Uma Vida Pequena
Capítulo 2
NUMA MANHÃ DE SÁBADO, pouco antes de completar trinta e seis anos, ele abre os olhos e experimenta aquela sensação estranha e prazerosa que às vezes tem, quando percebe que não há nuvens em sua vida. Imagina Harold e Julia em Cambridge: os dois se movem sonolentamente pela cozinha, servindo café em suas canecas manchadas e lascadas e sacudindo o plástico que embala o jornal para tirar o orvalho. No ar, Willem voa da Cidade do Cabo em sua direção. Pensa em Malcolm no Brooklyn deitado com Sophie na cama, e depois, por sentir-se esperançoso, em JB roncando a salvo em sua cama no Lower East Side. Ali, na Greene Street, o aquecedor solta seus suspiros sibilantes. As cobertas cheiram a sabão e céu. Sobre sua cabeça está o lustre tubular de aço que Malcolm instalou um mês atrás. Sob seu corpo está o piso cintilante de madeira negra. O apartamento – ainda impossível em sua vastidão, em suas possibilidades e em seu potencial – está em silêncio e é seu.
Ele aponta os dedos dos pés para o pé da cama e depois os flexiona na direção das canelas: nada. Muda a posição das costas sobre o colchão: nada. Leva os joelhos ao peito: nada. Nada dói, não há sequer uma ameaça de dor: seu corpo novamente lhe pertence, é algo que obedecerá a qualquer comando que venha a fazer, sem reclamar ou lhe sabotar. Fecha os olhos, não porque está cansado, mas sim porque aquele é um momento perfeito, e ele sabe como apreciá-los.
Esses momentos não duram muito – às vezes, tudo o que precisa fazer é sentar e logo é lembrado, como se recebesse um tapa na cara, de que é ele quem pertence ao corpo, e não o contrário –, mas, nos últimos anos, à medida que as coisas foram piorando, teve de fazer um grande esforço para se livrar da ideia de que um dia pudesse melhorar, e passou a tentar se concentrar nos minutos de folga, sendo grato por eles, quando e sempre que seu corpo decide concedê-los. Finalmente se senta, devagar, e depois levanta no mesmo ritmo. Ainda se sente ótimo. Este é um bom dia, conclui, e segue para o banheiro, passando pela cadeira de rodas mal-humorada, como um ogro enfurecido, num canto do quarto.
Ele se apronta e então senta com alguns documentos do escritório para esperar. Normalmente, passa a maior parte do sábado no trabalho – pelo menos isso não mudou desde os tempos em que costumava sair para suas caminhadas: ah, as caminhadas! Será que aquele era mesmo ele, uma pessoa capaz de passear, tal e qual um cabrito, até o Upper East Side e voltar, percorrendo os dezoito quilômetros sem precisar de qualquer tipo de ajuda? – mas hoje vai se encontrar com Malcolm e o levará ao seu alfaiate, pois Malcolm vai casar e precisa de um terno.
Eles não sabem ao certo se Malcolm vai realmente casar. Acham que vai. Ao longo dos últimos três anos, ele e Sophie terminaram e reataram, depois terminaram e reataram outra vez. Mas, no ano passado, Malcolm conversara com Willem sobre casamentos, querendo saber se Willem os considerava uma indulgência ou não; e com JB sobre joias, perguntando se, quando as mulheres dizem que não gostam de diamantes, estão falando a verdade ou só querem saber como aquilo soa; e com ele sobre acordos pré-nupciais.
Respondera às perguntas de Malcolm da melhor maneira que pôde, e depois lhe passara o nome de um colega da faculdade, um advogado especializado em direito de família.
– Ah – disse Malcolm, se afastando, como se Jude lhe tivesse sugerido o nome de um assassino profissional. – Não sei bem ao certo se preciso disso agora, Jude.
– Tudo bem – falou, guardando o cartão, que Malcolm parecia relutante até mesmo em tocar. – De qualquer jeito, se e quando precisar, é só falar comigo.
E então, um mês atrás, Malcolm perguntou se Jude podia ajudá-lo a escolher um terno.
– Não tenho nenhum, não é uma loucura? – perguntou. – Não acha que eu deveria ter um? Não acha que eu deveria começar a manter uma aparência, não sei, mais adulta ou algo assim? Não acha que seria bom para os negócios?
– Acho ótimo o jeito como você se veste, Mal – falou. – E não acredito que você precise de qualquer ajuda em relação aos negócios. Mas, se quer comprar um terno, claro que posso ajudar. Ficarei feliz em acompanhá-lo.
– Obrigado – disse Malcolm. – Quero dizer, acho só que é algo que devo ter. Sabe, caso apareça alguma ocasião importante. – Ele fez uma pausa. – Ainda não acredito que você tem um alfaiate, a propósito.
Ele sorriu.
– Não é meu alfaiate – disse. – É simplesmente alguém que faz ternos, e alguns deles por acaso são meus.
– Meu deus – disse Malcolm. – Harold criou mesmo um monstro.
Ele riu, por gentileza. Mas muitas vezes sentia como se um terno fosse a única coisa capaz de fazê-lo parecer normal. Durante os meses que passou na cadeira de rodas, aqueles ternos foram um modo de reassegurar a seus clientes de que era uma pessoa competente e, ao mesmo tempo, de reassegurar a si mesmo de que seu lugar era em meio aos outros, que podia ao menos se vestir como eles. Não se considera um sujeito vaidoso, mas sim escrupuloso: quando criança, os meninos do orfanato ocasionalmente disputavam partidas de beisebol com os meninos da escola local, que os provocavam, tapando o nariz ao entrarem em campo.
– Vão tomar banho! – gritavam. – Vocês fedem! Vocês fedem!
Mas eles tomavam banho: toda manhã eram obrigados a se lavar, despejando o sabão rosa sebento na palma da mão e em suas toalhinhas, e esfregando a pele enquanto um dos conselheiros andava de um lado para o outro da fileira de chuveiros, batendo com uma toalha fina nos garotos que se comportavam mal ou gritando com aqueles que não se limpavam com o vigor desejado. Mesmo hoje, ele tem horror de ser rejeitado por ser desleixado, sujo ou mal-ajambrado.
– Você sempre vai ser feio, mas isso não significa que não possa ser arrumado – costumava lhe dizer o Padre Gabriel e, embora estivesse errado em muitas coisas, nisso Jude sabia que ele estava certo.
Malcolm chega, o cumprimenta com um abraço e então começa, como sempre faz, a sondar o ambiente, espichando seu pescoço longo e girando num círculo lento ao redor da sala, com seu olhar parecendo a luz de um farol, emitindo alguns ruídos de avaliação durante o processo.
Ele responde à pergunta de Malcolm antes mesmo que este possa fazê-la:
– Mês que vem, Mal.
– Disse isso três meses atrás.
– Eu sei. Mas agora estou falando sério. Agora tenho o dinheiro. Ou terei, no fim do mês.
– Mas já conversamos sobre isso.
– Eu sei. E, Malcolm, isso é extremamente generoso de sua parte. Mas não vou deixar de pagar.
Morava no apartamento fazia mais de quatro anos, e por quatro anos não conseguira reformá-lo porque não tinha dinheiro, e não tinha dinheiro porque estava pagando o apartamento. No meio-tempo, Malcolm esboçou alguns projetos, ergueu paredes para separar os quartos e o ajudou a escolher um sofá, cuja cor cinza lembrava uma nave espacial, colocado no centro da sala, além de resolver alguns problemas menores, como os pisos.
– Isso é loucura – dissera a Malcolm na época. – Você vai ter que refazer tudo quando a reforma acabar.
Mas Malcolm disse que faria mesmo assim; a tinta para pisos era um produto novo que queria testar, e até que as obras pudessem ter início, Greene Street seria seu laboratório, onde poderia fazer alguns experimentos, caso Jude não se importasse (não se importava, é lógico). Mas, a não ser por isso, o apartamento ainda estava praticamente como o encontrara quando se mudou: um longo retângulo no sexto andar de um prédio na parte sul do SoHo, com janelas dos dois lados: uma virada para o oeste e a outra para o leste, e também cobrindo a parede que dava para o sul, de frente para um estacionamento. Seu quarto e o banheiro ficam na parte leste, que dava para o topo de um prédio atarracado na Mercer Street; a suíte de Willem – ou que ele ainda considera como a suíte de Willem – fica na parte oeste, que dá para Greene Street. A cozinha fica no centro do apartamento e há também um terceiro banheiro. Entre as duas suítes há um espaço imenso, com um piso negro tão lustroso que parece as teclas de um piano.
