Uma Vida Pequena
Capítulo 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
TRÊS SEMANAS ANTES DE partir para passar o Dia de Ação de Graças em Boston, um pacote – uma caixa de madeira grande, plana e difícil de ser manejada, com seu nome e endereço escritos em todos os lados com pilot preta – foi entregue em seu trabalho, e deixado em cima da mesa o dia inteiro, até que tivesse a oportunidade de abri-lo tarde da noite.
Pelo endereço do remetente já sabia do que se tratava, mas ainda sentiu aquela curiosidade instintiva que temos ao abrir qualquer coisa, até mesmo algo indesejado. Dentro da caixa havia camadas de papel pardo, seguidas por camadas de plástico-bolha, e então, envolto em folhas de papel branco, o quadro em si.
Ele o virou. “Para Jude, com amor e desculpas, JB”, escrevera JB na tela, logo acima de sua assinatura: “Jean-Baptiste Marion.” Havia um envelope da galeria de JB preso com fita atrás da moldura, dentro do qual se encontrava uma carta certificando a autenticidade e a data da obra, endereçada a ele e assinada pela arquivista da galeria.
Ligou para Willem, sabendo que ele já teria saído do teatro e provavelmente estava a caminho de casa.
– Adivinha o que recebi hoje.
Willem fez uma pausa quase imperceptível antes de responder:
– O quadro.
– Exato – falou, soltando um suspiro. – Suponho então que você esteja por trás disso.
Willem tossiu.
– Apenas disse a ele que não tinha outra escolha. Não se quisesse voltar a falar com você um dia. – Willem ficou em silêncio, e Jude ouviu o vento soprar. – Precisa de ajuda para levar para casa?
– Obrigado – respondeu. – Mas vou deixá-lo aqui por enquanto e depois volto para buscar.
Reembalou o quadro e o colocou de volta na caixa, empurrando-a para debaixo de seu computador. Antes de desligá-lo, começou a escrever uma mensagem para JB, mas decidiu parar, apagar o que estava escrito e ir embora para casa.
Ficara surpreso, e ao mesmo tempo não, por JB ter de fato lhe enviado o quadro (e nem um pouco surpreso ao descobrir que fora Willem quem o convencera a fazê-lo). Dezoito meses atrás, quando Willem começara a fazer suas primeiras apresentações de O teorema Malamud, JB recebera uma oferta de representação por parte de uma galeria no Lower East Side, e na primavera anterior protagonizara sua primeira mostra solo, “Os meninos”, uma série de vinte e quatro quadros baseados nas fotografias que fizera dos três. Conforme prometera anos antes, JB mostrara a Jude as fotografias que pretendia pintar, e embora tivesse aprovado muitas delas (relutantemente: sentira-se mal só em fazê-lo, mas sabia o quanto a série era importante para JB), no fim JB ficara mais interessado em trabalhar com aquelas que ele não aprovara do que com as que foram aprovadas, sendo que algumas delas – incluindo uma imagem na qual estava encolhido na cama, com os olhos abertos, mas assustadoramente vazios, e a mão esquerda esticada além do natural, numa espécie de garra fantasmagórica – ele nem mesmo recordava de ter visto JB tirar a foto, o que era alarmante. Aquela fora a primeira briga: JB o bajulara, depois ficara de mau humor, depois ameaçara, depois gritara, e então, como não conseguira fazê-lo mudar de ideia, tentara convencer Willem a interceder em seu favor.
– Você sabe que na verdade não lhe devo nada – dissera-lhe JB depois de perceber que as negociações com Willem não estavam levando a lugar nenhum. – Digo, tecnicamente não preciso pedir a sua permissão para isso. Tecnicamente posso pintar qualquer merda que quiser. Isso é um favor que estou concedendo a você, entende?
Poderia ter soterrado JB com argumentos, mas estava furioso demais para isso.
– Você prometeu, JB – falara. – Só isso já deveria bastar.
Poderia ter acrescentado “E me deve isso como amigo”, mas percebera alguns anos antes que a definição de JB para amizade e as responsabilidades que isso envolvia era diferente da sua, e não havia modo de argumentar com ele: você aceitava isso ou não, e ele decidira aceitar, ainda que nos últimos tempos o trabalho exigido para aceitar JB e suas limitações tivesse começado a se tornar mais irritante, cansativo e árduo do que parecia necessário.
No fim, JB tivera de reconhecer a derrota, embora nos meses antes da abertura da exposição tenha feito referências ocasionais ao que chamava de seus “quadros perdidos”, grandes obras que poderia ter pintado caso ele, Jude, fosse menos severo, menos tímido, menos encabulado, e (aquele era o argumento preferido de JB) menos filisteu. Posteriormente, no entanto, se sentiria envergonhado por sua própria ingenuidade, por acreditar que sua vontade seria respeitada.
A inauguração fora numa quinta-feira no final de abril, pouco após seu trigésimo aniversário. Era uma noite tão fria para a estação que as primeiras folhas dos plátanos haviam congelado e rachado, e ao dobrar a esquina na Norfolk Street, ele parara para admirar o cenário formado pela galeria, uma caixa dourada de luz e calor difuso em contraste com a gélida escuridão da noite. Lá dentro, logo encontrara Henry Young Negro e um amigo dos dois da faculdade de direito, e depois muitas outras pessoas que conhecia – da universidade, das inúmeras festas que deram em Lispenard Street, as tias de JB, os pais de Malcolm, e amigos de longa data de JB a quem não via há anos – que demorara certo tempo até conseguir abrir caminho em meio à multidão para examinar os quadros em si.
Sempre soube que JB tinha talento. Todos eles sabiam, todo mundo sabia: não importava o quanto alguém pudesse ocasionalmente se ressentir de JB como pessoa, havia algo em seu trabalho que fazia com que você achasse que estava errado, que quaisquer deficiências de caráter que associara a ele eram, na verdade, evidências de sua própria pequenez e mau humor, e que, escondido dentro de JB, vivia alguém de enorme compaixão, profundidade e compreensão. Naquela noite, não teve a menor dificuldade em reconhecer a intensidade e a beleza dos quadros, sentindo apenas um orgulho e uma gratidão descomplicados por JB: pela realização do trabalho, é claro, mas também por sua habilidade em produzir cores e imagens que faziam todas as outras parecerem desbotadas e flácidas em comparação, por sua habilidade em fazê-lo enxergar o mundo de uma nova maneira. Os quadros foram dispostos numa fileira única que se desenrolava pelas paredes, como um verso de poema, e os tons que JB criara – azuis densos e esfolados e amarelos-uísque – eram tão distintamente únicos que parecia que JB inventara uma linguagem cromática completamente nova.
