao menos fosse mais generoso. Ou se fosse menos egoísta. Ou se fosse mais corajoso.
Ele finalmente levanta, agarrando-se à barra da toalha; se cortara demais naquela noite e sentia-se fraco. Vai até o espelho de corpo inteiro que fica pendurado na parte de dentro do armário do quarto. Em seu apartamento em Greene Street não há espelhos de corpo inteiro.
– Nada de espelhos – dissera a Malcolm. – Não gosto de espelhos.
Mas a verdade é que não quer ser confrontado pela sua imagem; não quer ver seu corpo, ou seu rosto olhando diretamente para ele.
Mas há um espelho ali na casa de Harold e Julia, e Jude para na frente dele por alguns segundos, contemplando seu reflexo, antes de assumir a postura curvada que JB fizera aquela noite. JB estava certo, pensa. Ele estava certo. E é por isso que não consigo perdoá-lo.
Agora ele abre a boca. E agora salta num pequeno círculo. E agora arrasta a perna atrás de si. Seus gemidos preenchem o ar na casa tranquila e silenciosa.
–
No primeiro sábado de maio, ele e Willem fazem o que vêm chamando de A Última Ceia num restaurante japonês minúsculo e caríssimo próximo ao seu escritório, na rua 56. O restaurante tem só seis assentos, todos perfilados junto a um balcão largo e aveludado de cipreste, e, durante as três horas que passam lá, eles são os únicos clientes.
Por mais que soubessem que a refeição sairia caro, ainda assim ficam surpresos quando olham para a conta. Os dois então começam a rir, embora ele não saiba se o fazem pelo absurdo de gastar tanto num só jantar, pelo fato de terem acabado de fazer isso ou ainda pelo fato de poderem gastar aquele dinheiro.
– Deixa que eu pago – diz Willem, mas, quando vai pegar a carteira, o garçom se aproxima com o cartão de crédito de Jude, que lhe dera quando Willem foi ao banheiro.
– Droga, Jude – diz Willem, abrindo um sorriso.
– É a Última Ceia, Willem – diz ele. – Você pode me pagar um taco quando voltar.
– Se eu voltar – diz Willem. Aquela vem sendo uma piada recorrente entre os dois. – Jude, obrigado. Não era para você pagar o jantar.
Aquela é a primeira noite em que a temperatura está amena, e Jude diz a Willem que, se realmente quer agradecê-lo pelo jantar, basta caminhar com ele.
– Até onde? – pergunta, cauteloso. – Nem pense que vamos caminhar até o SoHo, Jude.
– Não muito longe.
– É melhor, mesmo – diz Willem –, porque estou cansado de verdade.
Essa é uma nova estratégia de Willem, e Jude a aprecia: em vez de dizer a ele que não pode fazer certas coisas porque não são boas para suas pernas ou suas costas, Willem faz com que ele próprio pareça incapaz, na tentativa de dissuadi-lo. Naqueles dias, Willem sempre estava cansado demais para andar, ou dolorido demais, ou sentia muito calor, ou muito frio. Mas ele sabia que era tudo invenção. Numa tarde de sábado, depois de visitarem algumas galerias, Willem lhe disse que não conseguiria caminhar de Chelsea até Greene Street (“Estou muito cansado”), por isso pegaram um táxi. Mas, no dia seguinte, durante o almoço, Robin falou:
– Ontem não estava um dia lindo? Depois que Willem chegou em casa, corremos por... quase treze quilômetros, não foi isso, Willem? Subimos e descemos a rodovia.
– Ah, é mesmo? – perguntou a Robin, olhando para Willem, que sorriu acanhado para ele.
– O que posso dizer? – falou. – Do nada, me senti mais disposto.
Os dois começam a caminhar no sentido sul, primeiro dobrando a leste na Broadway para não terem de atravessar Times Square. Willem pintou os cabelos de preto para seu próximo papel e deixou crescer a barba, o que o deixa menos reconhecível, mas nenhum dos dois quer ficar preso em meio a uma horda de turistas.
Aquela é a última vez que verá Willem por um período que provavelmente passará de seis meses. Na terça-feira ele parte para o Chipre a fim de começar a rodar a Ilíada e a Odisseia; interpretará Ulisses nas duas produções. Ambas serão filmadas consecutivamente e lançadas consecutivamente, mas terão o mesmo elenco e também o mesmo diretor. A filmagem o levará pelo sul da Europa e pelo norte da África, antes de partir para a Austrália, onde algumas das cenas de batalha serão rodadas, e, como o ritmo será muito intenso e as distâncias que terá de percorrer muito longas, ainda não sabe ao certo se terá muito tempo, se é que terá algum, para voltar para casa nos intervalos. Aquela é a filmagem mais elaborada e ambiciosa de que Willem já participou, e ele está nervoso.
