Uma Vida Pequena
Capítulo 2
QUANDO JACOB ERA BEM pequeno, talvez quando tinha uns seis meses, mais ou menos, Liesl teve uma pneumonia. Assim como a maioria das pessoas saudáveis, era uma péssima doente: mal-humorada, petulante e, acima de tudo, perplexa diante da posição incomum em que se encontrava agora.
– Eu não fico doente – ficava repetindo, como se alguém tivesse cometido algum erro, como se o que tivesse recebido fosse na verdade destinado a outra pessoa.
Como Jacob era um bebê doente – não de uma maneira dramática, mas já tivera dois resfriados em sua curta vida e, antes mesmo de saber como era seu sorriso, eu já sabia como era sua tosse: surpreendentemente madura –, decidimos que seria melhor Liesl passar os dias seguintes na casa de Sally para repousar e melhorar, enquanto eu ficaria em casa com Jacob.
Eu me considerava competente o bastante para cuidar do meu filho, mas, ao longo do fim de semana, devo ter ligado para o meu pai umas vinte vezes para perguntar sobre os vários pequenos mistérios que não paravam de aparecer, ou então para confirmar o que eu sabia saber, mas que, em minha agitação, acabara esquecendo: o bebê estava fazendo barulhos estranhos, que pareciam soluços, mas eram irregulares demais para que fossem, de fato, soluços – o que seriam? O cocô estava um pouco mole – aquilo era sinal de alguma coisa? Ele gostava de dormir de bruços, mas Liesl dizia que tinha de ficar de barriga para cima, por mais que eu sempre tivesse ouvido falar que não havia problema algum em deixá-lo de barriga para baixo – ou será que teria? Claro que eu poderia ter pesquisado sobre tudo isso, mas estava atrás de respostas definitivas, e as queria ouvir do meu pai, que não só tinha as respostas certas, mas também as dizia do jeito certo. Era reconfortante ouvir sua voz.
– Não se preocupe – dizia ao fim de cada ligação. – Você está se saindo bem. Sabe o que fazer. – E ele me fazia acreditar que de fato eu sabia.
Depois que Jacob adoeceu, passei a telefonar menos para meu pai: não conseguia conversar com ele. As perguntas que eu tinha agora – como poderia lidar com aquilo?; o que faria no fim?; como poderia assistir ao meu filho morrer? – eram perguntas que eu não tinha coragem de fazer nem a mim mesmo, perguntas que o fariam chorar ao responder.
Jacob tinha acabado de completar quatro anos quando percebemos que havia algo de errado. Liesl o levava toda manhã à creche, ao passo que eu o buscava à tarde, após dar minha última aula. Ele tinha um rosto sério, por isso as pessoas achavam que fosse um menino mais triste do que realmente era: mas, em casa, corria de um lado para o outro, subia e descia a escada, e eu corria atrás dele. Quando eu estava deitado no sofá, lendo, ele se jogava em cima de mim. Liesl também ficava mais brincalhona perto dele, e às vezes os dois corriam pela casa, gritando e guinchando, e aqueles eram meus sons preferidos, meu tipo preferido de barulho.
Era outubro quando ele começou a ficar cansado. Fui buscá-lo um dia, e todas as outras crianças, todos os seus amiguinhos, estavam brincando, conversando e pulando. Quando procurei meu filho, ele estava num cantinho da sala, encolhido em seu tapete, dormindo. Uma das professoras estava sentada ao lado dele e, ao me ver, acenou para que eu me aproximasse.
– Acho que ele pode estar com alguma virose – falou. – Desde ontem está um pouquinho apático e depois do almoço ficou tão cansado que preferimos deixá-lo dormir.
Adorávamos aquela escola: as outras faziam as crianças tentarem ler ou assistir a aulas, mas essa, a preferida dos professores da universidade, era do tipo que eu achava certo para uma criança de quatro anos: tudo que pareciam fazer era ouvir adultos lendo livros para elas, realizar atividades manuais e passear no zoológico.
Tive de carregá-lo até o carro, mas, quando chegamos em casa, ele acordou e ficou bem. Comeu o lanche que preparei e me ouviu contar uma historinha antes de montarmos juntos a decoração de mesa do dia. No seu aniversário, Sally lhe dera de presente um lindo conjunto de blocos de madeira esculpidos em forma de geoides, que podiam ser empilhados bem alto, numa infinidade de maneiras interessantes: todo dia montávamos algo diferente para enfeitar a mesa e, quando Liesl chegava, Jacob explicava o que fizéramos – um dinossauro, a torre de um astronauta – e ela tirava uma foto.
Naquela noite, contei a Liesl o que a professora dissera e, no dia seguinte, ela o levou ao médico, que falou que ele parecia normal e não havia aparentemente nada de errado. Mesmo assim, o observamos com atenção nos dias seguintes: Ele tinha mais ou menos energia? Estaria dormindo mais do que o habitual, comendo menos do que o habitual? Não sabíamos. Mas estávamos com medo: não havia nada mais assustador do que uma criança apática. Essa mesma palavra, agora, parece um eufemismo para um destino terrível.
E então, de uma hora para outra, as coisas começaram a acelerar. Fomos passar o Dia de Ação de Graças na casa dos meus pais e, durante o jantar, Jacob teve uma convulsão. Num momento estava bem, no outro estava rígido, o corpo duro feito uma tábua, escorregando da cadeira para debaixo da mesa, revirando os olhos, enquanto a garganta fazia um ruído estranho e oco, como um estalo. Durou apenas dez segundos, mais ou menos, mas foi horrível, tão horrível que ainda consigo ouvir os estalos, ainda consigo ver a rigidez terrível de sua cabeça, as pernas indo para a frente e para trás no ar.
Meu pai correu para ligar para um amigo no Hospital Presbiteriano de Nova York, e partimos na mesma hora para lá. Jacob foi internado e nós quatro passamos a noite em seu quarto – meu pai e Adele deitados sobre seus casacos no chão, Liesl e eu sentados um de cada lado da cama, sem conseguirmos olhar um para o outro.
Depois que a situação dele se estabilizou, voltamos para casa, de onde Liesl telefonou para o pediatra de Jacob, outro de seus colegas da faculdade de medicina, para marcar consultas com o melhor neurologista, o melhor geneticista, o melhor alergista – não sabíamos do que se tratava, mas fosse o que fosse, queria ter certeza de que Jacob seria tratado pelos melhores profissionais. E assim tiveram início os meses de peregrinações de médico em médico, nos quais o sangue de Jacob foi coletado, seu cérebro foi esquadrinhado, os reflexos, testados, os olhos, examinados, e a audição, avaliada. O processo todo era tão invasivo, tão frustrante – nunca imaginei que houvesse tantas maneiras de dizer “eu não sei” até conhecer esses médicos –, e às vezes pensava em como deveria ser difícil para os pais que não tinham os conhecidos que nós tínhamos, que não tinham a instrução e o conhecimento científicos de Liesl. Mas toda aquela instrução não tornava mais fácil ter de ver Jacob chorar quando era picado por agulhas, tantas vezes que uma das veias, a veia no braço esquerdo, começou a afundar. E todos aqueles conhecidos tampouco evitaram que ele fosse ficando cada vez pior, que tivesse convulsões cada vez mais frequentes, nas quais tremia e espumava, emitindo um grunhido, uma espécie de ruído primal, assustador e grave demais para uma criança de quatro anos, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto as mãos se contorciam.
Quando finalmente recebemos um diagnóstico – uma doença neurodegenerativa extremamente rara chamada síndrome de Nishihara, tão rara que não era nem incluída em baterias de testes genéticos –, ele já estava quase cego. Isso foi em fevereiro. Em junho, quando fez cinco anos, mal falava. Em agosto, achamos que não pudesse mais ouvir.
Ele continuava a ter mais e mais convulsões. Tentamos todos os tipos de remédios. Tentamos combiná-los. Liesl tinha um amigo neurologista, que nos falou sobre uma nova droga ainda não aprovada nos Estados Unidos, mas disponível no Canadá; naquela sexta-feira, Liesl e Sally foram de carro até Montreal e voltaram, tudo em doze horas. O remédio funcionou por um tempo, ainda que provocasse uma irritação terrível na pele de Jacob, e, quando o tocávamos, ele abria a boca e gritava, mas não se ouvia som algum, e as lágrimas escorriam de seus olhos.
– Desculpe, amigão – eu implorava, mesmo sabendo que ele não me ouvia. – Desculpe, desculpe.
Eu mal conseguia me concentrar no trabalho. Estava lecionando apenas em meio-período naquela época; era meu segundo ano na universidade, meu terceiro semestre. Andava pelo campus e entreouvia conversas – alguém falando sobre terminar com o namorado, alguém falando sobre a nota ruim que tirou na prova, alguém falando sobre ter torcido o tornozelo – e sentia raiva. Sua gente estúpida, mesquinha, egoísta, autocentrada, tinha vontade de dizer. Suas pessoas detestáveis, eu odeio vocês. Seus problemas não são problemas. Meu filho está morrendo. Às vezes meu ódio era tão profundo que eu passava mal. Laurence também trabalhava na universidade naquela época, e assumia minhas aulas quando eu precisava levar Jacob ao hospital. Tínhamos uma pessoa para cuidar dele em casa, mas o levávamos a todas as consultas para sabermos com que velocidade ele estava nos deixando. Em setembro, o médico olhou para nós depois de examiná-lo.
