A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 12 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Segundo

 

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO

 

Os meios sociaes em que se formaram os Estylos Latino e Byzantino descrevemol-os, com rapidos traços, em anteriores capitulos. Seguindo o methodo adoptado, apreciámos as circumstancias historicas em que se operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se definiram as duas feições do Estylo Romanico, o da constituição perfeita e o da transição para o Estylo Ogival.

D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos, devemos tirar conclusões geraes. A fusão dos tres espiritos, o classico, o germanico e o christão, está quasi realisada. A homogeneidade do pensamento prepara a das sociedades. É a aurora do mundo moderno, que desponta ha oito seculos. São enormes os dias da historia da Humanidade; duram por longo tempo, como por myriades de seculos se contam os da historia da Natureza.

O espirito da liberdade começa o seu caminho, nem sempre directo e facil mas constante e orientado, para as instituições modernas. Essa força poderosa, a liberdade do pensamento, vae engrandecer as antigas sciencias, crear outras novas e, como a arte é uma sciencia, engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo a antiga esthetica, como transformou a philosophia classica.

A tendencia para a ordem social produz a riqueza, a relativa instrucção desenvolve o gosto, elementos que constituem a melhor atmosphera do trabalho intellectual e da sua applicação pratica. As sciencias e as artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos primeiros seculos as obrigára a procurar refugio. Os senhores fazem os seus votos e cumprem-n'os, elevando templos, e constróem castellos e palacios nos seus Estados. As communas nascentes edificam os seus campanarios e tambem os seus muros e fortalezas. A emulação estabelece-se. Os pequenos tyrannos até procuram salvar as almas, mercadejando com Deus e cobrindo o sangue dos assassinios e as torpezas dos actos com templos admiraveis. Sirva de exemplo a grande Cathedral de Milão, construida em 1386 por João Galeas Visconti, duque de Milão, um dos maiores malvados do seu tempo, aliás bem fertil em individualidades d'esta especie, dispersas por toda a Europa feudal.

O Christianismo domina sem rival; para elle começára tambem a unidade que teve depois n'outros seculos. Chame-se Catholicismo, religião reformada ou orthodoxa grega, é sempre o mesmo espirito tendo acção identica sobre os destinos do orbe christão, que nós e os hespanhoes havemos de alargar mais tarde, descobrindo os mais longinquos confins do mundo.

Este bello movimento do espirito humano, iniciado nos seculos XI e XII, avigora-se no seculo XIII, cuja atmosphera facilitou a formação do Estylo Ogival, aquelle que até hoje produziu, em menos tempo, a maior quantidade de monumentos de todas as ordens, admiraveis manifestações de grandeza e de qualidades de arte. Agora, porém,

circumscrevamos os nossos raciocinios ao Estylo Romanico secundario e ao terciario, chamado de transição, porque n'elle, durante o seculo XII, se opera a passagem para o Estylo Ogival.

As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano, a Gallia, a Iberia, a Bretanha, haviam sido devastadas pelas invasões germanicas; a propria Italia, como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro a hegemonia e depois fôra arrancada á corôa imperial do oriente. A miseria era extrema em toda a parte. Na Italia, por exemplo, no principio do seculo VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem kilometros de Roma, para n'este vasto deserto levar vida contemplativa e ascetica, creando depois com os adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta d'elle, a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social, perigoso e incerto, e o proprio mysticismo da religião christã crearam as primeiras associações religiosas, que satisfaziam ás necessidades do espirito e á segurança e ao socego dos homens, que não andavam envolvidos nas tremendas luctas do tempo. Taes são na essencia as origens das ordens religiosas, que, a pouco e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se organisaram regularmente.