A sensação de ter tanto espaço é estranha, assim como a de poder pagar por ele. Mas você pode, precisa lembrar a si mesmo às vezes, assim como faz no supermercado, avaliando se deveria comprar o pote de azeitonas pretas de que gosta, tão salgadas que fazem sua boca se contrair e os olhos lacrimejarem. Quando chegara à cidade, aquilo era um capricho e ele as comprava uma vez por mês, dando uma só colherada quando abria o pote. Toda noite ele comia apenas uma, chupando-a lentamente até chegar ao caroço enquanto lia relatórios. Você pode comprá-las, diz a si mesmo. Tem dinheiro para isso. Mas ainda tem dificuldade em lembrar.
O motivo por trás de Greene Street e do pote de azeitonas que normalmente mantém na geladeira é seu trabalho na Rosen Pritchard & Klein, uma das firmas de advocacia mais poderosas e prestigiosas da cidade, onde atua como especialista em litígios e, há pouco mais de um ano, como sócio. Cinco anos antes, ele, Citizen e Rhodes trabalhavam num caso que envolvia fraudes financeiras no Thackery Smith, um grande banco privado. Pouco após o encerramento do caso, Jude foi contatado por um homem chamado Lucien Voigt, que ele sabia ser o presidente do departamento de litígios na Rosen Pritchard & Klein, e que representara o Thackery Smith nas negociações.
Voight o convidou para um drinque. Ficara impressionado com o seu trabalho, especialmente no tribunal, falou. E o Thackery Smith também. Já ouvira falar dele, de qualquer forma – Voigt e o juiz Sullivan foram colegas no jornal estudantil da faculdade de direito –, e se informara sobre ele. Por acaso teria alguma vez pensado em deixar a Procuradoria e se unir ao lado negro?
Estaria mentindo se dissesse que não. Todos ao seu redor estavam indo embora. Sabia que Citizen vinha conversando com uma firma internacional em Washington, D.C. Rhodes estudava a ideia de trabalhar para um banco. Ele mesmo já fora abordado por outras duas firmas, recusando ambas as ofertas. Eles adoravam a Procuradoria, todos os três. Mas Citizen e Rhodes eram mais velhos que ele, e Rhodes e sua esposa queriam ter um filho, por isso precisavam ganhar dinheiro. Dinheiro, dinheiro: às vezes só se falava nisso.
Ele também pensava em dinheiro – era impossível não pensar. Toda vez que voltava para casa depois de uma festa no apartamento de um dos amigos de JB ou de Malcolm, Lispenard Street parecia um pouco mais sórdida, um pouco menos tolerável. Toda vez que o elevador quebrava e ele tinha de subir as escadas, para depois descansar no chão do corredor, com as costas apoiadas na porta de casa, antes de ter energia para entrar, sonhava em morar em algum lugar funcional e confiável. Toda vez que parava diante da escadaria do metrô, preparando-se para descer, segurando o corrimão e quase respirando pela boca de tanto esforço, sentia vontade de poder pegar um táxi. E tinha também outros temores, ainda maiores: em seus momentos mais sombrios, imaginava-se na velhice, com a pele esticada feito um pergaminho, ainda em Lispenard Street, arrastando-se até o banheiro sobre os cotovelos por não conseguir mais andar. Nesse sonho, estava sozinho – não havia Willem, JB, Malcolm ou Andy, nem Harold e Julia. Era um homem velho, muito velho, e não havia ninguém – só restara ele para cuidar de si próprio.
– Quantos anos você tem? – perguntou Voigt.
– Trinta e um – respondeu.
– Trinta e um é jovem – disse Voigt –, mas não será jovem para sempre. Quer mesmo envelhecer trabalhando na Procuradoria? Você sabe o que dizem sobre promotores assistentes: são homens cujos melhores anos ficaram para trás. – Falou de compensações, de como poderia virar sócio rapidamente. – Me diga apenas que vai pensar no assunto.
– Pensarei – disse ele.
E pensou. Não queria conversar com Citizen ou Rhodes sobre a proposta – nem com Harold, pois sabia o que ele diria –, mas expôs a questão a Willem, e juntos analisaram as vantagens óbvias e as desvantagens óbvias do emprego: a carga horária (mas ele nunca saía do trabalho mesmo, argumentou Willem), o tédio, a alta probabilidade de trabalhar ao lado de babacas (mas, com exceção de Citizen e Rhodes, ele já trabalhava ao lado de babacas, argumentou Willem). E, obviamente, o fato de que começaria a defender as pessoas que passara os últimos seis anos processando: mentirosos, trapaceiros e ladrões, os ricos e os poderosos se fazendo de vítimas. Ele não era como Harold ou Citizen – era uma pessoa prática; sabia que construir uma carreira na advocacia era algo que exigia sacrifícios, fossem eles financeiros ou morais, mas ainda ficava preocupado com ter de abrir mão do que sabia ser justo. E em troca do quê? De garantir que não se tornasse aquele homem velho, solitário e doente? Isso parecia o pior tipo de egoísmo, o pior tipo de autoindulgência, renegar o que sabia ser certo simplesmente por sentir medo, por recear que acabaria num estado de tristeza e desconforto.
Mais tarde, duas semanas após seu encontro com Voigt, ele voltou para casa tarde numa noite de sexta-feira. Estava exausto; precisara usar a cadeira de rodas aquele dia devido à imensa dor que sentia na perna direita, e ficou tão aliviado por chegar em casa, de volta a Lispenard Street, que sentiu seu corpo enfraquecer – em alguns minutos estaria dentro do apartamento, colocaria uma toalhinha úmida, depois de aquecê-la no micro-ondas, em torno da panturrilha, e sentaria no calor. Mas, ao apertar o botão do elevador, ouviu apenas o rangido de peças mecânicas, o guincho sutil que fazia quando estava enguiçado.
– Não! – gritou ele. – Não! – Sua voz ecoou pelo saguão de entrada, e ele bateu a palma da mão contra porta do elevador uma vez após a outra: – Não, não e não! – Pegou sua pasta e a arremessou no chão; documentos voaram para todos os lados. Ao seu redor, o prédio permanecia silencioso e indiferente.
Até que parou, envergonhado e furioso, e recolheu os documentos de volta para a pasta. Olhou para o relógio: eram onze da noite. Willem estava encenando uma peça, Cloud 9, mas Jude sabia que àquela hora já teria acabado. Mas, quando ligou para ele, Willem não atendeu. Começou então a entrar em pânico. Malcolm estava de férias na Grécia. JB estava numa colônia de artistas. A filha de Andy, Beatrice, acabara de nascer na semana anterior: não podia ligar para ele. Não havia muitas outras pessoas que pudessem ajudá-lo, alguém com quem se sentisse meio à vontade para agarrar feito um bicho-preguiça, alguém que permitiria carregá-lo pelos muitos lances de escada.
Mas, naquele momento, ele estava intensa e irracionalmente desesperado para entrar no apartamento. Por isso, colocou-se de pé e enfiou a pasta debaixo do braço esquerdo e, com o direito, dobrou a cadeira de rodas, cara demais para ser deixada no saguão. Começou a subir os degraus, apoiando a lateral esquerda do corpo na parede e puxando a cadeira por uma das alças. Movia-se lentamente – precisava saltar com a perna esquerda, ao mesmo tempo em que tentava evitar colocar peso sobre a direita ou fazer a cadeira se chocar contra a ferida. E assim foi subindo, parando a cada três degraus para descansar. Do térreo ao quinto andar havia cento e dez degraus, e, ao chegar ao quinquagésimo, estava tão cansado que teve de parar e sentar por meia hora. Continuava a telefonar e a mandar mensagens para Willem. Na quarta ligação, deixou a mensagem de voz que esperava nunca ter de deixar:
– Willem, estou realmente precisando de ajuda. Por favor, me ligue. Por favor.
Imaginou que Willem retornaria a ligação na mesma hora, dizendo que logo estaria lá, mas esperou e esperou e nada de Willem ligar. Até que finalmente conseguiu se colocar de pé outra vez.
De algum jeito, chegou ao apartamento. No entanto, não se lembra de mais nada daquela noite; quando acordou no dia seguinte, encontrou Willem dormindo no tapete ao lado de sua cama e Andy na poltrona que devem ter arrastado da sala até o quarto. Estava com a língua inchada, desorientado e enjoado; sabia que Andy devia ter lhe aplicado uma injeção para a dor, o que ele odiava: ia sentir-se desnorteado e com prisão de ventre por dias.
Quando acordou de novo, Willem havia sumido, mas Andy estava acordado e olhava para ele.
