A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 18 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Segundo

A exposição das opiniões de ordem technica e a comparação dos documentos historicos, que acabamos de fazer, auctorisam e fundamentam a hypothese de que todos os edificios da primeira epocha foram construidos e terminados, pelo menos nos seus elementos principaes, de 1387 a 1433, isto é, no periodo de quarenta e seis annos.

Contra esta hypothese podem apenas suscitar-se duvidas de caracter muito secundario e facilmente explicaveis, por exemplo: a cruz de Christo e a esphera armillar, emblemas manuelinos, existentes nos tecidos rendilhados dos tympanos de alguns arcos do claustro principal. É evidente que estes elementos podem ter sido feitos posteriormente, porque não eram indispensaveis para os usos do Mosteiro; alem d'isso, é muito possivel que provenham de restaurações, visto que a pedra empregada nos edificios é branda em excesso e, nas peças finas e rendilhadas principalmente, mostra-se muito sensivel á acção corrosiva do tempo.

 

CAPITULO SEGUNDO

 

O ESTYLO ARCHITECTONICO DO MOSTEIRO

 

Quando tratámos dos Estylos Romanico e Ogival, expozemos as rasões pelas quaes os nomes dos architectos d'esses periodos eram pouco conhecidos. Tambem o do Mosteiro da Batalha segue esta regra quasi geral; todavia, é assumpto muito interessante esta investigação, que, ao mesmo tempo, nos esclarecerá, sobre varios pontos historicos e technicos do nosso primeiro monumento ogival. Ouçamos os documentos; depois virão as deducções geraes e os argumentos de ordem technica. Veremos se é possivel lançar alguma luz n'estas densas trevas.

«D. João I chamou de longes terras, escreve frei Luiz de Sousa, os mais celebres architectos que se sabiam, convocou de todos os pontos officiaes de cantaria destros e sabios; convidou uns com honras, a outros com grandes partidos, obrigou a outros com tudo junto. Á voz da grandeza da obra acudiu de todo o mundo numero infinito de peonagem a servir e trabalhar e ganhar jornaes—que este bem têem as grandes obras, manter muitos pobres».—E n'outro ponto faz notar que os religiosos não eram chamados a dar voto, nem traça, nem ordem nas obras, «unicamente dirigidas por officiaes reaes».

Estas affirmações na bocca de um escriptor grave, eminentemente nacional, que devia ter ao seu alcance os archivos e conhecer as tradições oraes monasticas do Mosteiro da Batalha, offerecem decisiva auctoridade. Frei Luiz de Sousa viveu por largos annos no convento; attesta-o a magnifica descripção que d'elle fez na sua grande obra, escripta no principio do seculo XVII, isto é, cerca de duzentos annos apenas depois da construção do Mosteiro. Se os archivos do convento já não existiam, havia a tradição oral, admissivel em tão curto espaço de tempo, principalmente n'uma associação monastica. Frei Luiz de Sousa não cita o nome do architecto; mas escreve expressamente que foram chamados de longes terras os mais celebres architectos; ora, n'este caso, a expressão designa nações estrangeiras. Esta interpretação não póde soffrer duvida, porque o mesmo auctor mais abaixo explica que o pessoal acudiu de todo o mundo. A declaração é expressa.

Por outro lado, José Soares da Silva, nas Memorias de D. João I, affirma que n'outra memoria do dominicano Antonio de Madureira se dizia ter sido o primeiro architecto do Mosteiro da Batalha um irlandez chamado David Aquete, que então vivia em Vianna do Castello. Debalde procurámos encontrar esta ultima memoria, ou determinar a data em que existiu este frade dominicano, o que poderia constituir valioso subsidio para a resolução do problema; todavia, parece-nos dever concluir d'estas citações que, entre os frades dominicanos, passava por averiguado ter sido estrangeiro o primeiro architecto da Batalha.

O patriotismo dos nossos escriptores antigos, por vezes exagerado, não teria por certo deixado escapar a occasião de enaltecer o nome nacional com a gloria da creação de monumento, que em todos os tempos foi profunda e geralmente admirado.

Esta furia patriotica offerece um eloquente exemplo. Murphy, fundando-se na asserção de Soares da Silva, anteriormente citada, traduziu Aquete—fórma portugueza—pelo nome inglez, que sonicamente lhe corresponde, escrevendo Hakett, appellido irlandez por signal. D. Francisco de S. Luiz critica este procedimento do architecto inglez, que aliás teve tambem outros motivos technicos importantes para acceitar a origem ingleza do creador do plano do Mosteiro, e declara-o exagerado. E como se não bastasse este triste argumento, accrescenta, com incrivel arrojo, que n'esse tempo da construcção do Mosteiro eramos a nação mais adeantada em architectura e nas outras artes, exceptuando apenas a Italia!