N'estas associações se refugiaram a sciencia, a philosophia e a arte, que precisam para boa cultura o socego do corpo e a tranquillidade do espirito. Algumas ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham nos seus estatutos escriptos, além de regras e praticas religiosas, obrigações de caracter scientifico; ora, esta ordem teve, como é sabido, uma expansão enorme e rapida, depois da fundação, no seculo VI, do primeiro mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa e sabia associação espalhou-se pelo occidente, dando origem a abbadias que ainda hoje teem nome na historia: em França as de Cluny e Citeaux, construidas nos seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg, em Inglaterra as de York e de Westminster, para não citar ainda mais outras. Tambem, nos ultimos seculos do primeiro periodo da Edade-Media até ao principio do seculo XI, se formou em Italia a associação civil dos irmãos pontifices, que depois se constituiu em ordem religiosa; os seus fins consistiam em construir e reparar pontes, facilitando assim o caminho das peregrinações, que se dirigiam aos logares santos e a outros pontos de veneração christã.

A existencia d'estas associações religiosas exigia a construcção de grandes edificios, para a vida em communidade, e a da egreja para os exercicios divinos. Os primeiros associados em Christo foram assim, logicamente, os architectos e constructores dos proprios templos; quasi os unicos quando as miserias da sociedade se accentuaram ainda mais nos seguintes seculos. Em volta dos conventos e das egrejas em construcção, agrupavam-se os operarios, os restos das antigas associações romanas, talvez, ou pelo menos gremios nascentes que mais tarde deviam dar origem á franco-maçonaria. Assim, ao lado da sociedade religiosa constituia-se outra associação civil, que os proprios superiores ou abbades cultivavam pela sciencia e pela religião, organisando-as e não desdenhando a honra de fazer parte d'estas corporações de artes e officios.

O movimento iconoclasta favorecia estas organisações, trazendo artistas experimentados do oriente, que no occidente procuravam o trabalho e a protecção dos conventos. Entre os grandes serviços que o Christianismo prestou á Humanidade, durante a Edade-Media, não foi este o menos importante: conservar a sciencia e a philosophia classica e desenvolver novas feições estheticas.

Assim correram as cousas até ao seculo IX, quando sobreveiu a grande invasão dos normandos, que, descendo do norte, infestaram o occidente da Europa, a França e principalmente a Bretanha. Estes grandes piratas do mar, que as tempestades levavam aonde elles queriam ir, assolavam, saqueavam e queimavam tudo na sua passagem, mais sequiosos de presa e mais brutos de sentimentos do que os proprios hunos de Atilla. A pouco e pouco, é certo, uma civilisação superior infiltrou-se-lhes no sangue e adoçou-lhes os costumes selvagens; mas os grandes males estavam feitos e era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas e os conventos, cujas ruinas, ainda negras do fumo dos incendios, attestavam a brutalidade dos novos invasores.

Os primeiros constructores christãos tinham encontrado edificios feitos, as basilicas; apropriaram-se d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte, saqueando as riquezas dos antigos templos classicos para as adornar. Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente, encontravam-se em circumstancias differentes. As necessidades do culto tinham modificado as egrejas, embora conservando-lhes a antiga feição; a estabilidade das associações religiosas manifestava outras exigencias na duração dos edificios. O tempo e os flagellos da guerra haviam esgotado os thesouros, d'onde os antigos architectos tinham tirado a ornamentação dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo Byzantino, espalhado e conhecido no occidente, offerecia-se campo largo e aberto, onde a sua influencia se podia exercer com grande actividade. Todas estas condições especiaes tendiam a imprimir novos caracteres ás construcções architectonicas.

A solidez do edificio e a sua maior duração envolviam o problema da natureza da cobertura. Os novos constructores resolveram-n'o empregando a abobada, que fôra excluida das construcções primitivas do Estylo Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico primario. A abobada de volta inteira ou abatida era muito usada em Roma; mas os edificios escolhidos para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo Latino, as basilicas, não a tinham, nem a comportavam, dadas as condições de estabilidade e de espessura dos muros, ou das columnas, sobre as quaes repousava a cobertura. A tradição, principalmente em materia religiosa, tem sempre grande força; por isso, as tradições da basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente conservadas.

