A Arquitetura Religiosa na Idade Média
Capitulo Terceiro
LEGENDA
1 . 2 . 3 . 4 . 5 . 6 . 7 . 8 .
CONVENTO DA BATALHA—P .
9 . 10 . 11 .
12 . .
13 . 14 .
CONVENTO DA BATALHA—Planta geral.
CAPITULO TERCEIRO
AS EPOCHAS DA CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO
Como dissemos em anterior capitulo, os edificios, constituindo o antigo Convento da Ordem de S. Domingos, na Batalha, foram construidos em epochas differentes. Depois da extincção das ordens religiosas, esteve o Mosteiro completamente abandonado durante longos annos, caindo em ruinas parte d'elle e soffrendo graves prejuizos a parte monumental, exposta á acção do tempo e ás grosseiras depredações, praticadas pela ignorancia popular.
Mais tarde, quando começaram com algum methodo e continuidade as obras de conservação e restauração dos edificios, uns foram arrasados como inuteis, porque formavam as arruinadas pertenças do convento, e outros para desaffrontar a parte monumental do Mosteiro. A planta geral, que apresentamos, traduz o estado actual e definitivo d'estes edificios.
Em tres epochas muito proximas, quasi successivas, foram elles construidos. Na planta procurámos distinguir estas epochas, dando tons diversos ás construcções respectivas existentes. Assim, temos:
1.ª Epocha. Envolve, bem nitidamente definidos pelas intimas ligações, a capella sepulcral do fundador, a egreja, a sacristia, o claustro principal, a casa do capitulo, a portaria, a adega, a cozinha e o refeitorio.
2.ª Epocha. Comprehende actualmente o claustro de D. Affonso V e alguns dos antigos annexos.
3.ª Epocha. Abrange, apenas, as chamadas capellas imperfeitas, que mais rigorosamente se deveriam denominar incompletas, porque o nome lhes vem de estarem ainda em grande parte por acabar, e o respectivo vestibulo.
Da historia dos edificios da primeira epocha já nos occupámos nos anteriores capitulos, por serem do monumento os que pertencem ao Estylo Ogival. Não será, todavia, longa e escusada digressão, determo-nos um pouco na apreciação dos edificios das outras epochas.
Os edificios da segunda epocha eram assás vulgares; apenas o claustro chamado de D. Affonso V, cujo reinado durou de 1438 a 1481, offerece algum valor architectonico. É do Estylo Ogival, muito espaçoso e simples, não manifestando ornamentação alguma, nem até nos proprios capiteis das columnas prismaticas dos porticos. Apesar d'isso, as suas linhas geraes são agradaveis, embora tenha de luctar com a proximidade do bello claustro monumental. Sem duvida, foi construido para servir de centro ás pertenças do convento, que principalmente para elle abriam.
O Cardeal D. Francisco de S. Luiz admitte que a construcção d'este claustro se deve attribuir aos mestres Martin Vasques e Fernão de Evora. O primeiro d'estes mestres, segundo o mesmo auctor, dirigiu as obras de 1438 a 1448. Como este claustro era o centro das pertenças conventuaes, a respectiva construcção deve ter acompanhado de perto a dos edificios da primeira epocha.
Os edificios da terceira epocha reduzem-se ás capellas imperfeitas e ao respectivo vestibulo, que são peças de elevado valor architectonico, onde a primeira physionomia do Estylo da Renascença se desenha com excessiva nitidez e se accentua, á medida que a ornamentação se manifesta nas partes superiores do edificio, parecendo marcar-lhe varios e successivos periodos de construcção.
Julgamos indiscutivel que este conjunto é obra do reinado de D. Manuel, que durou de 1495 a 1521. Assim, logo no interior do vestibulo, por baixo das lindas janelas que o illuminam, uma ao norte outra ao sul, vê-se em logar superior o caracteristico E, letra do nome d'este rei, Emmanuel, cercada de uns lavores, que por signal têem dado tratos á imaginação dos archeologos pacientes, e por baixo as seguintes legendas em caracteres romanos: perfectum fuit anno domini 1509. Ora, é mais do que natural que as paredes do vestibulo crescessem simultanea e parallelamente com a elevação das paredes das capellas.
