A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 16 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Sexto

 

O ESTYLO OGIVAL ENTRE NÓS

 

Eis um capitulo por natureza curto. Se Portugal é, infelizmente, pobre em monumentos, a sua penuria manifesta-se extrema nos do Estylo Ogival. O Estylo Romanico deixou entre nós algumas construcções, mais ou menos importantes, embora, em geral, estragadas depois por inscientes restaurações, que o cuidado e o gosto moderno vão a pouco e pouco substituindo, a fim de darem aos edificios a possivel pureza primitiva. A Sé de Coimbra, egreja romanica do segundo periodo, é bom exemplo d'este gosto e cuidado.

Pelo paiz inteiro, pelo menos na parte por nós percorrida, encontram-se de quando em quando trechos do Estylo Romanico de soffrivel valor, escondidos no mesmo edificio por entre outros ogivaes e da renascença. Assim, um dos nossos primeiros monumentos, o Convento de Christo em Thomar, offerece construcções differentes. A subida importancia que outr'ora teve este Mosteiro, sem duvida o mais rico do paiz, a extrema e curiosa diversidade de estylos, que elle manifesta, aconselha-nos mais detida descripção, embora exceda em parte os quadros d'este livro.

 

Planta da Parte Monumental do Convento de Christo em Thomar

1 Terreiro e escadorio. 6 Sacristia. 2 Adro. 7 Portaria. 3 Charola, egreja primitiva. 8 Côro e corpo da egreja. 4 Antiga porta da egreja primitiva. 9 Claustro de João III—Filippes.

5 Claustro do D. Henrique ou Cemiterio. 10 Refeitorio.

11 Claustro de Santa Barbara.

Na anterior planta estão descriptos os elementos do grande edificio, que nós suppomos deverem ser considerados verdadeiramente monumentaes; o que não quer dizer que n'outros pontos, já na parte pertencente ao Estado, já n'aquella que infelizmente foi vendida, não existam trechos de verdadadeiro valor artistico e historico, dignos de cuidadosa defeza e conservação.

 

CONVENTO DE THOMAR—Fachada da Egreja

CONVENTO DE THOMAR—Fachada da Egreja

 

A egreja actual é formada por dois corpos, construidos em seculos differentes. O circular, que parece hoje constituir a charola da egreja, foi o templo primitivo. Pertence ao Estylo Romanico, talvez terciario, visto que a ogiva, embora pouco accentuada, se desenha sob as camadas de estuque, que revestem os oito arcos do recinto octogonal, cuja abobada forma uma especie de zimborio sobre o altar.

Primitivamente, este recinto tinha o aspecto de torre central, elevando-se a respectiva abobada bastante acima da abobada anelar da nave envolvente. A antiga porta de entrada, virada ao nascente, foi transformada em janela, quando á egreja romanica se annexou o corpo rectangular. N'esta fórma do primitivo templo sente-se a indiscutivel influencia de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem.

Nos começos do seculo XV foi construido ao norte da primitiva egreja o Claustro de D. Henrique ou do Cemiterio, que, embora muito simples e pequeno, é de assás puro e elegante Estylo Ogival; talvez do terceiro periodo, se attendermos aos caracteres dos capiteis das columnas, unicos elementos que poderão servir para rigorosa classificação architectonica d'este claustro.

Nos fins do mesmo seculo XV e principios do XVI elevou-se a construcção do actual corpo da egreja, que abre para o primitivo templo circular, transformado em capella-mór, por grande arco, rasgado na respectiva parede. A nova entrada, olhando o sul, é formada por um magnifico e elegante portal. Assim, antes da construcção do Claustro de D. João III, vulgarmente chamado dos Filippes, toda a fachada sul da egreja, comprehendendo este portal e duas grandes janelas de volta inteira, bem como a fachada Occidental, ficavam livres e visiveis.

O côro, outr'ora guarnecido de excedente obra de talha, occupa quasi metade do corpo da egreja e firma-se sobre a abobada da casa do capitulo. Por esta fórma, a fachada occidental, ladeada por dois formosos e originaes botareos, offerece entre elles na parte superior uma rosacea, abrindo no côro, e na inferior, illuminando a casa do capitulo, uma magnifica janela com rica ornamentação de algas, embora na realidade um pouco pesada. Toda esta parte do edificio é do Estylo da Renascença do primeiro periodo, entre nós chamado manuelino, manifestando-se na fachada occidental grande influencia do oriente, principalmente na decoração dos botareos e da janela das algas.

