Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 4 de 19 · parte 1/4

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Uma Vida Pequena

II. O Pós-Homem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

[ II ]

 

O Pós-Homem

1

 

OS SÁBADOS ERAM DEDICADOS ao trabalho, mas os domingos eram para caminhar. As caminhadas começaram por necessidade cinco anos antes, quando se mudara para a cidade e pouco sabia sobre ela: a cada semana, ele escolhia uma vizinhança diferente e caminhava de Lispenard Street até ela, para então circulá-la, cobrindo o perímetro com precisão, e depois voltar para casa. Ele nunca pulava um domingo sequer, a não ser que o tempo praticamente impossibilitasse sua saída e, mesmo agora, mesmo depois de ter caminhado por todas as vizinhanças de Manhattan, e por muitas no Brooklyn e no Queens também, ele ainda saía de casa todo domingo às dez e só voltava após completar sua rota. As caminhadas há muito tinham deixado de ser um prazer, por mais que agora não lhe causassem nenhum desprazer, tampouco – era simplesmente algo que fazia. Por um período, também imaginou que pudessem ser mais que um exercício, talvez algo regenerativo, como uma sessão amadora de fisioterapia, apesar de Andy discordar dele e até mesmo desaprovar suas caminhadas.

– Não vejo problema em você querer exercitar as pernas – dissera ele. – Mas, nesse caso, deveria nadar, e não se arrastar de um lado e para o outro pelas calçadas. – Ele não se importaria em nadar, na verdade, mas não havia um lugar reservado o bastante para isso, então não o fazia.

Willem ocasionalmente o acompanhara nessas caminhadas, e agora, caso sua rota o levasse a passar pelo teatro, ele calculava o tempo para poder encontrá-lo após a matinê na barraca de suco um quarteirão abaixo. Enquanto bebiam, Willem contava como fora o espetáculo e comprava uma salada para comer antes da sessão da noite, e depois ele partia para o sul, na direção de casa.

Ainda moravam em Lispenard Street, embora ambos pudessem ter se mudado para seus próprios apartamentos: ele, seguramente; Willem, provavelmente. Mas nenhum dos dois jamais mencionara para o outro a ideia de se mudar, e assim foram ficando. Tinham, no entanto, anexado a metade esquerda da sala de estar para fazer um novo quarto, e a turma se reuniu para construir uma parede grumosa de gesso num fim de semana, então agora, ao entrar no apartamento, só havia a luz cinzenta de duas janelas, e não de quatro, para recebê-lo. Willem ficou com o quarto novo e ele permaneceu no antigo.

Exceto quando o visitava na entrada de funcionários do teatro, parecia que nunca via Willem naqueles dias e, apesar de o amigo sempre dizer que era preguiçoso, ele parecia estar constantemente trabalhando, ou tentando trabalhar: três anos atrás, em seu vigésimo nono aniversário, ele jurara deixar o Ortolan antes de completar trinta anos, e duas semanas antes de seu trigésimo aniversário, quando os dois estavam no apartamento, espremidos na sala de estar recém-dividida, e Willem refletia se poderia de fato deixar o emprego, o telefone tocou. Era o telefonema que ele vinha esperando há anos. A peça que resultara daquele telefonema alcançou um certo sucesso e colocou Willem em destaque o suficiente para que pudesse pedir as contas no Ortolan treze meses mais tarde, apenas um ano após o prazo que ele mesmo estipulara. Ele assistira à peça de Willem – um drama familiar chamado O teorema Malamud, sobre um professor de literatura sofrendo os primeiros sinais de demência, e seu filho distante, um físico – cinco vezes, duas com Malcolm e JB, e uma com Harold e Julia, que foram passar o fim de semana na cidade. Toda vez ele conseguia esquecer que aquele era seu velho amigo, seu companheiro de apartamento, em cima do palco, e ao fim do espetáculo se sentia orgulhoso e melancólico, como se a própria altura do tablado anunciasse a ascendência de Willem a um novo plano de vida, um plano que não era de fácil acesso para ele.

Sua própria proximidade com os trinta não despertara nenhum pânico latente, nada de atividades afobadas, nenhuma necessidade de rearranjar os contornos de sua vida para que se parecesse um pouco mais com o que se esperava da vida de uma pessoa de trinta anos. O mesmo, porém, não valia para seus amigos, e ele passara os últimos três anos da casa dos vinte ouvindo seus louvores àquela década, suas narrativas detalhadas do que tinham e não tinham feito, e listas de suas autodepreciações e de suas promessas. As coisas tinham mudado, então. O segundo quarto, por exemplo, foi erguido parcialmente em razão do medo de Willem de ter vinte e oito anos e ainda dividir o mesmo dormitório com seu colega de quarto da faculdade, e aquela mesma ansiedade – o medo de que, como num conto de fadas, a entrada em sua quarta década de vida os transformasse em algo diferente, algo fora do controle, a não ser que evitassem aquilo por meio de suas próprias decisões radicais – inspirara a apressada saída do armário de Malcolm, que depois de fazer o anúncio aos pais, mudara de ideia no ano seguinte quando começara a namorar uma mulher.

Mas, apesar das aflições dos amigos, ele sabia que adoraria chegar aos trinta, pelo mesmo motivo que eles detestavam: por ser uma época inegável de maturidade. (Estava ansioso para ter trinta e cinco, para poder dizer que já era adulto por mais que o dobro de tempo que fora criança.) Na infância, os trinta eram uma idade distante, inimaginável. Lembrava-se claramente de quando era um rapazinho bem jovem – isso foi quando vivia no mosteiro – e perguntara ao Irmão Michael, que gostava de lhe contar sobre as viagens que fizera em sua outra vida, quando também poderia viajar.

– Quando for mais velho – respondera o Irmão Michael.

– Quando? – perguntara. – No ano que vem? – Naquela época, até mesmo um mês parecia uma eternidade.