O Cardeal D. Francisco de S. Luiz, que estudou o monumento, infere, não sabemos com que criterio, que esta data corresponde á suspensão das obras. Julgamos infundado este asserto. Não é natural nem logico suppor que a suspensão se désse n'esse anno, quando D. Manuel no seu testamento, feito em 1517, recommenda com a maior instancia ao seu successor que as mande acabar.
N'este documento, com effeito, lêem-se textualmente os seguintes periodos: «item, rogo muito e encomendo que se mandem acabar as Capellas da Batalha naquella maneira que milhor parecer, que seja conforme á outra obra e asy lhe dem entrada para a Igreja do Mosteiro da milhor maneira que parecer, e mandem mudar para ellas, sendo primeiro de todo acabadas, e asy seus Altares, e todas as outras cousas necessarias: El-Rei Duarte, que foy o primeiro principiador dellas, e assy El-Rey D. Affonso meu thio, e El-Rey D. João, que Deus aja, e o Principe D. Affonso, meu sobrinho».
As phrases terminantes d'esta parte do testamento parece indicarem D. Duarte como iniciador das obras, quer este principe tivesse apenas o pensamento de construir um pantheon de familia, que D. Manuel depois adoptou, quer lhe lançasse os fundamentos, sobre os quaes depois, e muito mais tarde, começaram a crescer os edificios. Em nossa opinião só a tanto se poderia ter alargado a iniciativa de D. Duarte, não só porque o reinado d'este principe, de 1433 a 1438, foi curtissimo; mas ainda porque em principios do seculo XV seria impossivel em qualquer parte, principalmente em Portugal, o emprego do estylo d'estas capellas.
N'este tempo reinava o Estylo Ogival no seu estado de pureza, e a evolução da arte não manifestára ainda os primeiros symptomas da renascença. Além d'isso, a carta, anteriormente citada, de D. Duarte a Fernão Rodrigues, védor das obras do Mosteiro da Batalha, corrobora esta presumpção. O principe não teria deixado de referir-se ás obras das capellas, sendo natural ter maior interesse pelas da sua propria iniciativa. A construcção devia, pois, estar parada e ter ainda pequena importancia no principio do reinado de D. Manuel, se na realidade passou de simples plano.
Todas estas presumpções são fortalecidas por outras rasões, que seguidamente vamos adduzir, muito embora não pretendamos alongar esta exposição e fazer detida descripção d'esta parte do Mosteiro.
A grande porta das capellas imperfeitas é uma das melhores, das mais ricas e bellas, se não a melhor que temos visto até hoje, fóra e dentro do paiz. Deve ser considerada incontestavelmente um primor de elegancia, de ornamentação e de execução; mas um architecto ogival não a poderia ter creado, por maior genio e sciencia que possuisse. A potente concepção do artista, fosse elle quem fosse, já estava fortemente aquecida pela renascença e enthusiasmada pelas glorias das viagens portuguezas ao Oriente. Sente-se, vê-se isto n'aquellas pedras, quasi cinzeladas.
Sem a pretensão de descrever, o que é indescriptivel sem o auxilio de planos e desenhos minuciosos, diremos, apenas, que na face voltada para o vestibulo, a de ornamentação mais sobria e pura, as molduras da porta estão, de cima até abaixo, absolutamente cobertas de pequenos anneis encadeados, em cujos espaços circulares se lêem caracteristicas legendas. No alto da porta, em dois grandes anneis similhantes, que a fraca claridade do vestibulo mal deixa perceber, lêem-se em caracteres gothicos as palavras gregas: pante taray. Nos anneis mais pequenos repete-se sempre outra legenda, tambem em grego: tanyas erey.
Sem falarmos nos erros orthographicos, que provêem de se empregar muitas vezes n'esse tempo o y por i, estas legendas completam-se na symbolica e imperativa phrase: depressa por toda a parte descobre regiões. É o grito da alma portugueza dos seculos XV e XVI que o architecto deixou gravado na pedra do formoso monumento!
