Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 18 de 19

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Uma Vida Pequena

Capítulo 3

 

 

ELE NÃO COMEÇOU AQUILO de maneira consciente, não mesmo, mas, ainda assim, quando compreende o que está fazendo, também não para. São meados de novembro, e ele sai da piscina, após sua sessão de natação matinal, e, ao se apoiar nas barras de metal que Richard mandou instalar em volta da piscina para ajudá-lo a subir e a sair de sua cadeira de rodas, o mundo desaparece.

Quando acorda novamente, só dez minutos se passaram. Num momento eram seis e quarenta e cinco da manhã e ele se apoiava nas barras para sair; no momento seguinte, são seis e cinquenta e cinco e ele está de bruços no piso de borracha preta, esticando os braços na direção da cadeira de rodas, enquanto seu torso deixa uma mancha molhada no chão. Ele geme, sentando, e espera até o ambiente voltar ao normal, antes de tentar – desta vez com sucesso – se levantar.

A segunda vez acontece alguns dias depois. Acabou de chegar em casa do escritório, e já é tarde. Cada vez mais, sente como se a Rosen Pritchard fosse sua fonte de energia, e, assim que deixa suas dependências, o mesmo acontece com suas forças: no momento em que o Sr. Ahmed fecha a porta traseira do carro, ele cai no sono e só acorda quando é entregue em Greene Street. Mas, ao caminhar pelo apartamento escuro e silencioso naquela noite, ele é tomado por uma sensação de deslocamento, tão debilitante que por um momento para, piscando os olhos, confuso, antes de ir até o sofá na sala de estar e se deitar. Ele só quer descansar, só por uns minutos, só até conseguir ficar de pé outra vez, mas, quando abre os olhos de novo, já é dia e a sala de estar se cobre de uma luz cinzenta.

A terceira vez acontece na manhã de segunda-feira. Ele acorda antes do despertador e, embora esteja deitado, sente tudo ao seu redor e dentro dele se remexer, como se fosse uma garrafa com água pela metade, flutuando num oceano de nuvens. Nas últimas semanas, nem precisou se encher de remédios aos domingos: chega em casa do seu jantar com JB no sábado, deita na cama e só acorda quando Richard vem chamá-lo no dia seguinte. Quando Richard não vem – como aconteceu neste domingo; ele e India estão visitando os pais dela no Novo México –, ele dorme o dia inteiro, a noite inteira. Não sonha com nada, e nada o desperta.

Sabe o que está acontecendo, é claro: não está comendo o bastante. Não o faz há meses. Alguns dias come bem pouquinho – um pedaço de fruta; um pedaço de pão –, em outros não come absolutamente nada. Não que tenha decidido parar de comer – só não tem mais interesse, não consegue. Não tem fome, por isso não come.

Naquela segunda, porém, ele o faz. Ele levanta, ele cambaleia até o térreo. Ele nada, mas mal, devagar. Depois, ele volta para o apartamento e prepara o café da manhã. Ele senta e come, olhando fixamente para o apartamento, com os jornais dobrados sobre a mesa ao seu lado. Ele abre a boca, ele coloca uma garfada de comida, ele mastiga, ele engole. Ele age com movimentos mecânicos, mas subitamente pensa no quanto aquele processo é grotesco, colocar algo na boca, movê-lo com a língua, engolir o bolo coberto de saliva que se forma, e então para. Mesmo assim, ele promete a si mesmo: vou comer, mesmo que não queira, pois estou vivo, e é isso que devo fazer. Mas ele esquece, e esquece de novo.

E então, dois dias depois, algo acontece. Acabou de voltar para casa, tão exausto que sente que vai se decompor, como se estivesse evaporando pelo ar, tão insubstancial que parece ser feito não de sangue e osso, mas de vapor e névoa, quando vê Willem de pé à sua frente. Abre a boca para falar, mas então pisca os olhos e Willem desaparece, e ele começa a balançar para a frente e para trás, com os braços esticados.

– Willem – diz em voz alta para o apartamento vazio. – Willem. – Ele fecha os olhos, como se pudesse conjurá-lo dessa forma, mas Willem não volta.

No dia seguinte, porém, ele o faz. Está mais uma vez em casa. Mais uma vez é noite. Mais uma vez não comeu nada. Está deitado na cama, olhando fixamente para a escuridão do quarto. E então surge Willem, abruptamente, bruxuleando feito um holograma, seus contornos borrados de luz, e, embora Willem não esteja olhando para ele – olha para algum outro lugar, olha para a porta, olha com tanta determinação que ele tem vontade de seguir a linha de visão de Willem, para ver o que Willem vê, mas sabe que não pode piscar, não pode virar a cabeça, ou Willem o deixará –, vê-lo já é o suficiente, sentir que de alguma forma ele ainda existe, que seu desaparecimento talvez não seja um estado permanente no fim das contas. Finalmente, acaba tendo de piscar, e Willem desaparece uma vez mais.

Mas não fica tão perturbado, pois agora sabe: se não comer, se conseguir resistir até o ponto que antecede o colapso, começará a ter alucinações, e suas alucinações podem ser de Willem. Naquela noite, ele adormece contente, a primeira vez que sente algum contentamento em quase quinze meses, pois agora sabe que pode chamar Willem de volta; agora sabe que a capacidade de evocar Willem está sob seu controle.

Ele cancela a consulta com Andy para poder ficar em casa e fazer um experimento. Esta é a terceira sexta-feira consecutiva em que não vê Andy. Desde aquela noite no restaurante, os dois vêm se tratando com educação, e Andy não mencionou mais Linus, ou qualquer outro médico, embora tenha dito que voltaria a tocar no assunto em seis meses.

– Não é questão de querer me livrar de você, Jude – disse ele. – E sinto muito, de verdade, se soou dessa maneira. Só estou preocupado. Só quero ter certeza de que encontraremos alguém que o agrade, alguém que eu saiba que o deixará à vontade.

– Eu sei, Andy – falou. – E agradeço por isso; de verdade. Tenho me comportado mal e descontei em você.