– Daqui a muitos anos – respondera o Irmão Michael. – Quando for mais velho. Quando tiver trinta anos. – E agora, dentro de algumas poucas semanas, ele teria.

Naqueles domingos, enquanto se preparava para sair em sua caminhada, ele às vezes parava de pés descalços na cozinha, e o apartamentinho feio lhe parecia uma espécie de milagre. Ali, o tempo era todo seu, o espaço era seu, e todas as portas podiam ser fechadas, todas as janelas podiam ser trancadas. Parava diante do minúsculo armário no vestíbulo – para dizer a verdade, uma alcova, no alto da qual penduraram um saco de juta – e admirava os suprimentos mantidos ali dentro. Em Lispenard Street não dava para sair às pressas tarde da noite para comprar um rolo de papel higiênico numa lojinha da West Broadway, não era possível torcer o nariz ao cheirar caixa de leite estragado há muito tempo, encontrada num canto dos fundos da geladeira: ali, sempre havia uma reserva de tudo. Ali, tudo era substituído quando necessário. Ele mesmo garantia que fosse assim. No primeiro ano que passaram em Lispenard Street, sentira uma certa vergonha de seus hábitos, os quais sabia pertencerem a alguém muito mais velho, provavelmente do sexo feminino, e escondia seu estoque de toalhas de papel embaixo da cama, enfiava cupons de desconto na pasta de trabalho para olhar melhor depois, quando Willem não estivesse em casa, como se fossem alguma forma exótica de pornografia. Mas, um dia, Willem descobrira seu segredo ao procurar uma meia perdida que chutara para baixo da cama.

Sentira-se envergonhado.

– Por quê? – perguntara-lhe Willem. – Acho ótimo. Graças a deus você está cuidando desse tipo de coisa.

Mas, ainda assim, ele se sentira vulnerável. Era mais uma prova somada ao arquivo abarrotado que atestava seu preciosismo exagerado, sua inabilidade natural e irreparável de ser o tipo de pessoa que tentava fazer os outros acreditarem que era.

E, mesmo assim – como em muitas outras coisas –, ele não conseguia evitar. A quem poderia explicar que encontrava tanta satisfação e segurança na desamada Lispenard Street, e em seus estoques dignos de um abrigo de guerra, quanto nos seus diplomas e no seu trabalho? Ou que o tempo em que ficava sozinho na cozinha era quase uma meditação, o único momento em que se via relaxado de verdade, e sua mente parava de rascunhar o futuro, planejando com antecedência os milhares de pequenos desvios e acobertamentos da verdade, dos fatos, que necessitava cada interação sua com o mundo e seus habitantes? Para ninguém, sabia ele, nem mesmo para Willem. Mas ele tivera anos para aprender a manter seus pensamentos para si; diferentemente dos amigos, aprendera a não compartilhar provas de suas esquisitices como forma de se distinguir dos outros, por mais que ficasse feliz e orgulhoso quando compartilhavam as suas com ele.

Caminharia hoje até o Upper East Side; subiria pela West Broadway até o Washington Square Park, pegaria a University e atravessaria o Union Square Park, seguindo pela Broadway até chegar à Quinta Avenida, na qual se manteria até a rua 86, voltando pela Madison até a 24, de onde partiria para o leste até a Lexington antes de seguir para o sul e depois a leste até a Irving, onde encontraria Willem do lado de fora do teatro. Fazia meses, quase um ano, que ele não seguia aquele percurso, tanto porque era longe quanto porque já passava todo sábado no Upper East Side, numa casa não muito longe da dos pais de Malcolm, onde dava aulas a um menino de doze anos chamado Felix. Mas agora estavam no meio de março, nas férias de primavera, e Felix e a família estavam em Utah, o que significava que não havia risco algum de esbarrar com eles.

O pai de Felix era amigo de amigos dos pais de Malcolm, e fora o pai de Malcolm quem lhe indicara para o trabalho.

– Não estão lhe pagando o bastante lá na Promotoria, não é mesmo? – perguntara o Sr. Irvine. – Não sei por que você não me deixa apresentá-lo a Gavin. – Gavin fora colega do Sr. Irvine na faculdade de direito, e agora dirigia uma das firmas mais importantes da cidade.

– Pai, ele não quer trabalhar numa firma privada – alegara Malcolm, mas o pai continuara como se o filho nem tivesse aberto a boca, e Malcolm se acomodara na cadeira. Ele se sentira mal por Malcolm, mas também irritado, pois pedira ao amigo que sondasse os pais discretamente para saber se conheciam alguém que tivesse um filho que precisasse de aulas particulares, e não que perguntasse diretamente a eles.

– Mas, na verdade – lhe dissera o pai de Malcolm –, acho sensacional você querer trilhar sua própria estrada sozinho. – (Malcolm se refestelou ainda mais na cadeira.) – Mas precisa tanto assim de dinheiro? Eu não sabia que o governo federal estava pagando assim tão mal, mas faz bastante tempo que trabalhei no serviço público. – Ele sorriu.

Jude sorriu de volta.

– Não – respondeu –, o salário é bom. – (E era. Não seria bom para o Sr. Irvine, é lógico, nem para Malcolm, mas era mais dinheiro que ele já sonhara ganhar, e recebia a cada duas semanas, num acúmulo constante de números.) – Só estou economizando para pagar uma entrada.

Ele viu o rosto de Malcolm girar em sua direção, e lembrou a si mesmo de contar a Willem a mentira que contara ao pai de Malcolm antes que o próprio Malcolm o fizesse.

– Ah, fico feliz por você – disse o Sr. Irvine. Aquela era uma meta que ele podia compreender. – E por acaso eu conheço a pessoa certa.

