A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 23 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Quinto

 

 

RELAÇÃO DOS ARCHITECTOS E MESTRES

 

Ainda julgamos ser util dar noticia dos nomes dos mestres e architectos, que em differentes epocas dirigiram as obras do Mosteiro da Batalha; nomes citados em documentos, dos quaes hoje muitos se devem considerar perdidos. Esta simples e incompleta enumeração poderá talvez servir para guiar futuras investigações sobre o Mosteiro da Batalha.

Affonso Domingues. Apparecia em documento de 1402, que o dava já por fallecido. Como a construcção começou em 1387, é muito provavel que fosse um dos primeiros architectos do Mosteiro, se foi architecto. Segundo a nossa opinião, expendida n'um dos anteriores capitulos, Affonso Domingues foi o primeiro vedor real das construcções.

Mestre Ouguet, Huet ou Huguet. Apparecia como testemunha, no citado documento de 1402. Depois, documentos de 1450 e 1451 davam-n'o já como fallecido. D. Francisco de S. Luiz affirma que bem póde ser este mestre o Aquete, de que falla a tradição. Raczynski concorda com esta opinião. Emquanto a nós, parece-nos que esta hypothese é forçada, porque o nome inglez sonicamente correspondente é Hewett e não Hacket. D. Duarte em 1433 fez doação a este mestre de umas casas, que ficavam perto do Mosteiro; portanto elle vivia ainda pelo menos n'este anno. Talvez a casa doada fosse uma destruida ha poucos annos, sendo vendida por baixo preço a ultima e bella janela antiga.

Martin Vasques. Apparecia em documentos de 1450 e 1451, dando-o já como fallecido. D. Francisco de S. Luiz colloca-o entre os successivos mestres do Mosteiro, desde 1438 a 1448, anno em que morreu, suppondo, ignoramos com que fundamento, que este mestre e o seguinte foram os constructores do segundo claustro, denominado de D. Affonso V.

Fernão de Evora. Era sobrinho do precedente mestre. Vinha mencionado em documentos de 1448 a 1473.

Mestre Guilherme. Por morte de Fernão d'Evora, foi nomeado mestre do Mosteiro por D. Affonso V em 21 de outubro de 1477. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Matheus Fernandes. Era mestre do Mosteiro, quando em 1480 D. Affonso V lhe tirou o cargo para o dar a João Rodrigues, cuja competencia declara superior.

O Sr. Sousa Viterbo pergunta se será outro Matheus Fernandes, alem dos dois seguintes, ou se o architecto, caído em desgraça, se rehabilitou depois? Parece-nos mais provavel a primeira hypothese.

João Rodrigues. Nomeado em 1480 mestre do Mosteiro por destituição do antecedente. Deve notar-se que já em 1490 era mestre do Mosteiro o seguinte Matheus Fernandes. (Sousa Viterbo, Diccionario).

João da Arruda. Em 1485, sendo mestre do Mosteiro, foi mandado a Beja por D. João II para avaliar certas propriedades. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Matheus Fernandes. Um documento de 1503 falava d'este mestre, dizendo: «o muito honrado Matheus Fernandes, vassalo de El-rei, juiz ordinario na villa do Mosteiro de Santa Maria da Victoria e mestre de obras do dito Mosteiro, por El-rei Nosso Senhor.» Em documento de 1497 falava-se em Margarida Fernandes, sua filha, o que leva a crer que o pae já era mestre de obras do Mosteiro n'esse anno. Á entrada da egreja da Batalha, descendo os degraus da porta principal pode lêr-se ainda o seguinte epitaphio: «Aqui jaz Matheus Fernandes, mestre que foi d'estas obras, e sua mulher Izabel Guilhelme e levou-o Nosso Senhor aos 10 dias de abril de 1515, ella levou-a...» A ultima data não foi gravada.

D'aqui se póde concluir que Matheus Fernandes foi mestre de obras do Mosteiro, desde o principio do reinado de D. Manuel até 1515; ora, como n'esse periodo a construcção das capellas imperfeitas foi muito activa, póde, com bastante plausibilidade, attribuir-se-lhe o respectivo plano. Sua mulher Isabel Guilhelme é provavelmente irmã ou filha de Guilhelme Belles, ou Belen, mestre vidraceiro que vivia de 1448 a 1473, ou do precedente mestre Guilhelme, architecto.

Matheus Fernandes (filho). Succedeu ao pae em 1516. Em documento de 1525, apparecia o nome d'este mestre, dando-o vivo; logo não podia ser o precedente, devendo ser naturalmente seu filho. O nome d'este mestre não se encontrava em mais documento algum; d'onde D. Francisco de S. Luiz conclue que foi afastado para outra obra.

