Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 2 de 19 · parte 1/2

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Uma Vida Pequena

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

ÀS CINCO DA TARDE de todo dia útil e às onze da manhã de todo fim de semana, JB pegava o metrô e seguia para seu estúdio em Long Island City. A viagem dos dias úteis era sua favorita: pegava o metrô na Canal Street e via o trem se encher e esvaziar a cada parada com uma combinação sempre nova de diferentes pessoas e etnias, a população do vagão se reconstituindo mais ou menos a cada dez quarteirões em constelações improváveis de poloneses, chineses, coreanos, senegaleses; senegaleses, dominicanos, indianos, paquistaneses; paquistaneses, irlandeses, salvadorenhos, mexicanos; mexicanos, cingaleses, nigerianos e tibetanos – a única coisa que tinham em comum era seu pouco tempo nos Estados Unidos e suas expressões idênticas de exaustão no rosto, aquela mistura de determinação e resignação que só o imigrante possui.

Naqueles momentos, sentia-se igualmente agradecido pela própria sorte e sentimental em relação à sua cidade, sentimento este que não lhe vinha com muita frequência. Não era alguém que louvava sua cidade natal por ser um glorioso mosaico, e caçoava das pessoas que o faziam. Mas admirava – como alguém podia não admirar? – a quantidade coletiva de trabalho, trabalho verdadeiro, que seus companheiros de trem certamente haviam realizado naquele dia. E, no entanto, em vez de ficar constrangido por sua relativa indolência, sentia-se aliviado.

A única outra pessoa com a qual chegara a discutir essa sensação, ainda que de forma elíptica, fora Henry Young Asiático. Eles viajavam no metrô para Long Island City – fora Henry quem encontrara espaço para ele no estúdio, na verdade – quando um chinês, franzino e retesado, segurando uma sacola plástica vermelho-caqui pendurada na última articulação do dedo indicador direito, como se não tivesse mais forças ou vontade para carregá-la de maneira adequada, deu alguns passos e desabou no assento à frente deles, cruzando as pernas e dobrando os braços sobre o peito, e imediatamente caiu no sono. Henry, a quem conhecia desde o ensino médio, bolsista como ele e filho de uma costureira em Chinatown, havia olhado para JB e declarado: “Salvo pela graça de deus”, e JB entendeu perfeitamente a mistura particular de culpa e prazer que ele sentia.

O outro aspecto que adorava naquelas viagens ao anoitecer era a luz em si, como ela enchia o trem como algo vivo à medida que os vagões chocalhavam ao atravessar a ponte, como ela lavava o cansaço do rosto de seus companheiros de viagem e os revelava como eram quando chegaram ao país, quando eram jovens e os Estados Unidos pareciam conquistáveis. Ele observava aquela luz generosa se alastrar pelo vagão como mel, apagando rugas das testas, transformando cabelos grisalhos em dourados, suavizando o brilho exagerado de tecidos baratos e os transformando em algo lustroso e fino. E então o sol ia embora, e o vagão seguia com indiferença, e o mundo voltava a suas formas e cores normais e tristes, as pessoas ao seu estado normal e triste, uma mudança tão cruel e abrupta como se feita pela varinha de condão de uma bruxa.

Gostava de fingir que era um deles, mas sabia que não era. Às vezes havia haitianos no trem, e ele – sua audição, subitamente aguçada como a de um lobo, distinguia do murmúrio ao redor o som Creole gorgolejante e cantarolado deles – se via olhando em sua direção, dos dois homens com o rosto redondo como o de seu pai ou das duas mulheres com narizinhos arrebitados como o de sua mãe. Sempre esperou que pudesse ser contemplado com uma oportunidade de falar com eles – talvez discutissem sobre como chegar a algum lugar e ele pudesse se interpor e oferecer a solução –, mas isso nunca acontecia. Às vezes deixavam os olhos viajarem pelos bancos, ainda falando entre si, e ele se retesava, preparando o rosto para sorrir, mas nunca pareciam reconhecê-lo como um dos seus.

O que ele não era, claro. Até ele sabia que tinha mais em comum com Henry Young Asiático, com Malcolm, com Willem ou mesmo com Jude do que com eles. Bastava uma análise mais atenta: desembarcava em Court Square e caminhava os três quarteirões até a antiga fábrica de garrafas onde agora dividia um espaço de estúdio com três outras pessoas. Será que verdadeiros haitianos tinham espaços em estúdios? Será que ocorreria a haitianos verdadeiros deixar seus grandes apartamentos, sem pagar aluguel, onde poderiam teoricamente ter encontrado seu próprio canto para pintar e rabiscar, para entrar num trem de metrô e viajar meia hora (pensem em quanto trabalho podia ser feito naqueles trinta minutos!) até um espaço ensolarado e sujo? Não, claro que não. Para conceber tal luxo era preciso ter uma mente americana.

O loft, que ficava no terceiro andar, era alcançado por uma escada de metal que repicava como um sino toda vez que se pisava nela; tinha paredes brancas e piso branco, embora o assoalho fosse tão extravagantemente cheio de farpas que, em certas áreas, parecia um tapete felpudo. Havia janelas altas e antiquadas pontuando cada lado e pelo menos estas os quatro mantinham limpas – cada inquilino era responsável por uma parede – porque a luz era boa demais para ser ofuscada pela sujeira, e nela residia toda a importância do espaço. Havia um banheiro (indescritível) e uma cozinha (um pouco menos horrenda) e, no exato centro do loft, uma grande laje que servia de mesa, feita com mármore de qualidade inferior e colocada sobre três cavaletes. Essa era uma área comum, que qualquer um podia usar para trabalhar num projeto que precisasse de um pouco de espaço extra, e, ao longo dos meses, o mármore recebera estrias de lilás e amarelo-laranja e salpicos do precioso vermelho-cádmio. Hoje, a mesa estava coberta por longas faixas de organza estampada à mão em várias cores, com livros dispostos como sobrepeso nas extremidades, suas pontas esvoaçando ao sopro dos ventiladores de teto. Um aviso em papel no centro dizia: SECANDO. NÃO MEXA. LIMPAREI ASSIM Q CHEGAR AMANHÃ À TARDE. OBG PELA PACIÊNCIA, H.Y.

Não havia paredes dividindo o espaço, mas ele fora separado em quatro seções iguais de 45 metros quadrados cada por fita isolante, as linhas azuis demarcando não só o chão, mas a parede e o teto acima do espaço de cada artista. Todo mundo era hipervigilante quanto a respeitar o território do outro; você fingia não ouvir o que acontecia no espaço do vizinho, mesmo que ele estivesse gritando com a namorada no telefone e você pudesse, obviamente, ouvir cada palavra. Quando queria entrar no território do outro, você chegava à beira da fita azul e o chamava baixinho, e só se ele não estivesse profundamente absorto, antes de pedir permissão para atravessar.

