Uma Vida Pequena

Hanya Yanagihara · Capítulo 5 de 19

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Uma Vida Pequena

Capítulo 2

 

VOCÊ ME PERGUNTOU UMA vez quando eu soube que ele era meu, e respondi que sempre soubera. Mas não era verdade, e eu soube disso no exato momento em que falei – só disse aquilo porque soava bonito, como algo que diriam num livro ou num filme, e porque nós dois estávamos nos sentindo tão infelizes e miseráveis, e porque pensei que, ao dizê-lo, poderíamos nos sentir melhor diante da situação em que estávamos, a situação que talvez pudéssemos ter evitado – ou talvez não –, mas, de qualquer forma, não evitamos. Foi no hospital: a primeira vez, quero dizer. Sei que lembra: você tinha chegado de Colombo naquela manhã, voando por cidades, países e horas até aterrissar um dia inteiro antes de ter de partir.

Mas agora quero ser preciso. Quero ser preciso porque não há razão para não o ser e porque devo ser – é algo que sempre tentei ser, e continuo tentando.

Não sei bem por onde começar.

Talvez com algumas palavras bonitas, por mais que também sejam verdadeiras: gostei de você logo de cara. Você tinha vinte e quatro anos quando nos conhecemos, o que fazia que eu tivesse quarenta e sete. (Jesus.) Achei você incomum: posteriormente, ele falaria sobre sua bondade, mas nunca precisou explicá-la para mim, pois eu já sabia que você era bom. Aquele foi o primeiro verão em que seu grupo foi a nossa casa, e o fim de semana foi bem estranho para mim, e para ele também – para mim porque eu via em vocês quatro quem e o que Jacob poderia ter se tornado, e para ele porque só me conhecia como seu professor, e de uma hora para outra me via de bermuda e de avental enquanto tirava mariscos da churrasqueira, conversando com vocês três sobre tudo. No momento em que consegui deixar de ver o rosto de Jacob no de vocês, consegui aproveitar o fim de semana, em boa parte porque vocês três pareciam estar se divertindo para valer. Não viam nada de estranho na situação: eram garotos que supunham que as pessoas fossem gostar de vocês, não por arrogância, mas porque sempre gostavam, e não tinham motivo para achar que, se fossem educados e simpáticos, essa educação e essa simpatia talvez não fossem retribuídas.

Ele, obviamente, tinha todos os motivos para não pensar da mesma forma, embora eu só fosse descobrir aquilo mais tarde. Depois passei a observá-lo durante as refeições, notando como, durante alguns debates particularmente dissonantes, ele se recostava na cadeira, como se tentando se esquivar fisicamente do ringue, e observava todos vocês, como me desafiavam sem medo de me provocar, como se esticavam sobre a mesa despreocupadamente para pegar mais batatas, mais abobrinhas, mais carne, como pediam o que queriam e eram atendidos.

O que me lembro de maneira mais vívida daquele fim de semana foi uma coisinha simples. Estávamos caminhando, você, ele, Julia e eu, por aquela passagem entre as bétulas que levava ao mirante. (Naquela época era uma estrada estreita, lembra? Só depois é que foi tomada pelas árvores.) Eu estava ao lado dele, e você e Julia vinham logo atrás. Estavam conversando sobre, ah, o que era mesmo? Insetos? Flores campestres? Vocês sempre achavam algum assunto, os dois adoravam estar ao ar livre, amavam os animais: e eu gostava disso em vocês, por mais que não conseguisse entender. E então você lhe tocou o ombro e passou à sua frente, ajoelhando para amarrar o laço do sapato dele que se desfizera, para logo em seguida voltar a acompanhar Julia. Foi tão natural, aquele pequeno gesto: um passo à frente, uma ajoelhada, e o recuo para voltar ao lado dela. Aquilo não foi nada para você, nem mesmo pensou no que estava fazendo; não chegou nem a interromper a conversa. Você estava sempre de olho nele (mas todos vocês estavam), cuidava dele com uma dúzia de atitudes singelas, pude ver isso durante aqueles poucos dias – mas duvido que se lembre desse episódio em particular.

