A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 14 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Quarto

Realisadas todas estas restaurações, a parte interior da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundações dos pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. Não só as abobadas da nave central e da capella-mór não existem, sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas estão fendidos por tal fórma que não suppo Realisadas todas estas restaurações, a parte interior da egreja tem de ser completamente reedificada, aproveitando-se apenas as fundações dos pilares das arcarias das naves e as paredes exteriores. Não só as abobadas da nave central e da capella-mór não existem, sendo simuladas em madeira e estuques, mas, os proprios pilares, ou feixes de columnas, e as arcadas sobrepostas estão fendidos por tal fórma que não supportariam o peso de verdadeiras abobadas. Além d'isso, as abobadas das naves lateraes são de tijolo e provavelmente substituiram as primitivas de silharia.

É natural que a restauração exterior do templo leve, mais cedo ou mais tarde, a esta importante obra de reedificação interna da egreja, porque outra não se deve tentar, por improficua e dispendiosissima.

Em todo o caso já seria um adeantado passo acabar a restauração externa da velha egreja de D. Affonso Henriques, que deve considerar-se um verdadeiro monumento da epoca, recordando a constituição e a independencia da Nação Portuguesa.

 

CAPITULO QUARTO

 

SYNTHESE SOCIAL DO SECULO XIII

Traçar um quadro do seculo XIII, dando-lhe a verdadeira expressão social, scientifica e esthetica, é materia difficil, principalmente nos limites estreitos d'este livro; todavia, por nos parecer indispensavel, conforme o methodo adoptado, tentaremos este trabalho em modestas proporções.

O seculo XIII foi incontestavelmente o mais brilhante da Edade-Media; concentra e dá unidade, por assim dizer, aos trabalhos do pensamento humano, realisados nos anteriores seculos, prepara os thesouros de sciencia e de philosophia, que produziram a renascença artistica e litteraria do seculo XVI, a philosophica do seculo XVII e, emfim, os grandes movimentos sociaes e politicos dos seculos seguintes.

A organisação das monarchias feudaes, como a tentámos descrever n'outros capitulos, estava completa no começo do seculo XIII; em verdade, até começava a resvalar para a dissolução, que se operou no fim do seculo XV e de que foram principaes agentes em França Luiz XI, em Inglaterra Henrique VII, o fundador da dynastia dos Tudors.

As grandes guerras religiosas para libertação do solo sagrado de Jerusalem, que aliás nunca foi perfeitamente livre e christão, foram a grande obra das monarchias feudaes, desde os fins do seculo XI aos do seculo XIII. Este grande esforço do feudalismo accumulou as causas da propria decadencia; como as organisações vigorosas se enfraquecem pelo excesso de trabalho.

Prégadas pelos proprios Papas ou animadas por elles, as Cruzadas tinham levado ao oriente, durante dois seculos, milhões de homens das nações occidentaes. A melhor cavallaria feudal, durante este longo periodo, havia deixado no caminho de Jerusalem parte das riquezas, e as vidas nos campos das batalhas ou dizimadas pela peste. Este enorme fluxo e refluxo de homens ligara intimamente as relações entre os dois extremos da Europa, trazendo para o occidente novos elementos de uma civilisação mais adeantada, novas idéas e processos; activando, emfim, as reciprocas transacções commerciaes, de que foram poderosos centros Genova, Marselha e Veneza.

Os grandes senhores arruinavam-se, sustentando longinquo e dispendioso estado de guerra, emquanto a burguezia se enriquecia no commercio pacifico e as classes populares repousavam e trabalhavam, livres de grande numero dos pequenos tyrannos. A exaltação do espirito religioso, excitado pelas santas Cruzadas, approximara as nações e dentro d'ellas as respectivas classes. N'esta atmosphera favoravel, a liberdade ganhava vigor na vida local das communas, cujas revoltas eram mais faceis e mais baratas as compras de direitos civicos a senhores, que careciam de dinheiro para as enormes despezas da guerra e satisfação de um luxo exagerado, que traziam sempre inveterado nos costumes, quantos tocavam sequer de leve as civilisações orientaes. Assim, no seculo XIII baixava o sol do feudalismo e começava a raiar a aurora d'essa energica vida communal, que nas mãos de suzeranos habeis devia servir mais tarde de poderoso instrumento para reduzir os barões feudaes, livres e turbulentos, a vassallos, subordinados e pacificos, e a pouco e pouco a simples cortezãos, servis e lisonjeiros, que apenas ostentavam nas antecamaras reaes honorificos titulos de antigos apanagios e nomes de gloriosos antecessores.

