A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Augusto Fuschini · Capítulo 13 de 28

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A Arquitetura Religiosa na Idade Média

Capitulo Terceiro

 

A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAÇÃO

 

Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de Lisboa; nem o edificio tem valor architectonico que mereça investigações demoradas, nem ácerca d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo menos nos monumentos nacionaes primitivos, não soffre excepção na antiga cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.

Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo existentes em Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a Sé de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas outras egrejas começaram por ser d'este estylo, successivas reconstrucções e restaurações no periodo ogival e no da renascença mascararam-lhe quasi por completo as feições. Alem d'isso, são estes templos os de maiores dimensões, e excepcionalmente podemos encontrar pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo Romanico, mais ou menos puro.

Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos, que possuimos, dois, a Sé de Lisboa e a da Guarda, acham-se mais ou menos profundamente alterados por obras realisadas em differentes seculos, algumas assás barbaras. Apenas, o terceiro, a Sé Velha de Coimbra, teve nos ultimos annos conscienciosa restauração, que a repoz quanto foi possivel no estado primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na Sé de Lisboa e n'este sentido alguma cousa se tem feito; mas tão profunda é a ruina d'este templo e do respectivo claustro, que a estas obras talvez melhor se deverá chamar dispendiosa reconstrucção, do que simples e economica restauração.

Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico ácerca da Sé Patriarchal de Lisboa; templo que, embora nunca fosse grandioso de dimensões ou rico e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos de reconstrucção e de restauração, visto que representa a primeira egreja do paiz na ordem da hierarchia ecclesiastica e é a cathedral de uma importante cidade da Europa.

Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos da sua existencia historica, têem-se succedido muitas invasões de povos de differentes raças e religiões. Sem falarmos, pois, em celtas, phenicios e carthaginezes, que mais ou menos se perdem na noute mythica dos tempos, occuparam-n'a os romanos em primeiro logar, vencidos depois pelos barbaros, alanos, suevos e visigodos, que a seu turno foram dominados pelos arabes, sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. É evidente que n'esta longa serie de seculos, Lisboa atravessou vicissitudes e condições diversas. Foi pagã e polytheista com os romanos, christã ariana com os visigodos, professou o Islamismo com os arabes e o Christianismo orthodoxo, quando assumiu a posição de metropole do pequeno reino de Portugal.

Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa nunca foi uma cidade importante. Os romanos não eram navegadores e o seu commercio, quasi exclusivamente terrestre e oriental, não podia valorisar o excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam nações rudes ainda, essencialmente guerreiras, embora já penetradas pela civilisação romana e pelos ideaes christãos. Os arabes, finalmente, mais puros e civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha, na Andaluzia e em volta de Cordova, a capital do grande Khalifado do Occidente, abandonando as regiões mais occidentaes da peninsula iberica a raças e tribus mais guerreiras e illetradas.

Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos arabes na zona de Portugal, que foi habitada por esta raça, emquanto a Andaluzia está cheia de ricas construcções do Estylo do Khalifado, algumas ainda assás completas, como a mesquita de Cordova, o Alcaçar de Sevilha e o Alhambra de Granada, sem falarmos de edificios de menor importancia e de trechos e vestigios, que attestam o grau da elevada civilisação dos arabes, que povoaram aquella parte da Hespanha.

A importancia da cidade de Lisboa nos periodos romano, visigodo e arabe foi sempre secundaria. A sua transformação profunda em verdadeiro emporio commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia da Humanidade: a irradiação, para outros pontos do globo, da civilisação dos povos e das nações, dispostas ao longo das costas do Mediterraneo, onde ella se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta do caminho maritimo da India e dos vastos continentes da America, que annullou os emporios de Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera de Lisboa manifesta-se nos ultimos quarteis do seculo XV e nos dois primeiros do seculo XVI.

Não admira, pois, que a capital portuguesa fosse sempre tão pobre de monumentos primitivos; quando, alem d'isso, a sua precaria situação na zona dos terremotos não tendesse a destruir os poucos, que o trabalho de longos seculos penosamente accumulou na sua antiga área.

Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia de Lisboa, romanos, godos e arabes n'ella edificaram templos, de que hoje não restam os menores vestigios, a não ser em vagas tradições, colhidas em antigos escriptos. Assim, a antiga Sé de Lisboa teria sido edificada nas proximidades, se não no proprio local, de um templo classico, substituido depois por um templo godo, a seu turno transformado em mesquita no tempo do dominio arabe. Esta tradição é mais do que plausivel, se attendermos á tendencia das religiões victoriosas em se apossarem dos templos das religiões vencidas, facto de que existem numerosos e incontestaveis exemplos em differentes epocas e em diversas nações. A este ponto interessante da Historia da Arte e das Religiões nos referimos n'outro capitulo d'este livro.

A tradição, que affiança haver sido a actual Sé uma antiga mesquita arabe, é evidentemente absurda. Não só o estylo do templo é accentuadamente romanico; mas, se elle houvesse sido construido nos curtos periodos, durante os quaes os christãos occuparam Lisboa depois da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar na cidade, teriam apropriado a egreja ao seu culto, caracterisando-a com construcções e ornamentos especiaes, de que não se encontram os menores vestigios.

Seria, porém, o actual edificio da Sé de Lisboa levantado no local de uma mesquita arabe?

Esta tradição parece-nos muito fundada; não suppomos, todavia, que a construcção arabe podesse ser de grande importancia. As mesquitas de Lisboa não deviam soffrer comparação com as de Toledo, Cordova, Granada e Sevilha, centros da civilisação arabe. A Cathedral de Sevilha, por exemplo, repousa sobre o local de uma grandiosa mesquita, da qual se conservam ainda hoje, junto á mesma cathedral, o espaçoso pateo, que precedia as mais consideraveis mesquitas, e a magnifica torre, um primor do Estylo do Khalifado, bem conhecida pelo nome de Giralda.

Seja qual fôr o valor d'estas presumpções, a melhor opinião, fundada em argumentos de ordem historica e architectonica, consiste, segundo pensamos, em que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista de Lisboa aos arabes, em outubro de 1147.

Devia ser rapida a construcção. A simplicidade architectonica e a pobreza de ornamentação, que manifesta a parte primitiva do edificio, não exigiram, de certo, planos muito estudados e completos, nem a propria construcção foi muito cuidada quer na escolha, quer na disposição dos materiaes. Forçoso é confessal-o, embora destôe um pouco dos louvores hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio da Sé de Lisboa é de acanhadas proporções, de muito pobre estylo e de construcção bastante ordinaria.

Sendo muito provavel que as obras começassem logo após a conquista, não é facil determinar a respectiva duração. O conego Vieira da Silva, em memoria annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal Patriarcha em meiados do seculo XIX, deduz, de varios documentos e de investigações proprias, que a primeira constituição do Cabido da Sé de Lisboa data do anno de 1150.

Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou pelo menos achar-se-ia já muito adeantado e proximo do seu fim?

Não custa a acredital-o. Em tres annos não seria grande difficuldade elevar edificio d'esta natureza; principalmente se tivermos em attenção que a silharia n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em pedreiras muito proximas das respectivas obras.

Uma observação interessante devemos fazer n'esta altura: o primeiro bispo de Lisboa, capital de Portugal, foi o inglez Gilberto. Ora, em Inglaterra floresceu o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva da Sé Patriarchal.

Depois da sua fundação, o primitivo edificio soffreu muitas reconstrucções, restaurações e alargamentos, dos quaes alguns motivados pelas necessidades do culto e outros provenientes da falta de alojamentos internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda e os serviços religiosos de uma cathedral. As barbaridades artisticas e de construcção, que por estas razões se praticaram, seriam inacreditaveis, se grande parte d'ellas não fossem directamente observadas pelo auctor d'este livro e algumas não existissem ainda, attestando o mau gosto, a ignorancia e o desprezo pelos monumentos e pelas tradições, que ás vezes caracterisa o espirito nacional desde os tempos mais remotos até aos nossos dias.