Mas, enquanto você amarrava o sapato, ele se virou para mim e o olhar em seu rosto – não consigo descrevê-lo. Só posso dizer que naquele instante senti algo dentro de mim desmoronar, como uma torre de areia molhada alta demais: por ele, por você e por mim também. E no rosto dele, sabia que veria o reflexo do meu. A impossibilidade de encontrar alguém que fizesse algo do tipo por outra pessoa, de uma maneira tão natural, tão graciosa! Quando olhei para ele, entendi, pela primeira vez desde a morte de Jacob, o que as pessoas queriam dizer ao falar que alguém lhes partira o coração, que algo podia lhe partir o coração. Sempre achei aquilo piegas, mas, naquele instante, percebi que podia até ser piegas, mas também era verdade.

E ali, presumo, foi quando eu soube.

–

Nunca achei que fosse me tornar pai um dia, e não porque tive pais ruins. Na verdade, meus pais eram fantásticos: minha mãe morreu quando eu era bem novo, de câncer de mama, e nos cinco anos seguintes fomos só eu e meu pai. Ele era médico, clínico geral, e gostava de imaginar que iria envelhecer com seus pacientes.

Morávamos no West End, na rua 82, e seu consultório ficava no nosso prédio, no térreo, e eu costumava passar ali para visitá-lo depois da escola. Todos os pacientes me conheciam e eu sentia orgulho de ser filho do doutor, de cumprimentar todo mundo, de ver os bebês cujo parto ele fizera se tornarem crianças e se espelharem em mim porque seus pais lhes contaram que eu era filho do Dr. Stein, que eu frequentava uma boa escola de ensino médio, uma das melhores da cidade, e que, se estudassem bastante, talvez conseguissem se sair bem como eu. “Querido” era como meu pai me chamava, e, ao me encontrar depois da escola naquelas visitas, ele colocava a palma da mão na minha nuca, mesmo quando eu já era mais alto do que ele, e me beijava o lado do rosto.

– Querido – dizia –, como foi a aula?

Quando eu tinha oito anos, ele se casou com a gerente da clínica, Adele. Não houve um só momento em minha infância em que a presença de Adele não fosse sentida: era ela quem me levava para comprar roupas novas, ela que passava o Dia de Ação de Graças conosco, ela que embalava meus presentes. Não era como se Adele fosse uma mãe para mim; para mim, uma mãe era Adele.

Ela era mais velha, mais do que meu pai, e também uma daquelas mulheres de que os homens gostam e com as quais se sentem à vontade, mas nunca pensam em tomá-las como esposa, que é um jeito bondoso de dizer que não era bonita. Mas quem precisa de beleza numa mãe? Perguntei uma vez se queria ter seus próprios filhos, e Adele respondeu que eu era o filho dela, e não conseguia imaginar ter um filho melhor. Tudo o que você precisa saber sobre meu pai e Adele, e como eu me sentia em relação a eles, e como os dois me tratavam, está no fato de eu nunca ter questionado aquela declaração até estar na casa dos trinta e discutir com minha esposa na época se deveríamos ter outro filho, um filho para substituir Jacob.

Ela era filha única, eu era filho único e meu pai também era filho único: uma família de filhos únicos. Mas os pais de Adele estavam vivos – os do meu pai, não –, e costumávamos ir ao Brooklyn, até a área que hoje foi engolida por Park Slope, para visitá-los nos fins de semana. Moravam nos Estados Unidos havia quase cinco décadas e ainda falavam muito pouco inglês: o pai, timidamente, a mãe, efusivamente. Eram robustos, assim como Adele, que falava com eles em russo. O pai, a quem eu chamava de vovô por convenção, costumava abrir um de seus punhos gordos e me mostrava o que escondia dentro: um apito de madeira para chamar pássaros, ou então um punhado de chiclete rosa. Mesmo depois de adulto e já na faculdade de direito, ele sempre me dava algo, embora não tivesse mais sua loja, o que provavelmente significava que comprara o presente em algum outro lugar. Mas onde? Sempre pensei que talvez existisse uma loja secreta cheia de brinquedos que tivessem saído de moda muitas gerações antes, mas ainda assim era frequentada fielmente por velhos senhores e senhoras imigrantes, que a mantinha funcionando ao comprarem seus estoques de piões com pinturas espiralizadas, soldadinhos de chumbo e conjuntos de jogo da bugalha, cujas bolinhas de borracha já vinham completamente encardidas, antes mesmo que o plástico fosse retirado.