– Falta pouco – falou, de maneira muito delicada, e essa foi a pior parte.
Laurence nos visitava toda quarta e sábado; Gillian, às terças e quintas; Sally aparecia toda segunda-feira e domingo; outro amigo de Liesl, Nathan, vinha toda sexta. Quando estavam por lá, cozinhavam ou limpavam as coisas, enquanto eu e Liesl sentávamos ao lado de Jacob e conversávamos com nosso filho. Ele havia parado de crescer em determinado ponto no ano anterior, e os braços e as pernas amoleceram por falta de uso: eram flácidos, quase sem ossos, e você tinha que tomar cuidado ao segurá-lo, prendendo seus membros junto ao corpo, caso contrário eles simplesmente caíam, e ele parecia morto. Deixara de abrir os olhos em setembro, embora às vezes vazassem fluidos: lágrimas, ou um muco viscoso e amarelado. Somente o rosto permanecia roliço, mas só por causa das enormes doses de esteroides que tomava. Algum remédio o deixava com eczemas nas bochechas, avermelhadas e ásperas, sempre quentes, parecendo lixas.
Meu pai e Adele foram morar na nossa casa no meio de setembro, e eu não conseguia olhar para ele. Sabia que ele sabia como era ver crianças morrendo; sabia o quanto o machucava que naquele caso fosse a minha criança. Sentia como se tivesse fracassado: sentia que estava sendo castigado por não ter desejado Jacob com mais veemência quando ele nos foi dado. Sentia que, se tivesse sido menos ambivalente sobre ter filhos, aquilo nunca teria acontecido; sentia que estava sendo lembrado do quanto fui bobo e estúpido em não reconhecer o presente que recebera, um presente pelo qual muitas pessoas ansiavam e que, ainda assim, eu me mostrara disposto a devolver. Estava envergonhado – nunca seria o pai que meu pai era, e detestava que ele estivesse ali para testemunhar meus fracassos.
Antes de Jacob nascer, eu perguntara a meu pai uma noite se ele tinha algumas palavras de sabedoria para me oferecer. Estava brincando, mas ele levara a sério, como fazia diante de qualquer pergunta minha.
– Humm – dissera ele. – Bem, a coisa mais difícil de ser pai é se readaptar. Quanto melhor conseguir fazer isso, melhor será como pai.
Na época, eu praticamente ignorei aquele conselho, mas, à medida que Jacob foi ficando cada vez mais doente, passei a pensar nele com uma frequência maior e percebi o quanto estava correto. Todos dizemos que queremos ver nossos filhos felizes, somente felizes, e saudáveis, mas essa não é a verdade. Queremos que sejam como nós, ou então melhores. Nós, enquanto seres humanos, somos muito pouco criativos nesse sentido. Não estamos preparados para a possibilidade de que sejam piores. Mas acho que isso seria pedir demais. Deve ser uma espécie de mecanismo evolucionário – se todos tivéssemos plena consciência do que poderia dar errado, terrivelmente errado, nenhum de nós teria filhos.
Quando começamos a perceber que Jacob estava doente, que havia algo de errado com ele, nós dois fizemos um grande esforço para nos readaptar, e rápido. Nunca havíamos dito que queríamos que ele fizesse uma universidade, por exemplo; simplesmente tivemos a pressuposição de que isso fosse acontecer, assim como a pós-graduação, já que nós dois a fizemos. Mas, naquela primeira noite que passamos no hospital, depois da primeira convulsão, Liesl, que era ótima em planejar, que tinha uma capacidade brilhante de ver cinco passos, dez passos à frente, falou:
– Seja o que for, ele ainda pode viver uma vida longa e saudável. Há um monte de escolas boas onde podemos matriculá-lo. Há lugares que podem ensiná-lo a ser independente.
Briguei com ela; acusei-a de desistir dele muito rápido, muito fácil. Depois, me envergonhei disso. Depois, a admirei: admirei sua agilidade e sua perspicácia para se ajustar ao fato de que o filho que ela achou que teria não era o filho que tinha. Admirei como ela soube, bem antes de mim, que o sentido de um filho não é o que ele vai realizar em seu nome, mas o prazer que lhe proporcionará, seja de que forma for, mesmo uma que mal possa ser reconhecida como prazer – e, o que é mais importante, o prazer que você terá o privilégio de proporcionar a ele. Pelo restante da vida de Jacob, sempre estive um passo atrás em relação a Liesl. Continuava a sonhar que ele ficaria bom, que voltaria a ser como era antes; já ela pensava apenas na vida que ele poderia ter diante da realidade atual de sua situação. Talvez pudesse frequentar uma escola especial. Tudo bem, não poderia ir a nenhum tipo de escola, mas talvez pudesse fazer parte de um grupo recreativo. Tudo bem, não poderia fazer parte de um grupo recreativo, mas talvez ainda pudesse viver uma vida longa. Tudo bem, não viveria uma vida longa, mas talvez pudesse ter uma vida breve e feliz. Tudo bem, não poderia ter uma vida breve e feliz, mas talvez pudesse ter uma vida breve com dignidade: podíamos proporcionar aquilo a ele, e ela não esperava nada mais para o filho.
Eu tinha trinta e dois anos quando ele nasceu, trinta e seis quando recebeu o diagnóstico e trinta e sete quando morreu. Foi no dia dez de novembro, pouco menos de um ano depois da primeira convulsão. Fizemos o funeral na universidade e, mesmo em meu estado de torpor, vi todas as pessoas – nossos pais, nossos amigos e colegas, e os amigos de Jacob, agora alunos da primeira série, com seus pais – que compareceram e choraram.
Meus pais foram para casa em Nova York. Liesl e eu eventualmente voltamos ao trabalho. Mal nos falamos por meses. Nem conseguíamos nos tocar. Parte disso era exaustão, mas também estávamos envergonhados: de nosso fracasso mútuo, da sensação injusta, mas ao mesmo tempo inabalável, de que nós dois poderíamos ter feito mais, de que o outro não se entregara como a situação exigia. Um ano após a morte de Jacob tivemos nossa primeira conversa sobre ter ou não outro filho, e embora tenha começado de maneira civilizada, acabou de maneira terrível, com recriminações: sobre como eu nem queria ter tido Jacob em primeiro lugar, sobre como ela nunca o quisera, sobre como eu havia fracassado, sobre como ela fracassara. Paramos de falar; pedimos desculpas. Tentamos de novo. Mas toda conversa terminava da mesma maneira. Não eram diálogos dos quais pudéssemos nos recuperar e, no fim, acabamos nos separando.
Fico surpreso em ver como paramos de nos falar completamente. O divórcio foi bem simples e direto – talvez simples e direto demais. Aquilo me fez refletir sobre o que nos unira antes de Jacob – se não o tivéssemos, como e em função do que permaneceríamos juntos? Só mais tarde consegui lembrar por que amara Liesl, o que tinha visto e admirado nela. Mas, na época, éramos como duas pessoas que tinham uma missão única, difícil e exaustiva, e agora a missão terminara, e tinha chegado o momento de cada um ir para um lado e voltar a sua vida normal.
Não nos falamos por muitos anos – não por mágoa, mas por qualquer outra coisa. Ela se mudou para Portland. Logo depois de conhecer Julia, esbarrei com Sally – ela também havia se mudado, para Los Angeles –, que estava na cidade para visitar os pais. Ela me contou que Liesl casara outra vez. Pedi a Sally para mandar meus cumprimentos, e Sally disse que faria isso.
Às vezes eu procurava saber dela: estava ensinando no departamento de medicina da Universidade do Oregon. Uma vez tive um aluno que se assemelhava tanto com a aparência que imaginávamos que Jacob teria quando crescesse que quase liguei para ela. Mas não o fiz.
E então um dia ela me telefonou. Dezesseis anos haviam se passado. Ela estava na cidade para uma conferência e me convidou para almoçar. Foi esquisito, uma sensação ao mesmo tempo estranha e familiar, ouvir novamente a voz dela, aquela voz com quem eu tivera milhares de conversas, sobre coisas importantes e também banais. Aquela voz que eu ouvira cantar para Jacob enquanto ele tremia em seus braços, a voz que eu ouvi dizer “Essa é a melhor de todas até agora” enquanto ela tirava uma foto da torre de blocos do dia.
Marcamos num restaurante próximo ao campus da universidade que se especializara no que chamavam de “húmus de luxo” quando ela fazia sua residência e o qual considerávamos um capricho especial. Agora a especialidade do lugar eram almôndegas artesanais, mas ele ainda cheirava, curiosamente, a húmus.
Nós dois nos vimos; ela estava igual a como eu lembrava. Trocamos um abraço e sentamos. Conversamos um tempo sobre trabalho, sobre Sally e sua nova namorada, sobre Laurence e Gillian. Ela me falou do marido, um epidemiologista, e eu falei de Julia. Ela tivera outro filho, uma menina, aos quarenta e três anos. Mostrou-me uma foto. Era linda, a menina, idêntica a Liesl. Disse isso a ela, que sorriu.
– E você? – perguntou. – Também teve filhos?
Sim, respondi. Acabara de adotar um dos meus ex-alunos. Pude ver que ela ficou surpresa, mas sorriu e me deu os parabéns. Perguntou sobre ele, como tudo acontecera, e eu contei.
– Isso é fantástico, Harold – disse ela, quando terminei. E em seguida: – Você o ama muito.
– É verdade – falei.