Mas ele sabe que precisa ter cuidado: sentiu o sabor da raiva, e sabe que tem de controlá-la. Pode senti-la, esperando para explodir boca afora num enxame de abelhas prontos para atacar. Onde aquela raiva estava se escondendo?, se pergunta ele. Como pode fazê-la desaparecer? Ultimamente, seus sonhos têm envolvido violência, coisas terríveis acontecendo às pessoas que detesta, às pessoas que ama: vê o Irmão Luke sendo colocado dentro de um saco cheio de ratos barulhentos e famintos. Vê a cabeça de JB sendo esmurrada contra uma parede e seu cérebro se espalhando feito uma lama cinzenta. Ele está sempre presente nos sonhos, indiferente e vigilante, e, depois de testemunhar a destruição dos outros, dá as costas e vai embora. Acorda com o nariz sangrando, como acontecia quando era criança e suprimia um ataque de pirraça, com as mãos tremendo e o rosto contorcido numa careta.

Naquela sexta-feira, Willem não aparece para ele. Mas, na noite seguinte, ao deixar o escritório para ir jantar com JB, ele vira a cabeça à direita e vê, sentado ao seu lado no carro, Willem. Desta vez, acha que os contornos de Willem estão mais firmes, um pouco mais sólidos, e ele o fita intensamente até piscar e Willem se dissolver novamente.

Depois desses episódios, ele fica esgotado, e o mundo ao seu redor escurece como se toda a sua força e eletricidade tivesse sido usadas na criação de Willem. Ele instrui o Sr. Ahmed a levá-lo para casa em vez do restaurante; enquanto seguem na direção sul, ele envia uma mensagem de texto a JB dizendo que está passando mal e que não conseguirá ir ao seu encontro. Vem fazendo isso cada vez mais: cancelando seus planos com outras pessoas, com desculpas esfarrapadas e imperdoavelmente de última hora – uma hora antes de um jantar num restaurante onde é difícil conseguir reservar uma mesa, minutos após o horário marcado numa galeria, segundos antes das cortinas se abrirem num palco. Richard, JB, Andy, Harold e Julia: esses são os remanescentes que ainda entram em contato com ele, persistentemente, uma semana após a outra. Não consegue lembrar a última vez que falou com Citizen, Rhodes, os Henry Youngs, Elijah ou Phaedra – faz pelo menos semanas. E, por mais que saiba que deveria se importar, ele não se importa. Sua esperança e sua energia não são mais fontes renováveis; suas reservas são limitadas, e ele quer usá-las tentando encontrar Willem, mesmo que a caçada seja elusiva, mesmo diante da probabilidade de fracassar.

E assim ele segue para casa, e espera e espera pela aparição de Willem. Mas isso não acontece, e ele finalmente cai no sono.

No dia seguinte, espera na cama, tentando ficar suspenso entre um estado alerta e o atordoamento, pois é nesse momento (acredita ele) que terá mais chances de evocar Willem.

Na segunda-feira, ele acorda se sentindo ridículo. Isso precisa parar, diz a si mesmo. Precisa voltar ao mundo dos vivos. Está agindo feito um louco. Visões? Sabe como isso soa?

Pensa no mosteiro, onde o Irmão Pavel gostava de lhe contar a história de uma freira do século XI chamada Hildegard. Hildegard tinha visões; fechava os olhos e objetos iluminados apareciam diante dela; seus dias eram inundados por luz. Mas o Irmão Pavel estava menos interessado em Hildegard e mais em sua instrutora, Jutta, que abdicara do mundo material para viver como asceta numa pequena cela, morta para os assuntos dos vivos, viva mas não viva.

– Isso é o que vai acontecer a você se não obedecer – dizia Pavel, e ele ficava horrorizado.

Havia um pequeno barracão de ferramentas no terreno do mosteiro, escuro, frio e cheio de objetos de ferro com uma aparência maligna, todos terminando em forma pontiaguda, de lança, de foice, e, quando o irmão lhe falou de Jutta, ele imaginou que seria forçado a viver no barracão, recebendo apenas comida suficiente para sobreviver, e viveria por anos e anos e anos, quase esquecido, mas não completamente, quase morto, mas não completamente. Mas até mesmo Jutta tinha Hildegard como companhia. Ele não teria ninguém. Como ficara assustado; tinha certeza de que aquilo, um dia, viria a acontecer.

Agora, deitado na cama, ouve a antiga lied sendo murmurada para ele. Eu me tornei perdido para o mundo, canta, baixinho, No qual por outro lado desperdicei tanto tempo.

Mas, embora saiba o quanto está sendo ridículo, não consegue se forçar a comer. O próprio ato lhe causa repulsa. Queria estar acima das vontades, acima das necessidades. Imagina sua vida como um pedaço de sabão, desgastado, usado e alisado até ganhar a forma de uma flecha esguia de ponta cega, que se desintegrava um pouco mais a cada dia.

E então há o que ele não gosta de admitir para si mesmo, mas tem ciência de que se passa por sua cabeça. Não pode quebrar a promessa que fez a Harold – não vai. Mas, se parar de comer, se parar de tentar, o fim será o mesmo, de qualquer forma.

Normalmente sabe o quanto está sendo melodramático, narcisista e irrealista, e pelo menos uma vez por dia ralha consigo mesmo. O fato é que sua capacidade de evocar as especificidades de Willem sem depender de ajuda está cada vez menor: não consegue lembrar o som da voz de Willem sem antes ouvir uma das mensagens gravadas. Não consegue lembrar o perfume de Willem sem antes cheirar uma de suas camisas. Assim, teme que esteja sofrendo não tanto por Willem, mas por sua própria vida: por sua pequenez, por sua inutilidade.

Nunca se preocupou com o seu legado, ou nunca pensou se preocupar. E é bom não se preocupar, pois não deixará nada para trás: nada de prédios, pinturas, filmes ou esculturas. Nenhum livro. Nenhum documento. Nenhuma pessoa: nenhum cônjuge, nenhum filho, provavelmente nenhum pai e, se continuar se comportando como vem ultimamente, nenhum amigo. Nem mesmo uma nova lei. Não criou nada. Não fez nada, nada além de dinheiro: o dinheiro que ganhou, o dinheiro que lhe foi dado como compensação por Willem ter sido tirado dele. Seu apartamento reverterá para Richard. As outras propriedades serão dadas ou vendidas, e o valor arrecadado, doado a organizações beneficentes. Suas obras de arte irão para museus, seus livros, para bibliotecas, seus móveis, para quem os quiser. Será como se nunca tivesse existido. Tem a sensação, por mais infeliz que seja, de que nunca foi tão valioso quanto era naqueles quartos de motel, onde pelo menos era único e significativo para alguém, embora o que tivesse a oferecer lhe estava sendo tirado, não dado voluntariamente. Mas ali pelo menos tinha sido real para outra pessoa; o que viam nele era, na verdade, o que ele era. Lá, ele se encontrava em seu estado menos ilusório.