Sempre tive uma teoria – surgida do nada – de que homens com idade para testemunhar o segundo casamento do pai (e, portanto, com idade o bastante para formarem uma opinião) acabavam casando com suas madrastas, e não suas mães. Mas não me casei com alguém como Adele. Minha esposa, minha primeira esposa, era fria e controlada. Diferentemente das outras garotas que conheci, que sempre se minimizavam – sua inteligência, logicamente, mas também seus desejos, sua raiva, seus medos e sua compostura –, Liesl nunca foi assim. Em nosso terceiro encontro, estávamos saindo de um café na MacDougal Street quando um homem cambaleou para fora de uma porta escura e vomitou nela. Seu casaco ficou todo coberto com aquele líquido cor de abóbora, e ainda lembro em particular da maneira como uma bolota enorme ficou pendurada no pequeno anel de diamante que ela usava na mão direita, como se tivesse nascido um tumor na joia. As pessoas ao nosso redor ficaram boquiabertas, ou gritaram, mas Liesl apenas fechou os olhos. Outra mulher teria berrado, ou guinchado (eu teria berrado ou guinchado), mas recordo que ela simplesmente estremeceu, como se seu corpo estivesse reconhecendo o nojo, mas também se libertando dele, e quando abriu os olhos já estava recomposta. Tirou o cardigã que vestia e o jogou na lata de lixo mais próxima.

– Vamos – me disse ela.

Eu permaneci mudo, chocado, mas naquele momento eu a quis, e a segui até onde ela me levou, que era o seu apartamento, um lugar horroroso na Sullivan Street. Durante o tempo todo ela manteve a mão direita no ar, levemente afastada do corpo, com a bolota de vômito ainda presa ao anel.

Nem meu pai nem Adele gostavam particularmente dela, embora nunca me tenham dito nada; eram educados e respeitavam meus desejos. De minha parte, nunca lhes perguntei nada, nunca os fiz mentir. Não acho que fosse pelo fato de Liesl não ser judia – meus pais não eram religiosos –, mas sim, acredito eu, por verem o quanto eu era fascinado por ela. Ou talvez tenha sido isso que decidi, tarde na vida. Talvez fosse por que o que eu admirava nela como competência, eles viam como frigidez, ou frieza. Deus sabe que não seriam os primeiros a pensar daquela forma. Sempre foram educados com ela, e ela razoavelmente educada com eles, mas acho que teriam preferido uma nora com quem pudessem flertar um pouco, a quem pudessem contar histórias constrangedoras sobre a minha infância, que almoçaria com Adele e jogaria xadrez com meu pai. Alguém como você, na verdade. Mas Liesl não era assim e nunca seria e, no momento em que perceberam isso, passaram também a se portar com certa indiferença, não para expressar seu descontentamento, mas como uma forma de autodisciplina, um lembrete a si mesmos de que havia limites, os limites dela, e que deviam tentar respeitá-los. Quando estava ao lado dela, sentia-me estranhamente à vontade, como se, diante de tanta competência, nem mesmo o azar ousaria nos desafiar.

