A Arquitetura Religiosa na Idade Média
Capitulo Quarto
Eis em rapidos traços a summaria enumeração das construcções da terceira epocha. Se excede os quadros d'este livro, exige-a a descripção do Mosteiro, que não ficaria completa, se a este trabalho por inopportuno nos houvessemos poupado.
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja MOSTEIRO DA BATALHA—Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja
CAPITULO QUARTO
DESCRIPÇÃO GERAL DOS EDIFICIOS DA PRIMEIRA EPOCHA
—Estylo Ogival—
Por ordem logica, deveriamos, talvez, começar pela descripção exterior das fachadas do Mosteiro, porque estes elementos se apresentam primeiro á nossa observação; todavia, alteramos esta ordem, visto ser impossivel bem avaliar e estudar uma construcção, sem previamente haver formado clara idéa das disposições geraes da respectiva planta.
I
Plano geral dos edificios ogivaes
Egreja. Está orientada, como era costume, na direcção leste-oeste, correspondendo a porta da fachada principal ao poente e abrindo as bellas janelas das cinco absides sobre o oriente, d'onde o templo devia receber a primeira luz radiante da madrugada, atravez dos vitraes polychromicos. A absurda escolha do local para a construcção das capellas imperfeitas inutilisa, em grande parte e sem remedio, este effeito poetico, procurado em quasi todas as cathedraes romanicas e ogivaes.
A egreja tem tres naves, apenas; a do centro, mais larga e elevada do que as outras, termina pela abside principal, tambem de maior altura e comprimento do que as quatro absidiolas, duas de cada lado, correspondendo as confinantes com a nave central ás naves lateraes, e as extremas vencendo o excesso de comprimento do transepto sobre a largura das tres naves. Dada esta disposição, não existe charola. Assim, a nave central, prolongada pela respectiva abside e cortada pelo transepto, desenha uma elegante cruz latina. No extremo sul do transepto abre-se outra porta para a egreja; esta porta, e a da fachada principal, são as unicas que de fóra a servem. Em poucas palavras eis a descripção da elegantissima planta do templo.
A egreja é pequena, já o dissemos; mas tão pura de estylo que a pequenez não lhe sacrifica a majestade. Para formar idea das suas dimensões, apresentamol-as comparadas com as das Cathedraes de Milão e de Sevilha, colossos de cinco grandes naves do Estylo Ogival.
Milão Sevilha Batalha
m m m
Comprimento da porta ao fim da abside 148 140 81,18 Largura de todas as naves 57 77 21,97 Comprimento do transepto 87 77 36,12 Largura do transepto 19 16 9,48 Nave central { Altura 46 40 27,73
{ Largura 19 16 9,48
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte transversal da Egreja segundo o eixo do
transepte
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte transversal da Egreja segundo o eixo do
transepte
N'estas dimensões devemos observar a relação da largura para a altura das naves centraes. Na Egreja da Batalha esta relação é representada por 1:2,9, emquanto na Cathedral de Milão attinge apenas 1:2,4 e 1:2,50 na de Sevilha. Differenças similhantes se devem dar nas naves lateraes; por isso, a expressão de elegancia do edificio portuguez é bem superior ás dos monumentos italiano e hespanhol.
As naves lateraes são illuminadas por sete janelas, das quaes duas na do sul mais pequenas, porque ficam em parte inutilisadas pela capella do fundador. São elegantissimas e correspondem aos vãos interiores das arcadas da egreja. A nave principal recebe, tambem, luz de cada lado, por sete janelas do clerestory, verdadeiras reducções das anteriores, abrindo sobre os terraços das naves lateraes, entre os arcobotantes que amparam o corpo mais elevado do centro.
Estas disposições serão facilmente comprehensiveis estudando e comparando as pequenas gravuras correspondentes ao corte longitudinal, segundo o eixo da egreja, ao transversal, segundo o
eixo do transepto e finalmente ao do claustro principal [10].
Por cima da porta principal, uma grande janela maior do que o vão d'esta porta, fechada por finissimos rendilhados de pedra, derrama luz suave e multicolor ao longo da nave central. O transepto recebe luz de quatro janelas, rasgadas sobre as absidiolas e ainda de outra sobre a porta do extremo sul do mesmo transepto; janela enorme, de dimensões bem superiores ás da porta, com tympano de quadrifolios sustentado por dois maineis, entre os quaes existe um tecido de pedra aberto em lozangos. Em geral, na ornamentação dos tympanos das janelas predominam os quadrifolios. Insistimos na descripção para darmos idéa da feição caracteristica do ogival
inglez, que se manifesta por toda a parte na Egreja da Batalha [11].
