Uma Vida Pequena
Capítulo 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
NA PRIMEIRA VEZ QUE Willem o deixou – isso aconteceu uns vinte meses atrás, dois janeiros atrás –, tudo saiu errado. Num período de duas semanas desde a ida de Willem ao Texas para começar a filmar Duetos, ele passou por três episódios de dor nas costas (incluindo um no escritório e outro, este em casa, que durou duas horas inteiras). A dor nos pés voltou. Um corte (causado pelo que, ele não faz nem ideia) se abriu na panturrilha direita. Mesmo assim, tudo estava bem.
– Você anda tão alegre com essa porcaria toda – dissera Andy quando ele foi obrigado a marcar sua segunda consulta em uma semana. – Estou desconfiado.
– Ah, bom – disse ele, embora mal conseguisse falar por causa da intensidade da dor. – Essas coisas acontecem, não é mesmo?
Naquela noite, porém, deitado na cama, ele agradeceu ao seu corpo por se manter funcionando, por ter se controlado por tanto tempo. Naqueles meses, que ele via secretamente como o cortejo entre ele e Willem, não precisara usar a cadeira de rodas uma só vez. Os episódios de dor haviam sido raros e curtos, e nunca na presença de Willem. Sabia que era bobeira – Willem já sabia o que havia de errado com ele, pois o vira em seus piores momentos –, mas se sentia grato, à medida que os dois começavam a se ver de uma maneira diferente, por ter sido agraciado com um período de reinvenção, um intervalo onde pôde incorporar uma pessoa sadia. Assim, quando voltou ao seu estado normal, não contou a Willem o que vinha acontecendo – ficava tão entediado com o assunto que não conseguia imaginar que outra pessoa não viesse a se entediar também –, e, quando Willem voltou para casa em março, ele já estava relativamente melhor, caminhando outra vez, com a ferida sob controle, na maior parte.
Desde aquela primeira vez, Willem voltaria a se ausentar por longos períodos outras quatro vezes – duas para filmar, duas em turnês de divulgação –, e, em todas elas, às vezes no próprio dia em que Willem partia, seu corpo cedera de alguma forma. Mas ele apreciava sua adequação em escolher o melhor momento para fazê-lo, sua cortesia: era como se o seu corpo, antes mesmo de sua mente, tivesse decidido por ele que devia investir naquele relacionamento e fizera sua parte removendo o maior número de obstáculos e constrangimentos possíveis.
Agora estão em meados de setembro, e Willem se prepara de novo para partir. Segundo o ritual que estabeleceram – desde a Última Ceia, que parecia ter acontecido em outra vida –, os dois saem para jantar em algum lugar extravagante no sábado anterior à viagem de Willem e depois passam o resto da noite conversando. No domingo, dormem a manhã inteira, e à tarde recapitulam alguns detalhes práticos: coisas a serem feitas enquanto Willem estiver fora, questões em aberto a serem resolvidas, decisões a serem tomadas. Desde que o relacionamento mudara do que era antes para o que era agora, as conversas entre eles haviam se tornado mais íntimas e mundanas, e aquele último fim de semana é sempre um reflexo perfeito e condensado daquilo: o sábado é dedicado aos medos, aos segredos, às confissões e às lembranças; o domingo é para a logística, para o mapeamento diário que fazia a vida a dois progredir lentamente.
Ele gosta de ter os dois tipos de conversa com Willem, mas aprecia os aspectos mundanos muito mais do que imaginava possível. Sempre se sentira ligado a Willem pelas grandes questões – amor; confiança –, mas também gosta de estar ligado a ele por questões menores: contas, impostos e consultas dentárias. Sempre se lembra de uma visita que fizera a Harold e Julia anos antes, quando pegou um resfriado terrível e acabou passando a maior parte do fim de semana deitado no sofá da sala, enrolado na coberta, dormindo e acordando. Naquele sábado à noite, os três assistiram a um filme juntos, e, a certa altura, Harold e Julia começaram a falar sobre a reforma da cozinha da casa de Truro. Ele estava meio adormecido, ouvindo a conversa baixa entre os dois, tão enfadonha que ele acabou se perdendo nos detalhes, mas que, ao mesmo tempo, o enchera de uma enorme sensação de paz: aquilo lhe parecera a expressão ideal de uma relação adulta, ter alguém com quem poder debater sobre os mecanismos de uma existência conjunta.
– Deixei uma mensagem com o cara da árvore e disse a ele que você vai ligar esta semana, tudo bem? – pergunta Willem. Estão no quarto, terminando de arrumar a mala de Willem.
– Certo – diz ele. – Escrevi um bilhete para me lembrar de ligar para ele amanhã.
– E disse a Mal que você iria com ele no terreno no fim de semana que vem, mas você já sabe disso.
– Sei – responde. – Está na minha agenda.
Willem vinha jogando pilhas de roupas dentro da mala enquanto falava, mas, naquele momento, ele para e olha para Jude.
– Agora me sinto mal – diz. – Estou deixando tanta coisa para você fazer.
– Não fique assim – diz ele. – Não tem problema, juro.
A maior parte da agenda deles é administrada pelo assistente de Willem, pelas secretárias de Jude: mas eles próprios estão cuidando dos detalhes da casa no norte do estado. Nunca conversaram sobre como aquilo aconteceu, mas ele sente que é importante para os dois que possam participar e testemunhar a criação daquele lugar que estão construindo juntos, o primeiro lugar que terão construído juntos desde Lispenard Street.
Willem solta um suspiro.
– Mas você anda tão ocupado – fala.
– Não se preocupe – diz ele. – Fique tranquilo, Willem. Posso cuidar de tudo. – Só que Willem continua com um ar preocupado.
