Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 9 de 19

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Uma Vida Pequena

Capítulo 3

 

A ÚLTIMA VEZ QUE JB tentou – de verdade – parar de usar drogas foi no fim de semana do Quatro de Julho. Não havia mais ninguém na cidade. Malcolm estava com Sophie visitando os pais dela em Hamburgo. Jude estava com Harold e Julia em Copenhague. Willem filmava na Capadócia. Richard estava em Wyoming, numa colônia de artistas. Henry Young Asiático estava em Reykjavík. Só ficara ele e, se não estivesse tão determinado, também não teria ficado na cidade. Estaria em Beacon, onde Richard tinha uma casa, ou em Quogue, onde Ezra tinha uma casa, ou em Woodstock, onde Ali tinha uma casa, ou... bem. Não havia assim tanta gente que lhe emprestasse a casa ultimamente e, além disso, não vinha falando com a maioria deles, pois estavam lhe dando nos nervos. Mas o verão em Nova York era algo que ele detestava. Todos os gordos detestavam o verão em Nova York: tudo sempre grudava em outras coisas, pele com pele, pele em tecido. Você nunca se sentia seco de verdade. Mas, ainda assim, ali estava ele, destrancando a porta do seu estúdio no terceiro andar do prédio de tijolos brancos em Kensington, dando uma olhadela involuntária para o fim do corredor, onde ficava o estúdio de Jackson, antes de entrar.

JB não era viciado. Sim, ele usava drogas. Sim, usava bastante. Mas não era viciado. As outras pessoas eram viciadas. Jackson era viciado. Assim como Zane, assim como Hera. Massimo e Topher: dois viciados. Às vezes tinha a sensação de ser o único que não ultrapassara os limites.

Ainda assim, sabia que um monte gente pensava que os houvesse ultrapassado, motivo por que ainda estava na cidade quando deveria estar no campo; quatro dias, nada de drogas, só trabalho – e então ninguém nunca mais poderia dizer nada.

Hoje, sexta-feira, era o primeiro dia. O ar-condicionado do estúdio estava quebrado, por isso a primeira coisa que fez foi abrir todas as janelas e então, depois de bater de leve à porta de Jackson para se assegurar de que ele não estava lá, abriu também sua porta. Normalmente não fazia aquilo, tanto pelo barulho quanto por causa de Jackson. Seu estúdio era uma das quatorze salas no terceiro andar de um prédio de cinco. Os espaços deveriam ser alugados exclusivamente como estúdios, mas ele suspeitava que uns vinte por cento dos ocupantes do prédio na verdade moravam lá ilegalmente. Nas raras ocasiões em que chegava ao estúdio antes das dez da manhã, via pessoas de samba-canção se arrastando pelos corredores e, quando ia ao banheiro no fim do corredor, sempre havia alguém tomando banho com uma esponja na pia, ou fazendo a barba, ou escovando os dentes, e ele acenava com a cabeça para eles – “E aí, cara?” – e eles acenavam de volta. Infelizmente, porém, o clima em geral era menos estudantil e mais institucional. Aquilo o deprimia. JB poderia ter encontrado um estúdio em outro lugar melhor, mais privado, mas escolhera aquele porque (e isto era algo que tinha vergonha de admitir) o prédio parecia um dormitório, e ele tinha esperança de reviver os tempos da universidade. Mas isso não aconteceu.

O prédio também deveria ser uma construção de “baixa densidade sonora”, o que quer que aquilo significasse, mas, além dos artistas, um monte de bandas – bandas irônicas de thrash metal, bandas irônicas de folk, bandas irônicas de música acústica – também havia alugado estúdios ali, o que significava que o corredor vivia submerso em ruídos, e uma mistura de todos os instrumentos formava um único e longo guincho de retorno de guitarra. As bandas não deveriam estar ali e, de meses em meses, quando o dono do prédio, um tal de Sr. Chen, aparecia para uma inspeção de surpresa, JB ouvia os berros ribombando pelos corredores, mesmo com a porta fechada, e cada grito de alarme era ecoado por outro, até que o aviso saturava todos os cinco pisos – Chen! Chen! Chen! – de modo que, quando o Sr. Chen entrava pela porta da frente, tudo estava em silêncio, um silêncio tão forçado que JB tinha a impressão de poder ouvir seu vizinho de porta passando o bico de pena pela pedra de amolar, e o espirógrafo do outro vizinho arranhando a tela. Logo o Sr. Chen entrava em seu carro e ia embora, e os ecos revertiam – Tá limpo! Tá limpo! Tá limpo! – e a cacofonia voltava a subir, como uma nuvem de cigarras zunindo.

Depois de se certificar de que estava sozinho no andar (Deus, onde estava todo mundo? Seria mesmo ele a única pessoa que sobrara na face da Terra?), tirou a camisa e então, um instante depois, a calça, e começou a limpar o estúdio, algo que não fazia há meses. Ia e voltava até as latas de lixo perto do elevador de serviço, enchendo-as de caixas de pizza, latinhas de cerveja, folhas de papel com rabiscos, pincéis cujas cerdas estavam feito palha porque ele não os limpara e paletas com aquarelas que viraram argila porque ele não as mantivera úmidas.

Fazer faxina era tedioso; e era particularmente tedioso quando se estava sóbrio. Pensou, como às vezes fazia, que nenhuma das coisas boas que deveriam acontecer quando se toma metanfetamina aconteceram a ele. Outros conhecidos tinham perdido peso, ou se envolviam em maratonas sexuais anônimas, ou tinham surtos de limpeza e organizavam seus estúdios e apartamentos por horas. Mas ele continuava gordo. Seu apetite sexual desaparecera. Seu estúdio e seu apartamento ainda eram um desastre. É verdade, vinha trabalhando em sessões bem longas – doze, quatorze horas por vez –, mas não podia atribuir aquilo à metanfetamina: sempre foi de trabalhar pesado. Quando se tratava de pintar ou desenhar, sua capacidade de atenção era longa.

Depois de passar mais ou menos uma hora recolhendo coisas, o estúdio parecia exatamente igual a quando começara, e ele estava louco por um cigarro, que não tinha, ou uma bebida, que também não tinha, e tampouco deveria, pois ainda era só meio-dia. Sabia que tinha goma de mascar no bolso e a procurou até encontrar – estava levemente úmida por causa do calor. Colocou-a na boca e deitou de barriga para cima, mastigando de olhos fechados, o chão de cimento frio sob suas costas e coxas, fingindo estar em outro lugar, não no Brooklyn, em julho, com um calor de trinta e dois graus.

Como estou me sentindo?, perguntou a si mesmo.

Bem, respondeu a si mesmo.

O psicólogo com quem começara a se consultar lhe dissera para fazer aquela pergunta.

– É como um teste de som – afirmara. – Uma espécie de checagem consigo mesmo: Como estou me sentindo? Estou com vontade de me drogar? Se de fato quero me drogar, por que estou com vontade de me drogar? É uma maneira de se comunicar consigo mesmo, de avaliar seus impulsos em vez de simplesmente se entregar a eles.

Que babaca, pensara JB. E ainda pensava assim. Mas, ao mesmo tempo, como acontece com muitas babaquices, não conseguia riscar a pergunta da cabeça. Agora, em momentos estranhos e indesejados, pegava-se perguntando como se sentia. Às vezes a resposta era “Com vontade de usar drogas”, e então as usava, nem que fosse só para mostrar ao terapeuta o quanto seu método era imbecil. Está vendo?, perguntava ao Giles em sua mente. Giles, que nem tinha doutorado, apenas um mestrado em trabalho social. Sua teoria do autoexame já era. E agora, Giles? Qual a próxima?