Às cinco e meia a luz era perfeita: um tanto amanteigada, densa e gorda, enchendo o ambiente como preenchera o trem, fazendo dele algo expansivo e otimista. Estava sozinho lá. Richard, cujo espaço era ao lado do seu, trabalhava como barman à noite e por isso passava seu tempo no estúdio pela manhã, assim como Ali, cuja área ficava em frente à sua. Sobrava Henry, cujo espaço era diagonal ao seu e que geralmente chegava às sete, depois de deixar seu trabalho diário na galeria. Ele tirou a jaqueta, que jogou no seu canto, descobriu sua tela e sentou-se no banquinho diante dela, suspirando.

Era o quinto mês de JB no estúdio e ele amava estar lá, mais do que achara que amaria. Gostava do fato de seus companheiros de estúdio serem todos artistas de verdade e sérios; ele jamais conseguiria trabalhar na casa de Ezra, não só porque acreditava no que seu professor favorito uma vez lhe dissera – nunca pinte no mesmo local em que trepa –, mas porque trabalhar na casa de Ezra significava ser constantemente cercado e interrompido por diletantes. Lá, a arte era apenas um acessório a um estilo de vida. Você pintava, esculpia ou fazia instalações de merda porque isso justificava um guarda-roupa de camisetas desbotadas e jeans sujos e uma dieta de cervejas americanas ironicamente baratas e de cigarros americanos enrolados manualmente ironicamente caros. Aqui, porém, você fazia arte porque era a única coisa em que era bom; a única coisa, na verdade, em que pensava quando não vinham à sua mente lampejos breves das coisas em que todo mundo pensava: sexo, comida, sono, amigos, dinheiro e fama. Mas, em algum lugar dentro de você, estivesse pegando alguém num bar ou jantando com amigos, havia sempre a sua tela, suas formas e possibilidades flutuando embrionariamente por trás de suas pupilas. Havia um período – ou pelo menos você esperava que houvesse – em cada pintura ou projeto, em que a vida daquela pintura se tornava mais real para você do que sua vida cotidiana, quando você se sentava onde quer que estivesse e pensava só em voltar ao estúdio, quando você, sem se dar conta, amontoava uma pilha de sal sobre a mesa de jantar e nela desenhava suas tramas e formas e planos, os grãos brancos movendo-se sob as pontas dos seus dedos como lodo.

JB também gostava do companheirismo específico e inesperado do lugar. Havia ocasiões nos fins de semana em que todo mundo estava lá ao mesmo tempo e, em certos momentos, ele emergia da névoa da sua pintura e sentia que todos ali respiravam no mesmo ritmo, ofegantes quase, pelo esforço da concentração. Podia sentir então a energia coletiva que eles dispendiam enchendo o ar como gás, inflamável e doce, e desejava poder engarrafá-lo para que pudesse inspirá-lo quando se sentisse sem inspiração, para aqueles dias em que ficava sentado diante da tela literalmente durante horas, como se, ao encará-la por bastante tempo, ela pudesse explodir em algo brilhante e elétrico. Ele gostava da cerimônia de esperar à beira da fita azul e pigarrear na direção de Richard, para então atravessar a fronteira e olhar o trabalho dele, os dois parados diante da obra em silêncio, precisando trocar apenas pouquíssimas palavras e, no entanto, entendendo exatamente o que o outro queria dizer. Você passava tanto tempo se explicando, explicando seu trabalho, para os outros – o que ele significava, o que você queria alcançar, por que queria alcançar aquilo, por que havia escolhido as cores e o tema, os materiais, a aplicação e a técnica que usava – que era um alívio simplesmente estar com outra pessoa à qual não precisava explicar nada; bastava olhar e olhar, e quando você fazia perguntas, eram geralmente diretas, técnicas e literais. Era como discutir motores ou encanamentos: uma questão mecânica e direta, para a qual só havia uma ou duas respostas possíveis.

Todos trabalhavam em diferentes mídias, por isso não havia competição nem medo de que um videoartista encontrasse um agente antes de seu colega de estúdio, e menos medo de que um curador viesse ver o seu trabalho e se apaixonasse pelo do vizinho. E, no entanto – e isto era importante –, ele respeitava o trabalho de todo mundo também. Henry fazia o que chamava de esculturas desconstruídas, estranhos e elaborados arranjos ikebana de flores e galhos feitos com vários tipos de seda. Depois que terminava uma peça, porém, ele removia o arcabouço de tela de arame e a escultura caía ao chão como um objeto achatado e parecia uma poça abstrata de cores – só Henry sabia a aparência dela como objeto tridimensional.

Ali era fotógrafo e trabalhava numa série chamada “A História dos Asiáticos nos Estados Unidos”, para a qual criava uma fotografia que representasse cada década dos asiáticos no país desde 1890. Para cada imagem, ele fazia um diferente diorama representando um evento ou tema marcante numa das três caixas de pinho de 30 centímetros quadrados que Richard construíra para ele, a qual povoava com bonequinhos de plástico que comprava em lojas de material de arte e pintava, árvores e estradas que fazia de argila, e panos de fundo que pintava com um pincel de cerdas tão finas que pareciam cílios. Ele então fotografava os dioramas e fazia fotos cromogênicas. Dos quatro, apenas Ali tinha agente, e faria uma mostra dali a sete meses, a qual os outros três evitavam mencionar, pois só de pensar ele já choramingava de ansiedade. Ali não progredia em ordem histórica – fizera os anos 2000 (um trecho do Baixo Broadway cheio de casais, todos formados por homens brancos e, caminhando poucos passos atrás deles, mulheres asiáticas) e os anos 1980 (um chinês minúsculo levando uma surra de dois brutamontes minúsculos e brancos com chaves inglesas, a parte inferior da caixa banhada com verniz para parecer o asfalto molhado de chuva de um estacionamento), e trabalhava agora nos anos 1940, para o qual pintava um elenco de cinquenta homens, mulheres e crianças que seriam prisioneiros do campo de concentração de Tule Lake. O trabalho de Ali era o mais cansativo de todos e, às vezes, quando estavam procrastinando em seus próprios projetos, os outros entravam no cubo de Ali e se sentavam ao lado dele, e Ali, sem tirar os olhos da lente de aumento sob a qual segurava uma boneca de sete centímetros, na qual pintava uma saia com estampa chevron e sapatos de montaria, passava a eles um emaranhado de lã de aço que precisava ser desfiado para que parecesse um arbusto do deserto, ou algum aramado fino que ele queria pontuado com pequenos nós para parecer arame farpado.