Jamais conseguiu acreditar por completo na interpretação que Willem fazia dele, de alguém corajoso, desenvolto e admirável. Willem dizia aquelas coisas e ele sentia vergonha, como se o estivesse enganando: Quem era essa pessoa que Willem descrevia? Mesmo sua confissão não mudou a percepção que Willem tinha dele – na verdade, Willem parecia respeitá-lo mais, e não menos, por causa dela, o que ele nunca entendeu, mas no que conseguiu encontrar consolo. Embora não se tenha convencido, de certa forma era animador que alguém o visse como uma pessoa digna de atenção, que alguém tivesse achado sua vida significativa.

Na primavera antes de Willem morrer, tinham convidado algumas pessoas para jantar – só eles quatro e Richard e Henry Young Asiático –, e Malcolm, numa de suas crises ocasionais de arrependimento pela decisão que ele e Sophie tomaram de não ter filhos, ainda que, como todos o tenham lembrado, eles jamais tenham querido filhos para início de conversa, perguntou:

– Sem eles, eu me pergunto: Qual foi o sentido de tudo? Vocês não se preocupam com isso? Como podemos saber que nossas vidas fazem diferença?

– Me perdoe, Mal – disse Richard, servindo-se com o que restava de uma garrafa de vinho enquanto Willem abria outra –, mas acho isso ofensivo. Está dizendo que nossas vidas fazem menos diferença porque não temos filhos?

– Não – disse Malcolm. Depois, pensou. – Bem, talvez.

– Eu sei que a minha vida faz diferença – disse Willem, repentinamente, e Richard sorriu para ele.

– Claro que a sua vida faz diferença – disse JB. – Você faz coisas que as pessoas realmente querem ver, diferentemente de mim e de Malcolm, Richard e o Henry aqui.

– As pessoas querem ver o que fazemos – disse Henry Young Asiático, parecendo magoado.

– Estava falando das pessoas fora de Nova York, Londres, Tóquio e Berlim.

– Ah, elas. Mas quem se importa com essas pessoas?

– Não – disse Willem, depois que todos pararam de rir. – Sei que minha vida faz diferença porque – e aqui ele parou, parecendo acanhado, e ficou em silêncio por um momento antes de continuar –, porque sou um bom amigo. Eu amo meus amigos, me importo com eles, e acho que os faço felizes.

A sala ficou em silêncio, e, por alguns segundos, ele e Willem se entreolharam por sobre a mesa, e o resto das pessoas, o próprio apartamento, desapareceu: eram duas pessoas em duas cadeiras, e ao redor deles não havia nada.

– A Willem – finalmente disse ele, e levantou a taça, seguido por todos os outros. – A Willem! – repetiram, e Willem sorriu para ele.

Naquela mesma noite, depois que todos já tinham partido e os dois estavam na cama, ele falou a Willem que estava certo.

– Fico feliz por você saber que sua vida faz diferença – disse a ele. – Fico feliz por não ser algo de que eu precise lhe convencer. Fico feliz por você saber como é maravilhoso.

– Mas sua vida faz tanta diferença quanto a minha – disse Willem. – Você também é maravilhoso. Não sabia disso, Jude?

Na época, ele balbuciou algo, algo que Willem pudesse interpretar como concordância, mas, depois que Willem caiu no sono, ele ficou acordado. Sempre lhe pareceu um tipo de problema um tanto luxuoso, um privilégio, na verdade, refletir se uma vida fazia diferença ou não. Não achava que a sua fizesse. Mas aquilo não o incomodava tanto assim.

E, por mais que não tenha se atormentado quanto à validade de sua vida, sempre se questionou por que ele, por que tantos outros, continuavam vivendo; às vezes era difícil se convencer de que isso era necessário, mas tantas pessoas, tantos milhões, bilhões, de pessoas, viviam sob uma angústia que ele não conseguia estimar, com privações e doenças que, de tão extremas, chegavam a ser obscenas. E ainda assim elas seguiam em frente. Então, seria a determinação em continuar vivo não uma escolha, mas sim uma implementação evolucionária? Haveria algo na mente em si, uma constelação de neurônios endurecidos e marcados feito tendões, que impedia os humanos de fazerem o que a lógica tantas vezes lhes mostrava ser o caminho a seguir? Por outro lado, até mesmo aquele instinto não era infalível – Jude o vencera uma vez. Mas o que teria acontecido a ele depois? Teria enfraquecido ou se tornado mais resiliente? Será que sua vida ainda era sua, a ponto de poder escolher se continuaria vivendo?

Sabia, desde o hospital, que era impossível convencer alguém a viver por si próprio. Mas, muitas vezes, achava que seria um tratamento mais eficaz fazer com que as pessoas sentissem com maior urgência a necessidade de viver pelos outros: aquele, para ele, sempre foi o argumento mais convincente. O fato era que se sentia em dívida com Harold. Sentia-se em dívida com Willem. E, se eles queriam que ele continuasse vivo, então era isso que faria. Na época, à medida que se arrastava dia após dia, suas motivações lhe eram turvas, mas agora reconhecia que fizera aquilo por eles, e aquele raro altruísmo era algo de que, no fim das contas, podia se orgulhar. Não entendia por que desejavam que continuasse vivo, apenas que queriam isso, e por isso o fez. Eventualmente, aprendeu a redescobrir o contentamento, até mesmo a alegria. Mas não foi assim no princípio.

E, agora, novamente ele acha a vida cada vez mais difícil, cada dia um pouco menos tolerável que o anterior. Em seu dia a dia há uma árvore, preta e morrendo, com um só galho se projetando à direita, a prótese única de um espantalho, e é nesse galho que está pendurado. Acima dele há sempre uma chuva serenando, o que deixa o galho escorregadio. Mas continua agarrado, por mais cansado que esteja, pois debaixo dele há um buraco aberto na terra, tão profundo que não consegue ver onde termina. Tem pavor de soltar, pois sabe que cairá no buraco, mas sabe que isso uma hora acontecerá, sabe que deve soltar: está cansado demais. Suas forças diminuem um pouco, só um pouquinho, a cada semana.

