A Arquitetura Religiosa na Idade Média
Capitulo Segundo
A revolução estava feita. Christo foi a encarnação da Idéa, que então correspondia ás necessidades intellectuaes e moraes da Humanidade e preparava os seus futuros destinos.
Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!
CAPITULO SEGUNDO
OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO
Pelas razões expostas no precedente capitulo, era muito difficil e perigosa a situação do Christianismo, nos primeiros seculos. As grandes perseguições repetiam-se, sempre com maior intensidade e crueza, sob os successivos imperadores, que, muito naturalmente, procuravam conquistar a força e a sympathia da opinião publica pagã, exigindo d'elles as violencias e as atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No intervallo d'estas exacerbações de odios, a desconfiança e a vigilancia insupportaveis e constantes opprimiam o gremio dos christãos, que, aliás, nos primeiros tempos devia ser constituido em geral por elementos pobres e obscuros, sem força alguma na politica e na administração do Imperio.
Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras manifestações visiveis do Christianismo em Roma, em data impossivel de fixar, até ao reinado de Constantino, isto é, durante um periodo de mais de tres seculos. A ultima e mais formidavel perseguição foi ordenada por Diocleciano no anno 303 da éra christã. A tetrarchia, que então governava o Imperio, facilitou esta colossal e longa perseguição, estendendo-a por todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor que manifestam sempre as medidas extremas de salvação publica.
Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria dos pobres e dos ignorantes, que constituia a associação christã, não tinha qualidades, nem gosto, nem tempo, para cultivar as artes, aliás já bem decadentes n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades romanas, dominados por ardente proselytismo, em continuas catecheses, vivendo receiosos entre perigos e miserias, não lhes sobravam, decerto, vontade e tempo para cultivar as artes, ainda que para isso possuissem qualidades estheticas.
O Christianismo era doutrina tão espiritual, fazia depender tanto a felicidade da prece e da virtude, elevando a alma a Deus e conduzindo-a ao Ceu, que as formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam ser consideradas inuteis, se não peccadoras, aos olhos dos crentes. O mysticismo da edade-media e a seita dos Iconoclastas estavam latentes no Christianismo nascente.
Alem d'isso, os christãos perseguidos, considerados inimigos da sociedade pagã, não podiam construir templos, nem ter formas publicas de culto, imagens de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial da Arte, que nos seculos futuros produzirão phases artisticas de grande valor. Nem eram ricos, ao menos, para cultivar as artes, suppondo que o ardor da propaganda e o espirito da religião lhes consentissem o culto pagão da forma.
A religião precisa de reunir os seus adeptos, para mutuamente avigorarem a fé e incitarem a esperança. Sem a communidade dos fieis, a religião toma o aspecto de simples philosophia, mais ou menos completa, fria, sem vigor de propaganda, porque as multidões, ligadas pela mesma idéa, teem em si o condão singular de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez d'alma que a leva até ao sacrificio.
Os christãos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros tempos; mas essas reuniões eram clandestinas, como as dos conspiradores dos tempos modernos. Os logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos. Era logico. Quando o gremio religioso cresceu, e cresceu rapidamente, não devia ser facil problema encontrar logares amplos e seguros para a communicação dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente e simples.
A estas necessidades correspondiam as catacumbas, vastos subterraneos que existiam em volta do centro populoso da Roma dos Cesares. A religião christã em Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para symbolisar a acção da Idéa Nova, que ia minando e corroendo as bases das antigas sociedades pagãs.
O auctor d'este livro visitou em Roma uma das mais famosas catacumbas, a de S. Calixto. Percorrendo os subterraneos, lobregos e humidos labyrintos de encruzilhadas, guiado pela luz mortiça de uma lampada, sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe a fé e a esperança, doces e profundas, que os seus irmãos em Christo, de ha dois mil annos quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham por entradas e caminhos differentes reunir-se no sanctuario, para a admissão de neophytos e para as praticas religiosas.