Mas era o trabalho de Richard que JB admirava mais. Ele também era escultor, mas trabalhava com materiais efêmeros. Desenhava formas impossíveis em papel de rascunho e então as produzia em gelo, ou manteiga, ou chocolate, ou banha de porco, e as filmava à medida que se dissolviam. Ele ficava feliz ao testemunhar a desintegração de suas obras, mas JB, ao observar no mês anterior uma enorme obra de dois metros e meio de altura que Richard fizera – uma asa de morcego curvilínea, parecida com uma vela de barco, esculpida com suco de uva congelado que parecia sangue coagulado – gotejando e depois se dissolvendo, se viu a ponto de chorar, embora fosse incapaz de saber se por causa da destruição de algo tão bonito ou pela mera profundidade banal do seu desaparecimento. Agora Richard estava menos interessado em substâncias que derretessem e mais interessado em substâncias que atrairiam agentes dizimadores; interessava-se em particular por traças, que aparentemente adoravam mel. Tivera uma visão, contou a JB, de uma escultura tão distorcida pelo acúmulo de traças que seria impossível ver a forma da coisa que elas estavam devorando. Os peitoris de suas janelas estavam cobertos por fileiras de potes de mel, nos quais os favos porosos flutuavam como fetos suspensos em formol.

JB era o classicista solitário entre eles. Ele pintava. Pior, era um pintor figurativo. Quando entrara para a faculdade, ninguém dava a mínima para trabalho figurativo: qualquer coisa – videoarte, arte performática, fotografia – era mais divertido do que pintura e, na verdade, qualquer coisa era melhor do que o trabalho figurativo.

– Tem sido assim desde os anos 1950 – suspirara um de seus professores quando JB se queixara a ele. – Conhece aquele lema dos fuzileiros navais? “Os poucos, os bravos...”? Somos nós, os perdedores solitários.

Não que, ao longo dos anos, ele não tivesse tentado outras coisas, outros formatos (aquele estúpido e fajuto projeto dos cabelos, inspirado por Meret Oppenheim! Haveria coisa mais vulgar? Ele e Malcolm tiveram uma grande briga, uma de suas maiores, quando Malcolm chamara a série de “imitação barata de Lorna Simpson”, e o pior, é claro, é que Malcolm estava certo), mas, embora nunca admitisse a ninguém que achava haver algo de afetado, quase feminino, e certamente nada intenso em ser um pintor figurativo, JB tivera de aceitar que era aquilo o que era: ele amava pintar e amava fazer retratos, e era isso que faria.

Então: E agora? Conhecera pessoas – conhecia pessoas – que eram, tecnicamente, artistas muito melhores que ele. Desenhavam melhor, possuíam uma melhor noção de composição e cor, eram mais disciplinadas. Mas não tinham nenhuma ideia. Um artista, assim como um escritor, ou compositor, precisava de temas, precisava de ideias. E por muito tempo ele simplesmente não teve nenhuma. Tentou desenhar somente pessoas negras, mas uma porção de gente desenhava pessoas negras, e ele não sentia que tivesse algo de novo a acrescentar. Desenhou prostitutas por um tempo, mas aquilo também foi perdendo a graça. Desenhou as mulheres da sua família, mas se viu de volta ao problema negro. Começou uma série de cenas dos livros do Tintin, com os personagens retratados realisticamente, como humanos, mas aquilo logo pareceu irônico e vazio demais, e então parou. A partir daí vadiou de tela em tela, fazendo retratos de pessoas na rua, de pessoas no metrô, de cenas das muitas festas de Ezra (estas foram as que tiveram menor sucesso; todo mundo naquelas reuniões era do tipo que se vestia e se comportava como se estivesse constantemente sob observação, e ele acabou com páginas de estudos de garotas posando e rapazes se exibindo, todos com os olhos cuidadosamente desviados do seu olhar), até que, uma noite, sentado no apartamento deprimente de Jude e Willem, em seu sofá deprimente, ficou observando os dois preparando o jantar, lutando por espaço em sua cozinha em miniatura como um agitado casal de lésbicas. Aquela tinha sido uma das raras noites de domingo em que não fora à casa da mãe, porque ela, sua avó e as tias estavam em um cruzeiro brega no Mediterrâneo, do qual ele se recusara a participar. Mas JB se acostumara a visitar pessoas e a ter um jantar – um jantar de verdade – preparado para ele aos domingos, e por isso se convidara para a casa de Jude e Willem, sabendo que estariam lá porque não tinham dinheiro para sair.

Estava com a prancheta de rascunhos, como sempre, e quando Jude se sentou à mesa de carteado para picar cebolas (eles tinham de fazer todas as tarefas preliminares na mesa, porque não havia espaço no balcão da cozinha), começou a desenhá-lo quase sem perceber. Da cozinha vinha um barulho de pancadas e o cheiro de azeite fumegante, e, quando foi até lá e viu Willem esmurrando um pedaço de frango cortado ao meio com a base de uma frigideira de omelete, erguendo o braço sobre a carne como se fosse lhe dar umas palmadas e com uma expressão estranhamente pacífica no rosto, ele também o desenhou.

Não soube muito bem, naquele momento, se estava realmente trabalhando em algo concreto, mas no fim de semana seguinte, quando todos foram ao Pho Viet Huong, ele levou uma das velhas câmeras de Ali e fotografou os três comendo e, depois, caminhando pela rua sob a neve. Andavam particularmente devagar em consideração a Jude, porque as calçadas estavam escorregadias. Ele os mirou enfileirados no visor da câmara: Malcolm, Jude e Willem; Jude no meio, com Malcolm de um lado e Willem do outro, pertos o bastante (JB sabia, tendo ele mesmo ocupado a posição) para segurá-lo se escorregasse, mas não tão próximos que Jude pudesse suspeitar que esperavam sua queda. Nunca combinaram essa estratégia, na verdade: simplesmente a colocaram em prática.

Ele tirou a foto.

– O que está fazendo, JB? – perguntou Jude.

Ao mesmo tempo, Malcolm reclamou:

– Pare com isso, JB.

A festa aquela noite foi na Centre Street, no loft de uma mulher chamada Mirasol, cuja irmã gêmea, Phaedra, eles conheciam da faculdade. Assim que entraram no loft, cada um se dirigiu para seus diferentes subgrupos, e JB, depois de acenar para Richard do outro lado da sala e perceber com irritação que Mirasol tinha providenciado comida para a festa, significando que eles haviam desperdiçado catorze dólares no Pho Viet Huong quando podiam ter comido de graça ali, se viu caminhando até onde Jude conversava com Phaedra, com um cara gordo que podia ser o namorado de Phaedra e com um cara magro e barbudo que ele reconheceu como sendo um amigo de Jude do trabalho. Jude estava empoleirado no encosto de um dos sofás, Phaedra ao lado dele, os dois olhando para o cara gordo e o cara magro, e todos riam de alguma coisa: ele tirou a foto.

