Uma Vida Pequena
Capítulo 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
TODO DIA, ÀS QUATRO da tarde, depois da última aula e antes de sua primeira tarefa, ele tinha um intervalo de uma hora, mas, às quartas-feiras, desfrutava de duas. Antes, ele passava aquelas horas lendo ou explorando o terreno, mas, nos últimos tempos, desde que o Irmão Luke lhe dera permissão, ele as passava na estufa. Quando Luke estava lá, ele o ajudava a regar as plantas, decorando seus nomes – Miltonia spectabilis, Alocasia amazonica, Asystasia gangetica – para depois repeti-los ao irmão e receber elogios.
– Acho que a Heliconia vellerigera cresceu – dizia, acariciando suas brácteas pelosas, e o Irmão Luke olhava para ele e balançava a cabeça.
– Inacreditável – dizia – Minha nossa, que memória você tem.
E ele sorria para si mesmo, orgulhoso por ter impressionado o irmão.
Quando o Irmão Luke não estava, ele passava o tempo brincando com suas coisas. O irmão lhe mostrara que, ao afastar uma pilha de vasos de plástico nos fundos da estufa, havia uma pequena grade que, ao ser removida, revelava um buraco no chão, grande o suficiente para guardar um saco plástico com suas posses. Assim, ele desencavara seus gravetos e pedras do esconderijo sob a árvore e levara sua pilhagem para a estufa, que era quente e úmida, e onde podia examinar seus objetos sem perder a sensibilidade das mãos. Ao longo dos meses, Luke fez sua coleção crescer: deu a ele uma pastilha de vidro do mar, que o irmão disse ser da cor dos seus olhos, e um apito de metal com uma bolinha dentro que ressoava como um sino ao ser balançada, e um pequeno boneco de pano de um homem vestindo uma camisa vinho e um cinto enfeitado com minúsculas contas turquesa, que o irmão disse ter sido feito por um índio navajo e que fora dele em seus tempos de menino. Dois meses antes, ao abrir sua sacola, descobrira que o irmão havia deixado uma bengala doce de Natal para ele, e, embora fosse fevereiro, ficou animadíssimo: sempre tivera vontade de experimentar uma bengala doce. Quebrou-a em pedaços e chupou cada um até ficar pontiagudo, para depois mordiscá-los, moendo o açúcar com os molares.
O irmão lhe dissera para ir direto da aula para a estufa no dia seguinte, pois tinha uma surpresa para ele. Passou o dia agitado e distraído e, embora dois irmãos tivessem lhe batido – Michael, no rosto; e Peter, no traseiro –, ele mal percebeu. Foi só quando o Irmão David avisou que teria de fazer mais tarefas e perderia suas horas livres caso não se concentrasse que ele enfim sossegou e conseguiu, de alguma forma, terminar o dia.
Assim que chegou do lado de fora, saindo do campo de visão do mosteiro, pôs-se a correr. Era primavera, e ele não conseguia esconder sua felicidade: adorava as cerejeiras, com suas flores rosa borbulhando, as tulipas, com suas cores acetinadas e improváveis, e a grama nova, macia e tenra sob seus pés. Às vezes, quando estava sozinho, pegava o boneco navajo e um graveto em forma de gente que encontrara, sentava na grama e brincava. Fazia vozes para os dois, sussurrando para si mesmo, pois o Irmão Michael dissera que meninos não brincam com bonecas e que, de qualquer forma, ele também já estava velho demais para brincadeiras.
Imaginou se o Irmão Luke o observava correr. Numa quarta-feira, o Irmão Luke dissera:
– Vi você correndo para cá. – E, quando ele foi abrir a boca para se desculpar, o irmão continuou: – Menino, como você corre! Como é rápido!
Ele ficou literalmente sem palavras, até que o irmão, rindo, disse que podia fechar a boca.
Ao entrar na estufa, não encontrou ninguém lá dentro.
– Olá? – chamou. – Irmão Luke?
– Aqui – ouviu, e virou para o quartinho anexo à estufa, onde ficavam guardadas as provisões de fertilizantes, garrafas de água ionizada, uma estante suspensa com tesouras de grama, de poda e de jardinagem, além de sacos cheios de folhas empilhados no chão. Gostava daquele quarto, com seu cheiro amadeirado e musgoso, e seguiu ansioso até lá, e bateu à porta.
Quando entrou, de início sentiu-se desnorteado. O quarto estava escuro e silencioso, a não ser por uma pequena chama no chão sobre a qual o Irmão Luke se debruçava.
– Chegue mais perto – disse o irmão, e ele obedeceu. – Mais perto – disse o irmão, rindo. – Jude, pode ficar tranquilo.
Então ele se aproximou, e o irmão levantou algo e falou:
– Surpresa! – E Jude viu que era um bolinho. Um bolinho com um fósforo aceso enfiado no centro.
– O que é isso? – perguntou.
– É seu aniversário, não é? – perguntou o irmão. – Este é o seu bolo de aniversário. Vá em frente, faça um pedido; apague a vela.
– É para mim? – perguntou ele, enquanto a chama tremulava.
– Sim, é para você – disse o irmão. – Rápido, faça um pedido.
Nunca tivera um bolo de aniversário antes, mas lera sobre eles e sabia o que fazer. Fechou os olhos e fez um pedido, e então os abriu e soprou o palito de fósforo, deixando o quarto completamente escuro.
– Parabéns – disse Luke, acendendo a luz. Deu o bolinho a ele, que ofereceu um pedaço ao irmão. Luke balançou a cabeça: – É seu.
Ele comeu o bolinho, que tinha pequenos mirtilos e que ele achou a coisa mais deliciosa que já havia comido, tão doce e macio, e o irmão assistiu a tudo sorrindo.
– Tenho mais uma coisa para você – disse Luke, esticando o braço atrás dele e entregando-lhe um pacote, uma caixa grande embrulhada com jornal amarrado por um barbante. – Vá em frente, abra – disse Luke, e ele obedeceu, removendo o jornal com cuidado para que pudesse ser reutilizado.