Conhecemo-nos em Nova York, quando eu frequentava a faculdade de direito e ela estudava medicina. Depois de me formar, consegui um trabalho de assistente em Boston e ela (um ano mais velha que eu) começou seu estágio. Preparava-se para ser oncologista. E eu admirava sua decisão, é claro, em virtude do que isso sugeria: não há nada mais tranquilizador do que uma mulher que quer curar os outros, que você imagina curvando-se maternalmente sobre um paciente, com o jaleco branco feito as nuvens. Mas Liesl não queria ser admirada: escolhera a oncologia porque era uma das disciplinas mais difíceis, porque era considerada mais cerebral. Ela e os outros estagiários de oncologia desprezavam os radiologistas (muito mercenários), os cardiologistas (muito prepotentes e cheios de si), os pediatras (muito sentimentais) e em especial os cirurgiões (indescritivelmente arrogantes) e os dermatologistas (sem comentários, embora obviamente tivessem de trabalhar com eles com frequência). Gostavam dos anestesistas (esquisitos, nerds e fastidiosos, com tendência a se viciarem), dos patologistas (ainda mais cerebrais que eles) e... bem, era basicamente isso. Às vezes apareciam em grupo na nossa casa, e ficavam depois do jantar conversando sobre casos e estudos, enquanto nós, seus parceiros – advogados, historiadores, escritores e cientistas menores –, éramos ignorados, até escaparmos para a sala de estar para conversar sobre as diversas coisas triviais e menos importantes com as quais ocupávamos nossos dias.

Éramos dois adultos e levávamos uma vida feliz o bastante. Não havia chororô por não passarmos tempo suficiente juntos, nem da minha parte e nem da dela. Continuamos em Boston enquanto ela fazia sua residência, e depois Liesl voltou para Nova York para fazer a especialização. Eu fiquei. Na época, trabalhava para uma firma e como professor adjunto da faculdade de direito. A gente se via nos fins de semana, alternando entre Boston e Nova York. Até que então ela completou os estudos e voltou para Boston; casamos; compramos uma casa, pequena, não a que tenho agora, bem nos confins de Cambridge.

Meu pai e Adele (e também os pais de Liesl, para falar a verdade; estranhamente, eram muito mais emotivos que ela, e em nossas viagens inconstantes a Santa Barbara, enquanto o pai contava piadas e a mãe colocava diante de mim pratos com fatias apimentadas de pepino e tomate de sua horta, Liesl os observava com uma expressão fechada, como que envergonhada, ou pelo menos perplexa, diante da relativa expansividade dos pais) nunca nos perguntaram se teríamos filhos; acho que pensaram que, contanto que não perguntassem, haveria uma possibilidade. A verdade é que eu não via necessidade naquilo; nunca imaginara ter um filho, não tinha qualquer opinião sobre o assunto, a favor ou contrária. E aquilo parecia um bom motivo para que não acontecesse: ter um filho, pensava eu, era algo que você precisava desejar de verdade, ou até mesmo com avidez. Não era uma empreitada para os ambivalentes ou desinteressados. Liesl sentia o mesmo, ou assim pensávamos.

Mas então, certa noite – eu tinha trinta e um anos, ela, trinta e dois: jovens – voltei para casa e ela já estava na cozinha, à minha espera. Aquilo era incomum; ela trabalhava até mais tarde do que eu, e normalmente não a via até as oito ou nove da noite.

– Preciso falar com você – disse ela, solene, e logo fiquei assustado. Ela percebeu e sorriu. Não era uma pessoa cruel, Liesl, e não quero dar a impressão de que ela fosse desprovida de compaixão ou de ternura, pois tinha as duas coisas dentro de si, era capaz de praticar ambas. – Não é nada de ruim, Harold – falou, dando uma risadinha. – Acho que não.

Sentei. Ela respirou fundo.

– Estou grávida. Não sei como aconteceu. Devo ter deixado de tomar uma pílula ou outra e esqueci. Faz quase oito semanas. Confirmei hoje na casa de Sally. – (Sally era sua colega de quarto da época da faculdade de medicina, sua melhor amiga e sua ginecologista.)

Contou aquilo tudo muito rápido, em frases digeríveis e destacadas. Depois, ficou em silêncio.

– A pílula que tomo faz com que eu não menstrue, entende, por isso não sabia. – E então, como eu não dizia nada: – Diga alguma coisa.

De início, não consegui.

– Como está se sentindo? – perguntei.

Ela deu de ombros.

– Bem.

– Que bom – respondi, estupidamente.

– Harold – disse ela, sentando-se à minha frente –, o que você quer fazer?

– O que você quer fazer?

Ela deu de ombros outra vez.

– Eu sei o que quero fazer. Quero saber o que você quer fazer.

– Você não quer tê-lo.

Ela não discordou.

– Quero ouvir o que você quer.

– E se eu disser que quero que você tenha a criança?