Normalmente, em festas, ele agarrava ou era agarrado por um grupo de pessoas, e passava a noite como o núcleo de uma variedade de trios ou quartetos, saltitando de um para outro, colhendo as fofocas, iniciando boatos inofensivos, fingindo trocar confidências, fazendo com que os outros lhe contassem quem odiavam em troca de divulgar quem ele próprio odiava. Mas, naquela noite, circulava pelo ambiente alerta, determinado e na maior parte do tempo sóbrio, tirando fotos de seus três amigos, que se moviam cada um do seu jeito, sem saber que ele os seguia. A certa altura, passadas já umas duas horas, ele os encontrou à janela, reunidos, Jude dizendo algo e os outros chegando perto dele para ouvi-lo e jogando o corpo para trás e rindo, e, embora por um momento tenha se sentido melancólico e levemente enciumado, sentiu-se também triunfante porque conseguira captar as duas cenas. Esta noite eu sou uma câmera, disse a si mesmo, e amanhã serei JB de novo.

De certo modo, ele nunca curtira tanto uma festa, e ninguém parecia notar suas andanças deliberadas exceto Richard, que, no momento em que os quatro saíram, uma hora depois, a caminho do Alto Manhattan (os pais de Malcolm estavam no campo, e Malcolm achava que sabia onde a mãe escondia sua maconha), lhe deu um inesperado tapinha amigo no ombro.

– Trabalhando em algo novo?

– Acho que sim.

– Bom para você.

No dia seguinte ele se sentou diante do computador olhando as imagens da noite anterior na tela. Não era uma câmera boa, e ofuscara cada foto com uma luz amarela fumacenta que, somada à sua própria incapacidade de achar o foco, deixara todos com uma cor quente, forte e com linhas levemente suavizadas, como se tivessem sido fotografados através de um copo de uísque. Ele parou num close do rosto de Willem, sorrindo para alguém (uma garota, sem dúvida) que estava fora da visão da câmera, e outro de Jude com Phaedra no sofá: Jude usava um suéter azul-marinho que JB nunca sabia se pertencia a ele ou a Willem, já que ambos o usavam com frequência, e Phaedra usava um vestido de lã vinho. Ela inclinava a cabeça na direção da de Jude, e o tom escuro dos seus cabelos fazia os dele parecerem mais claros, e o azul-petróleo texturizado do sofá os deixava reluzentes como joias, suas cores envernizadas e esplêndidas, suas peles deliciosas. Eram cores que qualquer um desejaria pintar, e foi isso que ele fez, esboçando a cena primeiro a lápis no caderno, depois numa prancheta mais dura em aquarela e finalmente na tela em acrílico.

Isso acontecera quatro meses antes e agora ele tinha quase onze quadros terminados – uma produção espantosa para ele –, todos a partir de cenas da vida de seus amigos. Lá estava Willem esperando para fazer um teste, estudando o roteiro uma última vez, apertando a sola da bota contra a parede vermelha grudenta atrás dele; e Jude numa peça, seu rosto meio sombreado, no segundo exato em que sorria (tirar aquela foto quase valeu a JB a expulsão do teatro); Malcolm sentado duro num sofá a poucos metros do pai, suas costas retas e as mãos agarrando os joelhos, os dois vendo um filme de Buñuel numa televisão localizada fora do quadro. Depois de alguma experimentação, ele se fixara em telas do tamanho de uma fotografia cromogênica padrão, 50 por 60 centímetros, todas na horizontal, imaginando que um dia pudessem ser expostas numa única fileira longa e serpenteante que correria ao longo das paredes de uma galeria, cada imagem seguindo a outra tão fluidamente como células numa tira de filme. O tratamento era realista, mas foto-realista; ele nunca trocara a câmera de Ali por outra melhor e tentava fazer com que cada quadro capturasse aquele tom meio borrado que a câmera dava a tudo, como se alguém tivesse retirado a camada superior de claridade e deixado algo mais sutil do que os olhos pudessem captar.

Em seus momentos de insegurança, ele às vezes tinha medo de que o projeto fosse excêntrico demais, introspectivo demais – era nessas horas que ter um agente realmente ajudava, ao menos para lembrar a você que alguém gostava do seu trabalho, o achava importante ou, na pior das hipóteses, bonito –, mas ele não podia negar o prazer que sentia com aquilo, com a sensação de autoria e contentamento. Às vezes sentia falta de estar presente nas fotos; ali estava toda uma narrativa da vida dos amigos, e sua ausência era uma lacuna imensa, mas também curtia o papel divino que desempenhava. Começara a ver seus amigos de um jeito diferente, não apenas como apêndices de sua vida, mas como personagens distintos protagonizando suas próprias histórias; sentia com certa frequência que os via pela primeira vez, mesmo sendo amigos deles há tantos anos.

Quando o projeto completou um mês e JB já sabia que era nisso que ia se concentrar, naturalmente teve de explicar aos amigos por que os vinha seguindo com uma câmera, fotografando os momentos mundanos de suas vidas, e por que era crucial que eles o deixassem continuar fazendo aquilo e que lhe proporcionassem o maior acesso possível. Estavam jantando num restaurante vietnamita especializado em macarrão de arroz na Orchard Street, na esperança de que se tornasse um sucessor do Pho Viet Huong, e depois que JB fez seu discurso explicativo – mostrando-se curiosamente nervoso –, todos se viram olhando para Jude, que, como ele já imaginava, seria o problema. Os outros dois concordariam, mas aquilo não era o bastante. Todos precisavam dizer sim ou a coisa não funcionaria, e Jude era de longe o mais travado deles; na faculdade, ele virava a cabeça ou escondia o rosto toda vez que alguém tentava tirar uma foto sua, e, sempre que sorria ou gargalhava, cobria instintivamente a boca com a mão, um tique que os amigos achavam inquietante e que ele só aprendera a controlar nos últimos poucos anos.

Como receava, Jude ficou ressabiado.

– O que isso implicaria? – perguntava insistentemente, e JB, reunindo toda sua paciência, teve de assegurá-lo diversas vezes de que o objetivo não era humilhá-lo, ou explorá-lo, mas apenas registrar em fotos a crônica de suas vidas.

Os outros nada disseram, deixando-o fazer o trabalho, e Jude finalmente consentiu, embora não tivesse ficado muito feliz com aquilo.

– Quanto tempo isso vai durar? – perguntou Jude.

– Para sempre, espero.