Pouco depois do meiado do seculo XVI foi construido e encostado á fachada sul da egreja, da qual mascara grande parte, o Claustro de D. João III, erradamente denominado dos Filippes. Este claustro, que faz recordar os magnificos pateos dos palacios florentinos, é de excellente Estylo da Renascença italiana. Emquanto a nós, se não constitue o unico exemplar nacional d'este estylo, deve pelo menos ser considerado o mais puro e completo. Para o claustro, ou mais rigorosamente para este pateo, abria outr'ora a porta do refeitorio, que da parte monumental é elemento integrante e indispensavel, como o indica a planta.

Esta bella e ampla sala abobadada pertence tambem ao Estylo da Renascença; hoje, porém, encontra-se separada do monumento, havendo sido murada a respectiva porta. Embora seja propriedade do Estado, anda ha longos annos arrendada ao proprietario de parte do Mosteiro e da respectiva cêrca, servindo-lhe de celleiro! Todos os esforços empregados até agora para acabar com este arrendamento, ainda os mais recentes feitos pelo Conselho dos

Monumentos Nacionaes, têem sido infructiferos [4]!

Do Claustro do Cemiterio passa-se para a sacristia, peça de secundario valor architectonico, construida nos fins do seculo XVI em Estylo da Renascença, frio e pesado, que faz lembrar muito a singular physionomia da renascença do Escurial.

Esta succinta descripção demonstra a importancia architectonica do Mosteiro de Thomar, bello exemplar onde se casam os mais perfeitos estylos com ornamentações ricas e caracteristicas. Devemos, porém, observar que, no rigor da palavra, a parte não monumental do grande edificio monastico envolve tambem elementos e trechos de bastante valor artistico. Assim, no Claustro da Micha, não comprehendido na planta junta, existem tres grandes salas, onde a tradição affirma que se reuniram as Côrtes de Thomar. Se é possivel duvidar d'esta tradição, embora o estylo das salas seja da epoca, não padece duvida alguma que todas, principalmente a da Nobreza, são bellas e dignas de conservação, ou talvez melhor de salvamento, porque o tempo e o vandalismo acabarão por

destruil-as sem remedio [5].

Além d'isso, o Mosteiro manifesta riquissima construcção quer em materiaes, quer em trabalho; assim, por exemplo, os corredores para onde abrem as cellas, na realidade multiplas, vastas e sobrepostas galerias cortando-se em angulo recto, são cobertos por tectos de volta inteira e apainelados de excellente carvalho do norte. De espaços em espaços, encontram-se n'estas galerias bellos trechos e baixos-relevos da pura arte da renascença.

A conservação em que tudo isto se encontra, exceptuando os edificios monumentaes descriptos, menos descurados hoje, é quasi deploravel na parte pertencente ao Estado; porque a outra parte do Mosteiro, talvez a maior, encravada nas pertenças nacionaes sem ordem e sem nexo, bem como a bella cêrca e outras valiosas

propriedades conventuaes, foram vendidas por somma irrisoria [6].

Entre todos os mosteiros nacionaes, exceptuando o de Mafra e o de Alcobaça, suppomos que o de Thomar é o maior e o segundo na ordem da riqueza artistica e historica. Uma administração nacional sensata e illustrada teria conservado completo e mobilado este bello monumento, como typo da vida e dos costumes monasticos. Seria, por assim dizer, um exemplar unico no mundo. Hoje, alienada parte do edificio, vendidos a desbarate ou roubados os moveis e os livros, esta restauração seria quasi impossivel; mas, no que nos resta ao menos, o edificio deveria ser conservado como excellente exemplo de uma feição caracteristica e importante das organisações sociaes

dos seculos passados [7].

Grande parte das egrejas no norte do paiz, foram primitivamente do Estylo Romanico do primeiro ou do segundo periodo, mas são de construcção acanhada e pobre, offerecendo cobertura de madeira. No sul ainda a escassez de monumentos é maior. Em todo o Algarve, depara-se-nos apenas a Sé de Faro e a de Silves, que merecem alguma attenção. Julgamos que a ultima obedece aos principios das construcções do norte: Estylo Romanico do terceiro periodo—transição—naves cobertas de madeira, côro abobadado, mas tudo em lastimoso estado de conservação artistica.