N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe ouvir ainda os primitivos canticos, a historia poetica dos martyres mortos que a linguagem eloquente do espirito religioso dava aos vivos, como exemplo. Enthusiasmou-se com a fé simples e primitiva, nutriu a esperança firme e serena na desejada victoria; emfim, durante algumas horas, sentiu-se possesso, deliciosamente possesso, da energia de vontade, da pureza de sentimentos e da firmeza de crenças de um iniciado d'esses primeiros seculos do Christianismo.
Galerias sinuosas e extensas de secção regular, um metro por dois metros, cruzam-se com angulos muito abertos, formando um complicado tecido de subterraneos, excavados em tufo escuro, porôso e infiltrado de agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas filas horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por vezes em tres ordens, foram excavadas na rocha branda. Eram as sepulturas dos primeiros christãos.
Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos foram fechados por lapides; mas hoje, abertos e negros á luz vacillante da lampada, essas filas extensas de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem um sentimento de pavor e de espanto, terriveis quando no fundo de alguns se vêem ainda branquejar os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e morreram ha quasi dois mil annos.
De grandes em grandes espaços, estas galerias alargam-se, ou convergem umas poucas, formando subterraneos amplos de maior altura de abobada natural. São os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de S. Calixto, existe n'estas condições uma grande sala de forma rectangular, que, sem duvida, constituia o templo, para onde se descia de fóra por longa escadadaria, construida depois de Constantino, isto é, da liberdade do Christianismo. Do lado esquerdo do templo, passa se para a grande crypta de Santa Cecilia. Parece attestar que ahi foi depositado o corpo da nobre e rica dama de Roma, uma esculptura na parede representando uma mulher luxuosamente adornada. Esta crypta communica com a dos Papas, assim chamada por conter um grande numero de Pontifices do terceiro seculo da era christã. Sarcophagos de pedra de esculptura archaica conservam ainda os restos dos martyres, uns esquecidos, outros beatificados ou santificados pela Egreja.
Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles, sobrepõem-se ás vezes em dois e tres andares e, se é verdadeira a affirmação, estendem-se nas catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.
O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo tirou ás catacumbas a importancia primitiva. Transformadas em logares de veneranda tradição, conservadas, talvez, para cemiterio de alguns christãos mais afamados, as catacumbas soffreram modificações na anterior disposição. Assim, nos sitios mais importantes foram rasgados luminarios, que deixam passar luz de fóra, tenue e duvidosa, e arcocelios que enfeitavam e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras parecem de caracter posterior á emancipação do Christianismo e a logica leva a crel-o.
Eis, em rapidos traços, os caracteres geraes d'estes sombrios subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do Christianismo e os grupos cada vez mais numerosos de homens de boa vontade construiam os alicerces das modernas sociedades.
É evidente que até ao seculo IV os christãos, sob a acção da vigilancia pagã, não podiam construir templos. A architectura christã, pelo menos, nasceu depois d'este seculo. O mesmo se póde dizer sobre a esculptura dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes peças difficeis de trabalhar dentro das catacumbas e impossiveis de transportar de fóra, por longos corredores estreitos, sob as vistas dos agentes das perseguições, que o eram todos os adeptos e defensores do antigo polytheismo.
A arte d'este tempo é ingenua. Consiste, como é de crer, em esculpturas grosseiras. A maior parte das pinturas, se muitas existiram, deve tel-as desfeito o tempo. Além d'isso, não nos parece facil distinguir hoje o que foi feito no tempo das perseguições, ou depois da liberdade do Christianismo, em que as catacumbas deviam ser consideradas logares santos e concorridos pela veneração dos fieis.