Ela estava pronta.

– Então eu pensaria seriamente em levar isso adiante.

Eu também não estava esperando aquilo.

– Leez – falei –, vamos fazer o que você quiser fazer.

Não era uma atitude completamente magnânima; era em boa parte covarde. Naquele caso, assim como em muitas coisas, fiquei feliz em deixar a decisão para ela.

Ela suspirou.

– Não precisamos decidir esta noite. Temos algum tempo.

Quatro semanas, ela não precisou nem dizer.

Deitado na cama, refleti. Pensei em todas aquelas coisas em que pensa um homem quando uma mulher lhe diz que está grávida: Como será o bebê? Será que vou gostar dele? Será que vou amá-lo? E depois, em algo mais preocupante: a paternidade. Com todas as suas responsabilidades, realizações, tédio e possibilidades de fracasso.

Na manhã seguinte, não conversamos sobre o assunto, e, no dia seguinte, também não. Na sexta-feira, quando fomos para a cama, ela disse, sonolenta:

– Temos que conversar amanhã.

Respondi:

– Claro.

Mas não conversamos, não conversamos, e a nona semana acabou passando, e depois a décima, e então a décima primeira e a décima segunda, até que já era tarde demais para fazermos qualquer coisa, fosse do ponto de vista prático ou ético, e acho que nós dois nos sentimos aliviados. A decisão fora tomada para nós – ou melhor, nossa indecisão tomara a decisão por nós –, e teríamos a criança. Foi a primeira vez em nosso casamento em que ficamos mutuamente indecisos.

Imaginamos que seria uma menina, e se fosse daríamos o nome de Adele, em homenagem a minha mãe, e Sarah, em homenagem a Sally. Mas não era uma menina, e deixamos Adele (que ficou tão feliz que começou a chorar, numa das poucas vezes que a vi fazer isso) escolher o primeiro nome, e Sally, o segundo: Jacob More. (Por que More, perguntamos a Sally, que respondeu ser por causa de Thomas More.)

Nunca fui o tipo de pessoa – e sei que você também não é – que acha que o amor por um filho é uma forma de amor superior, mais significativa, mais grandiosa que as outras. Não sentia aquilo antes de ter Jacob, e não senti depois de seu nascimento. Mas é, sim, um amor único, pois se trata de um amor cuja fundação não é a atração física, o prazer ou o intelecto, mas sim o medo. Você não sabe o que é medo até ter um filho, e talvez seja isso que nos faça pensar que é mais magnânimo, pois o medo em si é mais magnânimo. A cada dia que passa, seu primeiro pensamento não é “Eu o amo”, mas “Como ele está?”. Da noite para o dia, o mundo se rearranja numa corrida de obstáculos de horrores. Eu o segurava nos braços, aguardando para atravessar a rua, e pensava como era absurdo que pudéssemos esperar que o meu filho, que o filho de qualquer pessoa, sobrevivesse àquela vida. Parecia algo tão improvável quanto a sobrevivência de uma daquelas borboletas de final de primavera – você sabe, aquelas branquinhas – que eu às vezes via oscilando pelo ar, sempre a apenas alguns milímetros de se chocar contra um para-brisa.

E deixe-me contar outras duas coisas que aprendi. A primeira é que não importa qual a idade da criança, ou quando, ou como ela se tornou sua. A partir do momento em que começa a ver alguém como seu filho, algo muda, e tudo o que você gostava nela antes, tudo o que sentira por ela antes, é precedido por aquele medo. Não é algo biológico; é extrabiológico, menos uma determinação para garantir a sobrevivência do seu código genético e mais um desejo de se provar inviolável aos estratagemas e aos desafios do universo, de triunfar sobre as coisas que querem destruir o que é seu.

A segunda coisa é: quando seu filho morre, você sente tudo aquilo que espera sentir, sentimentos estes que já foram tão bem-documentados por tantos outros que nem vou me preocupar em listá-los aqui, a não ser para dizer que tudo que já foi escrito sobre o luto é sempre igual, e é sempre igual por um motivo: porque não há um desvio real do texto. Às vezes você sente mais uma coisa e menos outra, e às vezes você as sente fora de ordem, e às vezes as sente por mais tempo, ou por menos tempo. Mas as sensações são sempre as mesmas.