É então com culpa e arrependimento, mas também com um senso de inevitabilidade, que trapaceia na promessa que fez a Harold. Trapaceia quando diz a Harold que foi mandado a Jacarta a trabalho e não poderá visitá-lo no Dia de Ação de Graças. Trapaceia quando deixa crescer a barba, esperando disfarçar, assim, a magreza em seu rosto. Trapaceia quando diz a Sanjay que está bem e que só teve uma gastroenterite. Trapaceia quando diz à sua secretária que não precisa que ela peça o almoço para ele, pois já comeu algo no caminho para o escritório. Trapaceia quando cancela todos os encontros marcados para o próximo mês com Richard, JB e Andy, alegando que tem muito trabalho. Trapaceia sempre que deixa a voz sussurrar para ele, espontaneamente, Falta pouco agora, falta pouco. Não está tão iludido a ponto de achar que vai conseguir literalmente morrer de fome – mas acredita que haverá um dia, agora mais perto do que nunca, em que estará tão fraco que tropeçará, cairá e arrebentará a cabeça no piso de cimento do saguão de Greene Street, quando contrairá um vírus e não terá forças para se recuperar.

Ao menos uma de suas mentiras é verdadeira: ele tem mesmo muito trabalho. Tem um argumento de apelação para dali a um mês, e se sente aliviado por poder passar tanto tempo na Rosen Pritchard, onde nunca lhe aconteceu nada de mal, onde até mesmo Willem sabe que não deve perturbá-lo com uma de suas aparições imprevisíveis. Uma noite, ele ouve Sanjay resmungar para si mesmo ao passar correndo pelo seu escritório – “Caralho, ela vai me matar” –, e levanta a cabeça e percebe que não é mais noite, mas dia, e o Hudson está se besuntando de um tom alaranjado. Vê isso, mas não sente nada. Ali, sua vida é suspensa; ali, pode ser qualquer um, pode estar em qualquer lugar. Pode ficar o tempo que quiser. Ninguém está esperando por ele, ninguém ficará desapontado se ele não telefonar, ninguém ficará zangado se ele não for para casa.

Na sexta-feira anterior ao julgamento, ele está trabalhando até tarde quando uma de suas secretárias aparece e diz que um visitante o espera na recepção, um certo Dr. Contractor, e ele quer que o faça subir? Jude para, sem saber o que fazer; Andy vem lhe telefonando, mas ele não retorna as chamadas, e sabe que ele simplesmente não irá embora.

– Sim – diz a ela. – Leve-o à sala de reuniões do bloco sudeste.

Ele espera naquela sala de reuniões, que não tem janelas e é a mais privada de todas, e, quando Andy chega, ele vê sua boca se cerrar, mas os dois apertam as mãos feito estranhos, e só quando a secretária vai embora é que Andy levanta e vai na sua direção.

– Fique de pé – ordena ele.

– Não consigo – diz.

– Por que não?

– Minhas pernas doem – diz, mas não é verdade. Não consegue ficar de pé porque suas próteses não encaixam mais.

– O bom dessas próteses é que são muito sensíveis e leves – disse o protesista quando foi tirar suas medidas. – O ruim é que as aberturas não têm muita elasticidade. Se ganhar ou perder mais de dez por cento do seu peso corporal, o que, no seu caso, significaria ganhar ou perder entre seis quilos e meio e sete quilos, terá de reajustar seu peso ou fazer novas próteses. Por isso, é importante se manter no peso.

Passou as últimas três semanas na cadeira de rodas, e, embora continue usando as próteses, elas são meramente ilustrativas, algo para preencher as calças; não encaixam mais a ponto de poderem ser usadas, e ele está exausto demais para marcar uma consulta com o protesista, exausto demais para ter a conversa que sabe que precisará ter com ele, exausto demais para conjurar explicações.

– Acho que está mentindo – diz Andy. – Acho que perdeu tanto peso que as próteses estão escorregando para fora das pernas, não estou certo? – Mas ele não responde. – Quanto peso perdeu, Jude? – pergunta Andy. – Da última vez que nos vimos, você já estava cinco quilos e meio abaixo do peso. Quanto está agora? Nove? Mais? – Faz-se um novo silêncio. – Que diabos está fazendo? – pergunta Andy, com a voz ainda mais baixa. – O que está fazendo a si mesmo, Jude? Está com uma aparência péssima – continua Andy. – Está terrível. Parece doente. – Ele para. – Diga alguma coisa – fala. – Diga alguma coisa, cacete, Jude.

Ele conhece o ritual daquela interação: Andy grita com ele. Ele grita com Andy. Chegam a um détente, que no fim não muda coisa alguma, que nada mais é que uma pantomima: ele se submeterá a algo que não é uma solução, mas que fará Andy se sentir melhor. E então algo pior acontecerá, e a pantomima revelará ser exatamente isso, e ele será coagido a fazer algum tratamento que não quer fazer. Harold será chamado. Ele ouvirá lições de moral, lições de moral, lições de moral e mentirá e mentirá e mentirá. O mesmo ciclo, o mesmo ciclo, de novo e de novo e de novo, um procedimento tão previsível quanto os homens que entravam nos quartos de motel, cobriam a cama com seus lençóis, faziam sexo com ele e iam embora. E depois vinha outro, e mais outro. No dia seguinte: a mesma coisa. Sua vida é uma série de padrões lúgubres: sexo, cortes, isso, aquilo. Consultas com Andy, consultas no hospital. Não desta vez, decide ele. É neste momento que faz algo diferente; é neste momento que escapa.

– Você está certo, Andy – diz ele, com a voz mais calma e sem emoção que consegue evocar, a voz que usa no tribunal. – Perdi peso. E lamento não ter ido ao consultório antes. Não fui porque sabia que você ficaria chateado. Mas tive uma gastroenterite terrível, que não conseguia mandar embora, mas passou. Estou comendo, juro. Sei que pareço péssimo. Mas juro que estou me cuidando. – Ironicamente, ele vem comendo mais nas últimas duas semanas; precisa aguentar até o julgamento. Não quer desmaiar no meio do tribunal.

Depois disso, o que Andy pode dizer? Ainda está desconfiado. Mas não há nada que possa fazer.

– Se não vier me ver na semana que vem, voltarei aqui – diz Andy antes da secretária conduzi-lo à saída.

– Ótimo – responde ele, ainda usando um tom agradável. – Daqui a duas terças-feiras. O julgamento já terá acabado até lá.