Gostaria de poder dizer que esse foi o início da segunda etapa de nossa amizade, que mantivemos contato e que todo ano falávamos sobre Jacob, sobre o que poderia ter se tornado. Mas não foi assim, por mais que nada de ruim tenha acontecido. Contei a ela naquele encontro sobre o aluno que me deixara agitado, e ela falou que entendia perfeitamente o que eu queria dizer, pois também tivera alunos – ou simplesmente passara por rapazes na rua – que ela pensava reconhecer de algum lugar, para logo em seguida perceber que havia imaginado que um deles poderia ser nosso filho, vivo, bem e distante de nós. Não era mais nosso, mas andava livremente pelo mundo, sem saber que podíamos estar procurando por ele durante todo aquele tempo.
Dei um abraço de despedida nela; desejei-lhe felicidades. Falei que queria seu bem. Ela disse as mesmas coisas. Nenhum dos dois se ofereceu para manter contato; ambos, gosto de acreditar, tínhamos respeito demais um pelo outro para fazer aquilo.
Mas, ao longo dos anos, em ocasiões aleatórias, eu tinha notícias dela. Recebia um e-mail que dizia apenas “Vi outra vez”, e eu sabia o que ela queria dizer, pois enviava o mesmo tipo de mensagem para ela: “Harvard Square, aprox. 25 anos, 1m88, magrelo, cheirando a maconha.” Quando sua filha se formou no colégio, ela me enviou um comunicado, e, depois, outro para o casamento da filha e um terceiro quando seu primeiro neto nasceu.
Eu amo Julia. Ela também era cientista, mas sempre foi tão diferente de Liesl – alegre, ao passo que Liesl era reservada; expressiva, enquanto Liesl era contida e inocente em seus prazeres e seu entusiasmo. Mas, por mais que a ame, por muitos anos uma parte de mim não conseguia deixar de sentir que eu tinha algo mais profundo, mais significativo com Liesl. Tínhamos feito uma pessoa juntos e assistimos à sua morte juntos. Às vezes eu achava que havia algo físico nos conectando, uma longa corda que se esticava entre Boston e Portland: quando ela puxava sua ponta, eu sentia na minha. Onde quer que ela fosse, onde quer que eu fosse, haveria sempre aquela corda iluminada e retorcida que esticava e puxava, mas nunca se rompia, e a cada movimento que fazíamos nos lembrava do que nunca mais teríamos.
–
Depois que eu e Julia decidimos adotá-lo, cerca de seis meses antes de fazermos a proposta a ele, contei tudo a Laurence. Sabia que Laurence gostava bastante dele e o respeitava e achava que ele me fazia bem. Mas eu também sabia que Laurence, sendo do jeito que era, demonstraria cautela.
Foi o que ele fez. Tivemos uma longa conversa.
– Sabe que gosto muito dele – falou –, mas me diga uma coisa, Harold, quanto sabe de verdade sobre esse menino?
– Não muito – respondi.
Mas sabia que não se enquadrava nos piores temores de Laurence: sabia que não era ladrão, que não iria nos matar em nossa cama enquanto dormíamos. Laurence também sabia disso.
Obviamente, eu também sabia, sem saber ao certo, sem qualquer prova real, que em algum ponto algo de muito errado acontecera a ele. Na primeira vez que vocês todos foram a Truro, eu desci uma noite até a cozinha e encontrei JB sentado à mesa, desenhando. Sempre achei JB uma pessoa diferente quando estava sozinho, quando sabia que não precisava se exibir. Sentei e olhei o que ele estava esboçando, retratos de todos vocês. Perguntei a ele o que estava estudando na pós-graduação, e ele me falou sobre pessoas cujo trabalho admirava, sendo que três quartos delas eram completamente desconhecidas para mim.
Quando levantei para subir, JB chamou meu nome, e eu voltei.
– Ouça – falou. Parecia constrangido. – Não quero ser grosso nem nada do gênero, mas você devia deixar de fazer tantas perguntas a ele.
Sentei novamente.
– Por quê?
Ele ficou desconfortável, mas foi firme.
– Ele não tem pais – falou. – Não sei quais foram as circunstâncias, mas ele não fala sobre isso nem com a gente. Pelo menos não comigo. – Parou. – Acho que algo horrível aconteceu a ele quando era criança.
– Que tipo de horrível? – perguntei.
Ele balançou a cabeça.
– Não sabemos ao certo, mas achamos que deve ter sofrido algum tipo de abuso físico bem feio. Não percebeu que ele nunca tira a roupa, ou como evita que os outros o toquem? Acho que alguém deve ter batido nele ou... – Parou. JB era amado, era protegido; não teve coragem de especular sobre o que poderia ter vindo depois de ou, e eu também não. Mas eu tinha percebido aquilo tudo, é claro. Não fazia aquelas perguntas para deixá-lo desconfortável, mas, mesmo quando vi que aquilo o deixava desconfortável, não conseguia parar.
– Harold – dizia Julia quando ele ia embora à noite –, você o está deixando constrangido.
– Eu sei, eu sei – respondia. Sabia que nada de bom se escondia por trás daquele silêncio, e por mais que não quisesse saber o que era, ao mesmo tempo queria.
Cerca de um mês antes da adoção, ele apareceu inesperadamente na minha casa num fim de semana: voltei da minha partida de tênis e o encontrei ali no sofá, dormindo. Queria falar comigo, fora até ali para me confessar algo. Mas, no fim, não conseguiu.
Naquela noite, Andy me ligou em pânico procurando por ele. Quando perguntei por que estava ligando à meia-noite, Andy logo se tornou vago.
– Ele está passando por maus momentos – falou.
– Por causa da adoção? – perguntei.
– Não posso dizer – falou, de modo formal. Como você sabe, a confidencialidade na relação entre médico e paciente era algo a que Andy aderia com irregularidade, mas com grande dedicação quando decidia fazê-lo. Depois você ligou e criou suas próprias histórias vagas.
No dia seguinte, pedi a Laurence que verificasse se ele tinha algum tipo de ficha criminal juvenil em seu nome. Sabia que seria muito improvável que encontrasse algo e, mesmo se isso acontecesse, os arquivos estariam lacrados.
Era verdade o que disse a ele naquele fim de semana: o que quer que tivesse feito, não importava para mim. Eu o conhecia. A pessoa que se tornara era a que importava para mim. Falei a ele que não fazia a menor diferença quem ele fora um dia. Mas é claro que isso foi ingênuo de minha parte: eu adotei a pessoa que ele era, mas junto a ela veio a pessoa que fora antes, e eu não sabia quem aquela pessoa era. Mais tarde, eu me arrependeria por não ter deixado mais claro para ele que aquela outra pessoa, quem quer que fosse, também era alguém que eu queria. Mais tarde, passei a me indagar de maneira incessante sobre como teria sido a vida dele caso eu o tivesse conhecido vinte anos antes, quando ele era apenas um bebê. Ou talvez não aos vinte anos, mas aos dez, até mesmo aos cinco. Quem ele teria sido e quem eu teria sido?
A pesquisa de Laurence não deu em nada, e fiquei ao mesmo tempo aliviado e desapontado. A adoção aconteceu; foi um dia maravilhoso, um dos melhores. Jamais me arrependi. Mas ser pai dele nunca foi fácil. Ele tinha toda uma série de regras que construíra para si mesmo ao longo das décadas, baseadas em lições que alguém deve lhe ter ensinado – as coisas às quais não tinha direito; o que não devia desfrutar; o que não podia almejar ou desejar; o que não devia cobiçar –, e levou alguns anos para que eu descobrisse que regras eram essas, e mais tempo ainda para convencê-lo de que eram falsas. Mas isso foi muito difícil: aquelas eram regras que o ajudaram a sobreviver, regras pelas quais conseguia entender o mundo. Ele era extremamente disciplinado – como era em tudo –, e a disciplina, como o estado de alerta, é uma qualidade quase impossível de convencer alguém a abandonar.
Tão impossível quanto eram as minhas (e as suas) tentativas de fazê-lo abandonar determinadas ideias sobre ele mesmo: sobre sua aparência, sobre o que merecia, sobre seu valor, sobre quem ele era. Ainda não conheci outra pessoa tão perfeita ou rigorosamente bifurcada como ele: alguém que tivesse total confiança em determinados domínios e total descrença em outros. Eu me lembro de assisti-lo no tribunal um dia e ficar admirado e ao mesmo tempo espantado. Ele defendia uma daquelas companhias farmacêuticas, dedicando a ela uma atenção e uma proteção que lhe renderam notoriedade numa ação federal impulsionada por uma denúncia. Foi uma ação grande, uma ação enorme – faz parte de dezenas de ementas hoje em dia –, mas ele estava calmo, muito calmo; raramente via um advogado calmo daquele jeito. No banco dos réus estava a própria denunciante, uma mulher de meia-idade, e ele foi tão implacável, tão obstinado e tão contundente que o tribunal ficou em silêncio, observando-o. Em nenhum momento levantou a voz ou foi sarcástico, mas pude perceber que ele estava gostando daquilo, que aquele ato em si, de pegar a testemunha em suas inconsistências – que eram sutis, muito sutis, tão sutis que outro advogado talvez nem as percebesse – era algo que o revigorava, que lhe dava prazer. Ele era uma pessoa gentil (mas não consigo mesmo), com uma voz gentil e modos gentis, mas, no tribunal, aquela gentileza ardia em chamas e dava lugar a algo brutal e frio. Isso foi cerca de sete meses após o incidente com Caleb, cinco meses antes do incidente seguinte e, ao vê-lo declamar as próprias declarações da testemunha de volta para ela, com o rosto ainda belo e seguro, continuava a me lembrar dele no carro naquela noite terrível, quando se afastou de mim e protegeu a cabeça com as mãos no momento em que estiquei o braço para tocar seu rosto, como se eu fosse mais uma pessoa que pudesse feri-lo. Sua própria existência era dupla: era um no trabalho e outro fora dele; era uma pessoa naquele momento e outra antes; era um no tribunal e outro no carro, tão só em seus pensamentos que cheguei a ficar com medo.