– Jude, você precisa mudar desta porra de apartamento – falou, em voz baixa.
– Eu sei – respondeu.
– O que tinha na cabeça, Jude? – perguntaria Willem posteriormente, depois de voltar do mercado. Antes, como não conseguia andar, Andy o ajudara a ir ao banheiro, carregando-o até lá e depois de volta para a cama, para em seguida ir embora. Willem saíra da peça direto para uma festa e não escutara o telefone tocar; quando finalmente ouvira as mensagens, voltara correndo para casa e o encontrara tendo convulsões no chão, por isso ligara para Andy. – Por que não ligou para Andy? Por que não foi a uma lanchonete e esperou por mim? Por que não ligou para Richard? Por que não ligou para Philippa e pediu para ela me encontrar? Por que não ligou para Citizen, ou Rhodes, ou Eli, ou Phaedra, ou para um dos Henry Youngs, ou...
– Não sei – respondeu, ainda num estado lastimável. Era impossível explicar aos sadios a lógica dos doentes, e ele nem tinha forças para tentar.
Na semana seguinte, entrou em contato com Lucien Voigt e combinou os termos do emprego. Depois de assinar o contrato, ligou para Harold, que manteve o silêncio por cinco longos segundos, antes de respirar fundo e começar.
– Não entendo, Jude – falou. – Não mesmo. Você nunca me pareceu do tipo que é movido pelo dinheiro? Ou é? Quero dizer, acho que sim. Você tinha, ou melhor, tem, uma bela carreira na Procuradoria. Está realizando trabalhos importantes por lá. E vai desistir de tudo isso para quê? Para defender criminosos. Pessoas tão prepotentes, tão certas de que nunca serão apanhadas, que a própria possibilidade de serem apanhadas nem lhes passa pela cabeça. Pessoas que acham que as leis são feitas para aqueles que ganham salários com menos de nove dígitos por ano. Pessoas que acham que as leis só se aplicam em termos de raça ou da faixa de impostos.
Jude não disse nada, apenas deixou que Harold fosse ficando mais e mais agitado, pois sabia que ele tinha razão. Nunca haviam conversado explicitamente sobre o assunto, mas sabia que Harold pensava que seguiria sua carreira no serviço público. Ao longo dos anos, Harold falava com desânimo e tristeza sobre alguns alunos talentosos que admirava, que haviam deixado seus empregos – na Procuradoria, no Departamento de Justiça, em escritórios de defesa pública e em programas de suporte legal – para trabalharem em firmas privadas de advocacia. “Uma sociedade não pode funcionar como deve sem que pessoas com uma incrível mente legal se ocupem de fazê-la funcionar”, costumava dizer Harold, e Jude sempre concordara. E ainda concordava, motivo este que o impedia de se defender agora.
– Não tem nada que queira dizer? – finalmente perguntou Harold.
– Desculpe, Harold – falou. – Você está zangado comigo – murmurou.
– Não estou zangado, Jude – respondeu. – Estou decepcionado. Tem ideia do quanto você é especial? Tem ideia da diferença que poderia fazer caso continuasse lá? Poderia virar juiz, se quisesse. Poderia chegar à Suprema Corte um dia. Mas não mais. Agora será mais um especialista em litígios em mais uma firma privada, e vai lutar contra tudo o que poderia ter feito de bom. É um desperdício, Jude, um grande desperdício.
Ficou em silêncio novamente. Repetiu as palavras de Harold para si mesmo: um desperdício, um grande desperdício. Harold soltou um suspiro.
– De que se trata, afinal? – perguntou. – É por causa do dinheiro? É disso que se trata? Por que não me disse que precisava de dinheiro, Jude? Eu poderia lhe dar. É por causa do dinheiro? Me diga do que precisa, Jude, e ficarei feliz em ajudar.
– Harold – começou –, isso é muito... muito generoso de sua parte. Mas... não posso aceitar.
– Porra nenhuma – disse Harold –, você não quer aceitar. Estou oferecendo a você uma maneira de continuar no seu emprego, Jude, de não precisar aceitar um trabalho que irá detestar, de não fazer coisas que irá detestar, sem pedir nada em troca. E isso não é uma suposição, é um fato. Estou lhe dizendo que ficarei feliz em dar dinheiro a você para isso.
Ah, Harold, pensou.
– Harold – falou, pesaroso –, o tipo de dinheiro de que preciso não é o mesmo que você tem, lhe garanto.
Harold ficou em silêncio e, quando voltou a falar, trazia um tom diferente na voz.
– Jude, por acaso está metido em algum tipo de encrenca? Você sabe que pode me dizer. O que quer que seja, eu vou ajudar.
– Não – respondeu, com vontade de chorar. – Não, Harold, eu estou bem. – Colocou a mão sobre a panturrilha enfaixada, com sua dor regular e constante.
– Que bom – disse Harold. – Fico aliviado. Mas, Jude, para o que mais você precisaria de tanto dinheiro, se não para um apartamento, que eu e Julia vamos ajudá-lo a comprar, está me ouvindo?
Ele às vezes se sentia frustrado e ao mesmo tempo fascinado pela falta de imaginação de Harold: em sua mente, as pessoas tinham pais que sentiam orgulho delas e economizavam dinheiro só para comprar um apartamento ou sair de férias, e pediam as coisas quando as queriam; ele parecia curiosamente alheio a um universo em que essas coisas não eram certas, no qual nem todas as pessoas compartilhavam o mesmo passado e o mesmo futuro. Mas aquele era um modo de pensar bastante mesquinho, e também raro – na maior parte do tempo, admirava o otimismo inexorável de Harold, sua incapacidade ou a pura relutância em ser cínico, em procurar tristeza e infelicidade em todas as situações. Adorava a inocência de Harold, que era ainda mais notável levando-se em consideração o que ele ensinava e o que perdera. Assim, como poderia dizer a Harold que precisava levar em conta sua cadeira de rodas, que precisava ser trocada de anos em anos, e que o plano de saúde não cobria integralmente? Como poderia dizer que Andy, que não trabalhava com nenhum plano de saúde, nunca lhe cobrava, nunca lhe cobrara, mas um dia talvez mudasse de ideia e, caso mudasse, não teria como deixar de pagá-lo? Como poderia dizer a ele que, na última vez que sua ferida abrira, Andy mencionara uma possível hospitalização e talvez, no futuro, até uma amputação? Como poderia dizer que, caso sua perna fosse amputada, teria de gastar com a internação, a fisioterapia e com uma prótese? Como poderia lhe falar sobre a cirurgia que queria fazer nas costas, no laser que reduziria a carapaça de suas cicatrizes a nada? Como poderia contar a Harold sobre seus piores medos: da solidão, de se tornar um velho com um cateter e um peito esquelético e descarnado? Como poderia dizer a Harold que não sonhava com casamento e filhos, mas sim em um dia ter dinheiro o bastante para pagar alguém para tomar conta dele, caso precisasse, alguém que o tratasse bem e respeitasse sua privacidade e dignidade? E depois, sim, havia as coisas que queria: Queria morar num lugar onde o elevador funcionasse. Queria poder pegar um táxi quando quisesse. Queria encontrar um lugar reservado onde pudesse nadar, pois o movimento fazia suas costas relaxarem e também porque não podia mais sair para suas caminhadas.
Mas não podia contar a Harold nada daquilo. Não queria que Harold soubesse o quanto tinha defeitos, que lixo ele tinha adquirido. Por isso não falou nada, apenas disse que precisava desligar e que voltariam a conversar depois.
Mesmo antes de falar com Harold, Jude se preparara para se resignar ao novo emprego e nada mais. Mas então, primeiro para sua inquietação, depois para sua surpresa, depois para seu deleite e depois ainda para seu leve desgosto, acabou descobrindo que estava gostando. Tivera experiências com a indústria farmacêutica em seus tempos de promotor, e a maioria de seus casos iniciais se concentrou nesse ramo: trabalhou com uma companhia que estava abrindo uma subsidiária baseada na Ásia para desenvolver um programa anticorrupção, indo e voltando de Tóquio com o sócio sênior no caso – aquele era um trabalho pequeno, organizado e solucionável, e por isso mesmo incomum. Os outros casos eram mais complicados, mais longos, às vezes infinitamente longos: boa parte de seu trabalho foi elaborar uma defesa para outro cliente da firma, um enorme conglomerado farmacêutico, contra uma acusação sob a Lei de Créditos Fraudulentos. Depois de três anos trabalhando na Rosen Pritchard & Klein, quando a empresa de gerenciamento de investimentos para a qual Rhodes trabalhava foi investigada por fraude, vieram à sua procura e firmaram sua posição como sócio: Jude tinha experiência no tribunal, o que a maioria dos outros funcionários não tinha, mas sabia que eventualmente teria de trazer um cliente para a firma, e o primeiro cliente era sempre o mais difícil de achar.