Quando Andy vai embora, ele se sente momentaneamente triunfante, como se fosse um herói num conto de fadas e tivesse acabado de derrotar um perigoso inimigo. Mas é claro que Andy não é seu inimigo, e ele está apenas sendo ridículo, e sua sensação de vitória é seguida por desespero. Sente, como vem acontecendo com uma frequência cada vez maior, que sua vida é algo que lhe aconteceu, e não algo em cuja criação exerceu qualquer papel. Jamais conseguiu imaginar o que sua vida poderia ser; mesmo quando criança, mesmo quando sonhava com outros lugares, com outras vidas, não conseguia visualizar como seriam esses outros lugares e outras vidas; acreditou em tudo o que lhe disseram sobre quem ele era e quem se tornaria. Mas seus amigos, Ana, Lucien, Harold e Julia: eles imaginaram sua vida para ele. Eles o viram de uma maneira diferente daquela como ele sempre se viu; permitiram que acreditasse em possibilidades que nunca teria concebido. Via sua vida como o axioma da igualdade, mas eles o viam como outro enigma, que não tinha nome – Jude = x –, e atribuíram um valor a x que o Irmão Luke, os conselheiros do orfanato e o Dr. Traylor nunca deram ou o encorajaram que atribuísse a si mesmo. Queria poder acreditar nas provas deles do modo como acreditam; queria que tivessem lhe mostrado como chegaram a suas soluções. Acredita que, se soubesse como solucionaram a equação, saberia por que deveria continuar vivendo. Tudo de que precisa é uma resposta. Tudo de que precisa é ser convencido uma vez. A solução não precisa ser elegante; só precisa ser explicável.

Chega o julgamento. Ele vai bem. Em casa, naquela sexta-feira, desliza em sua cadeira de rodas até o quarto, até a cama. Passa o fim de semana inteiro num sono estranho e misterioso, mais um voo que um sono, movendo-se levemente entre os domínios da memória e da fantasia, da inconsciência e da vigília, da ansiedade e da esperança. Aquele não é o mundo dos sonhos, pensa, mas algum outro lugar, e, embora tenha ciência dos momentos em que acorda – vê o lustre em cima dele, as cobertas à sua volta, o sofá com a estampa de samambaia à sua frente –, não é capaz de distinguir quando as coisas aconteceram em suas visões e quando aconteceram de verdade. Ele se vê levando uma lâmina ao braço e talhando a carne, mas o que sai do corte são bobinas de metal, estofamento e crina de cavalo, e percebe que passou por uma mutação, que agora não é mais nem humano, e se sente aliviado: no fim, não precisará quebrar sua promessa a Harold; foi enfeitiçado; sua culpabilidade desapareceu com sua humanidade.

Isso é para valer?, lhe pergunta a voz, baixinha e esperançosa. Agora somos inanimados?

Mas ele mesmo não tem a resposta.

Vez após outra, ele vê o Irmão Luke, o Dr. Traylor. Quanto mais fraco fica, quanto mais se afasta de si mesmo, com mais frequência os vê, e, embora Willem e Malcolm tenham se tornado opacos para ele, o mesmo não aconteceu ao Irmão Luke e ao Dr. Traylor. Sente que seu passado é um câncer, que deveria ter sido tratado muito tempo atrás, mas foi ignorado. E agora o Irmão Luke e o Dr. Traylor passaram por uma metástase, agora são grandes e opressivos demais para que consiga eliminá-los. Agora, quando aparecem, são silenciosos: param na sua frente, sentam, lado a lado, no sofá do quarto, olhando para ele, e isso é pior do que se falassem, pois sabe que estão tentando decidir o que fazer com ele, e sabe que o que decidirem será pior do que possa imaginar, pior do que o que aconteceu antes. Num determinado ponto, ele os vê sussurrando um para o outro, e sabe que estão falando dele.

– Parem – grita para os dois –, parem, parem! – Mas eles o ignoram, e, quando tenta levantar para mandá-los embora, não consegue. – Willem – ouve sua voz chamar –, me proteja, me ajude; mande-os embora, mande-os para longe.

Mas Willem não vem, e ele se dá conta de que está sozinho, e tem medo, escondendo-se debaixo da coberta e mantendo-se o mais imóvel possível, certo de que voltou no tempo e será obrigado a reviver sua vida em sequência. Uma hora vai melhorar, promete a si mesmo. Lembre-se, os anos bons vieram depois dos ruins. Mas não consegue passar por aquilo mais uma vez; não consegue viver novamente aqueles quinze anos, aqueles quinze anos cuja meia-vida foi tão longa e ressonante que determinou tudo o que ele se tornou e fez.

Quando finalmente acorda por completo na segunda-feira, sabe que cruzou alguma espécie de limite. Sabe que está perto, que está passando de um mundo a outro. Perde a consciência duas vezes simplesmente tentando subir na cadeira de rodas. Desmaia a caminho do banheiro. E, mesmo assim, de alguma forma, não se machuca; de alguma forma, ainda está vivo. Ele se veste, e o terno e as camisas que mandou ajustar um mês atrás já estão largos. Coloca os tocos das pernas dentro das próteses e desce para encontrar o Sr. Ahmed.

No trabalho, tudo está igual. É início de ano; as pessoas estão voltando das férias. Durante a reunião do conselho administrativo, ele bate com os dedos nas coxas para se manter alerta. Sente suas mãos escorregarem do galho.

Sanjay vai embora mais cedo aquela noite; ele também. Aquele é o dia da mudança de Harold e Julia, e ele prometeu ir ao Alto Manhattan visitá-los. Não os vê há mais de um mês e, embora não consiga mais estipular sua aparência, hoje coloca camadas adicionais de roupas – uma camiseta, sua camisa, um suéter, um cardigã, seu paletó, seu casaco –, de modo a aparentar um volume maior. No prédio de Harold, o porteiro acena para que entre e ele sobe, tentando não piscar, pois piscar faz a tontura piorar. Diante da porta, ele para e leva a cabeça às mãos até se sentir bem o bastante, e então gira a maçaneta, entra e olha.

Estão todos ali: Harold e Julia, é claro, mas também Andy, JB, Richard e India, os Henry Youngs, Rhodes, Elijah, Sanjay e os Irvine também, todos parados e empoleirados em diversos móveis, como se fosse uma sessão de fotos, e, por um segundo, teme não conseguir conter o riso. E então se pergunta: Será que estou sonhando com isto? Será que estou acordado? Lembra-se da visão que teve em que era um colchão velho e pensa: Ainda sou de verdade? Ainda estou consciente?