A Egreja Matriz de Caminha parece-nos constituir um bello exemplo d'este typo de egrejas do norte. Sem duvida, a primeira construcção foi romanica do segundo periodo. Soffreu, depois, grandes restaurações no tempo da renascença manuelina. A fachada, composta de tres corpos distinctos desenhando as naves internas, é d'este definido estylo.

No interior, muito interessante, existem tres naves. A cobertura é de carvalho e de castanho, com vigas descobertas. Arcos de volta inteira sobre columnas delgadas dividem as naves. As paredes lateraes d'estas naves não tinham primitivamente capellas; as que hoje existem são dos seculos XVI e XVII. A egreja acha-se revestida até á altura dos capiteis das naves por azulejos ordinarios, datados de 1690. D'ahi para cima as paredes estão caiadas. O templo primitivo não tinha côro sobre a porta principal, o que existe na actualidade é de construcção moderna.

A capella-mór, tambem manuelina, é coberta por uma bonita abobada. No exterior d'esta capella-mór corre um bello friso de corda e por baixo d'elle outro, simulando uma cadeia de ferro. É o primeiro que vimos n'este genero. Na fachada lateral da egreja ha uma bonita porta da renascença. A construcção é toda de granito. Em geral, os ornatos estão muito apagados, porque o granito empregado tem o grão muito grosso e esborôa-se, exposto á acção do tempo. Fazemos esta ligeira descripção para darmos idéa de um typo assás vulgar das nossas egrejas secundarias do norte e do seu estado actual.

Parece-nos dever concluir, do que temos visto, que as construcções religiosas em Portugal foram bastante activas nos seculos XI e XII, isto é, no periodo romanico. O periodo ogival não manifesta a mesma actividade. Na Sé de Lisboa, como nas de Evora e de Braga e n'outros pontos, o ogival apparece certamente; mas, em geral, parece-nos que foi trazido pelas restaurações dos edificios e pela construcção de capellas annexas.

Assim, na Sé de Lisboa, como vimos, a charola é ogival, guarnecida de capellas, resultando da restauração da antiga charola do romanico secundario, estylo a que pertence a egreja. O claustro é tambem ogival e deve datar da restauração da charola. Á esquerda, logo a principio da nave lateral da egreja, foi construida nos meiados do seculo XIV uma elegantissima capella ogival, por testamento de Bartholomeu Joannes. Esta capella é talvez, apesar das suas pequenas dimensões, um dos mais ricos exemplares do ogival francez do segundo periodo, existente em Portugal. As suas disposições fazem lembrar—até certo ponto e com a devida modestia—as da Sainte Chapelle de Paris. Está hoje em adeantada restauração; devendo constituir, em breve, a unica construcção completa do Estylo Ogival em Lisboa.

A Egreja do Carmo, como o attestam as respectivas ruinas, foi um edificio ogival do segundo periodo, de certa grandeza e de bastante valor architectonico, muito embora diminuido por evidentes restaurações, sobre tudo na capella-mór e nas capellas lateraes das naves, que a primitiva egreja não devia ter. Esta construcção, começada alguns annos depois da do Mosteiro da Batalha, seguiu-lhe o plano, pelo menos nas disposições geraes; sem, comtudo, ter podido nunca manifestar a elegancia e a pureza de estylo do seu bello modelo. É para lamentar que o terremoto de 1755 inutilisasse o unico edificio ogival importante de Lisboa. Hoje, não seria rasoavel restaural-o completamente; mas dever-se-ia tentar, com proveito para a arte nacional e para a decoração da cidade, a restauração das ruinas,—se nos consentem a expressão—o que não seria obra difficil nem dispendiosa.

Da Egreja de Alcobaça já falámos anteriormente, classificando-a de preferencia no Estylo Romanico de transição. Julgamos, pois, opportuno apresentar agora as rasões de ordem architectonica, em que fundamos esta classificação, que póde ser talvez impugnada.

Este edificio religioso, um dos maiores se não o maior que entre nós existe, é attribuido tambem a D. Affonso Henriques; sendo, portanto, coévo da Sé de Lisboa; seria, porém, completamente edificado no seculo XII, ou apenas restaurado e engrandecido n'esse seculo um templo primitivo existente?

Confessamos não possuir elementos sufficientes para dar fundada resposta a esta pergunta, embora nos inclinemos para a segunda hypothese. Esta investigação, que aliás teria importancia para o estudo perfeito do monumento, é dispensavel no caso presente, em que apenas procuramos classifical-o e firmar a nossa opinião em affirmações claras e positivas.