Boutaca ou Boytaca. Apparecia em documento de 1509, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei; era tambem citado em documentos de 1512, 1514 e 1519. D. Francisco de S. Luiz dá-o como fallecido em 1528. Raczynski, sem citar auctoridades, affirma que este mestre italiano foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos em Belem. Varnhagen, em artigo publicado no «Panorama», de 9 de dezembro de 1843, diz que em documentos existentes na Torre do Tombo, descobriu que este mestre italiano Potassi foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos, bem como provavelmente o da Egreja da Conceição Velha de Lisboa.

Em 1490 apparece um certo Diogo Boytaca, como auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal, cuja construcção começou n'esse anno. A este mesmo architecto concedeu D. Manuel, em 1498, a tença de 8$000 réis annuaes, a vencer depois do seu casamento.

Sabe-se que depois, em 1512, um Boutaca, residente, ou pelo menos tendo propriedades, proximo do Mosteiro da Batalha, era casado com Isabel Amriques. Assim, foi rasoavel suppor que estes dois Butacas eram um só individuo. Aconteceu, porém, que ha poucos annos se procedeu a obras de restauração na pequena Egreja de Santa Maria da Victoria, que durante algum tempo serviu de freguezia á villa nascente; ora, subterradas no solo d'esta egreja, foram encontradas duas lapides tumulares, que veem lançar grande confusão nos trabalhos dos archeologos.

A primeira lapide tem o seguinte epitaphio:

Sepultura, de mestre Boutac, cavalleiro da caza d'El-Rei nosso Senhor e mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 157...

O ultimo algarismo da data é illegivel.

Na outra lapide, encontrada junto á primeira, lê-se:

Sepultura de Isabel Amriques, mulher de mestre Boutac. Falleceu em 23 d'Abril de 1522.

Assim, á primeira vista parece que este Boutac e sua mulher são os individuos, anteriormente citados. Mas para que isto seja possivel é necessario admittir que Boutac morreu com 100 annos, pelo menos. De facto, se elle foi o auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal em 1490 e morreu em 1570, hypothese mais favoravel, entre estas datas medeiam 80 annos. Ora, qual seria a edade do architecto, aliás estrangeiro, quando projectou tão grande obra?

Concedamos 20 annos a Boutac, se é o mesmo; viveu, pois, pelo menos, 100 annos. Como isto não é nada provavel, resta a hypothese de Boutac pae e filho; mas, n'este caso deviam existir logo duas mulheres do mesmo nome Isabel Amriques, morrendo a a segunda 48 annos antes do marido!

O que nos parece singular, tambem, é a orthographia tumular do nome, duas vezes escripto. Se o c final foi cedilhado, o som é bem proximo de Potassi.

D. Francisco de S. Luiz classifica Boutaca, entre os mestres de artes ou officios desconhecidos; ora, é indiscutivel que foi architecto e tão importante que chegou—elle ou o filho?—a ser mestre de obras do reino.

João de Castilho. Varnhagen, no seu opusculo sobre o Mosteiro dos Jeronymos, em Belem, diz que João de Castilho foi nomeado para as obras do Mosteiro da Batalha em 4 de julho de 1528, por morte de Matheus Fernandes, filho, o que não nos parece exacto.

Miguel da Arruda. Em 25 de junho de 1533 foi nomeado por D. João III mestre do Mosteiro, pela renuncia d'este cargo dada por João de Castilho. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Dyonisio da Arruda. Sobrinho do precedente, a quem substituiu por sua morte. Foi nomeado por D. João III em 25 de outubro de 1563. (Sousa Viterbo, Diccionario).

Antonio Gomes. Apparecia como mestre n'um documento de 1548; n'outro documento de 1551 era, apenas, mencionado como pedreiro. D. Francisco de S. Luiz conclue d'este facto, com boa critica, que as obras do Mosteiro eram muito pouco importantes n'esse tempo.

Antonio Mendes. Figurava em documento de 1578, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei, Nosso Senhor; na certidão da ciza, junta a este documento, lia-se: «Antonio Mendes, mestre das obras de El-rei Nosso Senhor». D. Francisco de S. Luiz crê que era um simples titulo honorifico, dando apenas direito ao vencimento de mestre de obras.

Guilhelme Bellés ou Bellen. Apparecia em documentos de 1448, 1463 e 1473, como mestre vidraceiro. Este nome é estrangeiro, parecendo-nos de origem franceza. Deve notar-se que a Cathedral de Bruges foi sempre celebre pelos seus vitraes.