Uma Vida Pequena
V. Os Anos Felizes
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
[ V ]
Os Anos Felizes
1
HOUVE UM DIA, CERCA de um mês depois de completar trinta e oito anos, em que Willem se deu conta de que era famoso. De início, isso o inquietou menos do que havia imaginado, em parte porque sempre se considerara famoso, de certa forma – ele e JB, na verdade. Podia estar no Baixo Manhattan com um amigo, Jude ou alguma outra pessoa, e aparecia alguém para cumprimentar Jude, e ele dizia:
– Aaron, você já conhece Willem?
E Aaron respondia:
– Mas é claro. Willem Ragnarsson. Todo mundo conhece Willem.
Mas não seria por causa de seu trabalho. Era porque a irmã do ex-colega de quarto de Aaron saíra com ele em Yale, ou porque dois anos antes ele lera um roteiro para o amigo do irmão de um amigo de Aaron, que era dramaturgo, ou porque Aaron, que era artista, já participara de uma mostra coletiva com JB e Henry Young Asiático e conhecera Willem na festa de pós-inauguração. Nova York, na maior parte de sua vida adulta, fora simplesmente uma extensão da universidade, onde todos conheciam a ele e a JB, e cuja infraestrutura parecia às vezes ter sido içada de Boston e relocada no raio de alguns quarteirões no Baixo Manhattan e nos subúrbios do Brooklyn. Eles quatro conversavam com as mesmas... bom, se não com as mesmas pessoas, ao menos com os mesmos tipos de pessoas com quem conversavam na universidade, e naquela terra de artistas, atores e músicos, claro que era conhecido, pois sempre fora. Não era um mundo tão grande; todos se conheciam.
Dos quatro, apenas Jude e, até certo ponto, Malcolm, tinham tido a experiência de viver num outro mundo, o mundo real, habitado por pessoas que faziam as coisas necessárias da vida: criar leis, ensinar, curar pessoas, solucionar problemas, lidar com dinheiro, vender e comprar coisas (a maior surpresa, Willem sempre pensava, não era o fato de ele conhecer Aaron, mas sim de Jude o conhecer). Pouco antes de completar trinta e sete anos, participara de um filme pequeno chamado O tribunal de plátano, no qual interpretava um advogado de uma pequena cidade do Sul que finalmente saía do armário. Aceitara o papel para poder atuar ao lado do ator que fazia seu pai, uma pessoa a quem admirava e que, no filme, era taciturno e ofendia os outros com casualidade, um homem que reprovava o próprio filho e que se tornara amargurado devido a suas próprias decepções. Como parte de sua pesquisa, pediu a Jude que lhe explicasse exatamente o que fazia durante o dia. Enquanto ouvia, foi sentindo uma leve tristeza ao ver que Jude, a quem considerava brilhante, brilhante sob diversas maneiras que jamais conseguiria entender, vinha desperdiçando sua vida com um trabalho que parecia tão enfadonho, o equivalente intelectual a fazer tarefas domésticas: limpar, arrumar, lavar, organizar, e depois passar para a casa seguinte e começar tudo de novo. Não lhe disse isso, é claro, e, num sábado, foi visitar Jude na Rosen Pritchard. Deu uma olhada em suas pastas e documentos e deu uma volta pelo escritório enquanto Jude escrevia.
– E então, o que achou? – perguntou Jude, refestelando-se na cadeira e sorrindo para ele.
Willem retribuiu o sorriso e disse:
– Bem impressionante. – Pois era mesmo, à sua própria maneira, e Jude caiu na gargalhada.
– Sei o que está pensando, Willem – dissera. – Não tem problema. Harold pensa a mesma coisa. “Que desperdício” – disse, imitando a voz de Harold. – “Que desperdício, Jude.”
– Não foi isso que pensei – protestou, embora tivesse pensado aquilo: Jude sempre se queixava de sua própria falta de imaginação, de seu próprio senso imperturbável de praticidade, mas Willem nunca o vira de tal forma. E parecia mesmo um desperdício: não por estar numa firma corporativa, mas sim por estar no mundo do direito, quando, na verdade, na sua opinião, uma mente como a de Jude deveria se ocupar de outras coisas. De que, precisamente, ele não sabia dizer, mas não daquilo. Sabia que era ridículo, mas nunca acreditara realmente que o fato de Jude decidir estudar direito faria dele um advogado: sempre imaginara que, em determinado ponto, ele largaria tudo para fazer outra coisa, como ser professor de matemática, ou professor de canto, ou (embora tenha reconhecido a ironia, mesmo na época) psicólogo, já que era um ótimo ouvinte e sempre conseguia consolar seus amigos. Não sabia por que se agarrara àquela ideia de Jude, mesmo depois de ficar claro que ele amava e era bom no que fazia.
O tribunal de plátano foi um sucesso inesperado e rendeu a Willem as melhores críticas que já recebera, além de indicações a prêmios. Seu lançamento, na mesma época de outro filme, maior e mais chamativo, que gravara dois anos antes, mas acabara atrasando na pós-produção, lhe deu certo destaque, o que, até ele mesmo reconhecia, transformaria sua carreira. Sempre escolhera seus papéis com sabedoria – se era possível dizer que tinha talento para alguma coisa, sempre achou que fosse este: seu bom gosto por papéis –, mas, até aquele ano, nunca houvera um momento em que tivesse se sentido realmente seguro, em que pudesse falar sobre os filmes que gostaria de fazer quando estivesse com seus cinquenta, sessenta anos. Jude sempre lhe dissera que ele tinha um senso superdesenvolvido de circunspecção em relação à sua carreira, que era bem melhor do que pensava, mas ele nunca se sentira assim; sabia que era respeitado pelos colegas e pela crítica, mas uma parte dele sempre temia que tudo fosse acabar um dia de maneira abrupta, sem qualquer aviso. Era uma pessoa prática na carreira menos prática de todas, e toda vez que conseguia um papel, dizia aos amigos que nunca mais conseguiria outro, que estava certo de que aquele seria o último, em parte como uma maneira de repelir seus medos – se reconhecesse a possibilidade, a probabilidade de acontecer seria menor – e em parte para expressá-los, pois eram medos reais.