Naquela noite, ficam deitados, acordados. Desde que conhecera Willem, sempre tivera a mesma sensação no dia anterior à sua partida, quando, mesmo enquanto ainda conversava com ele, já conseguia antecipar o quanto sentiria sua falta quando estivesse longe. Agora que estão realmente, fisicamente, juntos, aquela sensação se intensificou. Está tão acostumado à presença de Willem que sua ausência parece mais profunda, mais debilitante.
– Sabe que temos outro assunto a tratar – diz Willem, e, como ele não responde, Willem puxa a manga da sua camisa e segura seu pulso esquerdo, com delicadeza, em sua mão. – Quero que me prometa.
– Eu juro – fala. – Pode deixar. – Ao seu lado, Willem solta seu braço e deita de costas. Os dois ficam em silêncio.
– Estamos cansados. – Willem boceja.
E estão mesmo: em menos de dois anos, Willem fora reclassificado como gay; Lucien se aposentara da firma e Jude assumira a direção do departamento de litígios; os dois estavam construindo uma casa no campo, oitenta minutos ao norte da cidade. Quando estão juntos nos fins de semana – e quando Willem está em casa, ele também tenta estar, chegando ainda mais cedo ao escritório nos dias úteis para não precisar ficar até tarde nos sábados –, às vezes passam o início da noite simplesmente deitados no sofá da sala de estar, sem dizer nada, enquanto, ao redor, a luz vai deixando o ambiente. Às vezes saem, mas com uma frequência muito menor do que costumavam sair antes.
– A transição para o lesbianismo levou muito menos tempo do que eu esperava – observou JB certa noite, durante um jantar em Greene Street com seu novo namorado, Fredrik, Malcolm e Sophie, Richard e India e Andy e Jane.
– Dê uma folga a eles, JB – disse Richard, tranquilo, enquanto todos os outros riam, mas ele não achou que Willem se importaria, e ele certamente não se importava. Afinal, com o que mais se preocupava se não com Willem?
Ele espera um tempo para ver se Willem dirá alguma coisa. Fica imaginando se terão que fazer sexo; ele ainda não consegue identificar quando Willem quer e quando não quer – quando um abraço se torna algo mais invasivo e indesejado –, mas está sempre preparado para caso aconteça. Aquela – e ele detesta ter de admitir isto, detesta pensar isto, e nunca o diria em voz alta – é uma das pouquíssimas coisas pelas quais fica ansioso quando Willem viaja: nas semanas ou meses em que está longe, não há sexo, e ele pode finalmente relaxar.
Eles vêm fazendo sexo há dezoito meses agora (ele percebe que tem de se forçar para parar de contar, como se sua vida sexual fosse uma sentença na cadeia e ele aguardasse pelo fim), e Willem esperara por quase dez. Durante aqueles meses, tinha plena consciência de que havia um relógio em algum lugar fazendo uma contagem regressiva, e, embora não soubesse quanto tempo ainda lhe restava, sabia que, por mais paciente que Willem fosse, não seria paciente para sempre. Meses antes, quando entreouvira Willem mentir para JB sobre o quanto a vida sexual deles era fantástica, prometera a si mesmo que diria a Willem que estava pronto naquela noite. Mas ficara muito assustado, e permitira que o momento passasse. Pouco mais de um mês depois, quando saíram de férias pelo Sudeste Asiático, mais uma vez prometeu a si mesmo que iria tentar, e mais uma vez não fez nada.
Então janeiro chegou e Willem partiu para o Texas para filmar Duetos, e ele passou aquelas semanas sozinho se preparando, e, na noite seguinte ao retorno de Willem – ainda estava abismado por Willem ter voltado para ele; abismado e extático, tão feliz que sua vontade era colocar a cabeça para fora da janela e gritar sem qualquer motivo além da improbabilidade daquilo tudo –, disse a Willem que estava pronto.
Willem olhou para ele.
– Tem certeza? – perguntou.
Não tinha, é claro. Mas sabia que, se quisesse continuar com Willem, uma hora teria de ceder.
– Sim – falou.
– Quer mesmo, de verdade? – perguntou Willem em seguida, ainda olhando para ele.
O que era aquilo, pensou: Seria um desafio? Ou seria uma pergunta séria? Era melhor responder com cuidado, concluiu.
– Sim – foi o que respondeu. – Claro que quero.
E percebeu pelo sorriso de Willem que escolhera a resposta certa.
Mas, antes, precisava contar a Willem sobre suas doenças.
– Quando fizer sexo no futuro, lembre-se sempre de mencioná-las antes de qualquer coisa – dissera-lhe um dos médicos na Filadélfia, anos atrás. – Você não vai querer ser responsável por transmiti-las a outra pessoa.
O médico fora severo, e ele nunca se esqueceu da vergonha que sentira nem do medo de ser capaz de compartilhar sua imundície com outra pessoa. Assim, escrevera um discurso para si próprio e o ensaiara até ter tudo decorado, mas o momento da revelação fora muito mais difícil do que imaginara, e ele acabou falando tão baixo que teve de repetir, o que foi ainda pior. Só dissera aquelas palavras anteriormente para Caleb, que ficara em silêncio e depois decretara em sua voz grave:
– Jude St. Francis. Acaba que você é mesmo uma putinha.
E ele se obrigara a sorrir e concordar.
– Coisas da universidade – fora tudo que conseguira dizer, e Caleb abrira um sorriso discreto.
Willem também ficou em silêncio, observando-o, e perguntou:
– Onde pegou isso, Jude? – E em seguida: – Desculpe.
Estavam deitados perto um do outro, Willem de lado, olhando para ele, e Jude de costas.
– Tive um ano meio doido em Washington – disse finalmente, embora aquilo não fosse verdade, é claro. Mas contar a verdade significaria uma conversa mais longa, para a qual não estava preparado, não ainda.
– Jude, sinto muito – disse Willem, estendendo a mão em sua direção. – Quer me contar sobre isso?