No seculo XIII a egreja adquirira indiscutivel preponderancia sobre o orbe christão, a Europa. Pela religião e pelo respeito tradicional, o Papado impozera-se aos grandes e aos pequenos; era o arbitro supremo entre os principes, perseguia-os como revoltosos e criminosos sobre os proprios thronos e, sendo preciso, separava-os do povo pela interdicção dos Estados, ou pela excommunhão dos rebeldes.

Desde os fins do seculo XI, o poder temporal do Papa tornara-se um facto consummado. O antigo bispo de Roma já usava em volta da tiára a primeira corôa da soberania terrestre, que o punha ao lado dos reis christãos, cuja consciencia elle dominava pelo espirito da religião. Senhor quasi absoluto, depois da querela das investiduras, d'essa machina immensa que se chama hierarchia ecclesiastica, levando a acção poderosa até ás consciencias mais humildes e obscuras, no seculo XIII, o Papa era o primeiro poder da Europa. Assim, o Papado fôra o espirito das Cruzadas e o feudalismo o seu braço armado, que na lucta gastou as forças e perdeu quasi os bens, herdados em grande parte pela egreja, cujas enormes riquezas não satisfizeram nunca as suas ambições colossaes.

A atmosphera de liberdade, embora fraca, que se formou no seculo XIII, deixára florescer, emfim, a cultura das artes e da sciencia. Grandes discussões philosophicas enchem o seculo. Promove-as a theologia. Os profundos dialecticos e os sabios pertencem em regra ás Ordens Religiosas, é certo; mas nos sombrios claustros

penetrára a luz de fóra. A Escholastica n'esse periodo tomou uma feição nova e caracteristica, que trazia em si os germens da liberdade do pensamento. A philosophia da Edade-Media offerece, com effeito, tres periodos differentes; no primeiro, a theologia subordina a sciencia; no segundo, estes dois principios caminham a par, depois dividem-se, seguindo rumos divergentes.

No segundo periodo, durante o seculo XIII, os talentos mais elevados e cultos travam renhidas luctas de palavras e de escriptos, nem sempre incruentas; uns são pelo realismo de Alberto, o grande doutor, e do seu genial discipulo Thomaz de Aquino, outros pelo nominalismo de Duns Scott, o doutor subtil. O discipulo excedeu o mestre. Santo Thomaz de Aquino foi o chefe da eschola, que definiu os principaes dogmas da egreja e preparou a constituição definitiva do Catholicismo, no concilio de Trento.

O nominalismo, fundado sobre as doutrinas de Aristoteles, desenvolvia as bases da sciencia; o methodo da observação e da experiencia recomeçava o seu caminho, interrompido por longos seculos. No seculo XIII viveu o franciscano Roger Bacon, que só por si define uma eschola e illustra um seculo. Philosopho, astrologo e alchimista, cujo saber immenso nas azas do genio chega a saír fóra dos limites do seu tempo, Bacon descobre, ou pelo menos prevê factos e verdades, que hão de manifestar-se nos seculos seguintes. Arnaldo de Villanova, outro profundo sabio do seculo, medico e alchimista, discute a metaphysica escholastica e combate-a á luz dos principios da sciencia ainda vacillante e incerta, mas procurando já firmar-se nas bases do positivismo moderno. A sua vigorosa critica não se atemorisa ante os perigos de atacar os erros da eschola philosophica triumphante nas doutrinas de um dos maiores sabios e casuistas do tempo. «Que importa, escreve o grande luctador, que Alberto, o grande doutor, affirme que as folhas de salva lançadas n'uma fonte fazem sobrevir a tempestade? Lancemos folhas de salva n'uma fonte e vejamos se a tempestade sobrevem».

A revolta do livre pensamento attinge o dogmatismo da Escholastica orthodoxa, a essencia do methodo experimental está claramente definida n'esta ironica e simples phrase. Arnaldo de Villanova é um precursor, como Roger Bacon e os escholasticos revolucionarios nominalistas, d'esse methodo, que ha de produzir a sciencia moderna e por meio d'ella o espantoso progresso do seculo XIX.