Naquela noite, em casa, fiquei andando em círculos, pensando no que acabara de descobrir sobre ele, no que vira, no quanto tive que me controlar para não berrar quando o ouvi dizendo as coisas que ele disse – pior que Caleb, pior do que as palavras de Caleb, foi ouvir que ele acreditava naquilo, que tinha uma visão completamente errada de si mesmo. Acho que sempre soube que ele se sentia daquele jeito, mas ouvi-lo falar aquilo de uma maneira tão prática foi ainda pior do que eu podia ter imaginado. Nunca vou me esquecer de quando disse “quando se tem uma aparência como a minha, você tem de aceitar o que estiver disponível”. Nunca vou me esquecer do desespero, da raiva e da desesperança que senti ao ouvir aquilo. Nunca vou me esquecer do seu rosto quando viu Caleb, quando Caleb sentou ao seu lado, e não fui rápido o bastante para entender o que estava acontecendo. Como você pode se considerar um pai se o seu filho se sente daquela maneira em relação a si mesmo? Nunca conseguiria me readaptar àquilo. Suponho, já que nunca havia criado um filho adulto, que nunca imaginara como seria. Não me arrependi da minha escolha: apenas me senti estúpido e inadequado por não ter refletido sobre esse aspecto antes. Afinal, eu fui um adulto que tinha um pai e que recorria a ele constantemente.
Telefonei para Julia, que estava em Santa Fe para uma conferência sobre novas doenças, contei o que acontecera e ela soltou um suspiro longo e triste.
– Harold – começou ela, mas logo em seguida parou. Havíamos conversado sobre como teria sido a vida dele antes de nós e, embora ambos estivéssemos errados, os palpites dela foram mais precisos que os meus, ainda que na época eu os tenha achado ridículos, impossíveis.
– Eu sei – falei.
– Precisa ligar para ele.
Mas eu havia tentado. Liguei e liguei, e o telefone tocou e tocou.
Naquela noite, fiquei acordado na cama, alternando-me entre preocupação e os tipos de fantasias que os homens têm: armas, assassinos de aluguel, vingança. Sonhei acordado em telefonar para o primo de Gillian, que era detetive policial em Nova York, e fazer com que Caleb Porter fosse preso. Sonhei em ligar para você, e você, Andy e eu invadiríamos seu apartamento e o mataríamos.
Saí de casa cedo na manhã seguinte, antes das oito. Comprei bagels e suco de laranja e fui até Greene Street. Era um dia cinzento, encharcado e úmido, e toquei o interfone três vezes, cada uma delas por vários segundos, antes de recuar até o meio-fio e olhar para o sexto andar.
Estava prestes a tocar outra vez quando ouvi a voz dele pelo interfone.
– Quem é?
– Sou eu – falei. – Posso subir? – Nenhuma resposta. – Queria me desculpar – falei. – Preciso ver você. Trouxe bagels.
Mais uma vez, silêncio.
– Alô? – chamei.
– Harold – disse ele, e notei que sua voz estava estranha. Abafada, como se tivessem surgido novos dentes na boca e estivesse falando em meio a eles. – Se eu deixar você subir, promete que não vai se zangar e começar a gritar?
Naquele momento, fui eu quem fiquei em silêncio. Não sabia o que aquilo significava.
– Sim – falei, e depois de um segundo ou dois, a porta se abriu com um clique.
Saí do elevador e por um minuto não vi nada, a não ser aquele lindo apartamento com suas paredes de luz. Foi então que ouvi meu nome e, olhando para baixo, o vi.
Quase deixei cair os bagels. Senti meus braços e minhas pernas virarem pedra. Ele estava sentado no chão, mas apoiado na mão direita e, quando ajoelhei ao seu lado, ele virou a cabeça e levantou a mão esquerda diante do rosto, como se quisesse se proteger.
– Ele pegou as chaves sobressalentes – falou, com o rosto tão inchado que os lábios mal tinham espaço para se mover. – Quando voltei ontem à noite, ele estava aqui.
Foi então que virou para mim, e seu rosto parecia um animal esfolado, virado do avesso e deixado no calor, com os órgãos se derretendo numa só massa de carne: tudo o que conseguia ver dos olhos dele eram as longas fileiras de cílios, uma mancha preta pressionando as bochechas, que tinham uma horrível coloração azul, um azul de algo podre, de mofo. Pensei que talvez estivesse chorando, mas ele nunca chorava.
– Desculpe, Harold, desculpe.
Precisei me controlar para não gritar – não com ele, mas simplesmente para expressar algo que não conseguia dizer – antes de começar a falar.
– Vamos dar um jeito em você – falei. – Vamos chamar a polícia, e depois...
– Não – disse ele. – Nada de polícia.
– Mas precisamos – falei. – Jude. Você precisa fazer isso.
– Não – repetiu ele. – Não vou dar queixa. Não consigo – respirou fundo –, não consigo passar por essa humilhação. Não consigo.
– Tudo bem – falei, pensando em conversar melhor com ele sobre isso mais tarde. – Mas e se ele voltar?
Ele balançou a cabeça, de leve.
– Não vai – falou, em sua nova voz abafada.
Estava começando a me sentir desnorteado pelo esforço de suprimir a vontade de sair em busca de Caleb e matá-lo, o esforço em aceitar que alguém tivesse feito aquilo a ele, e por vê-lo, aquela pessoa tão digna, que sempre fazia tudo para se mostrar composto e arrumado, de uma maneira tão castigada, tão indefesa.
– Onde está sua cadeira? – perguntei.
Ele emitiu um som como um balido e disse algo com a voz tão baixa que precisei pedir que repetisse, embora pudesse ver quanta dor sentia ao falar.
– No pé da escada – disse finalmente, e dessa vez tive certeza de que estava chorando, embora nem conseguisse abrir os olhos para as lágrimas passarem. Ele começou a tremer.
Àquela altura, eu também estava tremendo. Deixei-o ali, sentado no chão, e fui buscar a cadeira de rodas, que fora jogada escada abaixo com tanta força que batera na parede mais distante e fora parar no meio do caminho para o quarto andar. Voltando para perto dele, percebi que o chão estava pegajoso e vi uma enorme poça brilhosa de vômito próximo à mesa da sala de jantar, já coagulada.
– Apoie o braço nos meus ombros – falei, e ele obedeceu. Quando o levantei, ele soltou um grito. Pedi desculpas e o ajeitei na cadeira. Ao fazê-lo, percebi que a parte de trás da camisa – vestia um daqueles agasalhos térmicos cinza que gostava de usar para dormir – estava ensanguentada, com sangue novo e velho, e a parte de trás das calças também estava ensanguentada.
Afastei-me dele e telefonei para Andy, dizendo que era uma emergência. Tive sorte: Andy ficara na cidade naquele fim de semana e concordou em nos encontrar em seu consultório em vinte minutos.
Seguimos até lá. Ajudei-o a sair do carro – parecia não querer usar o braço esquerdo, e, quando o coloquei de pé, ele manteve a perna direita no ar para não tocar o chão e soltou um barulho estranho, como um pássaro, no momento em que abracei seu peito para sentá-lo na cadeira. Quando Andy abriu a porta e o viu, pensei que ele fosse vomitar.
– Jude – disse Andy quando recuperou a fala, agachando ao seu lado, mas ele não respondeu.
Depois que o instalamos na sala de exames, conversamos na recepção. Contei a ele sobre Caleb. Contei o que imaginava ter acontecido. Contei o que me parecia estar pior: achava que tinha quebrado o braço esquerdo, que havia algo de errado com a perna direita, que ele estava sangrando e em que locais, que o piso do apartamento estava cheio de sangue. Contei que ele não queria dar queixa à polícia.
– Tudo bem – disse Andy. Pude perceber que estava em choque. Continuava a engolir em seco. – Tudo bem, tudo bem. – Parou e esfregou os olhos. – Você poderia esperar aqui um tempinho?
Andy voltou da sala de exames quarenta minutos depois.
– Vou levá-lo ao hospital para tirar alguns raios-X – falou. – Tenho quase certeza de que quebrou o pulso esquerdo e algumas das costelas. E se a perna estiver... – Parou. – Se estiver, será um grande problema – disse. Parecia ter esquecido que eu estava à sua frente. Depois voltou a si. – É melhor você ir para casa. Ligo quando estiver quase acabando.
– Vou junto – falei.
– Não, Harold – disse ele. E, em seguida, com mais sutileza: – Você precisa ligar para o escritório dele. Não existe a menor possibilidade de trabalhar esta semana. – Andy fez uma pausa. – Ele falou... falou que é para você dizer que ele sofreu um acidente de carro.
Quando eu estava saindo, Andy falou, em voz baixa:
– Ele me disse que estava jogando tênis.