E esperava mesmo. Seu único arrependimento era não ter começado antes, quando eram mais jovens.

Na saída, caminhou ao lado de Jude.

– Jude – disse em voz baixa, para que os outros não ouvissem. – Vou mostrar antes para você tudo o que tiver a sua imagem. Se você vetar, nunca vou exibir.

Jude olhou para ele.

– Promete?

– Juro por deus.

Ele se arrependeu da promessa no momento em que a fez, pois, na verdade, Jude era o seu favorito entre os três para pintar: era o mais bonito, o que tinha o rosto mais interessante e a cor mais incomum, e era o mais tímido, o que fazia os retratos dele parecerem mais preciosos que os dos outros.

No domingo seguinte, quando voltou à casa da mãe, remexeu em algumas das caixas da faculdade que guardara em seu antigo quarto em busca de uma fotografia que sabia ter. Até que finalmente a encontrou: era um retrato de Jude do primeiro ano de faculdade, que alguém tirara e revelara e que por algum motivo acabara em sua posse. Nele, Jude estava de pé na sala de estar do apartamento onde moravam, virado parcialmente para a câmera. Seu braço esquerdo cobria o peito, deixando à vista a cicatriz acetinada em forma de estrela no dorso da mão, e na direita segurava de maneira nada convincente um cigarro apagado. Usava uma camiseta listrada azul e branca de manga comprida que provavelmente não era sua, de tão larga (embora talvez fosse mesmo sua; naquela época, todas as roupas de Jude eram largas, pois, como descobririam mais tarde, ele comprava peças maiores de propósito para poder usá-las nos anos seguintes, conforme crescia), e os cabelos, que mantinha compridos para se esconder por trás deles, chegavam até a altura da mandíbula. Mas o que JB sempre se lembrava da fotografia era a expressão no rosto de Jude: uma cautela que nunca o abandonava. Fazia anos que não olhava para a foto, mas vê-la agora o fez se sentir vazio, por motivos que não conseguia explicar.

Aquele era o quadro no qual trabalhava agora, e, para fazê-lo, quebrara o padrão e mudara para uma tela quadrada de um por um metro. Por dias fizera experimentos para acertar o tom preciso daquele verde traiçoeiro e serpenteoso das íris de Jude, e refizera a cor dos cabelos vez após vez até se dar por satisfeito. Era um belo quadro, e ele sabia, sabia com a certeza que às vezes sentia, e não tinha a menor intenção de mostrá-lo a Jude até que estivesse pendurado na parede de alguma galeria e Jude não pudesse fazer nada a respeito. Ele sabia que Jude detestaria o quanto o quadro o fazia parecer frágil, feminino, vulnerável e jovem, e sabia que também encontraria milhares de outras coisas imaginárias para detestar, coisas que JB não tinha condições de antecipar, pois não era um louco que odiava a si mesmo como Jude. Mas, para ele, o quadro expressava tudo o que esperava daquela série: era uma carta de amor, era um registro, era uma saga, era dele. Enquanto o pintava, às vezes sentia como se estivesse voando, como se o mundo das galerias de arte, das festas, dos outros artistas e das ambições tivesse virado um pontinho no chão, algo tão pequeno que poderia chutá-lo feito uma bola de futebol, observando-a girar até chegar a uma órbita distante que não tivesse nada a ver com ele.

Eram quase seis horas. A luz logo mudaria. Mas, por enquanto, o espaço ao seu redor ainda estava tranquilo, embora pudesse ouvir a distância o trem ribombando sobre os trilhos. À sua frente, a tela o esperava. Então pegou o pincel e começou.

–

Havia poesia no metrô. Acima das fileiras de bancos de plástico côncavos, preenchendo o espaço vazio entre anúncios de dermatologistas e empresas que prometiam diplomas universitários por correspondência, havia longas folhas laminadas com poemas impressos: Stevens de segunda categoria, Roethke de terceira e Lowell de quarta, versos que não despertavam emoção em ninguém, raiva e beleza reduzidos a aforismos vazios.

Pelo menos era o que JB sempre dizia. Ele era contra poemas. Estava no fim do ensino fundamental quando os versos apareceram, e passara os últimos quinze anos reclamando deles.

– Em vez de financiarem arte de verdade e artistas de verdade, estão dando dinheiro a um bando de bibliotecárias solteironas e de bichinhas de cardigã para selecionar essa merda – gritara para Willem em meio ao guincho do freio do trem F. – E todas essas porras parecem coisa de Edna St. Vincent Millay. Ou então é gente boa de verdade que eles conseguiram castrar. E são todos brancos, já percebeu? Que porra é essa?

Na semana seguinte, Willem vira um cartaz com versos de Langston Hughes e ligara para JB para contar.

– Langston Hughes?! – rosnara JB. – Deixa eu adivinhar: A Dream Deferred, certo? Eu sabia! Essa merda não conta. E, de qualquer jeito, se o sonho realmente explodisse, aquela merda duraria dois segundos.

Naquela tarde, Willem se viu diante de um poema de Thom Gunn: “A relação deles consistia / em discutir se ela existia.” Embaixo, alguém escrevera com uma pilot preta, “Não esquenta, cara, também não arrumo buceta”. Ele fechou os olhos.

Não era muito promissor o fato de ele estar cansado daquele jeito e serem só quatro horas, antes mesmo de começar seu turno no trabalho. Não deveria ter ido com JB ao Brooklyn na noite anterior, mas ninguém mais queria ir com ele, e JB dissera que Willem lhe devia uma, já que o acompanhara ao horrendo monólogo de seu amigo no mês passado.

Então ele fora, é claro.

– De quem é a banda? – perguntou, enquanto esperavam na plataforma do trem. O casaco de Willem era muito fino, e ele perdera uma de suas luvas, o que o fazia assumir uma postura específica para conservar o calor: os braços cruzados sobre o peito e as mãos enfiadas nas axilas, balançando para a frente e para trás sobre os calcanhares enquanto era obrigado a esperar no frio.

– De Joseph – respondeu JB.

– Ah – disse ele.

Willem não tinha ideia de quem era Joseph. Ele admirava o comando felliniano de JB sobre seu vasto círculo social, no qual todos eram figurantes vestidos em trajes coloridos, e ele, Malcolm e Jude eram importantes, mas ainda assim humildes acessórios à sua visão – key grips ou assistentes do diretor de arte – a quem ele atribuía a responsabilidade tácita de levar a coisa toda adiante.

– Eles tocam hardcore – disse JB, animado, como se aquilo ajudasse a explicar quem era Joseph.

– Qual o nome da banda?

– Tudo bem, o negócio é o seguinte – disse JB, abrindo um sorriso. – O nome da banda é Bolo de Esmegma 2.