Mas aqui está o que ninguém diz: quando se trata do seu filho, uma parte de você, uma particulazinha minúscula, mas ainda assim impossível de ser ignorada, também sente alívio. Porque o momento pelo qual você vinha esperando, pelo qual vinha temendo, pelo qual vinha se preparando desde o dia em que se tornou pai finalmente chegou.

Ah, você diz a si mesmo, chegou. Aqui está ele.

E depois disso, você não tem mais nada a temer.

–

Anos atrás, depois da publicação do meu terceiro livro, um jornalista me perguntou se dava para dizer logo de cara se um aluno tinha vocação para o direito ou não, e a resposta é: às vezes. Mas, na maioria delas, você erra – o aluno que parecia tão inteligente na primeira metade do período vai se tornando cada vez menos à medida que o ano avança, e o aluno a quem você nunca deu tanta atenção é aquele que acaba se destacando, alguém que você adora ouvir pensar.

Normalmente são os alunos mais inerentemente inteligentes que encontram as maiores dificuldades durante o primeiro ano: a faculdade de direito, e em especial o primeiro ano da faculdade de direito, não é um lugar onde a criatividade, a imaginação e o pensamento abstrato sejam recompensados. Nesse aspecto, acho muitas vezes – baseado no que ouço dizer, não que tenha vivenciado isto em primeira mão – que é parecido com o que acontece na escola de arte.

Julia tinha um amigo, um homem chamado Dennys, que fora um artista de enorme talento quando garoto. Eram amigos de infância, e ela uma vez me mostrou alguns dos desenhos que ele fizera quando tinha dez ou doze anos: pequenos esboços de pássaros bicando o solo, do rosto dele, redondo e inexpressivo, e do pai, que era o veterinário da área, acariciando o pelo de um terrier que fazia careta. Mas o pai de Dennys não via sentido em aulas de desenho, então ele nunca foi treinado formalmente. Mas, quando cresceram, e Julia partiu para a universidade, Dennys foi estudar arte para aprender a desenhar. Na primeira semana, ele contou a ela, deixaram os alunos desenharem o que quisessem, e eram sempre os esboços de Dennys que o professor escolhia para pendurar na parede e receber críticas e elogios.

Mas depois fizeram os alunos aprender como desenhar: a redesenhar, basicamente. Na segunda semana, traçaram somente elipses. Elipses largas, elipses grossas, elipses finas. Na terceira semana, desenharam círculos: círculos tridimensionais, círculos bidimensionais. Depois vieram as flores. E depois um vaso. E uma mão. E uma cabeça. E um corpo. E a cada semana que se passava de treinamento formal, Dennys só piorava. Quando chegaram ao fim do período, seus desenhos já não eram mais expostos na parede. Começou a se sentir envergonhado demais para desenhar. Agora, quando via um cachorro, com seus longos pelos roçando o chão a seus pés, não era um cachorro que via, mas um círculo numa caixa, e quando tentava desenhá-lo, preocupava-se com a proporção, e não em registrar sua cachorrice.

Decidiu conversar com o professor. Fazemos isso para levar vocês ao limite, Dennys, disse o professor. Só os que têm talento de verdade conseguem ir em frente.

– Acho que eu não tinha talento de verdade – afirmaria Dennys. Acabou se tornando advogado e foi morar em Londres com seu namorado.

– Pobre Dennys – diria Julia.

– Ah, está tudo bem – suspiraria Dennys, sem conseguir convencer nenhum de nós.

E da mesma maneira, a faculdade de direito testa os limites da mente. Romancistas, poetas e artistas normalmente não se dão bem na faculdade de direito (a não ser que sejam romancistas, poetas e artistas ruins), nem tampouco, necessariamente, os matemáticos, os lógicos e os cientistas. O primeiro grupo fracassa por ter uma lógica toda própria; o segundo, porque a lógica é a única coisa própria que tem.

