A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 17 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Primeiro

D'este ponto não nos podemos occupar n'este livro, limitado pela prévia definição do assumpto; reservando para mais tarde o delicado estudo do Estylo da Renascença, se podérmos ainda tentar

e realisar este trabalho[8].

 

PARTE QUARTA

 

O MOSTEIRO DE SANTA MARIA DA VICTORIA

 

NA BATALHA

 

MOSTEIRO DA BATALHA—Vista geral

MOSTEIRO DA BATALHA—Vista geral

 

CAPITULO PRIMEIRO

 

ORIGENS E CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO

O Mosteiro da Batalha é, sem possivel contestação, o nosso primeiro monumento do Estylo Ogival, quasi poderiamos dizer o unico entre nós pela unidade e grandeza, porque os outros offerecem valor secundario. Tivemos occasião de apreciar esta asserção no capitulo precedente.

 

A verdade é, ainda, que deve ser considerado, não pelas dimensões mas pela architectura, um dos primeiros do mundo. Seria inutil, com effeito, comparal-o com as enormes Cathedraes de Milão, Sevilha, Strasburgo e Colonia. A pequena Egreja da Batalha caberia quasi nos transeptos das duas primeiras cathedraes, vastos colossos de cinco grandes naves, cujas abobadas se elevam a mais de quarenta metros nas naves centraes.

A posição primacial do Mosteiro da Batalha, entre a multidão dos monumentos ogivaes, é-lhe fixada pelas formosas condições architectonicas, pela unidade e harmonia de estylo, rarissimas nas outras cathedraes, pelo sentimento indescriptivel de poesia e de mysticismo que infunde a todos os visitantes, embora sejam versados no estudo de outros monumentos e tenham visto alguns dos principaes. Ora, devemos observar que é necessario ter um edificio singulares qualidades estheticas para resistir á falta de grandeza, que constitue, sem duvida, um requisito quasi indispensavel nas construcções monumentaes.

Assim, por exemplo, o Alhambra de Granada com o seu lindo pateo dos Leões, um primor da arte arabe, visto em gravuras causa grande impressão, que é modificada depois de visitado, por effeito da pequenez do recinto. O aspecto é encantador, de certo; mas falta-lhe a solemnidade das dimensões. Os porticos do pateo dos Leões, formados de pequenas columnas cujos capiteis mal excedem a altura elevada de um homem, offerecem mesquinho aspecto. O nosso espirito procura augmentar tudo aquillo, alargar-lhe as dimensões, dar-lhe, emfim, grandeza e com ella a solemnidade.

Já o mesmo não succede na antiga mesquita de Cordova, transformada em Cathedral. Se o edificio é baixo, como em regra o eram os do Estylo Arabe, as vastas alamedas de columnas, ligadas por dois arcos sobrepostos e cortando-se perpendicularmente em enorme superficie, dão-lhe um aspecto original e grandioso. Outro tanto não poderemos dizer da Sainte Chapelle de Paris, riquissimo exemplar do Estylo Ogival, mas tão pequeno e rendilhado que faz nascer a idéa de estarmos dentro de um riquissimo e gigantesco cofre cinzelado. Taes são as impressões, que produzem, pelo menos no nosso espirito, estes dois pequenos monumentos: o arabe e o christão.

Assim, as condições excepcionaes do Mosteiro da Batalha, quer em relação á nossa riqueza artistica, quer pela sua elevada classificação entre os monumentos do Estylo Ogival, obrigam-nos a estudal-o mais detidamente, procurando, se for possivel, fixar a seu respeito doutrinas e opiniões, que ainda nos parecem pelo menos incertas e confusas.

Origem e data da construcção.—No momento critico, em que a batalha de Aljubarrota, dada em 14 de agosto de 1385, esteve perdida para os portuguezes, D. João I e o seu grande condestavel Nuno Alvares Pereira faziam, talvez ao mesmo tempo, o voto de edificar um templo ao Deus dos Exercitos, porque só elle os podia salvar n'esse terrivel transe. A victoria dos castelhanos teria sido, com effeito, a perda irremediavel do pequeno reino de Portugal, visto que as condições politicas do tempo eram differentes das de 1640.