Seguindo a planta da Sé no seu estado actual, isto é, na data em que escrevemos este livro, é fácil formar clara idéa do plano primitivo da velha egreja de D. Affonso Henriques e das principaes transformações, que ella soffreu durante sete seculos e meio; por isso, chamamos a attenção do leitor para a respectiva planta, observando-lhe que os seus differentes tons correspondem a periodos distinctos da construcção.

A primitiva egreja foi de Estylo Romanico do melhor periodo—o secundario—que em geral floresceu no occidente e no centro da Europa no seculo XI. Quando se levantava a Sé de Lisboa, em meiados do seculo XII, já o Estylo Romanico em geral attingira o periodo terciario, preparando a transição para o Estylo Ogival. Este relativo atrazo não deve, comtudo, causar surpreza; póde considerar-se quasi regra geral na evolução da arte portuguesa em relação á das restantes nações centraes da Europa.

Apesar de coberta de horriveis estuques, que a mascaram ridiculamente de Estylo Classico, e das reconstrucções ogivaes posteriores, não encontrámos durante o estudo minucioso, que temos feito d'esta construcção, um só elemento, que possa contrariar a sua classificação no Estylo Romanico secundario.

A planta primitiva era elegante. A nave central, o transepto e capella-mór formavam uma cruz latina. As naves lateraes avançavam, envolvendo a capella mór, isto é, formavam deambulatorio, ou charola. Não é muito frequente esta disposição no Estylo Romanico secundario; mas, evidentemente, a disposição da planta exige-a como condição indispensavel e de elegancia. Alem d'isso, se não é possivel demonstrar directamente a existencia da charola romanica na Sé de Lisboa, na egreja de Alcobaça, sua coéva, a existencia prova-se pelas fortes columnas e arcadas da capella-mór, que abriam, sem a menor duvida, para uma primitiva charola romanica. Não nos parece nada provavel que a charola romanica da Sé tivesse capellas; como não as tinha talvez tambem a primitiva de Alcobaça. N'uma e n'outra egreja, estas capellas provéem de restaurações ou reconstrucções ogivaes.

Planta da SÉ DE LISBOA—Estado actual

Planta da SÉ DE LISBOA—Estado actual

 

Occupando os espaços onde hoje estão as capellas do Santissimo e a de S. Vicente, que abrem para os dois extremos do transepto, existiam provavelmente a sacristia e o thesouro. A estes elementos se reduzia a planta da Sé primitiva, porque o claustro e todos os edificios annexos são de construcção posterior. Escusado será observar que a supposição da existencia de cinco naves na antiga cathedral resulta do erro grosseiro de tomar certos edificios annexos, de que falaremos mais tarde, por naves extremas, hypothese que a simples inspecção da planta não admittiria com a menor probabilidade, quando a existencia das primitivas janelas e da porta, hoje restaurada, da fachada lateral-norte não fosse indiscutivel prova de que a egreja nunca teve mais de tres naves.

A fachada primitiva era formada, como a actual, por duas torres quadradas, massiças e revestidas de fortes botareos. Entre estas torres corria a parte da fachada, correspondente ao côro. A disposição das linhas geraes não foi, pois, alterada pelas restaurações, que aliás estragaram o estylo; com effeito, as torres foram, sem duvida, coroadas de agulhas e as horriveis janelas quadradas n'ellas abertas substituiram, não se póde bem avaliar por que razões, as bellas janelas geminadas romanicas, que ultimamente foram restauradas na torre-norte. As agulhas ou corucheus primitivos, em nossa opinião, não tiveram a detestavel fórma, com que apparecem em gravuras e azulejos posteriores ao seculo XV; naturalmente destruidas por algum terramoto—talvez o de 1384—foram restauradas sob a fórma de elevadas torres quadradas, de muito menor superficie do que a das torres inferiores e cobertas por telhados vulgares de quatro aguas!

A parte central da fachada, comprehendida entre as duas torres, tambem não podia ser em nada parecida com a existente. A rosacea devia existir, bem como o grande arco, dando accesso ao portal da egreja; mas toda esta parte actual é de construcção posterior e do frio e decadente Estylo da Renascença, no seu peor periodo.