A pessoa era Howard Baker, que o contratara após entrevistá-lo distraidamente por quinze minutos para dar aulas ao filho de latim, matemática, alemão e piano. (Ele se perguntou por que o Sr. Baker não contratava profissionais para cada matéria – tinha condições de pagar –, mas não falou nada.) Sentia pena de Felix, pequeno e apático, com o hábito de coçar o interior de uma das narinas estreitas, explorando bem fundo com o indicador até se dar conta do que fazia e tirar o dedo rapidamente, esfregando-o na lateral da calça jeans. Passados oito meses, ele ainda não sabia com clareza as reais capacidades de Felix. Não era burro, mas sofria de uma falta de entusiasmo, como se, aos doze anos de idade, já tivesse se resignado ao fato de que a vida seria uma decepção, e ele, uma decepção para as pessoas em sua vida. Sempre o esperava, pontualmente e com os deveres feitos, todo sábado à uma da tarde, e respondia obedientemente a cada pergunta – suas respostas sempre terminavam num tom afoito e inquisitório, como se cada uma delas, inclusive as mais simples (“Salve, Felix, quid agis?” “Ah... bene??”), fossem um chute desesperado –, mas nunca fazia suas próprias perguntas, e quando ele perguntava a Felix se havia algum assunto em particular sobre o qual quisesse conversar em qualquer das duas línguas, Felix dava de ombros e balbuciava algo, enfiando o dedo no nariz. Sempre tinha a impressão, quando se despedia de Felix ao final da tarde – o garoto apenas levantava a mão indolentemente antes de se arrastar de volta pelo recesso da entrada –, de que ele nunca deixava a casa, nunca saía para passear, nunca recebia amigos. Pobre Felix: seu próprio nome era uma provocação.

No mês anterior, o Sr. Baker lhe pedira para ter uma conversa após o fim da lição, e ele seguira a empregada até o escritório depois de se despedir de Felix. Mancava de maneira pronunciada naquele dia, e estava envergonhado, sentindo – como acontecia muitas vezes – como se estivesse interpretando o papel de uma governanta pobretona num drama de Dickens.

Esperava ser recebido pelo Sr. Baker com impaciência, talvez raiva, embora Felix viesse se saindo notavelmente melhor na escola, e estava pronto para se defender caso fosse necessário – o Sr. Baker pagava bem melhor do que ele imaginara, e Jude tinha planos para o dinheiro que vinha ganhando ali –, mas, em vez disso, o homem apontou com a cabeça para a cadeira em frente à sua mesa.

– O que você acha que é o problema de Felix? – questionara o Sr. Baker.

Ele não estivera esperando a pergunta, por isso teve de pensar antes de responder.

– Não vejo nada de errado com ele, senhor – dissera, cauteloso. – Só acho que ele não é... – Feliz, quase completou. Mas o que era a felicidade se não uma extravagância, um estado impossível de se manter, em parte por ser tão difícil de ser articulada? Não se lembrava de ser capaz de definir o que era felicidade durante a infância: havia apenas tristeza, ou medo, e a ausência da tristeza ou do medo, e este último estado era tudo que ele sempre quisera ou de que precisara. – Acho que é tímido – decretou.

O Sr. Baker grunhiu (aquela obviamente não era a resposta pela qual esperava).

– Mas você gosta dele, não gosta? – perguntara, com um desespero tão estranho e vulnerável que ele subitamente foi acometido por uma tristeza profunda, tanto por Felix quanto pelo Sr. Baker. Ser pai era assim? Ser um filho que tem os pais era assim? Tantas infelicidades, tantas decepções, tantas expectativas que não seriam expressas e alcançadas!

– Mas é claro – dissera ele, e o Sr. Baker soltara um suspiro e lhe passara seu cheque, que normalmente a empregada lhe entregava quando ele ia embora.

Na semana seguinte, Felix não quisera tocar a canção que ficara de praticar. Estava mais desatento que o normal.

– Vamos tocar algo diferente? – perguntara Jude.

Felix dera de ombros. Ele pensou.

– Quer que eu toque algo para você?

Felix dera de ombros mais uma vez. Mas ele tocou assim mesmo, pois era um belo piano e às vezes, enquanto observava Felix dedilhar lentamente suas teclas macias e fantásticas, desejava ficar a sós com o instrumento e deixar suas mãos se moverem pela superfície o mais rápido que conseguisse.

Tocou a Sonata n° 50 em Ré Maior, de Haydn, um de seus temas preferidos, tão ensolarada e adorável que ele imaginou que pudesse animar os dois. Mas, quando terminou, e só restava um menino em silêncio ao seu lado, sentiu vergonha, tanto do otimismo fanfarrão e enfático da música quanto de seu próprio ataque de egoísmo.

– Felix – começara ele, parando logo em seguida. Ao seu lado, Felix esperava. – Qual o problema?

E então, para sua surpresa, Felix começara a chorar e ele tentara consolá-lo.

– Felix – dissera, abraçando-o meio sem jeito. Fingiu ser Willem, que saberia exatamente o que fazer e o que dizer sem precisar nem pensar. – Vai ficar tudo bem. Eu prometo, vai ficar tudo bem. – Mas Felix só chorara ainda mais.

– Não tenho nenhum amigo – soluçara.

– Ah, Felix – dissera, e sua compaixão, que até então fora apenas algo objetivo e distante, agora se clarificara. – Eu lamento.

Sentiu então, de forma intensa, a solidão da vida de Felix, de um sábado passado ao lado de um advogado aleijado de quase trinta anos, que só estava ali para ganhar dinheiro e que sairia aquela noite com pessoas que amava e que até mesmo o amavam de volta, enquanto Felix continuaria sozinho, a mãe – a terceira esposa do Sr. Baker – perpetuamente em algum lugar que não em casa, o pai convicto de que havia algo de errado com o filho, algo que precisava de conserto. Depois, voltando a pé para casa (quando o tempo estava bom, ele recusava o carro do Sr. Baker e caminhava), refletiria sobre a improvável injustiça de tudo aquilo: Felix, que era, sob todas as definições possíveis, um garoto melhor do que ele fora, e que mesmo assim não tinha amigos, e ele, que era um nada, mas tinha.