Não foi ideia de JB se consultar com Giles. Seis meses antes, em janeiro, a mãe e as tias fizeram uma pequena intervenção com ele, que começou com as lembranças da mãe sobre como JB fora uma criança brilhante e precoce, e olhem só para ele agora. Depois, sua tia Christine, literalmente fazendo o papel da policial má, começou a gritar com ele, alegando que JB estava desperdiçando todas as oportunidades que a irmã lhe havia proporcionado, e que ele se tornara uma enorme pedra no sapato. Em seguida foi a vez de sua tia Silvia, que sempre fora a mais amável das três, lembrá-lo do seu talento e dizer que elas todas o queriam de volta, perguntando se não consideraria a ideia de buscar um tratamento. Ele não estava no humor certo para uma intervenção, mesmo uma tão aconchegante e discreta como aquela (sua mãe preparara seu cheesecake preferido, que todos comeram enquanto debatiam sobre as falhas de JB), porque, entre outros motivos, ainda estava irritado com elas. No mês anterior, sua avó morrera e a mãe levara um dia inteiro para ligar para ele. Ela alegara que não conseguira encontrá-lo e que ele não estava atendendo, mas JB sabia que estava sóbrio no dia em que a avó morrera e que estivera com o telefone o tempo todo, então não conseguia entender por que a mãe estava mentindo.

– JB, sua avó ficaria desolada se descobrisse o que você se tornou – disse-lhe a mãe.

– Por deus, mãe, pare com essa merda – falou, cansado, farto de suas lamúrias e palpitações, e Christine apareceu e lhe deu um tabefe na cara.

Depois disso, JB concordou em ir a uma consulta com Giles (amigo de um amigo de Silvia) como forma de se desculpar com Christine e, obviamente, com sua mãe. Infelizmente, Giles era mesmo um idiota, e, durante as sessões (pagas pela mãe: ele não gastaria seu dinheiro com terapia, especialmente com terapia ruim), respondia às perguntas nada originais de Giles – Por que acha que se sente tão atraído pelas drogas, JB? O que elas lhe proporcionam? Por que acha que começou a usar drogas com mais frequência nos últimos anos? Por que acha que não conversa com Malcolm, Willem e Jude tanto quanto antes? – com respostas que sabia que iriam satisfazê-lo. Jogava no meio algumas menções ao pai morto, ao vazio e à sensação de perda que sua falta lhe causava, à superficialidade do mundo da arte, ao medo de nunca atingir seu potencial, e observava a caneta de Giles se mover alegremente sobre seu bloco de anotações, e sentia ao mesmo tempo desprezo pela estupidez de Giles e desgosto por sua própria imaturidade. Sacanear o próprio terapeuta – mesmo quando esse terapeuta realmente merecia ser sacaneado – era o tipo de coisa que você fazia quando tinha dezenove anos, não trinta e nove.

Mas, por mais que Giles fosse um idiota, JB volta e meia se pegava pensando nas perguntas levantadas por ele, pois eram questões que ele mesmo se fazia. E por mais que Giles fizesse cada uma dessas perguntas como um dilema isolado, ele sabia que, na verdade, uma era ligada à outra e, se fosse gramatica e linguisticamente possível colocar todas elas numa só grande questão, aquela então seria a expressão mais verdadeira do motivo para ele estar onde estava.

Primeiro, diria a Giles, não imaginava que fosse gostar tanto das drogas quanto gostava. Aquilo parecia algo óbvio e até mesmo ingênuo de se dizer, mas a verdade era que JB conhecia pessoas – a maioria rica, a maioria branca, a maioria chata, a maioria ignorada pelos pais – que haviam começado a usar drogas porque achavam que aquilo as deixaria mais interessantes, ou mais assustadoras, ou mais merecedoras de atenção, ou simplesmente porque fazia o tempo passar mais rápido. Seu amigo Jackson, por exemplo, era uma delas. Mas JB, não. Claro, sempre havia usado drogas – todos haviam –, mas durante a faculdade, e quando estava na casa dos vinte, pensava nelas como pensava em sobremesas, algo que também adorava: era um artigo que lhe fora proibido quando criança e que agora estava completamente disponível. Usar drogas, assim como se empanturrar com tigelas de cereais tão doces que até o leite que sobrava no fundo do pote podia ser entornado feito caldo de cana, era um privilégio da vida adulta, um privilégio que ele pretendia desfrutar.

Perguntas dois e três: Quando e por que as drogas se tornaram tão importantes para ele? Também sabia as respostas. Aos trinta e dois anos, realizara sua primeira mostra. Duas coisas aconteceram depois dela. A primeira foi que JB se tornara uma verdadeira estrela. Artigos sobre ele foram publicados pela imprensa das artes, e também por revistas e jornais lidos por pessoas que não saberiam diferenciar Sue Williams de Sue Coe. A segunda é que sua amizade com Jude e Willem fora arruinada.

Talvez “arruinada” fosse uma palavra forte demais. Mas havia mudado. Fizera algo errado – admitia isso – e Willem tomara as dores de Jude (e por que deveria ter se surpreendido por Willem tomar as dores de Jude, quando, na verdade, ao recordar de toda a amizade entre eles, a evidência logo aparecia: uma vez após a outra e após a outra, Willem sempre ficara do lado de Jude), e ainda que tenham dito que o perdoaram, o relacionamento entre eles não seria mais o mesmo. Os dois, Jude e Willem, se fecharam numa unidade própria, unidos contra todos, unidos contra ele (por que nunca conseguira enxergar aquilo antes?): Nós dois formamos uma multidão. E JB sempre pensara que ele e Willem eram uma unidade à parte.

Mas tudo bem, não eram. E quem sobrou para ele? Não Malcolm, que começara a sair com Sophie, e os dois acabaram formando sua própria unidade. Quem então seria seu parceiro, com quem formaria sua unidade? Com ninguém, aparentemente. Eles o haviam abandonado.

E então, a cada ano que passava, o abandonavam ainda mais. Sempre soube que seria o primeiro dos quatro a alcançar o sucesso. Não era arrogância: simplesmente sabia. Trabalhava com mais afinco que Malcolm, era mais ambicioso que Willem. (Não incluía Jude naquela corrida, já que sua profissão operava sob uma métrica completamente diversa, que não tinha lá muita importância para ele.) Estava preparado para ser o amigo rico, o amigo famoso, ou o amigo respeitado, e sabia, mesmo quando apenas sonhava com riquezas, fama e reconhecimento, que manteria sua amizade com todos eles, que nunca os trocaria por mais ninguém, não importava quão grande fosse a tentação. Ele os amava; eram seus.

Mas não havia contado com a hipótese de que eles pudessem abandoná-lo, de que seus próprios feitos os fariam esquecê-lo. Malcolm tinha seu próprio negócio. Jude vinha fazendo o que quer que fizesse de maneira tão impressionante que, ao representar JB numa discussão boba que tivera na primavera anterior com um colecionador que tentava processar para recuperar um antigo quadro que o colecionador prometera deixar que comprasse de volta e depois faltara com a palavra, o advogado do colecionador erguera as sobrancelhas quando JB mandara que entrasse em contato com o seu advogado, Jude St. Francis.