Além d'isso, o Estylo Byzantino empregára a cupula de construcção difficil e a abobada em arco de circumferencia, facil de construir; estamos, pois, plenamente convencidos de que o caracter fundamental do Estylo Romanico secundario, a abobada, foi o resultado da influencia do novo estylo oriental. Mas o systema de cobertura abobadada exige, sem discussão, maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar o peso e resistir ás pressões lateraes; por isso, os edificios romanicos apresentam estes caracteres, pela diminuição dos vãos abertos e pelo emprego de contrafortes e botareos. Aqui, são as proprias necessidades da construcção, que levam os architectos a adoptar os processos e as fórmas do Estylo Byzantino. Emfim, logicamente, se o arco de circumferencia predomina na parte principal do edificio, a harmonia do estylo indica-o para os outros elementos, portas, janelas e arcos, assim tambem traçados no Estylo Byzantino.

Os architectos latinos, acceitando a ordenação classica, preoccuparam-se pouco com os ornamentos externos; pelo contrario, a interior das basilicas deparára-se-lhes rica e era-lhes facilitada pelos excellentes materiaes e productos artisticos, com que topavam por toda a parte, restos conservados dos precedentes estylos. Os architectos romanicos trabalhavam em mais perfeita liberdade de acção; mas tinham poucos thesouros artisticos para ornamentação das egrejas. Além d'isso, a solidez dos edificios e a sua longa duração provavel convidavam-n'os a estudar e a realisar combinações estheticas, que os embellezassem no exterior.

A extensão do uso dos sinos e a invenção dos relogios exigiram a construcção de elevadas torres, que muitas vezes tambem, como já vimos, satisfaziam a necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa, ou castello do convento. Era, pois, natural que essas torres symetricas, por exigencias estheticas e do clima ornadas de agulhas ou de elevados corucheus, se tornassem elementos principaes das fachadas mais ricas e grandiosas.

Por esta fórma, muito logicamente, se deduzem os caracteres fundamentaes do Estylo Romanico, devidos uns a influencias dos anteriores estylos, outros a necessidades de construcção, a novos usos e ritos e até á acção do clima, que em certas circumstancias influe sobre a escolha e emprego dos materiaes e por elles na formação dos estylos.

Expostas estas idéas geraes, que a nosso ver ligam as condições do meio social dos seculos XI e XII, durante os quaes o espirito humano manifestou determinada phase, com os caracteres do estylo que é a sua feição especial nesse periodo da evolução da arte, desçamos a explanações indispensaveis para melhor distinguir e apreciar o Estylo Romanico secundario, que reinou no seculo XII.

É bom notar que a classificação dos estylos por seculos é um pouco arbitraria; querendo, apenas, significar que dentro d'este espaço foi construida a maioria dos principaes monumentos de determinado estylo; o que não quer dizer que alguns o não fossem antes ou depois d'esse limite. Além d'isso, entre as differentes nações, que usaram do mesmo estylo, não se manifesta elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem até offerece perfeita unidade e similhança de caracteres, que, pelo menos nos secundarios, apresentam differenças sensiveis provenientes de varias causas, entre as quaes o clima, os materiaes de construcção e as tradições locaes se devem considerar importantes.

As disposições anteriores das egrejas romanicas offerecem muitas variantes. Algumas, talvez as mais numerosas, seguem o typo tradicional das basilicas; tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais ampla e prolongada pelo côro, que n'este estylo se alongou mais, constituido por um corpo recto terminado pela abside. Como vimos, no primitivo Estylo Latino a abside formava o presbyterio, depois seguiam-se o altar e o côro, dispostos já na nave central; nas egrejas romanicas estes tres elementos foram introduzidos na abside alongada por paredes rectilineas, espaço a que o uso deu o nome geral de côro. Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto, da melhor separação do sanctuario em relação ao templo e do uso generalisado dos orgãos.

N'esta fórma, algumas vezes as naves lateraes avançam, ladeando o côro até á curva da abside, outras vezes circumdam-n'a por completo, constituindo a charola, ou deambulatorio, para o qual nos ultimos tempos se abriram capellas. Infelizmente, Portugal não possue exemplar algum completo e rico d'este estylo. Os que existem são pequenos, pobres e estragados por successivas restaurações antigas que lhes deturpam as fórmas e a ornamentação: mas a Sé de Lisboa, a que nos referiremos em capitulo especial, fornece exemplo das disposições particulares do Estylo Romanico.