– Felix, um dia você terá – dissera.

– Mas quando? – choramingara Felix com tanto desejo que ele chegara a estremecer.

– Logo, logo – respondera, acariciando as costas magras do menino. – Eu prometo.

E Felix concordara com a cabeça, embora mais tarde, ao acompanhá-lo até a porta, com seu rostinho de lagartixa ainda mais reptiliano por causa das lágrimas, tivera a sensação clara de que Felix sabia que ele estava mentindo. Quem poderia saber se Felix um dia teria amigos? Amizade, companheirismo: essas eram coisas que tantas vezes desafiavam a lógica, que tantas vezes passavam longe de quem as merecia, e que tantas vezes agraciavam os esquisitos, os maus, os excêntricos, os perturbados. Despediu-se, acenando para as pequenas costas de Felix, que já se recolhia para dentro de casa, e embora nunca fosse dizer aquilo ao menino, imaginou que aquele era o motivo pelo qual estava sempre abatido: era porque Felix já havia descoberto isso, há muito tempo; era porque já sabia.

–

Falava francês e alemão. Conhecia a tabela periódica. Lembrava-se – ao mesmo tempo em que não dava a mínima – de longas passagens da bíblia quase de cor. Sabia como fazer o parto de um bezerro, trocar a fiação de uma lâmpada, desentupir um ralo e o modo mais eficiente de colher nozes e quais cogumelos eram venenosos e quais não eram, e como enfardar feno, e como saber se uma melancia, uma maçã, uma abóbora ou um melão estavam maduros, apertando nos pontos certos. (Mas também sabia coisas que não queria saber, coisas que esperava nunca mais ter de pôr em prática, coisas que, só de pensar ou sonhar com elas à noite, o faziam se encolher de ódio e vergonha.)

E ainda assim muitas vezes a sensação era de que não sabia nada que tivesse um valor ou uma utilidade real. Os idiomas e a matemática, tudo bem. Mas era lembrado diariamente de quanto não sabia. Nunca ouvira falar dos seriados cujos episódios eram constantemente citados. Nunca fora ao cinema. Nunca viajara a passeio. Nunca fora a uma colônia de férias. Nunca comera pizza ou picolé ou macarrão com queijo (e obviamente nunca experimentara – diferentemente de Malcolm e JB – foie gras, sushi ou tutano). Nunca tivera um computador ou um telefone e raramente tivera permissão para acessar a internet. Nunca tivera posse alguma, percebeu, não de verdade: os livros dos quais se orgulhava, as camisas que remendava sem parar, não significavam nada, eram só lixo, e o orgulho que tinha dessas coisas era mais vergonhoso do que não ter absolutamente nada. A sala de aula era o lugar mais seguro e o único onde se sentia confiante: qualquer outro lugar era uma avalanche incessante de curiosidades, cada uma mais surpreendente que a anterior, cada uma delas outra lembrança de sua ignorância sem fim. Ele se via fazendo listas mentais das coisas novas que ouvira e encontrara. Mas nunca podia pedir a ninguém as respostas. Pois fazer isso seria a admissão de uma alienação extrema, o que provocaria novas perguntas e o deixaria exposto, e que levaria ao tipo de conversa que ele definitivamente não estava pronto para ter. Muitas vezes não se sentia nem como um estrangeiro – pois até mesmo os alunos estrangeiros (até Odval, que vinha de uma aldeia nas redondezas de Ulan Bator) pareciam entender essas referências –, mas sim como alguém de outra época: sua infância poderia ter se passado no século XIX, não no XXI, diante de tudo que aparentemente lhe escapara, e por quão obscuro e meramente ilustrativo parecia ser o que ele de fato sabia. Como podiam aparentemente todos os seus colegas, tivessem eles nascido em Lagos ou em Los Angeles, ter passado mais ou menos pelas mesmas experiências, com as mesmas referências culturais? Certamente haveria alguém que soubesse tão pouco quanto ele. E, se não houvesse, como poderia recuperar todo aquele tempo perdido?

Durante as noites, quando um grupo deles se reunia no quarto de alguém (com uma vela queimando, e um baseado também), o papo muitas vezes se voltava para a infância de seus colegas, da qual haviam acabado de sair, mas que neles despertava uma curiosa nostalgia e pela qual eram obcecados. Recontavam o que pareciam ser os mínimos detalhes daqueles tempos, embora ele nunca soubesse se o objetivo era comparar as semelhanças ou se vangloriar das diferenças, pois pareciam se regozijar com ambas as situações. Falavam sobre toques de recolher, rebeldias e castigos (os pais de alguns batiam neles, e contavam essas histórias com algo próximo de orgulho, o que ele também achava curioso), e animais de estimação e irmãos, e as roupas que usavam e deixavam os pais loucos, e os grupos com os quais andavam no ensino médio, e com quem tinham perdido a virgindade, e onde, e como, e os carros que bateram e os ossos que quebraram, e os esportes que praticaram e as bandas que formaram. Falavam sobre desastrosas férias em família e parentes estranhos e peculiares, e sobre vizinhos de porta esquisitos e professores, tanto os que amavam quanto os que odiavam. Ele gostava mais daquelas revelações do que imaginava que gostaria – seus colegas eram adolescentes de verdade, que viveram vidas reais e plenas sobre as quais sempre tivera curiosidade – e ele achava relaxante e educativo ficar ali até tarde da noite a ouvi-los. Seu silêncio era tanto uma necessidade quanto uma proteção, e trazia o benefício extra de deixá-lo mais misterioso e mais interessante do que sabia ser.

– E quanto a você, Jude? – haviam lhe perguntado algumas pessoas no início do período.