Ele, no entanto, era um bom aluno – um excelente aluno – desde o princípio, mas sua grandeza muitas vezes era camuflada por uma não grandeza agressiva. Eu sabia, ouvindo suas respostas na sala de aula, que ele tinha tudo de que precisava para se tornar um advogado magnífico: não é por acaso que o direito é considerado um ofício e, como em todos os ofícios, a qualidade principal é uma memória abrangente, coisa que ele tinha. Outra exigência – e aqui também, como em muitos ofícios – é a capacidade de enxergar o problema à sua frente... e então, identificar de imediato a sequência de problemas que pode se desenrolar a partir dali. Assim como, para um empreiteiro, uma casa não é só uma estrutura – é um emaranhado de tubos entupindo por causa do gelo no inverno, o telhado que incha devido à umidade no verão, calhas de chuva transbordando cascatas de água na primavera, o cimento que se racha com o primeiro frio do outono –, para um advogado, uma casa também é outra coisa. Uma casa é um cofre trancado cheio de contratos, de penhores, de futuros processos, de possíveis violações: ela representa ataques em potencial à sua propriedade, aos seus bens, à sua pessoa, à sua privacidade.

Obviamente, você não pode pensar desse jeito o tempo todo ou iria à loucura. Assim, para a maioria dos advogados, uma casa é simplesmente uma casa, algo para mobiliar, fazer reparos, pintar e esvaziar. Mas há um período em que todo aluno de direito – todo bom aluno de direito – percebe certa mudança em sua visão, e se dá conta de que não se pode escapar da lei, de que nenhuma interação, nenhum aspecto da vida diária consegue escapar de seus dedos longos e fortes. Uma rua se torna um enorme desastre, uma balbúrdia de violações e potenciais processos civis. Um casamento vira um divórcio. O mundo se torna temporariamente insuportável.

Isso era algo que ele era capaz de fazer. Era capaz de analisar um caso e antever seu fim; não é fácil, pois você tem de abrir em sua mente um leque com todas as possibilidades, todas as prováveis consequências, para então escolher com quais se preocupar e quais ignorar. Mas o que ele também fazia – o que não conseguia deixar de fazer – era imaginar as implicações morais do caso. E isso não é lá muito bom na faculdade de direito. Eu tinha colegas que não deixavam nem mesmo seus alunos dizerem as palavras “certo” e “errado”. “O certo não entra na história”, costumava berrar para nós um dos meus professores. “Qual é a lei? O que a lei diz?” (Professores de direito gostam de ser teatrais; todos nós gostamos.) Outro professor, sempre que ouvia aquelas palavras, ficava em silêncio e se aproximava do transgressor, entregando-lhe um pedaço de papel, tirando-o do maço que carregava no bolso de dentro do casaco, no qual se lia: Drayman 241. Drayman 241 era o escritório do Departamento de Filosofia.

Vejamos, por exemplo, a seguinte hipótese: Um time de futebol vai jogar uma partida fora de casa, e uma de suas vans quebra. Perguntam então à mãe de um dos jogadores se ela pode emprestar a sua van para seguirem viagem. Claro que sim, responde ela, mas não vou dirigir. Então ela pede ao técnico-assistente para conduzir o veículo com o time. Porém, durante o percurso, algo terrível acontece: a van derrapa para fora da pista e capota; todos dentro dela morrem.

Não há um caso criminal aqui. A estrada estava escorregadia, o motorista não havia bebido. O que ocorreu foi um acidente. Mas então os parentes das vítimas, os pais e as mães dos jogadores mortos, processam a proprietária da van. Eles estavam dentro da van que era dela, argumentam, e, o que é mais importante, foi ela quem designou o motorista. Ele era apenas um agente a seu serviço, portanto a responsabilidade era dela. E então: O que acontece? Deveriam os querelantes vencer o caso?

Os alunos não gostam desse caso. Não o ensino com muita frequência – seu caráter extremo o torna mais ostensivo que instrutivo, creio eu –, mas, quando o fazia, sempre ouvia uma voz no auditório dizer: “Não é justo!” E por mais irritante que seja essa palavra – justo –, é importante que os alunos jamais esqueçam esse conceito. “Justo” não é a resposta, nunca, eu lhes dizia. Mas é algo que sempre deve ser considerado.