Só mais tarde, quando ele e Jude ficavam sozinhos, é que se permitia comunicar suas preocupações em voz alta.
– E se eu nunca mais voltar a trabalhar? – perguntava a Jude.
– Isso não vai acontecer – dizia Jude.
– Mas e se acontecer?
– Bem – dizia Jude, sério –, na circunstância extraordinariamente improvável de não atuar nunca mais, você encontrará outra coisa para fazer. E, enquanto estiver tentando descobrir, vai morar na minha casa.
Sabia, obviamente, que voltaria a trabalhar: precisava acreditar naquilo. Todo ator precisava. Atuar era uma forma de embuste, e, a partir do momento em que você parava de acreditar, todo mundo também parava. Mas, ainda assim, ficava feliz quando Jude o tranquilizava; gostava de saber que teria um lugar para ir caso tudo realmente acabasse. De vez em quando, nas ocasiões em que se sentia particular e atipicamente com pena de si mesmo, pensava no que faria caso terminasse: pensou que talvez pudesse trabalhar com crianças deficientes. Aquilo seria algo que faria bem e de que gostaria. Conseguia se imaginar voltando para casa, vindo de uma escola primária, que talvez pudesse ficar no Lower East Side, a oeste do SoHo, indo na direção de Greene Street. Não teria mais seu apartamento, é claro, que teria vendido para custear seu mestrado em pedagogia (nesse sonho, todos os milhões que recebera, todos os milhões que jamais gastara, desapareciam de alguma forma), e moraria no apartamento de Jude, como se as últimas duas décadas nunca tivessem acontecido.
Mas, depois de O tribunal de plátano, a frequência daquelas fantasias tolas diminuiu, e ele passou a segunda metade de seu trigésimo sétimo ano sentindo uma confiança maior do que jamais sentira. Algo havia mudado; algo se concretizara; em algum lugar, seu nome ficara marcado em pedra. Sempre teria ofertas; poderia tirar um período de descanso se quisesse.
Era o mês de setembro, e ele estava voltando de uma filmagem e prestes a embarcar numa turnê de divulgação pela Europa; tinha um dia na cidade, somente um, e Jude disse que o levaria aonde quisesse. Os dois se encontrariam, almoçariam e então ele entraria no carro e partiria direto para o aeroporto para pegar o voo rumo a Londres. Fazia muito tempo desde a última vez que estivera em Nova York, e tudo o que queria era ir a algum lugar barato e acolhedor no Baixo Manhattan, como o restaurante vietnamita que costumavam frequentar quando estavam na casa dos vinte anos, mas, em vez disso, acabou optando por um restaurante francês conhecido por seus frutos do mar, no centro de Manhattan, de modo que Jude não precisasse se deslocar tanto.
O restaurante estava cheio de homens de negócios, do tipo que telegrafava sua fortuna e seu poder por meio dos cortes de seus ternos e pela sutileza de seus relógios: era preciso também ser rico e poderoso para compreender o que estava sendo comunicado; para as outras pessoas, eram apenas homens de ternos cinza, indistinguíveis uns dos outros. A recepcionista o levou a Jude, que já o esperava, e, quando ele se levantou, Willem lhe deu um abraço apertado, por mais que soubesse que Jude não gostava, mas decidira recentemente que começaria a fazer isso mesmo assim. Ficaram ali parados, abraçados, cercados por homens de terno cinza por todos os lados, até que ele soltou Jude e os dois se sentaram.
– Consegui deixar você envergonhado? – perguntou, e Jude sorriu e balançou a cabeça.
Havia tanto para conversarem em tão pouco tempo que Jude chegara a anotar alguns tópicos na parte de trás de uma nota fiscal, o que fez Willem cair no riso, mas acabaram seguindo a lista de maneira bem fiel. Entre o quinto tópico (o casamento de Malcolm: o que diriam na hora do brinde?) e o sexto (o progresso do apartamento de Greene Street, que estava sendo remodelado), ele se levantou para ir ao banheiro e, ao voltar para a mesa, teve a sensação inquietante de estar sendo observado. Obviamente, estava acostumado a ser avaliado e inspecionado, mas havia algo diferente naquele tipo de atenção, em sua intensidade e discrição, e pela primeira vez em bastante tempo se sentiu acanhado, ciente do fato de estar usando jeans, e não um terno, e de não pertencer àquele ambiente. Notou que, na verdade, todos ali estavam de terno e ele era o único que não vestia um.
– Acho que vim com o traje errado – disse em voz baixa a Jude ao sentar. – Está todo mundo olhando.
– Não estão olhando pelo que está vestindo – disse Jude. – Estão olhando porque você é famoso.
Ele balançou a cabeça.
– Para você e literalmente uma dúzia de outras pessoas, talvez.
– Não, Willem – dissera Jude. – Você é. – Ele sorriu para o amigo. – Por que acha que não o fizeram colocar um paletó? Não deixam qualquer um entrar aqui sem um uniforme corporativo. E por que acha que continuam a trazer todos esses aperitivos? Não é por minha causa, isso eu posso lhe garantir. – E caiu no riso. – Por que escolheu este restaurante, afinal? Pensei que fosse escolher algum lugar no Baixo Manhattan.