Ele parou para admirar Willem e a garota, um dos quadros que já vira, e na verdade já comprara, no qual JB pintara Willem de costas para a câmera, exceto pelos olhos, que pareciam voltados diretamente para quem o via, mas que na verdade estavam virados para, presumia-se, uma garota colocada bem na linha de visão de Willem. Ele adorava a expressão no rosto de Willem, que conhecia muito bem, quando estava prestes a sorrir e sua boca ainda se encontrava, de alguma forma, relaxada e indecisa, ao mesmo tempo em que os músculos em volta dos olhos já se moviam para o alto. Os quadros não estavam em ordem cronológica, então depois desse vinha um dele mesmo, de apenas alguns meses antes (passava correndo pelos seus), e em seguida uma imagem de Malcolm com a irmã, no que dava para ver pela mobília se tratar do apartamento que Flora ocupara havia muito tempo no West Village (Malcolm e Flora, Bethune Street).
Olhou ao redor em busca de JB e o viu falando com o diretor da galeria. Naquele exato momento, JB esticou o pescoço e o viu, acenando para ele. “Genial”, gesticulou com a boca para JB em meio a toda aquela gente, e JB sorriu para ele e retribuiu: “Obrigado.”
Foi então que partira para a terceira e última parede e os vira: dois quadros, ambos o retratando, que JB jamais lhe mostrara antes. No primeiro, estava bastante jovem e segurava um cigarro, e no segundo, que estimava ser de uns dois anos antes, estava sentado na beirada da cama, curvado, inclinando a testa contra a parede, com as pernas e os braços cruzados e os olhos fechados – aquela era a posição que assumia sempre que estava saindo de um episódio de dor e recuperando as energias antes de tentar se colocar de pé novamente. Não se lembrava de JB ter registrado aquele momento, e de fato, pela perspectiva – a câmera espreitando junto ao batente da porta –, sabia que não era mesmo para lembrar, pois não devia nem saber da existência da fotografia em primeiro lugar. Por um momento, o barulho do ambiente ao seu redor foi abafado e tudo o que conseguia fazer era olhar para os quadros: mesmo angustiado, teve a presença de espírito de entender que estava reagindo menos às imagens em si e mais às memórias e sensações que elas provocavam, e que a violação que sentia por outras pessoas verem aqueles registros de dois momentos infelizes de sua vida era uma reação pessoal, específica dele e de mais ninguém. Para os outros, eram apenas duas pinturas sem contexto e sem nenhum sentido, a não ser que ele decidisse alardeá-lo. Mas, ah, como era difícil vê-las, e desejou súbita e intensamente estar sozinho.
Conseguiu suportar o jantar pós-inauguração, que não acabava nunca, no qual sentiu imensamente a falta de Willem – mas Willem tinha uma apresentação naquela noite e não conseguira comparecer. Pelo menos não tivera de trocar uma só palavra com JB, que estava ocupado atendendo aos convidados, e quando as pessoas o abordavam – incluindo o galerista de JB – para dizer que os dois últimos quadros, os que ele aparecia, eram os melhores da exposição (como se ele tivesse alguma responsabilidade por isso), Jude se esforçava para sorrir e concordava com eles que JB tinha um talento extraordinário.
Mais tarde, em casa, depois de retomar o controle de si mesmo, pôde finalmente expressar seu sentimento de traição a Willem. E Willem fora tão enfático em tomar suas dores, em ficar furioso com o que lhe acontecera, que aquilo o acalmou momentaneamente – e o fez perceber que a dissimulação de JB também fora uma surpresa para Willem.
Aquilo provocara a segunda briga, que começara com um confronto num café próximo ao apartamento de JB, no qual este se mostrara irritantemente incapaz de se desculpar: em vez disso, falara sem parar sobre como os quadros eram fantásticos e sobre como um dia, quando ele superasse os problemas que tinha consigo mesmo, passaria a apreciá-los, e que nem era assim uma coisa tão importante, e que ele precisava de verdade confrontar suas inseguranças, que a propósito eram infundadas, e talvez aquilo pudesse ajudar no processo, e que todos menos ele sabiam o quanto era bonitão, e que aquilo então deveria lhe dizer algo, que talvez – ou melhor, certamente – era ele quem estava errado sobre si mesmo, e, por fim, que os quadros já haviam sido pintados, estavam terminados, então o que esperava que acontecesse? Ficaria feliz se fossem destruídos? Deveria arrancá-los da parede e tacar fogo? Já tinham sido vistos e não podiam mais ser “desvistos”, então por que ele não podia simplesmente aceitar e deixar aquilo para trás?
– Não estou pedindo para destruí-los, JB – argumentara, tão furioso e confuso pela lógica bizarra de JB e sua intratabilidade quase ofensiva que tinha vontade de gritar. – Estou pedindo que se desculpe.
Mas JB não conseguia fazer isso, ou não queria, e ele então se levantara e fora embora, sem que JB tentasse impedi-lo.
Depois disso, simplesmente parou de falar com JB. Willem tentara conversar com ele, mas os dois (de acordo com Willem) começaram a praticamente gritar na rua um com o outro, e então Willem também parou de falar com JB, e a partir daquele momento os dois basicamente tiveram de recorrer a Malcolm para saber notícias do amigo. Malcolm, que normalmente ficava em cima do muro, admitira a eles que achava que JB agira de maneira totalmente errada, ao mesmo tempo sugerindo que os dois não estavam sendo realistas:
– Você sabe que ele não vai pedir desculpas, Judy – argumentou. – É de JB que estamos falando. Está só perdendo seu tempo.
– Acha que eu estou sendo cabeça-dura? – perguntou a Willem depois dessa conversa.
– Não – respondeu Willem de imediato. – Ele fez merda, Jude. Fez merda e precisa se desculpar.
Todas as peças da exposição foram vendidas. Willem e a garota foi entregue em seu trabalho, assim como Willem e Jude, Lispenard Street, II, que Willem comprara. Jude, após doença (quando descobriu o título, sentiu a ira e a humilhação se renovarem a tal ponto que, por um momento, entendeu o que queria dizer a expressão “cego de raiva”) foi vendido a um colecionador cujas aquisições eram consideradas bênçãos e profetizavam futuros sucessos: só comprava peças das exposições de estreia de novos artistas e quase todos que tiveram suas obras compradas por ele alcançaram enorme sucesso na carreira. Apenas o quadro principal da mostra, Jude com cigarro, continuava sem destino, graças a um erro incrivelmente amador, em que o diretor da galeria o vendera a um importante colecionador britânico e o dono da galeria o vendera ao Museu de Arte Moderna.
– Perfeito, então – disse Willem a Malcolm, sabendo que este transmitiria suas palavras a JB. – JB deveria dizer à galeria que quer ficar com o quadro e simplesmente entregá-lo a Jude.
– Ele não pode fazer uma coisa dessas – disse Malcolm, perplexo como se Willem tivesse sugerido jogar a tela no lixo. – É o MoMA.
– E daí? – perguntou Willem. – Se ele é assim tão bom, terá outra chance no MoMA. Mas vou lhe dizer uma coisa, Malcolm, essa é a única solução se ele quiser manter a amizade com Jude. – Fez uma pausa. – E comigo também.