Nunca admitiria aquilo a Harold, mas, na verdade, gostava de cuidar de investigações impulsionadas por informantes, gostava de testar os limites da Lei sobre Práticas de Corrupção no Exterior, gostava de ter a possibilidade de esticar a lei feito um elástico, até ultrapassar um pouco seu ponto de tensão natural, chegando bem perto do limite em que ela se voltava contra você com a mesma intensidade. Durante o dia dizia a si mesmo que aquele era um compromisso intelectual, que seu trabalho era uma expressão da plasticidade da própria lei. Já à noite pensava às vezes no que Harold diria caso falasse abertamente com ele sobre o que vinha fazendo, e ouvia novamente suas palavras: um desperdício, um grande desperdício. O que estava fazendo?, pensava naqueles momentos. Teria o trabalho o transformado num mercenário, ou será que sempre fora assim, ainda que gostasse de pensar o contrário?
Está tudo dentro da lei, argumentava com o Harold-em-sua-mente.
Só porque pode fazer algumas coisas, não significa que tenha de fazê-las, devolvia o Harold-em-sua-mente.
E Harold de fato não errara completamente, pois ele sentia falta de trabalhar na Procuradoria. Sentia falta de ser um homem honrado e de estar cercado pelos apaixonados, pelos impetuosos, pelos combatentes. Sentia falta de Citizen, que voltara a Londres, de Marshall, com quem se encontrava ocasionalmente para tomar um drinque, e de Rhodes, a quem via com maior frequência, mas agora andava sempre esgotado e pálido, quando antes era alegre e efervescente, alguém que colocava um eletrotango para tocar e conduzia uma mulher imaginária de um lado para o outro quando ficavam até tarde no escritório e não conseguiam mais raciocinar direito, só para fazer com que ele e Citizen erguessem o olhar do computador e rissem. Estavam ficando velhos, todos eles. Gostava da Rosen Pritchard, gostava das pessoas ali, mas nunca ficava até tarde da noite ao lado delas discutindo os casos e conversando sobre livros: não era o tipo de escritório para aquilo. Os funcionários da sua idade tinham namorados ou namoradas infelizes em casa (ou eram eles próprios namorados e namoradas infelizes); os mais velhos estavam se casando. Nos raros momentos em que não falavam sobre trabalho, jogavam conversa fora sobre noivados, filhos e imóveis. Não falavam sobre direito, nem por diversão e tampouco por paixão.
A firma encorajava seus advogados a fazerem trabalho pro bono, e ele passou a atuar como voluntário num grupo sem fins lucrativos que oferecia aconselhamento legal gratuito a artistas. A organização promovia o que chamava de “horas de estúdio” toda tarde e noite, e os artistas podiam aparecer e consultar um advogado, e toda quarta-feira ele deixava o trabalho mais cedo, às sete, e partia para os escritórios do grupo, com seus pisos que rangiam, no SoHo, na Broome Street, onde passava três horas, ajudando pequenos editores de tratados radicais que queriam se estabelecer como organizações sem fins lucrativos, pintores envolvidos em disputas relacionadas à propriedade intelectual, grupos de dança, fotógrafos, escritores e cineastas com contratos tão fora dos limites da lei (apresentaram-no um que fora escrito a lápis numa folha de papel-toalha) que se tornavam insignificantes ou tão desnecessariamente complicados que os artistas não conseguiam entendê-los – ele mesmo mal entendia –, ainda que os tenham assinado mesmo assim.
Harold tampouco aprovava seu trabalho voluntário; dava para ver que o achava algo leviano.
– Algum desses artistas tem realmente talento? – perguntou Harold.
– Provavelmente não – respondeu.
Mas não cabia a ele julgar se eram bons ou não – outras pessoas, muitas outras pessoas, já faziam aquilo. Estava ali somente para oferecer o tipo de ajuda prática a que poucos deles tinham acesso, já que muitos viviam num mundo alheio a coisas práticas. Sabia que era uma ideia romântica, mas os admirava: admirava todos que conseguiam viver ano após ano à base de suas minguantes esperanças, mesmo que envelhecessem e se tornassem mais obscuros a cada dia. E era o mesmo romantismo que o fazia pensar em seu tempo na organização como uma referência aos amigos, que viviam o tipo de vida que o encantava: considerava-os verdadeiros sucessos e sentia-se orgulhoso. Diferentemente dele, não tinham uma estrada definida a ser trilhada. Mesmo assim, seguiam em frente com obstinação, passando seus dias produzindo coisas belas.
Seu amigo Richard fazia parte do conselho da organização e passava ali a caminho de casa em algumas quartas – havia se mudado fazia pouco tempo para o SoHo – e Jude sentava para conversar com ele, caso estivesse num intervalo entre um cliente e outro, ou então acenava para ele de longe caso estivesse ocupado. Uma noite, depois das horas de estúdio, Richard o convidou para ir a seu apartamento tomar um drinque, e os dois viraram a oeste na Broome Street, passando pelas ruas Centre, Lafayette, Crosby, Broadway e Mercer antes de seguir na direção sul até a Greene. Richard morava num prédio estreito, cuja fachada de pedra fora tomada pela fuligem, com uma porta de garagem alta delimitando o primeiro andar e, à direita, uma porta de metal com uma janela de vidro do tamanho de um rosto no alto. Não havia portaria, apenas um corredor cinzento com piso de ladrilho iluminado por três lâmpadas descobertas penduradas por fios. O corredor virava à direita e levava a um elevador industrial parecido com uma cela, do tamanho da sala de estar e do quarto de Willem em Lispenard Street, com uma porta gradeada que tremia para fechar ao toque de um botão, mas que subia suavemente por um poço aberto de blocos de concreto. Pararam no terceiro andar e Richard abriu o elevador e girou sua chave no conjunto de portas de aço enormes e ameaçadoras diante deles, dando para seu apartamento.
– Meu deus – falou, entrando no lugar, enquanto Richard acendia algumas luzes.
Os pisos eram de madeira caiada e as paredes também eram brancas. Bem no alto, o teto piscava e cintilava com um monte de lustres – velhos, de vidro, novos, de aço –, dispostos num intervalo de um metro entre um e outro, em alturas diferentes, de modo que, ao avançarem loft adentro, pôde sentir as armações de vidro roçarem o topo de sua cabeça, e Richard, que era ainda mais alto que ele, tinha de se abaixar para não arranhar a testa. Não havia divisórias, mas, perto dos fundos do ambiente, dava para ver uma caixa de vidro fina, tão alta e larga quanto as portas da frente, e, ao se aproximar, percebeu que dentro dela havia um favo de mel gigantesco moldado no formato de um belo coral. Depois da caixa de vidro havia um colchão coberto com roupa de cama e antes dele um tapete berbere felpudo e branco, espelhos que refletiam as luzes, um sofá branco de lã e uma televisão, formando uma estranha ilha de domesticidade em meio a tanta aridez. Aquele era o maior apartamento em que já colocara os pés.
– Não é de verdade – disse Richard, vendo-o olhar para o favo de mel. – Fiz com cera.
– É espetacular – elogiou, e Richard agradeceu com a cabeça.
– Venha – falou – vou lhe mostrar a casa.
Passou uma cerveja a Jude e depois destrincou uma porta ao lado da geladeira.
– São as escadas de emergência – disse. – Eu as adoro. Parece que vão nos levar ao inferno, sabe?
– É verdade – concordou, olhando para o vão da porta, de onde as escadas pareciam ser engolidas pela escuridão. Deu então um passo para trás, sentindo-se repentinamente inquieto e ao mesmo tempo um pouco bobo por estar daquele jeito. Richard, que pareceu não ter percebido, fechou a porta e passou o trinco.
Desceram pelo elevador até o segundo andar e entraram no estúdio, onde Richard lhe mostrou no que vinha trabalhando.
– Batizei de deturpações – falou, deixando que Jude segurasse o que presumira ser um galho branco de bétula, mas que na verdade fora feito de argila queimada, e depois uma pedra, redonda, lisa e leve, que fora talhada a partir de cinzas e torneada, mas passava uma impressão de solidez e peso, e o esqueleto de um pássaro feito com centenas de pecinhas de porcelana. Bifurcando o espaço no sentido do comprimento havia uma fileira de sete caixas de vidro, menores que a do piso superior com o favo de mel feito de cera, mas ainda assim tão grandes quanto uma das janelas, e dentro de cada uma havia uma montanha irregular e desmoronando, feita com uma substância num tom amarelo-escuro doentio que parecia algo entre borracha e carne. – Estes são favos de mel de verdade, ou pelo menos eram – explicou Richard. – Deixo as abelhas trabalharem neles por um tempo e depois as liberto. Cada um recebe o nome de acordo com o tempo em que foi ocupado, o tempo em que foi de fato um lar e um santuário.