Ele soltou um gemido.
– Ouvi dizer que o crudo era bom. E como assim? Eles exigem um certo tipo de traje aqui?
Jude sorriu outra vez e estava prestes a responder quando um dos homens discretos de terno cinza se aproximou e, claramente envergonhado, pediu desculpas por interrompê-los.
– Só queria dizer que adorei O tribunal de plátano – falou. – Sou um grande fã seu.
Willem agradeceu, e o homem, que era mais velho, na casa dos cinquenta, ia dizer algo mais, quando viu Jude e piscou, claramente o reconhecendo, e o encarou por um instante, obviamente recatalogando Jude em sua mente, buscando o que sabia sobre ele. O homem abriu a boca, mas logo em seguida a fechou, e então se desculpou mais uma vez ao deixá-los, enquanto Jude sorria serenamente para ele o tempo todo.
– Ora, ora – disse Jude, depois que o homem saiu às pressas. – Aquele é o chefe do departamento de litígios de uma das maiores firmas da cidade. E, aparentemente, um admirador do seu trabalho. – Ele sorriu para Willem. – Agora está convencido de que é famoso?
– Se a referência para a fama for ser reconhecido por estudantes de moda de vinte e poucos anos e homens de meia-idade que ainda não saíram do armário, então, sim – falou, e os dois abafaram o riso, feito crianças, até conseguirem se recompor.
Jude olhou para ele.
– Só você mesmo para aparecer em capas de revista e achar que não é famoso – disse, afetuosamente.
Mas Willem não estava no mundo real quando aquelas revistas eram lançadas; estava no set. No set, todos agiam como se fossem famosos.
– É diferente – disse a Jude. – Não sei explicar.
Porém, mais tarde, a caminho do aeroporto, entendeu qual era a diferença. Sim, estava acostumado a ser observado. Mas, na verdade, só estava acostumado a ser observado por certos tipos de pessoas em certos tipos de ambientes – pessoas que queriam ir para a cama com ele, ou que queriam conversar com ele porque aquilo podia ajudar suas próprias carreiras, ou pessoas para quem o simples fato de ele ser reconhecível já era o bastante para despertar nelas algo de faminto e frenético, ansiando por estar em sua presença. No entanto, não estava acostumado a ser observado por pessoas que tinham outras coisas para fazer, que tinham assuntos maiores e mais importantes para se preocupar do que com um ator em Nova York. Atores em Nova York: eles estavam por toda parte. A única ocasião em que homens poderosos olhavam para ele era durante as estreias, quando era apresentado aos chefes dos estúdios, e trocavam um aperto de mão e jogavam conversa fora, enquanto percebia que o examinavam, calculando quanto fora bem nos testes, quanto pagaram por ele e quanto o filme teria de faturar para que pudessem olhá-lo com mais atenção.
Por outro lado, uma vez que isso começara a acontecer com mais frequência – ele entrava num salão, num restaurante, num prédio, e sentia, mesmo que por um segundo, uma sutil pausa coletiva –, ele também começou a entender que podia ligar e desligar sua visibilidade. Se entrava num restaurante já esperando ser reconhecido, era isso que acontecia. Se entrava esperando não ser reconhecido, raramente o descobriam. Nunca conseguiu identificar o que, exatamente, além de sua própria vontade, fazia a diferença. Mas funcionava; era por isso que, seis anos depois daquele almoço, era capaz de caminhar por boa parte do SoHo em plena vista, mais ou menos, depois que passou a morar com Jude.
Estava em Greene Street desde que Jude voltara para casa após sua tentativa de suicídio e, à medida que os meses foram passando, se viu levando mais e mais de suas coisas – primeiro, as roupas, depois o computador, depois as caixas de livros e seu cobertor de lã preferido, no qual gostava de se enrolar e se arrastar pelo apartamento enquanto preparava o café matinal: sua vida era tão itinerante que havia pouco mais de que precisasse ou que possuísse – para seu velho quarto. Passado um ano, ainda estava lá. Depois de acordar cedo uma manhã e preparar um pouco de café (tivera de levar também sua cafeteira, pois Jude não tinha uma), perambulara sonolento pelo apartamento, percebendo, como se fosse a primeira vez, que, de alguma maneira, seus livros estavam agora nas prateleiras de Jude, e os quadros que comprara estavam pendurados nas paredes de Jude. Quando aquilo acontecera? Não lembrava bem, mas parecia certo; parecia certo estar novamente ali.
Até o Sr. Irvine concordava. Willem o vira na casa de Malcolm na primavera anterior, no aniversário de Malcolm, e o Sr. Irvine dissera:
– Fiquei sabendo que foi morar com Jude. – E ele respondeu que sim, preparando-se para um sermão sobre a adolescência eterna que viviam: afinal, estava para fazer quarenta e quatro anos; Jude tinha quase quarenta e dois. Mas: – Você é um bom amigo, Willem – foi o que ouviu. – Fico feliz que vocês, meninos, cuidem sempre uns dos outros.
Ele ficara profundamente abalado com a tentativa de Jude; todos ficaram, é claro, mas o Sr. Irvine sempre tivera uma predileção por Jude, e todos sabiam.
– Ora, obrigado, Sr. Irvine – respondeu, surpreso. – Também fico feliz.