– Vai ser incrível, Willem – tranquiliza-o Jude.
– Ou um desastre incrível – diz Willem.
Ele não está de mau humor, na verdade nunca está, mas Jude pode perceber que está ansioso, ávido para fazer um bom trabalho e com receio de decepcionar os outros de alguma forma. Mas ele fica aflito antes de todos os filmes, e ainda assim – como Jude o lembra – todos acabaram bem, mais do que bem. Entretanto, reflete, aquele é um dos motivos pelos quais Willem sempre terá trabalho, e bons trabalhos: porque realmente leva aquilo a sério, porque se sente responsável.
Já Jude tem pavor dos próximos seis meses, especialmente porque Willem esteve tão presente no último ano e meio. Primeiro participou de um projeto pequeno, baseado no Brooklyn, que durou apenas algumas semanas. Depois, fez uma peça, uma produção chamada O dodô maldivo, sobre dois irmãos, ambos ornitologistas, sendo que um deles está sendo tomado lentamente por uma espécie de loucura inclassificável. Durante toda a temporada, ele e Willem se reuniam para um jantar tardio às quintas-feiras. Assim como acontecera em todas as outras peças de Willem, ele a assistiu diversas vezes. Na terceira, avistou JB e Oliver no meio da plateia, algumas fileiras à sua frente, mas do lado esquerdo do teatro, e durante todo o espetáculo ficou espiando JB para ver se ele estava rindo ou se concentrava nas mesmas falas, ciente de que aquela era a primeira peça de Willem que os outros três não tinham assistido juntos, em grupo, pelo menos uma vez.
– Ouça – diz Willem enquanto descem a Quinta Avenida, que está vazia e onde se veem apenas as janelas iluminadas e restos de lixo soltos rodopiando com a brisa leve e suave: sacos de plástico, que se enchiam de ar feito águas-vivas, e folhas de jornais emaranhadas –, falei com Robin que conversaria com você a respeito de uma coisa.
Ele espera. Vinha tomando cuidado para não cometer o mesmo erro com Robin e Willem que cometera com Philippa e Willem – quando Willem o convida para acompanhá-los a algum lugar, ele sempre consulta Robin antes para ter certeza (até que Willem um dia finalmente pediu que parasse de perguntar, pois Robin sabia o quanto Jude era importante para ele e estava tranquila em relação a isso e, se não estivesse tranquila, teria de ficar), e também tentara se apresentar a Robin como alguém independente, sem muita probabilidade de ir morar com eles quando ficasse velho. (Ele, no entanto, não sabia exatamente como passar essa mensagem, por isso não tinha ideia se fora bem-sucedido ou não.) Mas ele gosta de Robin – ela é professora de estudos clássicos em Columbia e fora contratada como consultora no cinema dois anos antes, além de ter um senso de humor afiado que, de certa forma, o faz se lembrar de JB.
– Tudo bem – diz Willem, e respira fundo. Jude se ajeita. Ah, não, pensa. – Lembra da Clara, amiga de Robin?
– Lembro – diz ele. – Aquela que conheci no Clementine.
– Sim! – diz Willem, com um ar de triunfo. – Ela mesma!
– Meu deus, Willem. Me dê um pouco de crédito: isso foi na semana passada.
– Eu sei, eu sei. Bom, de qualquer jeito o negócio é o seguinte: ela está interessada em você.
Ele fica perplexo.
– Como assim?
– Ela perguntou a Robin se você era solteiro. – Willem faz uma pausa. – Falei para ela que achava que você não tinha interesse em sair com ninguém, mas que perguntaria. Então estou perguntando.
A ideia é tão absurda que ele leva algum tempo para compreender o que Willem está dizendo. Quando enfim compreende, para de andar e ri, constrangido e incrédulo.
– Você só pode estar brincando, Willem – diz ele. – Isso é ridículo.
– Por que é ridículo? – pergunta Willem, agora sério. – Por quê, Jude?
– Willem – diz ele, recuperando-se. – Fico muito lisonjeado. Mas... – Faz uma careta e ri outra vez. – É absurdo.
– O que é absurdo? – diz Willem, e ele sente a conversa mudar de rumo. – Que alguém possa se sentir atraído por você? Não é a primeira vez que acontece, sabe? Você só não enxerga porque não se permite.
Ele balança a cabeça.
– Vamos falar de outra coisa, Willem.