Sentaram nas cadeiras de escritório com estofamento de couro que Richard usava para trabalhar, beberam suas cervejas e conversaram: sobre o trabalho de Richard, sobre sua próxima mostra, a segunda que faria e que estava programada para dali a seis meses, e sobre as novas pinturas de JB.
– Você ainda não as viu, certo? – perguntou Richard. – Passei no estúdio dele duas semanas atrás e as telas são realmente lindas, as melhores que já pintou. – Sorriu para ele. – Você vai aparecer bastante, sabe.
– Sei – respondeu, tentando não contorcer o rosto numa careta. – Mas, me diga, Richard – falou, mudando de assunto –, como encontrou este lugar? É incrível.
– É meu.
– É mesmo? Você é o dono? Estou impressionado; isso é tão adulto da sua parte.
Richard caiu no riso.
– Não, o prédio... ele é meu.
Explicou: seus avós tinham uma empresa de importação, e quando seu pai e sua tia eram novos, compraram dezesseis prédios no Baixo Manhattan, antigas fábricas, para usar como armazém: eram seis no SoHo, seis em TriBeCa e quatro em Chinatown. Quando os quatro netos completaram 30 anos, cada um ganhou um prédio. Quando fizeram 35 – como acontecera a Richard no ano anterior – ganharam outro. Quando fizessem 40, ganhariam um terceiro. Aos 50, receberiam o último.
– Você pôde escolher? – perguntou, com a mistura particular de desorientação e incredulidade que sempre sentia ao ouvir aquele tipo de história: tanto por uma fortuna assim existir e ser mencionada de maneira tão casual, como por alguém que conhecia há tanto tempo ser o dono dela.
Aquilo o fazia lembrar o quanto, de certa forma, ainda era ingênuo e simplório – jamais poderia imaginar tais riquezas, jamais poderia imaginar que as pessoas que conhecia eram donas de tais riquezas. Mesmo passados tantos anos, mesmo que os anos em Nova York e seu trabalho, em especial, o tenham ensinado o contrário, ele ainda não conseguia deixar de imaginar que os ricos não fossem como Ezra, Richard ou Malcolm, mas sim como eram retratados em caricaturas e sátiras: homens mais velhos, saindo de carros com vidro fumê, e suas mulheres magras e frágeis, suas enormes casas com piso polido.
– Não. – Richard sorriu. – Eles nos deram aqueles que achavam se encaixar melhor com nossas personalidades. Meu primo rabugento ficou com um prédio em Franklin Street que era usado para armazenar vinagre.
Jude caiu no riso.
– E este aqui era usado para quê?
– Vou mostrar a você.
E assim voltaram ao elevador, subindo até o quarto andar, onde Richard abriu a porta e acendeu as luzes. Ali, se viram defrontados por paletas e mais paletas empilhadas bem alto, quase até o teto, com o que pensou serem tijolos.
– Mas não são apenas tijolos – disse Richard –, são tijolos decorativos de terracota, importados da Úmbria. – Pegou um tijolo de uma paleta incompleta e entregou ao amigo. Jude virou o tijolo, que era coberto por uma camada fina e lustrosa de verniz verde, passando a palma por sua superfície áspera. – O quinto e o sexto andares também estão cheios de tijolos – disse Richard. – Serão vendidos a um atacadista em Chicago, e os pisos ficarão livres. – Ele sorriu. – Agora dá para você entender por que preciso de um bom elevador aqui.
Voltaram para o apartamento, passando mais uma vez pelo jardim suspenso de lustres, e Richard lhe deu outra cerveja.
– Ouça – disse –, preciso conversar com você sobre uma coisa importante.
– Pode falar – respondeu, colocando a garrafa de cerveja na mesa e inclinando o corpo para a frente.
– Os tijolos vão ser levados embora antes do fim do ano – disse Richard. – O quinto e o sexto andares são exatamente iguais a este aqui: as paredes com tubulações ficam na mesma posição, três banheiros... Minha pergunta é se você gostaria de ficar com um deles.
– Richard – falou –, eu adoraria. Mas quanto você está cobrando?
– Não estou falando em aluguel, Jude – disse Richard. – Estou falando em compra.
Richard já havia conversado com o pai, que era advogado dos avós: converteriam o prédio numa cooperativa e Jude compraria algumas ações. A única coisa que a família de Richard pedia era que ele ou seus herdeiros lhes dessem preferência caso decidisse vendê-lo um dia. Cobrariam de Jude um valor justo e ele poderia pagar a Richard um aluguel mensal que seria usado como parcelas de aquisição. Os Goldfarb já haviam feito aquilo antes – a namorada de seu primo rabugento comprara um andar do armazém de vinagre um ano atrás – e tudo correra bem. Aparentemente, estariam aptos a algum tipo de dedução fiscal caso todos eles convertessem um de seus prédios em cooperativas de pelo menos duas unidades. Por esse motivo, o pai de Richard vinha tentando fazer todos os netos adotarem essa medida.
– Por que está fazendo isso? – perguntou a Richard, com a voz baixa, depois de se recuperar. – Por que eu?
Richard deu de ombros.
– Fico muito sozinho aqui – falou. – Não que eu vá aparecer no seu apartamento toda hora. Mas às vezes seria bom saber que tem outra alma viva neste prédio. E você é o mais responsável de todos os meus amigos. Não que haja muita competição nesse sentido. E gosto da sua companhia. E também... – Parou de falar. – Prometa que não vai se zangar.
– Ah, céus – falou. – Tudo bem, prometo.
– Willem me contou sobre o que aconteceu, você sabe, quando estava tentando subir para o apartamento no ano passado e o elevador quebrou. Isso não é nenhum motivo de vergonha, Jude. Ele só está preocupado com você. De qualquer forma, falei para ele que lhe faria essa proposta, e Willem achou, ou melhor, acha, que aqui é um lugar onde poderá morar por bastante tempo: para sempre. E o elevador nunca vai enguiçar aqui. E, caso enguice, eu estarei bem aqui embaixo. Quero dizer... obviamente você pode comprar um apartamento em outro lugar, mas espero que pense na ideia de se mudar para cá.
Naquele momento, não se sente com raiva, mas sim exposto: não só a Richard, mas também a Willem. Sempre tenta esconder ao máximo as coisas de Willem, não porque não confie nele, mas sim porque não quer que Willem o veja como uma pessoa necessitada, como alguém que precise de cuidados e de ajuda. Ele quer que Willem e todos os outros o vejam como alguém confiável e seguro, alguém a quem possam recorrer quando tiverem problemas, em vez de ser sempre ele a procurá-los. Sente-se envergonhado, pensando nas conversas que giraram em torno dele – entre Willem e Andy, entre Willem e Harold (as quais tem certeza que acontecem com uma frequência maior do que teme) e agora entre Willem e Richard – e também triste por Willem passar tanto tempo se preocupando com ele, tendo de pensar nele como teria de pensar em Hemming, caso estivesse vivo: como alguém que precisa de cuidados, alguém cujas decisões têm de ser tomadas por outras pessoas. Imagina-se mais uma vez como aquele homem velho: seria possível que Willem tivesse a mesma visão, que os dois compartilhem o mesmo medo, que seu fim pareça tão inevitável para Willem como parece a ele próprio?
Lembra então uma conversa que teve com Willem e Philippa uma vez: Philippa estava falando sobre como um dia, quando ela e Willem fossem velhos, assumiriam a casa e os pomares dos pais dela no sul de Vermont.
– Já posso até ver como vai ser – disse ela. – Os filhos terão voltado a morar com a gente, pois não conseguirão se dar bem no mundo real, e eles terão seis filhos no total, com nomes como Buster, Carrot e Vixen, que correrão pelados pela casa e não irão à escola, e eu e Willem teremos que os bancar até o fim de nossos dias...
– O que os seus filhos vão fazer da vida? – perguntou Jude, sendo prático mesmo ao fazer uma brincadeira.