Ele já sabia – aprendia rápido – que era melhor dar de ombros e, com um sorriso, dizer:

– Foi uma chatice que nem vale a pena mencionar.

Ele ficava surpreso, mas também aliviado em ver como os amigos aceitavam a resposta sem qualquer problema, além de grato por serem tão autocentrados. De qualquer forma, ninguém queria mesmo ouvir as histórias dos outros; só queriam contar as próprias.

Mas seu silêncio não passou despercebido por todos, e foi justamente esse silêncio que lhe rendeu seu apelido. Isso foi no ano em que Malcolm descobrira o pós-modernismo e JB fizera um escarcéu tão grande pelo atraso do amigo em conhecer aquela ideologia em particular que Jude não admitiu que também nunca ouvira falar dela.

– Você não pode simplesmente decidir que é pós-negro, Malcolm – dissera JB. – E digo mais: você precisa ter sido negro um dia para poder ir além da negritude.

– Você é mesmo um babaca, JB – rebatera Malcolm.

– Ou – continuara JB – precisa ser realmente inclassificável, de modo que os termos normais de identidade não se apliquem a você. – Foi então que JB se virara para ele e Jude congelara, sentindo um terror momentâneo. – Como o Judy aqui: nunca o vemos com ninguém, não sabemos a que raça pertence, não sabemos nada sobre ele. Pós-sexual, pós-racial, pós-identidade, pós-passado. – JB sorriu para ele, supostamente para demonstrar que em parte estava apenas brincando. – O pós-homem. Jude, o Pós-Homem.

– O Pós-Homem – repetira Malcolm: ele nunca deixava de aproveitar o desconforto dos outros para desviar a atenção do seu.

E por mais que o apelido não tenha colado – quando Willem entrara no quarto e o ouvira, sua reação fora simplesmente revirar os olhos, o que pareceu ter acabado um pouco com a graça para JB – aquilo o fazia lembrar que, por mais que tentasse se convencer de que estava enturmado, e por mais que tivesse feito um enorme esforço para esconder as partes estranhas do seu passado, na verdade não estava enganando ninguém. Sabiam que ele era estranho, e agora sua idiotice também englobava o fato de ter convencido a si mesmo de que convencera os amigos que não era. Mesmo assim, continuou aparecendo para as reuniões da madrugada e visitando os colegas em seus quartos: era atraído por aqueles encontros, mesmo que agora soubesse dos riscos que corria ao frequentá-los.

Durante essas sessões (era assim que começara a encará-las, como lições intensivas por meio das quais corrigiria suas próprias deficiências culturais), ele às vezes flagrava Willem o observando com uma expressão indecifrável no rosto, e se perguntava o quanto o amigo poderia ter descoberto sobre ele. Às vezes tinha de se controlar para não lhe contar nada. Talvez estivesse errado, pensava às vezes. Talvez fosse bom confessar a alguém que, na maior parte do tempo, mal conseguia se identificar com o que estava sendo discutido, que não sabia falar o idioma comum das humilhações e frustrações da infância que os outros compartilhavam. Mas então se segurava, pois admitir o desconhecimento daquele idioma significava ter de explicar qual idioma falava.

Se tivesse de contar a alguém, no entanto, sabia que seria para Willem. Admirava seus três colegas de quarto, mas era em Willem que confiava. No orfanato, aprendera rapidamente que havia três tipos de garotos: O primeiro tipo era o que causava a briga (aquele era JB). O segundo tipo não participava, mas também não saía correndo em busca de ajuda (esse era Malcolm). E o terceiro tipo era o que realmente tentaria ajudá-lo (esse era o tipo mais raro, obviamente representado por Willem). Talvez ocorresse o mesmo entre as meninas, mas não passara tempo o bastante junto delas para saber.

E cada vez mais ele achava que Willem sabia de algo. (O que poderia saber?, perguntava a si mesmo. Você está só procurando um motivo para contar a ele. E depois, o que pensará de você? Seja esperto. Não diga nada. Tenha um pouco de autocontrole.) Mas aquilo obviamente não fazia sentido. Sabia desde antes de entrar na universidade que sua infância fora atípica – bastava ler alguns livros para chegar àquela conclusão –, mas só recentemente se dera conta do quão atípica ela realmente fora. E aquela estranheza tanto o afastava quanto o isolava dos outros: era quase inconcebível que alguém pudesse imaginar suas formas e detalhes, o que significava que, caso o fizesse, seria porque ele deixara um rastro de pistas tal e qual bosta de vaca, verdadeiros apelos feios e chamativos em busca de atenção.

Ainda assim. A suspeita persistia, às vezes com uma intensidade perturbadora, como se fosse inevitável que acabasse dizendo algo e estivesse recebendo mensagens que eram mais difíceis de serem ignoradas do que obedecidas.

Certa noite, os quatro estavam sozinhos. Isso foi bem no início do terceiro ano deles, e era algo fora do comum o bastante para que todos eles se sentissem à vontade e um pouco sentimentais em relação à panelinha que haviam formado. E eram uma panelinha, e para sua surpresa, ele fazia parte daquilo: o prédio onde moravam se chamava Hood Hall, e eles eram conhecidos no campus como os Garotos do Hood. Todos tinham outros amigos (JB e Willem eram os que tinham mais), mas sabia-se (ou pelo menos presumia-se, o que dava na mesma) que os primeiros a quem deveriam ser leais eram uns aos outros. Nenhum deles falara sobre isso abertamente, mas todos apreciavam aquela suposição, todos gostavam do código de amizade que lhes fora infligido.