Em seguida, apresentamos a planta da parte monumental do Mosteiro de Alcobaça, famoso pela grandeza do edificio, pelas ricas propriedades conventuaes e pelas tradições de opulencia gastronomica dos frades beneditinos, que o habitaram.

Planta de Parte Monumental do Convento de Alcobaça

 

1 Egreja. 5 Sacristia. 2 Sala dos Reis. 6 Capella do Santissimo. 3 Sala dos tumulos. 7 Claustro de D. Diniz. 4 Vestibulo. 8 Sala do Capitulo

 

A parte monumental é relativamente pequena em relação á enorme superficie do Mosteiro; todavia, a egreja deve em comprimento considerar-se a maior do paiz.

A fachada foi, evidentemente, restaurada, ou melhor, reconstruida já no periodo da renascença, talvez a partir dos meiados do seculo XVII, aproveitando-se pelo menos parte do antigo portal. Esta fachada manifesta-se fria e pesada, pertencendo ao estylo, assás espalhado entre nós, que de bom grado chamariamos jesuitico; porque nos parece traduzir a ferrea disciplina, o caracter forte e combatente, o methodo implacavel e severo d'essa machina de guerra religiosa, chamada Companhia de Jesus, que, durante seculos, dominou a sociedade portugueza, organisando-a á sua imagem e similhança nas instituições, na philosophia, na sciencia, na religião e até nas manifestações estheticas.

É preciso, em verdade, confessar que a fachada da Egreja de Alcobaça, apesar das qualidades indicadas, offerece elevado cunho de severidade e um grande aspecto solemne, que até certo ponto se nos impõe, resgatando os defeitos do respectivo estylo. É como a disciplina e o espirito jesuiticos, aos quaes, por mais antipathicos que se manifestem á nossa intelligencia e ao nosso sentimento, não podemos deixar de reconhecer grandeza e de tributar um odiento respeito.

CONVENTO DE ALCOBAÇA—Fachada da Egreja CONVENTO DE ALCOBAÇA—Fachada da Egreja

A egreja no interior não exprime, tambem, o sentimento religioso, que se apodera da alma em edificios ogivaes d'esta natureza, principalmente na bella Egreja do Mosteiro da Batalha. Este facto provém talvez mais de condições secundarias do que das disposições geraes architectonicas. É possivel que a impressão fosse profundamente modificada, se a egreja tivesse um dia completa e perfeita restauração e os vitraes polychromicos produzissem a suave e poetica luz, que hoje falta por completo ao grande templo. Em todo o caso, a egreja não deixa de causar uma sensação profunda de majestosa e solemne severidade, exactamente aquella que produzem os edificios romanicos e, sem duvida, provém da synthese caracteristica dos elementos fundamentaes do estylo.

 

A egreja tem tres elevadas naves, cujas respectivas abobadas se elevam a egual altura. As lateraes são muito estreitas e como excepção, que julgamos assás rara, inflectem-se em angulo recto, acompanhando os braços do transepto. A capella-mór, relativamente pequena, é envolvida pela charola, onde foram abertas capellas. Suppomos que estas capellas devem ter sido construidas no periodo ogival; estão, porém, tão cobertas de obra de talha dourada, que não é facil fazer seguras affirmações sobre este ponto.

As columnas romanicas da capella-mór, bem caracterisadas, segundo pensamos, do periodo secundario, são visiveis da charola; pela frente, estão mascaradas por intercolumnios classicos semicirculares, de construcção relativamente moderna, muito elegantes: o inferior da Ordem Jonica e superior da Composita. N'este ponto reside, sem duvida, uma das difficuldades e um dos problemas de qualquer futura restauração.

O Claustro de D. Diniz—damos-lhe a designação vulgar—fica encostado á parede norte da egreja, commum a ambas as construcções. É um bello e grande claustro, o terceiro na ordem architectonica dos que existem no paiz, considerando o primeiro o do Mosteiro da Batalha pela unidade e delicioso estylo e o segundo o do Mosteiro dos Jeronymos. Primitivamente este claustro apenas teve, como o da Batalha, porticos inferiores, segundo todas as probabilidades cobertos por terraços; nos fins do seculo XV ou no XVI foram construidos os porticos superiores, cuja cobertura é de madeira e telhados amouriscados.