Tem-se attribuido as janelas quadradas da fachada, a mesquinha rosacea e o bruto e feio arco do vestibulo á grande restauração, depois do terramoto de 1755; é um erro. Uma gravura franceza do tempo, mostrando o estado das ruinas da egreja depois do terramoto, prova que tudo isto existia antes d'esta catastrophe. Assim, nós suppomos, com o maior fundamento, que todos estes absurdos elementos, bem como o ridiculo coroamento das torres são obras coévas da sacristia, encostada á fachada lateral-sul da primitiva egreja, datando tudo dos começos do seculo XVIII, talvez do reinado de D. João V.

Ruinas da SÉ de LISBOA—Terramoto de 1755

Ruinas da SÉ de LISBOA—Terramoto de 1755

 

Alem d'isso, as torres soffreram restaurações em differentes epocas; a do norte no periodo ogival e depois na renascença manuelina; a do sul foi quasi toda reconstruida depois do terremoto de 1755. N'uma e n'outra, as grandes janelas primitivas foram transformadas em sineiras, fim que primitivamente não tiveram, porque os sinos occupavam uma elevada torre, construida sobre o cruzeiro, que desabou tambem pelo terremoto de 1755.

Fundados n'estes raciocinios, elaborámos o projeto de restauração da fachada, que melhor nos parece traduzir a physionomia especial do Estylo Romanico da velha egreja. Embora essa fachada não seja grandiosa em dimensões e rica em ornamentação, julgamos traduzir a severa solemnidade do estylo e o aspecto de força, que nunca perderam as grandes e massiças torres da Sé, apesar de torturadas por absurdas restaurações e coroadas por platibandas ridiculas, repousando sobre cornijas classicas.

O interior da primitiva egreja deduz-se da respectiva planta, esclarecendo-a com algumas observações, colhidas em investigações directas e sondagens feitas no actual edificio.

A nave central, a capella mór e o transepto, offerecendo quasi a mesma largura, eram cobertas por abobada de volta inteira, nascendo a egual altura; nos quatro arcos do cruzeiro repousava uma grande torre quadrada no exterior, que se elevava muito para cima d'estas abobadas. No interior da egreja esta torre tomava a fórma de um octogono regular, firmando-se em pendentes as paredes, correspondendo aos angulos biselados do quadrado exterior. Em cada uma das faces d'este octogono, rasgava-se uma janela muito alta e estreita, que illuminava a cupula coberta por abobada, gerada pela intersecção de quatro semi-cylindros, lançados entre as faces oppostas do prisma octogonal, isto é, por uma abobada de oito arestas.

Esta abobada da cupula formava o primeiro pavimento da torre, que para cima offerecia no exterior duas ordens sobrepostas de sineiras, tres em cada ordem e em cada face. Segundo a nossa opinião, esta torre não tinha senão um andar, a que fazia pavimento a abobada da cupula. Não nos parece que a espessura dos muros, ainda existentes na base, permittisse a sobreposição de tres abobadas, sendo possivel até que a cobertura da torre fosse de madeira revestida de telhado.

Voltando ao interior da egreja, observaremos que esta disposição particular da cupula octogonal devia ser de excellente effeito architectonico. As naves lateraes tinham as abobadas muito menos elevadas do que a da nave central; mas esta disposição não permittiu o rasgamento de janelas, que directamente illuminassem esta nave, porque por cima das segundas naves foram construidas galerias de egual largura, cujas abobadas em pouco ficavam inferiores á da nave central, não deixando espaço para rasgamento de janelas do clerestory.

Nas paredes da nave central, por cima dos arcos que dividiam as naves, e nas do transepto, corria ao longo da egreja, com excepção da capella mór, um estreito triforio, em communicação directa com as galerias, que acabamos de apontar.

 

SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada principal SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada principal

 

Todas estas disposições foram depois mais ou menos alteradas; assim, por exemplo, no triforio a restauração não só modificou as dimensões como empregou columnas com galba e capiteis classicos! As paredes cobertas por estuques horriveis, fingindo marmore de varias côres, subsistem na actual egreja.

