Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 19 de 19

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Uma Vida Pequena

VII. Lispenard Street

[ VII ]

 

Lispenard Street

NO SEGUNDO ANIVERSÁRIO DE sua morte, fomos a Roma. Foi um pouco de coincidência, mas, ao mesmo tempo, não: ele sabia e nós sabíamos que ele precisaria sair da cidade, precisaria estar longe do estado de Nova York. E talvez os Irvine tenham sentido o mesmo, pois foi nesse período que marcaram a cerimônia – bem no final de agosto, quando a Europa inteira migra para outro lugar, e lá estávamos nós, voando em direção dela, daquele continente abandonado por todos os seus pássaros barulhentos, por toda a sua fauna nativa.

Foi na Academia Americana, onde tanto Sophie quanto Malcolm estudaram, e onde os Irvine financiaram uma bolsa para jovens arquitetos. Eles ajudaram a selecionar a primeira beneficiária, uma jovem muito alta e adoravelmente apreensiva de Londres, que construía majoritariamente estruturas temporárias, edifícios de aparência complexa feitos de terra, relvado e papel, destinados a se desintegrar lentamente com o tempo, e foi feito o anúncio da bolsa, que era acompanhada por um prêmio adicional em dinheiro, e houve uma recepção, em que Flora discursou. Além de nós e dos sócios de Sophie e Malcolm na Bellcast, estavam lá Richard e JB, que também estudaram em Roma, e, depois da cerimônia, fomos a um restaurantezinho próximo de que ambos gostavam quando moravam ali, e onde Richard nos mostrou as paredes do prédio que eram etruscas e aquelas que eram romanas. Embora a refeição tenha sido boa, agradável e jovial, também foi silenciosa, e lembro que, a certa altura, levantei a cabeça e vi que nenhum de nós estava comendo, todos com olhares fixos – para o teto, para o prato, um para o outro – e pensando algo diferente, mas, ao mesmo tempo, como eu sabia, também pensando na mesma coisa.

Na tarde seguinte, Julia tirou uma soneca e nós saímos para passear. Estávamos hospedados do outro lado do rio, próximo às escadarias da Praça de Espanha, mas fizemos o carro atravessar a ponte e nos levar ao Trastevere, onde caminhamos por ruas tão estreitas e escuras que poderiam ser corredores, até finalmente chegarmos a uma praça, minúscula, precisa e adornada apenas pela luz do sol e mais nada, onde sentamos num banco de pedra. Um senhor idoso, com uma barba branca e vestindo um terno de linho, sentou-se na outra ponta, e nos cumprimentou com um aceno de cabeça, e nós retribuímos o gesto.

Passamos um bom tempo juntos em silêncio, sentados no calor, e então, de repente, ele disse que se lembrava daquela praça, que estivera ali com você antes, e que havia uma sorveteria famosa a duas ruas dali.

– Devo ir lá? – perguntou-me, e sorriu.

– Acho que você já sabe a resposta – falei, e ele se levantou.

– Volto já – disse ele.

– Stracciatella – instruí, e ele acenou a cabeça.

– Eu sei – disse.

Nós o observamos partir, o homem e eu, e o homem sorriu para mim, e eu retribui o sorriso. Não era tão velho assim, percebi: provavelmente tinha poucos anos a mais que eu. E, mesmo assim, jamais consegui (e ainda não consigo) me ver como velho. Falava como se soubesse que o era; lamentava minha idade. Mas era só por comédia, ou para fazer as outras pessoas se sentirem jovens.

– Lui è tuo figlio? – perguntou o homem, e acenei com a cabeça.

Sempre fiquei surpreso e feliz quando nos reconheciam pelo que éramos um para o outro, pois não nos parecíamos em nada, ele e eu: mesmo assim, pensava, ou esperava, que houvesse algo na nossa proximidade que representasse um indício mais forte de nossa relação, além da mera semelhança física.

– Ah – disse o homem, olhando para ele novamente antes de dobrar a esquina e desaparecer de vista. – Molto bello.

– Sì – respondi, sentindo-me subitamente triste.

Ele então fez uma expressão astuciosa e perguntou, ou melhor, declarou:

– Tua moglie deve essere molto bella, no? – E sorriu para mostrar que falava aquilo em tom de brincadeira, que era um elogio, que, se eu era um homem comum, também era um homem de sorte, por ter uma esposa tão bonita, que me deu um filho tão bonito, então não deveria me sentir ofendido. Sorri para ele.

– Ela é – falei, e ele sorriu, nada surpreso.

O homem já havia ido embora quando ele voltou – acenando com a cabeça para mim ao partir, apoiando-se em sua bengala – com uma casquinha para mim e uma caixa de isopor com granita de limão para Julia. Queria que tivesse comprado algo para ele também, mas não comprou.

– É melhor irmos – disse ele.

E foi o que fizemos. Naquela noite, fomos dormir cedo, e, no dia seguinte – o dia em que você morreu –, nem mesmo o vimos: ele nos deixou um recado na recepção dizendo que saíra para dar uma volta e que nos veria no dia seguinte, se desculpando, e por todo dia nós também andamos, e, por mais que achasse que poderíamos encontrá-lo – Roma não é uma cidade tão grande assim –, isso não aconteceu, e, naquela noite, enquanto tirávamos a roupa para dormir, me dei conta de que havia procurado por ele em cada rua, em cada multidão.