A caixa era de papelão e, ao abri-la, encontrou uma grande variedade de peças de madeira redondas. Cada peça era entalhada de ambos os lados, e o Irmão Luke lhe mostrou como uma podia ser colocada dentro da outra para formar caixas, que depois ele poderia cobrir com um telhado feito de gravetos. Muitos anos mais tarde, quando estava na universidade, viu uma caixa com aqueles blocos na vitrine de uma loja de brinquedos e percebeu que faltavam peças no presente: uma estrutura triangular vermelha para construir o telhado e as tábuas chatas verdes que serviam de base. Mas, naquele momento, estava sem palavras de tanta alegria, até se lembrar de ter modos e agradecer ao irmão uma vez após a outra.
– De nada – disse Luke. – Afinal, não é todo dia que se faz oito anos, não é mesmo?
– É – admitiu, sorrindo escancaradamente para o presente.
Passou o restante do intervalo construindo casas e caixas com as peças, sob o olhar do Irmão Luke, que às vezes esticava a mão para ajeitar os cabelos dele atrás das orelhas.
Passava cada minuto que podia na estufa com o irmão. Ao lado de Luke, era uma pessoa diferente. Para os outros irmãos, ele era um fardo, um amontoado de problemas e deficiências, e cada dia trazia novos detalhes sobre o que havia de errado com ele: era sonhador demais, emotivo demais, agitado demais, inconstante demais, curioso demais, impaciente demais, magrelo demais, brincalhão demais. Devia ser mais agradecido, mais gracioso, mais controlado, mais respeitoso, mais paciente, mais habilidoso, mais disciplinado, mais reverente. Mas, para o Irmão Luke, ele era esperto, ele era rápido, ele era inteligente, ele era vivaz. O Irmão Luke nunca lhe dizia que fazia perguntas demais ou que havia certas coisas que ele teria de esperar até ser grande para saber. Na primeira vez que o Irmão Luke lhe fizera cócegas, ele perdeu o ar e depois caiu no riso, descontroladamente. O Irmão Luke também riu junto, e os dois se engalfinharam no chão sob as orquídeas. “Você tem uma risada tão bonita”, dizia Irmão Luke, ou então, “Que belo sorriso você tem, Jude”, e “Quanta alegria você tem”. Era como se a estufa fosse um lugar encantado, que o transformava no menino que o Irmão Luke via, alguém divertido e inteligente, alguém que as pessoas queriam ter por perto, alguém melhor e diferente do que realmente era.
Quando tinha problemas com os outros irmãos, ele se imaginava na estufa, brincando com suas coisas ou conversando com o Irmão Luke, e repetia para si mesmo as palavras que Luke lhe dizia. Às vezes, as coisas ficavam tão ruins que ele não conseguia comparecer à mesa de jantar, mas, no dia seguinte, sempre encontrava no quarto algo deixado pelo Irmão Luke: uma flor, uma folha vermelha ou uma noz particularmente bulbosa, que começara a colecionar e guardava sob a grade.
Os outros irmãos notaram que ele andava passando todo seu tempo livre com o Irmão Luke, e ele sentia que aquilo os desagradava.
– Tome cuidado com o Irmão Luke – alertou o Irmão Pavel, logo ele, que batia e gritava com Jude. – Ele não é quem você pensa.
Mas Jude o ignorou. Nenhum deles era quem dizia ser.
Um dia, ele chegou tarde à estufa. Tinha sido uma semana difícil; fora surrado intensamente; sentia dores ao andar. Recebera visitas tanto do Padre Gabriel quanto do Irmão Matthew na noite anterior, e cada músculo doía. Era sexta-feira; o Irmão Michael o liberara inesperadamente cedo naquele dia, e ele resolveu sair para brincar com seus blocos. Como sempre acontecia depois daquelas sessões, queria ficar sozinho – queria sentar naquele espaço acolhedor com seus brinquedos e fingir que estava longe dali.
Não havia ninguém na estufa quando chegou. Levantou a grade e pegou o boneco navajo e a caixa de blocos, mas, em meio à brincadeira, começou a chorar. Vinha tentando chorar menos – o choro sempre o fazia se sentir pior e era algo que os irmãos odiavam, castigando-o por isso –, mas não conseguia se controlar. Pelo menos aprendera a chorar em silêncio, e foi o que fez, embora o problema de chorar em silêncio era que doía, e precisava usar toda sua concentração. No fim, acabou colocando os brinquedos de lado. Ficou ali até o primeiro sino tocar, e então guardou suas coisas e correu morro abaixo até a cozinha, onde descascaria cenouras e batatas e cortaria aipo para a refeição da noite.
E então, de repente, por razões que nunca conseguiu determinar, nem mesmo quando adulto, as coisas ficaram bem ruins. As surras pioraram, as sessões pioraram, as repreensões pioraram. Não sabia ao certo o que fizera; para ele, continuava o mesmo de sempre. Mas era como se a paciência coletiva dos irmãos com ele estivesse chegando ao fim. Até mesmo os Irmãos David e Peter, que lhe emprestavam livros, quantos quisesse, pareciam menos inclinados a falar com ele.
– Vá embora, Jude – disse o Irmão David quando ele se aproximou para conversar sobre um livro de mitologia grega que o irmão lhe dera. – Não quero olhar para você agora.
Cada vez mais acreditava que os irmãos iam se livrar dele, e sentia-se aterrorizado, pois o mosteiro era o único lar que já tivera na vida. Como sobreviveria, o que faria, em meio ao mundo lá fora, que, segundo os irmãos, era cheio de perigos e tentações? Sabia que poderia trabalhar; sabia cuidar do jardim, cozinhar e limpar: talvez pudesse encontrar um trabalho fazendo uma dessas coisas. Talvez outra pessoa o acolhesse. Se isso acontecesse, garantiu a si mesmo, iria se comportar melhor. Não cometeria nenhum dos erros que cometera com os irmãos.
– Sabe quanto custa cuidar de você? – lhe perguntou o Irmão Michael um dia. – Acho que nunca imaginamos que ficaríamos tanto tempo com você. – Não sabia como responder a nenhuma das duas declarações, então ficou sentado, encarando sua mesinha sem dizer nada. – Deveria se desculpar – disse o Irmão Michael.