Feixes de grossas columnas romanicas sustentavam os arcos de volta inteira, que dividem as tres naves; mas toda esta parte do edificio está excellentemente mascarada com columnas corynthias, tendo capiteis de madeira, fustes de gêsso e bases de marmore verdadeiro combinado com madeira, tudo, excepto os marmores, imitando tambem marmore! Assim, é impossivel fazer hoje clara idéa d'estes elementos, que o maior idiotismo imaginavel de restauradores em cidade civilisada conseguiu estragar, com grande perda de tempo e dispendio de dinheiro!

A primitiva capella-mór era mais pequena do que a actual de construcção mais moderna, como o indica o tom mais leve da planta; devia ser formada de grandes arcos de volta inteira, repousando sobre fortes columnas romanicas e abrindo na charola.

Apesar da tradição corrente e escripta, que affirma haver na Sé de Lisboa grandes subterraneos, não deparámos ainda com elles nas sondagens e investigações realisadas. Até podemos quasi concluir que, pelo menos, nem existe uma crypta importante; reduzindo-se tudo a pequenas capellas sepulcraes subterraneas, ou carneiros

escavados muito depois da data da construcção do edificio [2].

A illuminação do primitivo templo foi assás perfeita. A nave central recebia luz da rosacea da fachada principal; as segundas naves de janelas e portas abertas nas fachadas lateraes, que vamos descrever; o transepto das rosaceas, rasgadas nos seus dois extremos, não existindo, é claro, as feias janelas rectangulares, que actualmente por baixo d'estas rosaceas abrem para o triforio; finalmente, a capella-mór era illuminada pelas grandes janelas da charola e directamente por outras superiores ao terraço da mesma charola. Alem d'isso, a cupula central com as suas oito janelas devia, tambem, contribuir para derramar bastante claridade no interior do templo.

Foram todas estas aberturas fechadas por vitraes coloridos?

Não nos parece. Na epoca da construcção, os verdadeiros vitraes coloridos eram muito raros, nem ella foi rica e cuidada. Vê-se que D. Affonso Henriques tinha mais fé religiosa do que dinheiro. No periodo do maior emprego dos vitraes, nos seculos XIII, XIV e XV, não é muito provavel que o gosto artistico nacional exigisse este complemento esthetico. Haja vista os martyrios, que inflingiram ao pobre edificio romanico!

As fachadas lateraes eram muito simples. A partir das torres, acima descriptas, a muralha, tendo a altura das naves lateraes e das galerias sobrepostas a estas naves, apresentava-se dividida por botareos pouco salientes, em cujos intervallos se abriam seis janelas todas de volta inteira; as mais baixas e proximas do solo eram grandes, alargando para dentro; por cima d'estas existiam outras muito menores, rasgadas quasi em estreita fresta.

Umas e outras illuminavam as segundas naves. Em terceira linha superior seis janelas abriam para as galerias, sobrepostas ás naves lateraes. No terceiro vão entre os botareos, a contar da torre, pelo menos na fachada-norte, a janela inferior era substituida por uma porta, que foi nos primitivos tempos resguardada por um vasto alpendre, coberto por telhado. Esta porta foi ultimamente restaurada. É muito provavel que na fachada lateral-sul se désse egual disposição; mas essa porta, se existiu, foi inutilisada pela construcção da nova sacristia. Nos lados do transepto viam-se apenas as janelas superiores.

Em face da fachada principal, e terminando em frente das portas lateraes, devia existir um adro, cujos tijolos podémos ainda ver em escavações praticadas junto do monumento.

Eis a descripção summaria da antiga Sé de D. Affonso Henriques. Não era de certo nem grande nem rica; mas, indiscutivelmente, o seu todo devia manifestar os caracteres do Estylo Romanico, a força e a severidade, sem excluir certa elegancia, que ainda hoje se póde notar nos elementos primitivos, embora suffocados e esmagados por estuques, construcções absurdas, umas já desapparecidas, outras que será impossivel eliminar.

Oxalá os restauradores de todos os tempos tivessem procurado conservar ao edificio as feições primitivas, porque n'esse caso Lisboa teria um monumento de Estylo Romanico secundario de certo valor. Assim, nós, as gerações actuaes, temos obrigação de fazer desapparecer pelo menos as vergonhosas excrescencias, restaurando a parte restauravel do edificio, como adeante explicaremos.