– Oberon fará instalações de arte usando somente produtos alimentícios e Miranda tocará uma cítara com fios de costura no lugar das cordas – respondeu Philippa, fazendo-o sorrir. – Nunca sairão da pós-graduação e Willem precisará continuar trabalhando até ficar tão acabado que terei de empurrá-lo pelo set numa cadeira de rodas – parou de falar naquele ponto, enrubescendo, mas foi em frente após uma pausa – para poder pagar todos os estudos e experimentos deles. Já eu terei de largar o mundo dos figurinos e abrir uma empresa de molho de maçã orgânico para pagar as dívidas e manter a casa, que vai ser uma enorme e gloriosa espelunca cheia de cupins por todos os lados, e teremos uma mesa gigantesca de madeira, toda arranhada, grande o bastante para os doze.
– Treze – disse Willem, de repente.
– Por que treze?
– Porque... Jude também vai morar com a gente.
– Ah, vou? – perguntou descontraidamente, mas feliz e aliviado por ser incluído na visão de Willem para a terceira idade.
– Mas é claro. Vai ficar instalado no chalé de hóspedes, e toda manhã Buster vai levar waffles de trigo sarraceno na sua casa, já que você estará farto demais de todos nós para comer à mesma mesa, e depois do café da manhã eu vou bater papo com você para me esconder de Oberon e Miranda, que ficarão atrás de mim para que eu faça comentários inteligentes e encorajadores sobre seus projetos mais recentes.
Willem sorriu para ele, que retribuiu o sorriso, embora pudesse ver que Philippa deixara de sorrir e encarava a mesa. Ela ergueu a cabeça e seus olhos se cruzaram por meio segundo, e então ela desviou o olhar, rapidamente.
Segundo acreditava, foi pouco depois daquilo que a atitude de Philippa em relação a ele mudou. Não era uma coisa óbvia, que todos percebessem – talvez nem mesmo ela percebesse –, mas, ao passo que antes costumava chegar em seu apartamento e a encontrava desenhando na mesa, e os dois conversavam amigavelmente enquanto ele bebia um copo de água examinando seus esboços, agora ela simplesmente acenava com a cabeça para ele e dizia “Willem foi ao mercado” ou “Ele já vai voltar”, por mais que Jude não tivesse perguntado (ela sempre era bem-vinda em Lispenard Street, quer Willem estivesse por lá ou não), e ele ficava por perto um tempinho até ficar claro que ela não estava a fim de papo. Diante disso, seguia para seu quarto para trabalhar.
Podia entender por que Philippa se ressentia dele: Willem o convidava para ir a todos os lugares com eles, o incluía em todos os planos, até em sua aposentadoria, até mesmo no sonho de Philippa de uma velhice ao lado do marido. Depois daquilo, passou a ter o cuidado de recusar todos os convites de Willem, mesmo para coisas que não envolviam Philippa – se eles fossem a uma festa na casa de Malcolm para a qual também fora convidado, saía separado dos dois, e fez questão de convidar Philippa para ir a Boston passar o Dia de Ação de Graças, embora no fim ela não tenha ido. Chegou até mesmo a tentar conversar com Willem sobre o que vinha percebendo, para que ele abrisse os olhos para o que ela certamente estava sentindo.
– Não gosta dela? – perguntou Willem, preocupado.
– Você sabe que eu gosto de Philippa – respondeu. – Mas acho... acho que você deveria passar mais tempo só com ela, Willem, vocês dois e mais ninguém. Deve ser chato para ela me ver sempre por perto.
– Ela falou isso para você?
– Não, Willem, claro que não. Só estou supondo. Pela minha vasta experiência com mulheres, sabe?
Depois, quando Willem e Philippa romperam, sentiu-se culpado, como se fosse o único responsável. Mas, mesmo antes disso, ele se questionava se Willem também chegara à conclusão de que nenhuma namorada séria toleraria sua presença constante na vida do amigo; questionava se Willem tentava elaborar planos alternativos para ele, de modo que não terminasse vivendo num chalé na propriedade que Willem e sua esposa teriam um dia, um modo de não se tornar o amigo triste e encalhado de Willem, uma lembrança inútil de sua longínqua vida infantil. Ficarei só, decidiu. Não queria ser aquele que arruinaria as chances de Willem ser feliz: queria que Willem tivesse o pomar, a casa atacada por cupins, os netos e a esposa que tinha ciúmes de sua companhia e atenção. Queria que Willem tivesse tudo o que merecia, tudo o que desejasse. Queria que todos os seus dias fossem livres de preocupações, obrigações e responsabilidades – mesmo que aquela preocupação, aquela obrigação e aquela responsabilidade fossem ele.
Na semana seguinte, o pai de Richard – um homem alto, sorridente e simpático, a quem conhecera na primeira mostra de Richard, três anos antes – enviou-lhe o contrato. Jude pediu a um amigo da faculdade de direito, um advogado do ramo imobiliário, que o examinasse com ele. Recebeu também a ficha técnica do prédio, que entregou a Malcolm. O preço quase o fizera vomitar, mas seu colega de classe disse que ele tinha de aceitar:
– É uma tremenda barganha, Jude. Você nunca, nunca, nunca irá encontrar um imóvel desse tamanho, naquela vizinhança, por esse preço.
Depois de analisar a ficha e em seguida o espaço, Malcolm lhe disse a mesma coisa:
– Compre.
Foi o que ele fez. E por mais que ele e os Goldfarb tenham estipulado um cronograma prolongado de pagamento, com duração de dez anos, e um plano de aluguel com escopo de aquisição sem juros, Jude estava determinado a quitar o apartamento o mais rápido possível. A cada duas semanas, separava metade do salário para o apartamento e a outra metade para suas economias e despesas diárias. Contou a Harold que mudara de casa em seu telefonema semanal (“Graças a deus” disse Harold: jamais gostara de Lispenard Street), mas não mencionou que havia comprado o imóvel, pois não queria que Harold se sentisse obrigado a lhe oferecer dinheiro. De Lispenard Street levou apenas o colchão, o abajur, a mesa e uma cadeira, colocando tudo num canto do apartamento novo. À noite, às vezes, erguia o olhar dos documentos do trabalho e pensava em como fora ridícula aquela decisão: Como poderia preencher todo aquele espaço? Como um dia poderia ter a sensação de que aquilo lhe pertencia? Lembrava-se de Boston, da Hereford Street, e de como lá havia sonhado apenas com um quarto, com uma porta que um dia ele pudesse fechar. Mesmo na temporada que passara em Washington, trabalhando para Sullivan, dormia na sala de um apartamento de um quarto que dividia com um assistente legislativo, a quem via raramente – Lispenard Street fora a primeira vez na vida que tivera um quarto, um quarto de verdade, com uma janela de verdade, só para ele. Mas, um ano depois de se mudar para Greene Street, Malcolm instalou as paredes e o lugar começou a ficar um pouquinho mais confortável, e, um ano depois, Willem foi morar lá e o apartamento ficou ainda mais agradável. Via Richard com menos frequência do que imaginara – ambos estavam sempre viajando –, mas nas noites de domingo passava às vezes no estúdio dele e o ajudava em algum de seus projetos, polindo pequenos galhos com uma lixa de papel até ficarem lisos, ou recortando as barbas das hastes de um punhado de penas de pavão. O estúdio de Richard era o tipo de lugar que o teria encantado na infância – havia bacias e tigelas com coisas maravilhosas por todos os lados: gravetos, pedras, besouros secos, penas, minúsculos pássaros empalhados em cores vívidas, blocos de várias formas feitos com alguma madeira macia e pálida – e às vezes tinha vontade de abandonar seu trabalho e simplesmente sentar no chão para brincar, algo que não conseguira fazer quando criança por estar sempre ocupado com outras coisas.
Passados três anos, havia quitado o apartamento e começara imediatamente a economizar para a reforma. Levou menos tempo do que imaginara, em parte devido a algo que acontecera com Andy. Aparecera um dia para sua consulta no Alto Manhattan, e Andy entrara na sala, com um ar sério e estranhamente triunfante.
– O que foi? – perguntara, e Andy lhe entregara um artigo que recortara de uma revista sem dizer nada.
Leu o que estava escrito: tratava-se de um relatório acadêmico, comprovando que uma cirurgia a laser semiexperimental desenvolvida recentemente e vista como grande promessa na remoção sem danos de queloides na verdade causava efeitos adversos em médio prazo: embora os queloides fossem eliminados, os pacientes desenvolviam feridas similares a queimaduras, em carne viva, e a pele sob as cicatrizes se tornava muito mais frágil e suscetível a rompimentos e rachaduras, o que resultava em bolhas e infecções.
