A Bomba de Hiroxima

Gordon Thomas · Capítulo 2 de 10 · parte 3/6

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A Bomba de Hiroxima

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

O comando dele ia assumindo proporções maiores. Além do 393.°, ele agora tinha também sob suas ordens o 320.° Esquadrão de Transporte de Tropas, o 390.° Grupo de Serviço Aéreo, o 603.° Esquadrão de Engenharia Aérea e o 1027.° Esquadrão de Material Aéreo.

Essas novas unidades transportavam equipamentos e suprimentos e serviam o 393.º. Para policiá-las, havia a 1395º, Companhia de Polícia Militar, que contava com o apoio de 50 agentes do Projeto Manhattan. Sob as ordens de Uanna, os agentes continuavam tentando fazer com que os aviadores falassem de seu trabalho. Mas raramente o conseguiam. A notícia já se espalhara. Se Wendover era ruim, o Alasca era pior.

Mas isso não resolvia os problemas relacionados com o comando diário de cerca de 1.200 homens. Houve uma erupção de doença venérea. Os homens da segurança estavam preocupados com os casos de homens da base com as mulheres casadas locais, cujos maridos estavam servindo longe. Volta e meia ocorriam brigas em Salt Lake City envolvendo pessoal da base.

Numa noite memorável, no Chi Chi Club, um embriagado Capitão Eatherly deu uma surra num major de infantaria que o mandara retirar-se do local. Eatherly escapou pela porta dos fundos, no momento em que os PMs entravam pela frente.

Desta vez, o capitão conseguiu escapar à prisão. Mas estava sendo regularmente convocado ao gabinete de Tibbets para dar explicações sobre seu mau procedimento. Havia diversas multas de trânsito e Tibbets obrigou-o a pagar. Outro incidente envolvia a licença para bebida. No Utah, é necessário uma licença estadual para se comprarem bebidas alcoólicas. Cada licença dava direito a comprar uma garrafa por semana. A polícia encontrou Eatherly com 15 licenças. Tibbets deu um jeito de livrar seu piloto da encrenca.

O capitão continuou a passar muitas de suas noites de folga jogando a cem dólares o lance, no Stale Line Hotel, em Wendover. Houve ocasiões em que ele perdeu — e recuperou — o saldo de um mês em poucas horas. Os agentes de segurança comunicavam o fato a Uanna, que se queixou a Tibbets:

— O sujeito é um psicótico.

Ao que Tibbets respondeu:

— É possível. Mas é também um piloto de primeira. E isso é tudo o que importa.

Eatherly demonstrou sua perícia excepcional como piloto em meados de novembro. Ao se aproximar da pista, um dos interruptores de seu B-29 entrou em reversão, uma série falha mecânica. O B-29 começou a girar, até ficar totalmente de lado. O piloto calmamente endireitou o aparelho e fez um pouso perfeito.

Naquela noite, perdeu uma quantia vultosa num jogo de pôquer. Mas não ligou a menor importância à perda, insinuando que possuía um imenso rancho no Texas cuja renda daria para pagar de sobra todas as suas dívidas. Afirmou também, que deixara o rancho aos 17 anos para tornar-se piloto e que já lutara contra os japoneses no Pacífico. Contava tais histórias com absoluta convicção.

Ninguém desconfiava de que não passavam de sonhos, os primeiros sinais da instabilidade que acabariam levando Claude Eatherly a internação em instituições de tratamento mental. Os outros aviadores percebiam apenas que ele demonstrava um grande desejo de ser famoso.

13

 

O Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama dispunha de uma hora inteira para caminhar do Monte Futaba, onde estava localizada sua bateria antiaérea, até o Castelo de Hiroxima. Ali, deveria participar da análise mensal das defesas da cidade. Não se esperava que ele falasse coisa alguma, devendo limitar-se a escutar os comandantes locais discutirem a situação. O tenente duvidava de que algum deles sequer soubesse seu nome. Isso não o incomodava. Seria suficiente que acontecesse como no mês anterior, quando as minutas da reunião haviam registrado a “eficiência e estado de alerta da bateria do Monte Futaba durante os exercícios”.

Já estavam longe os dias em que ele chegava para a reunião num carro partilhado com outros oficiais inferiores. Agora, somente os oficiais superiores tinham direito a usar a preciosa gasolina, e mesmo assim exclusivamente em atividades militares.

Yokoyama não se importava com a caminhada. Era a sua maneira de manter-se em contato com a situação diferente na cidade.

 

* * *

 

A sucessão de placas de letras pretas orientando o tráfego militar para o porto há muito que estava desbotada. Fazia quase três anos que o Comandante-em-Chefe da Esquadra japonesa, Almirante Isoroku Yamamoto, embarcara em sua nave-capitânia, ancorada na Baía de Hiroxima juntamente com outros navios de guerra, para ouvir os primeiros informes pelo rádio de suas forças que haviam atacado Pearl Harbor e a Malaia Britânica. Alguns dias depois, ele recebem a notícia do afundamento do Prince of Wales e do Repulse, ao largo de Singapura. Mas o reverenciado almirante não mais existia. Morrera em 1943, quando o avião em que viajava fora derrubado por caças americanos. Também não havia mais nenhum navio de guerra no porto de Hiroxima.

Não se viam mais, também, os caminhões carregados de tropas percorrendo as ruas sinuosas da cidade até o gaisenkan, o “Portão do Retorno Triunfante”. Quase todos os soldados lutando no Pacífico tinham embarcado através do gaisenkan de Hiroxima, que agora estava vazio, esperando pelo retorno triunfante das tropas.

Três anos atrás, o porto ficara repleto de milhares de civis, entoando exortações às tropas que partiam. Agora, os únicos civis na área que não trabalhavam diretamente para a administração portuária eram os que cuidavam das pequenas hortas cultivadas nos espaços entre os guindastes e os armazéns.

Por toda parte, a cidade estava repleta de cartazes exortando a população a cultivar mais legumes, até mesmo a cultivar ervas. Havia também avisos sobre as severas penalidades a serem aplicadas aos que se dedicassem ao mercado negro ou espalhassem rumores irresponsáveis.

As ruas estreitas de Hiroxima sofreram mudanças profundas no decorrer do último ano. Havia menos caminhões circulando e não se avistava nenhum táxi. Além dos bondes, o único meio de se deslocar de um lado para outro era de bicicleta ou a pé.

Os bares serviam um chá verde sem gosto, frequentemente servido ainda momo, por causa da escassez de combustível. As bolas de coque para os fornos hibachi eram regularmente umedecidas na agua, a fim de queimar por mais tempo. Alguns donos de restaurantes haviam idealizado um método de obter mais combustível. Faziam uma bola com as páginas do jornal da cidade, o Chugoku Shimburt, mergulhando-a na água e queimando junto com o coque. Quatro páginas do jornal eram suficientes para ferver meio litro de água em 10 minutos.