A refeição naquela noite fora pizza, pedida por JB e paga por Malcolm. JB levara a maconha, e lá fora chovia. Depois caíra granizo e o som das pedras martelava o vidro, e o vento chacoalhava as janelas em suas molduras de madeira cheias de farpas, compondo os toques finais para a felicidade do grupo. O baseado foi passado de mão em mão, e embora ele não tenha dado nem um só trago – nunca fumava; ficava com medo do que podia fazer ou falar se perdesse o controle de si mesmo –, podia sentir a fumaça lhe enchendo os olhos, apertando suas pálpebras feito uma fera quente e tresloucada. Tivera o cuidado, como sempre tinha quando um dos outros pagava pela comida, de comer o mínimo possível, e por mais que ainda tivesse fome (ainda havia duas fatias, e ele as fitava sem piscar os olhos, antes de se dar conta do que estava fazendo e virar a cabeça, decidido), também estava bastante contente. Eu poderia pegar no sono, pensou, e se espichou no sofá, cobrindo-se com a manta de Malcolm. Estava alegremente exausto, mas também vivia exausto naquela época: era como se o esforço diário para parecer normal fosse tão grande que sobrava pouca energia para qualquer outra coisa. (Tinha consciência de que às vezes parecia grosseiro, frio, tedioso, o que ele reconhecia ser considerado, naquele lugar, talvez pior do que seja lá quem ele era.) Em segundo plano, como se distante, ouvia Malcolm e JB discutirem sobre o mal.

– Só estou dizendo que não teríamos esta conversa se você lesse Platão.

– Tudo bem, mas qual Platão?

– Você leu Platão?

– Não sei por que...

– Você leu?

– Não, mas...

– Está vendo? Está vendo só?! – Isso veio de Malcolm, que pulava para cima e para baixo, apontando para JB, enquanto Willem gargalhava. Quando fumava maconha, Malcolm ficava mais bobo e pedante, e os outros três gostavam de começar discussões filosóficas bobas e pedantes com ele, das quais Malcolm nunca se lembrava na manhã seguinte.

Depois houve um interlúdio em que Willem e JB conversaram sobre algo – ele estava com muito sono para prestar atenção, acordado o bastante só para distinguir suas vozes – até que então a voz de JB atravessou sua manta:

– Jude!

– O quê? – respondeu, de olhos ainda fechados.

– Quero fazer uma pergunta.

Dentro de si, sentiu algo ficar alerta na mesma hora. Quando ficava doidão, JB tinha a incrível capacidade de fazer perguntas ou comentários devastadores e desconcertantes. Ele não achava que houvesse qualquer tipo de malícia por trás disso, mas ainda assim se perguntava o que se passava pelo subconsciente do amigo. Seria aquele o verdadeiro JB, o mesmo que perguntara à colega de dormitório, Tricia Park, como era crescer sendo a gêmea feia (a pobre Tricia se levantara e saíra correndo da sala), ou seria aquele que, depois de vê-lo em meio a um terrível episódio de dor, no qual perdia e recobrava a consciência, com uma sensação tão vertiginosa quanto uma queda íngreme numa montanha-russa, saíra escondido à noite com o namorado drogado e voltara pouco antes do dia amanhecer com um maço de galhos cobertos de brotos de magnólia, arrancados ilegalmente das árvores do pátio?

– O quê? – perguntou outra vez, com cautela.

– Sabe – disse JB, fazendo uma pausa e tomando outro trago –, todos nós nos conhecemos já há algum tempo...

– Nos conhecemos? – disse Willem, fingindo surpresa.

– Cala a boca, Willem – continuou JB. – E todos nós queremos saber por que você nunca nos contou o que aconteceu com as suas pernas.

– Ah, JB, nós nunca... – começou Willem.

Mas Malcolm, que costumava defender JB com unhas e dentes quando fumava maconha, o interrompeu:

– Você nos magoa desse jeito, Jude. Não confia em nós?

– Jesus Cristo, Malcolm – disse Willem, para em seguida imitar Malcolm com um falsete agudo: – “Você nos magoa desse jeito.” Você parece uma menininha. Isso é assunto particular do Jude.

E aquilo fora pior, de alguma forma: precisava de Willem, sempre Willem, para defendê-lo. De Malcolm e JB! Naquele momento, odiou todos eles, mas obviamente não estava em posição de odiá-los. Eram seus amigos, seus primeiros amigos, e ele entendia que aquela amizade representava uma série de trocas: de afeto, de tempo, às vezes de dinheiro, sempre de informação. E ele não tinha dinheiro. Não tinha nada para dar a eles, nada a lhes oferecer. Não podia emprestar um suéter a Willem, como Willem lhe emprestava o seu, ou pagar os cem dólares que Malcolm o abrigara a aceitar, e nem mesmo ajudar JB no dia de vagar o quarto, da mesma forma como JB o ajudara.

– Então – começou ele, ciente da expectativa silenciosa dos três, até mesmo de Willem. – Não é muito interessante. – Manteve os olhos fechados, pois era mais fácil contar sua história sem ter de olhar para eles, mas também porque simplesmente não achava que seria capaz de fazê-lo naquele momento. – Foi um carro. Eu tinha quinze anos. Aconteceu um ano antes de eu vir para cá.

– Ah – disse JB. Todos ficaram em silêncio; ele sentiu algo no ar esvaziar, sentiu que sua revelação fizera os outros retornarem a uma melancólica sobriedade. – Foi mal, cara. Que merda.

– Você andava antes? – perguntou Malcolm, como se ele não pudesse andar agora. E aquilo o deixou triste e envergonhado: o que ele considerava andar, pelo jeito, não era visto da mesma maneira pelos amigos.

– Sim – respondeu, e depois, porque era verdade, mesmo que eles não interpretassem de tal forma, acrescentou: – Eu costumava fazer cross-country.

– Uau – disse Malcolm. JB soltou um grunhido complacente.

Jude notou que Willem foi o único que não disse nada. Mas não tinha coragem de abrir os olhos para ver a expressão em seu rosto.