– É isso que está pensando em fazer, não é? – perguntou Andy, enquanto ele continuava sentado com as folhas na mão, incapaz de falar. – Eu conheço você, Judy. E sei que marcou uma consulta no escritório daquele charlatão do Thompson. Não negue; eles telefonaram atrás da sua ficha. Eu não mandei. Por favor, não faça isso, Jude. Estou falando sério. A última coisa de que precisa é uma ferida aberta nas costas além das da perna. – Como ele não abriu a boca, Andy pediu: – Fale comigo.
Jude balançou a cabeça. Andy tinha razão: também vinha economizando para fazer aquilo. Assim como suas bonificações anuais e a maior parte de suas economias, todo o dinheiro que ganhara muito tempo atrás como tutor de Felix fora utilizado no apartamento, mas, nos últimos meses, vendo-se perto de quitar as últimas parcelas, começara a economizar novamente para a cirurgia. Havia pensado em tudo: faria a cirurgia e depois acabaria de economizar para a reforma. Imaginava como seria: suas costas voltariam a ser lisas como o próprio piso, o rastro grosso e inflexível das cicatrizes seria vaporizado em segundos e, com ele, toda a marca do tempo que passara no orfanato e na Filadélfia. O registro daquela época seria apagado de seu corpo. Tentava esquecer com todas as suas forças, tentava todos os dias, mas, por mais que tentasse, ali estavam as cicatrizes para lembrá-lo, provas de que o que fingia não ter acontecido na verdade acontecera.
– Jude – disse Andy, sentando ao seu lado na maca. – Sei que ficou desapontado. E prometo que, assim que existir um tratamento eficaz e seguro, vou falar para você. Sei que isso o incomoda. Estou sempre atento às novidades que possam se aplicar ao seu caso. Mas, por enquanto, não existe nada, e minha consciência me impede de deixar que faça isso consigo mesmo. – Jude ficou em silêncio; os dois ficaram. – Acho que deveria ter perguntado com mais frequência, Jude, mas... você sente dor? As cicatrizes causam algum desconforto? Sente a pele esticada?
Ele assentiu com a cabeça.
– Veja, Jude – disse Andy após uma pausa. – Existem alguns cremes que posso lhe dar para ajudar um pouco, mas vai precisar de alguém para aplicá-los todas as noites, caso contrário, não surtirão efeito. Deixaria alguém fazer isso por você? Willem? Richard?
– Não consigo – respondeu, falando para o artigo de revista em suas mãos.
– Tudo bem – disse Andy. – Vou escrever a receita mesmo assim, e mostrarei a você o que fazer. Não se preocupe, eu perguntei como se faz a um dermatologista de verdade, não é um método que eu mesmo inventei. Só não sei dizer se será eficaz caso você aplique por conta própria. – Ele desceu da maca. – Pode abrir o roupão e virar para a parede?
Ele obedeceu, e sentiu a mão de Andy sobre seus ombros, depois descendo lentamente pelas costas. Pensou que Andy fosse dizer, como fazia às vezes, algo do tipo “Não é tão ruim assim, Jude”, ou “Não tem nada de que se envergonhar”, mas não falou nada desta vez. Simplesmente passou as mãos pelo seu corpo, como se suas próprias palmas fossem lasers, algo que estivesse pairando sobre ele e o curando, tornando sua pele saudável e livre de marcas. Até que Andy finalmente falou para ele se cobrir novamente, o que fez, virando em seguida.
– Lamento muito, Jude – disse Andy, e agora era ele quem não conseguia olhar para Jude. – Quer ir comer alguma coisa? – perguntou após o fim da consulta, enquanto ele colocava a roupa, mas Jude balançou a cabeça.
– Preciso voltar para o escritório.
Andy ficou em silêncio, mas, quando Jude estava prestes a ir embora, o interrompeu.
– Jude – falou –, sinto muito, de verdade. Não gosto de ter que acabar com seus sonhos.
Jude acenou com a cabeça. Sabia que Andy se sentira mal em fazer aquilo, mas, naquele exato momento, não conseguia ficar perto dele, queria apenas ir embora.
No entanto, lembrou a si mesmo – estava decidido a ser mais realista, a parar de pensar que um dia pudesse melhorar – que o fato de não poder ir em frente com a cirurgia significava que agora tinha dinheiro para Malcolm começar a reforma para valer. Desde que comprara o apartamento, observara Malcolm ir se tornando mais ousado e imaginativo em seu trabalho, e, assim, os planos que esboçara quando comprara o apartamento foram alterados, revisados e melhorados inúmeras vezes: neles, Jude conseguia enxergar o desenvolvimento do que até ele mesmo podia reconhecer como uma confiança estética, uma idiossincrasia segura. Pouco depois que ele começara a trabalhar na Rosen Pritchard & Klein, Malcolm pedira as contas na Ratstar e, ao lado de dois ex-colegas e de Sophie, uma conhecida da faculdade de arquitetura, abrira uma firma chamada Bellcast; o primeiro trabalho do escritório foi a renovação do pied-à-terre de um dos amigos dos pais de Malcolm. A Bellcast trabalhava na maior parte do tempo com projetos residenciais, mas, no ano anterior, ganhara a licitação, pela primeira vez, para uma obra pública, um museu de fotografia em Doha, e Malcolm – assim como Willem, assim como ele próprio – passava cada vez mais tempo fora da cidade.
– Nunca subestime a importância de ter pais ricos – resmungou um idiota numa das festas de JB, amargurado, ao descobrir que a Bellcast terminara em segundo lugar numa competição de projetos para um memorial em Los Angeles em homenagem aos nipo-americanos feitos prisioneiros na guerra, e JB começou a berrar com ele antes que Jude e Malcolm tivessem a oportunidade; os dois apenas sorriram um para o outro atrás de JB, orgulhosos em vê-lo defender Malcolm com tamanha veemência.
Ele agora via, a cada nova planta para a reforma no apartamento de Greene Street, corredores aparecerem e sumirem, a cozinha aumentar e diminuir, as estantes de livros deixarem de cobrir toda a parede norte, onde não havia janelas, para a sul, onde havia, e depois voltarem para a norte. Um dos projetos eliminava todas as paredes.
– É um loft, Judy, e você precisa respeitar sua integridade – explicara Malcolm, mas ele se manteve firme: precisava de um quarto; precisava de uma porta que pudesse fechar e trancar.
Já em outra versão, Malcolm tentara bloquear por completo as janelas viradas para o sul, que fora exatamente o motivo pelo qual Jude escolhera o sexto andar, e que depois o próprio Malcolm admitiu se tratar de uma ideia idiota. Mas gostava de ver Malcolm trabalhando, ficava tocado em perceber quanto tempo o amigo dedicara – mais do que ele mesmo – pensando em como ele iria viver. E agora estava prestes a acontecer. Agora tinha dinheiro suficiente para Malcolm realizar até suas mais excêntricas fantasias arquitetônicas. Agora tinha o bastante para todo e qualquer móvel que Malcolm já sugerira, para cada tapete e cada vaso.
Nos últimos tempos, vinha debatendo com Malcolm sobre seus planos mais recentes. Na última vez que analisaram os esboços, três meses atrás, percebera um elemento em torno do vaso sanitário do quarto principal que não conseguira identificar.
– O que é isso? – perguntou a Malcolm.
– Barras de apoio – respondeu Malcolm, abruptamente, como se, ao responder rapidamente, a coisa perdesse a importância. – Judy, eu sei o que você vai dizer, mas...
Mas ele já estudava as plantas com mais atenção, examinando as minúsculas anotações de Malcolm sobre o banheiro, onde acrescentara barras de ferro ao chuveiro e também ao redor da banheira, e sobre a cozinha, onde abaixara a altura de algumas bancadas.
– Mas nem estou usando a cadeira de rodas – argumentou, consternado.
– Mas, Jude – começou Malcolm, e depois parou. Jude sabia o que ele queria dizer: Mas já usou. E vai usar novamente. Mas não falou isso. – São apenas padrões recomendados pela Lei dos Americanos Portadores de Deficiências – preferiu dizer.
– Mal – falou Jude, chateado por ter se aborrecido. – Eu entendo. Mas não quero que este seja o apartamento de um aleijado.
– Não vai ser, Jude. Será o seu apartamento. Mas não acha que talvez, só por precaução, devêssemos...
– Não, Malcolm. Pode tirar tudo. Estou falando sério.
– Mas não acha que, só por questões práticas...
– Agora você está interessado em questões práticas? O homem que queria que eu morasse num espaço de quinhentos metros quadrados sem nenhuma parede? – Parou. – Desculpe, Mal.
– Tudo bem, Jude – disse Malcolm. – Eu entendo. De verdade.
Agora Malcolm está à sua frente e abre um sorriso.