Bem cedo começaram as construcções annexas a prejudicar a esthetica do primitivo templo. Vamos seguir as principaes por ordem de relativa antiguidade.

Logo pouco depois da egreja ter sido terminada, foi no rigor da palavra encostada no angulo formado pela fachada lateral-norte e pelo transepto a primeira d'estas construcções, consistindo n'um recinto coberto por abobada de volta inteira, que inutilisou duas janelas inferiores da nave. Este recinto, cujo terraço ficava inferior ás mais elevadas janelas da fachada, abria para o exterior em toda a dimensão da sua secção; não tendo mais janela ou abertura alguma. Todas estas observações podem ser ainda verificadas em elementos existentes.

Qual seria o fim d'este annexo?

Difficil será descobril-o. É possivel que fosse um narthex, ou galilé lateral, aberto mais tarde, talvez um logar de refugio para peregrinos ou viandantes. Sobre este ponto poderá, apenas, fazer-se alguma luz, quando a eliminação dos estuques, que revestem interiormente este recinto e a parte correspondente da egreja, deixar ver se existem alguns vestigios de antigas portas para o transepto ou para a nave lateral-norte.

Depois d'esta epoca, sobre o recinto anteriormente descripto, levantou-se uma grande sala abobadada, em que a ogiva se accentua ja bem claramente. Esta sala, não tendo egualmente janelas na sua frente-norte, era illuminada por uma grande janela ogival, em parte cega, rasgada na parede, que repousa sobre o grande arco do supposto narthex. As duas janelas mais elevadas do edificio principal, que ficaram inutilisadas por esta construcção, acham-se tapadas por tal fórma que, segundo pensamos, não póde existir a menor duvida em não haverem jámais dado communicação da primitiva Sé para a referida sala; apenas se póde admittir, embora a achassemos tambem murada, que esta communicação se fazia por uma janela do transepto, transformada em porta para o triforio. Estas disposições, tanto a do recinto inferior como a da sala sobreposta, comprehender-se-ão claramente, notando na planta a segunda intensidade do tom escuro.

Assim, temos uma sala de importantes dimensões apenas ligada com o interior da egreja pela acanhada galeria do triforio, que a seu turno é servido por uma pessima e estreitissima escada de caracol, encastrada no botareo do transepto! Qual foi o fim d'esta sala?

O problema, porém, complica-se ainda mais. Uma terceira construcção, tendo dois andares correspondentes aos dois pavimentos existentes, veiu encostar-se ás duas precedentes. Devemos observar que propositadamente temos escripto a palavra encostar, porque na realidade os successivos constructores nem se deram ao trabalho de travar reciprocamente os edificios; encostando-os, apenas, uns aos outros, o que permitte que em determinados casos seja possivel ver claridade atravez das separações.

O pavimento inferior d'este novo annexo tinha de certo ligação com a egreja, havendo sido transformada a janela da nave em porta, que ainda actualmente existe; mas no pavimento superior as cousas passam-se por fórma differente. A janela ogival da sala anteriormente descripta foi transformada em porta, que serve os dois compartimentos; porém, a janela da Sé, inutilisada pela nova construcção, essa, encontramo-la nós murada como as duas outras precedentes; e quando a abrimos, por necessidades de serviço e aproveitamento de local, ficámos convencidos, pela perfeição do espesso massiço de silharia e de alvenaria, de que o tapamento era, sem duvida, antiquissimo, se não contemporaneo d'esta inexplicavel construcção.

Assim, como ainda se póde ver, existem duas salas, illuminadas por duas altas frestas, que apenas communicavam com o interior da egreja por duas estreitas escadas de caracol: a primeira, já indicada, a do triforio, a segunda encastrada n'uma especie de botareo, que faz parte da ultima construcção.

Que fins podia ter esta disposição mysteriosa dos dois importantes recintos?