N'estes primeiros movimentos revolucionarios do nominalismo sentem-se já energicas aspirações da liberdade do pensamento. As suas doutrinas são a semente, que, ao calor do estudo, das luctas, e pela acção do tempo, ha de produzir, por ininterrupta evolução, a reforma religiosa do seculo XVI e a philosophia do seculo seguinte. Os adeptos do nominalismo são perseguidos e as doutrinas consideradas heterodoxas; mas, como correspondem a necessidades organicas do espirito humano, se os martyres ficam desconhecidos, as suas idéas preparam o futuro. Os primeiros luctadores contra o poder de Roma, Arnaldo de Brescia, discipulo de Abelard o nominalista, em Italia, Pedro de Vaux em França, Lollard e Wiclef em Inglaterra, são os precursores de João Huss e depois de Luthero, Melancton, Calvino, Zwinglio e Knox, os fundadores victoriosos da reforma religiosa do seculo XVI.

No seculo XIII, a esthetica experimenta, tambem, uma acção profunda. Um dos maiores genios, de entre os que têem engrandecido a Humanidade, o florentino Dante Allighieri, cujas feições energicas e tragicas nos conservou o pincel de Giotto, aperfeiçoa, se não cria litterariamente a primeira e mais bella das linguas latinas, a italiana, em que teve como discipulos e commentadores Petrarcha e Boccacio. Genio colossal, fortalecido por sciencia profunda e inspirado por grandes sentimentos, attingindo a febre da paixão, Dante revoluciona a poesia e quebra os velhos moldes dos poetas da decadencia.

A sua prodigiosa lyra, tendo todas as cordas desde a sublime epopeia até ao delicado lyrismo, produz o mais gigantesco poema, creado pela intelligencia humana, a Divina Comedia, onde o poeta se revela sabio, theologo, historiador do seu tempo, ás vezes apaixonado e injusto, se quizerem, mas sempre supremo artista. Dante, talvez a figura principal do seculo XIII, a quem os seculos seguintes não fizeram perder ainda na poesia a posição culminante, é a mais pura e clara expressão d'esse espirito classico, sempre vivo no solo da grande Italia. A liberdade do pensamento, como nova e rica seiva, inflora no poeta esse vivido espirito, impellindo-o para fóra da esphera humana e levando-o a procurar no Inferno, no Purgatorio e no Paraiso, symbolos da metaphysica theologica, um campo infinito, onde podiam exercer-se intelligencia e phantasia tão excepcionaes.

As outras bellas-artes, excepto a musica para a qual não chegára ainda o momento historico, bem mais tarde manifestado, principalmente em fins do seculo XVIII e no seculo XIX, offerecem um caracteristico movimento correspondente.

Até ao seculo XIII, a influencia do espirito byzantino mantivera-se preponderante, sobretudo na pintura e na esculptura, aliás ainda subordinadas á architectura, de que constituiam artes auxiliares e complementares. Ora, as artes do oriente, como vimos, haviam ficado estacionarias, crystallisando em fórmas hieraticas e convencionaes. A inspiração e a liberdade dos pintores e dos esculptores foram esterilisadas por esse immovel e hybrido espirito oriental. Os artistas copiavam-se successiva e reciprocamente, procurando amoldar a espontaneidade do proprio talento a antigas e consagradas formulas, a que as tradições religiosas contribuiam para dar quasi força de dogmas.

Foi ainda a Italia, que deu os primeiros gritos, sacudindo essa lethargia; foi ainda o espirito classico, reanimado pela liberdade do pensamento, que despedaçou a rede dos formalismos tradicionaes e da ignorancia technica, que envolvia e suffocava a inspiração dos pintores e esculptores.

Esta reacção inicia-a Cimabué, libertando-se dos liames das escolas byzantinas. Giotto, seu discipulo, pintor, esculptor e architecto, segundo o uso e as necessidades do tempo, opéra a revolução. A correcção do desenho e o rigor do colorido, a expressão e a vida, isto é, a verdade na arte que só nasce do estudo da natureza, são o resultado d'essa outra victoria do espirito humano. Os dois primeiros mestres italianos do seculo XIII ficam sendo na historia os precursores da grande arte da renascença, poderoso movimento que tambem a Italia quasi exclusivamente realisará nos fins do seculo XV e durante o seculo XVI, no grande periodo em que floresceram homens como Leonardo de Vinci, Raphael Sanzio e Miguel Angelo Buonaroti.