– Eu sei – respondi. Naquele momento me senti mal por nós dois, por termos sido tão burros. – Também foi o que disse para mim.
Voltei a Greene Street com as chaves dele. Fiquei parado na porta por um bom tempo, por longos minutos, olhando para todo aquele espaço. Parte das nuvens havia se dissipado, mas não era preciso muito sol – mesmo com as persianas fechadas – para o apartamento se encher de luz. Sempre o considerei um lugar esperançoso, com seus tetos altos, sua limpeza, sua visibilidade, sua promessa de transparência.
Aquele era o apartamento dele, então, obviamente, havia milhares de produtos de limpeza. Comecei a limpar. Esfreguei os pisos; as áreas viscosas eram de sangue seco. Era difícil distinguir porque os pisos eram escuros, mas dava para sentir o cheiro, um odor denso e forte que o nariz logo reconhece. Ele havia claramente tentado limpar o banheiro, mas ali também dava para ver marcas de sangue no mármore, que, seco, lembrava o tom rosa-ferrugem do pôr-do-sol; aquelas foram mais difíceis de tirar, mas fiz o melhor que pude. Revirei as latas de lixo – em busca de provas, suponho, mas não encontrei nada: estavam todas limpas e vazias. As roupas que usara na noite anterior estavam espalhadas próximo ao sofá da sala de estar. A camisa estava tão rasgada, praticamente esfarrapada, que tive de jogar fora; levei o terno para ser lavado a seco. A não ser por isso, o apartamento estava bem-arrumado. Eu entrara no quarto com um certo medo, esperando encontrar abajures quebrados, roupas por todos os lados, mas estava tudo tão organizado que dava para pensar que ninguém vivia ali, que era uma casa-mostruário, uma propaganda de uma vida invejável. A pessoa que morava ali deveria dar festas, não teria preocupações, seria confiante, e, à noite, abriria as persianas e dançaria com os amigos, enquanto as pessoas passando por Greene Street e por Mercer Street olhariam para o alto, na direção daquela caixa de luz flutuando no céu, e imaginariam seus habitantes livres de qualquer infelicidade, medo ou preocupação.
Enviei um e-mail a Lucien, a quem havia encontrado uma vez antes, e que, por um acaso, era amigo de um amigo de Laurence, contando que Jude se envolvera num acidente de carro terrível e estava no hospital. Fui ao mercado e comprei coisas que ele poderia comer com facilidade: sopas, pudins, sucos. Procurei o endereço de Caleb Porter e o repeti para mim mesmo – rua 29 oeste, número 50, apartamento 17J – até decorá-lo. Liguei para o chaveiro e disse que era uma emergência, que precisava trocar todas as fechaduras: da porta da frente, do elevador, do apartamento. Abri todas as janelas para deixar o ar úmido levar embora o cheiro de sangue, de desinfetante. Deixei uma mensagem com a secretária da faculdade de direito dizendo que precisava cuidar de uma emergência familiar e não poderia dar aula aquela semana. Deixei mensagens para alguns colegas perguntando se podiam me substituir. Pensei em telefonar para um velho amigo da faculdade de direito, que trabalhava na Promotoria Pública. Explicaria o que acontecera, mas sem citar seu nome. Perguntaria o que poderia ser feito para que Caleb Porter fosse preso.
– Mas você está me dizendo que a vítima não irá prestar queixa? – diria Avi.
– Bem, sim – teria de admitir.
– E daria para fazê-la mudar de ideia?
– Acho que não – teria de admitir.
– Bem, Harold – diria Avi, perplexo e irritado. – Não sei o que dizer, então. Você sabe tão bem quanto eu que não posso fazer nada se a vítima se recusar a depor.
Lembro-me de ter pensado, como eu raramente pensava, sobre como a lei era uma coisa frágil, como dependia de contingências, como era um sistema que oferecia tão pouco conforto, apresentava tão pouca utilidade, àqueles que mais precisavam de sua proteção.
Depois fui até o banheiro e tateei debaixo da pia, onde encontrei seu estojo de lâminas e bolas de algodão. Joguei tudo no incinerador. Detestava aquele estojo, detestava saber que o encontraria.
Sete anos antes, ele fora à casa de Truro no início de maio. Fora uma visita espontânea: eu estava lá tentando escrever, as passagens estavam baratas, convidei-o para ir me ver e, para minha surpresa – ele nunca deixava o escritório da Rosen Pritchard, mesmo naquela época –, ele apareceu. Estava feliz naquele dia, e eu também fiquei. Deixei-o fatiando um repolho roxo na cozinha e subi com o encanador, que estava instalando um novo vaso sanitário no nosso banheiro, e depois que acabou, perguntei se podia dar uma olhada na pia do banheiro de baixo, no quarto de Jude, que estava vazando.
Ele respondeu que sim. Apertou uma coisa aqui, trocou outra coisa ali e então, quando estava saindo do banheiro, me deu algo.
– Achei isso preso com fita debaixo da pia – falou.
– O que é? – perguntei, pegando o embrulho das mãos dele.
Ele deu de ombros.
– Sei lá. Mas estava bem preso, com fita isolante.
Ele guardou suas ferramentas enquanto fiquei ali parado, em silêncio, encarando o estojo, e então acenou para mim e foi embora; também pude ouvir quando ele se despediu de Jude ao sair, assoviando.
Olhei para o estojo. Era um estojo normal, pequeno, de plástico transparente. Dentro dele encontrei uma caixa com dez lâminas, lenços de papel umedecidos com álcool em embalagens individuais, pedaços de gaze dobrados em quadrados e ataduras. Fiquei ali parado, segurando o estojo, e soube para que servia, por mais que nunca tivesse visto qualquer prova e, na verdade, nunca tivesse visto nada naquele sentido. Mas eu sabia.
Fui até a cozinha e lá estava ele, lavando uma bacia de batatas bolinhas, ainda feliz. Até cantarolava algo, bem baixinho, o que só fazia quando estava muito alegre, como um gato ronrona para si mesmo quando está sozinho no sol.
– Devia ter me falado que precisava de ajuda para instalar o vaso – falou, sem levantar a cabeça. – Eu podia ter cuidado disso, e você economizaria um dinheiro.
Ele sabia como mexer com todas aquelas coisas: encanamentos, circuitos elétricos, carpintaria, jardinagem. Uma vez fomos à casa de Laurence para que Jude pudesse explicar a ele como desenterrar de maneira segura a jovem macieira de um canto do quintal para replantá-la em outro, onde receberia mais sol.
Fiquei um tempo ali, observando-o. Sentia tantas coisas ao mesmo tempo que, juntas, elas se combinavam para formar um nada, um torpor, uma ausência de sentimentos causada por um excesso de sentimentos.
– O que é isto? – perguntei, estendendo o estojo à frente dele.
Jude ficou completamente imóvel, com a mão suspensa sobre a bacia, e lembro que vi as pequenas gotas de água se juntarem nas pontas de seus dedos e pingarem. Parecia que tinha se cortado com a faca e estava sangrando água. Ele abriu a boca e logo em seguida a fechou.
– Desculpe, Harold – disse, com a voz bem baixa. Abaixou a mão e as secou, lentamente, no pano de prato.
Aquilo me deixou com raiva.
– Não estou pedindo para se desculpar, Jude – falei. – Estou perguntando o que é isto. E não diga que é um estojo com lâminas dentro. O que é isto? Por que estava preso debaixo da sua pia?
Ele me encarou por um longo tempo com aquele olhar – sei que você sabe de qual olhar estou falando –, aquele que nos permitia enxergá-lo se afastando, mesmo que ele continuasse a olhar na sua direção; dava para ver seus portões sendo fechados e trancados, as pontes sendo içadas sobre o fosso.
– Você sabe o que é – disse finalmente, ainda com a voz baixa.
– Quero ouvir da sua boca – falei.
– Eu preciso dele – disse.
– Me diga o que faz com isto – falei, encarando-o.
Ele baixou a cabeça para a bacia de batatas.
– Às vezes preciso me cortar – falou, rompendo o silêncio. – Desculpe, Harold.
E então, de repente, entrei em pânico, e meu medo me deixou irracional.
– Que porra isso quer dizer? – perguntei. Talvez tenha chegado a gritar.
Ele foi andando para trás, na direção da pia, aumentando a distância como se eu pudesse me jogar em cima dele.
– Não sei – falou. – Desculpe, Harold.
– O que às vezes significa? – perguntei.
Ele também estava entrando em pânico, pude perceber.
– Não sei – disse. – Varia.
– Bom, faça uma estimativa. Me dê uma média.
– Não sei – falou, desesperado. – Não sei. Algumas vezes por semana, acho.
– Algumas vezes por semana! – falei, e então parei. Tinha de sair dali. Peguei meu casaco na cadeira e enfiei o estojo no bolso interno. – É melhor você estar aqui quando eu voltar – falei, e saí. (Ele era fujão: sempre que achava que Julia ou eu estávamos chateados com ele, tentava sair da nossa frente o mais rápido possível, como se fosse um objeto ofensivo que precisasse ser removido.)