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte do Claustro principal MOSTEIRO DA BATALHA—Córte do Claustro principal
Capella do fundador. Seguindo a planta, ao entrar na egreja á direita, depara-se-nos esta capella de fórma quadrada, tendo 20 m,1 de lado, juxtaposta á nave do sul, de que inutilisa parte de duas janelas. O conjunto d'este pequeno edificio é de um encanto grandioso, apesar das dimensões. O recinto é illuminado profusamente por tres janelas em cada uma das paredes livres, a do centro magnifica, com sete maineis sustentando um grande tympano, as lateraes de tres maineis. Arcocelios de puro estylo, encostados ao lado sul da capella, cobrem os sarcophagos dos infantes filhos de D. João I e de D. Filippa, cujos restos foram tambem recolhidos n'outro grande e bello sarcophago, isolado no meio da capella entre os arcos de um elevado zimborio, ou torre.
Levanta-se esta construcção sobre oito arcos, formando um octogono de 5 m de lado. Estas arcadas sobem e sobre ellas e as paredes lateraes assentam as abobadas da parte rectangular da capella; depois, as respectivas paredes crescem, formando exteriormente uma torre octogona, amparada por arcobotantes, tendo em cada uma das faces uma janela. É admiravel o effeito d'este mausoleo, quer no interior, quer no exterior, verdadeira obra prima no genero. Constitue uma creação esthetica tão feliz no exito, que, ainda visto muitas vezes, causa sempre agradavel impressão.
Sacristia. Da absidiola do norte passa-se para este recinto, tendo 11 m m ,95 por 9,47, que nada envolve importante a não ser as duas respectivas janelas conjugadas, viradas ao nascente. Para a sacristia abre a pequena casa do thesouro.
Claustro principal. Encosta-se á nave lateral do norte; mas os porticos não lhe mascaram as janelas, que abrem sobre os terraços d'este claustro. Os porticos são, pois, baixos e não affrontam o corpo da egreja; pelo contrario, completam-n'o, dando-lhe o realce de varios planos. Este magnifico claustro, tendo 55 m,3 de lado, é formado de grandes arcos, encastrados entre fortes botareos, com tympanos rendilhados repousando sobre cinco finos columnellos; produz um effeito deslumbrante. Sob um pavilhão, tendo paredes communs com o claustro, no angulo sudoeste, existe o lavabo, ou a fonte, a que indubitavelmente se refere a carta citada de D. Duarte. N'este ponto gosa-se de um dos mais bellos golpes de vista, que offerece o Mosteiro.
Casa do capitulo. No portico oriental do claustro depara-se com a entrada d'este edificio, uma grande porta, ladeada por janelas, uma de cada lado, manifestando tudo extraordinaria belleza nas linhas geraes e na ornamentação. A sala forma um quadrado perfeito de 19 m,95 de lado. É coberta por um só vão de abobada de extrema elegancia, ricamente artezonada e com enorme bocete. Esta abobada, cuja geração é um pouco complexa, constitue uma especie de cupula, dando em projecção horisontal uma estrella de seis raios. Nos cantos da sala os artezões nascem de misulas; nas paredes, firmam-se em columnellos, que descem ao pavimento. Em verdade, é uma das abobadas mais bellas e bem lançadas que temos visto. Além d'isso, distingue-se pela admiravel perfeição do trabalho; observação que devemos em rigor applicar a todas as obras ogivaes do Mosteiro da Batalha.
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico sul do Claustro principal MOSTEIRO DA BATALHA—Portico sul do Claustro principal
Ácerca da construcção d'esta abobada, considerada muito difficil, correm varias lendas. É certo que a abobada é bastante abatida; não nos parece, porém, que a difficuldade extrema da construcção seja o caracter que mais a recommenda. Bem mais difficil julgamos ser a construcção de uma abobada unica, como a que por exemplo cobre o extenso transepto da Egreja do Mosteiro dos Jeronymos, em Belem.