– Não – respondeu, inflexível. – Acho que deveríamos transar. Agora.
Ele já havia se preparado. Outro dia de espera não mudaria as coisas, apenas o deixaria mais nervoso.
E então transaram. Uma parte dele esperara, até mesmo acreditara, que as coisas seriam diferentes com Willem, que ele finalmente passaria a gostar do processo. Mas, uma vez iniciado, sentiu todas as velhas e péssimas sensações voltarem. Tentou concentrar sua atenção em como aquela vez era claramente melhor: como Willem era mais carinhoso que Caleb, como não perdera a paciência com ele, como estava, afinal, com Willem, alguém que amava. Mas, quando acabou, sentiu a mesma vergonha, a mesma náusea, o mesmo desejo de se ferir, de arrancar suas entranhas para fora e jogá-las contra a parede, enchendo-a de sangue.
– Foi bom? – perguntou Willem, em voz baixa, e Jude virou e olhou para seu rosto, que ele tanto amava.
– Sim – disse.
Talvez, pensou, seria melhor na vez seguinte. E então, na vez seguinte, depois de sentir a mesma coisa, pensou que pudesse ser melhor na próxima. Toda vez esperava que fosse diferente. Toda vez dizia a si mesmo que seria. A tristeza que sentiu ao compreender que nem mesmo Willem poderia salvá-lo, que era irrecuperável, que aquela experiência fora arruinada eternamente para ele, foi uma das maiores de sua vida.
No fim, acabou estabelecendo algumas regras para si mesmo. Em primeiro lugar, nunca recusaria Willem. Nunca. Se era isso que Willem queria, era o que teria, e ele nunca diria não. Willem sacrificara muito para estar com ele, lhe trouxera tanta paz, e ele estava determinado a tentar agradecê-lo da maneira que pudesse. Em segundo lugar, tentaria – como lhe pedira uma vez o Irmão Luke – demonstrar certo ânimo, um pouco de entusiasmo. Já perto do fim de seus dias com Caleb, ele começara a voltar ao que fizera durante a vida inteira: Caleb o virava, abaixava suas calças e ele ficava ali deitado, esperando. Agora, com Willem, tentava se lembrar dos comandos do Irmão Luke, aos quais sempre obedecera – Vire para o lado; Agora faça alguns ruídos; Agora diga que está gostando –, e incorporá-los sempre que podia, para parecer um participante ativo. Tinha esperança de que sua competência pudesse compensar de alguma forma sua falta de entusiasmo, e, enquanto Willem dormia, forçava-se a recordar das lições que o Irmão Luke lhe ensinara, lições que passara sua vida adulta inteira tentando esquecer. Sabia que Willem se surpreendera com sua fluência: logo ele, que sempre se mantivera calado quando os outros se vangloriavam de suas peripécias na cama, ou sobre o que esperavam fazer; ele, que podia e de fato tolerava qualquer conversa que seus amigos tinham sobre o assunto, mas que jamais se envolvera em uma.
A terceira regra era que tomaria a iniciativa uma vez a cada três vezes que Willem tomasse, para que não parecesse algo desigual. E a quarta era: o que Willem quisesse fazer, ele aceitaria. É Willem, lembrava a si mesmo, uma vez após a outra. Uma pessoa que jamais o magoaria intencionalmente. Qualquer coisa que ele peça está dentro do aceitável.
Mas então ele via o rosto do Irmão Luke diante dos seus olhos. Você também confiou nele, ralhava a voz. Também pensou que ele o estivesse protegendo.
Como ousa, discutia ele com a voz. Como ousa comparar Willem ao Irmão Luke?
Qual a diferença?, rebatia a voz. Os dois querem a mesma coisa de você. No fim, você é igual para todos os dois.
Com o tempo, seu medo do processo acabou diminuindo, mas não seu desgosto. Sempre soube que Willem gostava de sexo, mas ficara surpreso e consternado por parecer gostar tanto de fazê-lo com ele. Sabia o quanto estava sendo injusto, mas viu seu respeito por Willem diminuir diante disso, e o ódio contra si mesmo aumentar por conta daqueles sentimentos.
Tentava se concentrar no que melhorara na experiência desde Caleb. Embora ainda fosse doloroso, era menos doloroso do que fora com qualquer outra pessoa, e aquilo certamente era algo positivo. Ainda era desconfortável, embora, mais uma vez, menos do que antes. E ainda era vergonhoso, embora, com Willem, pudesse se consolar com o fato de estar dando pelo menos um pouquinho de prazer à pessoa com quem mais se importava, e saber disso o fazia se sentir melhor.
Disse a Willem que perdeu a capacidade de ter ereções depois do episódio do carro, mas não era verdade. Segundo Andy (isso foi anos atrás), não havia nenhum motivo físico que o impedisse. Mas, de qualquer forma, não as tinha e não as tivera por anos, não desde os tempos de faculdade, e, mesmo então, eram ereções raras e incontroláveis. Willem perguntou se havia algo que pudesse fazer – uma injeção, uma pílula –, mas Jude falou que era alérgico a um dos componentes dessas injeções e pílulas e aquilo não tinha importância para ele.
Caleb não se incomodara tanto com essa incapacidade, mas Willem, sim.
– Existe alguma coisa que podemos fazer para ajudá-lo? – perguntava, uma vez após a outra. – Já conversou com Andy? Será que não deveríamos tentar algo diferente?
Até que, um dia, ele finalmente estourou com Willem e pediu para que parasse com aquelas perguntas, pois o fazia se sentir uma aberração.
– Desculpe, Jude. Não foi minha intenção – disse Willem, após um silêncio. – Só queria que você tivesse prazer.
– Eu sinto prazer – falou. Detestava mentir tanto assim para Willem, mas qual a alternativa? A alternativa seria perdê-lo, seria ficar sozinho para sempre.