N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez a cruz latina, formada pela nave central e pelo côro, cortados pelo transepto. Em algumas egrejas nota-se o facto singular do eixo do côro, em vez de prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita do observador. Esta anomalia foi attribuida a defeitos de construcção descuidada, vulgar nos edificios romanicos menos importantes, ou ao symbolismo da inclinação da cabeça de Jesus Christo, quando expirou sobre a cruz. A segunda hypothese parece-nos mais provavel.

Outras egrejas offerecem a disposição octogonal, imitando n'este caso as byzantinas de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que serviu de modelo, como era natural, a muitos templos, até com identica invocação. Existe n'este genero uma egreja, que nos parece constituir excepção muito singular, e onde em cada lado do octogono interior ha uma abside: a de S. Miguel de Entraigues, em França. Emfim, a planta circular, se não abunda, tem exemplos n'este estylo.

Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam com o côro; mas egrejas existem de duas absides ou córos fronteiros, isto é, tendo dois transeptos nos extremos da nave central; n'este caso as entradas são lateraes.

A cobertura empregada foi a abobada, principalmente a partir dos fins do seculo XI. Em data anterior nas egrejas subsistiram em geral as coberturas de madeira; este facto é muito provavel ter-se dado nas mais pobres e em regiões ricas de florestas. Assim, pareceu-nos que parte das egrejas das nossas povoações do norte foram do Estylo Romanico secundario ou do periodo de transição, restauradas no tempo ogival e no da renascença manuelina, de que teem em geral muitissimos elementos; ora, estas egrejas tiveram sempre, dada a espessura das paredes e das arcadas das naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha e a de Villa do Conde. Fazemos esta affirmação com reservas, porque entre nós as restaurações, em regra, foram tão más e radicaes, que mascararam a feição anterior dos edificios; mas que tenham sido do Estylo Romanico secundario ou do terciario, a sua cobertura foi sempre de madeira.

A fórma das abobadas póde reduzir-se a dois typos: o de volta inteira, ou o que resulta da penetração reciproca de cylindros ou cones de base circular, constituindo as abobadas de arestas, ou as de arco de claustro. Estas fórmas são fundamentaes nas construcções do segundo periodo romanico, porque a ogiva, quando apparece nos começos do seculo XII, caracterisa o terceiro periodo, o de transição, como veremos em breve.

Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino, maiores ou menores e em geral debaixo do côro, nas egrejas mais importantes.

Ainda as torres caracterisam este estylo. São relativamente pouco elevadas, massiças, ornadas de arcaturas, ou de arcos de volta inteira, e cobertas por agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam separadas do corpo do edificio, como é de uso nos de Italia, outras vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe a fachada. Algumas egrejas teem mais de uma torre, dispostas duas symetricas na fachada e uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando uma especie de zimborio, ou fechada pela propria abobada d'este cruzeiro. A Sé de Lisboa offereceu a primeira disposição. A terceira torre, caída pelo terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios, denominava-se torre sineira, o que explica os seus fins especiaes, a que foram depois applicadas as grandes torres da fachada.

Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres importantes do estylo romanico, é a existencia de galerias, mais ou menos largas, sobre as arcadas que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias, denominadas triforios, de pequenos arcos simples ou trilobados, são verdadeiras reminiscencias dos porticos superiores das basilicas, onde as viuvas e as virgens assistiam isoladas ás ceremonias religiosas. O exemplo encontra-se na Sé de Lisboa, guarnecida por um triforio nas paredes da nave central e nas do transepto. A construcção moderna tem columnellos com galba e capiteis de dimensões classicas; mas nas sondagens feitas foram encontradas as verdadeiras dimensões do triforio primitivo e o seu typo accentuadamente romanico. Tambem a Sé de Coimbra tem triforio; n'esta egreja, porém, a galeria é muito larga e de fórma especial.

As portas e as janelas são de volta inteira, onde, ás vezes, os arcos geminados byzantinos demonstram o parentesco proximo dos dois estylos. Os supportes, os pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as proporções classicas, manifestam-se rudes e fortes. Os grandes pilares das naves, até quando já tendem a tornar-se polystylos, são grossos e curtos. A expressão de força sobrepuja n'elles a de elegancia, dando-lhes, aliás, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se quadrados e lisos, ou com columnelos nichados nos angulos; outras vezes, cylindricos ou polygonaes, revestidos de meias columnas. Esta disposição prepara os pilares polystilos, isto é, ornados de finos e elevados columnelos, do Estylo Ogival.