– St. Francis? – perguntou o advogado. – Como conseguiu contratar ele?

JB contou a história a Henry Young Negro, que não se surpreendeu.

– É isso aí – falou ele. – Jude é conhecido por ser frio e cruel. Ele vai dar um jeito nas coisas para você, JB, não se preocupe.

Aquilo o deixara assustado: o seu Jude? Uma pessoa que literalmente não conseguira erguer a cabeça e olhar em seus olhos até o segundo ano de universidade? Cruel? Não conseguia imaginar uma coisa daquelas.

– Eu sei – disse Henry Young Negro, quando expressara sua incredulidade. – Mas ele se torna outra pessoa no trabalho, JB; uma vez o vi no tribunal e ele estava assustador, absolutamente implacável. Se não o conhecesse, pensaria que se tratava de um tremendo cuzão.

Mas Henry Young Negro estava certo: não somente JB conseguira seu quadro de volta, mas também uma carta com um pedido de desculpas por parte do colecionador.

Depois, claro, havia Willem. Uma parte terrível e mesquinha de JB tinha que admitir que nunca, jamais em sua vida, esperara que Willem fosse alcançar tamanho sucesso. Não que desejasse mal a ele – só não acreditava que pudesse acontecer. Willem, com sua falta de espírito competitivo; Willem, que na universidade recusara o papel principal em Olhe para trás com raiva para ir cuidar do irmão doente. Por um lado, podia entender; por outro – o irmão não estava fatalmente doente, não naquela época; até mesmo sua mãe lhe dissera para não ir –, não. Ao passo que antes seus amigos precisavam dele – por sua animação, sua alegria –, agora não precisavam mais. JB não gostava de ver a si mesmo como o tipo de pessoa que queria que os amigos fossem, bem, não fracassados, mas dependentes dele. Mas talvez ele fosse exatamente assim.

O que não imaginara sobre o sucesso é que o sucesso torna as pessoas chatas. O fracasso também torna as pessoas chatas, mas de um modo diverso: o esforço perpétuo dos fracassados só tinha um objetivo – o sucesso. Mas as pessoas bem-sucedidas também tinham de lutar para manter seu sucesso. Aquela era a diferença entre correr e correr no mesmo lugar, e por mais que correr fosse chato de qualquer maneira, pelo menos a pessoa que corria estava se movendo, passando por diferentes cenários e diferentes paisagens. E, nesse ponto, mais uma vez parecia que Jude e Willem tinham algo que ele não tinha, algo que os protegia do tédio sufocante de ser bem-sucedido, do aborrecimento de acordar e se dar conta de que você é um sucesso e que todo dia tinha que continuar fazendo o que quer que o tenha transformado num sucesso, pois, a partir do momento que parar, deixa de ser um sucesso e começa a se tornar um fracasso. JB às vezes pensava que o que realmente distinguia ele e Malcolm de Jude e Willem não era a cor ou o dinheiro, mas a capacidade infinita de Jude e Willem em se maravilharem com as coisas: a infância dos dois fora tão miserável, tão cinza, comparada à dele, que ambos pareciam viver deslumbrados na vida adulta. No mês de junho seguinte à formatura deles, os Irvine compraram passagens para todos irem a Paris, onde, conforme acabaram descobrindo, tinham um apartamento – “um apartamentinho minúsculo”, esclarecera Malcolm, na defensiva – no sétimo arrondissement. JB estivera em Paris com a mãe quando estava no fim do ensino fundamental, depois com a turma do colégio durante o ensino médio e mais uma vez entre o segundo e o terceiro ano de universidade, mas só quando viu os rostos de Jude e Willem foi que conseguiu perceber mais vividamente não só a beleza da cidade, mas também os encantos que ela prometia. Invejava aquilo neles, a habilidade que tinham (embora soubesse que, pelo menos no caso de Jude, se tratava de uma recompensa por uma infância longa e sofrida) de ainda se surpreenderem, a fé que mantinham em achar que a vida, que a maturidade, continuaria a presenteá-los com experiências fantásticas, que seus melhores dias não tinham ficado para trás. Lembrava-se também de vê-los comendo ouriços-do-mar pela primeira vez, e como suas reações – como se fossem Helen Keller e acabassem de compreender que aquela coisa fresca em suas mãos tinha um nome, e que podiam saber qual era – o deixaram sem paciência e ao mesmo tempo com uma inveja profunda. Qual deveria ser a sensação de fazer parte da vida adulta e ainda estar descobrindo os prazeres da vida?

Sentia às vezes que era por aquele motivo que gostava tanto de usar drogas: não porque oferecessem uma fuga da vida cotidiana, como muitos pensavam, mas sim porque faziam a vida cotidiana parecer menos cotidiana. Por um breve período – cada vez mais breve com o passar das semanas – o mundo era um lugar esplêndido e desconhecido.

Outras vezes, perguntava a si mesmo se fora o mundo que perdera suas cores ou se teriam sido seus amigos. Quando todo mundo passara a ser tão igual? Com uma frequência cada vez maior, a impressão que tinha era de que a última vez em que as pessoas foram interessantes havia sido na faculdade; na pós-graduação. Depois passaram a se tornar, lenta, mas inevitavelmente, igual a todos os outros. Como, por exemplo, as integrantes da Gordura nas Costas: na faculdade, haviam marchado com os peitos de fora, todas as três, gordas, voluptuosas e tremendo feito gelatina, descendo pela Charles para protestar contra os cortes no programa de planejamento familiar (ninguém sabia qual a relevância dos peitos de fora, mas que se dane), faziam grandes shows no porão do Hood, e atearam fogo na efígie de um senador estadual antifeminista no pátio. Mas, agora, Francesca e Marta falavam em ter filhos e em se mudar de seu loft em Bushwick para uma casa em Boerum Hill, e Edie estava abrindo um negócio, dessa vez para valer, para valer mesmo, e, no ano passado, quando ele sugerira que reunissem a Gordura nas Costas para mais uma apresentação, todas caíram no riso, por mais que ele não estivesse brincando. Sua nostalgia contínua o deprimia, o envelhecia, mas ainda assim não conseguia deixar de sentir que seus anos mais gloriosos, os anos em que tudo parecia iluminado por luzes fluorescentes, haviam ido embora para nunca mais voltar. Todo mundo era muito mais divertido antes. O que havia acontecido?

Era a idade, supunha. E junto a ela: Trabalho. Dinheiro. Filhos. Coisas que afastavam a morte, coisas que tornavam as pessoas relevantes, coisas que confortavam e ofereciam contexto e conteúdo. A marcha para a frente, ditada pela biologia e por convenção, à qual nem mesmo a mente mais irreverente era capaz de resistir.