Ele nunca disse que algo era ou não era justo, no entanto. Ser justo parecia lhe despertar pouco interesse, o que me deixava fascinado, pois as pessoas, especialmente as mais jovens, têm sempre muito interesse no que é justo. Ser justo é um conceito que ensinam às crianças boas: é o princípio dominante nas creches, colônias de férias, nos parquinhos e campos de futebol. Jacob, no tempo em que podia ir à escola e aprender coisas e pensar e falar, sabia o que era ser justo e que isso era importante, algo a ser apreciado. Ser justo é para as pessoas felizes, para aqueles que tiveram a sorte de viver uma vida definida mais por certezas do que por ambiguidades.

Certo e errado, porém, são conceitos para... bem, talvez não para pessoas infelizes, mas para pessoas marcadas; pessoas assustadas.

Ou será que só estou pensando isso agora?

– E então, os querelantes tiveram sucesso? – perguntei. Naquele ano, o primeiro dele, eu ensinara o caso.

– Sim – respondeu ele, e explicou por quê: sabia instintivamente por que os querelantes ganhariam o caso. E então, como esperado, ouvi um “Mas não é justo!”, baixinho, vindo do fundo da sala, e antes que pudesse começar meu primeiro sermão do ano, dizendo que “ser justo” nunca é resposta, et cetera e tal, ele simplesmente falou: – Mas é certo.

Nunca consegui perguntar a ele o que quis dizer com aquilo. A aula terminou e todos se levantaram na mesma hora e quase correram para a porta, como se houvesse um incêndio na sala. Eu me lembro de dizer a mim mesmo para não me esquecer de perguntar a ele na aula seguinte, naquela mesma semana, mas esqueci. E depois esqueci de novo, e de novo. Ao longo dos anos, volta e meia me lembrava daquela aula e sempre pensava: preciso perguntar o que ele quis dizer com aquilo. Mas, no fim, nunca perguntava. Não sei por quê.

E então aquele se tornou seu padrão: ele conhecia a lei. Estava no sangue. Mas, bem nos momentos em que eu queria que parasse de falar, ele introduzia algum argumento moral, ou mencionava a ética. Por favor, eu pensava, por favor, não faça isso. A lei é simples. Aceita menos nuances do que você pode imaginar. Na realidade, a ética e a moral têm, sim, um lugar na lei – mas não na jurisprudência. A moral nos ajuda a fazer as leis, mas não a aplicá-las.

Temi que ele dificultasse as coisas para si mesmo, que complicasse o verdadeiro talento que tinha – por mais que deteste ter de dizer isto sobre a minha profissão – ao pensar demais. Pare!, eu queria dizer a ele. Mas nunca disse, porque acabei descobrindo que gostava de ouvi-lo pensar.

No final, ficou claro que eu não tinha motivos para me preocupar; ele aprendeu a se controlar, aprendeu a parar de falar em termos de certo e errado. E, como sabemos, essa tendência dele não o impediu de se transformar num grande advogado. Só que mais tarde, muitas vezes passei a me sentir triste por ele, e por mim. Queria ter insistido para que deixasse a faculdade de direito, queria ter dito para procurar o equivalente a Drayman 241. As habilidades que lhe ensinei não eram habilidades de que ele precisava. Queria tê-lo incitado a seguir por uma direção na qual sua mente pudesse trabalhar da maneira maleável como funcionava, na qual não tivesse de se atrelar a um modo rígido de pensar. Senti como se tivesse pegado alguém que antes sabia como desenhar um cachorro e o transformado em alguém que agora só sabia desenhar formas.

Sou culpado de muitas coisas em relação a ele. Mas, às vezes, de maneira ilógica, o que me faz sentir mais culpa é justamente isso. Abri a porta da van e o convidei a entrar. E por mais que não tenha sido eu a fazê-lo sair da estrada, fui eu quem o levei a um lugar ermo, frio e sem cor, e o abandonei ali, ao passo que, no lugar de onde o tirei, a paisagem tinha cores brilhantes, o céu fervilhava com fogos de artifício, e seu queixo caía de espanto.