No fim, a história acabou se espalhando, como ele sabia que aconteceria. (Talvez as pessoas realmente sentissem curiosidade em saber o que acontecera às suas pernas. Tricia Park o abordou certa vez e disse que sempre achara que ele tinha paralisia cerebral. Como deveria responder àquilo?) De alguma forma, porém, depois de passar de boca em boca, a explicação foi mudada para um acidente de carro e depois ainda para um acidente de carro causado por um motorista bêbado.

– As explicações mais fáceis normalmente são as explicações certas – sempre dizia o Dr. Li, seu professor de matemática, e talvez o mesmo princípio pudesse ser aplicado ali. Mas ele sabia que não. A matemática era uma coisa. Nada mais era tão simples assim.

Só que o mais estranho era isto: quando sua história foi transformada num acidente de carro, ele ganhou uma oportunidade de se reinventar; tudo o que precisava fazer era aceitá-la. Mas nunca conseguiu. Nunca conseguiu chamar aquilo de acidente, pois não havia sido. Assim, teria sido por orgulho ou por burrice que não pegara a rota de saída que lhe fora oferecida? Não sabia dizer.

Depois viria a perceber outra coisa. Estava no meio de outro episódio de dor – e um bastante humilhante, quando saía de seu turno na biblioteca, e Willem aparecera ali por acaso alguns minutos antes, prestes a começar seu próprio turno – quando ouviu a bibliotecária, uma mulher simpática e culta de quem ele gostava, perguntar por que aquilo acontecia. Os dois, a Sra. Eakeley e Willem, o levaram para a sala dos funcionários nos fundos, e ele sentiu o cheiro de café velho, parecido com açúcar queimado, um odor que detestava, tão forte e intrusivo que quase o fez vomitar.

– Foi um carro – ouviu Willem responder, como se sua voz viesse do outro lado de um enorme lago negro.

Mas só à noite ele registrou o que Willem dissera, e a forma como explicara: foi um carro, não um acidente de carro. Teria sido proposital? O que Willem sabia? Estava tão confuso que poderia até ter perguntado ao amigo, caso ele estivesse por perto, mas não estava – estava com a namorada.

Não havia ninguém ali, percebeu. O quarto era todo dele. Sentiu a criatura dentro de si – que ele visualizava com uma forma esguia, esfarrapada e lemuriana, de reflexos rápidos e pronta para correr, com olhos escuros e úmidos que sempre espreitavam a paisagem em busca de possíveis perigos – relaxar e desabar no chão. Era naqueles momentos que mais valorizava a universidade: estava num quarto aquecido e, no dia seguinte faria três refeições, comeria o quanto quisesse, e entre elas assistiria às aulas e ninguém tentaria machucá-lo ou obrigá-lo a fazer algo que não quisesse. Em algum lugar ali perto estavam seus companheiros de quarto – seus amigos –, e ele sobrevivera a outro dia sem revelar seus segredos, e colocara mais um dia entre a pessoa que fora e a pessoa que era agora. Parecia, como sempre, um feito digno de sono, e foi o que ele fez, fechando os olhos e se preparando para outro dia no mundo.

–

Fora Ana, sua primeira e única assistente social, e a primeira pessoa que nunca o traíra, quem conversara seriamente com ele sobre a universidade – a universidade que ele acabaria frequentando –, convencida de que ele seria aceito. Não fora a primeira pessoa a sugerir isso, mas, sim, a que mais insistira.

– Não vejo por que não – disse ela. Aquela era uma de suas expressões preferidas.

Os dois estavam sentados na varanda de Ana, no quintal dos fundos de Ana, comendo o bolo de banana que a namorada de Ana fizera. Ana não era fã da natureza (é cheia de insetos, cheia de desconfortos, sempre dizia), mas, quando ele sugeriu que fossem lá para fora – hesitantemente, pois na época ainda não sabia bem certo até que ponto a tolerância dela em relação a ele chegava –, ela bateu nos braços da poltrona e se levantou.

– Não vejo por que não. Leslie! – gritou ela para dentro da cozinha, onde Leslie preparava limonada. – Leve lá para fora!

O rosto dela foi o primeiro que viu quando finalmente abriu os olhos no hospital. Por um longo momento, não conseguiu lembrar onde estava, quem era, ou o que acontecera, e então, de repente, o rosto de Ana surgiu sobre o seu, olhando para ele.

– Ora, ora! – disse ela. – Ele acordou.

Parecia que ela estava sempre ali, não importava a hora que ele acordasse. Às vezes era dia, e ele ouvia os sons do hospital – o chiado de rato dos sapatos das enfermeiras, o chacoalhar de um carrinho, e o zumbido dos anúncios pelos alto-falantes – nos momentos nebulosos e imprecisos pelos quais passava antes de recobrar a consciência plena. Mas às vezes era noite, quando tudo ao redor estava em silêncio, e ele levava mais tempo para entender onde estava, e por que estava ali, apesar de acabar lembrando, sempre, e diferentemente de outras memórias, aquelas lembranças nunca se tornavam mais fáceis ou mais distantes à medida que o tempo passava. E às vezes não era nem dia e nem noite, mas algo entre um e outro, e havia algo estranho e árido na luz que o fazia imaginar, por um momento, que no fim das contas podia de fato haver um lugar como o céu, e que talvez tivesse conseguido chegar lá. E então ele ouvia a voz de Ana, lembrava outra vez por que estava ali e sentia vontade de fechar os olhos novamente.

Não conversavam sobre nada naqueles momentos. Ana perguntava se ele tinha fome e, qualquer que fosse a resposta, ela sempre tinha um sanduíche para ele comer. Perguntava se ele sentia dor e, caso sentisse, o quão forte era. Foi na presença dela que ele sofreu seu primeiro episódio, e a dor fora tanta – quase insuportável, como se alguém houvesse enfiado a mão em seu corpo, segurado sua coluna como uma serpente e estivesse tentando soltá-la da rede de nervos aos chacoalhes – que mais tarde, quando o cirurgião lhe disse que um ferimento como aquele era um “insulto” ao corpo, e que este nunca se recuperaria por completo, ele entendera o que a palavra queria dizer e percebera como estava certa e fora bem-escolhida.

