A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 27 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Parte Quarta

Capitulo 3.º Acção reciproca dos dois estylos christãos primitivos 81

 

PARTE TERCEIRA

 

Os estylos christãos definitivos

 

X seculo ao XV seculo

 

Capitulo 1.º Synthese social dos seculos XI e XII 101

Capitulo 2.º Espirito e caracteres do Estylo-Romanico 119

Capitulo 3.º A Sé Patriarchal de Lisboa e a sua restauração 141

Capitulo 4.º Synthese social do seculo XIII 167

Capitulo 5.º Espirito e caracteres do Estylo Ogival 181

Capitulo 6.º O Estylo Ogival entre nós 201

 

PARTE QUARTA

 

O Mosteiro de Santa Maria da Victoria

 

Capitulo 1.º Origens e construcção do mosteiro 223

Capitulo 2.º O estylo architectonico do mosteiro 233

Capitulo 3.º As epochas da construcção do mosteiro 249

Capitulo 4.º Descripção do mosteiro 259

Capitulo 5.º Relação dos architectos e dos mestres 281

 

Collocação das photo-gravuras 289

 

Notas:

 

[1] O seguinte curioso facto demonstra a lenta formação dos estylos architectonicos. Em 1870, quando a cidade de Lyão esteve ameaçada pelos exercitos allemães, o Arcebispo Genouilhae fez a promessa de reedificar a pequena capella de Nossa Senhora de Fourvière, existente n'uma montanha que domina a grandiosa cidade, se ella fosse poupada pela guerra. O milagre deu-se e o voto cumpriu-se; sendo elevada uma sumptuosa egreja n'esse ponto, onde por signal se disfructa um dos mais bellos e extensos panoramas do mundo.

Os architectos Bossan e depois Perrin, amhos de incontestavel valor, sonharam a formação de um novo estylo, em que o genio da arte classica se alliasse ao mysticismo dos estylos christãos n'uma unidade comprehensivel pelo espirito moderno. Aos constructores não faltava talento e sciencia para a tentativa, nem lhes escassearam recursos, porque na egreja, aliás não muito grande, se dispenderam, segundo informações recebidas que não julgamos exageradas, mais de 9:000 contos. Pois a tentativa falhou por completo!

É extraordinario o effeito singular, até desagradavel, que produziu no nosso espirito aquella formidavel mistura de elementos heterogeneos, constituindo, sem a menor duvida, um montão de fabulosas riquezas e de preciosos e admiraveis pormenores architectonicos!

Se nos fosse permittida a expressão, diriamos que julgámos assistir a uma mascarada de estylos, porque, havendo quasi todos, uns tomam as feições dos outros, conservando algumas das respectivas linhas e qualidades fundamentaes. Ha de tudo, até o boi Apis ornamentando uma porta interior em Estylo Egypcio!

Todavia, considerados isoladamente, quasi todos os elementos são admiraveis de concepção e de execução. O caso é analysal-os separados uns dos outros. Na fachada, por exemplo, tres lindissimos arcos de fórma ogival repousam sobre elevadas columnas de linha classica, onde todas as proporções e modulos foram desprezados. Por cima d'esta arcada rasga-se uma galeria de caryatides classicas; mas... as estatuas são oito anjos em posições mysticas, perfeitamente eguaes e com solemnidade byzantina. O edificio é coroado por frontão tambem de contorno classico, cujo tympano é preenchido por altos relevos de caracter byzantino. Esta fachada é ladeada por duas torres, que têem ares de romanicas, não sendo afinal cousa alguma!

No interior reina egual confusão de estylos, e, para de tudo haver, grandes superficies das paredes são revestidas por pannos tecidos ornamentaes.

Eis ao que se chegou pretendendo crear um estylo!

Descendo a montanha, a curta distancia, encontra-se a bella Cathedral de S. João, um primor ogival como é regra em quasi todas as magnificas egrejas de Lyão. E todavia o Estylo Ogival fez-se com elementos de variados e successivos estylos!

A differença está em que a acção dos seculos em lenta evolução combinou os elementos d'esses estylos, adoçou-lhes as antinomias e esbateu-lhe as linhas rudes dos caracteres; emfim, penetrou-os intimamente n'um producto harmonico, como a fusão liga metaes differentes n'uma constituição physica, onde todos contribuem para um composto homogeneo. Assim, no seio de uma mulher se produz um novo ser, que se parece com os antecessores, mantendo a propria originalidade.

Os novos estylos precisam de incubação no seio dos seculos.

Este exemplo da Egreja de Fourvière deve ser citado e apreciado na Philosophia e na Historia da Arte.

[2] Durante os trabalhos de restauração da porta lateral foram descobertas umas galerias subterraneas, evidentemente anteriores á construcção do edificio, porque estão cortadas pelos alicerces d'elle. Estas galerias têem cêrca de 1 m m ,5 de altura por 0,80 de largura, sendo revestidas de silharia e abobadadas em arco circular com pedras regulares. As que percorremos parece virem do lado do Castello de S. Jorge, atravessam a Rua do Limoeiro seguindo por baixo dos edificios annexos á fachada lateral-norte, até ao liminar da porta lateral da egreja. Ahi a galeria bifurca-se, lançando em curva um ramo para dentro da egreja e outro seguindo ao longo da parede do edificio, onde se encosta a Capella de Bartholomeu Joannes. O primeiro ramo está cortado pelo carneiro, onde jazem os restos do Cardeal Patriarcha de Lisboa D. Rodrigo da Cunha, o segundo pelos alicerces da capella ou da torre; mas ambos continuam manifestamente para alem d'estes pontos.