Então Malcolm levou o recado e a perspectiva de perder a amizade de Willem fez JB ligar para ele e exigir um encontro, no qual JB se descabelou e acusou Willem de traição, de sempre ficar do lado de Jude e de cagar visivelmente para a sua – a de JB – carreira, quando ele, JB, sempre apoiara a de Willem.
Tudo isso ocorreu num espaço de meses, e a primavera deu lugar ao verão. Ele e Willem viajaram a Truro sem JB (e sem Malcolm, que disse a eles que tinha medo de deixar JB sozinho), JB passou o Memorial Day na casa dos Irvine em Aquinnah, enquanto eles dois passaram lá o Quatro de Julho, e ele e Willem fizeram a tão planejada viagem à Croácia e à Turquia sozinhos.
E então o outono chegou, e, quando Willem e JB tiveram seu segundo encontro, Willem súbita e inesperadamente fora chamado para seu primeiro papel no cinema, interpretando o rei numa adaptação de A garota das mãos de prata, e partiria para as gravações em Sófia em janeiro, ao passo que ele fora promovido no trabalho e fora abordado por um sócio da Cromwell Thurman Grayson & Ross, uma das melhores firmas de direito da cidade, e vinha usando a cadeira de rodas que Andy lhe dera em maio com uma frequência cada vez maior, e Willem terminara com sua namorada de um ano e começara a sair com uma figurinista chamada Philippa, e seu antigo colega Kerrigan, com quem trabalhara como assistente do juiz, enviara um e-mail em massa para todos que conhecia no qual simultaneamente saía do armário e criticava o conservadorismo, e Harold começara a lhe perguntar quem apareceria para o Dia de Ação de Graças aquele ano, e queria saber se ele poderia ficar uma noite a mais depois que os convidados fossem embora, pois ele e Julia precisavam ter uma conversa com ele, e ele assistira a peças com Malcolm e visitara exposições com Willem e lera romances sobre os quais teria conversado com JB, uma vez que os dois eram os leitores de romances do grupo: uma lista completa de coisas que antes os quatro teriam feito juntos e agora eram discutidas em duplas ou trios. De início fora desconcertante, depois de tantos anos em que a amizade funcionara em forma de quarteto, mas acabara se acostumando e, por mais que sentisse a falta de JB – de seu autocentrismo espirituoso, do modo de enxergar tudo que o mundo tinha a oferecer sempre em termos de como aquilo o afetaria –, também se via incapaz de perdoá-lo e, ao mesmo tempo, capaz de imaginar sua vida sem ele.
E agora, presumiu, a briga chegara ao fim e o quadro era seu. Willem o acompanhou ao escritório no sábado, e ele desembrulhou a pintura e a apoiou contra a parede. Os dois a estudaram em silêncio, como se fosse um animal raro e inerte no zoológico. Aquele era o quadro que fora reproduzido na crítica do Times e depois num artigo da Artforum, mas só agora, na segurança de seu escritório, ele era capaz de realmente apreciá-lo – se pudesse esquecer que aquele ali era ele, quase conseguia reconhecer a beleza da imagem, e por que JB se sentira atraído por ela: por causa da pessoa estranha ali retratada, que parecia tão assustada e alerta, que não podia ser identificada como homem ou mulher, cujas roupas pareciam emprestadas, e que imitava os gestos e as posturas da vida adulta, claramente sem entendê-los. Não sentia mais nada em relação àquela pessoa, mas não sentir nada por ela era um ato consciente, como virar a cara para alguém na rua por mais que a visse constantemente, e fingir que não a via dia após dia, até que um dia não via mesmo – ou pelo menos acreditaria nisso.
– Não sei o que vou fazer com ele – admitiu a Willem, pesaroso, pois não queria o quadro e ao mesmo tempo se sentia culpado por Willem ter cortado JB de sua vida por causa dele, e por algo que Jude sabia que nunca mais voltaria a ver.
– Bem – disse Willem, e os dois ficaram em silêncio. – Poderia dá-lo de presente a Harold. Tenho certeza de que ele adoraria.
Naquele instante, percebeu que talvez Willem sempre soubera que ele não queria o quadro, e que aquilo não importava para ele, e que ele não se arrependia de ter escolhido ficar do seu lado e não do lado de JB, e que não o culpava por ter de tomar aquela decisão.
– Poderia – disse lentamente, embora soubesse que não o faria: Harold certamente o adoraria (ficara encantado quando o vira na mostra) e o penduraria em algum lugar de destaque, e sempre que fosse visitá-lo, teria de olhar para o quadro. – Desculpe, Willem – falou, quebrando o silêncio. – Desculpe por tê-lo arrastado até aqui. Acho que vou deixá-lo por aqui mesmo até resolver o que fazer.
– Tudo bem – respondeu Willem, e os dois o embalaram de volta e o colocaram debaixo da mesa de Jude.
Depois que Willem foi embora, ele ligou o telefone e desta vez escreveu mesmo uma mensagem para JB. “JB”, começou, “Muito obrigado pelo quadro e pelo pedido de desculpa, os dois são muito importantes para mim”. Parou um instante, pensando no que escrever a seguir. “Senti sua falta, quero saber o está acontecendo na sua vida”, continuou. “Me ligue quando tiver tempo para bater um papo”. Era tudo verdade.
E então lhe veio uma ideia do que fazer com o quadro. Procurou o endereço da arquivista de JB e escreveu uma mensagem, agradecendo-lhe por enviar Jude com cigarro e alegando que gostaria de doá-lo ao MoMA, perguntando se ela poderia ajudar a facilitar a transação.
Posteriormente, veria aquele episódio como uma espécie de pilar, a dobradiça entre uma relação que era de um jeito e ficou de outro: sua amizade com JB, é claro, mas também sua amizade com Willem. Houvera períodos, quando estava na casa dos vinte anos, em que olhava para os amigos e sentia um contentamento tão puro e profundo que tinha vontade que o mundo ao redor deles parasse de girar, que nenhum deles precisasse jamais sair daquele momento, quando tudo estava em equilíbrio e seu afeto por eles era perfeito. Mas obviamente aquilo seria impossível: no instante seguinte tudo mudava e o momento desaparecia lentamente.
Seria muito melodramático, muito decisivo, dizer que depois daquilo JB sempre teria uma importância menor para ele. Mas era verdade que, pela primeira vez, conseguiu compreender que as pessoas em quem aprendera a confiar também podiam traí-lo um dia, e que, por mais decepcionante que isso fosse, também era inevitável, e que a vida continuaria a impulsioná-lo para a frente, pois, para cada pessoa capaz de magoá-lo da alguma forma, havia pelo menos uma que nunca o faria.
–
Segundo ele (e essa era uma opinião compartilhada por Julia), Harold tinha uma tendência a fazer o Dia de Ação de Graças uma data mais complicada do que precisava ser. Todo ano, desde que começara a ser convidado para passar o feriado na casa de Harold e Julia, Harold prometia – normalmente no início de novembro, quando ainda estava cheio de entusiasmo pelo projeto – que naquele ano o deixaria de boquiaberto ao reinventar uma das tradições culinárias americanas mais sem graça. Harold sempre começava com algo ambicioso: no primeiro Dia de Ação de Graças que passaram juntos, nove anos atrás, quando ele ainda estava na faculdade de direito, anunciou que faria pato ao molho de laranja, mas substituindo as laranjas por cunquates.