Às vezes, com certa frequência, praguejava contra si mesmo, contra suas limitações, mas, em outras ocasiões, era mais generoso: reconhecia o quanto sua mente protegia seu corpo, como bloqueara seu ímpeto sexual para salvaguardá-lo, como calcificara cada parte de seu ser que lhe causara dor. Porém, normalmente, sabia que estava errado. Sabia que seu ressentimento de Willem era errado. Sabia que sua impaciência com o gosto de Willem pelas preliminares – aquele período longo e constrangedor de aflição que precedia toda interação, os pequenos gestos físicos de intimidade que ele sabia serem a maneira de Willem experimentar os limites de sua própria capacidade de se excitar – era errada. Mas sexo, segundo sua própria experiência, era algo que deveria ser feito o mais rápido possível, com uma eficiência e uma brusquidão que beiravam a brutalidade, e, quando sentia que Willem tentava prolongar o ato, começava a guiá-lo com uma espécie de determinação que, como percebeu mais tarde, Willem devia confundir com fervor. E então ouvia a declaração triunfante do Irmão Luke em sua mente – Eu percebi que você estava gostando – e se encolhia. Não estava gostando, sempre teve vontade de dizer, e queria dizer agora: Não gosto. Mas não ousava falar uma coisa daquelas. Estavam num relacionamento. As pessoas num relacionamento faziam sexo. Se quisesse continuar com Willem, teria de cumprir sua parte do pacto, e o desgosto por suas obrigações não o eximia delas.
Ainda assim, ele não desistiu. Prometeu a si mesmo que faria um esforço para se reparar, pelo bem de Willem, se não pelo seu. Comprara – às escondidas, com o rosto ardendo enquanto fazia a encomenda – três livros de autoajuda sobre sexo e os lera enquanto Willem estava fora, numa de suas turnês de divulgação. Quando Willem voltou, tentou pôr em prática o que aprendera, mas os resultados foram os mesmos. Comprou revistas femininas com artigos sobre como ser melhor na cama, e os estudou minuciosamente. Chegou até a encomendar um livro sobre como vítimas de abuso sexual – um termo que odiava e não aplicava a si próprio – lidavam com sexo, que lera furtivamente uma noite, trancando a porta do escritório para que Willem não o descobrisse. Mas, depois de um ano, resolveu mudar suas ambições: ele talvez nunca viesse a gostar de sexo, mas aquilo não o impedia de tornar a experiência mais prazerosa para Willem, tanto como uma forma de expressar sua gratidão como, de maneira mais egoísta, para mantê-lo perto de si. E assim subjugou sua sensação de vergonha; voltou sua concentração para Willem.
Agora que estava fazendo sexo novamente, percebia o quanto aquilo o cercara durante todos aqueles anos e como conseguira banir completamente qualquer pensamento sobre o tema em sua vida rotineira. Por décadas, abstivera-se de discussões sobre sexo, mas, agora, as escutava sempre que elas se faziam presentes: tentava entreouvir o que diziam seus colegas, as mulheres nos restaurantes, os homens que passavam por ele na rua, todos falando sobre sexo, sobre quando faziam, sobre como queriam mais (ninguém queria menos, aparentemente). Era como se estivesse de volta à universidade, onde seus colegas eram mais uma vez seus professores involuntários: estava sempre alerta em busca de informações, de lições sobre como se comportar. Assistia a programas de auditório na televisão, muitos dos quais pareciam abordar o modo como os casais uma hora paravam de fazer sexo; os entrevistados eram pessoas casadas que não faziam sexo há meses, de vez em quando há anos. Ele estudava aqueles programas, mas nenhum deles jamais lhe dera a informação que queria: Por quanto tempo o sexo durava num relacionamento? Quanto tempo ainda precisaria esperar até que aquilo acontecesse também a ele e Willem? Olhava para os casais: Seriam eles felizes? (Obviamente, não; estavam num programa de auditório contando a estranhos sobre suas vidas sexuais e pedindo ajuda.) Mas pareciam felizes – não pareciam? – ou pelo menos aparentavam uma versão da felicidade, aquele homem e aquela mulher que não faziam sexo há três anos e, ainda assim, pelo toque da mão do homem no braço da mulher, obviamente tinham afeto um pelo outro, obviamente continuavam juntos por razões mais importantes do que o sexo. Nos voos que pegava, assistia a comédias românticas, pastelões sobre casais que não faziam sexo. Todos os filmes com pessoas jovens eram sobre querer sexo; todos os filmes com pessoas velhas eram sobre querer sexo. Assistia àqueles filmes e se sentia derrotado. Quando as pessoas paravam de querer sexo? Às vezes, reconhecia a ironia naquilo: Willem, o parceiro ideal sob todos os aspectos, que ainda queria fazer sexo, e ele, o parceiro que não tinha nada de ideal sob todos os aspectos, que não queria. Ele, o aleijado, que não queria, e Willem, que, por algum motivo, o desejava de qualquer forma. E ainda assim, William era a sua própria versão da felicidade; era uma versão da felicidade que nunca imaginou que teria.
Ele assegurou a Willem que, caso sentisse falta de fazer sexo com mulheres, deveria ir em frente, pois ele não se incomodaria.
– Não sinto – foi o que ouviu como resposta. – Quero fazer sexo com você.
