A Arquitetura Religiosa na Idade Média
III A ornamentação architectonica do Mosteiro
III
A ornamentação architectonica do Mosteiro
A grande arte traduz-se nas linhas geraes, que a ornamentação deve acompanhar, realçando-as apenas, sem lhes prejudicar a pureza e as elevadas qualidades essenciaes. O excesso de ornatos constitue, em geral, grave symptoma de decadencia na arte ou falta de genio nos artistas.
Assim, uma das fórmas fundamentaes da belleza é incontestavelmente o corpo humano; ora, a suprema expressão d'esta unidade esthetica consiste em o representar em completa nudez. A grande difficuldade está incontestavelmente em realisal-o.
Os artistas gregos, os geniaes creadores da mais perfeita esculptura do corpo humano, em que até hoje não tiveram senão bem raros competidores, descobriram esta lei do bello e enunciaram-n'a em milhares de creações, algumas das quaes, que resistiram á acção destruidora do tempo e dos homens, são ainda hoje causa de sincera e profunda admiração. Eis por que elles representavam quasi sempre Venus e Apollo, symbolos da belleza humana, em perfeito estado de nudez; e quando excepcionalmente lhes envolveram os corpos em leves estofos, a ornamentação contribuia para avigorar e realçar a perfeição das fórmas e das carnes nuas.
Uma das mais formosas estatuas classicas, semi-vestidas, ainda existente, a Venus Callipygia do Museu de Napoles, arregaça com a mão esquerda a fina e leve tunica, deixando ver as linhas mais puras e suaves do corpo humano, traduzidas admiravelmente no antigo marmore de Paros, a que os seculos deram quasi o tom avelludado e quente de uma carnadura viva e palpitante. A casta Diana, a sabia e guerreira Minerva não fogem a esta regra. Uma das melhores estatuas da Galeria Chiaramonti no Vaticano, Diana contemplando Eudymion adormecido, veste o peplum tão cingido, que por baixo d'elle se desenha o bello torso; a tunica roçagante é tão fina e sedosa, que atravez do estofo transparente se vêem as fórmas delicadas e perfeitas da casta deusa.
Assim, na esculptura como na architectura, o genio grego demonstrou que nas linhas geraes reside a suprema belleza, não sendo a ornamentação mais do que um accessorio, que, longe de as abafar e deturpar, deve pelo contrario contribuir para as engrandecer e realçar. A simplicidade, a pureza e a harmonia da ornamentação são, pois, qualidades indispensaveis dos grandes
estylos da arte [13].
Os primitivos architectos ogivaes do Mosteiro da Batalha executaram esta lei esthetica com verdadeiros rasgos de genio. Assim, em edificio algum do mesmo estylo, dos muitos que temos visto, a harmonia e a pureza das linhas geraes tocam o grau da perfeição, attingido no monumento portuguez; nem é possivel encontrar segundo, entre os de correspondente importancia, tão sobrio e puro na ornamentação. Estas qualidades excepcionaes são exactamente as que originam o seu incontestavel e elevado valor artistico. A harmonia architectonica entre as linhas geraes e a ornamentação é tão intima e perfeita, que, ao primeiro golpe de vista, o monumento portuguez produz a impressão profunda de uma unidade esthetica.
É muito difficil, se não impossivel, com simples palavras definir impressões. Certos movimentos do espirito são comprehensiveis, porque, nascendo da propria essencia da alma, todos os possuimos e os sentimos em maior ou menor escala. A não ser isto, tornar-se-iam muitas vezes enigmaticos, visto que a linguagem humana, perfeita para a enunciação de idéas, é um instrumento incompleto, quando pretende definir a intima e profunda natureza das sensações e dos sentimentos. Assim, esta expressão unidade esthetica poderá parecer obscura aos que não tenham larga cultura intellectual, ou pelo menos não possuam poderosas faculdades artisticas.
A nossa experiencia tem-nos demonstrado que em taes casos uma simples comparação vale mais do que longas e didacticas dissertações. Evoquemos do passado de vinte e cinco seculos uma mulher d'essa belleza singular, que serviu de modelo aos maiores esculptores da Grecia; vistamol-a, depois, de qualquer fórma. Ficará sempre uma mulher formosa. Mas o penteado elegante e alto, o peplum afivelado nos hombros nús, caindo sobre a tunica leve e roçagante, emfim, esse vestuario que o genio grego creou para as linhas geraes da belleza jonica, fará da mulher formosa uma unidade esthetica.