– Cristo – diz ele, quando finalmente consegue falar. – Que diabos é isto?

– Exatamente o que você acha que é – ouve Andy dizer.

– Não vou ficar aqui para isso – tenta dizer, mas não consegue.

Não consegue se mover. Não consegue olhar para nenhum deles: em vez disso, olha para as mãos – a esquerda com a cicatriz, a direita, normal – enquanto Andy fala em cima dele. Todos o estão observando há semanas – Sanjay vinha anotando os dias em que o vira comer no escritório, Richard entrava em seu apartamento para ver se tinha comida na geladeira.

– Medimos a perda de peso em graus – ouve Andy dizer. – Uma perda entre um e dez por cento do peso corporal representa o Primeiro Grau. Uma perda entre onze e vinte por cento entra no Segundo Grau. O Segundo Grau é quando consideramos colocar o paciente num tubo de alimentação. Sabe disso, Jude, pois já lhe aconteceu antes. E posso dizer, só de olhar, que você está no Segundo Grau. No mínimo.

Andy fala sem parar, e ele acha que começa a chorar, mas não consegue produzir lágrimas. Tudo saiu tão errado, pensa; como tudo foi sair tão errado? Como pôde esquecer completamente de quem era quando estava com Willem? É como se aquela pessoa tivesse morrido junto de Willem e que só lhe restasse seu eu fundamental, alguém de quem jamais gostou, alguém tão incapaz de ocupar a vida que ele tem, a vida que, de algum jeito, construiu, apesar de si mesmo.

Finalmente ergue a cabeça e vê Harold olhando fixamente em sua direção, vê que Harold está de fato chorando, em silêncio, olhando e olhando para ele.

– Harold – diz ele, embora Andy ainda esteja falando –, me liberte. Me liberte da promessa que fiz. Não me obrigue mais a fazer isso. Não me obrigue a seguir em frente.

Mas ninguém o liberta: nem Harold, nem qualquer outra pessoa. Em vez disso, é capturado e levado ao hospital, e lá, no hospital, ele começa a lutar. Minha última luta, pensa, e luta com mais forças que nunca, com a mesma força com que lutava no mosteiro quando criança, tornando-se o monstro que sempre disseram que era, uivando e cuspindo nos rostos de Harold e Andy, arrancando o tubo intravenoso da mão, sacudindo o corpo na cama, tentando arranhar os braços de Richard, até que finalmente uma enfermeira, praguejando, espeta uma agulha nele, e é sedado.

Acorda com os pulsos amarrados à cama, sem as próteses, também sem as roupas, com um chumaço de algodão sobre a clavícula, onde sabe que um cateter foi inserido. A mesma coisa mais uma vez, pensa ele, tudo igual, tudo igual, tudo igual.

Mas, desta vez, não é igual. Desta vez, não lhe dão escolhas. Desta vez, é ligado a um tubo de alimentação, que atravessa seu abdômen e entra pelo estômago. Desta vez, é forçado a voltar ao Dr. Loehmann. Desta vez, será observado a cada refeição: Richard o vigiará enquanto toma seu café da manhã. Sanjay acompanhará seu almoço e, se ficar no escritório até tarde, sua janta. Harold ficará de olho nele nos fins de semana. Só poderá ir ao banheiro uma hora após o término de cada refeição. Terá de se consultar com Andy toda sexta-feira. Terá de ver JB todo sábado. Terá de ver Richard todo domingo. Terá de ver Harold sempre que Harold mandar. Se for flagrado pulando alguma refeição, ou alguma sessão, ou jogando comida fora de alguma maneira, será hospitalizado, e essa hospitalização não irá durar só algumas semanas; irá durar meses. Terá de ganhar um mínimo de treze quilos e meio, e só terá permissão para parar depois de manter esse peso por seis meses.

E assim começa sua nova vida, uma vida em que ele deixou para trás a humilhação, a tristeza, a esperança. Essa é uma vida em que o rosto cansado de seus amigos cansados o vigiam enquanto ele come omeletes, sanduíches, saladas. Que sentam diante dele para vê-lo enrolar o macarrão com o garfo, afundar a colher na polenta, raspar a carne presa a ossos. Que olham para seu prato, para sua tigela, e acenam a cabeça – sim, ele pode ir – ou a balançam: Não, Jude, você tem de comer mais que isso. No trabalho, ele toma decisões e as pessoas as obedecem, mas, então, à uma da tarde o almoço é entregue em seu escritório, e, durante a meia hora seguinte – embora ninguém mais na firma saiba disso –, suas decisões não valem nada, pois Sanjay tem poder absoluto, e ele deve obedecer a tudo que disser. Sanjay, com uma mensagem para Andy, pode mandá-lo para o hospital, onde irão amarrá-lo outra vez e forçar comida para dentro dele. Todos podem. Ninguém parece se importar por aquilo não ser o que ele quer.

Vocês todos esqueceram?, tem vontade de perguntar. Vocês se esqueceram dele? Esqueceram o quanto preciso dele? Esqueceram que não sei como viver sem ele? Quem pode me ensinar? Quem pode me dizer o que fazer agora?

Foi um ultimato que o mandou para o Dr. Loehmann da primeira vez; é um ultimato que o traz de volta. Ele sempre foi cordial com o Dr. Loehmann, cordial e distante, mas agora é hostil e grosseiro.

– Eu não quero estar aqui – fala quando o médico diz que está feliz em vê-lo novamente e pergunta sobre o que ele gostaria de conversar. – E não minta para mim: você não está feliz em me ver, e eu não estou feliz por estar aqui. Isto é uma perda de tempo, para você e para mim. Estou aqui por obrigação.

– Não precisamos discutir por que está aqui, Jude, não se você não quiser – diz o Dr. Loehmann. – Sobre o que gostaria de falar?

– Nada – esbraveja, e os dois ficam em silêncio.

– Me fale sobre Harold – sugere o Dr. Loehmann, e ele suspira, impaciente.

– Não há nada a ser dito – fala.

Ele vê o Dr. Loehmann às segundas e quintas. Nas noites de segunda, volta ao trabalho depois da consulta. Mas às quintas-feiras é obrigado a ver Harold e Julia, com os quais também é terrivelmente grosseiro: e não apenas grosseiro, mas antipático e maldoso. Comporta-se de uma maneira que o surpreende, de uma maneira que nunca ousou se comportar em sua vida, nem mesmo quando criança, de uma maneira que faria qualquer outra pessoa lhe dar uma surra. Mas não Harold e Julia. Eles nunca o repreendem, nunca o disciplinam.