Debalde temos pensado no problema e investigado as pedras, a fim de ver se nos revelam o segredo; em vão temos consultado os eruditos. Apenas, alguem suggeriu a idéa de que, tendo as antigas cathedraes o direito de asylo, isto é, de tornar inviolaveis os perseguidos pelas justiças ordinarias, talvez as salas, tão bem defendidas e mysteriosas, se podessem relacionar com esse direito de protecção. Ahi deixamos posto o problema, que talvez investigações e sondagens mais completas possam mais tarde resolver.

Das tres construcções, que acabamos de descrever e apreciar, a primeira deve datar dos fins do seculo XII e a ultima dos fins do seculo XIII. Eis tudo quanto nos parece ser licito affirmar ácerca da edade d'estes edificios, annexados á primitiva Sé.

Como se deprehende da planta, estas construcções approximaram-se successivamente da porta lateral-norte, que ainda nos fins do seculo XIII abria directamente para a rua, ou terrado d'este lado da Sé. Que esta porta, como dissemos, tinha alpendre coberto de telhado, provam-n'o os vestigios, ainda existentes na fachada do ultimo dos mencionados annexos.

No anno de 1324 falleceu em Lisboa Bartholomeu Joannes, rico mercador de fidalga linhagem franceza, como parece demonstrarem-n'o os brazões e as flores de liz do seu tumulo, deixando em testamento legado especial para ser erecta na Sé de Lisboa uma capella, onde jazessem os seus restos mortaes e os das pessoas, que por elle fossem indicadas. Esta disposição testamentaria originou uma quarta construcção, a de uma elegante capella do Estylo Ogival francez, que foi encostada á fachada lateral-norte, occupando o espaço de duas janelas a partir da torre.

N'estas condições, a porta lateral ficaria encravada, entre as construcções primitivas e a da nova capella; por isso, substituindo o antigo alpendre, o espaço da porta foi coberto por uma abobada. Esta especie de vestibulo abre sobre a rua por um grande arco ogival.

Taes são os edificios, que em successivos seculos foram encostados á fachada lateral-norte da primitiva Sé, mascarando-a por completo.

É claro que em qualquer projecto de restauração ninguem poderá pensar sequer em repôr o edificio nas condições primitivas; muito embora todos estejamos de accordo em que teria sido muito preferivel ter evitado estes acrescentamentos, que lhe prejudicaram a unidade do estylo. Além d'isso, a capella de S. Bartholomeu, apesar da sua pequenez, é um excellente exemplar do ogival secundario. Assim, no projecto de restauração d'esta fachada, attendemos a todos os edificios, aproveitando-os o melhor possivel.

Ainda no seculo XIV, em 1344, um forte terremoto destruiu ou pelo menos arruinou a primitiva capella-mór romanica. A reconstrucção realisou-se, alterando as dimensões d'esta parte da egreja e empregando o Estylo Ogival. As capellas, que guarnecem a nova charola, e o claustro, que não existiam anteriormente, datam da mesma reconstrucção.

Depois, entre esta grande restauração e a que resultou do terremoto de 1755, devem ter-se realisado muitas outras de secundaria importancia e principalmente as obras, que estragaram o edificio. Assim, por exemplo, as janelas quadradas das torres, substituindo as lindas janelas geminadas primitivas, a rosacea, as sacadas e o arco do frontispicio, bem como o edificio da sacristia e da sala capitular, que mascarou grande parte da fachada lateral-sul, parece-nos datarem dos começos do seculo XVIII, pelas qualidades do estylo; sendo, portanto, anteriores ao terremoto de 1755, como o prova a gravura das ruinas, a que já nos referimos.

Devem pertencer tambem a este periodo as construcções dos vergonhosos pardieiros de todas as ordens, especies e fins, que mascaravam completamente a fachada lateral-norte, subindo até elevada altura entre os botareos da respectiva torre, e a inutilisação da bella porta lateral e do respectivo vestibulo, substituidos por uma horrivel porta, rasgada na capella de Bartholomeu Joannes.