– O quê? – perguntou ele, às gargalhadas. – Bolo de Esmegma 2? Por quê? O que aconteceu ao Bolo de Esmegma 1?

– Pegou uma infecção por estafilococos – gritou JB em meio aos ruídos do trem que parava na estação.

Uma mulher mais velha que esperava perto deles fez cara feia para os dois.

Como esperado, o Bolo de Esmegma 2 não era lá muito bom. Não era nem mesmo hardcore, para dizer a verdade; parecia mais ska, animado e sinuoso.

– Aconteceu algo com o som deles! – gritara JB em seu ouvido durante uma das músicas mais longas, “Phantom Snatch 3000”.

– Sei – gritara ele de volta. – Está uma bosta!

No meio do show (cada música parecia ter vinte minutos) ele foi ficando mais animado, tanto pela absurdidade da banda quanto pelo lugar abarrotado, e começou a pular desajeitadamente com JB. Os dois empurravam os outros ao seu redor, até que todos estavam pulando um em cima do outro, mas de um jeito alegre, como um bando de bebês embriagados. JB o segurava pelos ombros e os dois gargalhavam um na cara do outro. Era naqueles momentos que ele amava JB, por sua capacidade e sua disposição de ser bobo e frívolo, o que nunca podia fazer com Malcolm ou Jude – Malcolm porque, apesar de sempre dizer o contrário, se importava em agir com decoro, e Jude porque era sério.

Obviamente, na manhã seguinte, ele sofreu. Willem acordou no canto de JB no loft de Ezra, sobre o colchão desarrumado de JB (perto dele, no chão, JB roncava e babava sobre uma pilha de roupas sujas cheirando a turfa), sem saber ao certo como os dois haviam voltado do outro lado da ponte. Ele normalmente não era de beber nem de fumar maconha, mas, quando estava com JB, volta e meia se via fazendo essas coisas. Foi um alívio retornar ao apartamento da Lispenard Street, limpo e sossegado. A luz do sol que torrava o seu lado do quarto e o transformava num canto quente e indolente entre onze da manhã e uma da tarde já se inclinava janela adentro e Jude havia muito saíra de casa. Depois de programar o despertador, caiu imediatamente no sono, acordando com tempo apenas para tomar banho e engolir uma aspirina antes de correr para pegar o trem.

O restaurante no qual trabalhava conquistara sua reputação tanto pela comida – complicada, mas não desafiadora – quanto pelos funcionários, bem preparados e dispostos. No Ortolan, ensinavam-lhes a serem gentis, mas sem intimidade, e acessíveis, mas não informais.

– Aqui não é o Restaurante do Seu Melhor Amigo – gostava de dizer Findlay, seu chefe e gerente do restaurante. – Sorria, mas não diga seu nome aos clientes.

Havia um monte de regras como essa no Ortolan: as garçonetes podiam usar aliança, mas nenhum outro tipo de joia. Os homens não podiam ter cabelos mais longos que a altura da ponta da orelha. Nada de esmalte. Nada de passar mais de dois dias sem fazer a barba. Bigodes podiam ser tolerados diante de uma análise individual caso a caso, assim como tatuagens.

Willem trabalhava como garçom no Ortolan havia dois anos. Antes, trabalhara nos turnos do brunch nos fins de semana e do almoço nos dias úteis em um restaurante barulhento e popular em Chelsea, chamado Digits, onde os clientes (quase sempre homens, quase sempre mais velhos: na casa dos 40, pelo menos) perguntavam se ele fazia parte do menu, depois caíam na gargalhada, maldosos e felizes com si próprios, como se fossem os primeiros a lhe fazer aquela pergunta, e não o décimo primeiro ou décimo segundo, só naquele turno. Mesmo assim, ele sempre sorria e respondia:

– Só faço parte das entradas.

E eles rebatiam:

– Mas eu quero um prato principal.

E Willem sorria outra vez e ganhava uma bela gorjeta no fim.

Fora um colega seu da pós-graduação, outro ator chamado Roman, que o recomendara a Findlay depois de ser chamado para fazer participações especiais recorrentes numa novela e deixar o emprego. (Ele estava em dúvida quanto a aceitar o papel, dissera a Willem, mas o que podia fazer? Era muita grana para dizer não.) Willem ficara contente com a recomendação, pois, além da comida e do serviço, outra característica pela qual o Ortolan era conhecido – ainda que por um grupo muito menor de pessoas – era sua flexibilidade de horários, especialmente se Findlay gostasse de você. Findlay gostava de morenas baixas e sem peito e de todos os tipos de homens, contanto que fossem altos, magros e, diziam as más línguas, não viessem da Ásia. Às vezes Willem parava na entrada da cozinha e observava os pares incompatíveis formados por garçonetes minúsculas de cabelos escuros e homens altos e magrelos circulando pelo salão principal, deslizando um diante do outro numa série de minuetos estranhamente coreografada.

Nem todos os garçons do Ortolan eram atores. Ou, mais precisamente, nem todos os garçons no Ortolan ainda eram atores. Havia determinados restaurantes em Nova York onde as pessoas deixavam de ser atores que trabalhavam como garçons para, de alguma forma, se transformarem em garçons que um dia foram atores. E se o restaurante fosse bom o bastante, respeitado o bastante, aquela não só era uma mudança profissional perfeitamente aceitável, mas até preferível. Um garçom num restaurante renomado podia conseguir para os amigos uma cobiçada reserva, podia seduzir o pessoal da cozinha para mandar pratos de graça para esses mesmos amigos (ainda que Willem tenha descoberto que seduzir o pessoal da cozinha era menos fácil do que pensava). Mas o que um ator que trabalhava como garçom podia fazer pelos amigos? Conseguir ingressos para outro espetáculo off-off-Broadway, onde você tinha de levar seu próprio terno para interpretar um corretor da bolsa que podia ou não ser um zumbi, já que não havia verba para o figurino? (Fora exatamente isso que ele fizera no ano anterior, e, como não tinha terno, precisara pedir um emprestado a Jude. As pernas de Jude eram dois centímetros e meio mais longas que as dele e por toda a temporada Willem tivera de dobrar as barras da calça e prendê-las com fita crepe.)

Era fácil identificar quem no Ortolan fora ator e agora era garçom de carreira. Os carreiristas eram mais velhos, para começo de conversa, e mais precisos e encrenqueiros quanto a aplicar as regras de Findlay, e, nos jantares dos funcionários, giravam ostensivamente na taça o vinho que o assistente do sommelier lhes servira para que experimentassem, e diziam coisas do tipo, “Parece aquele Linne Calodo Petite Sirah que você serviu na semana passada, não é, José?” ou “Tem um gosto um tantinho mineral, não acham? É da Nova Zelândia?”. Ficava implicitamente estabelecido que você não os convidava para suas peças – os únicos que você convidava eram seus colegas atores-garçons, e, se alguém o convidasse, era considerado de bom tom ao menos tentar ir – e tampouco se falava sobre testes, agentes ou qualquer coisa do gênero com eles. Atuar era como uma guerra, e eles eram veteranos: não queriam pensar na guerra, e certamente não queriam discuti-la com os ingênuos que ainda se lançavam com todo ímpeto em direção às trincheiras, ainda animados por estarem na ativa.