Os capiteis apresentam variadissima ornamentação, em geral differente em todos elles, ainda que pertençam ao mesmo vão. Este facto caracteristico será explicado, quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem a fórma de pyramides quadradas ou conicas, truncadas e invertidas, coroados por um simples abaco. As columnas desobedecem a todos os modulos classicos, não teem galba, apresentam-se cylindricas, em geral, ou ligeiramente conicas.

As arcadas de volta inteira são formadas de varias molduras, as mais ricas ornadas de desenhos, dos quaes já encontrámos alguns no Estylo Byzantino. No interior e no exterior dos edificios romanicos, as arcaturas, simples ou entrelaçadas, constituem ornamentos muito vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes teem maior ou menor saliencia.

O conjunto exterior dos edificios romanicos produz no espirito uma impressão caracteristica de força e severidade, embora tambem, ás vezes, de elegancia e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns edificios revestidos de ameias, sobre cornijas repousando em macheculis, as torres massiças e quadradas, os muros muito espessos revestidos de botareos pouco salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, dão a estes grandes edificios um aspecto de fortificação, de que, em verdade, serviram muitas vezes nos tempos medievaes.

Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que a sua grande alma de pedra sente ainda as impressões dolorosas das desgraças profundas e dos horriveis flagellos, atravessados pela Humanidade durante essa triste quadra da historia. O seu caracter religioso é para muitos mais completo e elevado do que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo Romanico começa a ser considerado mais verdadeira expressão da arte christã do que o ogival. Citamos a opinião por curiosidade, embora com ella não estejamos muito de accordo.

As fachadas romanicas variam muito, conforme a inspiração dos architectos, para que possam ser descriptas em schema desenvolvido; mas n'estas fachadas os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem grande importancia. São formados de archivoltas de muitas molduras mais ou menos ornamentadas, repousando sobre capiteis e columnas da natureza anteriormente descripta. No fundo d'estes portaes de arcadas embocetadas e decrescentes, abre-se o vão da porta, offerecendo em geral um tympano de pedra, ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado de pequenos parallelipipedos. D'esta ultima disposição existe entre nós exemplo na antiga porta lateral da Sé de Lisboa, hoje restaurada. Algumas vezes o tympano era de pintura polychromica sobre fundo de ouro, systema que constitue, sem duvida, uma imitação pobre dos ricos tympanos byzantinos de mosaico, como se vêem em S. Marcos de Veneza. Por cima dos portaes, janelas da mesma disposição architectonica dão luz ás naves; a central é a origem da futura rosacea do Estylo Ogival.

O narthex, ou galilé, dos primitivos estylos conserva-se nas condições expostas n'outro ponto d'esta memoria.

A ornamentação geral é variada e caracteristica n'este estylo. Folhagens caprichosas entre phantasticos corvos e cabeças de expressões grotescas, combinações geometricas de galões recamados de perolas, zig-zags e arabescos impossiveis de definir constituem reminiscencias do Estylo Byzantino e são precursores do Estylo Ogival. Na porta lateral da Sé de Lisboa foram descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo, que nos parece envolverem uma excepção rarissima no Estylo Romanico. Na base dos capiteis, em cada um, duas pombas bem trabalhadas parece dão bicadas em cachos pendentes da folhagem. São dos mais bellos capiteis que temos visto. A pintura polychromica apresenta-se, ás vezes, nos capiteis dourados, de que existem traços evidentes na Sé de Lisboa, ou pintados, assim como os fustes das columnas, as molduras das archivoltas e certos pontos das paredes.

É evidente que a abundancia e perfeição dos ornamentos dependem da edade do estylo, mais rudes e simples no primitivo, mais perfeitos e variados quando se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os elementos principaes d'este futuro estylo se encontram, mais ou menos esboçados no romanico.