Mas, quando chegou à casa de Harold com o bolo de nozes que fizera na noite anterior, encontrou Julia sozinha na porta de entrada para recebê-lo.
– Não mencione o pato – sussurrou ao dar-lhe um beijo na bochecha.
Na cozinha, Harold, parecendo agitado, tirava um enorme peru do forno.
– Não diga nada – alertou Harold.
– O que poderia dizer? – perguntou.
Este ano, Harold quis saber se ele gostava de truta.
– Truta recheada com outras coisas – acrescentou.
– Gosto, sim – respondeu, cauteloso. – Mas, para dizer a verdade, Harold, eu também gosto de peru.
Todo ano tinham uma variação daquela mesma conversa, na qual Harold sugeria uma série de animais e proteínas – galinha chinesa de pata preta, filé mignon, tofu com cogumelo orelha-de-judas, salada de peixe branco defumado com pão de centeio caseiro – como alternativas ao peru.
– Ninguém gosta de peru, Jude – disse Harold, sem paciência. – Sei bem o que está fazendo. Não me insulte fingindo que gosta só porque acha que não sou capaz de preparar outra coisa. Vamos comer truta e ponto final. A propósito, pode fazer aquele bolo que trouxe no ano passado? Acho que cairia bem com o vinho que comprei. Mande uma lista do que preciso comprar.
O mais intrigante para ele era que, de maneira geral, Harold não tinha assim tanto interesse pela gastronomia (ou por vinhos). Na verdade, tinha um terrível mau gosto e sempre o levava a restaurantes caríssimos, mas ainda assim medíocres, nos quais devorava alegremente pratos insossos de carne queimada e acompanhamentos nada originais de macarrão grudento. Ele e Julia (que também tinha pouco interesse por comida) debatiam a estranha fixação de Harold todo ano: Harold tinha inúmera obsessões, algumas delas inexplicáveis, mas esta parecia ainda mais, principalmente por sua persistência.
Willem achava que a missão de Harold no feriado de Ação de Graças começara em parte como uma brincadeira, mas, ao longo dos anos, se transformara em algo mais sério, e agora era incapaz de dar um basta, mesmo sabendo que nunca seria bem-sucedido.
– Mas quer saber de uma coisa? – falou Willem. – Ele faz isso por você.
– O que quer dizer? – perguntou.
– É uma encenação para você – respondeu Willem. – É a maneira que encontrou para dizer que se importa com você a ponto de tentar impressioná-lo, sem precisar falar diretamente que se importa.
Ele descartou aquela hipótese na mesma hora:
– Não acho que seja isso, Willem.
Mas às vezes fingia para si mesmo que Willem tinha razão, sentindo-se bobo e um pouco patético pela alegria que a ideia lhe dava.
Willem foi o único convidado para o Dia de Ação de Graças daquele ano: quando Jude e JB fizeram as pazes, JB já planejara passar o feriado na casa das tias com Malcolm; ao tentar cancelar, elas aparentemente ficaram tão chateadas que ele achou melhor não contrariá-las.
– O que está no cardápio este ano? – perguntou Willem. Pegariam o trem na quarta-feira, na noite anterior ao Dia de Ação de Graças. – Alce? Carne de veado? Tartaruga?
– Truta – falou.
– Truta! – respondeu Willem. – Bem, truta é fácil. Talvez a gente acabe de fato comendo truta este ano.
– Pode ser, mas ele disse que ia recheá-las com alguma coisa.
– Ah. Retiro o que disse.
Havia oito pessoas na mesa para o jantar: Harold e Julia, Laurence e Gillian, o amigo de Julia, James, com o namorado, Carey, e ele e Willem.
– Esta truta está deliciosa, Harold – disse Willem, cortando seu segundo pedaço de peru. Todos caíram no riso.
Qual teria sido o momento, refletiu, em que deixara de se sentir nervoso e deslocado nos jantares de Harold? Seus amigos certamente o tinham ajudado. Harold gostava de incitá-los, de tentar provocar JB até que este fizesse comentários ultrajantes e quase racistas, de importunar Willem perguntando quando arrumaria uma namorada, de conversar sobre tendências estruturais e estéticas com Malcolm. Jude sabia que Harold gostava de interagir com eles, e que eles também gostavam, o que lhe dava a chance de simplesmente ouvi-los sendo quem eram, sem que se sentisse obrigado a participar; eram um grupo de papagaios ostentando suas plumas coloridas um para o outro, apresentando-se a seus colegas sem medo ou malícia.
O assunto do jantar girou em torno da filha de James, que se casaria no verão.
– Estou velho – resmungou James, e Laurence e Gillian, cujas filhas ainda frequentavam a universidade e passavam o feriado na casa de uma amiga em Carmel, sinalizaram sua compaixão com ruídos.
– Isso me faz lembrar – disse Harold, olhando para ele e Willem –, quando vocês dois vão arrumar alguém para casar?
– Acho que ele está falando de você. – Jude sorriu para Willem.
– Harold, estou com trinta e dois anos! – protestou Willem.
Todos caíram no riso novamente, enquanto Harold rebatia:
– O que é isso, Willem? Uma explicação? Uma defesa? Não é como se você tivesse dezesseis anos!
Mas, por mais que tenha gostado da noite, uma parte sua permanecia agitada e ansiosa, preocupada com a conversa que Harold e Julia queriam ter com ele no dia seguinte. Jude acabara tocando no assunto com Willem durante a viagem de trem e, nos momentos em que os dois trabalhavam juntos (recheando o peru, branqueando as batatas, colocando a mesa), tentavam descobrir o que Harold tinha a lhe dizer. Depois do jantar, vestiram os casacos e sentaram-se no quintal dos fundos, refletindo novamente sobre a questão.
Pelo menos Jude sabia que não havia nada de errado com eles – aquela fora a primeira pergunta que fizera, e Harold lhe assegurara que tanto ele quanto Julia estavam bem. Mas o que poderia ser então?
– Talvez ele ache que estou tomando muito do seu tempo – sugeriu a Willem. Talvez Harold simplesmente estivesse cheio dele.
– Impossível – disse Willem, de maneira tão imediata e resoluta que Jude se sentiu aliviado. Os dois ficaram em silêncio. – Talvez um deles tenha recebido uma oferta de emprego em outro lugar e estejam de mudança.
– Também pensei nisso. Mas não acho que Harold deixaria Boston. Nem Julia.
No fim, não havia muitas opções, pelo menos não tantas para que houvesse necessidade de uma conversa: talvez fossem vender a casa em Truro (mas por que precisariam conversar com ele sobre isso, por mais que adorasse a casa?). Talvez Harold e Julia estivessem se separando (mas estavam agindo como sempre agiam um com o outro). Talvez fossem vender o apartamento de Nova York e quisessem saber se ele queria comprá-lo (o que era improvável: estava certo de que nunca venderiam aquele apartamento). Talvez fossem reformar o apartamento e precisassem dele para supervisionar a reforma.