Será facil encontrar esta galeria fazendo no solo do edificio annexo, que fica á esquerda do vestibulo da porta lateral, um corte parallelo á face interna da parede occidental; a pequena altura encontrar-se-á a galeria, se um dia houver curiosidade de o fazer.

Segundo pensamos, esta galeria, que nunca foi cano de esgoto ou aqueducto, é de construcção romana e póde ser um caminho secreto, que ligava o velho castello romano com qualquer outro ponto da cidade, junto ás margens do Tejo.

Parece-nos muito provavel que os tão falados subterraneos da Sé de Lisboa se reduzam a esta galeria, que manifestamente percorre o subsolo da egreja e porventura se ramifica no interior d'ella.

 

[3] As principaes dimensões da egreja são as seguintes:

metros

Comprimento da porta ao fim da capella-mór 59,20

Comprimento do transepto 35,00

Largura total das tres naves 21,90

{ Altura 18,70

Nave central {

{ Largura 9,60

{ Altura 9,20

Nave lateral (duas eguaes) {

{ Largura 6,25

{ Altura 18,70

Transepto {

{ Largura 7,80

{ Comprimento 17,80

Capella-mór { Altura 15,65

{ Largura 11,40

Os comprimentos e as larguras referem-se ás superficies interiores das paredes e aos eixos dos pilares; as alturas aos fechos das abobadas.

[4] Este famoso arrendamento, feito pelo Ministerio das Obras Publicas, produz 10$000 réis annuaes ao Thesouro!

[5] O convento tem servido de moradia a algumas familias, cujos fogões de cozinha foram alimentados por taboas arrancadas dos tectos e naturalmente pelas portas inuteis. É provavel que o uso continue com os effeitos previstos.

[6] É versão geral por 40$000 réis.

 

[7] A Suissa em outros tempos foi tambem victima da pilhagem de objectos nacionaes, artisticos e historicos; pois hoje não só a administração publica os defende, como os repatria, comprando-os quando é possivel. As gerações actuaes emendam a ignorancia e os erros das gerações passadas.

[8] Observaremos n'este ponto que julgamos muito provavel o esquecimento de alguns monumentos dignos de menção. Não os conhecemos todos, e dos que conhecemos, muitos vimol-os sem detido estudo. Assim, haja desculpa para lacunas e erros, excepto n'aquelles de que damos maia larga informação.

Temos percorrido, apenas, uma parte do paiz; ora, um trabalho completo e seguro d'esta natureza nem seria este o livro para o fazer, nem o poderiamos tentar com algumas probabilidades de exito sem percorrer todo o paiz, estudando a distribuição dos seus monumentos e o valor architectonico de cada um. A nossa vida, sempre um pouco trabalhosa, não nos permittiu em tempo proprio a realisação d'este desejo, se além d'isso não existissem outras difficuldades obvias.

[9] Varnhagen attribue esta janela a João de Castilho e affirma ter visto a data de 1533 gravada em qualquer pedra. O illustre engenheiro condemna-lhe a esthetica com certa violencia, no que não tem rasão alguma. Esta loggia, como muito bem lhe chama Murphy, é um bello trecho da renascença italiana, ornamentada com espheras armillares e a cruz de Christo; embora, talvez, um pouco em desharmonia com a porta descripta, que lhe fica inferior. Foi esta discordancia que feriu em excesso o talentoso e mallogrado redactor do antigo Panorama.

[10] Todos estes cortes são reproducções reduzidas dos do livro de Murphy sobre a Batalha, publicado em Londres em 1795. Estão sensivelmente exactos e apesar da sua antiguidade são os unicos que até hoje se fizeram do nosso primeiro monumento ogival!

[11] Principaes dimensões da Egreja da Batalha:

Metros

{ Comprimento total com a capella-mór 81,18

Corpo da egreja { Largura das tres naves 21,97

{ Altura 27,73

{ Comprimento 36,12

Transepto { Largura 9,48

{ Altura 27,73

{ Comprimento 15,11

Capella-mór { Largura 8,10

{ Altura 26,90

{ Comprimento 56,59

Nave Central { Largura 9,48

{ Altura 27,73

{ Comprimento 56,59

Naves Lateraes { Largura 6,24

Duas eguaes { Altura 19,40

{ Comprimento 11,95

Absides lateraes { Largura 5,63

Quatro eguaes { Altura 12,80

Todas as medições se referem á face interior das paredes e aos eixos das arcadas.

[12] A gravura d'esta fachada é reproducção da que apresenta Murphy no citado livro, mas devidamente emendada, porque o original inglez tem erros importantes. A da porta lateral é egualmente de Murphy. Adoptamol-as, porque para a descripção offerecem mais nitidez de que as photographias, visto que as fachadas do monumento não foram tambem ainda rigorosamente desenhadas. As restantes gravuras são reducções de algumas da obra sobre a Batalha, do Sr. Visconde de Condeixa.

[13] Citaremos um facto curioso. Os artistas da Exposição Universal de 1900, pretendendo fugir a estas leis fundamentaes, representaram a cidade de París por uma estatua vestida no estylo moderno. O bom senso popular deu-lhe o nome: fizeram uma cocotte.

[14] Este corucheo, que indubitavelmente faria parte do projecto primitivo, para nós, pelos vestigios que encontramos nos traços da capella, não padece duvida haver existido.

Além d'isso, Murphy desenhou-o e com tal minuciosidade, que o restaurador actual terá apenas o trabalho do córte e assentamento das pedras, não sendo importante a despeza.