Mas aqueles eram seus colegas. O que queria mesmo saber era quando seus amigos tinham se tornado tão convencionais e por que ele não percebera antes. Malcolm sempre fora convencional, é claro, mas, de certa forma, esperava mais de Willem e Jude. Sabia que aquilo soava terrível (por isso nunca o dissera em voz alta), mas, muitas vezes, acreditava ter sido amaldiçoado com uma infância feliz. E se algo de fato interessante lhe houvesse acontecido quando era novo? Mas a verdade era que a única coisa interessante que lhe acontecera foi ter frequentado uma escola preparatória quase exclusivamente branca, e isso nem chegava a ser interessante. Graças a deus não era escritor, ou não teria nada sobre o que escrever. E então havia alguém como Jude, alguém que não crescera como todos os outros, e não se parecia com todos os outros, e que vivia, como bem sabia JB, tentando ser exatamente como todos os outros. Preferia ter a aparência de Willem, é claro, mas seria capaz de matar algo pequeno e adorável para se parecer com Jude, para ter aquele jeito misterioso de coxear, que era mais como se estivesse deslizando, e ter o corpo e o rosto que ele tinha. Mas Jude passava a maior parte do tempo tentando ficar parado e olhando para baixo, como se, ao fazer isso, ninguém fosse notar sua presença. Aquilo era triste, mas ao mesmo tempo compreensível durante a faculdade, quando Jude tinha uma aparência tão infantil e esquelética que as juntas de JB doíam só de olhar para ele, mas, hoje em dia, agora que crescera, JB achava aquilo simplesmente irritante, especialmente porque a timidez de Jude muitas vezes interferia em seus planos.

– Quer passar a vida inteira sendo completamente normal, monótono e típico? – perguntara uma vez a Jude (isso aconteceu em meio à segunda grande briga entre os dois, quando tentava convencer Jude a posar nu, uma discussão que sabia não ter a menor chance de vencer antes mesmo de começar).

– Sim, JB – respondera Jude, lançando em sua direção aquele olhar que às vezes evocava, intimidante, vazio a ponto de se tornar até um pouco assustador. – Na verdade, é exatamente isso o que eu quero.

Ele às vezes suspeitava que tudo o que Jude queria de fato na vida era ficar em Cambridge com Harold e Julia e brincar de casinha com eles. No ano anterior, por exemplo, JB fora convidado para um cruzeiro por um de seus colecionadores, um cliente riquíssimo e importante que tinha um iate que viajava pelas ilhas gregas e era decorado com obras-primas modernas que qualquer museu ficaria feliz em exibir – só que elas estavam penduradas no banheiro de um barco.

Malcolm vinha trabalhando em seu projeto em Doha, ou em algum outro lugar, mas Willem e Jude estavam na cidade, e ele telefonara a Jude para convidá-lo: o colecionador pagaria a viagem e mandaria seu avião. Seriam cinco dias no iate. JB não sabia nem por que precisavam conversar sobre o assunto. “Me encontre em Teterboro”, devia ter escrito numa mensagem de texto. “Traga protetor solar.”

Mas não, decidira perguntar, e Jude lhe agradecera. E em seguida dissera:

– Mas é no Dia de Ação de Graças.

– E daí? – perguntara.

– JB, muito obrigado por me convidar – dissera Jude, e ele não conseguia acreditar em seus ouvidos. – Parece fabuloso. Mas tenho que ir para a casa de Harold e Julia.

JB ficara embasbacado com aquilo. Claro, ele também tinha bastante carinho por Harold e Julia e, assim como os outros, também podia ver o quanto eram bons para Jude e como ele se tornara um pouco mais leve com a amizade deles, mas, pelo amor de deus! Estavam falando de Boston! Jude podia vê-los toda hora. Mas preferiu dizer não e ponto final. (E então, obviamente, como Jude recusara o convite, Willem também dissera que não, e no fim ele terminara ao lado dos dois e de Malcolm em Boston, espumando diante da cena em torno da mesa – pais substitutos; amigos dos pais substitutos; comida medíocre em profusão; liberais discutindo uns com os outros sobre a política democrata aos berros sobre questões com as quais todos tinham concordado –, tão clichê e genérica que teve vontade de gritar, mas que ao mesmo tempo despertavam um bizarro fascínio em Jude e Willem.

O que viera primeiro, então: ter se aproximado de Jackson ou perceber o quanto seus amigos eram chatos? Conhecera Jackson depois da inauguração de sua segunda mostra, quase cinco anos após a primeira. Chamava-se “Todos Que Já Conheci Todos Que Já Amei Todos Que Já Odiei Todos Que Já Fodi” e era exatamente isso: cento e cinquenta quadros de trinta e oito por cinquenta e cinco centímetros em placas finas de madeira com o rosto de todo mundo que já conhecera. A série fora inspirada por um quadro que pintara de Jude e dera a Harold e Julia no dia em que Jude foi adotado. (Céus, como adorava aquele quadro. Devia ter ficado com ele. Ou devia ter trocado: Harold e Julia ficariam contentes com uma obra não tão fantástica, contanto que fosse de Jude. Na última vez que estivera em Cambridge, pensara seriamente em roubá-la, em tirá-la da parede no corredor e colocá-la na mochila antes de ir embora.) Mais uma vez, “Todos Que Já Conheci” foi um sucesso, embora não fosse a série que ele queria ter feito; a série que queria ter feito era aquela na qual vinha trabalhando agora.

Jackson era outro dos artistas da galeria, e embora JB tivesse ouvido falar dele, não chegara a conhecê-lo antes, e se surpreendeu, depois de ser apresentado no jantar pós-inauguração, em ver o quanto gostara dele, o quão inesperadamente engraçado ele era, pois Jackson não era o tipo de pessoa de quem se aproximaria naturalmente. Para começar, JB odiava com todas as forças seu trabalho: fazia esculturas de arte encontrada, só que do tipo mais pueril e óbvio, como as pernas de uma boneca Barbie coladas à base de uma lata de atum. Oh, céus, pensou ele da primeira vez que vira aquilo no site da galeria. Ele é representado pela mesma galeria que eu? Nem mesmo considerava aquilo arte. Considerava como provocação, embora apenas um aluno do ensino médio – não, do ensino fundamental – consideraria seu trabalho provocador. Jackson achava que suas obras tinham um quê de Kienholz, o que ofendia JB, e olha que ele nem gostava de Kienholz.

Depois, Jackson era rico: tão rico que nunca trabalhara um só dia na vida. Tão rico que seu galerista concordara em representá-lo (pelo menos era o que todos diziam, e JB esperava que fosse verdade) como uma espécie de favor ao pai de Jackson. Tão rico que vendia todas as obras em suas mostras porque, diziam as más línguas, sua mãe – que se divorciara do pai de Jackson, fabricante de algum tipo de peça essencial de avião, quando ele era jovem, para depois casar com o inventor de algum tipo de peça essencial usada em cirurgias de transplante cardíaco – comprava tudo e depois leiloava, fazendo os preços aumentarem para então comprar tudo de volta, inflacionando o valor das peças. Diferentemente das outras pessoas ricas que conhecia – incluindo Malcolm, Richard e Ezra –, Jackson raramente fingia não ser rico. JB sempre achara a parcimônia dos outros fingida e irritante, mas ficara imediatamente sóbrio ao ver Jackson pagar por duas barras de chocolate com uma nota de cem dólares num dia em que os dois estavam chapados e riam sem parar, sentindo uma fome terrível às três da manhã, e dizer ao caixa para ficar com o troco. Havia algo de obsceno no desprezo com que Jackson gastava seu dinheiro, algo que lembrava JB de que, por mais que pudesse pensar em si mesmo como alguém diferente, ele também era chato, convencional e filho da sua mamãe.