Estas razões, que nos parecem fundadas, circumscreveram ainda mais a acção dos artistas christãos dos seculos primitivos. A arte n'esse tempo limitou-se a pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros, verdadeiros traços profundos desenhando figuras informes, ou ingenuos symbolos, uns adequados do paganismo ao espirito da nova religião, outros creados, como linguagem mysteriosa, que só os iniciados podiam ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de Jesus Christo, é um emblema muito espalhado nas catacumbas. Era necessario, com effeito, ser iniciado para comprehender que Ichtus, em grego o peixe, representava aos olhos dos fieis as primeiras lettras das palavras mysticas: Jesus Christo, Filho de Deus, Salvador.
Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos religiosos, que envolvem um ligeiro caracter de arte: a pomba e ás vezes Psyche alada, que representavam a alma; a ancora a esperança; o ramo de oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias, que ainda hoje se encontram nos costumes da Egreja e na tradição dos povos christãos.
Na realidade, tudo isto não constituia verdadeira arte; muito embora nas primeiras egrejas do Estylo Latino possamos encontrar elementos trazidos das catacumbas. As cryptas dos templos lembram as das catacumbas. Os tumulos de pedra dos martyres e santos, que nas catacumbas serviam de altares, apparecem mais tarde no Estylo Latino. São usos respeitados; a tradição santifica-os, conserva-os e transforma-os. Eis ainda um exemplo da evolução da Arte.
Taes eram as condições sociaes e moraes do Christianismo, antes do IV seculo. No anno 306, Constantino, filho de Constancio Chloro tetrarcha das Gallias e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legiões gaulezas.
O grande periodo da Edade-Media vae começar em breve. O poderoso Imperador Constantino, o genial espirito do primeiro christão coroado, parece presidir a este periodo historico, em que se accentua a evolução e o poder do Christianismo, creando novas sociedades e novos estylos de Arte.
Constantino era um grande homem e um profundo politico. Sem falarmos na unidade e na organisação do Imperio, que elle creou com admiravel energia e sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos seus demonstram-lhe o valor: a protecção concedida ao Christianismo e a escolha da situação de Byzancio, para capital do Imperio. Estes dois factos, além de influencia enorme sobre a conservação do Imperio, tiveram acção profunda e decisiva na evolução social da religião e das artes christãs.
É evidente que esta evolução tinha de existir, porque, já antes do reinado de Constantino, o Christianismo, moralmente vencedor, não podia ser suffocado; mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de caracteres secundarios differentes. Os grandes homens não conseguem crear as opportunidades, nem modificar as causas profundas que transformam o modo de ser animico e social da humanidade; comtudo, o genio aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as em determinado caminho, de entre os variados de que dispõe a natureza e o espirito para se approximar indefinidamente do fim supremo, os ideaes do bem, do bello e da justiça.
Constantino vira nas Gallias o caminhar rapido do Christianismo. Tinha assistido, provavelmente, aos actos de perseguição alli praticados por ordem de Deocleciano. Sentira a fé dos crentes, apreciára a energia de alma dos martyres, a valentia das mulheres que se deixavam suppliciar, sem protestos, sem choros, olhando o Ceu com esperança e cobrindo apenas os corpos, animadas d'esse pudôr do espirito que desconhecia quasi o paganismo. Para elles, martyres, a morte não era horrivel; por um lado, davam o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma, que em breve ia ser feliz, vivendo para sempre no seio do doce Christo. Constantino era um genio e os genios vêem sempre no futuro.
Depois, annos de morticinio não extinguiam os christãos. Parecia que a flora do Christianismo rebentava sempre mais forte e variada. A suggestão do martyrio, fundando-se na esperança, trazia novos adeptos, que appareciam por toda a parte, como nos campos cobertos de relva pullulam as boninas brancas na primavera.
Constantino era politico e os politicos usam das forças vivas para os seus altos designios. A idéa e a força sempre crescente do Christianismo, que haviam levado, talvez, Diocleciano a abdicar a coroa imperial não podendo transigir com elle, eram elementos necessarios, unicos, para o sonho de Constantino, a unificação e a reorganisação do antigo Imperio Romano.
Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A idéa polytheista estava condemnada. Os verdadeiros sabios nunca haviam acreditado n'esses mythos monstruosos uns, ingenuos outros; n'essa religião, emfim, sob cuja influencia cabiam aos pedaços a politica das sociedades pagãs e a moral dos cidadãos. A doutrina christã, simples e virtuosa, o seu principio deista, a unidade do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam ter um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir uma aspiração da sua alma.
Não é, pois, necessaria a revelação divina para explicar a conversão de Constantino. Em nome das perseguições feitas aos christãos, o novo imperador marcha contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia, derrota-o nos campos do Pó, aperta-o na retirada e, ajudado pelos christãos, levando na frente o labarum, com a cruz de Christo e o prophetico lemma in hoc signo vinces, vence-o e fal-o morrer junto dos muros de Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica em Milão o Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade para a Egreja triumphante.
Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio, sempre a titulo das perseguições exercidas contra os christãos; derrota-o em Siballis, aprisiona-o, promette-lhe a vida e manda-o matar passado tempo!
A unidade politica do Imperio estava feita; faltava, apenas, a organisação administrativa. Os christãos haviam sido auxiliares do imperador; tornaram-se, pois, seus protegidos. Constantino não combatia ainda abertamente o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco, enchendo os christãos de favores, mostrando por elles viva predilecção. Ora, os favores e a predilecção dos poderosos são uma ordem e um incentivo para os pequenos.
O trabalho de propaganda de Constantino foi lento e efficaz. Não bastava que o Christianismo vivesse de tolerancia. Antes de ser religião do Estado, precisava tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que entre os romanos era a melhor manifestação de força e de soberania. Em 321, outro Edito imperial auctorisa a Egreja a receber donativos e a possuir bens temporaes. O imperador concede, depois, privilegios aos templos da nova religião, entre elles o direito de asylo dos templos classicos; eguala os dois sacerdocios em direitos e regalias; começa até a perseguir os pagãos. Eram costumes do tempo.
Para dar unidade á nova Egreja e expungir a heresia de Ario, que no terceiro seculo do Christianismo ameaçava já a tradição orthodoxa, Constantino convocou em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunião dos bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea. Este concilio teve subida importancia sobre a unidade e a disciplina do Christianismo, como mais tarde a manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando a theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo da definição do dogma nas reuniões da Egreja Universal; fixou a doutrina da consubstanciação do Pae e do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o Symbolo dos Apostolos, ainda hoje o Credo resado pelos christãos; finalmente, fulminou o anathema e a excommunhão sobre Ario e a sua doutrina, que negavam esta consubstanciação.
O arianismo, porém, não se deu por vencido e, durante seculos, manifestou profunda influencia sobre o Christianismo, principalmente na catechese dos povos barbaros.
Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o espirito dos povos germanicos, é o verdadeiro germen do movimento da reforma religiosa, que nos seculos futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos, o catholico e o protestante.
Constantino fizera-se christão de facto, faltava-lhe apenas o baptismo; comtudo, como esse sacramento lhe sacrificaria as funcções e a influencia de pontifice-maximo do paganismo perseguido, quasi extincto mas tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no politico, deixa a prova indubitavel e solemne da conversão, para os ultimos dias da vida. O politico ainda transparece na escolha de Byzancio, reedificada e engrandecida, para capital do Imperio. Com effeito, em torno das suas vastas fronteiras, já no tempo de Constantino, uma cinta de ferro de povos barbaros cingia-se cada vez mais. Eram as ondas das invasões, que se começavam a formar e entrarão com movimento irresistivel no seculo seguinte.
O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel lucta, o terrivel choque dos povos do norte nas fronteiras do Imperio. A cidade de Byzancio, defendida pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posição relativamente mais segura do que Roma para capital, o cerebro e a alma dos seus vastos estados. O imperador transferiu a séde do governo para Constantinopla, no anno 330 da nossa era.