Seria quasi impossivel comprehender bem os dois estylos sem os comparar, estudando-os separadamente. No Estylo Romanico, o caracter de todos os elementos é a força e a severidade: no Ogival a elegancia e a suavidade, que mascaram a força sem a diminuir, a não ser na decadencia d'este ultimo.

Eis em rapidos traços os caracteres mais salientes e geraes do Estylo Romanico secundario. Em verdade, não são muito accentuados, exceptuando a abobada, por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos completada a definição, pelos caracteres ornamentaes, aliás, tambem sujeitos ás condições particulares e aos materiaes empregados nos differentes paizes. Assim, no sul da França, como na Italia, onde reinou mais accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos teem qualidades um pouco differentes, embora sempre subordinadas ás regras geraes e ás feições do estylo. Os do sul são mais leves e cuidados do que os do norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se mais pesados e de ornamentação mais barbara e primitiva. Em qualquer caso, a grande influencia do Estylo Byzantino, na constituição da architectura dos seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.

O Estylo Romanico terciario—o de transição—apresenta os mesmos caracteres do secundario; comtudo um elemento não empregado no periodo anterior, o arco em ogiva, produz logicamente importantes modificações na disposição geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em todas as nações da antiguidade, que tiveram grandes constructores e edificios importantes. Se o não empregaram em grande escala, foi decerto porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes nas linhas mais apparentes, não se adequava estheticamente ás disposições inversas do arco ogival. As investigações scientificas vão demonstrando este facto e o futuro nos dirá o que se póde ainda descobrir.

O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão evidentes em si, tão faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta experiencia, que seria quasi uma offensa á capacidade, aliás extraordinaria, de alguns architectos classicos suppôr que não lhes foram conhecidas e portanto que não applicaram o arco ogival, quando as condições o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de construcção, na perspectiva e na disposição dos materiaes, que os architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia tão profunda, demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois não houve exemplo, e em que foram até attendidos os erros visuaes nas grandes linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicação da ogiva seria um indiscutivel absurdo.

No arco em ogiva as componentes horisontaes das pressões, exercidas sobre os pilares, são menores do que no arco de volta inteira e decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema é tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As rasões pelas quaes começou a ser usado no segundo periodo romanico e depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que nos cumpre investigar como inducção interessante.

É muito provavel que a solidez e a economia das construcções fossem a rasão suprema da sua adopção, sem, todavia, deixarmos de considerar as condições estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto é, davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos, elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim, ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento logico de um estylo e expressão esthetica do estado especial do espirito humano no periodo historico, que procurámos definir n'outros capitulos d'este livro.

Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por si, não caracterisa o terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto mais leve; mas a ornamentação tambem offerece transformações importantes. O trabalho é mais perfeito.

Novo systema de molduras substitue em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem rejuvescidos, outros novos são creados; emfim, a guarnição vegetal, precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.

Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica, delgada e alta, de roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As physionomias são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras fórmas hieraticas e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.

Uma decoração magnifica começa a manifestar grande desenvolvimento no ultimo periodo do Estylo Romanico: os vitraes, as vidraças coloridas das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado no seculo X. É muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados, tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a côr fundida e incrustada na massa, não apparece senão no seculo XII, por modo incontestavel e com desenvolvida applicação, de que existem ainda alguns exemplares.

Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se. conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel ornamentação, cujo effeito é surprehendente, attinge a maior perfeição no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas considerações.

Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas, que a classificação dos edificios, principalmente nas epocas de transição de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que exige sobretudo muita experiencia e observação de exemplares bem definidos. As idéas geraes não bastam, nem é sufficiente o estudo dos livros. É preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doença, quasi adivinhando-a pela simples observação do enfermo.

Além disso, é indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a tem escripta, aliás refazel-a com successivas investigações, estudando pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transição, principalmente, tudo se sobrepõe e combina por tal fórma que o enygma parece sorrir dos nossos esforços em cada canto dos monumentos.

Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja de Alcobaça deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou já ogival. Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de caracter romanico.

Restaurações successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da Renascença dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta egreja um soffrivel exemplar do romanico de transição. Discutiremos este assumpto, interessante sob o aspecto da classificação architectonica dos nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.