Ora, n'este ponto, o Cardeal, aliás erudito e grave, demonstrou pequenos conhecimentos, porque não só no ogival a Italia nunca teve a primazia, mas n'essa epoca já a França, a Allemanha, a Inglaterra e os Paizes Baixos estavam cobertos de monumentos dos mais puros estylos, não falando nas outras artes.

Em contraposição a estes indicios, cujo valor é incontestavel, temos a opinião de frei Manuel dos Santos, que diz chamar-se o mestre da obra Affonso Domingues, natural de Lisboa, morador na freguezia da Magdalena, homem digno de eterna memoria pela capacissima idéa, com que delineou a fabrica. Devemos observar que este chronista do seculo XVIII, pela sua posição official, não nos deve infundir grande confiança em questões patrioticas. Além d'isso, estudou tão mal a questão que, linhas abaixo, escreve haver-se executado a construcção do Mosteiro de 1385 a 1388, o que era em absoluto impossivel no curto espaço de tres annos, confundindo assim a data da doação do convento, feita por D. João I, com a do fim dos trabalhos.

D. Francisco de S. Luiz, como é logico, acceita esta versão e dá-lhe certa plausibilidade. O futuro Cardeal Patriarcha de Lisboa estivera por muito tempo no Mosteiro da Batalha, onde estudou o monumento e consultou os archivos, existentes no principio do seculo passado, colhendo preciosas informações sobre os seus successivos architectos, pintores e vidraceiros, nomes que hoje estariam perdidos, se não fossem o zêlo e a curiosidade do illustre prelado. Ora, entre os documentos do archivo, este escriptor viu um de 1402, que se referia a Affonso Domingues e já o dava por fallecido n'esta data. Como os trabalhos haviam começado em 1387, segundo a nossa opinião, este architecto, se o foi, podia bem ter sido o primeiro, ou um dos primeiros do Mosteiro da Batalha; não se devendo concluir d'aqui, comtudo, que fosse o unico, ou o auctor do plano primitivo, que bem poderia ter vindo de longes terras. Em todo o caso a observação tem valor.

Affonso Domingues seria architecto? Eis a duvida. Um grande architecto não se forma isoladamente. No gabinete estuda-se a arte, que se pratica depois. A imaginação, a sciencia da construcção, a firmeza do estylo, emfim, as grandes qualidades de um architecto, se dependem do proprio genio, desenvolvem-se pela pratica e, sobretudo, pela influencia do meio.

O que existia em Lisboa n'esse tempo tendo verdadeiro valor architectonico, a não ser do Estylo Romanico e d'esse bem pobre e pouco? O que estava em construcção, onde se aquecesse e formasse o seu genio?

Porque produzir no gabinete e realisal-o depois, sem a experiencia e a influencia de grandes obras existentes ou em construcção, plano como o do Mosteiro da Batalha, seria um rasgo genial, quasi superior ao de Pascal, que, sendo novo, pelo unico esforço do proprio genio deduziu os trinta e seis primeiros theoremas de Euclides. Mas entre a mathematica e a architectura, as differenças são profundas: na primeira, as verdades absolutas existem e concatenam-se no raciocinio; na segunda, a intelligencia não póde supprir os factos numerosos, que constituem a arte e a sciencia do constructor.

É verdade que no seu tempo, em meiados do seculo XIV, acabára a construcção em Lisboa de uma pequena capella do Estylo Ogival, n'este momento em via de restauração, encostada á velha Sé; mas o exemplar, simples e modesto, é do ogival francez do segundo periodo, como o attestam os seus caracteres architectonicos e a assignatura do seu auctor n'uma pilastra principal, conforme era de uso ás vezes, segundo já dissemos: uma flor de lyz bem definida, que, se occulta o nome, define a nacionalidade.

Finalmente, para citarmos uma opinião inesperada e singular, o auctor da collecção de memorias relativas aos pintores, esculptores, architectos e gravadores estrangeiros, que estiveram em Portugal, cita o nome de Benjamin Comte. Esta citação não envolve valor algum, porque estas memorias, impressas em 1827, manifestam grosseiras inadvertencias. O nome parece francez; todavia, cumpre notar que depois da conquista dos normandos foram introduzidos em Inglaterra muitos nomes de origem franceza. Esta supposição podia tomar vulto, se o segundo mestre, ou architecto do Mosteiro da Batalha, que apparece no documento citado de 1402, como testemunha e já era fallecido em 1450, Mestre Ouguet, Huet, ou Huguet, não fosse, como é provavel, a fórma sonica portuguesa do nome bem inglez Hewett.