Além disso, Jackson não era nem boa-pinta. JB acreditava que fosse hétero – de qualquer forma, havia sempre garotas em volta dele, garotas que Jackson tratava com desdém e que, ainda assim, corriam atrás dele, feito capachos, com seus rostos lisos e vazios –, mas era a pessoa menos sensual que JB já conhecera. Os cabelos de Jackson eram muito claros, quase brancos, sua pele era cheia de espinhas, e os dentes, que seguramente já haviam tido uma aparência cara, agora eram da cor da poeira, com brechas infestadas de tártaro amarelo-manteiga, causando repulsa em JB só de olhar para eles.

Seus amigos detestavam Jackson e, à medida que se tornava claro que Jackson e seu grupinho – garotas ricas e solitárias como Hera, artistas duvidosos como Massimo e supostos jornalistas de arte como Zane, muitos deles colegas de classe que Jackson conhecera na escola fracassada que passara a frequentar depois de ser reprovado em todos os colégios particulares de Nova York, incluindo o de JB – estavam em sua vida para ficar, todos eles tentavam alertá-lo.

– Você não para de dizer que Ezra é um artista de araque – argumentara Willem. – Mas como, exatamente, Jackson seria diferente de Ezra, exceto por ser um babaca do caralho?

Jackson era mesmo um babaca e, ao lado dele, JB se tornava outro. Alguns meses antes, na quarta ou quinta vez que tentara parar de usar drogas, telefonara para Jude um dia. Eram cinco da tarde e tinha acabado de acordar. Sentia-se tão mal, tão inacreditavelmente velho e exausto, simplesmente acabado – sua pele estava grudenta, seus dentes, ásperos, os olhos, secos feito madeira –, que, pela primeira vez, teve vontade de estar morto, simplesmente de não precisar seguir em frente. Alguma coisa tem que mudar, falou para si mesmo. Tenho que parar de andar com Jackson. Preciso parar. Tudo tem que parar. Sentia falta dos amigos, de como eram inocentes e limpos, de ser o mais interessante de todos eles, de nunca ter de fingir quando estava com eles.

Assim, telefonou para Jude (naturalmente, Willem não estava na porra da cidade e não podia confiar que Malcolm não fosse entrar em parafuso) e pedira, implorara, para que viesse a sua casa depois do trabalho. Contou a ele o local exato onde poderia encontrar o resto da metanfetamina (debaixo da tábua de madeira solta sob o lado direito da cama) e onde estava o cachimbo, pedindo que os jogasse no vaso sanitário e desse a descarga, que se livrasse de tudo.

– JB – dissera Jude. – Me ouça. Vá até aquele café na Clinton, tudo bem? Leve seu bloco de rascunho. Peça algo para comer. Estarei lá assim que puder, assim que terminar esta reunião. Depois vou mandar uma mensagem para você quando tiver acabado, para que possa voltar para casa, combinado?

– Combinado – respondera.

Levantou, tomou um longo banho, no qual mal se esfregou, apenas ficou embaixo da água, e depois fez exatamente o que Jude dissera: pegou o bloco de rascunho e lápis. Foi até o café. Comeu um sanduíche de frango e tomou café. E esperou.

Enquanto esperava, viu, passando pela janela como um mangusto bípede, com seus cabelos sujos e o queixo delicado, Jackson. Observou Jackson caminhar, com seu passo largo e superior de menino rico, aquele meio sorriso bobo no rosto que fazia JB ter vontade de socá-lo, indiferente como se Jackson fosse apenas mais um feioso que tivesse visto na rua, não um feioso que visse todo dia. E então, quase depois de sumir de vista, Jackson virou o rosto, olhou para a janela diretamente para ele, e abriu seu sorriso feio. Mudou de direção e voltou para o café, atravessando a porta como se soubesse o tempo todo que JB estava ali, como se tivesse se materializado só para lembrar a JB que ele era seu agora, que não havia escapatória, e que JB estava ali para fazer o que ele quisesse, quando quisesse, e que sua vida nunca mais voltaria a ser sua. Pela primeira vez, sentiu medo de Jackson e entrou em pânico. O que aconteceu?, perguntou a si mesmo. Ele era Jean-Baptiste Marion, ele fazia os planos, era ele quem as pessoas seguiam, não o contrário. Percebeu que Jackson nunca o deixaria partir, e ficou assustado. Pertencia a outra pessoa; agora era propriedade de alguém. Como poderia se desapropriar? Como poderia voltar a ser quem era?

– E aí? – disse Jackson, nada surpreso em vê-lo, como se tivesse feito JB esperar por ele ali.

O que podia dizer?

– E aí? – devolveu.

Então seu telefone tocou: era Jude, dizendo que a área estava limpa e que podia voltar para casa.

– Preciso ir – falou, levantando, e, ao sair, Jackson foi atrás.

JB percebeu que a expressão de Jude mudou quando viu Jackson ao seu lado.

– JB – disse ele, com a voz calma. – Que bom te ver. Está pronto para ir?

– Ir aonde? – perguntou, estupidamente.

– Para a minha casa – falou Jude. – Não disse que podia me ajudar a pegar aquela caixa que não alcanço?

Mas JB estava tão confuso e desnorteado que não conseguiu entender.

– Que caixa?

– A caixa na prateleira do armário que eu não alcanço – disse Jude, ainda ignorando Jackson. – Preciso da sua ajuda. Tenho dificuldade para subir na escada sozinho.

Devia ter captado a mensagem naquela hora; Jude nunca fazia qualquer referência ao que não podia fazer. Estava lhe oferecendo uma saída e ele era burro demais para entender.

Mas Jackson entendeu.

– Acho que o seu amigo quer afastar você de mim – disse ele a JB, abrindo um sorriso afetado.

Era assim que Jackson sempre os chamava, mesmo que já conhecesse todos eles: Seus amigos. Os amigos de JB.

Jude olhou para ele.

– Tem razão – falou, ainda com seu tom calmo e firme. – Quero mesmo. – E então, virando-se para ele: – JB, você pode vir comigo?

Ah, como ele queria. Mas, naquele momento, não podia. Não sabia dizer por que, nunca viria a saber, mas não podia. Estava sem forças, tão sem forças que não conseguia nem fingir o contrário.

– Não posso – sussurrou para Jude.

– JB – disse Jude, pegando-o pelo braço e arrastando-o para o meio-fio, enquanto Jackson os observava com seu sorriso idiota e zombeteiro. – Venha comigo. Não precisa ficar aqui. Venha comigo, JB.

JB então se pôs a chorar, não alto ou ininterruptamente, mas ainda assim era choro.

– JB – disse Jude outra vez, em voz baixa. – Venha comigo. Não precisa voltar lá.

Mas “não posso” era só o que JB ouvia sua voz dizer.

– Não posso. Quero ir lá para cima. Quero ir para casa.

– Então eu vou subir com você.

– Não. Não, Jude. Quero ficar sozinho. Obrigado. Mas vá para casa.

– JB – começou Jude, mas ele apenas lhe deu as costas e saiu correndo, enfiando a chave na porta da frente de qualquer jeito e subindo as escadas depressa, sabendo que Jude não conseguiria segui-lo, mas com Jackson logo atrás dele, gargalhando sua risada cruel, enquanto os gritos de Jude – “JB! JB!” – ecoavam atrás dos dois, até entrar no apartamento (Jude fizera uma limpeza geral quando esteve lá: a pia estava vazia; os pratos estavam no escorredor, secando) e não conseguir mais ouvi-lo. Desligou o telefone, para o qual Jude ligava, e tirou o som do interfone, que Jude apertava sem parar.