– Isso é nojento – diz naquela noite, empurrando o ensopado de frango que Harold preparou. – Não vou comer isso.

– Vou trazer algo diferente para você – diz Julia rapidamente, se levantando. – O que você quer, Jude? Quer um sanduíche? Ovos?

– Qualquer coisa – diz. – Isso aqui tem gosto de comida de cachorro.

Mas ele está falando com Harold, encarando-o, desafiando-o a recuar, a ceder. Sua pulsação salta na garganta de tanta expectativa: pode ver Harold pulando da cadeira e lhe dando um soco no rosto. Pode ver Harold se debulhando em lágrimas. Pode ver Harold botando-o para fora de sua casa.

– Vá embora da porra desta casa, Jude – dirá Harold. – Saia das nossas vidas e nunca mais volte.

– Ótimo – dirá ele. – Ótimo, ótimo. Não preciso mesmo de você, Harold. Não preciso de nenhum de vocês.

Que alívio será descobrir que, no fim, Harold nunca o quis, que sua adoção foi um capricho, uma tolice que perdera a graça muito tempo atrás.

Mas Harold não faz nenhuma dessas coisas, apenas olha para ele.

– Jude – diz, finalmente, com a voz bem baixa.

– Jude, Jude – zomba ele, grasnindo seu próprio nome para Harold feito uma gralha. – Jude, Jude.

Está tão irritado, tão furioso: não existe palavra para como ele se sente. O ódio frita em suas veias. Harold quer que ele viva, e agora Harold está tendo o que desejou. Agora Harold o está vendo como ele é.

Sabe o quanto eu poderia te machucar?, tem vontade de perguntar a Harold. Sabia que posso dizer coisas que você nunca esquecerá, pelas quais nunca me perdoará? Sabia que tenho esse poder? Sabia que menti para você todos os dias desde que nos conhecemos? Sabe o que eu realmente sou? Sabe com quantos homens já estive, o que deixei que fizessem comigo, as coisas que já estiveram dentro de mim, os ruídos que fiz? Sua vida, a única coisa que lhe pertence, está sendo possuída: Por Harold, que quer mantê-lo vivo, pelos demônios que o arranham por dentro, pendurados em suas costelas, perfurando seus pulmões com suas garras. Pelo Irmão Luke, pelo Dr. Traylor. Para que serve a vida?, pergunta a si mesmo. Para que serve a minha vida?

Ah, pensa ele, será que nunca vou esquecer? Seria este quem eu sou, afinal, depois de todos esses anos?

Sente seu nariz começar a sangrar e se afasta da mesa.

– Vou embora – diz a eles quando Julia entra na sala com um sanduíche.

Ele vê que ela tirou as cascas e o cortou em triângulos, do jeito que se faz para uma criança, e, por um segundo, ele hesita e quase começa a chorar, mas logo volta a si mesmo e encara Harold novamente.

– Não vai, não – diz Harold, não com raiva, mas sim com firmeza. Ele levanta da cadeira e aponta o dedo para ele. – Vai ficar e terminar sua comida.

– Não vou, não – anuncia ele. – Ligue para Andy, não estou nem aí. Eu vou me matar, Harold, vou me matar, não importa o que você faça, e você não tem como me impedir.

– Jude – ouve Julia sussurrar. – Jude, por favor.

Harold caminha até ele, pegando o prato das mãos de Julia no caminho, e ele pensa: É agora. Levanta o queixo, esperando Harold acertá-lo no rosto com o prato, mas ele não faz isso, apenas coloca o sanduíche à sua frente.

– Coma – diz Harold, com um tom de voz tenso. – Você vai comer isto agora.

Ele pensa, inesperadamente, no dia em que teve seu primeiro episódio de dor na casa de Harold e Julia. Julia estava no mercado, e Harold, no andar de cima, imprimindo a receita inquietantemente complicada de um suflê que disse que faria. Ele deitara na despensa, tentando não bater as pernas de agonia, ouvindo Harold descer a escada e entrar na cozinha.

– Jude? – chamara ele, não o vendo, e, por mais que tenha tentado se manter quieto, fizera alguns barulhos de qualquer forma, e Harold abrira a porta e o encontrara.

Àquela altura, já conhecia Harold havia seis anos, mas sempre tivera cuidado perto dele, temendo mas esperando pelo dia em que seria revelado a ele como realmente era.

– Desculpe – tentara dizer a Harold, mas só conseguiu coaxar.

– Jude – dissera Harold, assustado –, está me ouvindo?

E ele assentira com a cabeça, e Harold também entrara na despensa, desviando das pilhas de papel-toalha e das garrafas de detergente, abaixando até o chão e colocando delicadamente a cabeça de Jude no colo, e, por um segundo, ele pensara que aquele era o momento pelo qual sempre esperara de certa forma, no qual Harold abriria o zíper das calças e ele teria de fazer o que sempre fez. Mas Harold não fizera isso, apenas acariciara sua cabeça, e, depois de um tempo, enquanto se retorcia e grunhia, com o corpo se retesando de dor e o calor tomando suas articulações, percebera que Harold estava cantando para ele. Era uma canção que nunca ouvira antes, mas que instintivamente reconhecera como uma canção infantil, uma canção de ninar, e trepidara, batera a mandíbula e chiara por entre os dentes, abrindo e fechando a mão esquerda, agarrando o gargalo de uma garrafa de azeite de oliva que estava por perto com a direita, enquanto Harold continuava cantando. Deitado ali, tão desesperadamente humilhado, sabia que, depois daquele incidente, Harold se afastaria dele ou então se aproximaria ainda mais. E, como não sabia o que iria acontecer, teve esperança – como nunca tivera antes e nunca voltaria a ter – de que aquele episódio nunca terminasse, que a canção de Harold nunca acabasse, que nunca precisasse saber o que viria a seguir.

E agora ele está bem mais velho, Harold está bem mais velho, Julia está bem mais velha, eles são três pessoas velhas, e estão lhe dando um sanduíche de criança, e uma ordem – Coma – também usada com crianças. Estamos tão velhos que voltamos a ser jovens, pensa ele, e pega o prato e o arremessa na parede oposta, onde ele se espatifa, espetacularmente. Vê que o sanduíche era de queijo grelhado, vê uma das fatias triangulares bater na parede e depois escorrer por ela, com o queijo branco pingando em pedaços pegajosos.

Agora, pensa ele, quase animado, à medida que Harold se aproxima mais uma vez, agora, agora, agora. E Harold levanta a mão e ele espera receber uma pancada tão forte que sua noite terminará, e ele acordará em sua própria cama e, por um instante, poderá se esquecer daquele momento, poderá se esquecer do que fez.

Mas, em vez disso, ele vê Harold abraçá-lo, e tenta empurrá-lo, mas Julia também o está abraçando, inclinada sobre a carapaça de sua cadeira de rodas, e ele está preso entre os dois.

– Me deixem em paz – rosna para eles, mas sua energia está se dissipando, e ele está fraco e faminto. – Me deixem em paz – tenta outra vez, mas suas palavras são disformes e inúteis, tão inúteis quanto seus braços, suas pernas, e ele logo para de tentar.

– Jude – diz Harold para ele, em voz baixa. – Meu pobre Jude. Meu pobre querido.

E, com isso, ele começa a chorar, pois ninguém jamais o chamou de querido, não desde o Irmão Luke. Willem às vezes tentava – querido, Willem tentava chamá-lo, amor; mas ele o fazia parar. Aqueles termos carinhos pareciam imundos para ele, palavras depreciativas e depravadas.

– Meu querido – repete Harold, e ele quer que pare com aquilo; quer que nunca pare com aquilo. – Meu bebê.

E ele chora e chora, chora por tudo que foi, por tudo que podia ter sido, por cada velha ferida, por cada velha alegria, chora pela vergonha e pela felicidade de finalmente poder ser criança, com todos os caprichos, as vontades e as inseguranças de uma criança, pelo privilégio de se comportar mal e ser perdoado, pelo esplendor do afeto, dos carinhos, de servirem-lhe uma refeição e forçarem-no a comê-la, pela capacidade, finalmente, finalmente, de acreditar nas garantias de um pai, de acreditar que ele é especial para alguém, apesar de todos os seus erros e de seu ódio, por causa de todos os seus erros e de seu ódio.

O episódio termina com Julia voltando à cozinha e preparando outro sanduíche; termina com ele comendo, realmente faminto pela primeira vez em meses; termina com ele passando a noite no quarto de hóspedes, com Harold e Julia dando-lhe beijos de boa-noite; termina com ele imaginando que talvez o tempo realmente esteja andando para trás e iniciando um novo ciclo, só que nesta versão terá Julia e Harold como pais desde o início, e ninguém sabe o que ele se tornará, apenas que será melhor, que terá mais saúde, que será mais bondoso, que não sentirá a necessidade de lutar tanto contra sua própria vida. Tem uma visão de si mesmo aos quinze anos, correndo para a casa em Cambridge, gritando palavras – “Mãe! Pai!” – que nunca disse antes, e, embora não consiga imaginar o que deixara aquele seu eu do sonho tão animado (apesar de todo tempo que passara analisando crianças normais, seus interesses e comportamentos, conhece pouco as especificidades), compreende que está feliz. Talvez esteja usando um uniforme de futebol, com os braços e as pernas à mostra; talvez esteja acompanhado por um amigo, por uma namorada. Provavelmente ainda não fez sexo; provavelmente está tentando fazer a cada oportunidade que tem. Pensaria às vezes em quem seria quando crescesse, mas nunca lhe passaria pela cabeça uma vida sem alguém para amar, sexo, seus próprios pés correndo por um campo de grama macia feito um tapete. Todas aquelas horas, todas aquelas horas que passara se cortando, escondendo os cortes, reprimindo as lembranças, o que faria no lugar de todas aquelas horas? Seria uma pessoa melhor, ele sabe. Seria mais amoroso.

Mas, talvez, pensa ele, talvez não seja tarde demais. Talvez possa fingir mais uma vez, e esta última série de fingimentos mudará as coisas para ele, o transformará na pessoa que poderia ter sido. Tem cinquenta e um anos; é velho. Mas talvez ainda tenha tempo. Talvez ainda tenha conserto.

Ainda pensa nisso na segunda-feira, quando vai ao consultório do Dr. Loehmann, a quem pede desculpas por seu péssimo comportamento na semana anterior – e nas outras semanas também.

E, desta vez, pela primeira vez, tenta conversar de verdade com o Dr. Loehmann. Tenta responder às suas perguntas, e o faz com sinceridade. Tenta começar a contar uma história que só contou uma vez antes. Só que é muito difícil, não apenas porque a história é quase impossível de ser contada, mas também porque não consegue fazê-lo sem pensar em Willem e em como, na última vez que contou aquela história, estava com alguém que o vira de uma maneira que ninguém mais havia visto desde Ana, com alguém que conseguiu enxergar além do que ele era, e, ainda assim, também o ver em sua totalidade. E então fica triste, sem fôlego, e dá uma guinada com a cadeira de rodas – ainda está uns dois quilos e meio ou três abaixo do peso necessário para voltar a usar as próteses –, pede licença e sai do consultório do Dr. Loehmann, descendo o corredor até o banheiro, onde se tranca, respirando devagar e esfregando a palma da mão no peito, como se para acalmar seu coração. E ali no banheiro, frio e silencioso, entra em seu velho jogo do “se” com ele mesmo: Se eu não tivesse ido atrás do Irmão Luke. Se não tivesse deixado o Dr. Traylor me levar. Se não tivesse deixado Caleb entrar. Se tivesse escutado mais a Ana.

Vai em frente com o jogo, e suas recriminações ganham ritmo em sua mente. Mas então ele também pensa: Se não tivesse conhecido Willem. Se não tivesse conhecido Harold. Se não tivesse conhecido Julia, ou Andy, ou Malcolm, ou JB, ou Richard, ou Lucien, ou tantas outras pessoas: Rhodes, Citizen, Phaedra, Elijah. Os Henry Youngs. Sanjay. Todos os “ses” mais assustadores envolvem pessoas. Todos os bons também.

Finalmente, consegue se acalmar e sai do banheiro. Sabe que podia ir embora. O elevador está ali; podia pedir ao Sr. Ahmed que voltasse para buscar seu casaco.

Mas não é o que faz. Em vez disso, segue na outra direção e volta para o consultório, onde o Dr. Loehmann ainda está sentado em sua poltrona, esperando por ele.

– Jude – diz o Dr. Loehmann. – Você voltou.

Ele respira fundo.

– Sim – responde ele. – Decidi ficar.