O próprio Findlay também era ex-ator, mas diferentemente dos outros ex-atores, ele gostava – ou talvez “gostar” não fosse bem o termo apropriado; talvez fosse melhor dizer que “não se importava” – de falar sobre o passado, ou pelo menos sobre uma versão dele. Segundo Findlay, certa vez ele quase, quase conseguira o papel de segundo ator principal na montagem no Public Theater de A Bright Room Called Day (mais tarde, uma das garçonetes contou a eles que todos os papéis de destaque na peça eram femininos). Fora também chamado para ser ator substituto na Broadway (em qual espetáculo era algo que nunca ficou claro). Findlay era um memento mori ambulante da carreira do ator, um exemplo triste num terno cinza de lã, e os atores ainda em atividade o evitavam, como se sua maldição fosse contagiosa, ou o estudavam minuciosamente, como se, ao permanecer em contato com ele, pudessem se imunizar.

Mas em que momento Findlay decidira desistir de atuar, e como isso acontecera? Teria sido só por causa da idade? Afinal, ele era velho: tinha uns 45, 50 anos, mais ou menos por aí. Como saber a hora de desistir? Seria quando você já estava com 38 anos e ainda não encontrara um agente (como suspeitavam ter acontecido a Joel)? Ou quando tinha 40 anos, ainda dividia o apartamento com outra pessoa e ganhava mais como garçom num emprego de meio expediente do que ganhou no ano em que decidiu ser ator em tempo integral (como eles sabiam ter acontecido a Kevin)? Seria quando você ficava gordo, ou careca, ou passava por uma cirurgia plástica malfeita que não conseguia disfarçar o fato de ser gordo e careca? Em que ponto correr atrás de seus objetivos ultrapassava o limite entre ser corajoso e ser irresponsável? Como saber quando parar? Em décadas passadas, mais rígidas e menos encorajadoras (o que, no fim, acabava ajudando), as coisas eram mais claras: você parava aos 40, ou quando casava, ou quando tinha filhos, ou depois de cinco, dez, quinze anos. E então arrumava um trabalho de verdade, e tanto representar como seu sonho de uma carreira no ramo se perdiam pela noite, mesclando-se ao passado de maneira tão discreta quanto um cubo de gelo deslizando para dentro de uma banheira de água quente.

Mas estavam na era da realização pessoal, em que aceitar algo que não fosse sua primeira opção de vida parecia fraqueza, algo desprezível. Em algum ponto, aceitar o que parecia ser seu destino deixara de ser uma atitude digna e passara a ser sinal de covardia. Havia momentos em que a pressão para alcançar a felicidade era quase opressiva, como se a felicidade fosse algo que todos deviam e podiam conquistar, e que qualquer tipo de concessão na busca por ela fosse, de algum modo, culpa sua. Será que Willem trabalharia ano após ano no Ortolan, pegando os mesmos trens para fazer testes, lendo textos e mais textos e mais textos, talvez num ano avançando um centímetro ou dois, num progresso tão minúsculo que mal podia ser considerado progresso? Será que um dia teria coragem de desistir, e será que conseguiria reconhecer o momento certo, ou acordaria um dia e se olharia no espelho, descobrindo estar velho, ainda tentando chamar a si mesmo de ator, pois tinha pavor de admitir que talvez não o fosse, e talvez nunca viesse a ser?

Segundo JB, o motivo pelo qual Willem ainda não alcançara o sucesso era o próprio Willem. Um de seus sermões preferidos para o amigo começava com, “Se eu fosse bonito que nem você, Willem”, e terminava com, “E você ficou tão mimado por ganhar as coisas de mão beijada que acha que tudo vai cair no seu colo. E quer saber de uma coisa, Willem? Você é bonitão, mas todo mundo aqui é bonitão, então vai ter que se esforçar mais”.

Ainda que achasse irônico por vir de JB (Mimado? Veja só a família de JB, todas cacarejam atrás dele, levando suas comidas preferidas e as camisas passadas, envolvendo-o numa nuvem de elogios e afeto; uma vez ele ouvira JB ao telefone dizendo à mãe que ela precisava comprar cuecas novas para ele e que as pegaria quando fosse visitá-la no jantar de domingo, para o qual, a propósito, queria costelinhas), Willem entendia o que ele queria dizer. Sabia que não era preguiçoso, mas a verdade é que lhe faltava a ambição que JB e Jude tinham, aquela determinação implacável que os mantinha no estúdio ou no escritório depois que os outros iam embora, que lhes emprestava aquele olhar levemente distante e que o fazia imaginar que parte deles já vivia num futuro imaginário, cujos contornos só eles conheciam. A ambição de JB era motivada por sua fome pelo futuro, por sua ascensão rápida; a de Jude, pensou, era motivada pelo medo de que, se não seguisse em frente, de alguma forma acabaria voltando ao passado, para a vida que deixara e sobre a qual não falava com nenhum deles. E não eram só Jude e JB que tinham essa qualidade: Nova York era habitada por gente ambiciosa. Muitas vezes, essa era a única coisa que todos na cidade tinham em comum.

Ambição e ateísmo.

– A ambição é minha única religião – lhe dissera JB ao fim de uma noite de bebedeira, e ainda que aos ouvidos de Willem a frase soasse um pouco forçada, como se a estivesse ensaiando, tentando aperfeiçoar o tom despojado e casual antes de dizê-la um dia a algum entrevistador, ele sabia que JB estava sendo sincero. Só aqui você se sentia obrigado a ter de justificar de alguma forma qualquer coisa que não fosse a paixão por sua profissão; só aqui você tinha de se desculpar por acreditar em algo além de si mesmo.

A cidade muitas vezes o fazia sentir como se não estivesse percebendo algo fundamental, e que essa ignorância o condenaria eternamente a uma vida no Ortolan. (Ele sentira o mesmo na faculdade, quando sabia, sem qualquer sombra de dúvida, ser o aluno mais burro da turma, tido como uma espécie de representante não oficial dos caipiras pobres e brancos aceitos por cota). Os outros, imaginava ele, também percebiam isso, ainda que só JB parecesse se incomodar de verdade.