A architectura e as artes secundarias annexas saem dos conventos, vindo expor novos productos e novas creações á luz da liberdade nascente. Já não são as grandes communidades religiosas, que monopolisam as construcções, crystallisando-as um pouco e enviando de convento para convento os architectos mais famosos e os planos mais completos. A esthetica, como a sciencia, manifesta energica expansão. A arte revoluciona-se e liberta-se.

Nas communas constituem-se grandes corporações de artes e officios. As associações de architectos e de operarios de todas as ordens, que nos seculos precedentes trabalhavam sob a direcção monastica, esse resto dos gremios romanos, ou formados á sua imagem, emancipam-se, libertam-se do jugo ecclesiastico nas producções artisticas, tomando definitivo caracter civil, embora subordinadas e protegidas pelo espirito religioso, que imperou sempre durante toda a Edade-Media.

São, com effeito, as corporações franco-maçonicas que vão construir muitos, se não todos os edificios ogivaes mais grandiosos e celebres. Houve-as em Inglaterra, tendo um dos centros principaes em York. Foram incontestavelmente os free-stones-masons, que elevaram um dos grandes monumentos ogivaes inglezes, a cathedral de York. Teve-as a Allemanha, com o principal centro em Strasburgo, onde Erwing Steinbach construiu a grande e formosa cathedral, um dos primeiros monumentos do Estylo Ogival, que serviu de exemplo a tantos outros e cuja fama deu á loja-mestra a supremacia sobre quasi todos os centros principaes allemães e ao seu presidente o grão-mestrado supremo. Existiram em França, onde predominou a loja-mestra de Paris, construindo as grandes cathedraes de Amiens, Reims e outras, Notre-Dame e a Saint-Chapelle em Paris. Encontravam-se, emfim, na propria Italia, onde aliás o Estylo Ogival experimentou energicas reacções classicas, principalmente ao sul. Foram os magistri comacini, que, sem a menor duvida, construiram o colosso ogival, a cathedral de Milão.

Como estas associações tiveram grande influencia sobre a formação e a dispersão do Estylo Ogival, parece-nos conveniente entrar em alguns pormenores ácerca da sua organisação no seculo XIII, visto que das respectivas origens provaveis e evolução constituinte já falámos em precedentes capitulos.

Não póde existir, a nosso ver, a menor duvida em que estas corporações franco-maçonicas, que se estendiam pela França, Allemanha e Inglaterra, chegando pelo menos ao norte da Italia, tinham entre si intimas relações, offerecendo um caracter internacional bem definido. Esta affirmação resulta não só da propria natureza das associações de mutuo auxilio e de defeza dos interesses dos respectivos associados; mas é, ainda, demonstrada pela essencia e tradição das associações franco-maçonicas politicas, em que as primeiras se transformaram, durante os seculos XVI e XVII.

A grande unidade do Estylo Ogival e a sua rapida dispersão nas zonas, aliás extensas, em que floresceu, devem ser attribuidas em grande parte ás relações muito apertadas entre as corporações maçonicas do mesmo paiz e assás intimas entre as de nações differentes. Em 1459, por exemplo, a assembléa capitular de muitas lojas allemãs, reunida em Strasburgo, reconheceu como grão-mestre o presidente da loja-mestra d'esta cidade. Mais do que provavel nos parece que em França e em Inglaterra se procedesse por identica fórma; é a consequencia logica dos fins d'estas associações de trabalho e de soccorro mutuo.

Alem d'isso, as deslocações dos associados de uns para outros paizes, em procura de trabalho ou por outras quaesquer causas, só por si constituiriam, n'esse tempo de construcções muito activas, constantes relações internacionaes, quando não existissem outras officiaes e regulares, como é assás provavel. O operario associado em viagem encontrava, naturalmente, a protecção e o apoio das associações do mesmo genero, formadas em outros paizes. Este facto dava-se com as associações romanas e corresponde á tendencia internacional das poderosas associações operarias. Assim, na Edade-Media o trabalho teve uma organisação muita extensa e protectora, que a moderna Internacional tentou debalde realisar no ultimo quartel do seculo XIX.