A Sala do Capitulo abre no portico oriental inferior do claustro. É uma bella peça architectonica; sobretudo, a grande porta, ladeada de quatro janelas, duas de cada banda, constitue um dos melhores exemplares romanicos, existentes no paiz. Ninguem acreditará, por certo, que esta porta e estas janelas, tão puras e caracteristicas, se acham muradas, ficando separada da parte monumental a respectiva sala, que outr'ora serviu de picadeiro ao regimento de cavallaria aquartelado no velho Mosteiro e hoje está occupada pelo gymnasio militar!

Os restantes edificios, exceptuando a chamada Sala dos Reis, são construcções posteriores, annexas ou encostadas ao antigo monumento. Por pouco se recommendam, embora sejam elementos integrantes e indispensaveis da parte monumental.

A Sala dos Reis deve ser coéva da egreja e do claustro, quer seja primitivo o seu estado actual, quer resulte de posteriores reconstrucções. Não tem valor architectonico. A sua designação provém de umas estatuas (?!) de gêsso com olhos pintados, que sobre misulas de pedra ornam as paredes do recinto. Uma só phrase define estas grotescas personagens: ridiculas e

vergonhosas. Seria uma obra de misericordia artistica e de amor patrio tirar d'ali aquelles mônos, que attestam a esthetica dos gordos frades de Alcobaça e nos envergonham perante nacionaes e estrangeiros, hoje começando a affluir em visita ao monumento.

A Sala dos Tumulos, abrindo no ramo sul do transepto, é de construcção posterior á da egreja. Edificio vulgar, contém, apenas, alguns sarcophagos de valor, principalmente o de D. Pedro I e o de D. Ignez de Castro, magnificos exemplares do Estylo Ogival, embora um pouco damnificados pelas profanações, que em geral soffreram as nossas ricas sepulturas no tempo dos francezes. É a defeza habitual da incuria e falta de respeito pelas tradições e pelos mortos.

Tambem, muito posteriormente á construcção da egreja, uma das capellas envolventes da charola foi rasgada para ligar o templo com a sacristia actual. Esta sacristia, de Estylo da Renascença, é muito pobre e quasi glacial. Parece-nos posterior á restauração da fachada. No extremo da sacristia vê-se um Relicario circular, todo forrado de talha dourada e de bustos de madeira, em geral assás feios e mal feitos, que encerravam as reliquias. Apesar dos defeitos e do pessimo estylo, se esta palavra se póde applicar ao caso, este Relicario deveria ser restaurado, como exemplar dos costumes religiosos do tempo.

Em frente da sacristia encontra-se uma capella, actualmente do Santissimo, sem valor architectonico absolutamente algum. Todavia, no vestibulo, que serve esta capella e á sacristia, as duas respectivas portas são de excedente Estylo da Renascença manuelina.

Eis a succinta descripção da planta da parte monumental do Mosteiro de Alcobaça. No resto do edificio nada encontramos que mereça attenção a não ser a Sala da Bibliotheca, do Estylo da Renascença, vastissimo salão com estuques modernos a caír em pedaços e ameaçando proxima e perigosa ruina. Nos vãos das respectivas janelas existem ainda vestigios da antiga ornamentação, onde se nota a influencia dos frescos e pinturas muraes de Pompeia, tão usadas depois da descoberta, no meiado do seculo XVIII, e das excavações d'esta antiga cidade romana, situada nas margens do Golpho de Napoles.

Não mencionaremos a pantagruelica cozinha dos gastronomos frades de Alcobaça, que, segundo parece, a todas as artes preferiam, a julgar pelo sanctuario, a arte culinaria e as famosas tremendas, pequenas refeições de um arratel de toucinho assado!

A que estylo pertencem a egreja e o claustro, ao Romanico de transição ou ao Ogival primario?

É claro que em face d'estes edificios vamos collocar-nos como os classificadores zoologicos ou botanicos em frente de novos exemplares. Além d'isso, não temos a pretensão de resolver o problema; desejamos, apenas, enuncial-o claramente, o que em mathematica se considera meia resolução.

Comecemos pela egreja, fazendo notar não só a impressão particular, que ella produz, mas tambem a circumstancia de que tanto este edificio, como o claustro e a casa do capitulo se encontram tão ligados, tendo paredes communs, que no respectivo conjunto a construcção deve ter sido pelo menos quasi simultanea.

Enumeremos, pois, os principaes caracteres romanicos bem definidos d'estas construcções.