Nas primeiras e difíceis semanas depois que Jude saiu do hospital, Willem costumava ir ao quarto dele em horários diversos para verificar se Jude ainda estava lá, e vivo. Naquela época, Jude passava boa parte do tempo dormindo, e ele às vezes sentava na beira da cama, olhando para o amigo e sentindo um espanto terrível por ele ainda estar ali. Pensava: se Richard o tivesse encontrado vinte minutos mais tarde, Jude teria morrido. Cerca de um mês depois que Jude recebeu alta, Willem foi a uma farmácia e viu um estilete pendurado numa prateleira – parecia uma ferramenta tão medieval, tão cruel – e quase caiu no choro: Andy lhe contara que o cirurgião da emergência dissera que as incisões de Jude foram as feridas autoinfligidas mais profundas e firmes que vira em sua carreira. Sempre soubera que Jude era problemático, mas ficou perplexo, ou quase, ao se dar conta de quão pouco o conhecia, e também pela intensidade de sua determinação em causar mal a si mesmo.
Sentia que havia descoberto mais sobre Jude no último ano do que nos vinte e seis precedentes, e cada nova informação era terrível: as histórias de Jude eram do tipo que ele não estava preparado para responder, pois muitas delas eram irrespondíveis. A história sobre a cicatriz no dorso da mão – essa foi a que deu início a tudo – era tão horrível que Willem passara aquela noite em claro, sem conseguir pregar os olhos, e pensara seriamente em telefonar para Harold, só para ter alguém com quem compartilhar a história, alguém para ficar tão boquiaberto quanto ele.
No dia seguinte, não conseguia deixar de olhar para a mão de Jude, que por fim acabara puxando a manga da camisa para cobri-la.
– Está me deixando sem graça – afirmara.
– Desculpe – dissera ele.
Jude soltara um suspiro.
– Willem, não vou contar mais nenhuma história se você for reagir dessa forma – falou, finalmente. – Está tudo bem, de verdade. Já faz bastante tempo. Nem penso mais sobre isso. – Fez uma pausa. – Não quero que olhe para mim de maneira diferente se eu contar essas coisas.
Willem respirara fundo.
– Não – falou. – Você está certo. Está certo.
E então, agora, quando ouvia as histórias de Jude, tinha cuidado em não dizer nada. Fazia apenas alguns ruídos mínimos e imparciais, como se todos os seus amigos tivessem sido açoitados com um cinto embebido em vinagre até desmaiarem ou então obrigados a comer o próprio vômito do chão, como se fossem apenas ritos da infância. Mas, apesar de todas aquelas histórias, na verdade ainda não sabia de nada: Ainda não sabia quem era o Irmão Luke. Ainda não sabia nada além de histórias isoladas sobre o mosteiro ou sobre o orfanato. Ainda não sabia como Jude fora parar na Filadélfia ou o que acontecera com ele por lá. E ainda não sabia nada sobre o episódio do carro. Mas, se Jude começara pelas histórias mais fáceis, ele sabia agora que as outras, se um dia chegasse a ouvi-las, seriam horripilantes. Quase preferia não saber.
As histórias eram parte de um acordo feito quando Jude deixou claro que não veria o Dr. Loehmann. Andy o visitava quase toda sexta-feira à noite, e uma delas foi logo depois que Jude voltara à Rosen Pritchard. Enquanto Andy examinava Jude no quarto, Willem preparava drinques para todos. Juntaram-se para beber no sofá, com as luzes baixas e o céu lá fora granulado de neve.
– Sam Loehmann disse que você não telefonou para ele – comentou Andy. – Jude... pare com essa merda. Precisa ligar para ele. Isso fazia parte do acordo.
– Andy, já falei para você que não vou fazer isso – disse Jude.
Willem ficou feliz em ver que a teimosia de Jude estava de volta, ainda que discordasse de sua opinião. Dois meses antes, quando estiveram no Marrocos, ele erguera o olhar do prato durante o jantar e viu Jude encarando as porções de entradas à sua frente, incapaz de se servir de nenhuma delas.
– Jude? – perguntara, e Jude olhara para ele com uma expressão de medo.
– Não sei por onde começar – dissera em voz baixa, então Willem esticara o braço e colocara uma colherada de cada no prato de Jude, mandando que começasse pela berinjela cozida no alto e seguisse em sentido horário.
– Precisa fazer alguma coisa – disse Andy. Dava para ver que Andy tentava se manter calmo, sem muito sucesso, e ele também achou aquilo animador: era sinal de um certo retorno à normalidade. – Willem concorda comigo, não concorda, Willem? Não pode continuar dessa maneira! Você passou por um trauma enorme na sua vida! Precisa começar a conversar com alguém!
– Tudo bem – disse Jude, aparentando cansaço. – Vou contar para Willem.
– Willem não é psicólogo! – disse Andy. – Ele é ator!
E, ao ouvir aquilo, Jude olhou para ele e os dois caíram na gargalhada. Riam com tanta força que tiveram que colocar seus drinques na mesa, até que então Andy finalmente se levantou e disse que os dois eram tão imaturos que nem sabia por que ainda se preocupava, saindo logo em seguida. Jude tentou chamá-lo de volta:
– Andy! Desculpe! Não vá embora! – Mas ele ria tanto que as palavras eram ininteligíveis. Foi a primeira vez em meses, a primeira vez desde a tentativa, que Willem ouvia Jude rir.
Depois que os dois se recuperaram, Jude falou:
– Pensei em fazer isso, sabe, Willem? Começar a lhe contar algumas coisas. Mas queria saber se você se importa. Seria um fardo?
E ele respondeu que não, é claro que não, pois queria saber. Sempre quisera saber, mas não disse isso; sabia que soaria como uma crítica.