Outra pessoa teria ficado tocada com isso, e ele também ficou, mas, ao mesmo tempo, se desesperou: Quando aquilo teria um fim? E então, a pergunta inevitável: E se não tivesse? E se nunca tivesse permissão para parar? Lembrou-se dos anos em quartos de motéis, embora na época tivesse uma data pela qual pudesse esperar, por mais falsa que fosse: seus dezesseis anos. Quando fizesse dezesseis, poderia parar. Tinha agora quarenta e cinco, e era como se tivesse onze outra vez, esperando pelo dia em que alguém – antes, o Irmão Luke, agora (injusto, injusto) Willem – lhe dissesse: “Acabou. Você cumpriu sua missão. Basta.” Queria que alguém lhe dissesse que ainda era um ser humano completo, apesar de seus sentimentos; que não havia nada de errado com ele. Não haveria alguém, alguém no mundo que se sentisse como ele? Não seria seu ódio pelo ato sexual uma simples questão de preferência, e não uma deficiência a ser corrigida?
Numa noite, ele e Willem estavam deitados na cama – ambos cansados de seus respectivos dias –, e Willem começara a falar abruptamente sobre uma velha amiga com quem almoçara, uma mulher chamada Molly, com quem Jude encontrara uma ou duas vezes ao longo dos anos, e que, segundo Willem, vinha passando por um período difícil; agora, depois de décadas, ela finalmente contara à mãe que o pai, que morrera no ano anterior, abusara sexualmente dela.
– Que coisa terrível – disse ele, automaticamente. – Pobre Molly.
– Sim – disse Willem, e os dois ficaram em silêncio. – Falei para ela que não tinha nada do que se envergonhar, pois não fizera nada de errado.
Ele sentiu seu corpo esquentar.
– Você está certo – respondeu após um tempo, e bocejou extravagantemente. – Boa noite, Willem.
Por um minuto ou dois, ficaram em silêncio.
– Jude – disse Willem de forma gentil. – Um dia pretende me contar o que aconteceu?
O que poderia dizer, pensou, mantendo-se imóvel. Por que Willem estava perguntando sobre aquilo agora? Pensara que estava fazendo um ótimo trabalho em ser normal – mas talvez não estivesse. Teria de se esforçar mais. Nunca contara a Willem o que acontecera entre ele e o Irmão Luke, mas, além de não conseguir falar sobre o assunto, parte dele sabia que não precisava: nos últimos dois anos, Willem tentara abordar o tema de diversas maneiras – por meio de histórias de amigos e conhecidos, alguns com nomes, outros não (tinha de supor que algumas daquelas pessoas haviam sido inventadas, pois certamente ninguém podia ter uma coleção tão grande de amigos abusados sexualmente como aquela), por meio de artigos sobre pedofilia que encontrava em revistas, por meio de uma série de discursos sobre a natureza da vergonha, e como muitas vezes ela era injusta. Depois de cada discurso, Willem parava e aguardava, como se estivesse mentalmente estendendo-lhe a mão e convidando-o para dançar. Mas ele nunca pegava a mão de Willem. Sempre se mantinha calado, ou então mudava de assunto, ou simplesmente fingia que Willem nunca abrira a boca. Não sabia como Willem descobrira aquilo sobre ele; não queria saber. Obviamente, a pessoa que pensava estar apresentando aos outros não era a mesma pessoa que Willem – ou Harold – via.
– Por que está me perguntando isso? – questionou.
Willem se ajeitou.
– Porque – falou, e então parou. – Porque – continuou – eu deveria tê-lo feito falar sobre isso muito tempo atrás. – Parou outra vez. – Certamente antes de começarmos a fazer sexo.
Ele fechou os olhos.
– Não estou fazendo um bom trabalho? – perguntou, em voz baixa, arrependendo-se da pergunta no mesmo instante em que a fez: aquilo era algo que teria perguntado ao Irmão Luke, e Willem não era o Irmão Luke.
Pôde ver pelo silêncio de Willem que a pergunta também o deixara surpreso.
– Não – falou. – Quero dizer, sim. Mas, Jude... eu sei que algo aconteceu a você. Queria que me contasse. Queria que me deixasse ajudá-lo.
– Isso está no passado, Willem – disse, finalmente. – Aconteceu há muito tempo. Não preciso de ajuda.
Fez-se um novo silêncio.
– Foi o Irmão Luke quem machucou você? – perguntou Willem. E então, como ele se manteve calado e os segundos foram passando, acrescentou: – Você gosta de fazer sexo, Jude?
Se falasse, acabaria chorando. Por isso, não falou nada. A palavra não, tão curta, tão fácil de dizer, um som infantil, mais um barulho que uma palavra, uma exalação abrupta de ar: tudo o que precisava fazer era abrir os lábios e a palavra sairia, e... e o quê? Willem iria embora, levando tudo consigo. Posso suportar tudo isso, pensava quando faziam sexo, posso suportar. Podia suportar em nome de todas as manhãs em que acordava ao lado de Willem, de todo o carinho que Willem lhe dava, do conforto de sua companhia. Quando Willem assistia à televisão na sala de estar e ele passava, Willem estendia a mão e ele a pegava, e os dois ficavam ali, Willem olhando para a tela, sentado, e ele de pé, ambos de mãos dadas, até ele finalmente soltá-la e continuar andando. Precisava da presença de Willem; todo dia, desde que Willem voltara a morar com ele, experimentava aquela mesma sensação de calma que sentia quando Willem ficara em sua casa antes de partir para filmar O príncipe de canela. Willem era seu alicerce, e Jude se agarrava a ele, mesmo que soubesse sempre o quanto estava sendo egoísta. Sabia que, se realmente amasse Willem, o deixaria. Permitiria que Willem – o forçaria, se fosse preciso – encontrasse alguém melhor para amar, alguém que gostasse de fazer sexo com ele, alguém que sentisse desejo de verdade por ele, alguém com menos problemas, alguém com mais encantos. Willem era bom para ele, mas ele era ruim para Willem.
– Você gosta de fazer sexo comigo? – perguntou, quando finalmente conseguiu falar.
– Sim – disse Willem, de imediato. – Eu adoro. Mas quero saber se você gosta.