Desci a escada e fui até a praia. Depois andei pelas dunas, sentindo o tipo de raiva que vem quando percebemos nossa completa inadequação, a certeza de que estamos agindo errado. Foi a primeira vez que entendi que, por mais que ele fosse duas pessoas na nossa frente, também éramos duas pessoas na frente dele: víamos dele só o que queríamos, e permitíamos a nós mesmos ignorar o resto. Estávamos tão despreparados. É fácil com a maioria das pessoas: a infelicidade delas é a nossa infelicidade, suas mágoas são compreensíveis, seus ataques de autodepreciação são rápidos e podem ser discutidos. Mas os dele, não. Não sabíamos como o ajudar, pois nos faltava a imaginação necessária para diagnosticar os problemas. Mas isso são apenas desculpas.
Quando voltei para casa, já estava quase escuro, e observei pela janela sua silhueta se movendo pela cozinha. Sentei numa cadeira na varanda e desejei que Julia estivesse ali e não na Inglaterra com o pai.
A porta se abriu.
– O jantar está pronto – falou, com a voz baixa. Levantei e entrei.
Ele tinha preparado um dos meus pratos preferidos: o robalo que eu havia comprado no dia anterior, escaldado, e batatas assadas do jeito que ele sabia que eu adorava, cheias de tomilho e cenouras, e uma salada de repolho, na qual eu tinha certeza que encontraria o molho com grãos de mostarda que eu amava. Mas não estava com apetite para comer nada daquilo. Ele me serviu, depois a si mesmo, e sentou.
– Parece fantástico – falei. – Obrigado por preparar tudo isso.
Ele assentiu com a cabeça. Olhamos para nossos pratos, para a bela refeição que nenhum dos dois iria tocar.
– Jude – falei –, gostaria de me desculpar. Sinto muito, muito mesmo. Não deveria ter ido embora e deixado você para trás daquele jeito.
– Tudo bem – disse ele. – Eu entendo.
– Não – falei. – Foi errado de minha parte. Eu fiquei tão nervoso.
Ele voltou a olhar para baixo.
– Sabe por que fiquei nervoso? – perguntei.
– Porque – começou ele –, porque eu trouxe aquilo para a sua casa.
– Não – falei. – Não é por isso. Jude, esta casa não é só minha, ou de Julia; ela é sua também. Quero que se sinta à vontade para trazer para cá qualquer coisa que teria em casa. Estou chateado porque você está fazendo essa coisa horrível a si mesmo.
Ele não levantou a cabeça.
– Seus amigos sabem que você faz isso? Andy sabe?
Fez um aceno sutil com a cabeça.
– Willem sabe – falou, com a voz baixa. – E Andy.
– E o que Andy tem a dizer sobre isso? – perguntei, pensando, “Droga, Andy”.
– Ele diz... ele diz que eu devia procurar um terapeuta.
– E você procurou um? – Ele balançou a cabeça e senti a raiva despertando dentro de mim outra vez. – Por que não? – perguntei, mas ele não disse nada. – Você tem um estojo igual a esse em Cambridge? – falei e, depois de ficar um tempo em silêncio, ele ergueu o olhar para mim e assentiu com a cabeça.
– Jude – falei –, por que faz isso a si mesmo?
Ele ficou quieto por um longo período, e eu também. Fiquei ouvindo o mar.
Até que, finalmente, disse:
– Tenho alguns motivos.
– Como o quê?
– Às vezes é porque me sinto tão mal, ou com tanta vergonha, e preciso tornar físico o que estou sentindo – começou, dando uma olhada para mim antes de baixar o olhar novamente. – E às vezes é porque sinto um monte de coisas e preciso não sentir nada. Isso ajuda a fazer tudo ir embora. E às vezes é porque estou feliz e tenho de lembrar a mim mesmo que não deveria me sentir assim.
– Por quê? – perguntei quando recuperei a fala. Ele apenas balançou a cabeça e ficou em silêncio e eu também não falei.
Ele respirou fundo.
– Ouça – falou de repente, com firmeza, olhando diretamente para mim –, se quiser anular a adoção, eu vou entender.
Fiquei tão estupefato que senti raiva – aquilo nem passara pela minha cabeça. Estava prestes a rosnar alguma coisa quando olhei para ele, e vi como estava tentando ser corajoso, como estava aterrorizado: Ele realmente pensava que eu poderia querer fazer aquilo. Ele realmente compreenderia se eu o fizesse. Estava esperando aquilo. Depois, percebi que naqueles anos seguintes à adoção ele estava sempre se perguntando o quão permanente ela era, sempre se perguntando no que acabaria fazendo para que eu o renegasse.
– Eu nunca faria isso – falei, com o máximo de firmeza possível.
Naquela noite, tentei conversar com ele. Estava com vergonha do que fizera, isso era claro, mas realmente não entendia por que eu me importava tanto, por que aquilo chateava tanto a mim, a você e a Andy.
– Não é fatal – continuava a dizer, como se aquele fosse o problema. – Eu sei como controlar.
Ele não queria procurar um terapeuta, mas não me dizia por quê. Odiava se cortar, dava para ver, mas também não conseguia conceber a vida sem aquilo.
– Eu preciso – continuava a dizer. – Eu preciso. Fazer isso deixa tudo certo.
Mas, com certeza, falei para ele, houve um período na sua vida em que você não fazia isso, não é?, e Jude balançou a cabeça.
– Eu preciso – repetiu. – Isso me ajuda, Harold, você tem de acreditar em mim.
– Por que você precisa? – perguntei.
Ele balançou a cabeça.
– Isso me ajuda a controlar minha vida – disse.
No fim, não havia mais nada que eu pudesse dizer.
– Vou ficar com isto – falei, mostrando o estojo, e ele estremeceu, mas concordou. – Jude – chamei, e ele olhou para mim. – Se eu jogar isto fora, você vai fazer outro?
Ele ficou em absoluto silêncio, olhando para o prato.
– Sim – respondeu.
De qualquer forma, joguei o estojo fora, é claro, empurrando-o bem para o fundo de um saco de lixo, que levei até a lata no fim da rua. Limpamos a cozinha em silêncio – ambos estávamos exaustos e não havíamos comido nada –, e depois ele foi para a cama e eu fiz o mesmo. Naqueles dias, ainda tentava respeitar o espaço pessoal dele. Caso contrário, eu o teria agarrado e segurado, mas não o fiz.
Mas, enquanto estava deitado na cama, acordado, pensei nele, em seus longos dedos ansiando pelo corte da lâmina, e então desci até a cozinha. Peguei a bacia grande na gaveta debaixo do forno e comecei a colocar nela todos os objetos afiados que consegui encontrar: facas, tesouras, saca-rolhas, garfos de lagosta. Depois levei tudo comigo até a sala de estar, onde sentei em minha poltrona, aquela virada para o mar, abraçando a bacia junto ao corpo.
Acordei com um rangido. As tábuas do piso da cozinha eram ruidosas, e eu me ajeitei na cadeira, no escuro, forçando-me a ficar em silêncio, e ouvi seus passos, a pisada leve característica do pé esquerdo seguida pelo arrastar do direito, e então uma gaveta abrindo e, alguns segundos depois, fechando. Em seguida, mais uma gaveta, e mais uma, até ter aberto e fechado todas as gavetas, todos os armários. Não acendera a luz – o luar iluminava tudo –, e pude enxergá-lo parado naquele novo mundo sem objetos cortantes que era a cozinha, entendendo que eu havia tirado tudo dele: pegara até os garfos. Continuei sentado, prendendo a respiração, ouvindo o silêncio da cozinha. Por um momento, foi como se estivéssemos conversando, uma conversa sem palavras ou sem contato visual. Até que por fim eu o ouvi dar meia-volta e seus passos se distanciarem, voltando para o quarto.
Quando voltei para Cambridge na noite seguinte, fui ao banheiro dele e encontrei outro estojo, uma cópia do que havia em Truro, e o joguei fora. Nunca mais voltei a encontrar um estojo daqueles, em Cambridge ou em Truro. Ele deve ter achado outro lugar para escondê-los, um lugar que nunca descobri, pois não podia andar para cima e para baixo com aquelas lâminas no avião. Mas, sempre que ia a Greene Street, eu dava um jeito de me esgueirar até o banheiro. Ali ele deixava o estojo no mesmo esconderijo de sempre, e toda vez eu o roubava, enfiava no bolso e jogava fora quando ia embora. Ele devia saber que eu fazia isso, é claro, mas nunca tocamos no assunto. O estojo sempre era substituído. Até ele descobrir que tinha que o esconder de você também, não houve uma só vez que eu o tenha procurado e não o tenha achado. Mesmo assim, nunca parei de verificar: sempre que visitava seu apartamento, ou, depois, a casa no norte do estado, ou o apartamento em Londres, eu ia até o banheiro e procurava o estojo. Nunca mais o achei. Os banheiros projetados por Malcolm eram tão simples, com suas linhas precisas, mas ainda assim ele encontrara um esconderijo, um lugar que eu nunca voltaria a descobrir.
Ao longo dos anos, tentei conversar com ele sobre o assunto. No dia seguinte depois de ter encontrado o primeiro estojo, liguei para Andy e comecei a gritar com ele, que, atipicamente, permitiu.
– Eu sei – falou. – Eu sei. – E então: – Harold, não estou fazendo esta pergunta de maneira retórica ou sarcástica. Quero que me diga: o que devo fazer? – E eu, obviamente, não sabia o que responder.