Mas, por mais que pudesse convencer a si mesmo de que Jude voltara ao normal, também conseguia reconhecer que ele havia mudado. Algumas daquelas mudanças, na sua opinião, eram boas: as conversas, por exemplo. Outras eram tristes: embora suas mãos estivessem mais firmes, e embora acontecesse com cada vez menos frequência, elas ainda tremiam ocasionalmente, e ele sabia que Jude ficava constrangido com aquilo. E se tornara ainda mais resistente do que nunca ao ser tocado, especialmente, como notara Willem, no caso de Harold; um mês antes, quando Harold fizera uma visita, Jude praticamente dançara para se esquivar de seu abraço. Willem se sentia mal por Harold, pela expressão no seu rosto, então foi até ele e o abraçou.
– Você sabe que ele não consegue se controlar – sussurrou a Harold, que beijara sua bochecha.
– Você é um homem bom, Willem – falou.
Agora estavam em outubro, treze meses após a tentativa. Passava as noites no teatro; dois meses após o término da temporada, em dezembro, começaria a rodar seu primeiro projeto desde que voltara do Sri Lanka; uma adaptação de Tio Vânia, pela qual estava ansioso e que seria filmada no Vale do Hudson: poderia voltar para casa toda noite.
Não que a locação fosse uma coincidência.
– Preciso ficar em Nova York – instruíra ao seu empresário e ao seu agente depois de desistir do filme na Rússia no outono anterior.
– Por quanto tempo? – perguntara Kit, seu agente.
– Não sei – respondera. – Pelo menos até o ano que vem.
– Willem – dissera Kit, após um breve silêncio. – Entendo que você e Jude sejam próximos. Mas não acha que é hora de tirar proveito desse momento que está vivendo? Pode fazer o que quiser. – Estava se referindo à Ilíada e à Odisseia, dois estrondosos sucessos e provas, como gostava de salientar Kit, de que podia fazer aquilo que quisesse agora. – Pelo que conheço de Jude, ele diria o mesmo. – E então, como não obteve resposta: – Não é da sua esposa ou do seu filho que estamos falando. É de um amigo.
– Você quer dizer, “é só um amigo” – rebatera, irritado.
Kit era Kit; pensava com a cabeça de agente, e Willem confiava em seu modo de pensar – estava com ele desde o início de sua carreira; tentava não brigar com ele. E Kit sempre o guiara bem. “Sem encheção nem enrolação”, gostava de se vangloriar sobre a carreira de Willem, repassando o histórico de seus papéis. Os dois sabiam que as ambições de Kit para Willem eram maiores do que as dele próprio – sempre foram. E, mesmo assim, fora Kit quem o colocara no primeiro voo para fora do Sri Lanka quando Richard ligara; fora Kit quem fizera os produtores interromperem as gravações por sete dias para que ele pudesse ir a Nova York e voltar.
– Não quis ofendê-lo, Willem – dissera Kit, cauteloso. – Sei que ama Jude. Mas faça-me o favor. Se ele fosse o amor da sua vida, eu entenderia. Mas me parece um pouco extremo inibir o avanço da sua carreira dessa forma.
E, ainda assim, ele às vezes se questionava se um dia conseguiria amar alguém com a mesma intensidade que amava Jude. Era por ele em si, é claro, mas também pelo conforto completo da vida ao seu lado, de ter alguém que o conhecia havia tanto tempo e em quem podia confiar para que sempre o aceitasse exatamente como a pessoa que fosse naquele determinado dia. Seu trabalho, sua própria vida, eram feitos de disfarces e farsas. Tudo sobre si próprio e sobre seu contexto estava sempre mudando: seus cabelos, seu corpo, onde dormiria cada noite. Com frequência, sentia que era feito de algum líquido, algo continuamente despejado de garrafa colorida em garrafa colorida, com um pedacinho sendo perdido ou deixado para trás a cada transferência. Mas sua amizade com Jude o fazia sentir que havia algo real e imutável em quem era, que, apesar de sua vida de máscaras, havia algo elementar dentro dele, algo que Jude conseguia enxergar mesmo quando ele próprio não conseguia, como se o testemunho de Jude por si só o tornasse real.
Na pós-graduação, tivera um professor que certa vez lhe dissera que os melhores atores são as pessoas mais chatas. Uma percepção muito forte do ego era prejudicial, pois um ator precisava deixar o ego desaparecer; tinha de permitir que o personagem tomasse conta dele.
– Se quiser ser uma personalidade, seja uma estrela pop – dissera o professor.
Ele entendera a sabedoria por trás daquilo, e ainda entendia, mas, na verdade, o ego era tudo o que todos desejavam, pois, quanto mais você atuava, mais e mais você se distanciava de quem pensava ser, e cada vez era mais difícil voltar. Seria, assim, de se espantar que tantos de seus colegas fossem tão tresloucados? Seu dinheiro, suas vidas e suas identidades dependiam de interpretar outras pessoas – seria então uma surpresa que precisassem de um set, de um palco após o outro, para dar forma a suas vidas? Sem eles, o que e quem seriam? Então se envolviam com religiões, namoradas e causas para ter algo que pudesse ser deles: nunca dormiam, nunca paravam, tinham pavor de serem deixados sozinhos, de terem de perguntar a si mesmos quem eram. (“Quando um ator fala e não há ninguém para ouvir, ele ainda é um ator?”, perguntara-lhe uma vez seu amigo Roman. Ele mesmo às vezes se questionava sobre aquilo.)