Na manhã seguinte, lá estava ele no café da manhã, lendo o jornal, pálido, mas sorrindo para nós, e não perguntamos o que fez no dia anterior e ele tampouco se dispôs a nos contar. Naquele dia, apenas passeamos pela cidade, nós três formando um grupinho espaçoso – grande demais para as calçadas, caminhamos em fila única, alternando-nos na posição de líder –, mas só estivemos em lugares familiares, lugares com bastante movimento, lugares onde não haveria lembranças secretas, que não continham qualquer intimidade. Próximo à Via Condotti, Julia olhou para a minúscula vitrine de uma minúscula joalheria, na qual entramos, nós três ocupando todo o espaço, e todos pegamos na mão os brincos que ela admirou na vitrine. Eram fantásticos: de puro ouro, densos e pesados, no formato de pássaros, com pequenos rubis redondos no lugar dos olhos e raminhos dourados nos bicos, e ele os comprou para ela, que ficou envergonhada e maravilhada – Julia nunca foi de usar muitas joias –, mas ele pareceu feliz em poder fazer aquilo, e fiquei feliz por vê-lo feliz, e por vê-la feliz também. Naquela noite, encontramos JB e Richard para um último jantar e, na manhã seguinte, partimos para o norte, para Florença, e ele voltou para casa.

– Vejo você em cinco dias – falei para ele, que acenou com a cabeça.

– Divirtam-se – disse. – Divirtam-se bastante. Vejo vocês em breve.

Ele acenou quando nos levaram embora de carro; viramos no banco e acenamos para ele. Lembro-me de torcer para que meu aceno de alguma forma telegrafasse o que eu não podia dizer: Nem ouse. Na noite anterior, enquanto ele e Julia conversavam com JB, perguntei a Richard se ele se importaria em me manter atualizado enquanto estivéssemos fora, e Richard concordou. Ele já havia recuperado quase todo o peso que Andy queria, mas passou por dois retrocessos – um em maio, o outro em julho –, por isso ainda estávamos todos de olho.

Às vezes parecia que vivíamos nossa relação ao contrário, e, em vez de me preocupar menos com ele, eu me preocupava cada vez mais; a cada ano eu tinha mais consciência da fragilidade dele e menos convicção da minha competência. Quando Jacob era bebê, eu me sentia mais seguro a cada mês de sua vida, como se, quanto mais ele ficasse no mundo, mais fundo estaria ancorado a ele, como se, ao ficar vivo, estivesse também reivindicando a própria vida. Era um raciocínio ilógico, é claro, que se mostrou inválido da pior maneira possível. Mas não conseguia deixar de pensar nisto: que a vida se amarrava à vida. Mesmo assim, em determinado ponto da vida dele – depois de Caleb, se eu tivesse que estipular uma data –, passei a ter a impressão de que ele estava num balão de ar quente, preso à terra por uma corda, mas a cada ano o balão forçava mais os laços, fazendo força para o alto, tentando flutuar pelos céus. E, lá embaixo, estávamos unidos na tentativa de puxar o balão para baixo, de volta à segurança. E, assim, eu sempre tive medo por ele, e medo dele também.

É possível ter uma relação verdadeira com alguém de quem se tem medo? Claro que sim. Mas ele ainda me assustava, pois ele tinha poder e eu, não: se ele se matasse, se decidisse partir para longe de mim, eu sabia que sobreviveria, mas sabia também que essa sobrevivência seria difícil; sabia que passaria o resto de meus dias procurando explicações, examinando o passado para avaliar meus erros. E obviamente sabia o quanto sentiria a falta dele, pois, apesar dos ensaios feitos para uma eventual partida, jamais consegui lidar com eles de uma maneira melhor, jamais me habituei a eles.

Depois, voltamos para casa e estava tudo igual: o Sr. Ahmed nos encontrou no aeroporto e nos levou ao apartamento, e ele havia deixado com o porteiro sacolas de comida para que não precisássemos ir ao mercado. O dia seguinte era uma quinta-feira, e ele apareceu e jantamos juntos, e perguntou o que tínhamos visto e feito, e contamos tudo. Naquela noite, estávamos lavando os pratos, e, quando ele foi me passar uma tigela para colocar no lava-louças, ela escorregou de seus dedos e quebrou no chão.

– Merda – gritou ele. – Desculpe, Harold. Sou tão burro. Sou tão desajeitado.

E, por mais que disséssemos que não havia problema, que estava tudo bem, ele foi ficando cada vez mais chateado, tão chateado que suas mãos começaram a tremer, seu nariz começou a sangrar.

– Jude – falei –, está tudo bem. Acontece.

Mas ele balançou a cabeça.

– Não – falou –, sou eu. Eu estrago tudo. Destruo tudo o que toco.

Julia e eu nos entreolhamos por cima de Jude enquanto ele recolhia os cacos, sem sabermos o que dizer ou fazer: aquela reação era completamente desproporcional ao que havia acontecido. Mas houvera alguns incidentes nos meses anteriores, depois que ele jogara aquele prato na parede, que me fizeram perceber, pela primeira vez na minha vida ao lado dele, o quanto sentia raiva e o quanto precisava se esforçar todos os dias para contê-la.