As especulações foram se tornando mais específicas e improváveis: talvez Julia estivesse saindo do armário (ou então Harold). Talvez Harold estivesse se convertendo (ou então Julia). Talvez fossem largar seus empregos e mudar para um ashram no interior de Nova York. Talvez tivessem se tornado ascetas e fossem morar em algum vale remoto da Cachemira. Talvez fossem fazer cirurgias plásticas conjuntas. Talvez Harold estivesse virando republicano. Talvez Julia tivesse encontrado Deus. Talvez tivessem nomeado Harold como Procurador-Geral. Talvez Julia tivesse sido identificada pelo governo tibetano em exílio como a próxima reencarnação do Panchen Lama e estivesse mudando para Dharamsala. Talvez Harold fosse concorrer à presidência como candidato socialista. Talvez fossem abrir um restaurante na praça que só servisse peru recheado com outras carnes. Àquela altura os dois estavam às gargalhadas, tanto pela ignorância inquietante e esperançosa de não saber o que esperava por Jude, quanto pelo absurdo de suas ideias, de tal maneira que se curvavam em suas cadeiras, levando a gola do casaco à boca para abafar o riso, enquanto suas lágrimas geladas beliscavam as bochechas.
No entanto, já na cama, ele voltou ao pensamento que rastejara feito uma trepadeira de algum lugar obscuro de sua mente e se insinuara em sua consciência feito um ramo verde e fino: talvez um dos dois tivesse descoberto algo sobre a pessoa que ele fora no passado. Talvez fosse confrontado com evidências – um registro médico, uma fotografia, ou (e isto seria um pesadelo) uma foto tirada de um filme. Já decidira que não negaria nada, não argumentaria, não tentaria se defender. Reconheceria sua veracidade, pediria desculpa, explicaria que nunca teve intenção de enganá-los, sugeriria nunca mais procurá-los e iria embora. Pediria apenas que mantivessem seu segredo, que não o contassem a ninguém mais. Ensaiou as palavras: Lamento muito, Harold. Lamento muito, Julia. Nunca foi minha intenção causar qualquer desconforto. Mas obviamente aquela era uma desculpa inútil. Talvez não fizera por querer, mas não havia a menor diferença: tinha feito, e ponto.
Willem partiu na manhã seguinte; tinha uma apresentação à noite.
– Me ligue assim que descobrir, tudo bem? – pediu, e ele concordou com a cabeça. – Vai ficar tudo bem, Jude – prometeu. – O que quer que seja, vamos dar um jeito. Não se preocupe, está bem?
– Você sabe que vou me preocupar de qualquer jeito – falou, tentando sorrir de volta para Willem.
– Sim, eu sei – disse Willem. – Mas tente. E me ligue.
Passou o resto do dia ocupado fazendo uma faxina – havia sempre muito a ser limpo na casa, pois Harold e Julia não tinham lá muito entusiasmo para manter as coisas em ordem – e quando sentaram, ainda cedo, para o jantar que preparara com ensopado de peru e salada de beterraba, estava com a cabeça nas nuvens de tanto nervosismo. Conseguiu fingir que comia, movendo o alimento no prato como o ponteiro de uma bússola, esperando que Harold e Julia não percebessem. Depois, começou a empilhar os pratos para levá-los à cozinha, mas Harold o interrompeu.
– Deixe aí, Jude – falou. – Talvez seja uma boa hora para termos nossa conversa.
Sentiu seu corpo palpitar de pânico.
– Acho melhor dar uma lavada neles, ou vai ficar tudo grudado – protestou, numa desculpa barata, ouvindo o quão estúpido soara.
– Foda-se a louça – disse Harold, e embora soubesse que ele realmente não se importava com o que grudava ou não nos pratos, por um momento Jude refletiu se aquela casualidade não seria casual demais, um simulacro de calma e não algo genuíno. Mas, no fim, nada pôde fazer a não ser colocar os pratos de volta na mesa e se arrastar atrás de Harold até a sala de estar, onde Julia servia café para ela e para Harold, e chá para ele.
Jude se acomodou no sofá, Harold, na cadeira à esquerda, e Julia, na poltrona revestida de tecido suzani diante dele: eram os lugares em que sempre sentavam, com a mesa baixa entre eles, e Jude desejou que aquele momento congelasse, pois aquele talvez seria o último que passaria ali, a última vez que sentaria naquela sala escura e aconchegante, com seus livros e o perfume acre e doce de suco de maçã e o tapete turco azul-marinho e escarlate que se dobrara em pregas sob a mesa de centro, e o remendo na almofada do sofá em que o tecido se desgastara e dava para ver o enchimento de musselina branca por baixo – todas as coisas que ele se permitira estimar, pois eram de Harold e Julia, e porque se permitira pensar na casa deles como se fosse sua.
Por alguns instantes todos bebericaram, sem que um olhasse para o outro, e ele tentou fingir que aquela era uma noite normal, por mais que, se isso fosse verdade, nenhum deles estaria em silêncio daquele jeito.
– Bem – começou Harold, finalmente, colocando a xícara na mesa e se preparando. O que quer que ele diga, lembrou a si mesmo, não comece a inventar desculpas. Aceite o que quer que seja e agradeça por tudo.
Fez-se outro longo silêncio.
– É tão difícil dizer isto – continuou Harold, mudando a caneca de mão. Jude se forçou a esperar pelas próximas palavras de Harold. – Eu tinha todo um roteiro pronto, não tinha? – perguntou a Julia, e ela concordou com a cabeça. – Mas estou mais nervoso do que pensei.
– Eu sei – disse ela. – Mas está se saindo muito bem.
– Rá! – respondeu Harold. – Mesmo assim, obrigado por mentir para mim. – E sorriu para ela.
Jude sentiu como se só houvesse os dois na sala e pensou que por um instante tivessem esquecido que ele estava ali. Mas então Harold ficou em silêncio outra vez, tentando dizer o que diria a seguir.
– Jude, eu... nós... o conhecemos já faz quase uma década – finalmente disse Harold, e ele viu seus olhos se voltarem em sua direção e depois desviarem, fixando-se em algum ponto acima da cabeça de Julia. – E ao longo desses anos você se transformou numa pessoa muito querida para nós; para nós dois. Você é nosso amigo, é claro, mas o consideramos mais que um amigo; é mais especial que isso. – E olhou para Julia, e ela sinalizou com a cabeça para ele mais uma vez. – Assim, espero que não ache o que vou dizer muito... presunçoso, creio eu... mas estávamos pensando se, talvez, você não aceitaria que nós, bem, o adotássemos. – Agora, virou-se novamente para Jude e sorriu. – Você seria legalmente nosso filho, nosso herdeiro legal, e algum dia tudo isto – jogou o braço pelo ar num gesto irônico e efusivo – será seu, se você quiser.