D. Francisco de S. Luiz, para reforçar a hypothese de que Affonso Domingues foi o architecto do Mosteiro, diz que bem póde ser este mestre Ouguet o Aquete, nomeado por Soares da Silva segundo a memoria do dominicano Antonio de Madureira.

Bem avaliados os documentos e as citações apresentadas, o nosso espirito fica perplexo. Sem duvida, Affonso Domingues existiu e teve importante ingerencia nas obras do Mosteiro da Batalha; mas isto não significa que, se dirigiu as obras, fosse d'elle o plano primitivo do Mosteiro. Em primeiro logar, poderia apenas tel-o executado; depois—parece-nos esta observação importante—a situação de Affonso Domingues tambem podia ser a de simples fiscal da obra, contractada com uma corporação franco-maçonica, que a teria projectado e realisado, como tudo nos leva a crer e explicaremos mais adeante.

Esta ultima asserção nossa é corroborada pela carta de El-Rei D. Duarte, anteriormente citada e escripta de Setubal a Fernão Rodrigues, védor das obras, do Mosteiro da Batalha, em 1436. N'este anno, vivia ainda o architecto Hewett, que se suppõe ter sido o segundo mestre das respectivas obras, porque D. Duarte lhe fez doação em 1436 de umas casas, que elle Hewett habitava junto das obras; ora, este principe morreu em 1438, reinando apenas cinco annos. N'este periodo de tres annos de 1433 a 1436, ou pelo menos em parte d'elle, o architecto inglez teve, como védor ou fiscal, Fernão Rodrigues, delegado regio.

Se este devia ser logicamente o systema, como o é na actualidade nas grandes empreitadas do Estado, nada repugna ao espirito que o mesmo facto se desse em epocha anterior com o architecto David Hacket e o védor Affonso Domingues. Assim, ficaria explicado o apparecimento do nome do segundo no documento de 1402, que infelizmente, ainda visto por D. Francisco de S. Luiz, já hoje não existe.

Esta investigação é assás difficil e uma conclusão, mais ou menos segura, carece de ser fundada em argumentos e provas de outras ordens, que em seguida procuraremos adduzir. Por emquanto, a nosso ver, a mais provavel supposição reduz-se a estas proposições: que o plano do Mosteiro da Batalha é de origem estrangeira, ingleza provavelmente, e que o primeiro architecto, que delineou e começou a realisar este plano, não era nacional, mas tambem, segundo as maiores probabilidades, de nação ingleza.

Se os argumentos de ordem historica nos levam a estas conclusões, vejamos agora onde nos conduzem outros argumentos e outras inducções de natureza architectonica.

As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do meio particular das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomaram feições proprias em cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos talvez mais nitidamente, as physionomias do ogival allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes entendedores da arte as distinguem com facilidade. A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em identicos periodos; por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo, não offerecendo quasi o periodo de decadencia. Eis o que escrevemos a proposito do Estylo Ogival e agora por applicavel repetimos.

No fim do seculo XIV, quando começou a construcção do Mosteiro da Batalha, manifestava-se já certa decadencia na arte ogival do continente, emquanto a ingleza era, ainda, pura e florescente. É certo que, pelas suas condições geographicas e particulares, Portugal recebia o influxo das artes um pouco em atrazo; devemos, pois, entrar em linha de conta com este facto.

O estylo architectonico do Mosteiro da Batalha é de um ogival purissimo, de perfeita unidade e harmonia nas linhas geraes, elegantissimo, sobrio na ornamentação aliás fina e distincta; em summa, traduz os melhores caracteres da arte na mais florescente edade. Esta impressão resalta do conjunto do monumento e do estudo das suas differentes partes.

Faremos notar, por exemplo, a extraordinaria e formosa visão architectonica, permitta-se-nos a phrase, que, mais talvez do que em nenhum outro ponto, o monumento produz, visto do canto do claustro principal, no terrado junto ao pequeno pavilhão da fonte. Jámais outros grandes monumentos, dos que vimos, nos provocaram tão profunda sensação e sempre repetida; a não ser, talvez, a grande charola da Cathedral de Milão.