Depois daquele primeiro incidente com o prato, aconteceu outro, algumas semanas mais tarde. Foi na Casa-Lanterna, aonde ele não ia havia meses. Era de manhã, logo após o café, e Julia e eu estávamos saindo para ir ao mercado, e fui procurá-lo para saber o que queria. Ele estava no quarto e a porta estava levemente entreaberta, e, quando vi o que ele estava fazendo, por algum motivo não chamei seu nome, não fui embora, simplesmente parei junto ao batente, observando em silêncio. Estava com uma prótese, colocando a outra – eu nunca o tinha visto sem elas –, e o vi enfiar a perna esquerda na abertura, puxando a manga de elástico sobre o joelho e a coxa, e depois abaixar as calças sobre elas. Como você sabe, aquelas próteses tinham pés que pareciam apenas a ponta de um sapato e um calcanhar, e eu o vi colocar as meias e depois os sapatos. Em seguida, ele respirou fundo e levantou, e o vi dar um passo, depois outro. Mas mesmo eu pude perceber que havia algo de errado – ainda estavam largas demais; ele ainda estava magro demais –, e, antes que pudesse avisá-lo, ele perdeu o equilíbrio e se jogou de frente na cama, onde ficou deitado sem se mexer por um momento.

Ele então esticou os braços e arrancou as duas pernas, primeiro uma e depois a outra, e, por um segundo – ainda estavam com as meias e os sapatos –, pareceu que aquelas eram suas próprias pernas, e ele acabara de arrancar um pedaço de si mesmo, e meio que esperei ver um jato de sangue formando um arco. Em vez disso, ele pegou uma delas e começou a batê-la contra a cama, repetidamente, grunhindo de esforço, e depois a jogou no chão e sentou na beira do colchão, com o rosto nas mãos, os cotovelos nos joelhos, balançando para a frente e para trás, sem fazer qualquer barulho.

– Por favor – eu o ouvi dizer –, por favor.

Mas não disse nada mais, e eu, para minha vergonha, voltei sorrateiramente para o nosso quarto e sentei na mesma postura que a dele, também esperando por algo que não conhecia.

Naqueles meses, pensei muitas vezes no que eu estava tentando fazer, em como é difícil manter vivo alguém que não quer continuar vivo. Primeiro, você tenta usar a lógica (Ainda tem muito por que viver), depois a culpa (Você me deve isso), e depois tenta a raiva, as ameaças, as súplicas (Estou velho; não faça isso a um velho). Mas, então, quando a pessoa concorda, é preciso que você, o persuasor, entre nos domínios do autoengano, pois pode ver o quanto aquilo está custando a ela, pode ver o quanto ela não quer estar ali, pode ver que o simples ato de existir é exaustivo para ela, e então você tem que dizer a si mesmo todos os dias: Estou fazendo a coisa certa. Permitir que ele faça o que quer vai contra as leis da natureza, as leis do amor. Você se apoia nos momentos felizes, os utiliza como prova – Está vendo? É por isso que vale a pena viver. É por isso que estou fazendo com que ele se esforce –, mesmo que aquele único momento não possa compensar todos os outros momentos, a maioria dos momentos. Você pensa, como pensei em relação a Jacob, para que serve um filho? Para me dar consolo? Para eu consolar a ele? E, se um filho não pode mais ser consolado, é meu dever lhe dar permissão para partir? E então você pensa novamente: Mas isso é abominável. Não consigo.

Então eu tentei, é claro. Tentei e tentei. Mas a cada mês eu o via retroceder. Não se tratava tanto de um desaparecimento físico: em novembro, já havia recuperado o peso, o básico, de qualquer forma, e sua aparência estava, talvez, melhor que nunca. Mas estava mais quieto, bem mais quieto, apesar de sempre ter sido uma pessoa quieta. Só que agora falava muito pouco e, quando estávamos juntos, eu às vezes o pegava olhando para algo que eu não conseguia enxergar, e ele então inclinava a cabeça, bem de leve, como um cavalo faz com as orelhas, e voltava a si.

Uma vez nos encontramos para nosso jantar de quinta-feira, e ele estava com hematomas no rosto e no pescoço, só de um lado, como se estivesse perto de um prédio no final da tarde e o sol projetasse uma sombra em cima dele. Os hematomas eram de um tom marrom-escuro, enferrujado, como sangue seco, e perdi o fôlego.

– O que aconteceu? – perguntei.

– Eu caí – respondeu, lacônico. – Não se preocupe – disse, mas é claro que me preocupei.

E, quando o vi novamente com hematomas, tentei segurá-lo.

– Me conte – falei, e ele se desvencilhou de mim.

– Não há nada para contar – falou.

Ainda não sei o que aconteceu: Teria ele feito algo contra si mesmo? Teria deixado alguém fazer aquilo com ele? Não sabia o que era pior. Não sabia o que fazer.

Ele sentia sua falta. Eu também sentia. Todos nós sentíamos. Acho que você deve saber disto, que eu não sentia sua falta só porque você fez dele uma pessoa melhor: sentia sua falta por quem você era. Sentia falta de ver você se divertindo com as coisas que gostava de fazer, fosse comer, ou correr após uma partida de tênis, ou se jogar na piscina. Sentia falta de conversar com você, sentia falta de vê-lo se deslocar pelo ambiente, sentia falta de vê-lo cair no gramado sob um grupinho de netos de Laurence, fingindo não conseguir se levantar por causa do peso deles. (Naquele mesmo dia, a neta mais nova de Laurence, aquela que era apaixonada por você, lhe dera um bracelete de flores de dente-de-leão entrelaçadas, e você agradecera e o usara o dia inteiro, e toda vez que avistava o bracelete no seu pulso, ela saía correndo e afundava o rosto nas costas do pai: também senti falta disso.) Mas o que mais me fazia falta era ver vocês dois juntos; sentia falta de ver você olhando para ele, e ele para você; sentia falta do quanto eram atenciosos um com o outro, do quanto você era carinhoso com ele, de uma maneira espontânea e sincera; sentia falta de vocês ouvindo um ao outro, do jeito que faziam com tanta atenção. O quadro que JB pintou – Willem ouvindo Jude contar uma história – era tão verdadeiro, com uma expressão tão precisa: eu sabia o que estava acontecendo no quadro antes mesmo de ler o nome.

E não quero que pense que não houve momentos felizes também, dias felizes, depois que você se foi. Houve menos, é claro. Foram mais difíceis de serem encontrados, de serem ensejados. Mas existiram. Depois de voltarmos da Itália, comecei a ministrar um seminário na Columbia, aberto a estudantes de Direito e alunos de qualquer graduação. O curso se chamava “A filosofia da lei, a lei da filosofia”, e as aulas eram compartilhadas com um velho amigo meu, e nelas discutíamos a justiça do Direito, as bases morais do sistema legal e como elas às vezes contrariavam nosso sentido nacional de moralidade: Drayman 241, depois de todos aqueles anos! À tarde, eu saía com amigos. Julia passou a ter aulas de desenho anatômico. Nós dois passamos a trabalhar como voluntários numa organização sem fins lucrativos que ajudava profissionais (médicos, advogados, professores) de outros países (Sudão, Afeganistão, Nepal) a encontrar novos trabalhos em suas áreas, mesmo que esses trabalhos apresentassem uma semelhança meramente tangencial ao que faziam antes: enfermeiros se tornavam auxiliares de enfermagem; juízes se tornavam oficiais de justiça. Ajudei alguns deles a se inscreverem na faculdade de Direito, e, quando os via, conversávamos sobre o que estavam aprendendo, como tal lei era diferente da lei que conheciam.

– Acho que deveríamos trabalhar juntos num projeto – disse a ele naquele outono (ele ainda fazia trabalho pro bono para a ONG dos artistas, o que era, percebi quando eu mesmo passei a trabalhar como voluntário por lá, na verdade, mais tocante do que imaginei que seria. Pensava que eram todos um bando de picaretas sem talento tentando levar uma vida criativa quando era claro que jamais conseguiriam, e, embora fosse exatamente isso, me peguei os admirando tanto quanto ele os admirava: a perseverança que tinham, sua fé cega e destemida. Nada e ninguém podia fazer aquelas pessoas desistirem da vida, de reivindicá-las para si).

– Que tipo de projeto? – perguntou ele.

– Você pode me ensinar a cozinhar – disse a ele, que me deu aquele olhar que tinha, no qual quase sorria mesmo sem sorrir, entretido, mas não pronto para deixar isso transparecer. – Estou falando sério. Cozinhar de verdade. Seis ou sete pratos que eu possa ter em meu arsenal.

E então ele me ensinou. Nas tardes de sábado, quando saía do trabalho ou de suas visitas a Lucien e aos Irvine, partíamos para Garrison, sozinhos ou com Richard e India ou JB ou um dos Henry Youngs e suas esposas, e no domingo cozinhávamos algum prato. Meu principal problema, acabamos descobrindo, era a impaciência, minha incapacidade para aceitar o tédio. Saía para procurar algo para ler e esquecia que estava deixando o risoto se transformar numa pasta grudenta, ou me esquecia de virar as cenouras sobre a camada de azeite de oliva e, quando voltava, as encontrava grudadas no fundo da frigideira. (Parecia que muito da arte culinária se baseava em afagar, banhar, monitorar, virar, girar e abrandar: exigências estas que eu associava à infância humana.) Meu outro problema, me foi informado, era minha insistência em inovar, o que aparentemente é uma garantia de fracasso na confeitaria.

– Isto é química, Harold, não filosofia – continuava a dizer ele, com o mesmo meio-sorriso. – Você não pode trapacear mudando a quantidade descrita dos ingredientes e achar que vai ficar do jeito como deveria.

– Talvez fique melhor – falei, mais para diverti-lo; sempre fiquei feliz em bancar o bobo quando achava que aquilo pudesse dar algum prazer a ele; e então ele sorriu, um sorriso de verdade.

– Não vai – falou.

No fim, acabei aprendendo a preparar algumas coisas: aprendi a assar um frango, a fazer ovos poché e a grelhar um linguado. Aprendi a fazer bolo de cenoura, o pão com diversos tipos de castanhas que eu gostava de comprar na confeitaria onde ele havia trabalhado em Cambridge: a versão dele era incrível, e por semanas fiz pães e mais pães.

– Excelente, Harold – disse ele um dia, depois de experimentar uma fatia. – Está vendo só? Agora poderá cozinhar sozinho quando estiver com cem anos.

– Como assim, cozinhar sozinho? – perguntei a ele. – Você terá de cozinhar para mim.

E ele sorriu para mim, um sorriso triste e estranho, e não disse nada, e então logo mudei de assunto antes que ele dissesse algo que eu teria de fingir que ele não dissera. Eu sempre tentava mencionar o futuro, fazer planos para anos mais à frente, para que ele se comprometesse com aquilo e eu pudesse fazê-lo honrar seu compromisso. Mas ele era cuidadoso: nunca prometia nada.

– Devíamos fazer alguma aula de música juntos, você e eu – falei, sem saber de fato o que queria dizer com aquilo.

Ele sorriu, de leve.

– Talvez – respondeu. – Claro. Vamos pensar no assunto.

Mas isso era o máximo que se permitia dizer.

Depois de nossa aula de culinária, caminhávamos. Quando estávamos na casa de Garrison, fazíamos o caminho que Malcolm criou: passávamos pelo ponto no bosque onde um dia tive que o deixar apoiado a uma árvore, retorcendo-se de dor, depois pelo primeiro banco, pelo segundo, pelo terceiro. Quando chegávamos ao segundo banco, sempre sentávamos e descansávamos. Ele não precisava descansar, não como antigamente, e caminhávamos tão devagar que eu também não precisava. Mas sempre fazíamos uma parada cerimonial, pois era ali que se tinha a melhor vista da casa, você lembra? Malcolm cortara algumas árvores para que, do banco, você tivesse uma vista direta da casa e, se estivesse no deque dos fundos da casa, teria uma vista direta do banco.

– É uma casa tão linda – falei, como sempre falava e, como sempre, esperei que ele estivesse me ouvindo dizer que sentia orgulho dele: pela casa que construiu e pela vida que construiu dentro dela.

Certa vez, cerca de um mês depois de todos voltarmos da Itália, estávamos sentados naquele banco, e ele me perguntou:

– Você acha que ele era feliz comigo?

Como ele estava tão quieto, achei que tivesse imaginado aquilo, mas então ele olhou para mim e percebi que não.

– Claro que era – respondi. – Tenho certeza de que era.

Ele balançou a cabeça.

– Deixei de fazer tantas coisas – falou, finalmente.

Não entendi o que ele quis dizer com isso, mas me mantive firme.

– O que quer que fosse, sei que não tinha importância – falei. – Sei que ele era feliz com você. Ele me contou. – E Jude então olhou para mim. – Eu sei – repeti. – Tenho certeza. – (Você nunca me disse isso, não de maneira explícita, mas sei que vai me perdoar; eu sei que vai. Sei que gostaria que eu dissesse isso a ele.)

Em outra ocasião, ele disse:

– O Dr. Loehmann acha que eu deveria contar algumas coisas para você.

– Que coisas? – perguntei, tomando o cuidado de não olhar para ele.

– Coisas sobre o que eu sou – falou, e então fez uma pausa. – Quem eu sou – corrigiu-se.

– Bem – falei, finalmente. – Eu gostaria de ouvir. Gostaria de saber mais sobre você.

Ele então sorriu.

– Isso soa estranho, não? – perguntou. – “Mais sobre você.” Faz tanto tempo que nos conhecemos.

Sempre tive a impressão, durante aquelas conversas, que, embora talvez não houvesse uma única resposta correta, havia na verdade uma única resposta incorreta que, ao ser dada, o levaria a nunca mais dizer nada, e eu sempre tentava calcular qual seria essa resposta para jamais a dizer.

– É verdade – falei. – Mas sempre quero saber mais, quando se trata de você.

Ele olhou para mim rapidamente, e depois para a casa.

– Bem – disse ele. – Talvez eu tente. Talvez escreva algo.

– Vou adorar – falei. – Quando você estiver pronto.

– Pode ser que eu leve um tempo – esclareceu.

– Tudo bem – respondi. – Leve o tempo que precisar.

Um longo tempo era algo bom, pensei: significava anos, anos em que tentaria descobrir o que queria dizer, e, por mais que fossem anos difíceis e torturantes, pelo menos estaria vivo. Foi isso que pensei: que preferia vê-lo sofrendo e vivo a vê-lo morto.

Mas, no fim, não demorou tanto tempo. Era fevereiro, cerca de um ano após nossa intervenção. Se conseguisse manter o peso até o final de maio, deixaríamos de monitorá-lo, e ele poderia parar de ver o Dr. Loehmann se assim desejasse, embora tanto eu quanto Andy acreditássemos que deveria continuar indo. Mas não seria mais uma decisão nossa. Passamos aquele domingo na cidade e, após uma aula de culinária em Greene Street (uma terrine de alcachofra e aspargo), saímos para nossa caminhada.

Era um dia frio, mas sem vento, e descemos por Greene Street até ela se transformar na Church, e seguimos descendo e descendo, passando por TriBeCa, por Wall Street, e chegando quase à ponta da ilha, onde paramos e observamos o rio, com suas águas cinzentas e agitadas. Depois, demos meia-volta e subimos, passando pelas mesmas ruas: de Trinity a Church, de Church a Greene. Ele estava quieto aquele dia, calmo e silencioso, e comecei a tagarelar sobre um homem de meia-idade que conheci no centro de colocação profissional, um refugiado do Tibete, cerca de um ano mais velho que ele, um médico que queria estudar nas faculdades de medicina americanas.

– É uma coisa admirável – disse ele. – É difícil recomeçar do zero.

– Realmente – falei. – Mas você também recomeçou do zero, Jude. Você também é admirável. – Ele deu uma olhada rápida para mim e depois virou o rosto. – Estou falando sério – disse.

Lembrei-me de um dia, cerca de um ano depois que ele recebeu alta do hospital após sua tentativa de suicídio, quando ele estava conosco em Truro. Também havíamos saído para caminhar.

– Quero que me diga três coisas que você acha que faz melhor que os outros – pedira para ele quando sentamos na areia, e ele fizera um ruído cansado, como se estivesse bufando, enchendo as bochechas de ar e expelindo-o pela boca.

– Agora não, Harold – dissera.

– Vamos lá – insisti. – Três coisas. Três coisas que faz melhor que os outros, e paro de incomodar. – Mas ele pensou e pensou e ainda assim não conseguiu pensar em nada, e, ouvindo seu silêncio, algo dentro de mim começou a entrar em pânico. – Três coisas que você faça bem, então – corrigi. – Três coisas de que gosta em si mesmo. – Àquela altura, eu estava quase implorando. – Qualquer coisa – falei. – Qualquer coisa.

– Sou alto – finalmente disse. – Ou pelo menos alto o bastante.

– Ser alto é bom – falei, embora estivesse esperando por algo diverso, algo mais qualitativo. Mas decidi que aceitaria aquela resposta: levara tanto tempo para conseguir pensar até mesmo naquilo. – Outras duas. – Mas ele não conseguia pensar em mais nada. Pude ver que ele estava ficando frustrado e constrangido, então deixei o assunto para lá.

Agora, enquanto passávamos por TriBeCa, ele mencionou, de maneira bem casual, que fora convidado a se tornar presidente da firma.

– Meu deus – falei –, isso é fantástico, Jude. Meu deus. Parabéns.

Ele acenou com a cabeça, uma só vez.

– Mas não vou aceitar – falou, e fiquei de boca aberta. Depois de tudo o que dera à porra da Rosen Pritchard, todas aquelas horas, todos aqueles anos, não aceitaria? Ele olhou para mim. – Pensei que fosse ficar feliz – falou, e balancei a cabeça.

– Não – disse a ele. – Eu sei quanta... quanta satisfação o trabalho lhe proporciona. Não quero que pense que o desaprovo, que não tenho orgulho de você. – E ele não disse nada. – Por que não vai aceitar? – perguntei. – Você seria ótimo. Nasceu para isso.

Então estremeceu, não sei bem por que, e desviou o olhar.

– Não – discordou ele. – Não acho que seria. Foi uma decisão controversa, de qualquer forma, pelo que entendi. Além do mais – começou, e então parou. Por algum motivo, também paramos de andar, como se falar e caminhar fossem atividades opostas, e ficamos ali no frio por um tempo. – Além do mais – continuou –, pensei em deixar a firma daqui a um ano ou dois. – Ele olhou para mim, como se quisesse estudar a minha reação, e depois olhou para cima, na direção do céu. – Pensei talvez em viajar – falou, mas sua voz estava abafada e desanimada, como se estivesse sendo recrutado para uma vida em algum lugar distante cuja ideia não lhe agradasse muito. – Eu podia ir embora – falou, quase para si próprio. – Tem lugares que eu deveria conhecer.

Eu não sabia o que dizer. Apenas mantinha o olhar nele.

– Posso ir com você – sussurrei, e ele voltou a si e me olhou.

– Sim – concordou, com um tom tão afirmativo que me senti reconfortado. – Sim, você poderia vir comigo. Ou então vocês dois poderiam me encontrar em determinados lugares.

Voltamos a andar.

– Não que eu queira postergar indevidamente seu segundo ato como viajante global – falei –, mas acho que deveria reconsiderar a oferta da Rosen Pritchard. Pode fazer isso por alguns anos e depois pegar um jatinho para as Ilhas Baleares, Moçambique ou para onde quer que queira ir. – Eu sabia que, se ele aceitasse a oferta para ser presidente, não se mataria; era responsável demais para partir deixando assuntos pendentes. – Pode ser? – incitei-o.

Ele então sorriu, aquele seu velho, radiante e lindo sorriso.

– Tudo bem, Harold – falou. – Prometo que vou reconsiderar.

Depois, quando faltavam apenas alguns quarteirões para chegarmos em casa, percebi que estávamos passando por Lispenard Street.

– Ah, deus – falei, tentando me aproveitar de seu bom humor, tentando nos manter animados. – Aqui estamos, no local de todos os meus pesadelos: O Pior Apartamento do Mundo. – Ele riu, e pegamos a direita em Church Street, descendo Lispenard Street por meio quarteirão até pararmos em frente a seu velho edifício. Por um tempo, discursei sem parar sobre o lugar, sobre como era horrível, exagerando e elaborando para causar impacto, para ouvi-lo rir e protestar. – Sempre tive medo de que um incêndio se espalhasse pelo apartamento e vocês dois acabassem mortos – falei. – Tive sonhos em que os paramédicos me telefonavam e diziam que vocês dois haviam sido encontrados roídos até a morte por um bando de ratos.

– Não era tão ruim assim, Harold. – Ele sorriu. – Tenho boas memórias daqui, na verdade.