– Não – diz Willem. – Não vai escapar desta vez, Jude. Por que isso seria ridículo? Por que é um absurdo?
De repente, ele se sente tão desconfortável que realmente chega a parar, bem na esquina da Quinta Avenida com a rua 45, e começa a esquadrinhar a rua em busca de um táxi. Mas é claro que não encontra nenhum.
Enquanto pensa no que responder, lembra o que aconteceu alguns dias após aquela noite no apartamento de JB, quando perguntara a Willem se JB estava certo, ao menos em parte: Será que Willem se ressentia dele? Será que realmente não contava o bastante sobre si próprio aos amigos?
Willem ficou em silêncio por tanto tempo que ele já sabia a resposta, antes mesmo de ouvi-la.
– Veja bem, Jude – disse Willem, lentamente. – JB estava... JB estava fora de si. Eu nunca poderia ficar de saco cheio de você. Você não é obrigado a me contar seus segredos. – Fez uma pausa. – Mas, sim, eu gostaria que compartilhasse mais de você comigo. Não para obter a informação, mas para, talvez, poder ajudar. – Parou e olhou para ele. – Apenas isso.
Desde então, vinha tentando contar mais coisas a Willem. Mas são tantos os tópicos sobre os quais nunca conversou com mais ninguém desde Ana, passados agora vinte e cinco anos, que ele se vê literalmente sem conhecer uma linguagem para fazê-lo. Seu passado, seus medos, o que lhe fizeram, o que ele fez a si mesmo – esses são assuntos que só podem ser abordados em idiomas que ele não fala: farsi, urdu, mandarim, português. Uma vez, tentou colocar no papel algumas coisas, pensando que pudesse ser mais fácil, mas não foi – ele não sabe se explicar a si mesmo.
– Você vai encontrar seu próprio jeito de falar sobre as coisas que aconteceram – lembra que Ana falou. – Terá de encontrar, se um dia quiser ser íntimo de alguém.
Queria, como muitas vezes acontecia, ter conversado com ela, ter deixado que ela lhe ensinasse como fazê-lo. Seu silêncio começara como uma proteção, mas ao longo dos anos se transformou em algo quase opressivo, algo que o controla, em vez de ser o contrário. Agora não consegue mais se desvencilhar dele, mesmo quando quer. Imagina a si mesmo flutuando numa pequena bolha de água, cercada por todos os lados de paredes, tetos e pisos de gelo, todos com muitos centímetros de espessura. Ele sabe que existe uma saída, mas lhe faltam os equipamentos; não tem nenhuma ferramenta para começar a trabalhar e suas mãos escavam inutilmente o gelo escorregadio. Pensara que, ao não revelar quem era, faria de si mesmo alguém mais palatável, menos estranho. Mas, agora, o que ele não diz o torna ainda mais estranho, um objeto de pena e até mesmo de suspeita.
– Jude? – insiste Willem. – Por que é absurdo?
Ele balança a cabeça.
– Simplesmente é. – E começa a andar novamente.
Os dois seguem em silêncio por um quarteirão. Então Willem pergunta:
– Jude, um dia você quer ter alguém?
– Nunca pensei que teria.
– Não foi isso que perguntei.
– Não sei, Willem – responde, sem conseguir olhar para a cara do amigo. – Acho que nunca acreditei que esse tipo de coisa fosse para alguém como eu.
– O que isso quer dizer? – Ele balança a cabeça outra vez, sem dizer nada, mas Willem insiste: – Por que tem alguns problemas de saúde? É por isso?
Problemas de saúde, diz algo azedo e sardônico dentro dele. Isso sim é um eufemismo. Mas não o diz em voz alta.
– Willem – suplica. – Estou implorando para que pare de falar nisso. Tivemos uma noite tão boa. É a nossa última noite, depois não irei mais vê-lo. Dá para mudarmos de assunto? Por favor?
Willem não diz nada por mais um quarteirão, e ele acha que o assunto está encerrado, mas então Willem diz:
– Sabe, quando comecei a sair com Robin, ela me perguntou se você era gay ou hétero, e tive de dizer que não sabia. – Ele faz uma pausa. – Ela ficou chocada. Ficava dizendo: “Ele é o seu melhor amigo desde a adolescência e você não sabe?” Philippa também costumava me perguntar sobre você. E eu dizia o mesmo que digo a Robin: que você é uma pessoa reservada e sempre tentei respeitar sua privacidade.