Mas, para Jude, ele não era um ator: era seu amigo, e aquela identidade suplantava todas as demais. Era um papel que desempenhava havia tanto tempo que acabara se tornando, indelevelmente, quem ele era. Para Jude, ele não era definido por ser um ator, assim como Jude não era definido por ser um advogado – aquela não era nunca a primeira, nem a segunda e nem a terceira maneira pela qual um descrevia o outro. Era Jude que lembrava a ele quem fora antes de construir sua vida fingindo ser outras pessoas: alguém que tivera um irmão, alguém que tivera pais, alguém para quem tudo e todos pareciam tão impressionantes e encantadores. Conhecia outros atores que não queriam que ninguém os lembrasse de como eram antes, pessoas determinadas a se tornarem outras, mas ele não era assim. Ele queria ser lembrado de quem era; queria estar perto de alguém que nunca acharia sua carreira a coisa mais interessante sobre ele.
E, para falar a verdade, também adorava o que vinha com Jude: Harold e Julia. A adoção de Jude fora a primeira vez que sentira inveja de algo que Jude tinha. Ele admirava muito do que Jude tinha – sua inteligência, sua capacidade de reflexão, sua desenvoltura –, mas nunca o invejara antes. Porém, ao ver Harold e Julia com ele, ao observar como o olhavam, mesmo quando Jude não olhava para eles, Willem tinha uma sensação de vazio: ele não tinha pais e, embora geralmente não pensasse naquilo, sentia que, por mais distantes que seus pais tivessem sido, ao menos foram algo que o ancorara à sua vida. Sem uma família, era como uma folha de papel flutuando pelo ar, sendo jogada para cima e para baixo a cada lufada de vento. Ele e Jude haviam sido iguais sob aquele aspecto.
Obviamente, sabia que aquela inveja era ridícula e mais do que perversa: ele crescera com seus pais, ao passo que Jude, não. E sabia que Harold e Julia também tinham afeto por ele, tanto quanto sentia por eles. Os dois assistiam a todos os seus filmes e lhe mandavam críticas longas e detalhadas, sempre elogiando sua atuação e fazendo comentários inteligentes sobre seus colegas de cena e a fotografia. (O único a que não assistiram – ou pelo menos não comentaram – era O príncipe de canela, que era o filme que estava fazendo quando Jude tentara se matar. Ele mesmo nunca o assistira.) Liam todos os artigos que saíam sobre ele – assim como as críticas, ele também evitava aqueles artigos – e compravam toda revista em que ele aparecesse. Também ligavam no dia do seu aniversário e perguntavam o que faria para comemorar, e Harold o lembrava do quanto estava ficando velho. No Natal, sempre lhe enviavam algo – um livro, junto a algum presentinho bobo, ou então algum brinquedo interessante que mantinha no bolso para ficar mexendo enquanto falava no telefone ou estava na cadeira de maquiagem. No Dia de Ação de Graças, ele e Harold sentavam na sala de estar para assistir ao jogo de futebol americano, enquanto Julia fazia companhia a Jude na cozinha.
– As batatas fritas estão acabando – dizia Harold.
– Eu sei – respondia.
– Por que não vai buscar mais? – perguntava Harold.
– Você é o anfitrião – lembrava a Harold.
– Você é o convidado.
– Sim, exatamente.
– Chame Jude e peça para ele trazer mais.
– Chame você!
– Não, chame você!
– Tudo bem – dizia. – Jude! Harold quer mais batatas!
– Você é um tremendo mentiroso, Willem – dizia Harold quando Jude aparecia para reabastecer a tigela. – Jude, isso foi tudo ideia do Willem.
Mas, acima de tudo, sabia que Harold e Julia o amavam porque ele amava Jude; sabia que confiavam nele para cuidar de Jude – era assim que o viam, e ele não se importava. Tinha orgulho disso.
Ultimamente, no entanto, vinha se sentindo de maneira diferente quanto a Jude, e não sabia ao certo o que fazer em relação a isso. Numa sexta-feira à noite, ficaram até tarde no sofá – ele acabara de voltar para casa do teatro, Jude acabara de voltar do escritório – conversando, conversando, conversando sobre nada em particular, quando quase se aproximou e o beijou. Mas conseguiu se conter, e o momento passou. Porém, desde então vinha sendo revisitado por aquele impulso: duas, três, quatro vezes.
Aquilo começava a preocupá-lo. Não porque Jude fosse homem: já fizera sexo com outros homens antes, todos sabiam disso e, um dia, na universidade, depois de beberem, ele e JB se beijaram, por tédio e curiosidade (uma experiência que, para o alívio de ambos, fora completamente insatisfatória: “É interessante ver que alguém tão bonito pode ser ao mesmo tempo tão brochante”, foram as palavras exatas de JB). E não porque sempre sentira uma pontada sutil de atração por Jude, como sentia mais ou menos por todos os seus amigos. Era porque sabia que, se tentasse alguma coisa, precisava ter certeza do que estava fazendo, pois tinha uma forte impressão de que Jude, que não era casual sobre nada em sua vida, certamente não seria casual em relação ao sexo.
A vida sexual de Jude, sua sexualidade, era um objeto de eterno fascínio para todos que o conheciam e, definitivamente, para as namoradas de Willem. Muitas vezes, era debatida entre os outros três – ele, Malcolm e JB – quando Jude não estava por perto: Será que fazia sexo? Será que já fizera alguma vez? Com quem? Todos já haviam notado outras pessoas olhando para ele em festas, ou flertando com ele, e em todas as ocasiões Jude se mantinha distraído.
– Aquela garota estava se jogando para cima de você – dizia ele a Jude, caminhando de volta para casa após uma festa ou outra.
– Que garota? – perguntava Jude.