Assim, o Christianismo foi reconhecido religião do Estado, official e professada pelo imperador, segundo o antigo aphorismo: cujus regio, ejus religio.
Um novo periodo historico vae, pois, começar para a Humanidade. A politica e a moral, expressões geraes da actividade humana, manifestarão caracteres differentes do passado. O espirito do Christianismo presidirá a esta phase longa e brilhante da evolução historica, que ha de inflorar-se com a civilisação e o progresso modernos.
Entre o mundo classico e o christão parece existir hoje um abysmo; todavia, na evolução do espirito não occorreu a menor solução de continuidade. As sociedades modernas ligam-se ás antigas, como a arvore se prende ao solo pelas raizes, como a planta se enxerta n'outra, de que recebe a seiva e o alimento.
A arte classica e a christã parecem, tambem, distinctas, quando na realidade nasceram ambas do movimento evolutivo e ascencional do espirito humano. As differenças provéem da intima natureza das religiões, que imprimiu caracteres especiaes á expressão do bello, a Arte, nas duas sociedades.
Todas as religiões se dirigem, mais ou menos directamente conforme a perfeição da doutrina e do culto, para o ideal do bem, do bello e do justo; mas procuram-n'o por differentes caminhos. O polytheismo grego e romano, pelas condições especiaes da sua formação, via esse ideal atravez da belleza da forma. O Christianismo, pelo contrario, contempla-o atravez da belleza do espirito. Os fins são identicos; apenas os meios de os attingir se manifestam differentes.
A religião classica exaltava a alma, penetrando-a de doce sensualismo. O amor e o goso eram bens da vida, de que os proprios Deuses davam bons exemplos. Diogenes no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando as vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do sol e contemplava o bello visivel da natureza.
A religião christã exalta a alma, penetrando-a de elevado espiritualismo. A vida é a estrada rude e aspera, que a alma vae subindo dolorosamente até entrar, emfim, pela porta da morte na felicidade eterna. S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as carnes com cilicios e açoutes para calar os sentidos. Desprezando, tambem, os bens mundanos, absorvia-se na contemplação da belleza ideal do Eterno Espirito.
A applicação d'esta doutrina é facil e concludente. Na architectura, comparemos duas producções singulares em merito e belleza: o Parthenon e a Cathedral de Strasburgo.
O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica; a Cathedral de Strasburgo gosa da fama de ser exemplar completo do mais rico estylo da arte christã. No primeiro, todas as proporções e elementos foram estudados e combinados para attingir a harmonia e a belleza da forma; mas a expressão é fria. O monumento não diz nada ao nosso espirito. Na segunda, pelo contrario, a belleza da expressão completa a da forma. A Cathedral de Strasburgo é um poema de pedra, um cantico da religião christã.
Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este livro percorreu os museus de Italia, viu nas vastas galerias do Vaticano accumuladas centenas, milhares de estatuas classicas. Nunca, nunca, até hoje, a esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!
Mas, n'essa multidão immensa de primores, não encontrou a expressão. As physionomias são de uma serenidade olympica, as attitudes magestosas, em geral, não teem movimento. A expressão não existe, até quando as condições do acto mais a exigem. A morte não tem contracções no rosto. A lucta não manifesta a furia do odio. O amor é frio e solemne. Todas as bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou de Minerva, conforme os sexos.
As excepções são rarissimas; contam-se sem difficuldade. O grupo de Laocoon e dos filhos, envolvidos pelas serpentes, as lagrimas de Niobe, chorando os filhos, são exemplares curiosos da expressão dos antigos estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos em Italia por toda a parte a vida, a expressão, o movimento dos esculptores da Renascença, de que Bernini nos dá singular exemplo no extasis de Santa Thereza de Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas produzidas pelos artistas modernos.
A arte classica e a christã traduzem, pois, a essencia intima das respectivas religiões. Na primeira, predomina a forma; na segunda sobresae o espirito. Estas observações parecem-nos fundamentaes na Historia da Arte.