A Arquitetura Religiosa na Idade Média
Capitulo Terceiro
AS INVASÕES DOS BARBAROS
O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este principio: o Espirito começou pacientemente a revolução, que deve realisar-se; os seus progressos são rapidos, sel-o-ão cada vez mais.
Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.
O periodo historico da Edade-Media resulta da acção reciproca das tres manifestações do espirito, representadas pelo paganismo, pelo christianismo e pelos barbaros. É a longa phase das suas luctas, das suas concessões mutuas, das suas combinações, verdadeira endosmose e exosmose de idéas, que termina pela constituição homogenea das sociedades modernas.
A Edade-Media começou no seculo V, definida pela primeira invasão dos barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura até á tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos, sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo, um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes são os flagellos, as guerras, as miserias, como eguaes não houve n'outra quadra historica, que n'este espaço immenso, principalmente até ao seculo X, assolaram a humanidade.
A acção reciproca do paganismo e do Christianismo já procurámos esboçal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos barbaros, elemento novo e activo, causa de poderosa transformação social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na scena da historia. De entre os tres, como é de justiça, reconheçamos a hegemonia ao Christianismo.
Já no tempo de Constantino hordas numerosas de barbaros, mais ou menos organisadas em nações, se distribuiam pelas vastas fronteiras do Imperio, desde a cordilheira do Caucaso até á embocadura do Rheno. Os hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para o norte da Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as vertentes septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais além, para o occidente, a margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e frisões, depois, até á embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio de perigos previstos e tremendos.
De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes até vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaçadas por outras hordas. A acção da diplomacia imperial completava a dos exercitos, semeando intrigas e dissensões entre as nações barbaras e os mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando, emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as forças do inimigo.
Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV, quando um movimento geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio dominou-os e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas esta primeira investida deve ser considerada o facto primordial da invasão dos barbaros.
Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e dos alanos para o occidente communicou-se a todas as nações barbaras, repercutindo-se até ao Rheno.
Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia e pozeram cêrco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagués precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por Stilicon, da raça vandala, ao serviço do Imperador Honorio. Os visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.
Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a França. Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a Italia, devasta as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma, que foi salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de Attila dissolveu a invasão dos hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.
Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações precedem a coroação do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do Oriente, pela desmembração das respectivas provincias, tornou-se emfim um facto consummado.
Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o primeiro periodo das invasões barbaras. Odoacro é vencido e morto. A restauração do Imperio do Occidente já não era possivel; mas Theodorico consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio, comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para além o Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos e os gepides, e a oeste definido pelas nações dos francos, dos borguinhões e dos visigodos.
Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christã, que na realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.
Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam ramos da mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos provinham tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigrações remotissimas. Se as linguas d'estas nações barbaras eram, pois, entre si incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e ethnicos apresentavam intimas analogias.
Mais ou menos nomadas, as nações barbaras possuiam energico espirito bellicoso. Rudes e destemidas, embora não selvagens ou crueis, essas vastas confederações nacionaes procuravam em luctas aventurosas satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente manifestaram duas instituições suas: o feudalismo e a cavallaria.
O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se converterem á heresia do arianismo. A religião manifestava entre os barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os bardos, como entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.
Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros, fieis aos seus chefes, estes barbaros, como lhes chamavam os romanos, nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por exemplo, a constituição das communas e principalmente o movimento da reforma religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da democracia christãs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo XVI.
Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos chefes, em geral escolhidos pelo valor e por altos feitos, não excluiam uma organisação social democratica, que se manifestava em reuniões periodicas de guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questões de interesse commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas ás dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as nações do norte da Europa, suas legitimas descendentes.
O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas pela federação de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia não por desprezo das artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra, na caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traços os futuros barões feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e ás mulheres, pelas quaes aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas de dons propheticos, estes barbaros traziam em si o germen, que, ao calor do Christianismo, devia produzir a consideração, singular e antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela mulher no tempo da cavallaria.
Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os barbaros eram irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam os futuros barões feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos hunos e nos alanos, povos de outra raça que foram um episodio na historia da Europa. Ora, estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas manifestações sociaes, tiveram grande influencia no organismo da Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos periodos romanico e ogival.
Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação romana, eram fascinados por ella. É um facto incontestavel na historia. A primeira demonstração deu-se na constituição do reino godo de Italia por Theodorico, um precursor de Carlos Magno e como elle um barbaro de genio. Educado na côrte imperial de Constantinopla, apreciára o immenso valor da organisação social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se bem por um só facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a justiça no seu vasto imperio, decretou que as questões suscitadas entre dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o barbaro: cada um terá o seu direito garantido e, apesar da differença dos juizes, uma só justiça reinará para todo o mundo. E, todavia, os godos eram os conquistadores e os romanos os vencidos!
Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade e do respeito pela dignidade humana, que é a sua consequencia logica. Era a manifestação esplendida do caracter fundamental da sua raça, que os barbaros traziam para a caduca civilisação romana, recebendo em troca tradições de gloria, sabias instituições e um direito escripto, que ainda hoje causa a admiração do mundo moderno. Na religião, Theodorico, um sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos seus adeptos e fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e continua a professar as suas doutrinas. Os christãos elevam templos por toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O barbaro só vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.
O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituições romanas são respeitadas, consultadas até. Os cargos civis são para os romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito gothico. Emfim, a combinação das tres manifestações do Espirito, segundo a expressão de Anaxagoras, começa a dar homogeneidade a uma nova civilisação.