– Desculpe – sussurrou.
Agora andava tão exausto que não tinha forças nem para ir à estufa. Depois das aulas, ia para um canto do porão, onde o Irmão Pavel lhe dissera que tinha ratos, mas o Irmão Matthew dissera que não, e subia numa das estantes de arame onde ficavam guardados sacos de farinha e caixas de óleo e macarrão, e descansava, esperando o sino tocar para voltar lá para cima. Durante o jantar, evitava o Irmão Luke e, quando o irmão sorria em sua direção, ele virava o rosto. Agora tinha certeza de que não era o menino que o Irmão Luke pensava que fosse – vivaz? engraçado? – e tinha vergonha de si mesmo, de como havia enganado Luke de alguma maneira.
Fazia pouco mais de uma semana que vinha evitando Luke quando certo dia desceu até seu esconderijo e encontrou o irmão ali, esperando por ele. Procurou um lugar para se esconder, mas não encontrou, e então se pôs a chorar, virando o rosto para a parede e se desculpando.
– Jude, está tudo bem – disse o Irmão Luke, aproximando-se dele e dando-lhe tapinhas nas costas. – Está tudo bem, está tudo bem. – O irmão sentou nos degraus do porão. – Venha aqui, sente ao meu lado – falou, mas ele negou com a cabeça, envergonhado demais para obedecer. – Então pelo menos sente no chão – disse Luke, e ele aceitou, apoiando-se na parede.
Luke se levantou e começou a procurar em meio às caixas nas prateleiras de cima, até pegar algo numa delas e entregar a ele: uma garrafa de vidro de suco de maçã.
– Não posso – respondeu na mesma hora. Nem deveria estar no porão: entrara pela janelinha lateral e descera pelas estantes de arame. O Irmão Pavel era responsável pelo estoque e contava todas as caixas uma vez por semana; se faltasse alguma coisa, ele seria culpado. Sempre era.
– Não se preocupe, Jude – disse o irmão. – Depois eu reponho. Vá em frente.
Pegue.
E então, após uma certa insistência, ele acabou aceitando. O suco era doce feito xarope, e ficou dividido entre beber em golinhos, para fazer com que durasse, ou de entornar tudo goela abaixo, caso o irmão mudasse de ideia e tomasse a garrafa de volta.
Quando terminou, os dois ficaram sentados em silêncio, até que o irmão disse, com a voz baixa:
– Jude... o que eles fazem com você não é certo. Não deviam fazer isso com você; não deviam machucar você. – Ele quase começou a chorar outra vez. – Eu nunca o machucaria, Jude. Sabe disso, não sabe?
Ele enfim conseguiu olhar para Luke, para seu rosto longo, bondoso e preocupado, com a barba grisalha curta e os óculos que faziam seus olhos parecerem ainda maiores. Fez que sim com a cabeça.
– Eu sei, Irmão Luke – falou.
O Irmão Luke ficou em silêncio por um bom tempo antes de voltar a falar.
– Você sabia, Jude, que antes de vir para cá, para o mosteiro, eu tive um filho? Você me lembra muito dele. Eu o amava muito. Mas ele morreu, e então eu vim para cá.
Ele não sabia o que dizer, mas não precisava dizer nada, aparentemente, pois o Irmão Luke seguiu falando.
– Eu às vezes olho para você e penso: você não merece passar por essas coisas. Merece estar com outra pessoa, alguém... – E então o Irmão Luke parou outra vez, pois Jude voltara a chorar. – Jude – disse ele, surpreso.
– Não – soluçou –, por favor, Irmão Luke: não deixe eles me mandarem embora. Eu vou melhorar, eu prometo, eu prometo. Não deixe me mandarem embora.
– Jude – disse o irmão, sentando ao lado dele e puxando-o para perto do seu corpo. – Ninguém vai mandar você embora. Eu prometo; ninguém vai mandar você embora. – Finalmente ele conseguiu se acalmar, e os dois ficaram ali sentados em silêncio por um longo tempo. – Tudo o que eu queria dizer é que você merece ficar ao lado de alguém que o ame. Como eu. Se estivesse comigo, eu nunca o machucaria. A gente se divertiria bastante.
– O que faríamos? – perguntou.
– Bem – disse Luke, lentamente –, poderíamos acampar. Você já acampou alguma vez?
Nunca acampara, é claro, e Luke contou como era: a barraca, a fogueira, o cheiro e o crepitar das pinhas queimando, os marshmallows espetados em gravetos, os pios das corujas.
No dia seguinte, ele voltou à estufa e, nas semanas e meses que se seguiram, Luke explicava todas as coisas que poderiam fazer juntos, só os dois: iriam à praia, à cidade, e a uma feira de exposição. Comeriam pizza, hambúrgueres, milho cozido e sorvete. Ele aprenderia a jogar beisebol, a pescar, e morariam numa pequena cabana, só os dois, como pai e filho, e leriam todas as manhãs e brincariam todas as tardes. Teriam um jardim no qual plantariam suas verduras, e flores também e, sim, talvez tivessem uma estufa um dia. Fariam tudo juntos, iriam a todos os lugares juntos, e seriam como melhores amigos, só que ainda mais que isso.
Ele ficava inebriado com as histórias de Luke e, quando as coisas estavam ruins, era nelas que pensava: no jardim onde plantariam abóboras, no riacho que passaria atrás da casa, onde pescariam percas, na cabana – uma versão maior daquelas que construía com seus blocos –, onde Luke prometera que teria uma cama de verdade e onde, mesmo nas noites mais frias, eles sempre estariam quentes, e onde assariam bolinhos toda semana.