Na face voltada para o recinto das capellas, o estylo parece mudar de physionomia. Os rendilhados assumem proporções phantasticas. A pedra parece trabalhada por joalheiros. A nossa memoria occorrem essas filigranas delicadissimas, que a India e a China nos enviam, abertas em sandalo e marfim!
Se é licito, deante de tal primor, lembrar defeitos, talvez seja esta ornamentação, levada ao ultimo excesso de finura e riqueza, aquelle que impressiona o nosso espirito, principalmente quando passamos abruptamente do grande estylo, simples, puro e ideal dos edificios da primeira epocha para os das capellas imperfeitas. Que nos perdoe o poderoso e genial creador d'esta maravilha architectonica!
Ora, se é possivel duvidar de que as paredes do vestibulo crescessem simultaneamente com as do recinto das capellas imperfeitas, duvida que aliás para nós não existe, seria um absurdo insustentavel fazer egual supposição ácerca da porta monumental, que dá entrada unica para este recinto.
Devia ter um genio prophetico o architecto ogival, que em começos do seculo XV, durante o reinado de D. Duarte, projectasse esta porta monumental de accentuada renascença, com indiscutiveis influencias orientaes na ornamentação e nas legendas, excepcionalmente escriptas em lingua grega!
No interior do recinto das capellas a physionomia do estylo muda sensivelmente. Até á altura das janelas em começo, a influencia ogival ainda é profunda; embacia-se mais, depois, accentuando-se os caracteres da renascença. Por cima da magnifica porta, que acabamos de indicar, uma bella janela accusa já fortemente a renascença italiana, que aliás se manifesta na ornamentação geral d'esta parte superior do edificio. Aos espiritos um pouco versados na historia e nos caracteres dos estylos occorre que algum tempo deve ter separado estas duas construcções sobrepostas, realisadas
por architectos differentes [9].
De facto, parece que depois da interrupção da construcção das capellas imperfeitas, ainda no tempo de D. Manuel, as obras tiveram andamento. Assim, D. Sebastião, para continuação dos trabalhos, mandou dar em 1574, pela Casa da India, 400$000 réis annuaes, impostos sobre o contrato da pimenta. Já n'este tempo tinhamos addicionaes! Segundo consta, este imposto pouco ou nada produziu; mas isto não prova que o mesmo rei não concedesse outros fundos para esta construcção, que lhe mereceu as attenções. Depois, em 1591, Filippe I—o celebre demonio do meio dia— mandou fazer o orçamento, como se diria hoje, para terminação das capellas imperfeitas; mas o dinheiro nunca chegou de Hespanha, onde mal dava para a grandiosa obra da construcção do Mosteiro de S. Lourenço, no Escurial.
Seja como for, a parte superior das capellas imperfeitas pela feição especial do seu estylo parece-nos de construcção posterior á outra parte, devendo datar dos meiados do seculo XVI.
Apesar do seu incontestavel valor architectonico, a elevação d'este edificio, na situação onde se encontra, foi um grave e irremediavel erro, que se tornaria monstruoso se a construcção tivesse sido finalisada e posto em directa communicação o pantheon dynastico com a egreja primitiva, como D. Manuel indicava no seu testamento. Por esta fórma, as absides do templo ogival ficariam quasi sem luz e as communicações directas só podiam ser rasgadas, ou na abside central, a capella-mór, ou nas duas absidiolas lateraes adjacentes, estragando completamente a bella egreja ogival.
Ainda no estado actual as capellas imperfeitas prejudicam muito a luz das janelas inferiores das cinco absides do templo, principalmente das tres comprehendidas no vestibulo, tirando-lhes os bellos effeitos dos vitraes, atravessados pelos primeiros raios do sol nascente, tão procurados pelos architectos da edade media.
Pensar em demolir as capellas imperfeitas, dado o seu grande valor historico e architectonico, constituiria um crime de lesa-arte; mas o que poderia fazer-se com vantagem para ambos os monumentos, um ganhando luz para as respectivas absides, outro para a soberba porta acima descripta, seria demolir a abobada do vestibulo, deixando-lhe apenas as paredes lateraes, onde existem, como dissemos, duas bellas janelas, que devem ser respeitadas.