O terremoto de 1 de novembro de 1755, finalmente, produziu profundas ruinas na egreja e no claustro da Sé. Metade da torre do sul desabou, bem como a torre sineira que veiu esmagar a abobada da nave central e a da capella-mór. A memoria da parte principal d'estas ruinas foi conservada n'uma gravura franceza do tempo, que nos pareceu interessante reproduzir. Durante muitos annos estas ruinas permaneceram no meio da cidade, até que em 1767 começaram as grandes obras de reconstrucção.

Teria sido esta a occasião azada para a restauração completa da Sé, não na sua fórma primitiva, que já não seria possivel renovar; ao menos, porém, nos Estylos Romanico e Ogival que se ligaram intimamente em varios pontos do edificio. As tendencias da epoca, que já começavam a condemnar estes bellos estylos como barbaros e gothicos, a insciencia dos restauradores, a pressa e talvez a carencia de dinheiro deram os resultados, que ainda podemos ver.

A abobada da nave central foi simulada em madeira e estuque, abrindo se-lhe medonhos oculos para melhor illuminar a egreja. Na capella-mór procedeu-se por fórma parecida. A egreja foi por toda a parte coberta de espessas camadas de estuque pintado, mascarando os velhos elementos romanicos e ogivaes com elementos classicos absurdos e desordenados. Assim, se o edificio da Sé, olhado exteriormente, causava a impressão, principalmente na fachada lateral-norte, de uma sobreposição de casebres, visto no interior, produz a desagradavel surpreza de uma miseria, que pretende ostentar riqueza, e de um cahos de fórmas disparatadas e deselegantes, que resultam da desharmonica combinação das linhas principaes dos estylos christãos mais perfeitos com

elementos classicos, exigindo linhas geraes differentes[3].

Depois de termos dado succinta idéa, porque outra não comportam os quadros d'este livro, do primitivo estylo da Sé Patriarchal de Lisboa e das modificações mais importantes, que este edificio soffreu atravez dos sete seculos da sua existencia, em curtos periodos diremos as nossas opiniões ácerca da respectiva restauração, de que ultimamente fomos incumbidos e tentamos executar com os melhores criterios estheticos.

Embora a Sé de Lisboa, nem pelas suas dimensões nem pela grandeza do estylo, possa ser considerada importante monumento romanico, no estado primitivo, como acabamos de observar, não deixava de manifestar algum valor architectonico.

Restaurações successivas e barbaridades de construcção em seculos differentes reduziram-n'o ao estado lastimoso, em que se conservou por longos annos e em parte se encontra ainda n'este momento. A reconstrucção e restauração mais ou menos radical do antigo monumento é, portanto, quasi um dever de patriotismo.

Pensar em lhe dar a feição primitiva, apurando o Estylo Romanico secundario em que foi construido, seria uma verdadeira loucura; no conjunto do edificio os elementos ogivaes são mais importantes do que os romanicos e, em regra, acham-se em melhor estado de conservação.

A restauração, a nosso ver, deve começar pelas fachadas. A principal póde, sem duvida, assumir novamente a sua expressão romanica, manifestando certa grandeza, se as suas torres forem convenientemente coroadas de agulhas e substituida a parte central, entre as duas torres. Esta obra é indispensavel e uma das primeiras que deve ser realisada.

SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada lateral-norte SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA—Restauração da fachada lateral-norte

 

A fachada lateral-norte ficará sempre uma juxtaposição de edificios; mas a indiscutivel belleza da Capella de Bartholomeu Joannes desculpará até certo ponto esta agglomeração de estylos. Pelo que respeita á fachada-sul, não haverá remedio senão conservar o annexo onde estão a sacristia e a sala capitular, melhorando o seu frio e pobre Estylo da Renascença.

O claustro e as respectivas capellas são obras de restauração facil, embora dispendiosa, attendendo ao estado de profunda ruina em que se encontram. O claustro não tem, na realidade, grande valor architectonico; mas para elle abre uma vasta sala de elevada abobada artezonada, que primitivamente devia ser muito bella. Diz-se que n'esta sala foi instituida a primeira Misericordia nacional. Mais tarde, talvez em principios do seculo XVIII, foi transformada em capella no Estylo da Renascença, onde abundavam os mosaicos florentinos no arco, nas paredes da abside e no altar. Suppomos que esta capella foi primitivamente a sala capitular.