Numa tarde – era início de janeiro e fazia tanto frio que tiveram de cobrir todas as plantas da estufa com pano de juta, apesar dos aquecedores –, eles trabalhavam em silêncio. Sempre conseguia perceber quando Luke queria falar sobre a casa onde morariam e quando não queria, e sabia que aquele era um de seus dias silenciosos, quando o irmão parecia estar em outro lugar. O Irmão Luke jamais era grosseiro quando estava com aquele tipo de humor, apenas ficava em silêncio, mas ele sabia que aquele era um tipo de silêncio que devia evitar. Mas estava louco para ouvir uma das histórias de Luke; precisava delas. Aquele fora um dia terrível, o tipo de dia em que tinha vontade de morrer, e queria ouvir Luke contar sobre a cabana, e sobre todas as coisas que fariam lá quando estivessem sozinhos. Na cabana, não haveria Irmão Matthew ou Padre Gabriel ou Irmão Peter. Ninguém gritaria com ele ou o machucaria. Seria como viver o tempo todo na estufa, um encanto sem fim.
Estava lembrando a si mesmo de ficar quieto quando Irmão Luke falou com ele.
– Jude – disse –, estou muito triste hoje.
– Por quê, Irmão Luke?
– Bem – disse o Irmão Luke, e fez uma pausa. – Sabe o quanto gosto de você, não sabe? Mas, ultimamente, venho achando que você não gosta de mim.
Aquilo era uma coisa horrível de ouvir e, por um momento, não conseguiu falar.
– Não é verdade! – disse ao irmão.
Mas o Irmão Luke balançou a cabeça.
– Eu vivo falando para você sobre a nossa casa na floresta – disse –, mas tenho a sensação de que você não quer ir morar lá de verdade. Para você, são apenas histórias, como contos de fadas.
Ele balançou a cabeça.
– Não, Irmão Luke. Para mim, elas também são reais.
Queria poder dizer ao Irmão Luke o quanto eram reais para ele, o quanto precisava delas, o quanto o haviam ajudado. O Irmão Luke parecia bastante chateado, mas finalmente ele conseguiu convencê-lo de que também queria aquela vida, de que queria morar com o Irmão Luke e mais ninguém, e faria qualquer coisa para que aquilo acontecesse. Até que finalmente, finalmente, o irmão abriu um sorriso, agachou e o abraçou, passando os braços em suas costas para cima e para baixo.
– Obrigado, Jude, obrigado – falou, e ele, feliz por ter feito o Irmão Luke tão feliz, retribuiu o agradecimento.
E então o Irmão Luke olhou para ele, ficando sério de repente. Vinha pensando bastante naquilo, falou, e achava que tinha chegado a hora de construírem a cabana onde morariam; estava na hora de irem embora juntos. Mas ele, Luke, não faria aquilo sozinho: Jude estaria disposto a acompanhá-lo? Daria a ele sua palavra? Queria estar ao lado do Irmão Luke do jeito que o Irmão Luke queria estar com ele, só os dois em seu pequeno mundo perfeito? Claro que sim – mas é claro que sim.
Então veio o plano. Partiriam em dois meses, antes da Páscoa; comemorariam o nono aniversário dele já na cabana. O Irmão Luke cuidaria de tudo – tudo o que precisava fazer era ser um bom menino, estudar bastante e não causar nenhum problema. E, o que era mais importante, não dar um pio. Se descobrissem o que os dois estavam fazendo, disse o Irmão Luke, mandariam ele embora, para longe do mosteiro, para se virar sozinho, e o Irmão Luke não conseguiria ajudá-lo. Ele prometeu.
Os dois meses seguintes foram terríveis e maravilhosos ao mesmo tempo. Terríveis porque demoraram a passar. Maravilhosos porque ele tinha um segredo, um segredo que tornaria sua vida melhor, pois significava que sua vida no mosteiro teria chegado ao fim. Todo dia acordava ansioso, pois estava um dia mais perto de ficar com o Irmão Luke. Toda vez que um dos irmãos estava com ele, lembrava que logo estaria longe de todos, e a experiência era um pouco menos dolorosa. Toda vez que o surravam ou gritavam com ele, imaginava-se na cabana, e aquilo lhe dava a fortaleza – uma palavra que o Irmão Luke lhe ensinara – para suportar.
Implorara ao Irmão Luke que o deixasse ajudar com os preparativos, então o irmão lhe dissera para recolher uma amostra de cada flor e de cada folha de todos os tipos diferentes de plantas no terreno do mosteiro. Assim, toda tarde ele perambulava pela propriedade com sua bíblia, enfiando folhas e pétalas entre as páginas. Passava menos tempo na estufa, mas, sempre que via Luke, o irmão lhe dava uma piscadela discreta, e ele sorria para si mesmo, saboreando aquele segredo cálido e delicioso.
A noite finalmente chegou. Estava nervoso. O Irmão Matthew estivera com ele no início da noite, logo após o jantar, mas eventualmente fora embora, e ele ficou sozinho. E então apareceu o Irmão Luke, segurando o indicador na frente dos lábios, e ele assentiu com a cabeça. Ajudou Luke a colocar seus livros e roupas de baixo numa sacola de papel que segurava, e logo em seguida os dois já seguiam nas pontas dos pés pelo corredor, descendo a escada e atravessando a propriedade escura para ganhar a noite.
– O carro não está longe – sussurrou Luke. E então, quando ele parou: – Jude, qual é o problema?
– Minha sacola – falou. – A sacola que guardo na estufa.
E então Luke abriu seu sorriso afável e colocou a mão em sua cabeça.
– Já coloquei no carro – disse, e ele retribuiu o sorriso, grato por Luke ter lembrado.
O ar estava frio, mas ele mal notou. Continuaram a andar, descendo pela longa estradinha de cascalho do mosteiro, atravessando os portões de madeira e subindo pelo monte que levava à estrada principal. A noite era tão silenciosa que chegava a sussurrar. Enquanto caminhavam, o Irmão Luke apontava para as diferentes constelações e ele as nomeava. Acertava todas, e Luke murmurou, admirado, acariciando a parte de trás de sua cabeça:
– Você é tão esperto – disse. – Estou feliz por ter escolhido você, Jude.
Chegaram finalmente à estrada, na qual só estivera poucas vezes na vida – para ir ao médico, ou ao dentista –, apesar de agora estar vazia. Pequenos animais, como ratos-almiscarados e gambás, saltitavam diante deles. E então entraram no carro, uma longa perua marrom, sarapintada de ferrugem, com o banco de trás apinhado de caixas, sacos plásticos pretos e algumas das plantas preferidas de Luke – a Cattleya schilleriana, com suas feias pétalas mosqueadas; a Hylocereus undatus, com sua flor que mais parecia uma cabeça sonolenta e caída – em seus vasos verde-escuros de plástico.