Você foi o que chegou mais longe com ele. Mas eu sei que você se culpava. Eu também me culpava. Porque fiz algo pior que aceitar: eu tolerei. Escolhi esquecer que ele fazia aquilo, pois era difícil demais encontrar uma solução, e também porque queria apreciá-lo como a pessoa que ele queria que víssemos, por mais que eu soubesse que as coisas não eram bem assim. Disse a mim mesmo que estava permitindo que ele mantivesse sua dignidade, ao mesmo tempo escolhendo esquecer que, por milhares de noites, ele a sacrificava. Eu o reprimia e tentava argumentar, mas sabia que aqueles métodos não funcionavam e, mesmo assim, não tentei nada diferente: algo mais radical, algo que talvez me afastasse dele. Eu sabia que estava sendo covarde, pois nunca contei a Julia sobre o estojo, nunca contei a ela sobre o que havia descoberto sobre ele naquela noite em Truro. No fim, ela acabou descobrindo, e foi uma das pouquíssimas vezes em que a vi irritada daquela maneira.
– Como pôde permitir que isso continuasse a acontecer? – me perguntou. – Como pôde deixar que continuasse por tanto tempo?
Ela nunca me culpou diretamente por aquilo, mas eu sabia que se sentia assim, e como poderia ser diferente? Eu sentia o mesmo.
E agora ali estava eu, no apartamento dele, onde algumas horas antes, enquanto eu estava na minha cama, acordado, ele estava sendo espancado. Sentei no sofá com o telefone na mão para esperar a ligação de Andy, dizendo que ele estava pronto para voltar para mim, pronto para ser deixado aos meus cuidados. Abri a persiana de frente para mim, sentei novamente e fiquei encarando o céu metálico, vendo uma nuvem se misturar a outra, até não conseguir enxergar mais nada, apenas uma névoa cinza, enquanto o dia lentamente se transformava em noite.
–
Andy telefonou às seis naquela noite, nove horas depois que eu o deixara, e me encontrou na porta.
– Ele está dormindo na sala de exames – falou. E em seguida: – Quebrou o pulso esquerdo, quatro costelas e, graças a deus, não quebrou nenhum osso das pernas. Nenhum sinal de concussão também, ainda bem. Fraturou o cóccix. Deslocou o ombro, mas já coloquei de volta no lugar. Tem hematomas nas costas inteiras e no torso; claramente, levou alguns chutes. Mas não havia sangramento interno. O rosto parece pior do que está na verdade: os olhos e o nariz estão bem, não há nada quebrado, e apliquei gelo nos hematomas, o que você também terá de fazer regularmente.
“Há cortes nas pernas. Essa é minha maior preocupação. Prescrevi alguns antibióticos; vou começar dando a ele uma dosagem baixa como medida preventiva, mas, se ele disser que está se sentindo quente, ou frio, me avise na mesma hora. A última coisa de que ele precisa agora é uma infecção nas pernas. As costas estão lascadas...”
– O que quer dizer com “lascadas”? – perguntei.
Ele pareceu sem paciência.
– Esfoladas – falou. – Ele foi açoitado, provavelmente com um cinto, mas não quis me contar. Eu as enfaixei, mas vou lhe dar uma pomada antibiótica e você vai precisar manter as feridas limpas e trocar o curativo a partir de amanhã. Ele não vai querer que você faça isso, mas foda-se. Anotei todas as instruções aqui.
Andy me passou uma sacola de plástico; olhei o que tinha dentro: frascos de comprimidos, rolos de ataduras, tubos de pomadas.
– Isto aqui – disse Andy, pegando algo – são analgésicos. Ele os detesta. Mas vai precisar tomar; faça com que tome um comprimido a cada doze horas: uma vez de manhã, a outra à noite. Vão deixá-lo desnorteado, então não permita que saia sozinho ou levante peso. Também vão provocar náuseas, mas você tem que fazer com que ele coma: algo simples, como arroz e sopa. Tente fazer com que fique na cadeira de rodas; ele não vai querer se movimentar muito, de qualquer forma.
“Telefonei para o dentista dele e marquei uma consulta para segunda-feira às nove; ele perdeu dois dentes. O mais importante é que durma o máximo que puder; vou passar no apartamento amanhã à tarde e depois todo dia da semana à noite. Não deixe ele ir para o trabalho, embora... eu não ache que ele vá querer.”
Ele parou tão abruptamente quanto começara, e nós dois ficamos ali em silêncio.
– Não acredito numa porra dessas – finalmente disse Andy. – Aquele babaca do caralho. Quero encontrar esse merda e matá-lo.
– Eu sei – falei. – Eu também.
Andy balançou a cabeça.
– Ele não quis deixar que eu o denunciasse – falou. – Cheguei a implorar.
– Eu sei – falei. – Eu também.
Fiquei novamente chocado ao vê-lo, e ele balançou a cabeça quando tentei ajudá-lo a sentar na cadeira. Ficamos parados e o observamos se ajeitar no assento, ainda com as mesmas roupas manchadas, com o sangue parecendo continentes enferrujados.
– Obrigado, Andy – disse, bem baixinho. – Desculpe.
Andy colocou a palma da mão em sua cabeça e não disse nada.
Quando chegamos a Greene Street, já estava escuro. A cadeira de rodas dele, como você sabe, era daquelas bem leves, elegantes, que transmitia uma autossuficiência tão forte por parte do usuário que não havia nem alças, pois presumia que a pessoa sentada nela nunca se permitiria a indignidade de ser empurrada por outra. Era preciso segurar a parte de cima do encosto, que era bem baixo, e guiar a cadeira daquela forma. Parei na porta da entrada para acender as luzes, e nós dois piscamos os olhos.
– Você limpou a casa – disse ele.
– Bem, sim – respondi. – Mas não tão bem quanto você teria limpado, receio.
– Obrigado – falou.
– De nada – disse. Ficamos em silêncio. – Por que não vamos ali para eu ajudar você a trocar de roupa e depois comemos alguma coisa?
Ele balançou a cabeça.
– Não, obrigado. Não estou com fome. E posso me trocar sozinho.
Agora ele estava reprimido, controlado: a pessoa que vira antes desaparecera, enjaulada uma vez mais em seu labirinto em algum sótão apertado. Ele sempre foi educado, mas, quando tentava se proteger ou reforçar sua competência, tornava-se ainda mais: educado e levemente distante, como se fosse um explorador diante de uma tribo perigosa, e tomasse cuidado para não se envolver demais nas atividades dela.
Por dentro, soltei um suspiro, e o levei ao quarto; falei que estaria ali perto se precisasse de mim, e ele acenou com a cabeça. Sentei no chão do lado de fora da porta fechada e esperei: ouvi as torneiras abrirem e fecharem e, depois, seus passos, depois um longo período de silêncio e então o suspiro da cama quando sentou nela.
Quando entrei, ele estava debaixo das cobertas. Sentei ao lado dele, na beirada da cama.
– Tem certeza de que não quer comer nada? – perguntei.
– Sim – respondeu, e, depois de uma pausa, olhou para mim. Agora já conseguia abrir os olhos e, contrastando com o branco dos lençóis, ele tinha as cores barrosas e fecundas da camuflagem: o verde-selva de seus olhos, as listras douradas e castanhas dos cabelos, e o rosto, menos azulado do que naquela manhã, agora assumindo um tom bronzeado, escuro e difuso. – Harold, desculpe – falou. – Desculpe por ter gritado com você ontem à noite, desculpe por causar tantos problemas. Desculpe por...
– Jude – eu o interrompi –, não precisa se desculpar. Eu quero pedir desculpa. Queria poder tornar tudo melhor para você.
Ele fechou os olhos e depois os abriu, desviando o olhar de mim.
– Estou me sentindo tão envergonhado – falou, com a voz baixa.
Acariciei seus cabelos, e ele deixou.
– Não precisa ficar assim – falei. – Você não fez nada de errado. – Eu queria chorar, mas achei que ele fosse chorar e, se ele quisesse, eu tentaria me conter. – Sabe disso, não sabe? – perguntei. –Sabe que não é culpa sua, que você não merecia nada disso? – Ele não respondeu, então continuei fazendo perguntas e mais perguntas, até ele finalmente concordar levemente com a cabeça. – Você sabe que aquele cara é um puta de um babaca, não sabe? – perguntei, e ele virou o rosto. – Sabe que você não tem culpa de nada, não sabe? – perguntei. – Sabe que isso não influencia em nada quem você é e o seu valor?
– Harold – disse ele. – Por favor.
Parei de falar, mas, na verdade, devia ter continuado.
Ficamos em silêncio por um tempo.
– Posso fazer uma pergunta? – falei e, depois de um segundo ou dois, ele acenou com a cabeça outra vez. Eu nem sabia o que ia falar até estar falando e, enquanto falava, não sabia de onde vinham as palavras, se não de uma parte de mim que, acredito, sempre soube, mas nunca quis perguntar, pois tinha pavor do que ele pudesse responder: sabia o que ele diria e não queria ouvir. – Você foi molestado sexualmente quando era criança?
Pude sentir, mais do que propriamente ver, seu corpo enrijecer. Ele estremeceu sob a minha mão. Ainda não tinha olhado para mim e, naquele momento, virou sobre o lado esquerdo, colocando o braço enfaixado sobre o travesseiro ao seu lado.
– Cristo, Harold – finalmente disse.
Recolhi a mão.
– Quantos anos tinha quando isso aconteceu? – perguntei.
Fez-se um silêncio e ele então enfiou o rosto no travesseiro.
– Harold – falou –, estou muito cansado. Preciso dormir.
Coloquei a mão no ombro dele, que saltou, mas me mantive firme. Podia sentir seus músculos retesarem debaixo da minha palma, podia senti-lo estremecer.