A constituição interna d'estas sociedades franco-maçonicas é, como a sua historia, assás obscura. Visto que fixavam os proprios salarios dos differentes trabalhadores, parece-nos logico que estas associações se ligassem por simples contractos pessoaes, ou porventura em muitos casos por contractos de empreitadas parciaes ou geraes, como se pratica nos modernos tempos. Evidentemente, estas presumpções fundam-se apenas na logica e no principio de que em todas as epocas a eguaes necessidades corresponderam, sempre, instituições e processos analogos ou equivalentes.

Deve notar-se que estas associações foram muito protegidas durante a Edade-Media. Altas personagens civis e ecclesiasticas faziam d'ellas parte como socios honorarios, no periodo da sua maior grandeza. Foi até a existencia numerosa d'estes elementos estranhos ao trabalho, que, depois da decadencia e transformação do Estylo Ogival, facilitou a conversão das associações primitivas em corporações politicas, conservando os symbolismos dos officios, os provaveis signaes de reconhecimento, as praticas secretas e o espirito internacional, protector e caridoso, da maçonaria moderna, que foi nos ultimos seculos um instrumento poderoso de movimentos sociaes.

É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram grande incremento. Sendo assim, a elaboração dos planos seria a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito disciplin É natural que as lojas-mestras dirigissem as obras de varios edificios, elevados na sua respectiva esphera de acção; sabe-se, como a partir dos meiados do seculo XIII, as construcções ogivaes tomaram grande incremento. Sendo assim, a elaboração dos planos seria a tarefa dos maiores e mais habeis architectos e, por logica divisão do trabalho, as particularidades caberiam ao pessoal technico, que por ordem hierarchica se ia seguindo, classificado pela competencia e pelo merito. Esta hypothese é corroborada pelo espirito disciplinado e methodico, que constitue a melhor garantia de producções completas e perfeitas em obras collossaes.

Esta divisão do trabalho devia chegar ao ultimo extremo. Assim, sabe-se que as construcções eram dirigidas por um mestre ou architecto, escolhido provavelmente em harmonia com a grandeza da obra, sob cujas ordens turmas de dez homens trabalhavam, dirigidos a seu turno por um mestre pedreiro. Esta organisação explica a grandeza da concepção dos planos, a analogia, quasi similhança, que manifestam muitos dos seus elementos e, emfim, a extrema diversidade da ornamentação no mesmo edificio. Póde notar-se, por exemplo, que as altas agulhas de Zurich, Vienna, Colonia e Landshut offerecem reminiscencias muito accentuadas das de Strasburgo.

A extrema variedade de ornamentação, a diversidade dos capiteis, no mesmo edificio numerosissimos e poucas vezes repetidos, esses symbolismos grotescos uns, pornographicos outros, espalhados nos capiteis e constituindo algumas gargulas, não podem ser explicados senão pela extrema liberdade de acção dos esculptores e lavrantes de pedra, mais numerosos e inferiores. Este uso caracteristico, já mencionado no Estylo Romanico, conservou-se depois ainda nos paizes, como o nosso, onde a franco-maçonaria teve, quando muito, residencia accidental.

Isto exposto, o perfil do seculo XIII póde desenhar-se em poucas palavras. O pensamento humano, activo e energico, procura conquistar a liberdade na esphera moral e politica. O feudalismo perde lentamente as forças e empobrece. Pelo contrario, a burguezia progride, accumula riquezas pelo commercio e pela industria, e trabalha. As communas multiplicam-se e florescem. N'este estado social, um poder predomina, o Papado e a hierarchia ecclesiastica, pela intelligencia e illustração, pelo prestigio da religião sobre as consciencias e pelo poderio de riquezas immensas. As futuras reacções da reforma estão ainda embryonarias e latentes. A sciencia busca despir as faixas da theologia e da metaphysica, approximando-se lentamente do methodo experimental, que ha de ser o poderoso instrumento da rapida e prodigiosa evolução social e scientifica dos seculos XVIII e XIX. Tambem a arte, conforme a propria essencia, observa e experimenta, retemperando-se no estudo da Natureza.

Em summa, a liberdade hesitante bruxoleia ainda; mas os tenues raios de luz são sufficientes para dissipar as sombras medievaes, deixando ver o caminho do futuro e os direitos da Humanidade. Eis como comprehendemos a synthese do brilhante seculo XIII.