Era estranho ver o Irmão Luke num carro, mais estranho do que propriamente estar no carro. Só que mais estranha ainda foi a sensação que teve, de que tudo valera a pena, de que todas as suas infelicidades teriam um fim, de que estava a caminho de uma vida que seria tão boa – ou talvez até melhor – quanto qualquer coisa que lera nos livros.
– Pronto para partir? – sussurrou o Irmão Luke para ele, abrindo um sorriso.
– Pronto – sussurrou de volta.
E o Irmão Luke girou a chave na ignição.
–
Havia dois modos de esquecer. Por muitos anos, ele visualizara (de forma pouco imaginativa) um cofre e, no fim do dia, juntava as imagens, sequências e palavras sobre as quais não queria mais pensar e abria um pouquinho a pesada porta de aço, só o bastante para as empurrar apressadamente para dentro, fechando-a com rapidez e força. Mas esse método não funcionava: as memórias continuavam a escapar. O importante, concluiu, seria eliminá-las, não simplesmente arquivá-las.
Então inventou algumas soluções. Pequenas lembranças – afrontas e insultos mais leves – eram revividas uma vez após a outra até serem neutralizadas, até as repetições as tornarem praticamente insignificantes, ou até ele acreditar que aquelas coisas tinham acontecido a outra pessoa e que lhe foram contadas por alguém. Já para as lembranças maiores, passava as cenas em sua mente feito um rolo de filme e depois começava a apagá-las, quadro a quadro. Nenhum método era muito simples: não podia parar no meio do processo para examinar o que via, por exemplo; não podia apenas passar rapidamente por algumas partes e torcer para não ser capturado pelos detalhes do que acontecera, pois era óbvio que seria. Precisava trabalhar naquelas lembranças toda noite, até irem embora para sempre.
Só que elas não desapareciam completamente, é claro. Mas, pelo menos, ficavam mais distantes – não eram coisas que o seguiam, feito espectros, em busca de atenção, pulando na frente dele quando as ignorava, exigindo tanto de seu tempo e de suas forças que se tornava impossível ter qualquer outro tipo de pensamento. Em períodos ociosos – nos momentos antes de dormir; nos minutos antes de aterrissar após um voo noturno, quando não estava acordado o bastante para trabalhar e nem cansado o bastante para dormir –, elas se restauravam, então, nessas ocasiões, era melhor imaginar uma tela em branco, enorme, iluminada e imóvel, e mantê-la na mente como um escudo.
Nas semanas seguintes à surra, trabalhou para esquecer Caleb. Antes de ir para a cama, ia até a porta do apartamento e, sentindo-se bobo, tentava forçar as chaves antigas nas fechaduras para garantir que não encaixavam, que realmente voltara a estar seguro. Ligava e religava o sistema de alarme que instalara, tão sensível que até uma sombra era capaz de ativar uma série de bipes. Depois ficava acordado, com os olhos abertos no quarto escuro, concentrado em esquecer. Mas era muito difícil – eram tantas as lembranças dolorosas daqueles meses que ele se sentia sobrecarregado. Ouvia a voz de Caleb lhe dizer coisas, via a expressão no rosto de Caleb quando olhara para seu corpo nu, sentia o horrendo vazio e a ausência de ar de sua queda escada abaixo e se encolhia todo, cobria os ouvidos com as mãos e fechava os olhos. Até que finalmente levantava, ia até o escritório do outro lado do apartamento e começava a trabalhar. Tinha um caso grande chegando, e estava grato por isso; seus dias andavam tão ocupados que sobrava pouco tempo para pensar em qualquer outra coisa. Por um período, ele mal voltava para casa – passava só duas horas dormindo e uma para tomar banho e se vestir –, até que uma noite sofreu um episódio de dor no trabalho, um dos fortes. Era a primeira vez que acontecia. O zelador noturno o encontrou no chão e ligou para o departamento de segurança do prédio, que ligou para o presidente da firma, um homem chamado Peterson Tremain, que ligou para Lucien, que era o único a quem Jude dissera o que fazer caso algo do gênero acontecesse: Lucien ligou para Andy e seguiu com o presidente para o escritório, esperando a chegada do médico. Ele os viu, viu seus pés e, mesmo arfando e se contorcendo no chão, tentou encontrar forças para implorar que fossem embora, para garantir a eles que estava bem e que só precisava ficar sozinho. Mas eles permaneceram ali, e Lucien limpou o vômito de sua boca, com cuidado, para depois sentar no chão próximo a sua cabeça e segurar sua mão. Sentiu tanta vergonha que quase chorou. Mais tarde, diria que não tinha sido nada e que aquilo acontecia o tempo todo, mas eles o obrigaram a tirar o resto da semana de folga e, na segunda-feira seguinte, Lucien lhe disse que a partir daquele momento deveria ir para casa num horário aceitável: meia-noite nos dias úteis, nove da noite nos fins de semana.
– Lucien – dissera, frustrado –, isso é ridículo. Não sou uma criança.
– Acredite em mim, Jude – respondeu Lucien. – Falei ao conselho administrativo que deveríamos montar em você feito um cavalo árabe na Preakness Stakes, mas, por algum motivo estranho, eles se mostraram preocupados com a sua saúde. E também com o caso. Por algum motivo, acham que, se você adoecer, não o venceremos.
Ele brigou e argumentou com Lucien, mas não adiantou: à meia-noite, as luzes do escritório desligavam abruptamente, e, no fim, ele se resignou a ir para casa no horário que lhe mandavam.