– Está tudo bem – falei. – Não tem nada do que se envergonhar – falei. – Não é culpa sua, Jude, está me entendendo?
Mas ele fingia dormir, embora eu ainda pudesse sentir aquela vibração, e tudo em seu corpo estava alerta e alarmado.
Continuei sentado ali por mais um tempo, observando-o se manter rígido. Até que saí, fechando a porta atrás de mim.
Passei a semana no apartamento dele. Você telefonou naquela noite e eu atendi e menti, contei alguma baboseira sobre um acidente, senti a preocupação na sua voz e tive uma vontade enorme de lhe dizer a verdade. No dia seguinte, você ligou de novo e eu fiquei escutando do lado de fora do quarto enquanto ele também mentia:
– Foi um acidente de carro. Não. Não, nada sério. O quê? Eu tinha ido passar o fim de semana na casa de Richard. Dormi no volante e bati numa árvore. Não sei, eu estava cansado. Tenho trabalhado muito. Não, era alugado. Porque o meu está na oficina. Não é nada de mais. Não, vou ficar bem. Não, você conhece Harold... ele está exagerando. Eu prometo. Eu juro. Não, ele está em Roma e só volta no fim do mês que vem. Willem: eu prometo. Estou bem! Pode deixar. Eu sei. Pode deixar. Eu prometo; vou fazer isso. Você também. Tchau.
Na maior parte do tempo, ele se mostrou dócil, tranquilo. Tomava sua sopa todas as manhãs, tomava os remédios. Eles o deixavam lerdo. Toda manhã trabalhava no escritório de casa, mas às onze já estava no sofá, dormindo. Passava a hora do almoço e a tarde inteira dormindo. Eu só o acordava para o jantar. Você telefonava toda noite. Julia também ligava para ele; eu sempre tentava espionar, mas não conseguia ouvir muito da conversa. Só sei que ele não falava muito, o que significava que Julia devia estar falando bastante. Malcolm foi visitá-lo várias vezes, e os Henry Youngs, Elijah e Rhodes também estiveram por lá. JB mandou um desenho de uma íris; nunca soube que ele desenhava flores. Ele me enfrentou, como havia previsto Andy, na questão dos curativos nas pernas e nas costas, as quais não me deixava ver, independentemente do quanto eu insistisse e gritasse. O único que podia fazer isso era Andy, que falou para ele:
– Vai precisar ir ao meu consultório a cada dois dias para que eu troque os curativos. Estou falando sério.
– Tudo bem – resmungou.
Lucien foi visitá-lo, mas o encontrou dormindo em seu escritório.
– Não o acorde – falou, e em seguida, olhando para ele: – Jesus.
Conversamos um pouco, e ele me disse o quanto Jude era admirado na firma, e isso é algo que você jamais se cansa de ouvir sobre seu filho, seja quando tem quatro anos, está no maternal e se destaca nas estátuas com argila, ou quando tem quarenta, trabalha numa firma renomada e se destaca protegendo criminosos corporativos.
– Eu diria que você deve ter bastante orgulho dele, mas acho que conheço bem suas opiniões para presumir uma coisa dessas. – Ele sorriu. Gostava bastante de Jude, dava para ver, e me vi com um pouco de ciúmes, mas logo me senti mesquinho por aquele sentimento.
– Não – falei –, eu tenho orgulho dele. – Naquela hora fiquei mal por todos os anos em que reclamei com ele sobre a Rosen Pritchard, o único lugar onde se sentia seguro, o único lugar onde se sentia realmente leve, o único lugar onde seus medos e inseguranças eram removidos.
Na segunda-feira seguinte, um dia antes de eu ir embora, ele já parecia melhor: as bochechas tinham cor de mostarda, mas o inchaço diminuíra e dava para ver os ossos do rosto outra vez. Parecia que sentia menos dor ao respirar e ao falar, e sua voz estava menos sussurrada, mais próxima do normal. Andy permitira que a dosagem matinal de analgésicos fosse reduzida pela metade, e ele estava mais alerta, embora não mais enérgico. Jogamos uma partida de xadrez, que ele venceu.
– Volto na quinta à noite – disse a ele durante o jantar. Eu só dava aula às terças, quartas e quintas naquele semestre.
– Não – falou ele –, não precisa. Obrigado, Harold, mas... eu vou ficar bem, de verdade.
– Já comprei a passagem – falei. – E de qualquer forma, Jude, você não precisa dizer sempre não. Lembra sobre o que conversamos? Sobre aceitação? – Ele ficou em silêncio.
O que mais posso lhe dizer? Ele voltou ao trabalho naquela quarta-feira, apesar da recomendação de Andy para que repousasse em casa até o fim da semana. E, apesar de suas ameaças, Andy ia ao apartamento toda noite para trocar os curativos e examinar suas pernas. Julia voltou para casa, e, em todos os fins de semana de outubro, eu ou ela íamos a Nova York para ficar com ele em Greene Street. Malcolm dormia lá durante a semana. Ele não gostava daquilo, dava para ver, mas decidimos que não importava se gostasse ou não, pelo menos não naquela questão.
Ele melhorou. As pernas não infeccionaram. Nem as costas. Teve sorte, Andy continuava a dizer. Recuperou o peso que havia perdido. Quando você voltou para casa, no início de novembro, ele já estava praticamente curado. No Dia de Ação de Graças, que comemoramos no apartamento de Nova York para que ele não precisasse viajar, já havia retirado o gesso e voltara a andar. Observei-o atentamente durante o jantar, observei-o conversando com Laurence e rindo com uma de suas filhas, mas não conseguia parar de pensar nele naquela outra noite, em seu rosto quando Caleb segurou seu pulso, em sua expressão de dor, vergonha e medo. Pensei no dia em que descobri que ele estava usando uma cadeira de rodas: foi pouco depois de ter encontrado o estojo em Truro, quando estive na cidade para uma conferência e ele entrou no restaurante com a cadeira, o que me deixou chocado.
– Por que nunca me contou? – perguntei, e ele fingiu surpresa, agindo como se tivesse falado. – Não – eu disse –, não falou nada. – Ele finalmente confessou que não queria que eu o visse daquele jeito, como uma pessoa fraca e indefesa. – Nunca pensaria isso de você – falei e, por mais que eu não achasse que isso fosse acontecer, aquilo havia, sim, mudado a forma como eu pensava nele; aquilo me lembrou de que o que eu sabia sobre ele era apenas uma minúscula fração da pessoa que era.
Às vezes parecia que aquela semana fora uma assombração, algo que somente eu e Andy testemunhamos. Nos meses seguintes, as pessoas ocasionalmente brincavam: faziam piadas sobre sua barbeiragem ao volante, sobre suas ambições de competir em Wimbledon, e ele apenas sorria e fazia algum comentário autodepreciativo. Nunca me olhava naqueles momentos; eu era uma lembrança do que de fato ocorrera, uma lembrança do que ele via como sua degradação.
Mais tarde, porém, passei a reconhecer que aquele incidente tirara algo grande dele, que o transformara: em outra pessoa, ou talvez na pessoa que fora antes. Eu veria os meses anteriores a Caleb como um período em que ele fora mais saudável do que jamais havia sido: deixava que eu o abraçasse quando o via, e quando eu o tocava – colocando o braço em seu ombro ao passar pela cozinha –, ele não fazia oposição; sua mão continuava cortando as cenouras à sua frente na mesma velocidade. Levara vinte anos para chegar àquele ponto. Mas, depois de Caleb, ele sofreu um retrocesso. No Dia de Ação de Graças, me aproximei para abraçá-lo, mas ele rapidamente se esquivou para a esquerda – bem pouquinho, só o suficiente para que meus braços se fechassem no ar e, por um segundo, olhamos um para o outro, e eu soube que aquilo que me era permitido fazer antes, agora não seria mais: sabia que teria de começar tudo de novo. Eu sabia que ele havia decidido que Caleb estava certo, que ele era nojento e que, de alguma forma, merecia o que lhe acontecera. E aquilo era a pior parte, a coisa mais repreensível de todas. Ele decidira acreditar em Caleb, não em nós, pois Caleb havia confirmado o que ele sempre pensara e o que sempre lhe ensinaram, e é sempre mais fácil acreditar no que você já pensa do que tentar mudar de ideia.
Depois, quando as coisas pioraram, eu me perguntaria o que podia ter feito ou dito. Às vezes pensava que não havia nada que pudesse dizer – talvez houvesse algo que pudesse ajudar, mas nenhum de nós poderia tê-lo convencido. Eu ainda tecia aquelas fantasias: a arma, o pelotão, o número 50 da rua 29 oeste, apartamento 17J. Mas, dessa vez, não atiraríamos nele. Pegaríamos Caleb Porter pelos dois braços, o levaríamos para o carro, iríamos até Greene Street e subiríamos com ele. Diríamos a ele o que falar, avisando-o que estaríamos bem do outro lado da porta, esperando no elevador, com a pistola engatilhada e apontada para suas costas. E, de trás da porta, ouviríamos ele dizer: Não tive a intenção de fazer nada daquilo. Eu estava completamente errado. Tudo o que fiz, e mais do que isso, tudo o que disse, eram palavras direcionadas a outra pessoa. Acredite em mim, pois sei que já acreditou antes: você é belo e perfeito, e nada do que falei é verdade. Eu estava errado, estava equivocado, ninguém poderia estar mais errado do que eu.