Os votos dos dois poderosos senhores foram entre nós origem de duas construcções ogivaes. O espirito religioso da Edade Media produziu estes resultados em muitos pontos. Foi, como dissemos, uma das causas da grande dispersão do Estylo Ogival por todo o orbe christão no periodo do feudalismo, que aliás em rigor não existiu entre nós.

O rei cumpriu o voto, edificando perto dos campos de Aljubarrota o Mosteiro de Santa Maria da Victoria, o condestavel elevando em Lisboa o templo do convento, onde em vida mystica passou os ultimos annos da sua existencia. Esta egreja, destruida pelo terramoto de 1755, é conhecida pelo nome de Ruinas do Carmo.

A data do começo dos trabalhos do Mosteiro da Batalha não é facil de fixar. Os archivos do convento, como aconteceu com os de muitos outros, foram dispersos e roubados, principalmente depois da revolução constitucional. Existem, todavia, documentos, pelos quaes se póde definir com muita probabilidade esta data e o periodo da construcção.

Na carta regia de 4 de abril de 1388, el-rei D. João I fez doação do convento á Ordem de S. Domingos. É, pois, natural que n'esta data os trabalhos estivessem começados e parte do convento, pelo menos, em estado de receber os frades. O cardeal patriarcha de Lisboa, D. Francisco de S. Luiz, auctor de uma memoria valiosa sobre o Mosteiro da Batalha, homem instruido que viveu durante alguns annos no convento e pôde ainda consultar os archivos mais ou menos completos, manifesta a opinião de que o edificio teria sido iniciado em 1387, ou quando mais cedo no anno precedente.

A necessidade de fazer projectos e de reunir mestres e operarios habeis, principalmente para obra de estylo grandioso e rico pouco cultivado entre nós, exclue, a nosso ver, o curto espaço de um anno entre o voto e o começo da construcção. Além d'isso, frei Luiz de Sousa, o chronista do Mosteiro, cuja descripção constitue um primor de estylo e linguagem do tempo, frade no proprio convento, na sua Historia da Ordem de S. Domingos escreve estas phrases: «com as armas ás costas—D. João I—revia traças, consultava architectos, buscava officiaes e, ganhando por uma parte logares rebeldes que lhe resistiam, ia por outra edificando paredes sagradas. E foi assim que já havia tres annos que a obra do Mosteiro corria, quando, estando de cerco sobre o castello de Melgaço, assentou de o dar á ordem de S. Domingos».

Esta citação demonstra a vida agitada do monarcha e o seu cuidado em buscar architectos e artifices para a realisação do voto, mas em parte está evidentemente incorrecta, porque, datando a doação do convento de 1388, não podia a respectiva construcção ter já n'essa epocha tres annos, visto que tambem tres annos antes se ferira a batalha de Aljubarrota.

Por estas rasões, corroboradas por outras que exporemos em logar competente, somos levados a fixar o começo dos trabalhos em 1387 e com grande probabilidade a suppor, em harmonia com o espirito peculiar dos votos, que foi escolhido para este acto o dia do anniversario da victoria sobre os castelhanos, 14 de agosto.

Periodo da construcção.—O conjunto do Mosteiro, como existiu outr'ora porque depois parte do convento foi arrasada para desaffrontar o monumento, deve ter sido construido em tres epochas differentes.

A primeira epocha abrange os edificios principaes, como a egreja, a capella do fundador, o claustro, a sacristia, o refeitorio e a casa do capitulo. Estes elementos, os de maior valor, constituem uma parte monumental do Mosteiro e são do melhor e mais puro Estylo Ogival, embora em pontos muito secundarios offereçam vestigios da renascença manuelina.

A segunda epocha comprehende um outro claustro, denominado de D. Affonso V e os antigos annexos do convento.

A terceira epocha envolve as capellas imperfeitas e o respectivo vestibulo.

Occupar-nos-emos, agora, só dos edificios da primeira epocha, porque os da segunda e os da terceira serão succintamente apreciados em um dos seguintes capitulos.

Uma das impressões profundas, que á simples vista produzem logo os edificios ogivaes da primeira epocha, é a sua perfeita harmonia e unidade, tão completas que no nosso espirito se radica a opinião de que o conjunto teve planos estudados e realisados por um só architecto. Esta impressão é manifestada por todos os homens versados no assumpto. Citaremos dois.