Desde o incidente com Caleb, ele mal conseguia falar com Harold; até mesmo vê-lo era uma espécie de tortura. Aquilo fazia das visitas de Harold e Julia – que se tornaram cada vez mais frequentes – um desafio. Sentia-se humilhado por Harold tê-lo visto daquele jeito: quando pensava no que acontecera, Harold vendo suas calças ensanguentadas, Harold perguntando sobre sua infância (Quão óbvio seria ele? Será que as pessoas sabiam, só de conversar com ele, o que lhe acontecera tantos anos antes? E, se isso acontecia, o que poderia fazer para esconder melhor?), sentia uma náusea tão grande que tinha de parar o que estava fazendo e esperar o momento passar. Notava que Harold estava tentando tratá-lo do mesmo jeito de sempre, mas algo havia mudado. Harold parou de importuná-lo sobre a Rosen Pritchard; parou de perguntar como era encorajar a prevaricação corporativa. E certamente não voltou a mencionar a possibilidade de vê-lo com outra pessoa. Agora as perguntas se concentravam em como ele se sentia: Como estava? Como vinha se sentindo? Como estavam suas pernas? Cansava-se muito? Usava a cadeira com frequência? Precisava de ajuda com alguma coisa? Ele sempre respondia exatamente da mesma forma: bem, bem, bem; não, não, não.
E havia também Andy, que voltara abruptamente a fazer suas chamadas noturnas. Agora ligava à uma da madrugada, e, durante as consultas – cuja frequência Andy aumentara para cada duas semanas –, ele agia de maneira atípica, formal e com poucas palavras, o que o deixava aflito. Examinava suas pernas, contava os cortes, fazia as mesmas perguntas de sempre, verificava seus reflexos. E, toda vez que chegava em casa, quando tirava os trocados dos bolsos, via que Andy colocara ali o cartão de um especialista, um psicólogo chamado Sam Loehmann, no qual escrevera: A PRIMEIRA CONSULTA É POR MINHA CONTA. Sempre encontrava um daqueles cartões, cada vez com uma mensagem diferente: FAÇA ISSO POR MIM, JUDE, ou, SÓ UMA VEZ. SÓ ISSO. Eram como frases de biscoitos da sorte, só que irritantes, e sempre os jogava no lixo. Ficava tocado pelo gesto, mas aquilo, a sua inutilidade, também o cansava. Era a mesma sensação que tinha quando precisava substituir o estojo debaixo da pia depois das visitas de Harold. Ia até o canto do closet, onde mantinha uma caixa cheia de centenas de lenços umedecidos com álcool e ataduras, pilhas e pilhas de gaze, e dúzias de caixas de lâminas, e fazia um novo estojo, prendendo-o em seu devido lugar. As pessoas sempre haviam decidido como seu corpo seria usado e, embora soubesse que Harold e Andy estavam tentando ajudá-lo, a parte infantil e teimosa dele resistia: seria ele quem decidiria. Tinha tão pouco controle do próprio corpo, de qualquer forma – como poderiam negar-lhe aquilo?
Dissera a si mesmo que estava bem, que havia se recuperado, que recobrara seu equilíbrio, mas, na verdade, sabia que havia algo errado, que não era mais o mesmo, que estava se perdendo. Willem voltara para casa e, embora não estivesse ali para testemunhar o que ocorrera, embora não soubesse de Caleb e de sua humilhação – ele se certificara disso, dizendo a Harold, Julia e Andy que nunca mais falaria com eles caso contassem a alguém –, ainda tinha vergonha de encontrá-lo.
– Jude, eu sinto muito – dissera Willem ao voltar e ver o gesso. – Tem certeza de que está bem?
Mas o gesso não era nada, o gesso era a parte menos vergonhosa, e por um minuto ele ficou tentado a contar a verdade a Willem, a desmoronar diante dele de um jeito que nunca fizera antes e começar a chorar, a confessar tudo a Willem e pedir que o fizesse se sentir melhor, que dissesse que ainda o amava, mesmo sendo quem era. Mas não fez isso, é claro. Já havia escrito um longo e-mail a Willem cheio de mentiras elaboradas detalhando seu acidente de carro e, na primeira noite em que se reencontraram, os dois passaram o tempo todo conversando sobre tudo, menos sobre aquele e-mail, até ficar tão tarde que Willem acabou dormindo ali mesmo, com Jude, no sofá da sala.
Ele seguiu com a vida. Levantava, ia para o trabalho. Sentia uma necessidade enorme de ter companhia, para não pensar em Caleb e, ao mesmo tempo, temia estar com os outros, pois Caleb o lembrara do quanto ele era desumano, do quanto era deficiente, do quanto era repugnante, e sentia-se envergonhado demais para ficar em meio a outras pessoas, em meio a pessoas normais. Pensava em seus dias da mesma forma que pensava em seus passos quando sentia os pés doloridos e entorpecidos: concentrava-se no primeiro, depois no próximo, e então no próximo e assim por diante, até as coisas acabarem melhorando. Uma hora descobriria como encaixar aqueles meses em sua vida, aceitá-los e seguir em frente. Sempre fora assim.
Chegou o dia de defender o caso no tribunal, e ele venceu. Foi uma enorme vitória, Lucien continuava a dizer, e ele sabia que era verdade, mas sua sensação predominante era de pânico: e agora, o que iria fazer? Tinha um novo cliente, um banco, mas o trabalho previsto era do tipo longo e tedioso, recolhendo fatos, diferente do esforço frenético que exigia vinte horas de aplicação por dia. Ficaria em casa, sozinho, com nada além do incidente com Caleb para ocupar sua mente. Tremain deu-lhe os parabéns, e ele sabia que deveria ficar feliz, mas, quando pediu mais trabalho ao presidente, Tremain caiu no riso.
– Não, St. Francis – falou. – O senhor vai tirar férias. E isso é uma ordem.
Ele não tirou férias. Prometeu que tiraria, primeiro a Lucien, depois a Tremain, mas disse que não podia naquele momento. E o que temia acabou acontecendo: quando ficava sozinho em casa, preparando o jantar, ou então quando saía para ver algum filme com Willem, subitamente alguma cena de seus meses com Caleb lhe vinha à memória. Em seguida, aparecia uma cena do orfanato, outra cena dos anos que passou com o Irmão Luke e, depois, uma cena dos meses com o Dr. Traylor, outra cena do episódio com o carro, aquele brilho branco dos faróis e sua cabeça empurrada para o lado. Até que então sua mente se enchia de imagens, como almas penadas gritando por sua atenção, agarrando-o e dilacerando-o com seus dedos longos e pontudos. Caleb fizera algo dentro dele se soltar das amarras, e Jude não conseguia convencer as feras a voltarem para o porão – ganhara consciência de quanto tempo realmente passava controlando suas lembranças, de quanta concentração era necessária, de como seu comando sobre elas fora fraco durante todo aquele tempo.