“Mas acho que esse é o tipo de coisa que eu queria que você me contasse, Jude. Não para que eu possa fazer algo com a informação, mas sim porque me daria uma ideia melhor de quem você é. Quero dizer, talvez você não seja nenhum dos dois. Talvez seja os dois. Talvez só não tenha interesse. Não faz a menor diferença para mim.”
Ele não diz, nem conseguiria dizer, nada em resposta, e seguem andando por mais dois quarteirões: rua 38, rua 37. Está ciente de que seu pé direito se arrasta pela calçada como faz quando está cansado ou desanimado, cansado ou desanimado demais para fazer um esforço maior, e fica feliz por Willem estar do seu lado esquerdo e, com isso, menos propenso a notar.
– Às vezes receio que você tenha decidido convencer a si mesmo de que é feio ou que não é digno de amor e que algumas experiências estejam fora do seu alcance. Mas não estão, Jude: qualquer um teria sorte de estar com você – diz Willem um quarteirão depois.
Agora chega, pensa ele; consegue identificar pelo tom de voz que Willem está se preparando para um discurso mais longo, e ele fica cada vez mais inquieto, com o coração batendo num ritmo esquisito.
– Willem – diz, virando para o amigo. – Acho que é melhor eu pegar um táxi mesmo. Estou ficando cansado, é melhor eu ir para a cama.
– Jude, por favor – diz Willem, com impaciência o bastante na voz para fazê-lo recuar. – Olhe, me desculpe. Mas é sério, Jude. Você não pode simplesmente ir embora quando estou tentando falar com você sobre algo importante.
Aquilo o faz parar.
– Tem razão – diz. – Sinto muito. E fico grato a você, Willem, de verdade. Mas tenho muita dificuldade em falar sobre isso.
– Você tem dificuldade para falar sobre tudo – diz Willem, e ele recua mais uma vez. Willem solta um suspiro. – Desculpe. Sempre fico achando que um dia vou conseguir conversar com você, conversar de verdade, mas isso nunca acontece, porque tenho medo de forçar a barra e você acabar se fechando e deixar de falar comigo de vez. – Os dois ficam em silêncio, e ele se sente constrangido, pois sabe que Willem tem razão: era exatamente isso que faria. Alguns anos atrás, Willem tentou falar com ele sobre os cortes. Também estavam caminhando e, numa certa altura, a conversa se tornou tão intolerável que ele chamou um táxi e entrou apressado no veículo, deixando Willem parado na calçada, gritando seu nome, sem conseguir acreditar no que acabara de acontecer; xingou a si mesmo assim que entrou no carro, que começou a seguir para o sul. Willem ficara furioso; ele se desculpou; os dois fizeram as pazes. Mas Willem nunca mais tocou no assunto, nem tampouco ele. – Me diga só uma coisa, Jude: você não se sente sozinho?
– Não – responde, em tom conclusivo. Um casal passa sorrindo e Jude pensa no início da caminhada, quando eles dois também estavam sorrindo. Como foi que conseguiu arruinar a noite, a última vez que verá Willem em meses? – Não precisa se preocupar comigo, Willem. Sempre vou ficar bem. Sempre vou conseguir tomar conta de mim mesmo.
Willem então solta um suspiro e arqueia os ombros, parecendo tão derrotado que ele sente uma pontada de culpa. Mas também está aliviado, pois nota que Willem não sabe como levar aquela conversa adiante, e logo poderá redirecioná-lo, e encerrar a noite de maneira agradável, e escapar.
– Você sempre diz isso.
– Porque é sempre verdade.
Faz-se um longo, longo silêncio. Estão parados diante de uma churrascaria coreana e o ar é denso e tem um cheiro forte de vapor, fumaça e carne assada.
– Posso ir? – pergunta ele finalmente, e Willem assente com a cabeça. Vai até o meio-fio e levanta o braço. Um táxi encosta ao seu lado.
Willem abre a porta para ele e então, quando está entrando, o amigo o abraça e o aperta, e ele acaba fazendo o mesmo.
– Vou sentir sua falta – diz Willem à sua nuca. – Vai se cuidar enquanto eu não estiver por perto?
– Sim – responde. – Prometo. – Ele dá um passo para trás e olha para Willem. – Até novembro, então.
Willem faz uma expressão que não é bem um sorriso.
– Até novembro – repete.