Havia milhares de pequenas hortas improvisadas. Punha-se uma camada de terra nos telhados lisos e ali se cultivavam vagens, cenoura, abóbora, espinafre e repolho chinês. Barris de madeira, tambores de óleo, até mesmo panelas velhas, eram usados para se cultivar alho-porro e rabanete. Associações de bairros tinham sido formadas para cuidar da distribuição de rações, entregues apenas aos que tinham os tíquetes indispensáveis. Havia também tíquetes para tratamento médico e dentário gratuito. Durante a primeira semana de dezembro, cada associação distribuiría às famílias sob seus encargos um bolo de vagem, uma sardinha ou uma cavala pequena, dois repolhos chineses, cinco cenouras, quatro berinjelas e meia abóbora. O talo da abóbora era bastante valorizado. Era cortado em fatias finas e cozido como um legume extra.

Brotos de amora eram descascados e comidos. A labaça era encharcada em salmoura e usada como substituto para o arroz. Os juncos do Rio Ota eram cortados e cozinhados. As larvas encontradas em arbustos frutíferos e figueiras eram fervidas e usadas como uma imitação de molho de soja. Insetos de vários tipos eram assados como alimentos.

Os jardins de infância e as escolas primárias estavam fechados, alunos e professores evacuados para o interior, a fim de evitar os ataques aéreos e atenuar os problemas de racionamento da cidade.

As mulheres de Hiroxima nunca tinham parecido tão feias. A maioria se vestia agora como os homens, calça comprida e uma blusa abotoada até o pescoço. O governo estimulava a adoção desse traje.

Somente as mulheres da zona do meretrício continuavam a usar quimonos. Havia milhares de prostitutas nos bordéis infestados de ratos. Mas tinham ficado para trás as noites em que 10 mil soldados de uma só vez, a caminho do Pacífico, enxameavam pela zona.

Para aqueles que continuavam em Hiroxima até mesmo a simples tarefa de lavar roupa era extremamente desagradável. O único sabão disponível era feito de farelo de arroz e soda cáustica, que provocava feridas nas mãos. Pó para os dentes era uma mercadoria que só se encontrava agora no mercado negro. O substituto era uma pasta salgada de gosto horrível.

Os cinemas e teatros eram bastante populares. Os filmes e peças eram geralmente de qualidade inferior, mas o calor coletivo de várias centenas de pessoas reunidas era uma agradável experiência.

Muitas pessoas resolviam o problema de se manterem aquecidas esquentando pedras ou tijolos em seus fogões, envolvendo-os em jornais velhos e mantendo tais embrulhos perto do corpo. À medida que as pedras iam esfriando, os jornais iam sendo removidos, um a um. Quando o calor finalmente se dissipava, as pedras eram novamente esquentadas.

Yokoyama não tinha a menor dúvida de que a cidade estava sabendo resistir a seus infortúnios. E quem quer que o contestasse, ele tinha uma resposta na ponta da língua: apesar de tudo, Hiroxima estava intacta.

O tenente continuou a caminhar na direção do castelo. A sua frente, soaram gritos estridentes. Yokoyama saiu correndo. Virando a esquina, viu uma casa desabar na rua. Instintivamente, olhou para o céu. Não havia aviões.

Através da poeira, avistou um grupo de jovens do Corpo Patriótico Voluntário, meninos e meninas trazidos dos campos para servirem como trabalhadores. O grupo reuniu-se em torno da casa adjacente ao prédio desabado. Alguns começaram a examinar as fundações de casa, outros prenderam uma corda na viga-mestra. Um dos rapazes informou a Yokoyama que estavam criando um espaço vazio para evitar a propagação de incêndios em caso de ataque aéreo.

Esse trabalho de demolição já começava a abrir brechas em muitas partes de Hiroxima. Não havia tanta convulsão na cidade desde a catastrófica inundação de 6 de agosto de 1653. Nesse dia, centenas de casas haviam sido arrancadas de suas fundações pela natureza. Agora, jovens entusiasmados estavam realizando o que tufões subsequentes não conseguiram fazer.

Para Senkichi Awaya, o Prefeito de Hiroxima, a ordem de criar espaço vazios para impedir a propagação de incêndios era a mais difícil que já executara, desde que assumira o cargo, em julho de 1943. Se a ordem tivesse partido das autoridades militares, o servidor civil de 51 anos ter-se-ia oposto vigorosamente.

Mas a ordem viera do Departamento do Interior, em Tóquio.

Alguns dias antes, Awaya telefonara para o Castelo de Hiroxima e informara o oficial de serviço da ordem. Quase que imediatamente, o comando militar regional emitira instruções sobre os setores da cidade que deveriam ser demolidos, pondo à disposição do prefeito soldados para supervisionarem e ajudarem no trabalho.

Durante aquela manhã de 6 de dezembro, as reuniões do Prefeito Awaya foram pontuadas pelo estrondo dos prédios desabando. Finalmente, quando quase não conseguia mais ouvir a própria voz, ele se levantou e foi até a janela de seu gabinete, no segundo andar, contemplando as nuvens de poeira que se erguiam nas proximidades da Ponte Aioi. Perguntou-se se até mesmo a ponte, uma das mais admiráveis da cidade, não acabaria sendo também demolida, por ordem das autoridades militares.

Foi tranquilizado por seu principal assistente, o pequeno e impecavelmente vestido Kazumasa Maruyama. Sem as pontes, a movimentação do Exército dentro da cidade seria drasticamente prejudicada. Numa emergência, haveria necessidade de deslocar as tropas com o máximo de rapidez.

Os dois ficaram observando a destruição. Diante do prédio da Prefeitura já se estava formando uma fila dos donos das casas demolidas, procurando receber indenizações e novas acomodações. Maruyama recordou ao prefeito quão limitada era a ajuda que a cidade podia oferecer.

— Podemos dar-lhes apenas uns poucos ienes.

— Apenas três anos... e a situação já é tão crítica! E tudo por causa do Exército!

Se o Prefeito Awaya pronunciasse tais palavras em público, estaria correndo o risco de prisão, até mesmo de execução. Mas em sua sala confortavelmente mobiliada, ele e Maruyama conversavam frequentemente sobre tais assuntos. Nos 16 meses em que vinham trabalhando juntos, os dois homens se haviam revelado pacifistas devotos e ferrenhos antimilitaristas.

De origem consideravelmente diferente, já que Awaya vinha da classe média superior, enquanto Maruyama era egresso das classes proletárias, os dois estavam ligados por fortes laços pessoais.

O prefeito fora o intermediário de Maruyama durante as delicadas negociações de seu assistente com os pais de sua futura esposa. Como um devoto cristão, um dos muitos de Hiroxima, Awaya tivera dificuldade em enfrentar as negociações complexas e discussões detalhadas, parte integrante de um casamento japonês. Mas o prefeito conseguira celebrar o contrato de casamento para satisfação de todas as partes envolvidas.

Awaya desejava que a esposa e os quatro filhos, que continuavam em sua casa em Tóquio, pudessem estar ali em sua companhia. Quando ele se mudara para Hiroxima, a família continuara em Tóquio para que os estudos das crianças não fossem prejudicados.

Ele era um dos prefeitos mais populares que a cidade já tivera; incorruptível, facilmente acessível e enérgico no tratamento dos casos de injustiça. Mas sabia estar sob suspeita por ser cristão e não ignorava que já haviam sido feitas tentativas para desmontar sua equipe. Somente ali, trancado em seu gabinete com Maruyama, ele se atrevia a dizer o que pensava.