– Você está bem? – perguntou-lhe Willem uma noite. Tinham acabado de assistir a uma peça, a qual ele mal registrara, e depois saíram para jantar, onde ouvira Willem sem muita atenção, esperando mostrar as reações certas ao que o outro dizia, enquanto remexia a comida no prato e tentava agir normalmente.
– Sim – respondeu.
As coisas estavam piorando; ele sabia e não tinha ideia do que fazer para que melhorassem. Oito meses haviam se passado desde o incidente, e a cada dia pensava mais nele, não menos. Sentia, às vezes, como se seus meses com Caleb fossem uma matilha de hienas, e todo dia elas o perseguiam, e todo dia ele gastava sua energia correndo delas, tentando escapar e não ser devorado por suas mandíbulas potentes e espumantes. Tudo aquilo que o ajudara no passado – a concentração; os cortes – agora não ajudava mais. Cortava-se mais e mais, mas as lembranças não desapareciam. Nadava todas as manhãs, e nadava de novo à noite, por quilômetros, até sobrarem forças apenas para tomar banho e desabar na cama. Enquanto nadava, entoava cânticos para si mesmo: conjugava verbos do latim, recitava provas jurídicas, relembrava casos que estudara na faculdade de direito. Sua mente lhe pertencia, dizia a si mesmo. Era ele quem teria o controle; não aceitaria ser controlado.
– Tive uma ideia – disse Willem ao fim de outra refeição na qual ele fracassara em se comunicar. Respondera a tudo que Willem perguntara com um ou dois segundos de atraso e, depois de um tempo, os dois ficaram em silêncio. – Devíamos tirar férias juntos. Devíamos fazer aquela viagem ao Marrocos que ficamos de fazer dois anos atrás. Podemos partir assim que eu voltar. O que acha, Jude? Já vai ser outono... será lindo.
Estavam no fim de junho: nove meses após o incidente. Willem viajaria de novo no início de agosto para uma gravação no Sri Lanka; só voltaria no início de outubro.
Enquanto Willem falava, ele pensava em como Caleb o chamara de deformado, e só o silêncio de Willem fez com que percebesse que era sua vez de falar.
– Claro, Willem – disse. – Parece ótimo.
O restaurante ficava no Flatiron District. Depois de pagarem a conta, saíram para caminhar um pouco, ambos taciturnos, quando ele de repente avistou Caleb vindo no sentido oposto. Tomado pelo pânico, puxou Willem para a entrada de um prédio, surpreendendo os dois com sua força e rapidez.
– Jude – disse Willem, alarmado –, o que está fazendo?
– Não diga nada – sussurrou para Willem. – Apenas fique aqui e não se vire. – E Willem obedeceu, encarando a porta com ele.
Contou os segundos até ter certeza de que Caleb havia passado e em seguida olhou cautelosamente para a calçada. Viu então que não se tratava de Caleb, apenas de outro homem alto de cabelos escuros, mas não Caleb, e soltou um suspiro, sentindo-se derrotado, estúpido e aliviado, tudo ao mesmo tempo. Percebeu que sua mão ainda estava agarrada à camisa de Willem e a soltou.
– Desculpe – disse. – Desculpe, Willem.
– Jude, o que aconteceu? – perguntou Willem, tentando olhar em seus olhos. – O que foi isso?
– Nada – falou. – Só pensei ter visto alguém que não queria ver.
– Quem?
– Ninguém. Um advogado de um caso em que estou trabalhando. É um imbecil; odeio ter de lidar com o sujeito.
Willem olhou para ele.
– Não – disse, finalmente. – Não era um advogado. Era outra pessoa, alguém de quem tem medo. – Os dois ficaram em silêncio. Willem olhou para a rua, depois voltou a olhar para ele. – Você está assustado – falou, com a voz inquisitiva. – Quem era, Jude?
Ele balançou a cabeça, tentando pensar em alguma mentira para contar a Willem. Estava sempre mentindo para Willem: mentiras grandes, mentiras pequenas. Toda a relação deles era uma mentira – Willem achava que ele era uma pessoa, mas na verdade não era. Somente Caleb sabia a verdade. Somente Caleb sabia o que ele era.
– Já falei para você – disse, finalmente. – Era esse advogado.
– Não, não era.
– Era, sim.
Duas mulheres se aproximaram e, ao passarem por eles, uma sussurrou animada para a outra:
– Aquele era Willem Ragnarsson!
Ele fechou os olhos.
– Ouça – disse Willem, em voz baixa –, o que anda acontecendo com você?
– Nada – respondeu ele. – Estou cansado. Preciso ir para casa.
– Tudo bem – disse Willem. Acenou para um táxi, ajudou Jude a entrar e em seguida entrou também. – Greene com Broome – disse ao motorista.
No táxi, suas mãos começaram a tremer. Aquilo vinha acontecendo com uma frequência cada vez maior, e ele não sabia o que fazer para que parasse. Começara quando era criança, mas só acontecia em circunstância extremas – quando estava tentando não chorar, ou quando sofria dores alucinantes, mas sabia que não podia fazer barulho. Só que agora vinha acontecendo em momentos estranhos: a única coisa que ajudava eram os cortes, mas, às vezes, o tremor era tão intenso que ele tinha dificuldade para segurar a lâmina. Cruzou os braços junto ao peito, esperando que Willem não percebesse.
Na porta da frente, tentou se livrar de Willem, sem sucesso.
– Quero ficar sozinho – disse a ele.
– Entendo – disse Willem. – Vamos ficar sozinhos juntos.
Os dois ficaram ali parados, encarando um ao outro, até que ele finalmente se virou para a porta. Mas não conseguiu encaixar a chave na fechadura, de tanto que tremia, então Willem pegou as chaves de sua mão e abriu a porta.