A egreja offerece os seguintes:

1.º Os pilares das arcadas, que dividem as naves, são rectangulares, massiços e muito fortes, embora assás elevados. Os cinco primeiros de cada lado, a contar do transepto, têem columnas nichadas nos quatro angulos. Nas faces exteriores d'estes pilares, as columnas, que sustentam os arcos da nave central perpendiculares ao respectivo eixo, são chanfradas em certa altura, não chegando ao pavimento. Nos oito pilares seguintes, tambem de cada lado, desapparecem as columnas nichadas e as das faces exteriores assentam sobre fortes misulas. Todas estas columnas, que revestem de grandes em grandes espaços os pilares rectangulares, embora sejam muito elevadas, manifestam relativamente grande grossura.

Estamos, pois, bem longe dos pilares polistylos ogivaes. Assim, se a um architecto dessem isoladamente a secção d'estes pilares e parte da sua elevação, cremos que não duvidaria em classifical-os romanicos.

2.º Em algumas bases das columnas da egreja apparecem garras, cuja fórma nos parece accentuadamente romanica.

3.º As portas da Sala dos Reis, a da entrada para o claustro e a do refeitorio, no portico norte d'este claustro, manifestamente primitivas, são caracterisadamente romanicas.

4.º Os arcos primitivos da capella-mór são de puro Estylo Romanico.

5.º As janelas da capella-mór, as orientaes do transepto e as lateraes das naves, excepto a ultima de cada lado proximas do transepto, são de volta inteira.

D'esta exposição suppomos dever concluir a supremacia do arco continuo nos elementos fundamentaes da egreja. A ogiva apparece, sem duvida, mas nem ao menos é dominante. Assim, na abobada da nave central apresenta-se pouco accentuada e se o é nas lateraes, póde o facto attribuir-se á condição da egual altura dos fechos das abobadas nas tres naves, que obrigou o constructor a dar maior ponto aos arcos, pronunciando a ogiva.

É verdade que o portal da fachada principal é ogival; mas nada prova que esse portal seja o primitivo. Além d'isso, os respectivos capiteis, de folhagens e galões com muito pequeno relevo, são mais romanicos do que ogivaes.

Passemos agora ao claustro:

1.º A porta e as janelas da Sala do Capitulo são absolutamente romanicas.

2.º Os porticos inferiores são formados de dois ou tres arcos geminados de ogiva bem definida, com pequenas rosaceas sobre os angulos curvilineos; mas o grande arco envolvente é sempre de volta inteira.

3.º O pavilhão da fonte tem janelas nas quaes a ogiva mal se desenha.

Se a tudo isto juntarmos que o coroamento do edificio, na parte primitiva, é formado de ameias, repousando sobre forte e simples cachorrame, teremos dado a summula dos argumentos architectonicos, em que nos fundamos para a classificação do monumento.

Outros mais entendidos do que nós que os apreciem, porque na realidade não temos em geral grande amor ás nossas idéas e em todas as occasiões da nossa vida, sem sacrificio de vaidade, temos procurado apenas a verdade.

Este bello Mosteiro de Alcobaça teve sorte egual ao de Thomar. Não o venderam, é certo; mas transformaram-n'o em caserna e abandonaram-n'o á pilhagem. Verdade seja que hoje lá vamos com diminuta somma restaurando lentamente o magnifico claustro.

Afóra isto, nada mais existe no paiz do Estylo Ogival, pelo menos que o conheçamos, a não ser em pequenos edificios e em trechos encravados em egrejas romanicas; eis o que nos parece incontestavel. Assim, na realidade, o unico monumento puro, completo e relativamente grande, que Portugal possue do Estylo Ogival, é o Mosteiro da Batalha; por isso mais detidamente o vamos estudar e descrever.

Da Renascença não é tão accentuada a nossa pobreza. Durante os seculos XVI, XVII e XVIII reparou-se e construiu-se bastante entre nós. As construcções são em geral acanhadas, é certo; ás vezes, de um estylo de pessimo gosto, como o de quasi todas as egrejas d'esse estylo frio, deselegante, disciplinado e monotono, que, segundo dissemos, parece ter nascido da influencia do espirito jesuitico, dominante n'esses seculos. Mas edificios existem, como o Mosteiro dos Jeronymos em Belem, o Palacio da Ajuda, o Convento de Mafra, o Convento da Madre de Deus e a Egreja da Estrella em Lisboa, o Convento de Santa Joanna em Aveiro e ainda alguns outros, que possuem qualidades estheticas e architectonicas dignas de admiração e louvor.