Jude ficou em silêncio. Não conseguia falar, não conseguia reagir; não conseguia nem mesmo sentir seu rosto, não conseguia saber que expressão ele fazia, e Julia interveio:
– Jude – disse ela –, se não quiser, por qualquer motivo que seja, nós vamos entender completamente. Não é um pedido simples. Se disser não, isso não vai mudar o que sentimos por você, certo, Harold? Você sempre, sempre será bem-vindo aqui, e esperamos sempre fazer parte da sua vida. É sério, Jude: não ficaremos zangados, por isso não precisa se sentir mal. – Ela olhou para ele. – Quer um tempo para pensar?
Então ele sentiu o torpor esmaecer, mas em compensação suas mãos começaram a tremer, e ele pegou uma das almofadas e a abraçou para escondê-las. Precisou de algumas tentativas até finalmente conseguir falar, mas quando o fez, foi incapaz de olhar para eles.
– Não preciso pensar – afirmou, e sua voz lhe pareceu estranha e fina. – Harold, Julia... estão brincando comigo? Não há nada, nada mesmo, que eu queira mais do que isso. Foi o que mais quis em toda a vida. Só nunca pensei... – Parou. Falava em fragmentos. Por um minuto, todos ficaram em silêncio, até que ele finalmente conseguiu olhar para os dois. – Pensei que iam dizer que não queriam mais ser meus amigos.
– Ah, Jude – disse Julia, e Harold pareceu perplexo.
– Por que pensaria isso? – perguntou ele.
Jude balançou a cabeça, sem saber explicar.
Ficaram em silêncio mais uma vez, e então todos começaram a sorrir – Julia para Harold, Harold para ele, ele para a almofada –, sem saber como encerrar o momento, incertos de como prosseguir. Até que finalmente Julia bateu as mãos e se levantou.
– Champanhe! – falou, deixando a sala.
Ele e Harold também se levantaram e olharam um para o outro.
– Está certo disso? – perguntou-lhe Harold, em voz baixa.
– Tanto quanto você – respondeu, no mesmo tom de voz. Havia no ar um gracejo óbvio e nada original a ser feito, sobre como aquilo se parecia com um pedido de casamento, mas não teve coragem de fazê-lo.
– Está ciente de que ficará ligado a nós pelo resto da vida? – Harold sorriu, colocando a mão em seu ombro, e ele fez que sim com a cabeça.
Esperava que Harold não dissesse mais nem uma só palavra, pois, se o fizesse, ele cairia no choro, ou vomitaria, ou desmaiaria, ou gritaria, ou entraria em combustão. De repente, percebeu o quanto estava cansado, o quanto suas forças estavam exauridas, tanto pela ansiedade das últimas semanas quanto pelo desejo que sentira nos últimos trinta anos, a vontade, a esperança, tão intensos, mesmo que a si mesmo dissesse não importar. Fizeram um brinde juntos e Julia lhe deu um abraço, seguido por Harold – a sensação de ter os braços de Harold em torno de si era tão estranha e íntima que quase estremeceu –, e sentiu-se aliviado quando Harold lhe disse para deixar a porcaria da louça onde estava e ir dormir.
Quando chegou ao quarto, teve de deitar por meia hora antes de começar a pensar em pegar o telefone. Precisava sentir a solidez da cama sob seu corpo, a maciez da coberta de algodão contra sua bochecha, a consistência familiar do colchão ao se mover. Precisava se assegurar de que aquele era seu mundo, e que ainda vivia nele, e que o que acabara de acontecer de fato acontecera. Lembrou-se repentinamente de uma conversa que tivera com o Irmão Peter, na qual perguntara ao irmão se achava que um dia alguém o adotaria, e o irmão caíra no riso.
– Não – respondera, com tanta firmeza que ele nunca mais voltara a perguntar.
E por mais que devesse ser muito novo, lembrava com bastante clareza que a resposta do irmão apenas reforçara sua obstinação, embora, obviamente, o desenlace estivesse completamente fora de seu controle.
Ficou tão desorientado que esqueceu que Willem já estava no palco quando telefonou, mas, quando o amigo retornou a ligação durante o intervalo, ele ainda estava na mesma posição na cama, no mesmo estado vegetativo, com o telefone aninhado sob sua palma.
– Jude. – Willem tomou fôlego quando ele contou o que acontecera, e percebeu o quanto o amigo estava feliz por ele. Somente Willem (e Andy, e, até certo ponto, Harold) sabiam alguma coisa sobre como ele crescera: o mosteiro, o orfanato, o tempo que passara com a família Douglass. Com qualquer outra pessoa, tentava ser evasivo pelo máximo que pudesse, até finalmente dizer que os pais tinham morrido quando ele era pequeno e que crescera num orfanato, o que normalmente colocava um fim às perguntas. Mas Willem conhecia melhor a verdade, e ele sabia que Willem sabia que aquele era seu desejo mais ardente, mais impossível. – Jude, isso é incrível. Como está se sentindo?
Tentou rir.
– Como se fosse estragar tudo.
– Não vai. – Os dois ficaram em silêncio. – Eu nem sabia que era possível adotar alguém maior de idade.
– Não é muito comum, mas é possível. Basta que as duas partes estejam de acordo. Na maioria dos casos isso é feito por motivo de herança. – Fez outra tentativa de rir. (Pare de tentar rir, ralhou consigo mesmo.) – Não me lembro muito do que aprendi sobre direito de família, mas sei que terei uma nova certidão de nascimento com os nomes deles.
– Uau – disse Willem.
– Pois é – falou.
Ouviu alguém chamar o nome de Willem ao fundo, com voz de comando.
– É melhor você ir – disse a Willem.
– Merda – praguejou Willem. – Mas, Jude: meus parabéns. Ninguém merece isso mais que você. – Ele gritou de volta para quem o estava chamando. – Tenho de ir – falou. – Você se importa se eu escrever para Harold e Julia?
– De jeito nenhum – respondeu. – Mas, Willem, não conte aos outros, tudo bem? Só quero absorver a notícia primeiro.
– Não vou abrir a boca. Vejo você amanhã. E, Jude... – Mas não disse, ou não conseguiu dizer, nada mais.
– Eu sei – falou. – Eu sei, Willem. Eu sinto o mesmo.
– Eu te amo – falou Willem, e desligou antes que ele precisasse responder.
Nunca sabia o que falar quando Willem lhe dizia aquilo, embora sempre desejasse ouvir aquelas palavras de sua boca. Aquela era uma noite de coisas impossíveis, e ele lutou para se manter acordado, para ficar consciente e alerta pelo maior tempo possível, para desfrutar e repetir para si mesmo tudo o que lhe acontecera, todos os desejos de uma vida se realizando em poucas horas.