– Quer dizer que ele terá esses episódios de dor por toda a vida? – perguntara Ana, e ele se sentira grato pela indignação dela, especialmente porque estava cansado e assustado demais para juntar forças e se indignar.

– Gostaria de poder dizer que não é bem assim – disse o cirurgião. E, em seguida, para ele: – Mas talvez não sejam tão fortes no futuro. Você é jovem. A coluna tem um poder de regeneração espetacular.

– Jude – dissera Ana a ele quando sofreu o episódio seguinte, dois dias após o primeiro. Ouvia a voz dela, mas era como se estivesse longe, para logo depois aumentar repentinamente, ecoando em sua mente como explosões. – Segure minha mão – dissera, e mais uma vez a voz se aproximava e se afastava, mas ela lhe tomou a mão e ele a apertou com tanta força que dava para sentir seu dedo indicador deslizar estranhamente sobre o anelar, e quase podia sentir cada ossinho na palma de Ana se reposicionar sob seu punho, o que a fez parecer delicada e frágil, por mais que não houvesse nada de delicado nela, na aparência ou nos modos. – Conte – ordenou ela na terceira vez que aconteceu, e ele obedeceu, contando até cem uma vez após a outra, parcelando a dor em incrementos suportáveis.

Naquela época, antes de descobrir que era melhor ficar parado, ele se debatia na cama feito um peixe no convés de um barco, e sua mão livre tateava por uma corda a qual se agarrar em busca de segurança, sobre o colchão rígido e implacável do hospital, tentando achar uma posição em que o desconforto diminuísse. Tentava ficar quieto, mas se ouvia fazendo estranhos ruídos animalescos, de modo tal que às vezes uma floresta aparecia sob suas pálpebras, habitada por corujas barulhentas, cervos e ursos, e ele imaginava que era um deles e que os sons que fazia eram normais, parte da trilha sonora incessante do mato.

Quando acabava, ela lhe dava água, colocando sempre um canudo no copo para que ele não precisasse levantar a cabeça. Sob seu corpo, o chão se inclinava e balançava, e ele volta e meia se sentia enjoado. Nunca estivera no mar, mas imaginava que a sensação era aquela, imaginava a água transformando o piso de linóleo em ondulações tremulantes.

– Bom garoto – dizia ela. – Beba um pouco mais. Vai melhorar – continuava, e ele concordava com a cabeça, pois não conseguia imaginar como seria sua vida se aquilo não melhorasse.

Seus dias agora eram formados de horas: horas sem dor e horas com dor, e a imprevisibilidade com que elas vinham – e seu corpo, que só era seu no nome, já que não controlava nada nele – o deixava exausto, então ele dormia e dormia, enquanto os dias passavam sem que ele os habitasse.

Posteriormente, seria mais fácil dizer às pessoas que eram suas pernas que doíam, mas aquilo não era bem verdade: eram as costas. Às vezes conseguia saber o que provocaria os espasmos, a dor que desceria pela sua coluna para uma perna ou para a outra, como uma estaca de madeira em chamas enfiada em seu corpo: bastava um determinado movimento, erguer algo pesado ou alto demais, ou simplesmente o cansaço. Mas, às vezes, não sabia. E às vezes a dor era precedida por um interlúdio de dormência, ou uma pontada quase prazerosa, leve e vívida, um mero formigamento elétrico subindo e descendo pela coluna, que era o bastante para que soubesse que era melhor deitar e esperar que o ciclo terminasse, um castigo do qual não conseguia fugir ou evitar. Mas, às vezes, a dor se infiltrava, e estas eram as piores: ele passou a temer que se manifestassem em momentos completamente inoportunos, e antes de qualquer reunião importante, antes de uma entrevista importante, antes de qualquer comparecimento ao tribunal, ele implorava às próprias costas que se mantivessem firme, que passassem as horas seguintes sem nenhum incidente. Mas tudo aquilo aconteceria no futuro, e cada lição era aprendida ao longo de horas e horas desses episódios, espalhados por dias, meses e anos.

À medida que as semanas passavam, Ana levava livros e pedia que ele anotasse os títulos que lhe interessavam para que ela os buscasse na biblioteca – mas ele era tímido demais para fazer isso. Sabia que ela era sua assistente social, e que fora designada para cuidar dele, mas foi só depois de passado um mês, quando os médicos começaram a falar sobre remover seus gessos em questão de semanas, que ela perguntou pela primeira vez o que tinha acontecido.

– Não lembro – disse ele. Aquela era sua resposta padrão para tudo naqueles dias. Mas também era uma mentira; em momentos inesperados, podia ver os faróis do carro, dois brilhos gêmeos brancos, avançando na sua direção, e lembrava que fechara os olhos e virara a cabeça para o lado, como se aquilo pudesse ter impedido o inevitável.

Ela esperou.

– Não tem problema, Jude – dizia. – Sabemos mais ou menos o que aconteceu. Mas preciso que uma hora você me conte, para que possamos conversar.

Ela o entrevistara antes, será que ele lembrava? Aparentemente houve um momento, logo depois que ele saíra de sua primeira cirurgia, em que ele acordara, lúcido, e respondera a todas as perguntas dela, não apenas sobre o que acontecera naquela noite, mas também nos anos que a precederam – mas ele realmente não se lembrava disso, e ficou preocupado com o que, exatamente, dissera, e qual teria sido a expressão de Ana quando lhe contara.

Quanto havia contado?, perguntou ele a certa altura.

– O bastante – respondeu ela – para eu ficar convencida de que o inferno existe e que aqueles homens têm de terminar lá.

Continuar: parte 2 de 4