Murphy, architecto inglez, que em 1793 viajou em Portugal e visitou o Mosteiro da Batalha, onde fez estudos desenvolvidos, publicou dois livros conhecidos, um sobre as viagens, outro sobre o Mosteiro, acompanhado de magnificas gravuras. Ora, este architecto escreve ácerca dos edificios, agora considerados: «no todo vêem-se tal correcção e regularidade que apparentemente parece ter sido o resultado de bem concebido plano original e, ao mesmo tempo, é evidente que este plano foi seguido e executado em progressão regular, sem as alterações e as interrupções a que estão, em geral, sujeitas estas grandes construcções».

Um grande engenheiro portuguez, Luiz Mousinho de Albuquerque, que durante longo tempo dirigiu as primeiras obras de restauração do Mosteiro, distinguindo-se nas dos vitraes, observa, em memoria que corre impressa, terem todos os edificios da primeira epocha paredes communs e directas communicações. Esta observação indica que a construcção não podia deixar de ser simultanea e de obedecer a um plano geral definitivo, organisado sob as vistas harmonicas em concepção e estylo de um architecto, ou pelo menos de poucos animados do mesmo espirito.

Além d'isso, demonstra que os edificios deviam ter sido construidos em curto praso. Com effeito, vimos que nas grandes cathedraes do periodo ogival faltam em regra a unidade e a harmonia, porque nos longos periodos de construcção, ás vezes abrangendo seculos, muitos architectos se seguiram na direcção das obras e, durante tão largos espaços, o meio social e o gosto artistico tiveram tempo de se transformar sensivelmente, influindo sobre a unidade e a harmonia dos monumentos. Nos edificios considerados do Mosteiro da Batalha não se deve ter dado este facto. Eis o que resulta da simples observação; ora, os documentos e as presumpções positivas demonstram esta verdade, por fórma irrefutavel.

No testamento de D. João I, feito em 1426, lêem-se em relação ao estado do edificio as seguintes phrases: «que o Mosteiro se acabe de Crasta, casarias, e de todolos outros edificios, que a bom comprimento do dito Mosteiro forem necessarios». Anteriormente, no mesmo documento, El-rei designa para sua sepultura a capella-mór, onde jazia a rainha D. Filippa, sua mulher, ou na outra que Nós ora mandamos fazer, depois que for acabada. Cotejando estas duas citações devemos concluir que a egreja estava quasi acabada em 1415, anno da morte de D. Filippa, porque o respectivo epitaphio refere a trasladação do corpo da rainha para o Mosteiro da Batalha, em 15 de outubro de 1416.

Assim, comparadas estas datas, é ponto incontroverso que em 1416 a egreja se achava terminada e estavam em adeantada construcção o claustro principal e a capella do fundador; portanto, tambem o deviam estar a casa do capitulo, o refeitorio e a sacristia, como corpos annexos e por necessidade do proprio desenvolvimento das obras.

D. João I morreu em agosto de 1433. Seu filho, D. Duarte, continuou os edificios, já muito proximos do fim. O cardeal D. Francisco de S. Luiz transcreve uma carta d'este ultimo rei, escripta de Setubal, em 10 de maio de 1436, a Fernão Rodrigues, védor das obras— sublinhamos propositadamente o cargo—dizendo-lhe: «vimos a carta que nos escreveste pelo Ruy Fernandes, vosso filho, sobre certas obras que dizeis que eram ordenadas por El-Rei, nosso Senhor que Deus haja, que se fizessem logo n'esse Mosteiro e que quereis saber o que n'este caso havemos por bem que se fizesse, convem a saber: em vir a agua da fonte dos valles, ou da jardoeira, ou da calvaria para o lavatorio do dito Mosteiro».

As expressões d'esta carta provam que em 1436 a construcção tocava o fim, porque o lavatorio, a que evidentemente se refere D. Duarte, é a bella fonte de excellente estylo, abrigada no pequeno pavilhão, construido n'um dos angulos do claustro principal e fazendo parte integrante da respectiva construcção.