A construcção do Mosteiro da Batalha começou, pois, quando no continente o Estylo Ogival resvalava para a decadencia; pelo mesmo tempo, erguiam-se em Sevilha e Milão duas enormes cathedraes de estylo bem menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica do Mosteiro da Batalha com a da arte ingleza parece-nos assás caracteristica; outras rasões ha, porém, que ainda mais apertam estas relações.

Em assumpto tão delicado procuremos a opinião de um mestre inglez, bem conhecido historiador da arte. «Nós não encontramos, tambem, em Inglaterra, diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas e encimados de grande rosaceas, que se vêem nas Cathedraes de Strasburgo, Reims, París, Chartres, Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar idéa d'isto pela rosacea, relativamente insignificante, da egreja de Exester. Por toda a parte— em Inglaterra—o portal e a rosacea são substituidos por uma porta e uma janela sem proporção alguma entre si, a porta sendo muito pequena e a janela muito grande.»

Não multiplicamos as citações para evitar longa exposição e porque esta nos parece caracteristica.

Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro, porque a egreja está orientada, como era costume, voltando a capella-mór para o oriente, encontraremos realisada a regra do historiador inglez, principalmente na ultima. Outras similhanças se manifestam nos caracteres do coroamento e da ornamentação, que seria prolixo descrever. Além d'isso, em todo o edificio predominam as grandes janelas com maior ou menor numero de maineis; só duas insignificantes rosaceas existem na casa do capitulo e essas talvez não sejam primitivas.

Uma observação fizemos logo n'uma das nossas primeiras visitas ao Mosteiro da Batalha, guiado, de certo, pelas presumpções e pelos factos historicos, a que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos que a feição, a physionomia artistica do Mosteiro offerecia grandes analogias com a da Cathedral de York, apesar das profundas differenças nas respectivas linhas geraes.

Assim, foi com alguma surpreza e contentamento que se nos deparou, depois, a seguinte opinião de Raczynski, cuja obra sobre as Artes em Portugal é bem conhecida: «logo que eu conheci, diz este sabio, a soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy, achei-lhe tal analogia com a Cathedral de York, que não me restou duvida sobre a origem commum d'estes edificios».

Ora, deve notar-se que este grande critico da arte não podia ter presumpções fundadas, nem perfeito conhecimento dos factos historicos portuguezes, que o levassem, como a nós, a ser bem guiado ou enganado por elles. O testemunho é, pois, valioso e insuspeito.

É tambem verdade que Murphy, o architecto inglez de quem já falámos e a quem Raczynski se refere, no seu livro Viagens em Portugal, diz que Falkenstein bibliothecario em Dresde, lhe escreveu: «ser fóra de duvida que a maior parte das cathedraes ogivaes eram obra da inspiração de architectos, ou pedreiros livres —franco-maçons. Havendo, tambem, acrescenta Murphy, recebido informações de empregados dos archivos de Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto inglez, chamado Stephen Stephenson, o constructor do Mosteiro da Batalha.

«Foi a Rainha D. Filippa, continúa Murphy, filha do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III, de Inglaterra, quem deve ter tido maior acção na escolha do architecto. É fóra de duvida que Stephen Stephenson fazia parte dos free and accepted masons, cujo centro em Inglaterra era York—grand-loge of free masons at York.» Esta observação valiosissima podia ter guiado Raczynski; mas não seria sufficiente para lhe formar a opinião das parecenças, visto que lhe faltavam outros elementos.

A affirmação de Murphy póde ser contestada; d'ella se conclue, porém, embora implicitamente, que o architecto inglez encontrára os caracteres do Estylo Ogival da sua nação no Mosteiro da Batalha, aliás não acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.

Por todas estas rasões, parece-nos demonstrado que o estylo do Mosteiro é do ogival inglez. Vejamos ainda se os factos historicos e as respectivas datas, bem como outros argumentos, corroboram esta conclusão.

Em primeiro logar, a construcção da Cathedral de York, levada a effeito pelos franco-maçons da loja-mestra d'aquella cidade, começou cêrca do anno de 1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves, transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras do mosteiro da Batalha, havendo sido iniciadas em 1387, permittem as datas não só a influencia directa da Cathedral de York sobre o monumento portuguez, mas explicam até esta influencia pela possibilidade de ter sido feito o plano respectivo por architectos inglezes da loja-mestra dos franco-maçons d'aquella cidade, chamados depois a Portugal por D. João I para o executarem.