– Você me deixa encucado às vezes, Willem – dissera-lhe JB certa vez, num tom que sugeria que o que o deixava encucado em relação a Willem não era algo bom.

Isso fora no fim do ano passado, pouco depois que Merritt, que dividia apartamento com Willem, conseguira um dos dois papéis principais numa remontagem de True West. O outro papel seria interpretado por um ator que estrelara recentemente num filme independente aclamado e desfrutava aquele curto período em que contava tanto com credibilidade no teatro quanto com a promessa de mais sucesso no circuito convencional. O diretor (um sujeito com quem Willem há muito queria trabalhar) havia prometido escalar um ator desconhecido para o outro papel principal. E foi o que fizera: só que o desconhecido era Merritt, e não Willem. Os dois foram os concorrentes finais ao papel.

Seus amigos tomaram suas dores.

– Mas Merritt nem sabe atuar! – resmungou JB. – Ele só fica parado no palco como decoração e acha que isso basta!

Os três começaram a conversar sobre a última peça em que viram Merritt – uma produção exclusivamente masculina off-off-Broadway de La Traviata, passada na Fire Island dos anos 1980 (Violetta, interpretada por Merritt, fora rebatizada de Victor, e morria de AIDS, não de tuberculose) – e todos concordaram que o espetáculo fora duro de assistir.

– Bem, ele é bonitão – alegou Willem, numa tentativa esquálida de defender o ex-colega de apartamento em sua ausência.

– Ele não é tão bonito assim – disse Malcolm, com uma veemência que surpreendeu a todos.

– Willem, sua hora vai chegar. – Jude o consolou a caminho de casa depois do jantar. – Se houver algum tipo de justiça no mundo, ela vai chegar. Aquele diretor é um imbecil.

Mas Jude nunca culpava Willem por seus fracassos; JB sempre o fazia. E ele não sabia qual dos dois o ajudava menos.

Ficou agradecido pela indignação dos amigos, naturalmente, mas a verdade é que não achava Merritt tão ruim quanto eles. Certamente não era pior que o próprio Willem; na realidade, provavelmente era melhor. Mais tarde ele diria isso a JB, que respondeu com um longo silêncio, carregado de decepção, até começar seu sermão.

– Você me deixa encucado às vezes, Willem – disse ele. – Às vezes tenho a impressão de que você não quer realmente ser ator.

– Não é verdade – protestou Willem. – Só acho que nem toda rejeição é sem sentido, assim como não acho que todos que conseguem um papel que eu quero só sejam chamados por pura sorte.

Outro silêncio se seguiu.

– Você é muito bonzinho, Willem – disse JB, num tom sombrio. – Não vai chegar a lugar nenhum desse jeito.

– Obrigado, JB – respondeu.

Ele raramente se ofendia com as opiniões de JB – em muitos casos, o amigo tinha razão –, mas, naquele exato momento, não estava com muita vontade de ouvir o que JB pensava de seus defeitos e nem sua previsão tenebrosa para o seu futuro caso não mudasse completamente sua personalidade. Desligou o telefone e deitou-se na cama, acordado, sentindo-se de mãos atadas e com pena de si mesmo.

De qualquer jeito, mudar sua personalidade parecia algo fora de questão – não seria tarde demais para isso? Afinal, antes de ser um homem bonzinho, Willem fora um menino bonzinho. Todos percebiam isso: seus professores, os colegas de turma, os pais dos colegas. “Willem é um menino muito solícito”, escreviam os professores em seus boletins, boletins estes que o pai e a mãe olhavam uma vez, rápida e silenciosamente, para logo em seguida jogá-los sobre a pilha de jornais e envelopes vazios destinados ao centro de reciclagem. À medida que crescia, Willem começou a perceber que as pessoas ficavam surpresas, e até chateadas, com seus pais; um professor do ensino médio certa vez lhe dissera abruptamente que, dado seu comportamento, esperava que seus pais fossem diferentes.

– Diferentes como? – perguntara.

– Mais simpáticos – respondera o professor.

Willem não se achava particularmente generoso nem excessivamente bondoso. A maioria das coisas lhe vinha com facilidade: esportes, escola, amigos, garotas. Não era um rapaz legal, necessariamente; não tentava ser amigo de todos, e não suportava falta de educação, mesquinharia nem crueldade. Era humilde e trabalhador, diligente, mais aplicado que brilhante, reconhecia.

– Saiba bem o seu lugar – dizia-lhe o pai com frequência.

E seu pai sabia o dele. Willem lembrava a ocasião em que, depois de uma onda de frio no fim da primavera ter matado vários filhotes de carneiro na região, seu pai fora entrevistado por uma repórter de jornal que escrevia sobre o impacto sofrido nas fazendas locais.

– Na condição de fazendeiro – começara a repórter, quando o pai de Willem a interrompeu.

– Não sou fazendeiro – dissera ele, com seu sotaque fazendo aquelas palavras, assim como todas as outras, soarem mais grosseiras do que deveriam –, sou um trabalhador rural.

Ele estava certo, é claro; ser fazendeiro significava algo específico – ser proprietário de terras –, e, segundo aquela definição, ele não era fazendeiro. Mas havia um monte de gente no condado que também não tinha o direito de se autodenominar como tal e mesmo assim o fazia. Willem nunca ouviu o pai dizer que os outros não deviam – seu pai não dava a mínima para o que os demais faziam –, mas aquele tipo de presunção não era para ele nem para a esposa, mãe de Willem.

Talvez por isso Willem sempre tivesse a sensação de saber quem e o que ele era, motivo esse que o levava, à medida que se afastava da fazenda e de sua infância, tanto no espaço quanto no tempo, a sentir-se muito pouco pressionado a mudar ou a se reinventar. Sentira-se como um convidado na faculdade, um convidado na pós-graduação, e agora era um convidado em Nova York, um convidado na vida dos belos e ricos. Nunca tentaria fingir que nascera naquele meio, pois sabia que não era verdade; era filho de um trabalhador rural do oeste de Wyoming, e sair de lá não significava que tudo o que fora um dia se apagara, obscurecido pelo tempo, pelas experiências e pela proximidade do dinheiro.

Ele era o quarto filho de seus pais, e o único ainda vivo. A primeira a nascer fora uma menina, Britte, que morrera de leucemia aos dois anos, bem antes de Willem vir ao mundo. Isso fora na Suécia, quando o pai, que era islandês, trabalhava com criação de peixes, onde conheceu sua mãe, uma dinamarquesa. Depois o casal se mudara para os Estados Unidos, onde nascera um menino, Hemming, com paralisia cerebral. Três anos mais tarde nascera outro menino, Aksel, que morrera enquanto dormia ainda pequeno, sem nenhum motivo aparente.

Continuar: parte 2 de 2