E então nosso ânimo voltou a mudar, e ambos ficamos ali parados, olhando para o prédio e pensando em você, e nele, e em todos os anos que se passaram entre aquele momento e quando eu o conheci, tão jovem, tão incrivelmente jovem, na época apenas mais um aluno, incrivelmente esperto e intelectualmente ágil, mas nada mais, não a pessoa que eu seria incapaz de imaginar que ele se tornaria para mim.

Então ele disse – também estava tentando me fazer me sentir melhor; estávamos fazendo teatro um para o outro:

– Já lhe contei da vez em que pulamos do terraço para a escada de incêndio do lado de fora do quarto?

– O quê? – perguntei, surpreso de verdade. – Não, você nunca me contou isso. Acho que me lembraria.

Mas, embora eu nunca pudesse ter imaginado a pessoa que ele se tornaria para mim, sabia como ele me deixaria: apesar de todas as minhas esperanças, apelos, insinuações, ameaças e ideias mágicas, eu sabia. E, cinco meses depois – em 12 de junho, um dia sem qualquer data importante associada a ele, um dia comum –, ele se foi. Meu telefone tocou, e, embora não fosse nenhum horário sinistro da noite, embora nada tivesse acontecido antes que pudesse ser visto como um presságio, eu sabia, eu sabia. E do outro lado da linha estava JB, com a respiração estranha, em erupções aceleradas, e, antes mesmo que contasse, eu sabia. Ele estava com cinquenta e três anos, não fazia nem dois meses que completara cinquenta e três. Injetara ar numa artéria, provocando em si mesmo um derrame, e, por mais que Andy me tenha dito que sua morte foi rápida e indolor, depois fiz uma pesquisa na internet e descobri que ele mentira para mim: precisaria fazer ao menos duas perfurações, com uma agulha de um calibre tão grosso quanto o bico de um beija-flor; teria sido agonizante.

Quando finalmente fui ao apartamento dele, estava todo organizado, as coisas do escritório encaixotadas, a geladeira vazia, e tudo – seu testamento, suas cartas – enfileirado na mesa da sala de jantar, como as placas que marcam os lugares nas mesas de um casamento. Richard, JB, Andy, todos os velhos amigos, seus e dele; estavam todos ali, constantemente, todos nos encontrando e nos mantendo próximos, chocados, mas ao mesmo tempo não, surpresos apenas por termos ficado tão surpresos, devastados, derrotados e, acima de tudo, desolados. Teríamos deixado passar alguma coisa? Poderíamos ter feito algo diferente? Depois do funeral – que estava lotado, com os amigos dele, os seus, e os pais e familiares de todos, os colegas da faculdade de Direito, os clientes, os funcionários e advogados da ONG dos artistas, o conselho da cozinha solidária, uma enorme parcela dos funcionários da Rosen Pritchard, tanto do passado quanto os atuais, incluindo Meredith, que apareceu com um Lucien quase completamente desorientado (que cruelmente continua vivo até hoje, embora numa casa de repouso em Connecticut), nossos amigos e pessoas que eu não teria esperado: Kit, Emil, Philippa e Robin –, Andy se aproximou de mim, chorando, e confessou que achava que as coisas começaram mesmo a sair do rumo para ele quando anunciara que deixaria a clínica, e que aquilo era sua culpa. Eu nem sabia que Andy se aposentaria – ele nunca mencionou aquilo para mim –, mas eu o consolei e disse que não era sua culpa, de maneira alguma, pois sempre fora bom para Jude, e eu sempre tive confiança nele.

– Pelo menos Willem não está aqui – dizíamos um para o outro. – Pelo menos Willem não está aqui para ver isso.

Embora, é claro: se você estivesse aqui, ele também não estaria?

Mas, se não posso dizer que não sabia como ele morreria, posso dizer que havia muita coisa que eu não sabia, não imaginava, não poderia saber. Não sabia que Andy morreria três anos depois, de um ataque cardíaco, ou Richard, dois anos depois disso, de câncer no cérebro. Vocês todos morreram tão jovens: você, Malcolm, ele. Elijah, de um derrame, aos sessenta; Citizen, também aos sessenta, de pneumonia. No final, restou, e ainda resta, apenas JB, para quem ele deixou a casa em Garrison e a quem vemos com frequência – lá, ou na cidade, ou em Cambridge. JB tem um namorado sério agora, um homem muito bom chamado Tomasz, um especialista em arte medieval japonesa da Sotheby’s, de quem gostamos bastante; sei que você e ele também gostariam. E, embora fique triste por mim mesmo, por nós – é claro –, fico ainda mais triste, muitas vezes, por JB, privado de todos vocês, vivendo o início da velhice sozinho, com novos amigos, certamente, mas sem a maioria dos amigos que o conheceram quando ainda era uma criança. Pelo menos eu o conheço desde seus vinte e dois anos; nos vimos em alguns anos e em outros, não, talvez, mas nenhum de nós conta os anos em que não nos vimos.

E agora JB tem sessenta e um anos, e eu, oitenta e quatro, e ele está morto há seis anos, e você, há nove. A última exposição de JB se chamava “Jude, sozinho”, e era formada por quinze quadros, todos dele retratando momentos imaginários dos anos depois da sua morte, daqueles quase três anos em que ele conseguiu se segurar sem você. Eu tentei, mas não consigo olhar para eles: tento, tento e não consigo.

E havia mais coisas que eu não sabia. Ele estava certo: só mudamos para Nova York por causa dele, e, depois de cuidarmos de seu espólio – Richard foi o testamenteiro, embora eu o tenha ajudado –, voltamos para casa em Cambridge, para ficarmos próximos das pessoas que nos conheciam há muito tempo. Estava cansado de limpar e organizar – ao lado de Richard, JB e Andy, examinamos todos os documentos pessoais dele (não havia muitos), as roupas dele (o que por si só foi de partir o coração, vendo os ternos se tornarem cada vez mais estreitos) e as suas; esquadrinhamos juntos os seus arquivos na Casa-Lanterna, o que levou vários dias, pois parávamos o tempo todo para chorar, exclamar algo ou passar de mão em mão alguma fotografia que nenhum de nós vira antes –, mas, quando voltamos para casa, para Cambridge, o próprio movimento de organização se tornou instintivo, e sentei num sábado para esvaziar as estantes, um projeto ambicioso, no qual logo perdi o interesse, quando encontrei, enfiado entre dois livros, dois envelopes, com nossos nomes escritos com a letra dele. Abri meu envelope, com o coração martelando, e vi meu nome – Caro Harold – e li o bilhete de décadas atrás, do dia de sua adoção, e chorei, chegando a soluçar, na verdade, e depois coloquei o disco no computador e ouvi a voz dele, e ainda que eu tivesse chorado de qualquer forma por sua beleza, chorei ainda mais porque vinha dele. E então Julia chegou em casa e me encontrou e leu o bilhete dela, e nós dois choramos mais uma vez.

Foi só algumas semanas depois disso que consegui abrir a carta que ele nos deixou em sua mesa. Não consegui suportar o peso dela antes; não tinha certeza de que conseguiria agora. Mas a abri. Tinha oito páginas, digitadas, e era uma confissão: sobre o Irmão Luke, sobre o Dr. Traylor e sobre o que acontecera a ele. Levamos vários dias para ler, pois, embora fosse curta, também era infinita, e tínhamos de colocar as páginas de lado e nos afastar, para então darmos apoio um ao outro – Vamos? – e sentarmos para ler um pouco mais.

“Sinto muito”, escreveu ele. “Por favor, me perdoem. Nunca foi minha intenção enganá-los.”

Ainda não sei o que dizer sobre aquela carta, ainda não consigo pensar nela. Todas aquelas respostas que sempre quis sobre quem e por que ele era, e agora aquelas respostas só atormentam. Que ele tenha morrido tão só é mais do que posso conceber; que tenha morrido achando que nos devia uma desculpa é pior; que tenha morrido ainda acreditando tão obstinadamente em tudo o que disseram sobre ele – depois de você, depois de mim, depois de todos nós que o amamos – me faz pensar que, no fim, minha vida foi um fracasso, que fracassei na única coisa que era importante. É nessa hora que mais converso com você, que desço as escadas à noite e paro diante de Willem ouvindo Jude contar uma história, que agora fica pendurado sobre a mesa da nossa sala de jantar.

– Willem – eu lhe pergunto –, você também se sente como eu? Acha que ele era feliz comigo?

Pois ele merecia a felicidade. Não temos qualquer garantia dela, nenhum de nós tem, mas ele a merecia. Mas você apenas sorri, não para mim, mas para além de mim, e nunca tem uma resposta. É também nessa hora que eu queria acreditar em alguma espécie de vida após a vida, que em outro universo, talvez num planetinha vermelho onde não temos pernas, mas caudas, onde nadamos pela atmosfera feito focas, onde o próprio ar nos dá sustentação, composto por trilhões de moléculas de proteína e açúcar, onde tudo o que precisamos fazer é abrir a boca e inalar para continuarmos vivos e saudáveis, talvez vocês dois estejam juntos, flutuando pelo ambiente. Ou talvez ele esteja ainda mais perto: talvez seja aquele gato cinza que começou a sentar diante da casa do nosso vizinho, ronronando quando estico a mão para ele; talvez seja aquele novo filhotinho de cão que vejo puxar a coleira do meu outro vizinho; talvez seja aquela criança que vi correr pela praça alguns meses atrás, gritando de alegria, enquanto os pais soltavam fogo pelas ventas atrás dela; talvez seja aquela flor que brotou subitamente no arbusto de rododendros que eu pensava ter morrido muito tempo atrás; talvez seja aquela nuvem, aquela onda, aquela chuva, aquela bruma. Não é só por ele ter morrido, ou como morreu; é pelo que morreu acreditando. Por isso tento ser amável com tudo o que vejo, e em tudo que vejo, eu vejo ele.

Mas, naquele dia, de volta a Lispenard Street, eu não sabia muito disso. Naquele dia, estávamos apenas parados, olhando para aquele prédio de tijolos vermelhos, e eu fingia que nunca precisei me preocupar com ele, e ele me permitia esse fingimento: que todas as coisas perigosas que poderia ter feito, todos os modos em que podia partir meu coração, estavam no passado, um material digno de histórias, que o tempo que ficara para trás era assustador, mas o tempo à nossa frente não o era.

– Você pulou do terraço? – repeti. – Por que diabos faria uma coisa dessas?

– É uma boa história – disse ele. Até sorriu para mim. – Vou lhe contar.

– Por favor – falei.

E então ele contou.

Você terminou Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara

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