Conversavam entre si porque Jude deixara claro que não falaria sobre isso com ninguém: quando tocavam no assunto, ele os encarava com um de seus olhares e mudava o rumo da conversa com uma clareza que era impossível de ser mal-interpretada.
– Ele já passou a noite fora de casa alguma vez? – perguntou JB (isso foi quando ele e Jude viviam em Lispenard Street).
– Pessoal – dizia ele (o assunto o deixava desconfortável) –, acho que não deveríamos falar sobre isso.
– Willem! – dizia JB. – Não seja tão fresco! Não está traindo a confiança dele. Só responda: sim ou não. Já passou?
Ele soltava um suspiro.
– Não – respondia.
Ficavam em silêncio.
– Talvez seja assexuado – dizia Malcolm, depois de um tempo.
– Não, Mal, você que é.
– Vai se foder, JB.
– Acham que ele é virgem? – perguntava JB.
– Não – respondia ele. Não sabia como sabia, mas tinha certeza de que não era.
– É um desperdício – dizia JB, e ele e Malcolm olhavam um para o outro, cientes do que viria a seguir. – Aquela beleza foi desperdiçada nele. Eu deveria ter a beleza dele. Eu pelo menos teria me divertido com ela.
Depois de algum tempo, passaram a aceitar aquilo como parte de quem Jude era; acrescentaram o assunto à lista de tópicos a serem evitados. Os anos se passavam e ele continuava sem sair com ninguém, não era visto ao lado de ninguém.
– Talvez esteja vivendo algum tipo de vida dupla – sugeriu Richard certa vez, e Willem dera de ombros.
– Talvez – falou.
Mas, na verdade, embora não tivesse nenhuma prova, sabia que Jude não estava. E também era assim, sem qualquer tipo de prova, que supunha que Jude talvez fosse gay (ou talvez não) e provavelmente nunca tivera um relacionamento (por mais que esperasse estar errado em relação a isso). E, por mais que Jude dissesse o contrário, Willem nunca se convenceu de que ele não se sentia sozinho, de que não quisesse, em algum canto obscuro de si mesmo, estar com alguém. Lembrava-se do casamento de Lionel e Sinclair, quando estavam Malcolm e Sophie, ele e Robin, e JB – por mais que não estivessem se falando na época – e Oliver, e Jude sem ninguém. E, por mais que Jude não parecesse incomodado com aquilo, Willem olhou para ele do outro lado da mesa e ficou triste pelo amigo. Não queria que Jude envelhecesse sozinho; queria que tivesse alguém que pudesse cuidar dele e que se sentisse atraído por ele. JB estava certo: era mesmo um desperdício.
Então seria isso realmente o que era, aquela atração? Seria medo e pena, transformados em algo mais palatável? Estaria convencendo a si mesmo de que se sentia atraído por Jude por não suportar vê-lo sozinho? Achava que não. Mas não sabia ao certo.
A pessoa com quem teria conversado sobre isso antes era JB, mas não podia discutir esse assunto com ele, por mais que agora fossem novamente amigos, ou pelo menos estivessem se encaminhando para isso. Quando voltaram do Marrocos, Jude telefonou para JB e os dois saíram para jantar, e, um mês depois, foi a vez de Willem e JB saírem sozinhos. Estranhamente, porém, ele teve muito mais dificuldade em perdoar JB do que Jude tivera, e o primeiro encontro entre os dois fora um desastre – JB se mostrou extravagante e exageradamente despreocupado; já ele sentia o sangue fervilhar – até deixarem o restaurante e começarem a gritar um com o outro no meio da rua. Ficaram ali parados, na Pell Street deserta – nevava um pouco e ninguém queria sair de casa –, acusando um ao outro de condescendência e crueldade; irracionalidade e autocentrismo; presunção e narcisismo; martírio e ignorância.
– Você acha que alguém tem tanto ódio de si mesmo quanto eu? – gritara JB. (Sua quarta mostra, que documentava seu período nas drogas ao lado de Jackson, fora intitulada “O guia do narcisista para a autodepreciação”, e JB a citou várias vezes durante o jantar como prova de que se castigara intensa e publicamente, e que agora estava recuperado.)
– Sim, JB, eu acho – gritara de volta. – Acho que Jude odeia a si mesmo muito mais do que um dia você poderia se odiar, e acho que você sabia muito bem disso e o fez se odiar ainda mais.
– Acha que não sei disso? – berrara JB. – Acha que não me odeio por aquela merda toda?
– Não acho que se odeie o suficiente por isso – retribuíra o berro. – Por que fez aquilo, JB? Por que fez aquilo com ele, de todas as pessoas?
E então, para sua surpresa, JB se afundara, derrotado, no meio-fio.
– Por que nunca me amou do jeito que ama Jude, Willem? – perguntou.
Ele soltou um suspiro.
– Ah, JB – falou, sentando ao seu lado na calçada gélida. – Você nunca precisou de mim tanto quanto ele.
Aquele não era o único motivo, como bem sabia, mas era parte dele. Ninguém mais em sua vida precisava dele. As pessoas o queriam – para sexo, para usá-lo em seus projetos e até por sua amizade –, mas somente Jude precisava dele. Só para Jude ele era essencial.
– Sabe de uma coisa, Willem – disse JB, após um período de silêncio –, talvez ele não precise tanto assim de você quanto imagina.
Refletiu sobre aquilo por um instante.
– Não – finalmente respondeu –, eu acho que precisa.
Agora foi JB quem soltou um suspiro.
– Na verdade – disse –, acho que você está certo.