Naquela manhã, um tópico de conversa familiar foi novamente levantado, o que Awaya chamava de “o terrível declínio de nossa cidade, que pode ser datado da loucura dos militares em showa quinze”, uma referência aos acontecimentos de 1941.

Dentro de 20 dias, a 28 de dezembro, o reinado de showa de Hirohito entraria em seu 19.° ano. Os dois concordavam que showa era agora um nome ironicamente inadequado. (A palavra significa “paz iluminada”.)

Awaya levantou um tema que o preocupava cada vez mais:

— Talvez venhamos a pagar muito pelos erros que foram cometidos.

Ambos sabiam que a cidade não estava preparada para se defender de um ataque aéreo. Os abrigos antiaéreos eram insuficientes, não havia pressão suficiente nos hidrantes, os poucos caminhos para evacuar a cidade poderiam ficar facilmente congestionados.

O prefeito achava também que os espaços que estavam sendo abertos para impedir a propagação de incêndios não constituiríam uma proteção adequada.

— Todas as áreas entre esses espaços podem ser consumidas pelas chamas até o fim. Tais espaços só servirão para evitar que a cidade seja inteiramente destruída de uma só vez.

Mas havia pelo menos um aspecto que Awaya considerava favorável:

— Os rios que dividem nossa cidade são excelentes barreiras naturais para impedir que os incêndios se alastrem. E se for necessário, os habitantes podem refugiar-se nesse rios para se protegerem do calor gerado pelos incêndios.

 

* * *

 

Com 400 anos de existência, construído numa elevação e cercado por um fosso, o Castelo de Hiroxima era o centro de um vasto complexo militar. Dentro de sua jurisdição, estavam os quartéis- generais divisionais e regionais, contando com um efetivo total de 40 mil homens. A área abrangia também uma escola de treinamento de infantaria, um hospital militar e depósitos de munições e suprimentos. Sob a jurisdição do castelo estava também o quartel- general da defesa civil, a unidade responsável pelo alerta à cidade em caso de ataque aéreo, e o comando central de combate aos incêndios para as baterias antiaéreas.

Havia também na área dezenas de pequenas fábricas que produziam armamentos. As maiores estavam localizadas nas margens dos rios.

As visitas de Yokoyama ao castelo proporcionavam-lhe uma confirmação visível do poderio do Exército. Havia sempre à mostra fileiras de peças de campanha e veículos blindados. A disposição era otimista dentro do castelo, que há quase 100 anos era ocupado pelo Exército. Oficiais e soldados falavam apenas das grandes vitorias iminentes. Ninguém comentava os invólucros de bombas que eram agora fabricados com ligas de metal de qualidade inferior, ou os tanques de combustível dos veículos blindados quase vazios.

A disposição dos oficiais superiores durante a reunião de análise das defesas da cidade foi a mais exuberante possível. Eles bateram na mesma tecla: Hiroxima, como as demais cidades japonesas, eslava preparada para receber o inimigo. E todos aplaudiram, quando o oficial-comandante declarou:

— Que os bombardeiros americanos venham... e venham depressa! Eles cairão do céu como moscas, alvejados por nossos canhões!! — Correu os olhos pela sala, detendo-se no grupo de jovens oficiais no comando das baterias antiaéreas, entre os quais se encontrava Yokoyama. — Vocês terão a honra de desferir os primeiros golpes. O inimigo é arrogante. Pensa que pode penetrar em nossos céus impunemente, para bombardear nossas mulheres e filhos Mas vai descobrir que isso é impossível. Não falhem! Repetiremos a vitória de Pearl Harbor!

 

14

 

Em Tóquio, o Major-General Arisue começava a apresentar mais de tensão, o rosto um pouco mais pálido, as olheiras um pouco mais escuras. Estava sofrendo de falta de sono, refeições adequadas e ar fresco. Os dois últimos meses haviam sido devastadores para o seu vigor.

O contato de Lisboa não conseguira fornecer mais detalhes sobre o misterioso projeto de guerra americano. E sem detalhes mais concretos, Arisue não poderia dar as informações necessárias a seu agente no Brasil, que já estava pronto para se infiltrar nos Estados Unidos.

Além disso, seu Departamento estava sendo cada vez mais pressionado pelo Alto Comando. Pediam informações urgentes sobre os B-29 que haviam começado a atacar Tóquio e outras cidades japonesas. A chegada dos gigantescos bombardeiros espantara os japoneses. Jamais haviam visto aviões tão grandes, tão velozes e tão bem armados. O Alto Comando queria informações sobre as bases de onde decolavam. Arisue apontara as Marianas, amaldiçoando a ausência de espiões japoneses nas ilhas. Não tinha condições de responder a perguntas específicas sobre o número de esquadrões de bombardeiros ali baseados, o sistema de abastecimento com que contavam, todas as informações, em suma, que permitiríam fazer uma avaliação acurada da força de ataque dos americanos.

Seus postos de escuta especiais não estavam descobrindo nada de importante, as breves conversas entre os pilotos inimigos que sobrevoavam o Japão. As defesas de terra não estavam conseguindo derrubar os gigantescos B-29. O chefe de interrogatórios de Arisue, Tenente-Coronel Oya, nem mesmo estava conseguindo fazer com que os poucos aviadores americanos capturados prestassem grandes informações.

O último deles, Coronel Brian Brugge, começara a ser interrogado por Oya logo depois de ser derrubado, nove dias antes, a 3 de dezembro. Brugge era um prisioneiro importante, já que era o subchefe do estado-maior do 73.° Esquadrão de Bombardeiros, com base em Saipan.

Segundo Oya, o obstinado oficial de carreira americano, saído de West Point, recusara-se a cooperar.

— Nós o interrogamos exaustivamente, mas ele não quis falar. Posteriormente, começou a sofrer de desnutrição, pois não gostava da comida japonesa. E acabou morrendo.

Arisue ficara angustiado pelo fato de seu exuberante interrogador não ter conseguido extrair qualquer informação útil do oficial americano capturado. E quando se encontrava mais deprimido, sabendo que sua reputação estava sendo vigorosamente contestada em determinados escalões, Arisue recebeu informações inquietantes.

Há alguns dias que ele sabia que seu arquirrival, o Serviço Secreto Naval, estava em contato com um banqueiro sueco, Per Jacobsson, em Berna, Suíça. Sabia que o objetivo era utilizá-lo para fazer contato com os americanos, na esperança de se obter uma paz negociada.

Para os japoneses, havia uma diferença fundamental entre uma paz negociada e a rendição pura e simples. Mesmo assim, a primeira reação de Arisue fora a de denunciar os conspiradores. Mas a cautela o impedira. Entre os conspiradores havia certamente oficiais da Marinha das mais altas patentes. Se não conseguisse apresentar provas, estaria perdido. De qualquer maneira, não conseguia deixar de pensar em sombrias perspectivas. E se o Japão não pudesse ganhar a guerra? E se uma paz negociada fosse a única solução?

Até dois meses antes, tais pensamentos seriam simplesmente inconcebíveis para Arisue. Mas desde então o vinham atormentando. Pediu relatórios da situação. Conversou com oficiais do Estado- Maior. Estudou projeções das intenções do inimigo. Para qualquer lado que se virava, deparava com uma verdade inevitável: a guerra estava indo de mal a pior. O Japão, como ele diria mais tarde, “carecia de tudo, menos de coragem”.

Ao cair da noite, o general chegara à conclusão de que não havia a menor possibilidade de o Japão conquistar a vitória final. Mas sabia também que o país não estaria derrotado enquanto continuasse a lutar.

Pensando assim, Arisue decidiu, sem consultar a ninguém, que deveria também preparar o caminho para uma paz negociada. Sabia que, se fosse descoberto, seria considerado traidor e executado. Mas naquela mesma noite já estava tomando as primeiras providências para estabelecer um vínculo em Berna com Allen Dulles, diretor europeu do OSS (Office of Strategic Services — Escritório de Serviços Estratégicos), a agência americana de informações.

 

15

Sentado numa escrivaninha em sua suíte no Carlton Hotel, a alguns quarteirões da Casa Branca, o financista Alexander Sachs não dispunha de tempo para ler os jornais ou escutar os programas de rádio a respeito do terceiro aniversário de Pearl Harbor.

Sachs, o homem que fora o instrumento para alertar o Presidente Roosevelt para a possibilidade de se construir armas atômicas, estava prestes a entrar novamente em cena.

Contudo, para o financista e para milhões de americanos, 7 de dezembro era um dia em que os meios de comunicação eram particularmente atraentes. Os comentaristas repisavam no mesmo tema ao recordarem Pearl Harbor: o país não podia perdoar nem esquecer a traição do Japão, o “Dia da Infâmia” teria que ser vingado.

Consideravelmente mais bem equipadas em terra, mar e ar, as forças americanas estavam prestes a cercar o inimigo. A Força Aérea japonesa parecia quase liquidada. Se os aviões kamikazes ainda semeavam o terror entre aqueles que tinham de enfrentá-los, em quantidades crescentes, os jornais tratavam de reduzir a importância dos aviões-suicidas, afirmando que não passavam de um fenômeno temporário, um último esforço de um inimigo desesperado.

O escárnio da Rosa de Tóquio, “Venham pegar-nos!”, estava agora recebendo uma resposta confiante das emissoras de rádio americanas:

— Estamos indo, Rosa, estamos indo!

Ninguém tinha dúvidas de que a juventude americana pagava um alto preço pela jornada até o covil da Rosa de Tóquio. Uma média de cinco mil americanos morria todas as semanas no avanço inexorável pelo Pacífico. Mas os jornais tratavam de ressaltar que as baixas do inimigo eram ainda maiores. A decisiva batalha de aviões decolando de porta-aviões ao largo de Guam, tornara-se conhecida como “O Grande Tiro ao Alvo das Marinas”. A perda das ilhas havia custado também aos japoneses 50 mil homens.

A disposição da América naquela manhã era inflexível. O inimigo, nas palavras de um comentarista de rádio, “deve ser golpeado com todos os recursos de que dispomos”.

Alexander Sachs sabia que “todos os recursos de que dispomos” iriam em breve incluir uma bomba atômica. Cinco anos depois de pedir a Roosevelt que autorizasse a construção da bomba atômica, Sachs queria agora que o Presidente fixasse rigorosas restrições sobre a maneira e a ocasião em que a bomba seria usada.

O financista estava trabalhando com o grupo de cientistas que começara a ter dúvidas sobre a utilização da bomba. Entre eles estavam Albert Einstein e Leo Szilard, que, em 1939, haviam defendido tenazmente a necessidade de a América equipar-se com um arsenal atômico. Agora, alegavam que a situação mundial mudara. A capacidade nazista de produzir bombas atômicas não mais existia. Achavam que o Japão poderia ser derrotado por armas convencionais. Qualquer vantagem militar que a América pudesse ganhar com o uso das bombas nucleares seria sobrepujada pelos prejuízos políticos e psicológicos. Se os Estados Unidos fossem os primeiros a lançar a bomba, os danos para o prestígio americano seriam incalculáveis, argumentava Szilard. Se a América lançasse a bomba, previa Einstein, haveria uma corrida para os armamentos atômicos em escala mundial.

Roosevelt rejeitara tais argumentos. Talvez pensasse que os cientistas subestimavam a capacidade do inimigo de continuar lutando, sob quase todas as circunstâncias.

Sachs passara alguns dias angustiantes, elaborando um esboço para sua proposta surpreendente. Mas agora, em sua letra impecável, conseguira finalmente escrever as condições que acreditava que Roosevelt deveria exigir antes de a bomba ser lançada.

 

* * *

Depois de um teste bem-sucedido, devem-se adotar as seguintes providências:

a) uma demonstração experimental perante um grupo de cientistas de reputação internacional, de todos os países aliados e de países neutros, além de representantes das grandes religiões;

b) um relatório sobre a natureza e alcance de arma atômica deve ser preparado pelos cientistas e outros representantes que presenciarem a demonstração;

c) posteriormente, os Estados Unidos e seus aliados no Projeto devem comunicar a seus grandes inimigos na guerra, Alemanha e Japão, que haverá um bombardeio atômico numa área específica, dando-se um prazo limite para a evacuação de toda vida humana e animal da área;

d) depois de provada a eficácia do bombardeio atômico, deve se apresentar um ultimato para a rendição imediata do inimigo, com a advertência de que qualquer resistência sujeitaria seus países e habitantes à aniquilação atômica.

 

* * *

 

Sachs passou mais de uma hora a sós com o Presidente Roosevelt Não foi feito qualquer registro da conversa.

Alguns meses depois, quando Roosevelt estava morto, Sachs iria declarar que o Presidente aceitara suas propostas. A implicação de tal declaração era clara: os que eram a favor do uso da bomba haviam mais tarde persuadido o Presidente a mudar de idéia. É mais provável que Roosevelt, um político hábil, tenha levado Sachs a acreditar naquilo que queria ouvir.

Groves achou que a sugestão de Sachs, pensando que Hitler e os militaristas japoneses poderiam ficar impressionados com uma explosão em alguma área distante de seus territórios, era extremamente ingênua. Além disso, a proposta do financista acabava totalmente com o elemento surpresa, que o general considerava essencial. O diretor do Projeto Manhattan sempre argumentara que o inimigo, se avisado de antemão, iria desfechar um contra-ataque eficaz, destruindo o avião que transportava a bomba atômica, em combate aéreo ou por fogo antiaéreo.

Seja como for, o fato é que a 7 de dezembro os cientistas que trabalhavam no Projeto Manhattan estavam convencidos de que os japoneses não estavam adiantados o bastante em Física teórica e tecnologia para poderem fabricar uma bomba atômica. Portanto, argumentavam alguns, seria “inconcebível” usar a arma contra o Japão.

As possibilidades pareciam remotas. Mesmo assim, os cientistas mais radicais estavam planejando novas estratégias para deter o projeto.

 

16

 

A 17 de dezembro, os cinco esquadrões em Wendover foram formalmente unificados sob o comando de Tibbets, como o 509.° Grupo Integrado, adido à 315.a Brigada Aérea de Bombardeio, da Segunda Força Aérea. O efetivo do grupo era de 225 oficiais e 1542 praças e sargentos.

Ferebee e Van Kirk integraram o estado-maior do QG do 509.º como bombardeador e navegador do grupo, respectivamente. Raramente voavam agora, passando quase todo o tempo preparando e analisando programas de treinamento. Quando por acaso voavam, geralmente o faziam com Lewis, substituindo o bombardeador e o navegador habituais dele.

A tripulação de Lewis continuava a registrar os melhores índices de vôo. Os principais concorrentes eram a tripulação de Eatherly e a tripulação N.° 15, comandada pelo efervescente Major Charles Sweeney.

Beser gostava de voar com Sweeney, “por causa da maneira como ele brincava com todo mundo”. Beser estava julgando cuidadosamente todos os pilotos, pois “o dia se aproximava em que teria de confiar minha vida a eles”.

O oficial de radar cada vez simpatizava mais com Tibbets. Adivinhara, corretamente, um homem tímido, por trás do comandante altivo. Descobriu que Tibbets tinha um problema conjugal e chegou à conclusão de que ele “só se sentia realmente feliz no ar, quando se mostrava magnífico”.

Beser achava que Lewis de vez em quando se comportava em terra como “um garoto travesso, embora se mantivesse calmo quando estava voando”.

Van Kirk e Ferebee foram classificados por Beser como “profissionais que nunca tinham quaisquer problemas”.

 

* * *

 

Naquela manhã de dezembro, a 10 mil metros de altitude, sobre a área de bombardeio no Mar de Salton, Tibbets e Ferebee estavam tentando resolver um problema que os preocupava há uma semana.

O bombardeador não estava conseguindo acertar todas as desarmadas bombas de exercício no alvo, reduzido agora a um círculo de menos de 100 metros de diâmetro. Parecia não haver qualquer razão plausível para que algumas bombas caíssem dentro do círculo, enquanto outras não.

Tibbets estava preocupado e recordou a Ferebee por que a precisão era tão importante.

— Quando chegar o momento, Tom, teremos que chegar o mais perto possível do alvo. Não há possibilidade de se usar o radar, porque ainda é muito incerto. Assim, a operação tem que ser visual. Você precisa avistar o alvo e depois acertar bem na mosca. Isso significa que, nos exercícios, temos que acertar todas as vezes dentro do círculo.

Tibbets decidira participar do vôo de treinamento porque desejava descobrir o motivo por que os lançamentos mostravam-se tão irregulares. O tempo estava perfeito, com céu e vento facilmente previsível. Com Lewis no comando, aproximando-se do PA num curso firme, Tibbets ficou observando Ferebee inclinado sobre o visor Norden.

O visor fora totalmente desmontado e novamente montado, de forma meticulosa. Em termos mecânicos, era um instrumento perfeito.

Ferebee informou que tinha o PA no visor. Levantou-se um pouco do assento para aproximar mais o rosto do visor. Podia avistar lá embaixo o círculo do alvo. Satisfeito, ele novamente se acomodou no assento, com o rosto ainda grudado no visor.

— Lançar bomba!

Lewis fez a volta obrigatória de 155 graus. Quando o controle de terra comunicou que a bomba chegara ao solo, o B-29 estava a quase 14 quilômetros de distância.

A bomba caíra fora do círculo.

Tibbets ordenou a Lewis que voltasse novamente ao PA. Disse n Ferebee que repetisse suas ações. Observou atentamente, enquanto o bombardeador localizava o alvo pelo visor. No último instante, Ferebee levantou-se novamente do assento.

Tibbets gritou:

— É isso!

Ele resolvera o problema. No momento crucial, Ferebee, como qualquer outro bombardeador, ergueu-se do assento para aproximar mais os olhos do visor. O movimento era mínimo. Mas suficiente. Ao olhar pelo visor, ele se encontrava num ângulo ligeiramente diferente. Se estivesse bombardeando de algumas centenas de metros de altura, o pequeno movimento não faria a menor diferença. Mas a 10 mil metros, com a cabeça num ângulo ligeiramente diferente, o erro final poderia ser de várias dezenas de metros, quando a bomba atingisse o solo.

Horas depois, Tibbets conseguira fazer com que as oficinas fabricassem um apoio para a cabeça acolchoado, no visor. Usando-o, a cabeça de Ferebee tinha que ficar sempre na mesma posição. A partir desse momento, a precisão dos bombardeios tornou-se invariável.

 

17

 

A luz fria do amanhecer, o oficial de rancho Charles Perry examinou seus recursos: incontáveis perus e presuntos defumados, montanhas de legumes, travessas e mais travessas de empadões de carne e dezenas de bolos de Natal. Silverplate garantira que aquele primeiro Natal da nova unidade, o 509.°, fosse realmente memorável.

O tempo também contribuira para o ambiente festivo. Nevara durante a noite e havia agora uma grossa camada de neve sobre o chão. No portão principal da base, PMs tremendo de frio fazia uma dupla de homens de neve, inclusive com capacetes e galhos de árvores à guisa de carabinas.

Além do portão, em sua casa, a família Tibbets estava abrindo os presentes de Natal. O coronel dera a Lucie um presente que comprara no último momento no reembolsável da base. Ele se sentia confuso e desorientado na hora de comprar um presente para a esposa, sempre alegre e animada. Era esse um dos muitos pequenos motivos pelos quais o casamento deles começava a naufragar. Lucie achava que o marido não era nada romântico. Uma afetuosa beldade sulista típica, nascida na Geórgia, ela achava Tibbets, um homem essencialmente pragmático, frequentemente frio e distante. Sabia que não havia outra mulher na vida do marido, mas não conseguia compreender por que ele parecia colocar seu trabalho acima dela e das crianças. Certa ocasião ela se queixara a Beser, que muitas vezes tomava conta das crianças para que os Tibbets pudessem sair, que “Paul nunca tem tempo para sentar e conversar ou brincar com as crianças. E quando ele fala, é sempre sobre seu trabalho”.

Tibbets tentara explicar que era, por natureza, um “solitário”. Não acrescentara o que muito de seus oficiais sabiam: que só se sentia realmente feliz quando estava voando.

A preocupação com o trabalho determinara a escolha dos presentes que comprara para os filhos pequenos; Paul Jr. e o bebê Gene ganharam modelos do B-17. Os bombardeiros de brinquedo tinham sido bastante vendidos no reembolsável da base.

Pela manhã, os meninos encontraram diversos modelos de B-17 em suas meias, presentes de Lewis Van Kirk, Ferebee e Beser.

Terminado o café da manhã, a família Tibbets foi assistir ao serviço religioso na igreja da base.

O Capelão William Downey recebeu seu Comandante efusivamente. Não podia recordar-se com exatidão da última vez em que Tibbets aparecera na igreja. Pouco depois que ele chegara à base, Tibbets lhe dissera:

— Quando rezo, dirijo-me diretamente a Deus, sem um intermediário.

Dowey não ficara ofendido. Conhecia muitos homens assim. Respeitava as opiniões deles. E agindo dessa maneira, o capelão conquistara o respeito dos outros. Tranquilo, simples e objetivo, o Capitão Downey era o conselheiro espiritual ideal para o efervescente 509.°. Não ficava chocado com as aventuras dos homens. Embora não fosse muito mais velho do que a maioria, conseguia dar a impressão de ser um homem tolerante e sábio, sempre disposto a tomar um drinque, ouvir uma piada, bancando o “bom sujeito”, sem perder a dignidade.

Até mesmo Beser, que invariavelmente criticava toda religião organizada, achava que Downey era “um danado de bom piloto do céu; se não fosse um luterano, teria dado um excelente rabino”.

Por volta do meio-dia, naquele dia de Natal, o clube da base estava repleto de oficiais e suas esposas.

Paul e Lucie Tibbets presidiam a reunião. Por um momento, as tensões e problemas particulares estavam esquecidos. Tibbets recordou junto com Van Kirk e Ferebee os dias que haviam passado na Europa e especulou como Londres estaria reagindo às “Bob Hopes”, as bombas voadoras que estavam caindo sobre a Capital britânica.

— A gente se desguia (bob out) do caminho e torce (hope) para que caiam longe.

Não se passou muito tempo para que muitos oficiais estivessem colados em torno do rádio, cantando canções de Natal juntamente com Bing Crosby, numa transmissão feita de Hollywood.

As músicas foram seguidas por um noticiário que os trouxe abruptamente de volta à realidade. As tropas americanas na Europa estavam tentando desesperadamente repelir um contra-ataque de surpresa alemão, que se iria transformar na famosa Batalha do Bolsão. Soldados alemães, vestidos em uniformes americanos, estavam semeando a maior confusão nas linhas americanas. As notícias da frente do Pacífico eram mais animadoras: as cidades japonesas estavam começando a sentir o peso das bombas americanas.

Lucie Tibbets murmurou a esperança de toda esposa:

— Querido, talvez a guerra acabe antes de você ter que partir.

 

18

 

O final do ano foi extremamente movimentado para Groves Seus dias de trabalho prolongavam-se muito além das 15 horas habituais. A caixa de chocolate que ele mantinha no cofre, juntamente com os segredos atômicos, precisava ser frequentemente reabastecida. Mastigando incessantemente suas barras de chocolate, Groves dava ordens que iriam mudar inteiramente os aspectos da guerra.

Ele mandou chamar Tibbets a 28 de dezembro. Desde o início de cautela de ambas as partes, o relacionamento entre eles passara por varios estágios, até atingir o ponto atual, de aceitação de Tibbets por Groves. O chefe do Projeto Manhattan achava que o aviador podia ser tão frio quanto desejasse, pois aprendera a confiar nos julgamentos de Tibbets em questões de vôo.

As anotações ultra-secretas das conversações entre os dois mostram como Groves passara a confiar inteiramente no Comandante do 509,°. 

Tibbets fixou a data de 15 de junho de 1945 com o momento em que estaria pronto para desfechar um ataque atômico.

Groves aceitou essa data sem a menor hesitação. Foi levantada a questão de “como seriam as condições meteorológicas na área de Tóquio entre 15 de junho e 15 de julho”.

Era a primeira vez que a Capital japonesa era abertamente mencionada com um alvo para ataque atômico.

Podia haver um problema meteorológico. Nas anotações, está escrito que se podiam esperar “chuvas frequentes (sobre Tóquio) até 15 de agosto (de 1945). Não é aconselhável que as missões sejam realizadas debaixo de chuva”.

Além das considerações meteorológicas, Groves indicou também os fatores que deviam determinar a seleção do alvo:

Os alvos escolhidos devem ser lugares cuja destruição pela bomba atômica possa afetar mais intensamente a vontade do povo japonês de continuar a guerra. Além disso, devem ser alvos militares, onde haja comandos importantes ou concentrações de tropas, podendo também ser centros de produção de equipamentos e suprimentos militares. Para que possamos avaliar acuradamente os efeitos da bomba, os alvos não devem ter sido anteriormente danificados por ataques aéreos. É também desejável que o primeiro alvo possa ser de tal tamanho que os efeitos estejam confinados dentro de seus limites, a fim de que possamos determinar o poder da bomba com o máximo de precisão.

Groves duvidava de que Tóquio pudesse atender a todas essas exigências. O mais provável era que a Capital japonesa fosse intensamente bombardeada nos meses subsequentes com armas convencionais.

Pessoalmente, Groves era a favor de escolher Kyoto para alvo. Kyoto era a antiga capital do Japão, “uma cidade histórica e de profunda significação religiosa para os japoneses”. Com uma população estimada de um milhão de habitantes, Kyoto, conforme argumentava Groves, “devia estar empenhada totalmente no esforço de guerra, como qualquer outra cidade japonesa de igual tamanho”. Portanto, seria um alvo legítimo.

Além do mais, ele achava que Kyoto era uma cidade “grande o suficiente para termos certeza de que os danos da bomba ficarão confinados a seus limites, o que nos dará um bom conhecimento do poder destrutivo”.

Numa reunião no gabinete de Oppenheimer em Los Alamos, a 19 de dezembro, Groves decidira que o mecanismo de disparo da bomba de urânio era tão seguro que não precisava ser testado antes de usado contra o inimigo. Contudo, o mecanismo mais complexo da bomba de plutônio precisaria ser testado. Isso seria feito no campo de testes de Alamogordo, no deserto do Novo México, em data ainda a ser marcada.

Sozinho em seu gabinete, no dia 30 de dezembro, Groves tomou a decisão de dar um passo decisivo. E escreveu para o General George C. Marshall, Chefe do Estado-Maior:

 

Parece agora relativamente seguro basear nossos planos de operação na bomba tipo-canhão, que produzirá uma explosão estimada equivalente a 10 mil toneladas de TNT. A primeira bomba, sem qualquer teste prévio de escala, que julgamos desnecessário, deverá estar pronta para ser lançada a 1° de agosto de 1945.

Groves marcara uma data para o Projeto Manhattan.

 

19

 

Um marinheiro apagou cuidadosamente a legenda I.58 da torre do submarino e pintou a bandeira do kikusui imediatamente acima do emblema do sol Nascente. O kikusui era o estandarte de batalha do antigo guerreiro Masashige, que lutara contra forças incrivelmente superiores, sabendo que não tinha a menor possibilidade de sobreviver.

Com o kikusui brilhando, ainda úmido, ao sol de inverno, o Comandante Hashimoto completou a transformação de seu submarino, ordenando a um marinheiro que hasteasse o novo estandarte de combate, o hiriko kenten de Masashige, que significava “vontade de Deus”.

Bandeira e estandarte indicavam que o submarino era agora um transportador de torpedos humanos, a última arma imaginada pela Marinha Imperial japonesa. Os torpedos humanos ou kaitens eram OS equivalentes submarinos dos kamikazes.

Desde janeiro de 1943, na ultra-secreta Base P, uma ilha na Baía de Hiroxima, ao sul de Kure, a Marinha vinha fazendo experiências para a utilização de torpedos humanos, projéteis que poderiam ser disparados de uma nave-mãe e guiados por voluntários na direção dos navios inimigos. A Marinha esperava contrabalançar, com essas novas armas, as perdas crescentes que vinha sofrendo, conseguindo também deter o avanço americano na direção do Japão.

O submarino de Hashimoto fora escolhido para ser uma das naves-mães da Operação Kaiten. Para instalar as armas, operários haviam removido o compartimento do avião de reconhecimento que o submarino às vezes transportava, assim como sua catapulta e mais o canhão do convés. Com isso, havia espaço no convés do submarino para alojar seis kaitens.

Os torpedos, com o formato de submarinos em miniatura e pesando oito toneladas cada um tinham ogivas explosivas. Possuíam um alcance de 30 milhas e uma velocidade máxima de 20 nós. Não eram recuperáveis. A partir do momento em que um piloto kaiten espremia- se por um tubo estreito do submarino-mãe até seu torpedo e era lançado, não tinha mais possibilidade de voltar. Ou explodia com o torpedo ao atingir o alvo ou era destruído pelo inimigo antes de alcançá-lo.

Foram necessárias várias horas para guinchar os kaitens ao convés do submarino, onde foram firmemente presos.

Ao final da manhã, os pilotos dos torpedos embarcaram no submarino e foram recebidos por Hashimoto. O Comandante ficou espantado com a juventude deles. Irradiavam também um ar de fanatismo que lhe provocou um calafrio. Hashimoto também acreditava no Imperador e no conceito tradicional da morte, mas aqueles rapazes estavam intoxicados de patriotismo. Disseram-lhe, orgulhosos, que haviam literalmente lutado pelo privilégio de realizar a missão kaiten e como ansiavam pela morte. Kaiten significa “a volta na direção do Paraíso”.

Quando se aproximou o momento da partida, os pilotos de kaiten sentaram a cavaleiro sobre os torpedos, com toalhas brancas amarradas na cabeça e brandindo suas espadas cerimoniais. Hashimoto teve a impressão de que eles “se estavam esforçando em ser homens fortes e resolutos”.

Os cabos de atracação foram soltos do casco do submarino. A água a boreste começou a turbilhonar. A espuma contornou o submarino, à medida que os tanques de lastro eram enchidos em sua capacidade máxima. A borda-livre começou a aumentar.

Gritos de despedida partiram dos operários navais agrupados no cais. Os pilotos ergueram suas espadas.

Hashimoto observava, com uma expressão de aprovação, enquanto os homens desatracavam rapidamente o submarino. Semanas de exercícios apresentavam agora um resultado satisfatório. A guarnição trabalhava com rapidez e eficiência.

Os motores elétricos silenciosamente afastaram o submarino do cais, a proa agora apontada para o mar. Uma flotilha de lanchas acompanhava o submarino, seus ocupantes entoando em uníssono os nomes do pilotos. O submarino aumentou a velocidade, as lanchas ficaram para trás, o canto se desvaneceu. O submarino tremeu quando os motores diesel entraram em funcionamento.

Em seu diário de bordo, Hashimoto escreveu a seguinte anotação para 29 de dezembro: “Passamos pelo Canal de Bungo e viramos para o sul, sempre navegando na superfície. Através da neblina vespertina, demos um último olhar de despedida à pátria.”

 

Duas semanas e meia depois, soou o grito de aviso:

— Fumaça a bombordo!

O grito do vigia fez com que os homens na torre do submarino descessem correndo pela escada, para a sala de controle.

— Mergulhar! Mergulhar! Mergulhar!

Momentos depois da ordem do Comandante Hashimoto, o submarino estava hermeticamente fechado, os tubos principais dos tanques de lastro abertos e a agulha do mostrador de profundidade começava a se virar, enquanto a proa se inclinava na direção do fundo do mar.

Sistematicamente, desde que alcançara a área das Marianas, duas semanas antes, Hashimoto vinha-se esquivando às patrulhas aéreas anti-submarinas que decolavam de Guam. Agora, 60 metros abaixo das ondas, sem ser incomodado pelos movimentos do Pacífico, ele ficou prestando atenção, juntamente com o resto da tripulação, ao barulho das hélices dos navios.

Em algum lugar acima deles, aproximando-se, havia dois navios inimigos, provavelmente contratorpedeiros.

Hashimoto se perguntou se a presença daqueles contratorpedeiros não estaria relacionada com o audacioso ataque que desfechara dois dias antes. Sob a cobertura da escuridão, ele emergira a menos de onze milhas ao largo de Guam, disparando quatro dos seus torpedos humanos contra a massa de embarcações em Apra Harbor.

Fora o primeiro ataque do I.58 e a primeira vez que Hashimoto usava os kaitens. Pouco antes de seguir para o torpedo suicida, um dos pilotos kaitens entregara ao comandante um bilhete de despedida. Hashimoto iria guardá-lo pelo resto da vida.

 

O Grande Japão é a Terra dos Deuses. A Terra dos Deuses é eterna e não pode ser destruída. Daqui por diante, não importa o que possa acontecer, haverá sempre milhares e dezenas de milhares de jovens dispostos a fazer o que vamos fazer. Agora, nós nos oferecemos em sacrifício por nosso país. Vamos deixar as coisas mesquinhas desta vida terrena e partir para a terra onde a justiça reina suprema e eterna.

 

Lançados os quatro torpedos humanos, Hashimoto submergira à profundidade de periscópio. Ao raiar do dia, avistara imensas nuvens de fumaça se erguendo do porto. Tratara de se afastar para aguas mais seguras. Mais tarde, liderara seus tripulantes numa prece pelos quatro guerreiros mortos.

Agora, a presença dos caçadores de submarinos lá em cima recordava à tripulação que todos poderiam em breve juntar-se aos companheiros mortos.

Hashimoto ordenou que o submarino fosse mantido no mais absoluto silêncio, a fim de que nada pudesse denunciar sua presença.

As ordens eram transmitidas por sinais ou sussurros, ninguém se mexia desnecessariamente. Todos os equipamentos não essenciais à sobrevivência debaixo d’água estavam desligados.

A tripulação ficou alerta ao barulho das hélices. Estava cada vez mais perto, o som constante e estridente de lâminas de aço girando na água. Os navios avançavam lentamente e a impressão que se tinha era de que cada lâmina batia na água separadamente. O barulho passou diretamente acima do submarino e depois começou a diminuir.

Uma expressão de alívio se estampou nos rostos dos homens em torno de Hashimoto.

Ele sacudiu a cabeça, num gesto de advertência.

O barulho aumentou novamente. Hashimoto fez um círculo com o dedo no ar. Os navios estavam circulando. Ele imaginou que os contratorpedeiros esperavam que seus sonares lhes dessem uma orientação. Seria fácil então calcular o local para lançarem as cargas de profundidade.

O barulho das hélices tornou-se fraco, quase desapareceu, voltou a aumentar quando um novo círculo começou.

Alguém esfregou as botas nas placas do convés. Hashimoto lançou um olhar furioso.

As hélices passaram novamente por cima do submarino, foram- se afastando, o barulho sumiu... e desta vez não voltou. Os navios haviam desistido da busca ou a continuavam em outra parte.

Por mais duas horas, o submarino permaneceu em silêncio, no mesmo lugar. Depois, Hashimoto determinou que retomasse o curso para Kure.

E ali o I.58 chegou em segurança no dia 20 de janeiro, tendo passado no caminho por outros submarinos que levava kaitens para as águas em torno de Guam.

20

 

Tibbets sabia que só tinha duas opções: podia levar Lewis à corte marcial... ou esperar que o piloto tivesse aprendido a lição. Mesmo agora, dias depois, Tibbets ainda estremecia ao pensar nos detalhes da aventura de Lewis.

A 17 de dezembro, o dia em que Tibbets resolvera o problema de Ferebee com o visor, Lewis “tomara emprestado ilegalmente” um avião de transporte bimotor C-45. Sem co-piloto e sem os mapas necessários, tendo ainda por cima um rádio com defeito, Lewis se lançara a um vôo de quatro mil quilômetros até Nova York, porque “queria passar o Natal em casa”. Seu companheiro era o engenheiro de vôo sênior do 509.°, pegando uma carona para ir casar-se.

Ao sobrevoarem Columbus, Ohio, o rádio, o altímetro e a bússola do avião haviam deixado de funcionar inteiramente, Lewis baixara de altitude, “tentando navegar através dos lampiões das ruas". Uma nevasca impedira tal possibilidade. Durante duas horas, em visibilidade zero, Lewis procurara pelo Aeroporto de Newark, em Nova Jersey. Conseguira finalmente aterrar lá, quando já estava praticamente sem combustível.

Passado o Natal, Lewis se encontrara com os recém-casados em Newark. Emprestara à jovem a jaqueta e o quepe de piloto, para que ela pudesse disfarçar-se, ignorando os regulamentos que proibiam expressamente o transporte de civis em aviões militares. Sobre Buffalo, outra nevasca obrigara Lewis a pousar. Finalmente, a 29 de dezembro, ele e os recém-casados haviam aterrado em Wendover.

Tibbets ficara aturdido ao descobrir que Lewis nem sequer compreendia que infringira todos os regulamentos. O mais próximo que Lewis chegara do arrependimento fora um comentário tímido:

— Poxa, eu não gostaria de fazer um vôo assim novamente!

Oito dias depois, chegou o momento de Tibbets tomar uma decisão em relação a Lewis. Ele ouvira diversas fontes. A opinião geral era a de que Lewis era “um idiota rematado, mas também um piloto danado de bom”.

Tibbets reconhecia que somente um piloto fora de série poderia ter realizado o vôo de Lewis. Era preciso nervos de aço e coragem excepcional para manejar o avião avariado em condições tão desfavoráveis.

Decidiu que não submetería Lewis à corte marcial, mas “todos os favores passados que eu lhe devia estavam pagos; afinal, ele usara meu nome para conseguir o C-54. Daquele momento em diante, eu passaria a tratá-lo com toda severidade. Ele teria de fazer exatamente o que eu quisesse e quando eu quisesse ou. . . que Deus o ajudasse!”

Isso significava que Lewis seria encarregado das missões mais desagradáveis, como os vôos de madrugada, serviços noturnos, plantão nos fins-de-semana. Lewis não se importou. Achou que era “um tributo que Paul estava-me prestando, encarregando-me das tarefas que ninguém mais queria”.

Depois de tomar a decisão a respeito de Lewis, Tibbets precisava resolver outro problema que não poderia ser adiado por mais tempo: quais os homens que deveria escolher para enviar a Cuba a fim de fazerem um “treinamento especial”.

Há dias que se tornavam cada vez mais intensos os rumores sobre a viagem tão esperada. Em Wendover com temperaturas abaixo de zero, a visão do Caribe era quase insuportável. Os comandantes de aviões passavam horas rondando o QG, na esperança de ouvir um sussurro qualquer. Jogadores como Eatherly haviam-se oferecido para aceitar apostas sobre a data da partida, mas ninguém quisera apostar. Até mesmo os veteranos de missões no exterior, como Classen, sonhavam com a vida nos trópicos. Entre todas as especulações, eles descobriram um fato: dentro de dois dias Tibbets seria promovido a coronel. Mas isso não faria com que o Comandante se tornasse mais acessível.

Os rumores alcançaram o auge quando os aviadores souberam que Tibbets estava passando aquela manhã estudando os relatórios dos vôos de todas as 15 tripulações de B-29. Em Cuba, pelo que se dizia, os escolhidos realizariam exercícios de treinamento de navegação em longas distâncias, sobre o mar e à noite, além de continuar com os exercícios de bombardeio de altas altitudes.

Tibbets convocou o oficial de rancho do grupo, Tenente Charles Perry. As ordens que ele recebeu de Tibbets eram claras: providenciar para que os homens despachados para Cuba recebessem ali a melhor comida possível.

Beser foi informado de que iria para Cuba. Via um contratempo na viagem: o guarda-costa iria em sua companhia. Ele começou a fazer planos para desvencilhar-se do homem em Havana.

Finalmente, 10 comandantes de B-29 foram informados de que naquele mesmo dia voariam para Cuba. Os homens escolhidos foram reunidos para uma preleção de Tibbets:

— As mesmas regras que se aplicam aqui deverão ser também observadas em Havana. Não façam perguntas. Não respondam a perguntas. Executem seu trabalho. A seleção final para uma missão histórica poderá recair entre vocês.

Antes da partida, os homens consultaram Eatherly, querendo saber se as lendas sobre o sangue quente das mulheres latinas eram verdadeiras. Eatherly confirmou que era tudo verdade. Comentou- se que o médico do grupo iria levar várias caixas extras de preservativos para Cuba. Os garanhões do grupo gabaram-se de que usariam todos na primeira noite em Havana.

Ao meio-dia de 6 de janeiro, Eatherly decolou de Wendover com seu B-29. Nove outros aparelhos alçaram vôo em seguida, iniciando a longa jornada para o sul. Ao final da tarde, eles aterraram na Base Batista, a 20 quilômetros de Havana.

Tibbets seguiu num avião-transporte, juntamente com Ferebee, Van Kirk e uma pequena equipe de seu estado-maior. Outro avião- transporte levou um destacamento de PMs, Uanna e seus agentes.

Todos os estranhos foram proibidos de entrar na área reservada ao 509.°, mas muitos conseguiram aproximar-se o bastante para contemplar, curiosos, os gigantescos B-29. Os tripulantes deliciavam- se com a curiosidade que despertavam. Eatherly declarou solenemente a um curioso que o 509.° ali estava para defender a ilha de um esperado ataque de “potências hostis”, que desejavam apoderar-se das lucrativas concessões de jogo. Eatherly estava na melhor disposições possível. Passara quase todo o vôo jogando cartas com alguns de seus tripulantes e ganhara várias centenas de dólares.

Os aviadores e as equipes de terra procuravam impressionar ao máximo os outros militares americanos que estavam na base, declarando que não integravam uma unidade comum. Já estavam começando a pensar em si mesmos como especiais, um sentimento que Tibbets estimulara desde o início. Era a base do espírito forte que iria mantê-los unidos nos tempos difíceis que teriam pela frente.

Continuar: parte 4 de 6