De volta ao apartamento no dia seguinte, encontrou um bilhete de Willem pedindo que não fosse dormir antes de ele chegar, e quando Willem apareceu, trazia consigo sorvete e bolo de cenoura, que os dois comeram, embora não gostassem muito de doces, e champanhe, que beberam, ainda que ele tivesse de acordar cedo pela manhã. As semanas seguintes passaram rápido: Harold cuidava da papelada e mandou-lhe documentos para que assinasse – o requerimento de adoção, uma declaração juramentada para mudar sua certidão de nascimento, uma requisição por informações sobre sua possível ficha criminal –, os quais levou ao banco na hora do almoço para serem autenticados; não queria que ninguém no trabalho soubesse além das poucas pessoas para quem contara: Marshall, Citizen e Rhodes. Contou a JB e a Malcolm, que reagiram exatamente como ele esperara – JB fazendo um monte de piadas sem graça num ritmo quase frenético, como se eventualmente fosse achar uma que funcionasse; Malcolm fazendo perguntas cada vez mais inconsistentes sobre inúmeras hipóteses, as quais Jude não conseguia responder – e, por outro lado, se mostraram realmente felizes por ele. Contou a Henry Young Negro, que fora aluno de Harold em duas matérias na faculdade de direito e o admirava, e a Richard, amigo de JB, de quem se aproximara após uma festa particularmente longa e tediosa na casa de Ezra um ano antes, quando os dois bateram um papo que começara com a previdência social francesa e avançara por uma série de outros assuntos, sendo os dois as únicas pessoas quase sóbrias no apartamento. Contou a Phaedra, que começara a gritar, e a outro velho amigo da faculdade, Elijah, que também gritou.
E, obviamente, contou a Andy, que de início apenas o encarou e em seguida concordou com a cabeça, como se Jude tivesse perguntado se poderia lhe dar outro curativo antes que ele fosse embora. Mas, logo depois, começou a fazer uma série de ruídos bizarros como os de uma foca, metade latido e metade espirro, e ele então percebeu que Andy estava chorando. Aquela visão o deixou abalado e levemente histérico, sem saber o que fazer.
– Saia daqui – ordenou Andy entre os ruídos. – Estou falando sério, Jude. Saia, caralho! – E ele obedeceu.
No dia seguinte, no trabalho, recebeu um buquê de rosas do tamanho de uma moita de gardênias, com um bilhete escrito por Andy em letras maiúsculas e enfurecidas, que dizia:
JUDE – ESTOU ENVERGONHADO PARA CARALHO, A PONTO
DE MAL CONSEGUIR ESCREVER ESTE BILHETE. POR FAVOR,
ME PERDOE POR ONTEM. NÃO PODERIA ESTAR MAIS FELIZ
POR VOCÊ, E A ÚNICA PERGUNTA QUE TENHO É POR QUE
HAROLD DEMOROU ESSA CARALHADA DE TEMPO TODO.
ESPERO QUE ENCARE ISSO COMO UM SINAL DE QUE
PRECISA CUIDAR MELHOR DE SI MESMO PARA QUE UM DIA
TENHA FORÇAS PARA TROCAR AS FRALDAS DE HAROLD
QUANDO ELE ESTIVER COM MIL ANOS E INCONTINENTE,
POIS VOCÊ SABE QUE ELE NÃO VAI FACILITAR AS COISAS
MORRENDO NUMA IDADE RESPEITÁVEL COMO UMA PESSOA
NORMAL. ACREDITE EM MIM, PAIS SÃO UM PÉ NO SACO.
(MAS TAMBÉM SÃO ÓTIMOS, É CLARO.) COM AMOR, ANDY
Aquela era, como ele e Willem concordaram, uma das melhores cartas que já haviam lido.
Mas, quando o mês de êxtase passou e janeiro chegou, Willem partiu para a Bulgária para rodar o filme e os velhos medos voltaram, acompanhados por novos. Harold lhe avisara que a data no tribunal fora marcada para 15 de fevereiro e, com uma pequena alteração de datas, Laurence presidiria a sessão. Agora que o dia estava tão perto, Jude sentia-se clara e inescapavelmente ciente de que poderia arruinar tudo, e começou, primeiro de maneira inconsciente, depois com certa assiduidade, a evitar Harold e Julia, convicto de que, se fossem lembrados o tempo todo no que estavam se metendo, acabariam mudando de ideia. Assim, quando eles foram à cidade para assistir a uma peça na segunda semana de janeiro, ele fingiu que estava em Washington a trabalho e, nas conversas semanais ao telefone, tentava falar o mínimo possível, sem se estender por muito tempo. A cada dia a improbabilidade da situação parecia se tornar maior e mais vívida em sua mente; toda vez que vislumbrava seu reflexo coxeando feito um zumbi horrendo na lateral de um prédio, sentia-se enojado: quem poderia realmente desejar isso? A ideia de que pudesse pertencer a outra pessoa parecia cada vez mais ridícula e, caso Harold o visse mais uma vez, como poderia não chegar à mesma conclusão? Sabia que aquilo não devia ter assim tanta importância para ele – afinal, já era um adulto; sabia que a adoção era mais uma cerimônia do que algo realmente significativo do ponto de vista sociológico –, mas era algo que desejava com um fervor que desafiava a lógica, e não suportaria que lhe tirassem aquilo agora, não quando todos de quem gostava estavam tão felizes por ele, não depois de chegar tão perto.
Tivera outra vez em que chegara perto. No ano posterior a sua chegada a Montana, quando estava com treze anos, o orfanato participou de uma feira de adoção triestadual. Novembro era o Mês Nacional da Adoção, e, numa manhã fria, lhes disseram para colocar uma roupa bonita e os colocaram às pressas dentro de dois ônibus escolares para uma viagem de duas horas até Missoula, onde foram pastoreados dos ônibus para a sala de conferências de um hotel. Os ônibus deles foram os últimos a chegar e o lugar já estava apinhado de outras crianças, com os meninos de um lado e as meninas de outro. No centro havia uma longa fileira de mesas, e, quando se aproximou, viu as pilhas de fichários rotulados: Meninos, Bebês; Meninos, até 3; Meninos, 4-6; Meninos, 7-9, Meninos, 10-12; Meninos, 13-15; Meninos, 15+. Ali dentro, disseram a eles, havia folhas de papel com seus retratos, nomes e informações: de onde eram, de qual grupo étnico, informações sobre o desempenho escolar, que esportes gostavam de praticar e que talentos e interesses eles tinham. O que, imaginou, diria a folha de papel sobre ele? Que talentos teriam inventado para ele, qual sua raça, qual sua origem?
