A Arquitetura Religiosa na Idade Média
II Descripção das fachadas
Em frente da porta da entrada d'esta sala, uma grande janela com vitraes, talvez os mais antigos e melhores do Mosteiro, dá luz ao recinto. Tambem se vêem por cima das janelas, que ladeiam a porta, duas pequenas rosaceas. São as unicas, aliás bem insignificantes, que se encontram em todo o Mosteiro, onde reinam exclusivamente as janelas de formas elegantissimas, algumas vezes simples, em geral divididas por maineis.
Refeitorio. Communica com o portico occidental do claustro real. Nada tem notavel; é apenas uma grande sala de 27 m m ,3 por 9,7,
abobadada, bastante feia e abaixo do valor architectonico do resto do edificio.
Cosinha. Em communicação directa com o refeitorio existe a cosinha, tendo 10m m ,17 por 9,34, que por cousa alguma se recommenda.
Adega, e dispensa. m Este edificio abobadado, tendo 37,36 por 9m,34, corre ao longo do portico norte do claustro principal, para onde abre apenas por tres frestas.
Portaria. m m É uma grande sala, tendo 12 ,08 por 9,34. Servia de aula para as lições, que os frades davam a estudantes seculares.
Eis a succinta descripção do plano geral do Mosteiro, na parte que se refere aos edificios da primeira epoca, os ogivaes. Quizemos dar uma idéa do conjunto e das disposições relativas, para acompanhar a planta geral e as gravuras, que, segundo pensamos, muito esclarecem e completam a descripção.
II
Descripção das fachadas
Descrevamos agora succintamente o exterior do edificio, limitando-nos ás linhas mais geraes. A fachada principal, que olha para o occidente, é formada por tres corpos diversos: o da egreja, ladeado ao sul pelo da capella do fundador e ao norte pelo do refeitorio. Os dois primeiros estão no mesmo alinhamento, o terceiro avança sobre este alinhamento a respectiva largura.
Fachada principal. Não é ornada de torres. Pertence á categoria das construcções, de que são exemplo as Cathedraes de Sevilha e de Milão. Assim, tambem n'esta fachada se notam, perfeitamente marcadas por botareos encimados de pinaculos, tres divisões verticaes: a do centro correspondendo á nave principal, e as lateraes ás naves secundarias.
MOSTEIRO DA BATALHA—Fachada principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Fachada principal
A divisão central, de cerca de 30 metros de altura, excede n'um terço approximadamente as divisões lateraes. Comprehende o unico portal, sobrepujado por uma grande janela coroada por elegante platibanda. As divisões lateraes apenas teem as janelas, que illuminam as respectivas naves. Assim, nas linhas geraes, a fachada define com nitidez as dimensões e as disposições internas da egreja.
Na divisão central, o portal pouco profundo, de molduras ogivaes embocetadas e decrescentes, repousando sobre columnellos eguaes, termina no vão da porta, ornada de tympano de pedra. A parede d'esta divisão da fachada cresce sobre o portal e quasi a dois terços da altura cessa, deixando estreita passagem, resguardada por uma platibanda, em frente da grande janela, que dá luz á nave principal. Esta passagem liga entre si os terraços das naves lateraes. O corpo medio da egreja, mais elevado do que os colateraes, é amparado por arcobotantes, dos quaes os mais proximos da fachada são mais rendilhados e leves.
A ornamentação é de extrema sobriedade. Por cima do portal e da janela, altas e estreitas arcaturas—melhor lhe chamariamos talvez caixilhos ou almofadas—cujo lavor pouco sobresae da silharia da parede, parece sustentarem uma faixa de galões tecidos em losangos. As platibandas do edificio offerecem fórmas quadrilobadas, repousando sobre cornijas sustentadas por pequenos modilhões ogivaes. Os botareos centraes da fachada são ornados de caixilhos ou almofadas, a partir de certa altura.
A simplicidade da ornamentação, despretenciosa e pura, é encantadora e traduz no emprego geral das arcaturas principalmente e dos caixilhos, bem como na relação das portas e das janelas e na ausencia de rosaceas, os caracteres do ogival
inglez, apontados por Hope, na citação anteriormente feita [12].
Fachada da capella do fundador. É ainda de maior simplicidade. A parte quadrada inferior está dividida por quatro botareos, em cujos vãos se rasgam tres janelas. Dos botareos centraes partem arcobotantes, que terminam proximo das cabeças de outros oito botareos, revestindo os angulos da torre octogonal; a cada intervallo corresponde uma das oito respectivas janelas. A ornamentação, muito sobria e do caracter da anterior fachada, resume-se nas platibandas, desacompanhadas de arcaturas. A torre central foi coroada por um grande corucheo. Pena é que a restauração do Mosteiro não abrangesse até hoje este importante complemento, que tanto engrandeceria a fachada principal.
MOSTEIRO DA BATALHA—Portal do sul
MOSTEIRO DA BATALHA—Portal do sul
Fachada do refeitorio. Por um muro curto e liso, apenas encimado pela platibanda já descripta, muro que corresponde a uma pequena extensão do claustro principal, liga-se a fachada simplicissima do refeitorio e da cozinha com a da egreja. É um edificio longo, dividido por nove botareos, entre os quaes se abrem janelas ou frestas, seis do refeitorio e duas da cozinha. São de verga inteira, sem ornamentação alguma. Platibanda similhante á do resto do edificio corôa tambem esta construcção.
Como se vê, o conjunto das fachadas, offerecendo original simplicidade, é muito sobrio nas linhas geraes e mais ainda na ornamentação, em nada parecida com as disposições complicadas de outras construcções ogivaes, principalmente de caracter francez e allemão. Seria isto ainda um indicio, se necessario fosse, da origem do estylo do Mosteiro da Batalha.
Fachada sul. Desenham-se as duas naves, a lateral com as janelas sobre parede lisa: as duas primeiras mascaradas em parte pela capella do fundador. A nave central vê-se por cima, guarnecida de botareos, sustentados por arcobotantes, encastrando as respectivas janelas do clerestory.
Na parte correspondente ao transepto, outro portal, mais simples do que o primeiro, constitue a segunda entrada da egreja, tendo por cima a grande janela que anteriormente descrevemos. Na desproporção dos respectivos vãos mais se accentua, ainda, a observação de Hope sobre o ogival inglez. Seguem-se as absides com estreitas janelas e, encostada ao fundo d'essas absides, a construcção das capellas imperfeitas.
Fachada norte. A este lado da egreja está encostado o claustro. A disposição d'esta fachada é em tudo similhante á precedente, salvo a elegante torre do relogio, coroada de fina e rendilhada agulha.
O córte do edificio pelo claustro, gravura anteriormente apresentada, completa a descripção das mais importantes fachadas, porque as restantes se acham, em parte ou no todo, mascaradas pelas capellas imperfeitas e pelos edificios do antigo convento, ainda hoje existentes.