– Tenho algo para lhe mostrar – diz, acenando com o tubo de papel enrolado em sua mão.
– Malcolm, obrigado – diz. – Mas por que não damos uma olhada mais tarde?
Tinha marcado hora com o alfaiate; não quer chegar atrasado.
– Vou ser breve – afirma Malcolm – e deixarei as plantas com você.
Malcolm senta ao lado dele e alisa o maço de folhas, pedindo a Jude que segure uma das pontas para então explicar as coisas que alterou e aperfeiçoou.
– As bancadas estão de volta à altura normal – disse Malcolm, apontando para a cozinha. – Nada de barras de apoio no chuveiro, mas coloquei aqui um rebordo que você pode usar como assento, só por precaução. Juro que vai ficar bonito. Deixei as barras em torno do vaso sanitário... pense um pouco a respeito, pode ser? Podemos instalar por último e, se você realmente detestar, as deixaremos de fora, mas... mas eu as colocaria, Judy.
Ele concorda com a cabeça, ainda relutante. Não sabe ainda, mas, anos mais tarde, ficará grato por Malcolm ter pensado em seu futuro, mesmo quando ele próprio não queria: vai perceber que em seu apartamento as passagens são mais largas; que o banheiro e a cozinha são maiores que o normal, de modo que uma cadeira de rodas possa fazer uma volta completa, sem obstáculos; que as portas são amplas e que, em todos os pontos possíveis, são também de correr; que não há um armário debaixo da pia do banheiro principal; que o armário mais alto abaixa ao toque de um botão pneumático; que há um assento na banheira; e por fim, que Malcolm vencera a discussão sobre as barras em volta do vaso sanitário. Sentirá certo espanto amargurado ao notar que mais uma pessoa em sua vida – Andy, Willem, Richard e agora Malcolm – conseguira prever seu futuro, e soubera que não poderia ser evitado.
Na loja, as medidas de Malcolm são tiradas para a confecção de um terno azul-marinho e outro cinza-escuro, e Franklin, o alfaiate, pergunta a Jude por que não o via há dois anos.
– Estou certo de que é culpa minha – diz Malcolm, sorrindo.
Em seguida, os dois vão almoçar juntos. É bom tirar um sábado de folga, pensa ele enquanto bebem limonada e comem couve-flor assada polvilhada de zaatar num restaurante israelense lotado, próximo à loja de Franklin. Malcolm está animado para começar a trabalhar no apartamento, e ele também.
– O momento é perfeito – diz Malcolm o tempo todo. – Vou pedir para o pessoal do escritório mandar tudo para a prefeitura na segunda e, quando tivermos a aprovação, terei acabado o projeto de Doha e vou poder começar logo em seguida. Durante a obra, você pode ficar na casa de Willem.
Malcolm acabara de dar os últimos retoques no apartamento de Willem, que Jude supervisionara mais que o amigo; ao fim do processo, estava tomando as decisões em nome de Willem em relação à escolha das cores. Malcolm fizera um belo trabalho, segundo ele; não se importaria nem um pouco em passar o próximo ano ali.
Ainda é cedo quando acabam de almoçar, então decidem dar um tempo na calçada do lado de fora. Chovera a semana inteira, mas hoje o céu está azul e ele se sente forte, até mesmo um pouco agitado, e pergunta a Malcolm se quer caminhar um pouco. Ele percebe que Malcolm hesita, olhando-o de cima a baixo como se tentasse determinar se seu corpo estaria apto à atividade, mas então abre um sorriso e concorda, e os dois partem na direção oeste, depois norte, rumo ao Village. Passam pelo prédio na Mulberry Street onde JB costumava morar antes de se mudar mais para o leste e por um minuto permanecem em silêncio, todos os dois, ele sabe, pensando em JB e no que andaria fazendo, cientes e ao mesmo tempo ignorantes dos motivos pelos quais o amigo não vinha atendendo aos telefonemas deles, nem aos de Willem, nem tampouco as mensagens de texto ou os e-mails. Os três haviam conversado inúmeras vezes entre si, e também com Richard, Ali e os Henry Youngs, sobre o que fazer, mas em todas as tentativas que fizeram de encontrá-lo, JB sempre conseguia escapar, ou então os bloqueava, ou os ignorava.
– Só podemos esperar até a coisa piorar – dissera Richard a certa altura, e Jude tinha medo de que estivesse certo.
Às vezes, é como se JB não fosse mais deles, e não há nada que possam fazer a não ser esperar pelo momento em que tiver uma crise que só eles poderão resolver, e assim conseguirão cair de paraquedas em sua vida mais uma vez.
– Certo, Malcolm. Tenho uma pergunta que gostaria fazer – diz ele, enquanto caminham pelo trecho da Hudson Street que fica deserto nos fins de semana, com suas calçadas sem árvores e sem pessoas. – Afinal, vai casar com Sophie ou não? Nós todos queremos saber.
– Céus, Jude. Não sei – começa Malcolm, mas parece aliviado, como se esperasse que alguém lhe fizesse aquela pergunta há muito tempo. E talvez esperasse mesmo.
Ele faz uma lista dos possíveis pontos negativos (o casamento é algo tão convencional; passa uma impressão de algo permanente; não está muito interessado na ideia de se casar, mas teme que Sophie esteja; seus pais vão tentar se envolver; há algo deprimente em passar o resto da vida ao lado de outra arquiteta; ele e Sophie são cofundadores da firma – se algo acontecer entre eles, o que será da Bellcast?) e positivos, que também parecem negativos (se não pedir sua mão, acha que Sophie o deixará; seus pais lhe enchem o saco sobre o assunto sem parar e ele gostaria que o deixassem em paz; ele ama Sophie de verdade e sabe que não encontrará ninguém melhor que ela; está com trinta e oito anos e tem a sensação de que precisa fazer algo). Ao ouvir Malcolm, tenta não sorrir: sempre gostara daquela característica do amigo, de como é tão decidido ao desenhar e em seus projetos e, ao mesmo tempo, no restante de sua vida, consegue ser tão indeciso, tão aberto a compartilhá-la. Malcolm nunca fora de fingir ser mais seguro, mais confiante ou mais descolado do que realmente era e, à medida que eles envelhecem, ele aprecia e admira mais e mais sua ingenuidade e candura, sua total confiança nos amigos e em suas opiniões.
– O que você acha, Jude? – finalmente pergunta Malcolm. – Eu queria mesmo conversar com você sobre isso. Quer sentar em algum lugar? Está com tempo? Sei que Willem está voltando para casa.
Ele podia ser mais como Malcolm, pensou; podia pedir ajuda aos amigos, podia ser vulnerável perto deles. Afinal, é algo que já fora; só que não por escolha própria. Mas eles sempre o trataram bem, nunca tentaram deixá-lo desconfortável. Será que isso não merecia consideração? Talvez, por exemplo, peça a Willem para ajudá-lo a cuidar das costas: se Willem sentir repulsa pela sua aparência, nunca dirá nada. E Andy estava certo – era muito difícil passar os cremes por conta própria, por isso acabara desistindo, embora não tenha jogado nenhum deles fora.
Tenta pensar num modo para começar a conversa com Willem, mas descobre que não consegue passar da primeira palavra – Willem – nem mesmo em sua imaginação. E, naquele instante, percebe que não conseguirá pedir aquilo a Willem: Não porque não confie em você, diz a Willem, com quem nunca terá aquela conversa. Mas porque não consigo suportar que você me veja como realmente sou. Agora, quando pensa na velhice, ainda está sozinho, mas no apartamento de Greene Street. Nesses devaneios, vê Willem numa casa em algum lugar verde e cheio de árvores – nas montanhas Adirondacks ou Berkshires – e Willem está feliz, cercado por pessoas que o amam, e talvez apareça algumas vezes por ano na cidade para visitá-lo em Greene Street e passarem a tarde juntos. Nesses sonhos, está sempre sentado, então não sabe se consegue andar ou não, mas sabe que fica em êxtase por ver Willem, sempre, e que, ao fim de todos seus encontros, é capaz de dizer para ele não se preocupar, que pode tomar conta de si mesmo, reassegurando-o numa espécie de benção, alegre por ter forças para não arruinar o idílio de Willem com suas necessidades, sua solidão, seus desejos.
Mas aquilo, como lembra a si mesmo, só acontecerá muitos anos à frente. Naquele momento o que existe é Malcolm, e seu rosto aflito e esperançoso, esperando por uma resposta sua.
– Ele só volta à noite – diz a Malcolm. – Temos toda a tarde, Mal. Tenho todo o tempo de que você precisar.