Os meninos mais velhos, cujos nomes e rostos estavam no fichário rotulado 15+, sabiam que nunca seriam adotados. Quando os conselheiros deram as costas, escapuliram pela saída dos fundos para, como todo mundo sabia, fumar maconha. Os bebês e as crianças até três anos só precisavam ser eles mesmos; seriam os primeiros escolhidos, sem nem mesmo saber. Mas, ao observar do canto onde se instalara, viu que alguns dos meninos – os que tinham idade para já terem passado por outras feiras, mas eram novos o bastante para ainda ter esperança – tinham suas estratégias. Viu os mal-humorados ficarem alegres, os valentões e encrenqueiros virarem brincalhões e animados, e meninos que se odiavam no contexto do orfanato brincarem e fazerem gracejos numa maneira convincentemente amigável. Viu os meninos que eram grossos com os conselheiros, que se xingavam pelos corredores, sorrirem e conversarem com os adultos, os pais em potencial, que se espalhavam pelo salão. Viu o menino mais difícil, o mais malvado de todos, chamado Shawn, de quatorze anos, que certa vez o prendera no chão do banheiro com os joelhos, até sentir machucar seus ombros, apontar para a etiqueta com seu nome quando o homem e a mulher com quem havia conversado se dirigiram aos fichários.
– Shawn! – gritou para eles. – Shawn Grady! – E algo em sua voz rouca e esperançosa, na qual dava para sentir o esforço, o cuidado para não deixar transparecer sua esperança, o fez sentir pena de Shawn pela primeira vez, e raiva do homem e da mulher que, como ele podia ver muito bem, estavam esquadrinhando o fichário dos meninos entre sete e nove anos. Mas aqueles sentimentos passaram rápido, pois tentava não sentir nada naqueles tempos: nem fome, nem dor, nem raiva, nem tristeza.
Ele não tinha truques, não tinha habilidades, não tinha charme. Quando chegara no orfanato, estava tão anestesiado que nem mesmo o levaram para a feira no mês de novembro anterior, e um ano depois não sabia se havia melhorado muito. Pensava cada vez menos no Irmão Luke, era verdade, mas seus dias fora da sala de aula se mesclavam em um; na maior parte do tempo sentia como se estivesse flutuando, tentando fingir que não ocupava sua própria vida, desejando ser invisível, querendo apenas passar despercebido. Coisas lhe aconteciam e ele não revidava como teria feito em outros tempos; às vezes, enquanto o feriam, a parte que ainda estava consciente tentava imaginar o que os irmãos pensariam dele naquele instante: os ataques de fúrias, as pirraças, a resistência, tudo ficara para trás. Agora ele era o menino que sempre quiseram que fosse. Agora queria ser alguém à deriva, uma presença tão fina, leve e insubstancial que parecia nem ocupar lugar no espaço.
Assim, ficou surpreso – tão surpreso quanto os conselheiros – ao descobrir naquela noite que fora uma das crianças escolhidas por um casal: os Leary. Não teria ele percebido uma mulher e um homem olhando em sua direção, talvez até sorrindo? Era possível. Mas a tarde se passara, como na maioria das vezes, em meio a uma névoa, e já no ônibus a caminho para casa começara o esforço para esquecer tudo aquilo.
Ele passaria um fim de semana de teste – o fim de semana anterior à Ação de Graças – com os Leary, para se conhecerem melhor. Naquela quinta-feira, foi levado à casa da família por um conselheiro chamado Boyd, que ensinava ofícios artesanais, e a quem não conhecia muito bem. Sabia que Boyd sabia o que alguns dos outros conselheiros faziam com ele, e por mais que nunca os tivesse impedido, tampouco participava.
Mas, ao sair do carro, já na entrada da garagem dos Leary – uma casa de tijolos de um só andar, cercada por campos desertos e escuros por todos os lados –, Boyd agarrou seu antebraço e o puxou para perto, assustando-o e colocando-o em estado de alerta.
– Não foda com tudo, St. Francis – falou. – Esta é a sua chance, está me entendendo?
– Sim, senhor – respondera.
– Pode ir, então – disse Boyd, soltando-o, e ele caminhou na direção da Sra. Leary, que o esperava na porta da frente.
A Sra. Leary era gorda, mas o marido era apenas grande, com mãos enormes e vermelhas que pareciam armas. Tinham duas filhas, ambas na casa dos vinte e casadas, e acharam que seria uma boa ideia ter um menino na casa, alguém que pudesse ajudar o Sr. Leary – que consertava grandes máquinas de plantação e também tinha seu cultivo – com o trabalho no campo. Eles o haviam escolhido, disseram, porque parecia tranquilo e educado, e não queriam um arruaceiro; queriam alguém trabalhador, alguém que pudesse apreciar o que significava ter um lar e um teto. Tinham lido no fichário que ele sabia trabalhar, limpar e que se saía bem na fazenda do orfanato.
– Seu nome não é lá um nome muito comum – disse a Sra. Leary.
Jude nunca vira nada de incomum nele, mas respondeu:
– Sim, senhora.
– O que acharia de atender por um novo nome? – perguntou a Sra. Leary. – Como Cody, por exemplo. Sempre gostei do nome Cody. É um pouco menos... bem, condiz mais um pouco conosco.
– Gosto de Cody – falou, embora não tivesse de fato uma opinião sobre aquilo: Jude, Cody, não importava como lhe chamassem.
– Ótimo, então – disse a Sra. Leary.
Naquela noite, sem ninguém por perto, disse o nome em voz alta para si mesmo: Cody Leary. Cody Leary. Seria possível que tivesse entrado naquela casa como uma pessoa e então, como se o lugar fosse encantado, tivesse sido transformado em outra? Seria assim tão simples, tão rápido? Diria adeus a Jude St. Francis, e com ele ao Irmão Luke, ao Irmão Peter e ao Padre Gabriel, e ao mosteiro, e aos conselheiros do orfanato, e a sua vergonha, seus medos, sua mácula, e em seu lugar viria Cody Leary, que teria pais, um quarto só seu, e poderia vir a ser quem ele quisesse.
O resto do fim de semana passou tranquilamente, tão tranquilamente que a cada dia, a cada hora, podia sentir pedaços de si mesmo despertarem, podia sentir as nuvens que se acumularam sobre sua cabeça se dissiparem e sumirem, podia se ver pensando no futuro e imaginando que lugar ocuparia nele. Tentou ao máximo ser educado e trabalhador, o que não foi difícil: acordou cedo e preparou o café da manhã para os Leary (a Sra. Leary o elogiara tão efusiva e exageradamente que ele abriu um sorriso, acanhado, para o chão), lavou a louça e ajudou o Sr. Leary a tirar a graxa das ferramentas e a trocar uma lâmpada, e por mais que houvesse eventos que não o interessassem tanto – a missa chata na igreja a que foram no domingo; as orações que fizeram antes que ele pudesse ir para a cama –, eles não eram piores que as coisas de que não gostava no orfanato, eram coisas que ele sabia que poderia fazer sem parecer contrariado ou ingrato. Sentia que os Leary não seriam o tipo de pessoa que se portavam como os pais sobre os quais lera em livros, do jeito que os pais com que tanto sonhara se comportariam, mas ele sabia ser diligente, sabia como agradá-los. Ainda estava assustado com as enormes mãos vermelhas do Sr. Leary, e, ao se ver sozinho com ele no celeiro, ficou trêmulo e alerta, mas pelo menos havia um só Sr. Leary para temer, e não um grupo de Srs. Leary, como acontecera antes, ou acontecia no orfanato.