– Que diabos está acontecendo com você? – perguntou Willem assim que entraram no apartamento.
– Nada – respondeu –, nada.
Agora rangia os dentes, uma reação que nunca acompanhava o tremor quando ele era jovem, mas ultimamente vinha acontecendo quase todas as vezes.
Willem aproximou-se dele, que virou o rosto.
– Aconteceu alguma coisa quando eu não estava aqui – disse Willem, incerto. – Não sei o que foi, mas alguma coisa aconteceu. Há algo de errado. Você vem agindo de maneira estranha desde que voltei da filmagem da Odisseia. Não sei por quê. – Ele parou de falar e colocou a mão em seus ombros. – Me diga, Jude – falou. – Conte o que aconteceu. Me conte, e vamos pensar num jeito de deixar tudo bem.
– Não – sussurrou. – Não consigo, Willem, não consigo. – Fez-se um longo silêncio. – Preciso ir para cama – falou.
Willem o soltou, e ele se encaminhou para o banheiro.
Quando saiu, Willem estava usando uma de suas camisetas e cobria o sofá do quarto de Jude com o edredom do quarto de hóspedes, o sofá debaixo do quadro de Willem na cadeira de maquiagem.
– O que está fazendo? – perguntou.
– Vou passar a noite aqui – disse Willem. Jude suspirou, mas Willem começou a falar antes que ele tivesse chance. – Você tem três opções, Jude – falou. – A primeira: eu ligo para Andy, digo que acho que tem algo de muito errado com você, e nós dois vamos ao consultório dele para um exame. A segunda: eu ligo para Harold, que enlouquece e liga para Andy. A terceira: você me deixa ficar aqui para monitorar a situação, já que não quer me contar as coisas, já que não me conta porra nenhuma, e nunca parece entender que ao menos deve a seus amigos uma chance de tentarem lhe ajudar. Você no mínimo me deve isso. – Sua voz fraquejou. – E então, qual vai ser?
Ah, Willem, pensou. Você não tem ideia do quanto queria contar tudo para você.
– Desculpe, Willem – foi só o que disse.
– Tudo bem, se desculpe o quanto quiser – disse Willem. – Vá para a cama. Ainda guarda as escovas de dente reservas no mesmo lugar?
– Sim – respondeu.
Na noite seguinte, voltou tarde do trabalho para casa e encontrou Willem deitado no sofá do seu quarto outra vez, lendo.
– Como foi seu dia? – perguntou, sem abaixar o livro.
– Bom – respondeu.
Esperou para ver se Willem explicaria o que estava fazendo ali, mas ele não o fez, então foi para o banheiro. No closet, passou pela mala de Willem, que estava aberta e com roupas o bastante para indicar que pretendia ficar ali por um bom tempo.
Sentiu-se patético em admitir aquilo para si mesmo, mas ter Willem ali – não só no apartamento, mas em seu quarto – ajudava. Não conversavam muito, mas só a presença dele já o fazia se sentir firme e concentrado. Pensava menos em Caleb; pensava menos em tudo. Era como se a necessidade de provar a Willem que ele era normal realmente o deixasse mais normal. Só o fato de estar perto de alguém que conhecia e que nunca, jamais, lhe faria mal era reconfortante e lhe permitia acalmar sua mente e dormir. Mas, por mais agradecido que estivesse, também sentia uma repulsa por si mesmo, por ser tão dependente, tão fraco. Não haveria fim para suas necessidades? Quantas pessoas já o haviam ajudado ao longo dos anos, e por que fizeram isso? Por que ele permitiu que o ajudassem? Um amigo melhor teria mandado Willem para casa, dito que ficaria bem sozinho. Mas não foi o que ele fez. Deixou que Willem passasse as poucas semanas que ainda tinha em Nova York dormindo no sofá feito um cão.
Pelo menos não tinha de se preocupar em aborrecer Robin, pois Willem e ela haviam rompido perto do fim da filmagem da Odisseia, quando Robin descobrira que Willem a traíra com uma das assistentes de figurino.
– E eu nem gostava dela – lhe contara Willem numa de suas ligações. – Só fiz isso pelo pior motivo possível: porque estava entediado.
Ele refletira sobre isso.
– Não – falou –, o pior motivo de todos seria por querer ser cruel. O seu foi apenas o motivo mais estúpido de todos.
Houve uma pausa e então Willem caiu na gargalhada.
– Obrigado por isso, Jude – falou. – Obrigado por fazer com que eu me sinta ao mesmo tempo melhor e pior.
Willem continuou ao seu lado até o dia em que teve de partir para Colombo. Interpretaria o filho mais velho de uma família decadente de mercadores holandeses no Sri Lanka, no início dos anos 1940, e cultivara um bigode que enrolava nas pontas; quando Willem o abraçou, sentiu o bigode raspando em sua orelha. Por um momento teve vontade de desmoronar e implorar a Willem para não ir. Não vá embora, queria lhe dizer. Fique aqui comigo. Tenho medo de ficar sozinho. Sabia que, se dissesse aquilo, Willem ficaria: ou pelo menos tentaria. Mas nunca diria algo assim. Sabia que seria impossível para Willem adiar as filmagens e sabia que Willem se sentiria culpado por não conseguir fazer isso. Assim, tudo o que fez foi abraçá-lo ainda mais forte, o que raramente fazia – raramente demonstrava a Willem qualquer tipo de afeto físico –, e pôde sentir que Willem ficou surpreso, mas também o abraçou com mais força, e os dois ficaram ali parados, abraçados um ao outro, por um bom tempo. Lembrou que não estava usando tantas camadas de roupa assim para deixar que Willem o abraçasse com tanta firmeza, pensando que talvez pudesse sentir as cicatrizes em suas costas por cima da camisa, mas, no momento, o mais importante era só estar perto dele; tinha a sensação de que aquela seria a última vez que aquilo aconteceria, a última vez que veria Willem. Tinha aquele medo toda vez que Willem viajava, mas, desta vez, era mais forte, menos teórico; a sensação era a de uma despedida de verdade.