Ele engoliu e contou até três.
– Sim – falou em voz baixa, furioso consigo mesmo, mas ao mesmo tempo aliviado. Ganhara um pouco mais de tempo: da presença de Willem, mas também de sexo. O que aconteceria, imagina ele, caso dissesse que não?
E assim seguiram. Para compensar o sexo havia os cortes, que vinha fazendo com uma frequência cada vez maior: para ajudar a amainar a sensação de vergonha e também para se censurar pela sensação de ressentimento. Por muito tempo, conseguiu ser disciplinado: uma vez por semana, dois cortes por vez, e basta. Mas, nos últimos seis meses, quebrara suas regras uma atrás da outra, e agora estava se cortando com a mesma frequência que o fazia quando estava com Caleb ou que fizera nas semanas precedentes à adoção.
O ritmo acelerado com que vinha se cortando foi o motivo da primeira briga realmente feia entre os dois, não só como casal, mas desde que se conheceram, de todos os vinte e nove anos daquela amizade. Às vezes os cortes não têm lugar no relacionamento deles. E às vezes eles são o relacionamento, tomam conta de todas as conversas, são aquilo que os dois debatem mesmo quando não estão falando. Ele nunca sabe quando vai aparecer na cama com sua camisa de manga comprida e Willem não dirá nada, ou quando começará a interrogá-lo. Explicara a Willem muitas vezes que precisava daquilo, que aquilo o ajudava, que não conseguia parar, mas Willem não conseguia ou não queria compreendê-lo.
– Não vê por que isso me incomoda tanto? – pergunta Willem.
– Não, Willem – diz ele. – Sei o que estou fazendo. Precisa confiar em mim.
– Eu confio em você, Jude – diz Willem. – Mas a questão aqui não é confiança. A questão é que você está se machucando. – E então a conversa chega a um beco sem saída.
Há também a conversa em que Willem diz:
– Jude, como se sentiria se eu fizesse isso a mim mesmo?
E ele responde:
– Não é a mesma coisa, Willem.
E Willem pergunta:
– Por quê?
E ele diz:
– Porque, Willem, é você. Você não merece isso.
E Willem diz:
– E você merece?
E ele fica sem resposta, ou pelo menos não encontra uma que Willem pudesse considerar adequada.
Cerca de um mês antes da briga, tiveram uma discussão diferente. Willem, é claro, percebera que ele estava se cortando mais, mas não sabia por que, apenas que estava, e uma noite, depois de se certificar que Willem dormia, Jude começou a se esgueirar em direção ao banheiro, quando subitamente Willem agarrou seu pulso, e o susto o fez perder o ar.
– Jesus, Willem – disse. – Você me assustou.
– Aonde está indo, Jude? – perguntou Willem, com a voz tensa.
Tentou soltar o braço, mas Willem o segurava com força.
– Preciso ir ao banheiro – falou. – Me solte, Willem. Estou falando sério.
Os dois se encararam no escuro, até Willem finalmente soltá-lo, também levantando da cama.
– Vamos lá, então – falou. – Vou assistir.
Os dois discutiram, chiando um com outro, furiosos um com outro, ambos se sentindo traídos, ele acusando Willem de tratá-lo feito criança, Willem acusando-o de guardar segredos dele, os dois chegando o mais próximo que já haviam chegado de gritar um com o outro. A discussão terminou com ele se livrando do domínio de Willem e tentando correr para o escritório, onde poderia trancar a porta e se cortar com a tesoura, mas, em seu estado de pânico, acabou tropeçando e caindo, cortando o lábio, e Willem veio correndo com um saco de gelo, e os dois sentaram no chão da sala de estar, na metade do caminho entre o quarto e o escritório, abraçando-se e desculpando-se.
– Não posso deixar que faça isso a si mesmo – disse Willem no dia seguinte.
– Não posso deixar de fazer – falou, após um longo silêncio.
Não vai gostar de ver como fico quando não me corto, queria dizer a Willem, assim como: Não sei como encontraria meu caminho na vida sem isso. Mas não falou. Nunca conseguira explicar o que os cortes faziam por ele de um jeito que Willem pudesse entender: como eles eram uma forma de castigo e também de purificação, como permitiam que drenasse tudo o que era tóxico e podre de dentro dele, como o impediam de se irritar irracionalmente com os outros, com todos, como o impediam de gritar, de se tornar violento e como o faziam sentir que seu corpo, sua vida, fossem realmente seus e de mais ninguém. Certamente nunca conseguiria fazer sexo sem aquilo. Às vezes se perguntava: se o Irmão Luke não lhe houvesse ensinado aquilo como uma espécie de solução, quem ele teria se tornado? Alguém que machucava outras pessoas, pensou; alguém que tentava fazer com que todos se sentissem tão mal quanto ele; alguém ainda pior do que a pessoa que era.
Willem ficou em silêncio por ainda mais tempo.
– Tente – falou. – Por mim, Judy. Tente.
E ele tentou. Nas semanas seguintes, quando acordava à noite, ou depois de fazerem sexo, enquanto esperava Willem dormir para poder ir ao banheiro, passou a ficar imóvel, deitado com as mãos fechadas, contando suas respirações, com a nuca transpirando e a boca seca. Imaginava uma das escadas dos motéis, como seria se jogar contra elas, o barulho que a pancada faria, como seria exaustivamente prazeroso, quanto doeria. Queria que Willem soubesse o esforço que estava fazendo, mas, ao mesmo tempo, sentia-se grato por ele não saber.
Porém, às vezes, aquilo não era o bastante, e, nessas noites, ele se esgueirava até o térreo, onde nadava, tentando exaurir suas energias. Pela manhã, Willem exigia que lhe mostrasse os braços, e os dois também brigaram por causa disso, mas, no fim, acabou sendo mais fácil simplesmente permitir que Willem verificasse.