Um facto muito secundario na apparencia parece-nos avigorar esta presumpção. Alguns nomes portuguezes dos elementos architectonicos ogivaes são perfeitas adulterações das palavras correspondentes inglezas, por exemplo: o maynel, ou pinazio das janelas, traduzido por mainel, o butress transformado em botareos, a gargoil em gargula. Estes termos, pelo menos, são de origem ingleza.

Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios inglezes, que primeiro trabalharam no caminho de ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre outros termos especiaes, os rails, carris, traduzidos pelo portuguez popular em ralhes e as sleepers, travessas, transformadas em chulipas. A analogia tem aqui grande importancia e demonstra, a nosso ver, que na primitiva construcção do Mosteiro da Batalha trabalharam operarios inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos a suppor que deviam ser de York, pertencentes á grande corporação franco-maçonica, que levantou a grande cathedral d'esta cidade.

Os factos da historia do tempo mais corroboram ainda esta fundada presumpção. É impossivel fazer n'este ponto um quadro completo d'essa phase historica nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os e comparando-os, alguns factos culminantes, que mais directamente interessam o presente assumpto.

As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação dip As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação diplomatica permanente, Portugal tinha n'aquella nação dois embaixadores, cujos nomes a historia conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque e Lourenço Annes Fogaça.

Eduardo III, o pae do celebre Principe Negro, acabava de crear condados para dois dos seus filhos, dando-lhes soberania quasi independente: o de Leicester, para João de Gaunt, e o de York, para Eduardo de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo approximava-se do fim a construcção da grande cathedral, que passa por ser a melhor da Inglaterra e uma das melhores do mundo.

Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que em começos de 1386 chegaram a Portugal emissarios de João de Gaunt, duque de Leicester, annunciando a sua chegada e pedindo navios. De facto, o duque desembarcou na Corunha, em 25 de junho do mesmo anno. Em novembro seguinte, n'uma conferencia realisada no Porto, ficou ajustado o casamento de D. João I com D. Filippa de Lencaster, filha do duque inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se no Porto o casamento.

A fórma, pela qual os factos se precipitam em tempos, em que as communicações eram difficeis, demonstra as relações intimas e constantes das duas côrtes. É, pois, natural que D. João I, informado pelo duque de Leicester das magnificencias da Cathedral de York, cuja fama corria já por toda a Inglaterra, lhe pedisse esses celebres architectos e officiaes de cantaria de longes terras, de que fala Frei Luiz de Sousa.

Esta presumpção é logica e humana. Seria absolutamente impossivel suppor que D. João I não falasse ao duque, seu futuro genro e auxiliar na guerra, na batalha de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como impossivel é, tambem, que a tal respeito o interlocutor não se referisse á Cathedral de York. É muito provavel, portanto, haverem sido encommendados os planos para Inglaterra, ou pedidos os architectos para os fazer em Portugal, dirigindo depois a respectiva construcção. A proxima vinda para Portugal de Filippa de Lencaster facilitava esta resolução.

De certo, estes raciocinios só por si poderiam representar simples coincidencias de datas; mas ponderados e cotejados com os restantes, já desenvolvidos, assumem um caracter de plausibilidade de incontestavel valor.

Ora, não existe duvida alguma em que architectos e operarios da loja-mestra franco-maçonica de York foram os constructores da grande cathedral; portanto, é rigorosamente logico e muito natural que a essa corporação se fossem buscar os elementos para a construcção do Mosteiro da Batalha. A prova da cathedral ingleza, quando outra não houvesse, daria nome e fama universal aos seus habeis constructores.

É, além d'isso, muito provavel que as associações franco-maconicas fossem empreiteiras, como existem sociedades modernas. Em qualquer tempo, a eguaes necessidades sociaes correspondem instituições similhantes, ou pelo menos equivalentes. Se assim não aconteceu, manifesta-se ainda provavel que estas associações franco-maçonicas, creadas tambem para defeza dos respectivos operarios de todas as ordens, se garantissem por meio de contratos de trabalho. Qualquer d'estes factos, ambos naturaes e logicos, explica a existencia do védor, ou fiscal das obras, Fernão Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte. Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese: Affonso Domingues poderia muito bem ter sido o primeiro védor real das obras do Mosteiro da Batalha.

De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados, resulta, segundo pensamos, a plena convicção de que o Mosteiro da Batalha, sendo do Estylo Ogival inglez, foi planeado e construido por architectos e operarios inglezes, que faziam parte da associação franco-maçonica da grande-loja de York.