Depois daquilo, por mais estranho que pareça, as coisas melhoraram. Porém, por mais que estivesse – com muita cautela – aprendendo a gostar de JB novamente, não estava bem certo de que pudesse conversar sobre aquele tema em particular com ele. Não sabia se queria ouvir as piadas de JB sobre como ele já havia trepado com tudo que tivesse dois cromossomos X e agora estava partindo para os Ys, ou sobre seu abandono dos padrões heteronormativos, ou, pior ainda, sobre como aquela atração que pensava estar sentindo por Jude seria, na verdade, outra coisa: uma culpa injustificada por sua tentativa de suicídio, ou uma forma de condescendência, ou simplesmente tédio maldirecionado.
Assim, achou melhor não fazer nada e não dizer nada. Com o passar dos meses, saiu ocasionalmente com outras pessoas, ao mesmo tempo que examinava seus sentimentos. Isso é loucura, dizia a si mesmo. Isso não é uma boa ideia. As duas opções eram válidas. Seria muito mais fácil se não tivesse aqueles sentimentos. Mas e daí se os tinha?, perguntava a si mesmo. Todo mundo tinha sentimentos que seriam melhores se evitados, pois colocá-los em prática complicaria bastante a vida. Tinha páginas inteiras de diálogos consigo mesmo, imaginando as falas – tanto as suas quanto as de JB, ambas recitadas por ele – digitadas em papel branco.
Mas os sentimentos persistiam. Foram a Cambridge para o Dia de Ação de Graças pela primeira vez em dois anos. Ele e Jude ficaram no mesmo quarto, pois o irmão de Julia viera de Oxford e estava hospedado no quarto de cima. Naquela noite, ficou acordado no sofá, vendo Jude dormir. Como seria fácil, pensou, simplesmente deitar na cama ao lado dele e também cair no sono. Havia algo naquela ideia que parecia quase predeterminado, e o absurdo estava não no fato em si, mas em sua resistência a ele.
Tinham ido de carro a Cambridge, e Jude dirigiu de volta para casa para que ele pudesse dormir.
– Willem – disse Jude quando estavam prestes a entrar na cidade –, gostaria de lhe fazer uma pergunta. – Olhou para ele. – Está tudo bem? Anda preocupado com alguma coisa?
– Não, está tudo bem.
– Você parecia muito... pensativo, acho – disse Jude. Ele não respondeu. – Sabe, ter você morando comigo está sendo um enorme presente. E não só a parte de morar comigo, mas... tudo. Não sei o que teria feito sem você. Mas sei que deve ser exaustivo. Por isso, quero que saiba: se quiser voltar para a sua casa, vou ficar bem. Prometo. Não vou me machucar. – Ele mantinha os olhos na estrada enquanto falava, mas então virou para Willem. – Não sei como fui ter tanta sorte assim – falou.
Ficou sem saber o que dizer por um instante.
– Você quer que eu vá embora? – perguntou.
Jude ficou em silêncio.
– Claro que não – disse, bem baixinho. – Mas quero que seja feliz, e você não me parece muito feliz ultimamente.
Willem deu um suspiro.
– Desculpe – disse. – Ando distraído, você tem razão. Mas com certeza não é porque estou morando com você. Adoro morar com você. – Tentou pensar na coisa certa, em algo perfeito para acrescentar, mas não conseguiu. – Desculpe – repetiu.
– Não se desculpe – disse Jude. – Mas, se quiser conversar sobre isso, a qualquer hora, saiba que pode.
– Eu sei – falou. – Obrigado. – E seguiram em silêncio até chegarem em casa.
E então já era dezembro. A temporada no teatro acabou. Foram à Índia, todos os quatro: era a primeira viagem que faziam em grupo em anos. Em fevereiro, começou a filmar Tio Vânia. O set era do tipo que gostava e sempre desejava, mas raramente encontrava – já havia trabalhado com todo mundo antes, e todos se gostavam e respeitavam, e o diretor era mal-ajambrado, calmo e simpático; a adaptação, feita por um romancista que Jude admirava, era bela e simples, e o diálogo era prazeroso de ser encenado.
Quando era jovem, Willem participara de uma peça chamada A casa em Thistle Lane, sobre uma família que empacotava seus pertences e deixava uma casa em St. Louis que pertencera à família do pai por gerações, mas que não podiam mais sustentar. Porém, em vez de usarem um palco, encenaram a peça num andar de uma casa dilapidada no Harlem, no qual o público podia passear pelos cômodos, contanto que permanecesse do outro lado de uma área delimitada por cordas; dependendo de onde parasse para assistir, você via os atores e o próprio espaço de perspectivas diferentes. Ele interpretava o filho mais velho e mais problemático, e passava a maior parte do primeiro ato calado na sala de jantar, embrulhando pratos com folhas de jornal. Criara um tique nervoso para o filho, que não conseguia se imaginar deixando a casa onde passara a infância, e, enquanto os pais do personagem brigavam na sala de estar, ele deixava de lado os pratos e se encolhia num canto distante da sala de jantar, rasgando pedaços do papel de parede. Embora a maior parte do ato se passasse na sala de estar, sempre havia alguns membros do público que ficavam na sala de jantar, observando-o, vendo-o arrancar o papel da parede – de um azul tão escuro que parecia preto, com estampa de rosas de um cor-de-rosa pálido – e enrolando o papel entre os dedos para depois jogá-lo no chão, de modo que toda noite um canto ficava sujo de pequenos charutos de papel de parede, como se ele fosse um ratinho construindo desajeitadamente seu minúsculo ninho. Era uma peça exaustiva, mas que ele adorou fazer: a proximidade com o público, a improbabilidade do palco, o pequeno e detalhado uso do seu corpo para o papel.