– Satisfeito? – ladrava para ele, arrancando os braços das mãos de Willem, desenrolando as mangas e abotoando os punhos da camisa, sem conseguir olhar para ele.
– Jude – disse Willem, após uma pausa –, venha aqui deitar comigo antes de sair.
Mas ele balançou a cabeça e foi embora, e se arrependeu disso durante o dia inteiro e, a cada novo dia em que Willem não repetia o pedido, ele se odiava mais. Seu novo ritual da manhã era Willem examinando seus braços e, toda vez que sentava perto de Willem na cama para que ele procurasse sinais de cortes, sentia sua frustração e sua humilhação aumentarem.
Certa noite, um mês depois de prometer a Willem que faria um esforço maior, soube que teria problemas, que não haveria nada que pudesse fazer para reprimir seus desejos. Fora um dia surpreendentemente rico de memórias, no qual a cortina que separava o passado do presente se mostrara estranhamente fina. Durante toda a noite, vira, como se em visão periférica, fragmentos de cenas flutuando diante dos seus olhos, e teve de se concentrar no jantar para permanecer firme, para não se deixar ser levado para aquele mundo familiar, assustador e escuro das lembranças. Aquela noite foi a primeira em que quase disse a Willem que não queria fazer sexo, mas, no fim, conseguiu ser forte e fizeram.
Depois, ficou exausto. Sempre lutava para continuar presente quando faziam sexo, para não sair voando pelo espaço. Quando era criança e aprendera a sair do corpo, os clientes reclamaram com o Irmão Luke.
– Os olhos dele parecem mortos – diziam; não gostavam nada daquilo.
Caleb lhe dissera a mesma coisa.
– Acorde – falou uma vez, dando-lhe tapas na bochecha. – Onde está você?
Por isso, empenhava-se em ficar ligado, ainda que aquilo tornasse a experiência mais vívida. Naquela noite, ficou deitado, observando Willem dormindo de bruços, com os braços enfiados sob o travesseiro e o rosto mais austero do que quando estava acordado. Esperou, contando até trezentos, e então mais trezentos, até se passar uma hora. Acendeu a luz do seu lado da cama e tentou ler, mas tudo o que conseguia ver era a lâmina, e tudo o que conseguia sentir eram seus braços formigando de vontade, como se não tivesse veias, mas sim um circuito elétrico, zumbindo e soltando bipes de eletricidade.
– Willem – sussurrou e, como Willem não respondeu, colocou a mão sobre a nuca dele, e, como Willem não se mexeu, finalmente levantou da cama e seguiu com o máximo de silêncio até o closet, onde pegou o estojo, que vinha escondendo no bolso interno de um de seus casacos de inverno. Saiu do quarto e atravessou o apartamento até o banheiro do lado oposto, fechando a porta. Ali também havia um box grande, onde ele se sentou, tirou a camisa e apoiou as costas na pedra fria. As cicatrizes engrossavam seus antebraços de tal maneira que, à distância, pareciam banhados em gesso, e agora mal dava para identificar onde fizera os cortes em sua tentativa de suicídio: havia cortado entre e ao redor de cada listra, fazendo camadas que camuflavam as cicatrizes. Nos últimos tempos, vinha se concentrando na parte superior do braço (não nos bíceps, também marcados por cicatrizes, mas nos tríceps, que lhe davam menos satisfação; gostava de ver os cortes que fazia sem precisar torcer o pescoço), mas, desta vez, fez cortes longos e cuidadosos no tríceps esquerdo, contando os segundos que cada um durava – um, dois, três – em comparação com as respirações.
E assim ele se cortou, quatro vezes no esquerdo, três no direito e, enquanto fazia o quarto e as mãos palpitavam com aquela deliciosa debilidade, olhou para cima e viu Willem parado na porta, assistindo a tudo. Em todas aquelas décadas em que se cortara, ninguém jamais o vira no ato em si, e ele parou abruptamente, sentindo aquela violação como algo tão chocante quanto um soco.
Willem não disse nada, mas, quando andou em sua direção, ele se encolheu, apertando o corpo contra a parede do box, humilhado e aterrorizado, esperando o que viria a seguir. Viu Willem se agachar e tirar a lâmina calmamente de sua mão e, por um momento, os dois ficaram naquela posição, ambos olhando para a lâmina. E então Willem se levantou e, sem qualquer preâmbulo ou aviso, arrastou a lâmina pelo próprio peito.
Naquela hora, Jude saiu do transe.
– Não! – gritou, e tentou levantar, mas não tinha forças e acabou caindo. – Willem, não!
– Porra! – gritou Willem. – Porra! – Fez um segundo corte, mesmo assim, logo abaixo do primeiro.
– Pare com isso, Willem! – gritou, quase chorando. – Willem, pare com isso! Você está se machucando!
– Ah, é? – perguntou Willem, e Jude viu pelo brilho nos olhos de Willem que ele também estava quase chorando. – Está vendo como é, Jude? – E fez um terceiro corte, praguejando outra vez.
– Willem – gemeu, jogando-se aos pés dele, mas Willem se afastou. – Por favor, pare. Pare, Willem.
Ele implorou e implorou, mas foi só após o sexto corte que Willem parou, desabando junto à parede oposta.
– Porra – falou, em voz baixa, dobrando-se e abraçando o próprio corpo. – Porra, como isso dói. – Jude correu até ele com o estojo para ajudá-lo a se limpar, mas Willem se esquivou. – Me deixa em paz, Jude – falou.
– Mas precisa fazer um curativo – falou.
– Faça um curativo na porcaria dos seus braços – disse Willem, ainda sem olhar para ele. – Isso não é um ritual deturpado que vamos fazer, sabia: fazer curativos nas feridas autoinfligidas um do outro.
Ele se encolheu.
– Não estava tentando sugerir isso – falou, mas Willem não respondeu, e ele finalmente limpou seus cortes e deslizou o estojo para Willem, que acabou fazendo o mesmo, contorcendo o rosto durante o processo.
Ficaram ali sentados em silêncio por um longo, longo tempo, Willem curvado, e ele a observá-lo.
– Desculpe, Willem – falou.
– Jesus, Jude – disse Willem, um tempo depois. – Isso dói muito mesmo. – Willem finalmente olhou para ele. – Como consegue suportar?
Ele deu de ombros.
– Você se acostuma – falou, e Willem balançou a cabeça.
– Ah, Jude – disse Willem, e Jude viu que ele estava chorando, em silêncio. – Você se sente realmente feliz de estar comigo?
Ele sentiu algo dentro de si despencar e quebrar.
– Willem – começou. Depois tentou de novo: – Você me faz mais feliz do que já fui em toda a minha vida.
Willem fez um ruído que ele depois entendeu ser uma risada.
– Então por que anda se cortando tanto? – perguntou. – Por que foi piorar tanto assim?
– Não sei – disse, com a voz baixa. Engoliu em seco. – Acho que tenho medo de que você vá embora.
Aquela não era a história toda – a história toda que não podia contar –, mas era parte dela.
– Por que eu iria embora? – perguntou Willem. E depois, como ele não conseguiu responder, disse: – Isso é um teste, então? Está tentando descobrir até que ponto vão os meus limites antes de eu ir embora? – E virou para ele, enxugando os olhos. – É isso?
Ele balançou a cabeça.
– Talvez – disse para o piso de mármore. – Quero dizer, não é uma coisa consciente. Mas... talvez. Não sei.
Willem soltou um suspiro.
– Não sei o que dizer para convencê-lo de que não vou embora e de que não precisa me testar – falou. Ficaram novamente em silêncio, e então Willem respirou fundo. – Jude – falou –, o que você acha de talvez voltar ao hospital por um tempo? Só para, não sei, organizar as ideias?
– Não – disse ele, e sua garganta apertou de pânico. – Willem, não... Você não vai me obrigar, vai?
Willem olhou para ele.
– Não – falou. – Não, não vou obrigar você a nada. – Fez uma pausa. – Mas eu bem queria poder.
De alguma forma, a noite acabou e, de alguma forma, um novo dia começou. Estava tão cansado que se sentia tonto, mas, mesmo assim, foi para o trabalho. A briga não terminara com qualquer conclusão – nenhuma promessa fora feita, nenhum ultimato fora dado –, mas, nos dias que se seguiram, Willem não falou com ele. Ou melhor: Willem falava, mas sobre nada.
– Tenha um bom dia – dizia quando ele saía de manhã. E: – Como foi seu dia? – quando voltava à noite.
– Bom – respondia.
Sabia que Willem estava refletindo sobre o que fazer e sobre como se sentia quanto àquela situação, por isso tentou ser o mais contido possível no meio-tempo. À noite, deitavam na cama e, ao passo que antes conversavam, agora ficavam calados, e o silêncio era como uma terceira criatura na cama junto a eles, grande, peluda e feroz quando atiçada.
Na quarta noite, não conseguiu mais suportar, e, depois de ficar deitado por cerca de uma hora, na qual nenhum dos dois disse uma palavra, ele rolou por cima da criatura e jogou os braços sobre o corpo de Willem.
– Willem – sussurrou –, eu te amo. Me perdoa. – Willem não respondeu, mas ele insistiu: – Estou tentando – falou. – De verdade. Tive um deslize; vou me esforçar mais. – Willem continuou sem dizer nada, e ele o abraçou mais forte. – Por favor, Willem – falou. – Sei que isso o incomoda. Por favor, me dê outra chance. Por favor, não fique zangado comigo.
Sentiu Willem suspirar.
– Não estou zangado com você, Jude – falou. – E sei que está tentando. Só queria que não precisasse tentar; queria que isso não fosse algo que você precisasse combater com tanta energia.
Agora foi a vez dele ficar quieto.
– Eu também – falou, finalmente.
Depois daquela noite, tentou diferentes métodos: nadar, é claro, mas também assar alguma coisa tarde da noite. Certifica-se de que nunca falte farinha na cozinha, e açúcar, ovos e fermento, e, enquanto espera o que estiver no forno assar, senta à mesa da sala de jantar e trabalha, e, quando o pão, o bolo ou os biscoitos (que ele faz o assistente de Willem enviar para Harold e Julia) ficam prontos, já é quase manhã e ele se enfia na cama para uma ou duas horas de sono antes de ser acordado pelo despertador. Seus olhos ardem de exaustão durante o resto do dia. Ele sabe que Willem não gosta de suas atividades gastronômicas noturnas, mas sabe também que as prefere à alternativa, e por isso não diz nada. Limpar deixou de ser uma opção: desde que mudara para Greene Street, contratara uma governanta, a Sra. Zhou, que fazia a faxina quatro vezes por semana e era deprimentemente meticulosa, tão meticulosa que ele às vezes ficava tentado a sujar as coisas de propósito só para que ela as limpasse. Mas sabe que aquilo seria bobeira de sua parte, por isso não o faz.
– Vamos tentar uma coisa – diz Willem uma noite. – Quando você acordar e quiser se cortar, me acorde também, pode ser? Seja a hora que for. – Jude olha para ele. – Vamos tentar, tudo bem? Só faça o que estou pedindo.
Ele então obedece, em grande parte porque está curioso para ver o que Willem pretende fazer. Certa noite, já bem tarde, ele passa a mão pelo ombro de Willem. Quando Willem abre os olhos, ele se desculpa. Mas Willem balança a cabeça, monta em cima dele e o abraça com tanta força que ele sente dificuldade de respirar.