Assim, o Mosteiro da Batalha produz-nos a impressão encantadora das mulheres virgens, honestas e formosas, ornadas com essa extrema e elegante simplicidade, que é o reflexo exterior e harmonico de um puro estado da alma.
Já falámos das fachadas do Mosteiro; bem longe estamos d'esses enormes porticos profundos de caprichosa ornamentação, coroados de grandes rosaceas, e ladeados de torres immensas, cujas agulhas finas e rendilhadas parece tocarem as mais altas nuvens. O Mosteiro da Batalha não offerece esta rica ornamentação. Nem torres, com flechas arrojadas, nem profundos porticos guarnecidos de grandes esculpturas de phantasticas e mysticas personagens, possue o modesto e singelo monumento!
A Cathedral de Milão é povoada por 6:000 estatuas de todas as grandezas, dispersas pela vasta construcção em nichos de ricos e variadas fórmas. O Mosteiro da Batalha tem apenas as doze estatuetas do portico; em mais parte alguma se vê outra estatua, ou um nicho deserto espera ainda a obra do esculptor!
O interior da egreja é, tambem, de absoluta simplicidade. A ornamentação limita-se aos pontos, onde era indispensavel: aos capiteis das columnas, aos tecidos das janelas e, por excepção, aos lambrequins de pedra que guarnecem o intradorso dos arcos das absides.
Os feixes de columnellos, de extrema elegancia e delicadeza, que revestem os pilares das naves, sobem a grande altura e ramificam-se nas abobadas, abrindo-se em simples rede de nervuras singelas. A Cathedral de Sevilha, no vastissimo cruzeiro e nos primeiros vãos das naves, a de Milão, em toda a extensão da grande nave,
offerecem as abobadas recamadas de verdadeiras rendas de pedra, entre os meandros de complicadas nervuras.
As paredes nuas do templo, emolduradas pelos arcos e pelos columnellos, crescem de baixo até acima sem o mais simples ornamento, sem a mais ligeira moldura; n'essas superficies immensas brilham, apenas, as janelas de excellentes proporções, como refulgem os grandes diamantes, encastoados em velha prata oxidada. A Egreja da Batalha possue a belleza ideal das suas linhas geraes, a perfeição innegavel da construcção e a côr de velho marfim, que os seculos deram á antiga pedra. Mais nada.
Em todo o Mosteiro reina egual simplicidade. Na capella do fundador, cujas disposições elegantissimas já tentámos descrever, a ornamentação é um pouco mais rica nos lambrequins dos arcos da cupula interna. Não falaremos no tumulo de D. João I e D. Filippa e nos bellos arcocelios dos tumulos dos infantes seus filhos, porque na realidade não constituem verdadeiros elementos de ornamentação architectonica.
MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal
No claustro principal póde dizer-se que toda a ornamentação se concentra tambem nos pontos onde era indispensavel: nos grandes tecidos dos arcos dos porticos, na porta e nas janelas da casa do capitulo e no pequeno pavilhão do lavabo, que existe proximo do refeitorio.
Os tympanos dos arcos do claustro, sustentados por finos columnellos, são em geral magnificos. Apresentamos a gravura de dois arcos: um servindo de porta, outro de janela. Em ambos, principalmente, no segundo, ha vestigios e caracteres evidentes de renascença manuelina.
A porta e as janelas da casa do capitulo são excellentes. Na gravura do portico oriental do claustro podem distinguir-se com certa nitidez estes elementos. Do interior d'esta bella sala já falámos precedentemente.
O pequeno pavilhão da fonte, ou lavabo, é talvez o ponto do Mosteiro onde os architectos empregaram mais rica ornamentação, cujo caracter melhor se comprehende pela inspecção da respectiva gravura, o que não conseguiriamos em larga descripção.
Se da ornamentação das fachadas e do interior dos edificios passamos para a dos coroamentos, a lei da simplicidade e da harmonia não soffre excepção. Parecem guarnecidos de renda ingleza, disse-nos um dia alguem, expressando perfeitamente a impressão, que elles produzem, pela figura que melhor se adequava ás tendencias e aos habitos do proprio sexo.
De facto, os coroamentos dos edificios, formando grandes linhas horisontaes em diversos planos, são contornados por largas fachas rendilhadas, verdadeiras platibandas, em geral de espaço em
espaço divididas por pilastras lisas,
encimadas de pequenos pinaculos.
Damos o desenho de um motivo assás
frequente. O parapeito é guarnecido de
um bello entrelaçado, onde predomina a
flor de lyz; o corpo da platibanda, de
evidentes quadrilobulos, assenta sobre
uma cornija, sustentada por modilhões
arqueados.