Jackson então estendeu as fileiras da cocaína que trazia consigo e os dois as cheiraram. Naquele instante, a noite se tornou igual a centenas de noites que vivera antes: os mesmos ritmos, o mesmo desespero, o mesmo sentimento terrível de suspensão.

– Ele é bonito, esse seu amigo – ouviu Jackson dizer a certa altura, naquela mesma noite. – Que pena que tenha aquele... – E levantou para imitar o passo de Jude, arrastando-se de maneira grotesca, completamente diferente de Jude, com a boca mole feito um retardado e as mãos soltas balançando à sua frente.

JB estava drogado demais para protestar, drogado demais para dizer qualquer coisa, então apenas piscou os olhos e assistiu a Jackson capengar pela sala, tentando falar alguma palavra em defesa de Jude enquanto as lágrimas fervilhavam em seus olhos.

No dia seguinte, acordou tarde, com a cara no chão, próximo à cozinha. Passou ao lado de Jackson, que também dormia no chão, perto da estante de livros, e foi para o quarto, vendo que Jude também arrumara sua cama, e algo naquilo despertou nele uma nova vontade de chorar. Levantou cuidadosamente a tábua debaixo do lado direito da cama e enfiou a mão no espaço: não havia nada. Deitou então sobre o cobertor, puxando uma ponta para cima do corpo, cobrindo até a cabeça, como costumava fazer quando criança.

Enquanto tentava dormir, forçou-se a pensar em como acabara fazendo amizade com Jackson. Não era que não soubesse o porquê; só tinha vergonha de lembrar. Começara a sair com Jackson para provar que não dependia dos amigos, que não era refém de sua vida, que podia tomar e tomaria suas próprias decisões, mesmo que fossem ruins. Na idade dele, as pessoas normalmente já conheciam todos os amigos que teriam pelo resto da vida. Já conheciam os amigos dos amigos. A vida ficava cada vez menor. Jackson era estúpido, imaturo e cruel, não o tipo de pessoa que ele deveria valorizar ou com quem devesse desperdiçar seu tempo. Sabia disso. E era justamente por isso que continuava a encontrá-lo: para chocar seus amigos, para mostrar-lhes que não era um prisioneiro das expectativas que tinham em relação a ele. Era uma atitude estúpida, estúpida, estúpida. Era pura arrogância. E ele era o único que sofria com aquilo.

– Você não pode gostar desse cara de verdade – dissera Willem uma vez. E por mais que soubesse exatamente o que Willem quisesse dizer, fingiu não saber, só para provocar.

– Por que não posso, Willem? – perguntara. – Ele é engraçado pra caralho. Ele quer fazer as coisas de verdade. E ele está por perto quando preciso de alguém. Por que não posso gostar dele? Hein?

O mesmo acontecia com as drogas. Usar drogas não era coisa de gente descolada, de gente fodona, aquilo não fazia dele alguém mais interessante. Mas também não era o que ele deveria fazer. Naqueles dias, quem levava sua arte a sério não usava drogas. A própria ideia de indulgência havia desaparecido, era coisa para beats, expressionistas abstratos, gente que fazia op art e pop art. Naqueles dias, talvez você fumasse um baseado aqui ou ali. Talvez, de vez em quando, cheirasse uma carreira de cocaína se estivesse se sentindo muito irônico. Mas aquilo era tudo. Vivia-se uma era de disciplina, de privação, e não de inspiração, e, de qualquer forma, inspiração não era mais sinônimo de usar drogas. Ninguém que ele conhecia e respeitava – Richard, Ali, Henry Young Asiático – as usava: nada de drogas, nada de açúcar, nada de cafeína, nada de sal, nada de carne, nada de glúten, nada de nicotina. Eram artistas ascéticos. Nos momentos mais desafiadores, JB tentava fingir que usar drogas era algo tão démodé, tão obsoleto, que voltara a ser cool. Mas sabia que não era verdade. Assim como sabia que não gostava realmente das festas de sexo que aconteciam às vezes no apartamento cheio de ecos de Jackson em Williamsburg, nas quais grupos aleatórios de gente magra se apalpavam às cegas. Foi numa dessas ocasiões que, ao ouvir pela primeira vez um garoto, muito magro, alto, novo e imberbe, que não fazia seu tipo, pedir que assistisse enquanto sugava o próprio sangue de uma ferida que fizera em si mesmo, JB sentiu vontade de rir. Mas não riu e assistiu ao garoto cortar o bíceps e retorcer o pescoço para lamber o sangue, como um filhotinho de gato se limpando, e sentiu uma pontada de tristeza.

– Ah, JB, tudo o que quero é um belo garoto branco – certa vez resmungara para ele seu ex, e agora amigo, Toby, e ele abriu um sorrisinho ao lembrar daquilo.

Era o mesmo desejo que tinha. Tudo o que ele queria era um belo garoto branco, não aquela criatura triste parecida com uma salamandra, tão pálida que era quase transparente, sugando o próprio sangue no que provavelmente seria o gesto menos erótico do mundo.

Mas, dentre todas as questões que podia responder, havia uma para a qual não tinha resposta: Como poderia sair daquela vida? Como poderia parar? Ali estava ele, literalmente acuado em seu estúdio, literalmente espiando o corredor para ter certeza de que Jackson não estava por perto. Como poderia fugir de Jackson? Como poderia recuperar sua vida?

Na noite seguinte à que pediu a Jude para se livrar de suas drogas, JB finalmente telefonou para ele, que o convidou à sua casa. JB recusou, então Jude foi até ele. Ficou sentado, encarando a parede, enquanto Jude preparava seu jantar, um risoto de camarão, passando-lhe o prato e depois se apoiando no balcão para vê-lo comer.

– Posso repetir? – perguntou ao terminar a primeira porção, e Jude lhe deu outra.

Não percebera o quanto estava faminto, e sua mão tremia ao levar comida à boca. Lembrou-se dos jantares de domingo à noite na casa da mãe, que deixara de frequentar desde a morte da avó.

– Não vai me dar um sermão? – perguntou, mas Jude balançou a cabeça.

Depois de comer, sentou no sofá e assistiu à televisão com o som desligado, sem de fato prestar atenção, mas apenas tirando conforto dos lampejos e borrões de imagens. Jude lavou a louça e sentou no sofá ao lado dele, trabalhando num relatório.

Um dos filmes de Willem estava passando na televisão – aquele em que interpretava um trapaceiro numa pequena cidade irlandesa, cuja bochecha esquerda era coberta de cicatrizes – então JB deixou no canal, sem assistir, mas olhando para o rosto de Willem e para sua boca se mexendo em silêncio.

– Tenho saudade de Willem – falou, logo percebendo o quanto aquilo soara ingrato.

Mas Jude colocou a caneta sobre o papel e olhou para a tela.

– Eu também – falou, e os dois olharam fixamente para o amigo, tão distante deles.

– Não vá embora – disse a Jude, quase caindo no sono. – Não me deixe.

– Não vou a lugar algum – falou Jude, e ele sabia que Jude não iria mesmo.

Quando acordou cedo na manhã seguinte, ainda estava no sofá, a televisão fora desligada e um edredom o cobria. E ali estava Jude, aninhado em meio às almofadas na outra ponta do sofá, ainda dormindo. Uma parte dele sempre se sentira ofendida pela relutância de Jude em revelar qualquer coisa de sua vida a eles, por seu ar furtivo e misterioso, mas, naquele momento, sentia apenas gratidão e admiração. Sentou na cadeira ao lado do amigo, estudando seu rosto, que tanto adorava pintar, a coloração complicada de seus cabelos, que sempre o lembravam do quanto precisava misturar tintas, da quantidade de tons necessários para retratá-los com precisão.

Eu consigo, disse a Jude em voz baixa. Eu consigo.

Mas obviamente não conseguia. Estava em seu estúdio, ainda era apenas uma da tarde, e queria tanto, tanto, se drogar. A vontade era tanta que tudo que conseguia ver em sua mente era o cachimbo, ainda coberto de resíduos do pó branco. Aquele era apenas o primeiro dia em que tentava largar a droga e já se transformava – ele o transformava – numa piada. Ao seu redor estavam as únicas coisas com as quais se importava, os quadros para sua próxima série, “Segundos, Minutos, Horas, Dias”, para a qual seguira Malcolm, Jude e Willem durante um dia inteiro, fotografando tudo o que faziam, e depois escolhera entre oito e dez imagens do dia de cada um para pintar. Havia decidido documentar um típico dia de trabalho deles, todos no mesmo mês do mesmo ano, e intitulara cada quadro com seus nomes, o lugar e a hora do dia em que fotografara a imagem.

A série de Willem fora a mais remota: JB viajara a Londres, onde o amigo filmava algo chamado Atrasados, e as imagens que escolhera misturavam cenas dentro e fora do set. JB tinha seus favoritos em cada série: a de Willem era Willem, Londres, 8 de outubro, 9:08, uma imagem dele na cadeira de maquiagem encarando seu reflexo no espelho, enquanto a maquiadora levantava seu queixo com as pontas dos dedos da mão esquerda e passava pó-de-arroz em suas bochechas com a direita. Os olhos de Willem estavam voltados para baixo, mas ainda assim dava para ver que olhava para si mesmo, e suas mãos agarravam os braços de madeira da poltrona como se estivesse numa montanha-russa, com medo de despencar caso soltasse. À sua frente, a bancada estava tomada de raspas encaracoladas de lápis de olho recém-apontados, que pareciam farrapos de fita, e estojos de maquiagem abertos em que todos os tons eram vermelhos, todos os vermelhos que você podia imaginar, e lenços de papel com borrões vermelhos que pareciam sangue. Para Malcolm, era uma fotografia distante retratando-o tarde da noite, sentado na bancada da cozinha de casa, criando um de seus prédios imaginários com quadrados de papel de arroz. Gostava de Malcolm, Brooklyn, 23 de outubro, 23:17, não tanto pela composição ou pelas cores, mas por motivos mais pessoais: na faculdade, costumava zombar de Malcolm por causa daquelas pequenas estruturas que construía e exibia no parapeito da janela, mas, na verdade, JB as admirava e gostava de observar Malcolm construindo-as – sua respiração ficava mais lenta, ele se mantinha em absoluto silêncio, e sua tensão constante, que às vezes parecia até algo físico, um apêndice, feito uma cauda, desaparecia.

JB trabalhava em todas as imagens fora de sequência, mas não vinha conseguindo acertar bem as cores do jeito que queria na série de Jude, e por isso tinha menos quadros dele finalizados. Ao esquadrinhar as fotos, percebeu que os dias de seus amigos podiam ser classificados e definidos por uma certa consistência de tons: seguira Willem nos dias em que estava filmando no que deveria ser um enorme apartamento em Belgravia, e a luz era particularmente dourada, como cera. Depois, já no apartamento em Notting Hill que Willem alugara, JB tirou fotos dele sentado e lendo, e ali também a luz era amarelada, embora um pouco menos fluida, mais distinta, como a casca de uma maçã no fim do outono. Em contraste, o mundo de Malcolm era azulado: seu escritório estéril, com bancadas de mármore branco, na rua 22; a casa que ele e Sophie haviam comprado em Cobble Hill depois de casarem. Já o dia de Jude era cinzento, mais para o prateado, um tom muito comum no processo da prata coloidal, mas que vinha se provando particularmente difícil de ser reproduzido com tinta acrílica, embora nos quadros de Jude ele tivesse diluído consideravelmente as cores na tentativa de capturar aquela luz difusa. Antes de começar, precisava achar um meio de fazer o cinza parecer brilhante e limpo. Aquilo era frustrante, pois o que queria fazer era pintar, não perder tempo testando cores.

Mas ficar frustrado com seus quadros – e era impossível não pensar no seu trabalho como um colega, um coparticipante, algo que às vezes decidia se mostrar bem-disposto e colaborar com você, e às vezes decidia ser truculento e inflexível, como um bebê rabugento – era exatamente o que acontecia. Você só tinha que continuar tentando e tentando, até que um dia acertava.

E então, assim como a promessa que fizera a si mesmo – Você não vai conseguir!, gritava o duende provocador que dançava em sua mente; Não vai conseguir! –, os quadros também zombavam dele. Para aquela série, decidira pintar uma sequência de um de seus dias. No entanto, em três anos não conseguira achar um dia digno de registro. Até tentara – havia tirado centenas de fotos de si mesmo ao longo de uma dúzia de dias. Mas, quando as via, todas terminavam da mesma forma: com ele se drogando. Ou as imagens paravam no início da noite, e ele sabia que era porque tinha se drogado, a tal ponto que não conseguia mais tirar fotos. Havia outras coisas naquelas imagens que não lhe agradavam: não queria incluir Jackson num registro da sua vida, mas Jackson estava sempre por perto. Não gostava do sorriso idiota que via em seu rosto quando usava drogas nem do modo como seu rosto passava de gordo e esperançoso para gordo e ganancioso à medida que o dia se transformava em noite. Aquela não era a versão de si mesmo que queria pintar. Mas cada vez mais pensava que aquela era a versão que deveria pintar: aquela, afinal, era sua vida. Aquele era ele agora. Às vezes, quando acordava, já havia escurecido e ele não sabia onde estava, que horas eram ou que dia. Dias: o próprio conceito do que era um dia se tornara uma piada. Não conseguia mais precisar quando um dia começava ou terminava. Alguém me ajude, dizia em voz alta naqueles momentos. Alguém me ajude. Mas não sabia a quem estava fazendo seu apelo, ou o que esperava acontecer.

E agora estava cansado. Havia tentado. Era uma e meia da tarde de sexta-feira, a sexta-feira do feriado de Quatro de Julho. Vestiu a roupa. Fechou as janelas do estúdio, trancou a porta e desceu as escadas do prédio silencioso.

– Chen – falou em voz alta na escadaria, fingindo emitir um alarme para seus colegas artistas, um comunicado a alguém que pudesse precisar da sua ajuda. – Chen, Chen, Chen.

Estava a caminho de casa. Iria se drogar.

Acordou com um barulho terrível, o barulho de máquinas, de metal raspando contra metal, e começou a gritar, com o travesseiro no rosto, para abafar todo aquele ruído, quando percebeu que era o interfone. Levantou lentamente e se arrastou até a porta.

– Jackson? – perguntou, segurando o botão do interfone, e pôde ouvir como sua voz soava assustada e hesitante.

Houve um momento de silêncio.

– Não, somos nós – disse Malcolm. – Abra a porta. – Ele abriu.

E então ali estavam todos eles, Malcolm, Jude e Willem, como se tivessem aparecido para ver algum tipo de exibição sua.

– Willem – falou –, você deveria estar na Capadócia.

– Voltei ontem.

– Mas era para você ficar lá até – ele tinha certeza disto – seis de julho. Foi quando você disse que ia voltar.

– Hoje é dia sete de julho – disse Willem, em voz baixa.

JB começou a chorar, mas estava desidratado e não tinha mais lágrimas, apenas soluços. Sete de julho: perdera tantos dias. Não conseguia se lembrar de nada.

– JB – disse Jude, aproximando-se –, a gente vai tirar você dessa. Venha conosco. Vamos conseguir ajuda para você.

– Tudo bem – respondeu, ainda chorando. – Tudo bem, tudo bem. – Continuou com o cobertor em volta do corpo, estava morrendo de frio, mas permitiu que Malcolm o conduzisse ao sofá, e, quando Willem apareceu com um agasalho, JB ergueu os braços obedientemente, do jeito que fazia quando era criança e sua mãe o vestia. – Onde está Jackson? – perguntou a Willem.

– Jackson não vai incomodar você – ouviu Jude dizer, de algum ponto acima dele. – Não se preocupe, JB.

– Willem – falou –, quando deixou de ser meu amigo?

– Nunca deixei de ser seu amigo, JB – respondeu Willem, sentando ao seu lado. – Você sabe que eu te amo.

JB se refestelou no sofá e fechou os olhos; podia ouvir Jude e Malcolm conversando entre si, em voz baixa, e depois Malcolm andando para o outro lado do apartamento, onde ficava o quarto, e a tábua de madeira sendo levantada e depois colocada no lugar, e o barulho da descarga.

– Estamos prontos – ouviu Jude dizer, e então JB se levantou.

Willem levantou com ele e Malcolm se aproximou e colocou o braço em suas costas. Juntos, marcharam na direção da porta. Foi quando JB teve um ataque de pânico: se saísse, sabia que veria Jackson. Ele apareceria, como naquele dia do café.

– Não posso ir – falou, parando. – Não quero ir, não me façam ir.

– JB – começou Willem, e algo em seu tom de voz, em sua própria presença ali, despertou em JB uma fúria irracional.

Tirou o braço de Malcolm de suas costas e virou para encará-los, com o corpo tomado de energia.

– Você não tem o direito de dizer o que devo fazer, Willem – falou. – Nunca esteve do meu lado, nunca me apoiou, nunca me telefonou, então não pode aparecer aqui gozando de mim, “Pobre JB, tão burro e fodido das ideias, eu sou Willem o Herói, e vim para salvar o dia”, só porque lhe deu na telha, entendeu? Me deixem em paz, caralho!

– JB, sei que você está chateado – disse Willem –, mas ninguém está gozando de você, muito menos eu.

Mas, antes mesmo de Willem começar a falar, JB o viu dar uma olhada rápida, e aparentemente conspiratória, para Jude e, por algum motivo, aquilo o deixou ainda mais zangado. O que acontecera aos dias em que eles todos se entendiam, quando ele e Willem saíam todo fim de semana, voltando no dia seguinte para contar as histórias da noitada a Malcolm e Jude, Jude, que nunca ia a lugar nenhum, que nunca contava suas próprias histórias? Como foi que ele acabou sendo o único que não tinha ninguém? Por que o deixaram à mercê de Jackson, para que o pegasse e o destruísse? Por que não lutaram com mais empenho para salvá-lo? Por que ele mesmo arruinara tudo? Por que eles deixaram que isso acontecesse? Queria deixá-los devastados; queria que se sentissem tão inumanos quanto ele.

– E você, – falou, virando para Jude. – Gosta de saber o quanto sou fodido da cabeça? Gosta de ser sempre o único a descobrir os segredos de todo mundo, sem nunca nos contar absolutamente nada? O que acha que é isto, Jude? Acha que pode fazer parte do clube sem nunca ter que dizer coisa alguma, sem nunca ter de nos dizer coisa alguma? Só que não é assim que essa porra funciona, e já estamos todos de saco cheio de você.

– Agora chega, JB – disse Willem, abruptamente, agarrando seu ombro.

Mas JB recobrou suas forças de repente, desvencilhando-se da mão de Willem, com os pés inesperadamente ágeis, dançando na direção da prateleira de livros feito um boxeador. Olhou para Jude, parado em silêncio, com o rosto completamente imóvel e os olhos arregalados, quase como se esperasse que JB continuasse, que o magoasse ainda mais. Na primeira vez que pintara os olhos de Jude, JB fora a uma loja de animais de estimação para tirar fotos de uma cobra verde, pois as cores eram bem parecidas. Mas, naquele momento, eles estavam mais escuros, quase igual à pele de uma cobra-de-água. Era ridículo, mas queria ter suas tintas à mão, pois sabia que poderia chegar àquele tom sem nem mesmo precisar se esforçar.

– Não é assim que funciona – repetiu para Jude. E então, sem nem perceber, começou a fazer a mesma imitação de Jude que Jackson fazia, aquela paródia horrenda, com a boca aberta, exatamente como fizera Jackson, emitindo o gemido de um doente mental, arrastando a perna direita atrás de si como se fosse de pedra. – Eu sou o Jude – balbuciou. – Meu nome é Jude St. Francis.

Por alguns segundos, a única voz que se ouviu no ambiente foi a sua, os únicos movimentos feitos foram os seus, e nestes segundos teve vontade de parar, mas não conseguiu. E então Willem correu em sua direção, e a última coisa que viu foi Willem recuando o punho, e a última coisa que ouviu foi o som de osso quebrando.

Acordou sem saber onde estava. Tinha dificuldade para respirar. Percebeu que havia algo em seu nariz. Mas, quando tentou levantar a mão para sentir o que era, não conseguiu. Foi quando olhou para baixo e viu que suas mãos estavam atadas. Soube então que estava no hospital. Fechou os olhos e lembrou: Willem o golpeara. Lembrou então por que, e apertou ainda mais os olhos, uivando, mas sem fazer qualquer ruído.

O momento passou e ele abriu os olhos novamente. Virou a cabeça para a esquerda, onde uma horrorosa cortina azul bloqueava sua visão da porta. Virou então a cabeça para a direita, na direção da luz do início da manhã, e viu Jude dormindo na cadeira ao lado da cama. A cadeira era pequena demais para ele dormir, por isso teve de se dobrar numa posição terrível: os joelhos tocavam o peito, a bochecha repousava sobre eles e os braços envolviam as panturrilhas.

Você sabe que não deve dormir assim, Jude, disse a ele em sua cabeça. Suas costas vão doer quando você acordar. Mas, ainda que pudesse estender o braço para acordá-lo, não o teria feito.

Oh, céus, pensou. Oh, céus. O que foi que eu fiz?

Sinto muito, Jude, falou em sua mente, e dessa vez conseguiu chorar de verdade. As lágrimas escorriam até a boca e o muco que não conseguia limpar também borbulhava. Mas estava em silêncio; não fazia barulho algum. Sinto muito, Jude, muito, muito mesmo, repetiu para si mesmo, e depois sussurrou as palavras em voz baixa, tão baixa que só conseguia ouvir seus lábios abrirem e fecharem, e nada mais. Me perdoe, Jude. Me perdoe.

Me perdoe.

Me perdoe.

Me perdoe.