No táxi, percebe o quanto está cansado. Encosta a testa na janela sebenta e fecha os olhos. Quando chega em casa, seu corpo está pesado feito um cadáver, e já dentro do apartamento começa a tirar as roupas – sapatos, agasalho, camisa, camiseta, calças – no momento em que tranca a porta às suas costas, deixando uma trilha pelo chão a caminho do banheiro. Suas mãos tremem quando solta o estojo preso debaixo da pia, e, embora não achasse que precisaria se cortar aquela noite – nada durante o dia ou no início da noite indicou que pudesse –, ele agora sente uma vontade quase voraz de fazê-lo. Há muito tempo não tem mais espaço livre nos antebraços, por isso agora faz os cortes em cima de antigas marcas, usando o fio da lâmina para atravessar a pele dura e enredada das cicatrizes: quando os novos cortes fecham, formam sulcos verrugosos, e ele se sente ao mesmo tempo enojado, alarmado e fascinado pela intensidade com que deformou o seu corpo. Ultimamente, vem aplicando nos braços os cremes que Andy lhe deu para as costas, e acha que isso está ajudando um pouco: a pele parece menos tesa, as cicatrizes, um pouco mais macias e flexíveis.
O box do chuveiro criado por Malcolm é enorme, tão grande que Jude agora senta dentro dele quando está se cortando, esticando as pernas à sua frente. Quando termina, tem o cuidado de limpar o sangue, pois o piso é todo de mármore e, como Malcolm lhe disse repetidas vezes, as manchas no mármore são impossíveis de remover. E então se deita na cama, grogue, mas ainda sem sono, encarando o brilho sombrio, parecido com mercúrio, que o lustre projeta no quarto escuro.
– Eu me sinto sozinho – diz em voz alta, e o silêncio do apartamento absorve as palavras feito sangue sendo embebido por algodão.
Aquela solidão é uma descoberta recente, e é diferente das outras solidões que já viveu: não é como a solidão de uma infância sem pais; ou de estar deitado acordado num motel ao lado do Irmão Luke, tentando não se mover, tentando não o despertar, enquanto a lua lançava suas listras de luz branca sobre a cama; ou da ocasião em que fugiu do orfanato, a ocasião em que foi bem-sucedido, e passou a noite espremido na fenda entre as raízes tortas de um carvalho, que se abriam feito duas pernas, encolhendo-se o máximo que podia. Em todas aquelas circunstâncias ele se sentiu solitário, mas percebe agora que o que sentia não era solidão, mas medo. Só que agora não tem nada a temer. Agora conseguiu se proteger: tem aquele apartamento com seu trinco triplo, tem dinheiro. Tem pais, tem amigos. Nunca mais terá de fazer algo que não quer em troca de comida, transporte, abrigo ou de uma via de fuga.
Não mentira a Willem: não foi feito para relacionamentos e nunca pensou que fosse. Nunca invejou os relacionamentos dos amigos – fazer isso seria como um gato cobiçar o latido de um cão: era algo que nunca lhe passaria pela cabeça invejar, pois era impossível, algo completamente alheio à sua própria espécie. Mas, ultimamente, as pessoas vinham se comportando como se aquilo fosse algo que ele poderia ter, ou que deveria desejar, e por mais que saiba que faziam isso em parte por bondade, parecia mais uma provocação: era como se dissessem que ele podia ser um decatleta, o que seria igualmente obtuso e cruel.
Até esperava isso de Malcolm e Harold; Malcolm porque é feliz e só enxerga um caminho – o seu caminho – para a felicidade, por isso volta e meia lhe pergunta se pode apresentá-lo a alguém, mostrando-se surpreso quando ele diz não; Harold porque ele sabe que a parte do papel de pai de que Harold mais gosta é se meter em sua vida e se arraigar nela o máximo que puder. Ele até começou a gostar daquilo também, às vezes – fica comovido por alguém ter interesse o bastante nele para lhe dar ordens, para ficar decepcionado com as decisões que toma, para ter expectativas em relação a ele, para assumir a responsabilidade por ele. Dois anos atrás, ele e Harold estavam num restaurante, e Harold o doutrinava sobre como seu trabalho na Rosen Pritchard basicamente o transformara num cúmplice da prevaricação corporativa, quando ambos notaram que o garçom estava parado diante deles, esperando com o bloco na mão.
– Com licença – disse o garçom. – Devo voltar depois?
– Não, não se preocupe – disse Harold, pegando o cardápio. – Só estou gritando com meu filho, mas posso fazer isso depois de pedirmos a comida.
O garçom lhe deu um sorriso de comiseração, e ele sorriu de volta, extasiado por ter sido publicamente reivindicado como sendo de alguém, por finalmente fazer parte da tribo de filhos e filhas. Depois, Harold voltou ao sermão e ele fingiu ficar chateado, mas, na verdade, passou a noite inteira feliz, com uma alegria que transpirava pelos poros, sorrindo tanto que, no fim, Harold perguntou se ele estava bêbado.