Este desenho póde considerar-se o leit-motiv da bella symphonia ornamental dos coroamentos dos edificios. Por toda
a parte foi o fio conductor, que dirigiu e
deu unidade á inspiração do architecto.
As fórmas variam, de certo, um pouco;
mas, quasi sem excepção, ha sempre em todas a acção e a reminiscencia do trecho inicial.
Além d'esta ornamentação nada mais têem hoje os edificios senão dois pinaculos mais elevados e a agulha, se tal nome merece o elegante e rendilhado corucheo da pequena torre do relogio. N'outro tempo, a capella do fundador foi, tambem, coberta por outro corucheo mais consideravel, ignorando nós as rasões do seu desapparecimento. Julgamos que este importante elemento architectonico deve ser reconstruido, como o exige a linha geral da fachada do Mosteiro, que assim ficaria muito mais completa e
majestosa[14].
MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal
As tendencias horisontaes dos coroamentos, dispostos em planos não muito differentes, a ausencia quasi completa dos elementos verticaes de grande altura dão ao conjunto do Mosteiro uma fórma acastellada, muito caracteristica do ogival inglez, que manifesta fortemente, por exemplo, a Cathedral de York.
Este facto seria ainda mais um indicio, se necessario fosse, da origem architectonica do monumento portuguez. A impressão é, sobretudo, bem definida vendo ao longe o desenho das suas grandes linhas em noite clara de estrellas, ou de pouco luar; ora, este effeito cresceria de intensidade, se o edificio ogival fosse construido em logar elevado, em vez de occupar um pequeno e fundo valle.
Não se supponha que esta impressão possa provir da elevação do monumento sobre as edificações proximas, ou do tom escuro da grande molle desenhando-se mysteriosa e solemnemente nas semi-trevas da noute. Bem maior e mais alta é a Cathedral de Sevilha, tambem desprovida de grandes e numerosos elementos verticaes, e o seu enorme contorno não produz egual impressão. Emquanto á Cathedral de Milão o effeito nocturno é surprehendente; mas de natureza bem diversa, diremos mais, perfeitamente caracteristica e propria d'aquelle admiravel colosso.
Sempre que nos foi possivel, não deixámos de ver os grandes monumentos nas semi-trevas da noite, ou á luz do luar. Não procuramos só o effeito poetico, ainda que esse é um dos fins das artes plasticas. A physionomia dos antigos monumentos toma na penumbra da noite uma grandeza especial; fala mais ao sentimento, que tambem é origem de idéas e excellente mnemonica.
Assim, a impressão sentimental do Mosteiro da Batalha, principalmente do claustro, á luz de um luar claro, não se oblitera da memoria; como jámais esquece o effeito d'esse gigante ogival de Milão, visto de longe á claridade suave do incomparavel luar de Italia.
Milão estende-se sobre vasta planicie d'esse fertil terreno de alluvião, de que é formada quasi toda a Lombardia. Do coração da cidade irrompe a grande molle da Cathedral, dominando tudo em volta de si, elevando-se, montanha de marmore branco, com as fórmas phantasticas e caprichosas de um enorme iceberg dos mares septentrionaes. Pelo silencio da noite o monumento parece velar o somno da cidade, protege-a e fala-lhe quando o enorme sino do relogio, collocado no alto da grande torre, marca solemnemente as horas com graves sons, fortes, avelludados e severos, que parece encherem o espaço entre os Alpes e os Apenninos.
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal
Tornando ao Mosteiro da Batalha, devemos concluir dizendo que o pobre monumento portuguez não possue ricos vitraes, essa ornamentação tão bella e caracteristica dos tempos medievaes. É certo que Mousinho de Albuquerque, a quem já nos referimos, começou a restauração methodica dos antigos vitraes, que na maior parte encontrou partidos. Este trabalho tem sido continuado com algum exito; mas bem merecia o monumento obra mais completa e perfeita.
Da ornamentação subsidiaria dos grandes monumentos religiosos, nada existe; nem um simples orgão, que daria á bella egreja esse mystico encanto da musica religiosa.
Assim, temos descripto o Mosteiro da Batalha não com a intenção de lhe fazer completa monographia, porque esse trabalho exigiria proporções na descripção, nos planos e nas gravuras bem superiores á do presente livro, mas com o simples fim de darmos, quanto nos foi possivel, exemplos nacionaes dos estylos architectonicos.
Quizemos escrever um livro portuguez, feito exclusiva e completamente em Portugal; tel-o-emos conseguido?...
MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte
MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte