A Bomba de Hiroxima
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Tibbets surpreendeu a todos recusando até mesmo uma xícara de café enquanto não providenciou para que todos os homens estivessem devidamente alojados e alimentados pelos cozinheiros de Perry. Só depois é que ele aceitou uma bandeja com comida.
Mas Tibbets estava sem apetite. Soubera, naquele mesmo dia, que o General Curtis LeMay estava a caminho de Guam.
Um ano antes, Tibbets, Lewis e Sweeney haviam-se revezado para ensinar LeMay a pilotar um B-29. LeMay era um aluno difícil, um general-aviador que se recusava acreditar que só porque um avião tinha 31 metros de comprimento, nove metros de altura e uma envergadura de asas de 32 metros, deveria ser diferente de qualquer outro bombardeiro que ele já pilotara. Mas, finalmente, LeMay aprendera a escutar, respeitar e obedecer a seus instrutores. Ao final do curso, LeMay fizera uma previsão:
— Podemos ganhar a guerra com este avião.
E agora o general estava seguindo para Guam, tencionando fazer justamente isso. Se LeMay conseguisse, Tibbets sabia que não haveria necessidade de lançar uma bomba atômica.
21
O General Curtis LeMay passou seus três primeiros dias em Guam tentando encontrar a resposta para um paradoxo em seu novo comando, o 21.° Comando de Bombardeiros da 20.a Força Aérea.
Por que o B-29, o melhor bombardeiro do mundo, disponível pela primeira vez em quantidades suficientes para semear o terror no coração do território inimigo, não vinha alcançando todo o seu potencial?
Ali, nas Marianas, todo mundo tinha uma resposta diferente. Os manuais de treinamento diziam que o B-29 podia operar a uma altitude de 12 mil metros e a uma velocidade de cruzeiros de 550 quilômetros horários, por 5.500 quilômetros.
Os manuais estavam errados.
No Pacífico, os bombardeiros apresentavam problemas em vôos prolongados a mais de 10 mil metros de altitudes. Os bombardeiros frequentemente deixavam de completar as missões por causa de falhas mecânicas.
Havia também o problema do tempo. Era impossível para os meteorologistas da Força Aérea fornecerem previsões acuradas para os dois mil quilômetros de céu que separavam as Marianas do Japão. Podiam surgir ventos de grande intensidade, exigindo um dispêndio extra do precioso combustível. Sobre o Japão, os alvos podiam estar visíveis num minuto e serem escondidos no minuto seguinte por nuvens impelidas por ventos fortes. As bombas lançadas de 10 mil metros de altitude explodiam longe dos alvos. Mesmo utilizando-se os mais modernos equipamentos de radar, os resultados continuavam insatisfatórios. Onze alvos selecionados para bombardeio em janeiro permaneciam praticamente intactos. A análise das notícias das emissoras de rádio do Japão indicava que o moral estava alto e o esforço de guerra não fora praticamente afetado pelos ataques aéreos.
LeMay aceitou as queixas sobre o tempo, esforço excessivo dos motores e outros problemas. Mas a solução de tudo isso não seria ainda a resposta para o problema básico. As táticas que estavam sendo usadas eram as mesmas que ele desenvolvera na Europa para arrasar as defesas alemães. Mais tarde, os mesmos métodos seriam usados por B-29 operando da China, atacando o Japão a partir de bases em torno de Chengtu.
A China tinha sido uma empreitada arriscada e difícil, mas LeMay conseguiu fazer contato com um líder guerrilheiro fanático. Em troca de suprimentos médicos e materiais diversos, LeMay o persuadira a enviar pelo rádio informações regulares sobre o tempo naquela área do norte da China, onde os guerrilheiros lutavam contra os japoneses. Os relatórios eram extremamente valiosos para os pilotos de LeMay. Eles frequentemente faziam um brinde ao líder guerrilheiro chinês.
O nome dele era Mao Tsé-tung.
O homem que em breve iria tornar-se o líder de uma das mais poderosas nações do mundo estava orgulhoso e disposto, naquele final do mês de janeiro de 1945, a enviar informes sobre o tempo para Guam, servindo como barômetro para o General americano que insistia em chamar de “Culltse Lee May”.
Mas os informes sobre o tempo de Mao eram apenas uma resposta parcial ao problema de LeMay com seus B-29. A solução final que ele propôs era revolucionária. Se desse certo, ele tinha certeza de que conseguiria quebrar a resistência do Japão. Se falhasse, sua carreira estaria liquidada.
Em primeiro lugar, LeMay tencionava despojar os B-29 do arsenal de metralhadoras e canhões. Depois, propunha-se a atacar na escuridão, os bombardeiros alcançando o alvo entre meia-noite e quatro horas da madrugada. Se necessário, deveríam lançar as bombas com a ajuda do radar. Em preparativos para isso, LeMay determinou o imediato início de intensivos treinamentos específicos Com isso, até mesmo o menos apto dos operadores de radar poderia atingir o padrão mínimo que ele exigia.
E o mais importante: os bombardeiros voariam entre 1.500 e três mil metros de altitude. LeMay estava jogando tudo no acerto de uma informação do serviço secreto: a de que os japoneses ainda não haviam desenvolvido um caça noturno e não tinham adaptado suas baterias antiaéreas ao controle de radar. Esperava que as baterias, operadas manualmente, reagiríam com bastante lentidão a seus ataques a baixa altitude.
A remoção das metralhadoras e canhões, desnecessários na suposição de que os B-29 não se defrontariam com caças noturnos, permitiría também aumentar a carga de bombas. Isso era crucial, porque LeMay tencionava carregar os B-29 apenas com bombas incendiárias, fazendo arder as vulneráveis construções de madeira do Japão.
Enquanto formulava seus planos para as novas táticas que pretendia usar, LeMay continuava a escutar, algo em que sempre fora muito bom. E a 20 de janeiro, durante a hora do almoço, enquanto escutava seu meteorologista dar explicações sobre o tempo na região, LeMay ouviu um oficial naval comentar que o Almirante Chester Nimitz andava furioso porque uma unidade aérea baseada nos Estados Unidos estava tentando ser transportada de navio para as Marianas.
Para LeMay, a história soou um tanto improvável. A unidade foi chamada de “grupo integrado”. E LeMay sabia que não existia tal designação na Força Aérea.
22
Groves decidira que ainda não era necessário informar o General Douglas MacArthur sobre a bomba atômica. Ele aprovou a carta que o Almirante-de-Esquadra King preparou a 27 de janeiro, para ser enviada ao Almirante Chester Nimitz. Era sucinta e objetiva e deveria acabar com as indagações irritantes que estavam sendo feitas. Escrita no papel timbrado de King, a carta dizia:
Prezado Nimitz:
Espera-se que uma nova arma esteja pronta em agosto deste ano, para ser usada pela 20.a Força Aérea contra o Japão. O oficial portador desta carta, Comandante Frederic L. Ashworth, irá apresentar-lhe detalhes suficientes para que possa tomar as providências necessárias a fim de possibilitar as operações. Por determinação pessoal do Presidente, tudo o que concerne às referidas operações deve ser mantido no mais absoluto segredo. Somente deverá prestar as informações estritamente necessárias aos oficiais que tiverem de trabalhar na execução dos planos, advertindo-os de que devem manter também o mais absoluto sigilo.
Gostaria que facilitasse ao Comandante Ashorth todas as informações necessárias ao uso da nova arma.
Cordialmente,
E.J. King
Almirante-de-Esquadra
Ashworth era um egresso de Annapolis e um veterano em combate, escolhido pessoalmente por Parsons para trabalhar no Projeto Manhattan. Groves respeitava os dois oficiais navais por seu profissionalismo. Ambos passavam a maior parte do tempo deslocando-se entre Los Alamos e Wendover, ajudando a resolver os últimos problemas relacionados com o mecanismo de detonação da bomba atômica.
Groves duvidava de que Ashworth fosse gostar da viagem ao Pacífico, que o afastaria de seu trabalho. Mas o Diretor do Projeto Manhattan planejava usar Ashworth como algo mais do que um simples mensageiro. Queria que ele escolhesse a base no Pacífico para o 509.°.
Groves era favorável a Guam. Possuía oficinas militares sofisticadas para modificações de última hora na arma e um porto de grande profundidade. Tibbets preferia Tinian. Dizia-se que possuía as melhores pistas do Pacífico.
Ashworth deveria examinar as instalações nas duas ilhas.
23
Beser havia passado mais de uma hora embriagando seu guarda- costas, insistindo para que o homem relaxasse e aproveitasse as últimas horas que passariam em Cuba. O policial estava sentado no rancho de oficiais da base, de olhos vidrados, contemplando estupidamente o daiquiri que acabara de ser colocado a sua frente, o oitavo em apenas uma hora. Estava embriagado demais para perceber quando Beser desapareceu.
O oficial do 509.° correu para a garagem da base, a fim de pegar um caminhão. Uma autorização de Silverplate acabou com a objeção inicial do encarregado dos transportes à entrega do veículo. Beser levou o caminhão à parte antiga de Havana e supervisionou um grupo de cubanos que embarcou diversos caixotes na viatura.
Na volta à base, toda a operação secreta, que até aquele momento havia funcionado “como um sonho”, foi ameaçada por um PM no portão.
— Quero verificar o que está levando nesse caminhão, Tenente.
Beser examinou rapidamente o PM e compreendeu que seita impossível suborná-lo. Dobrando o dedo, um gesto que aprendera com um professor universitário, Beser pediu ao PM que se aproximasse.
— Qual é a sua categoria de segurança, filho?
Beser ainda não completara 23 anos, mas falou como se fosse um general de meia-idade.
— Não sei, senhor.
— Então é melhor descobrir. . . e depressa! E agora saia da minha frente, soldado!
O PM recuou.
Beser pisou no acelerador e entrou na base. Deu várias voltas pelos prédios da administração, para certificar-se de que não estava sendo seguido. Finalmente satisfeito, seguiu para a área onde o 509.° estava instalado.
Um grupo de aviadores estava a sua espera. Beser parou o caminhão e imediatamente formou-se uma corrente humana entre o veículo e os bombardeiros. As caixas sem quaisquer identificações foram guardadas nos compartimentos de bombas dos B-29.
Foi necessária quase uma hora para transferir a carga do caminhão para os bombardeiros. Cada caixa continha uma dúzia de garrafas de uísque da melhor qualidade.
Beser descobrira em Havana um atacadista que estava oferecendo o uísque a um quarto do preço que custava nos Estados Unidos. Os homens do 509.° não haviam precisado de muita persuasão para se cotizarem e comprarem toda a carga.
A operação era típica. Nas últimas três semanas, os homens do 509.° haviam firmado uma reputação de turbulentos. Havana, embora acostumada às farras dos soldados ali acantonados, ficou espantada com o grupo. Eles viviam e amavam num ritmo frenético, brigando com aqueles que os desafiavam e escapando impunemente quando as autoridades intervinham.
Uma patrulha da PM havia prendido mecânicos embriagados do 509.° numa briga de rua e os levado para o xadrez militar. A prisão fora comunicada ao oficial de plantão do 509.°. Ele verificou suas escalas de serviço. Os mecânicos presos deveríam preparar um bombardeiro que iria levantar vôo naquela manhã. Exigiu que os homens fossem libertados. Os PMs recusaram. O oficial usou a senha Silverplate para acordar o comandante local, que foi verificar suas ordens, constatou que o código era de alta prioridade e ordenou que os mecânicos fossem soltos. Criou-se a lenda de que os homens do 509.° eram “Os Intocáveis”.
Tibbets surpreendeu o resto do 509.° que ficara em Wendover ao voltar antes de Havana, a fim de supervisionar pessoalmente as tripulações que não tinham ido para o Caribe. Ele estava determinado a fazer com que, quando o momento chegasse, todas as suas tripulações estivessem em condições de realizar um ataque atômico.
Exigiu o máximo das cinco tripulações em Wendover, obrigando-as a realizar repetidas vezes o vôo de treinamento até a área de exercício de bombardeio no Mar de Salton. Sem chegar a dizê-lo expressamente, deu aos aviadores a impressão de que ainda poderiam ser escolhidos para a importante missão que se aproximava, embora não tivessem sido enviados para Cuba.
Tibbets recebia relatórios regulares de Cuba. Estava particularmente satisfeito por verificar que suas equipes de manutenção já estavam superando todos os padrões de qualidade. Os defeitos nos motores dos bombardeiros do 509.° estavam reduzidos à metade dos índices dos outros esquadrões aéreos baseados na ilha. Era o que Tibbets passara a esperar de seus homens.
Mas ele não estava disposto a fazer o que o Subcomandante John King desejava: transformar o esquadrão numa unidade de disciplina impecável.
Tibbets sabia que as intenções de King eram as melhores possíveis, mas sabia também que o oficial era incapaz de compreender seus métodos, a familiaridade com praças e sargentos, a maneira como invariavelmente chamava os oficiais pelo primeiro nome. King era “um oficial de carreira do Exército, jamais experimentara a camaradagem de voar como uma equipe, quando as vidas de todos dependiam um do outro”.
Tibbets nunca permitiría que alguém sufocasse o que acreditava ser um requisito indispensável para qualquer esquadrão aéreo de combate: o espírito e a união. Para manter esse espírito, Tibbets passava cada vez mais tempo com seus homens. A esposa e os filhos raramente o viam. Ao avistar-se com os filhos, geralmente estava cansado demais para conversar ou brincar com eles. Os bombardeiros de brinquedo que os meninos ganharam no Natal estavam quebrados e ele jamais encontrava tempo para consertá-los. A esposa o fitava com uma expressão acusadora. O casamento ia de mal a pior.
Tibbets podia perceber o que estava acontecendo e odiava a si mesmo por não tomar qualquer iniciativa para evitar a destruição de seu casamento. A verdade, como ele diria mais tarde, era que não sabia o que falar para corrigir a situação.
Também não estava disposto a deixar de lado seus homens para estar com a família. Ao casar-se com Lucie, ele a advertira de que “sou diferente dos homens comuns” e que nada poderia interferir com seu trabalho.
No entusiasmo inicial do casamento, Lucie aceitara tal situação Mas agora, isolada, reduzida a escutar as longas conversas sobre assuntos técnicos entre o marido e os oficiais que de vez em quando iam à casa deles, Lucie Tibbets subia que não havia a menor possibilidade de um futuro comum.
Muito embora percebesse os sentimentos da esposa, Paul Tibbets foi “capaz apenas de chorar por dentro; ela nunca soube, ninguém soube, o que eu estava sentindo”.
* * *
Tibbets e Beser, que haviam voltado com os outros de Cuba a 3 de fevereiro, achavam que estavam consumindo suas vidas na rotina interminável das viagens entre Wendover e Los Alamos.
Certa manhã, em princípios de março, eles descobriram que as sentinelas no portão de Los Alamos estavam mais nervosas do que em qualquer outra ocasião anterior. Os cartões de identificação de ambos foram examinados mais meticulosamente do que o habitual, muito embora já fossem bastante conhecidos dos guardas.
Finalmente entraram e foram recebidos por Ramsey. Descobriram que o cientista, geralmente um homem tranquilo, estava também nervoso e inquieto.
Foi Oppenheimer quem explicou a Tibbets o motivo de tanta tensão. Groves acabara de determinar que a primeira bomba de plutônio deveria estar pronta para ser testada em Alamogordo em meados de julho e que a primeira bomba de urânio deveria estar disponível para uso na guerra em princípio de agosto.
O prazo fatal representava um fardo adicional para os homens e mulheres que há dois anos vinham trabalhando no projeto, sob grande pressão. Os ânimos estavam exaltados. Ocorriam discussões furiosas entre cientistas e os homens da segurança.
O tempo não ajudava. As chuvas da primavera estavam demorando a chegar e um vento quente soprava do deserto, fazendo murchar a relva e secando o pequeno açude que havia no centro do conjunto.
A escassez de água sempre fora um problema. Agora, a água para consumo pessoal estava racionada. Os homens e suas famílias tinham sido aconselhados a escovar os dentes com Coca-Cola.
Em suas últimas visitas a Los Alamos, Beser procurava evitar qualquer cientista que levantasse dúvida sobre a validade do trabalho que ali estava sendo realizado. Na opinião de Beser, tais homens estavam enganados. Ele preferia a posição do Dr. Louis Slotin, um jovem pesquisador que comentara:
— Quer se morra de uma bala ou de uma bomba, está-se igualmente morto.
Tais palavras refletiam exatamente o que Beser pensava, num momento em que milhares de americanos estavam morrendo das balas japonesas em Iwo Jima.
Beser encontrava-se em Los Alamos para aprender mais alguma coisa sobre o mecanismo de detonação da bomba e como os japoneses poderiam interferir eletronicamente, provocando uma explosão prematura.
Tibbets fora conversar com Oppenheimer para acertar os detalhes finais da ida para Wendover de uma nova unidade especial, o Primeiro Esquadrão de Material Bélico, que teria a responsabilidade técnica pela bomba atômica quando o 509.° fosse deslocado para o exterior.
Depois de acertarem o dia 6 de março como a data em que a nova unidade chegaria a Wendover, Tibbets e Oppenheimer receberam a visita de Ashworth. O oficial naval acabara de retornar a Los Alamos, depois de uma visita de 13 dias às Marianas, onde entregara a carta do Almirante-de-Esquadra King ao Almirante Nimitz, e explicara ao Comandante das forças navais no Pacífico o papel a ser desempenhado pelo 509.°. Nimitz fizera um único comentário: desejava que a bomba já estivesse disponível imediatamente, para ser usada contra Okinawa, a última grande ilha a ser invadida antes do Japão propriamente dito.
Ashworth informou a Tibbets que Guam não servia como base para o 509.°. O grupo deveria, em vez disso, usar o Campo Norte, em Tinian, que possuía quatro pistas de 2.500 metros.
— Precisarei de uma pista apenas — disse Tibbets.
24
Do último andar de seu pequeno hospital particular, o Dr. Kaoru Shima tinha uma boa vista de Hiroxima. E era uma vista que estava começando a deprimi-lo. Havia uma extensão de terra arrasada nos dois lados da Ponte Aioi, indicando uma das faixas de proteção contra incêndios que atravessavam a cidade.
Dezenas de casas, bares, salões de chá e lojas tinham sido demolidos nas proximidades do Hospital Cirúrgico Shima, deixando o diretor médico e sua equipe com a sensação de que trabalhavam à beira da destruição”.
O noticiário da manhã contribuira para aumentar tal sensação. Pela primeira vez, a Rádio Japão deixara escapar uma insinuação de que a luta em Iwo Jima não estava indo muito bem.
Os 20 quilômetros quadrados de Iwo Jima ficavam a apenas 700 milhas de Tóquio, perto o bastante para que os americanos desejassem conquistá-la a qualquer custo como uma base de bombardeiros e caças.
Durante dias, a rádio e os jornais do Japão haviam repisado a inexpugnabilidade das defesas da ilha. Haviam ressaltado que os 74 dias de bombardeio pelo inimigo, como preparativo para a invasão, praticamente não tinham afetado as defesas. O Exército Imperial japonês estava abrigado em cavernas e túneis profundos, frequentemente protegidos por até 10 metros de concreto. Ao desembarcarem em Iwo Jima, os americanos haviam caído numa armadilha. Atraídos à praia pela pequena resistência, as forças invasoras tinham estabelecido uma cabeça-de-ponte na ilha, apenas para serem quase esmagadas pelo implacável fogo cruzado do exército inimigo entrincheirado. A Rádio Japão falara em massacre numa escala sem precedentes. Mas agora, em princípios de março, os últimos boletins já estavam falando em “retirada estratégica”. O Dr. Shima, velha raposa em avaliar a verdade de tais alegações, sabia que Iwo Jima estava perdida.
Os materiais que estavam agora chegando a Hiroxima continham poucos suprimentos médicos e a maioria ia para o grande Hospital Militar Ujina, Hospital da Cruz Vermelha e Hospital do Estaleiro Mitsubishi. A clínica particular do Dr. Shima estava no final da lista de prioridades do Exército.
A clínica sobrevivia exclusivamente graças ao vigor de seu dono. Ele era frequentemente chamado a realizar operações em hospitais rurais. A visão do médico pedalando vigorosamente sua bicicleta, com a maleta de instrumentos presa atrás, era bastante familiar na região.
A construção das faixas de proteção contra incêndios frequentemente encompridavam o tempo de suas viagens, pois prédios demolidos bloqueavam diversas ruas, obrigando-o a fazer muitos desvios. Mas o Dr. Shima jamais se queixava. Para aqueles que o faziam, ele tinha uma resposta infalível:
— Deve sentir-se contente por ainda estar vivo.
O Almirante-de-Esquadra William D. Lehay, chefe da assessoria de Roosevelt, não estava impressionado com o que ouvira a respeito do Projeto Manhattan. A idéia de uma única bomba destruir uma cidade inteira, e terminar a guerra, era demais para ele. Falando como um “especialista em explosivos”, planejava informar ao Presidente que o projeto era uma fraude e que tal bomba jamais explodiría.
Roosevelt não tinha falta de pessoas dispostas a oferecer-lhe o benefício de seus conselhos. Leo Szilard era um dos que estavam solicitando uma audiência. Szilard disse que agora não eram mais os alemães que ameaçavam o mundo: “Nossa preocupação é com o que o Governo dos Estados Unidos pode fazer com outros países.”
O Secretário da Guerra Henry L. Stimson aconselhou Roosevelt a não receber o cientista húngaro. Outros não eram tão fáceis de evitar. Mais de um ano antes, Harry S. Truman, que era então Senador pelo Missouri, começara a fazer perguntas constrangedoras. Stimson tratara de silenciá-lo na ocasião, mas agora precisava ser mais cauteloso. A qualquer momento, Truman poderia tornar-se Presidente dos Estados Unidos. Stimson sabia que o combalido Roosevelt estava-se apegando à vida apenas por sua gigantesca força de vontade.
Stimson quase nada dissera a Truman. Não fizera qualquer menção de uma bomba atômica. O Secretário da Guerra sabia que Truman não ficara satisfeito, mas achava que o importante era ganhar tempo para concluir o projeto.
Recentemente, Roosevelt pedira-lhe que fizesse um sumário da situação atual.
Ao final da tarde de 2 de março, os dois homens se reuniram no gabinete de Roosevelt. Stimson constatou que o Presidente, que voltara há pouco dias da exaustiva Conferência de Yalta, parecia, ainda mais encovado. Ele era um dos poucos homens que sabiam da pequena caixa de tabletes verdes que Roosevelt guardava numa gaveta da escrivaninha, para tratamento de hipertensão e sistema cardiovascular deficiente.
Preocupado em não cansar Roosevelt com um sumário detalhado, Stimson resumiu a situação em poucas palavras. A produção da arma estava dentro dos prazos previstos. A bomba estaria pronta em agosto, como Groves prometera. A arma poderia salvar as vidas de milhões de americanos, que ainda seriam sacrificadas antes que o Japão se rendesse, na opinião de Stimson.
Roosevelt pareceu ficar satisfeito. Mas Stimson teve dúvidas se o Presidente ainda estaria vivo para ver aqueles milhões de soldados voltando para casa a salvo.
* * *
A Subcomissão de Déficit Orçamentário da Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados, o cão de guarda do Congresso sobre os gastos com o dinheiro público, não ficou satisfeito com a declaração apresentada pelo Subsecretário da Guerra, Robert Patterson.
Em audiências secretas, a Subcomissão tentara obter mais detalhes sobre quase dois bilhões de dólares que haviam sido gastos num projeto a respeito do qual nada conseguiam descobrir. Patterson obstinadamente se recusara a falar, alegando razões de segurança nacional.
O Presidente da Comissão, Clarence Cannon, do Missouri, advertira de que, “assim que a guerra terminar, o Congresso realizará uma investigação minuciosa do projeto”.
O próprio Patterson não estava a par da maioria das implicações do Projeto Manhattan. Mas seu instinto político pressentiu que haveria problemas. Sabia que uma regra essencial para a sobrevivencia em Washington era escrever um memorando. Voltou a seu gabinete e ditou um memorando a um assessor, General W. D. Styer. Era extraordinário por sua habilidade política:
No início do projeto, comuniquei ao General Groves que se devia tomar a precaução de manter registros minuciosos, com informações detalhadas sobre as decisões adotadas, conferências com pessoas envolvidas no projeto, progressos realizados, todas as transações financeiras e despesas. De tempos a tempos, tenho repetido essas instruções, sendo informado pelo General Groves que ele e seus assistentes estão mantendo arquivos completos de tudo. Tenho dito também ao General Groves que o Congresso irá exigir um relatório meticuloso sobre as despesas, em algum momento do futuro.
As proporções do projeto, o segredo que o envolve e as vultosas quantias despendidas tornam necessário que se mantenham registros minuciosos, a fim de que haja sempre disponível uma história completa e detalhada do projeto. Esse histórico deve abranger os aspectos fiscal, científico e industrial do trabalho.
Embora eu não tenha razões para duvidar de que o General Groves está dispensando uma atenção meticulosa ao assunto, a importância de manter registros completos, acurados e inteligíveis é tão grande que desejo que examine pessoalmente o assunto e me apresente suas conclusões. Quero que tome as providências corretivas necessárias para assegurar que um histórico completo e atualizado do projeto esteja sendo registrado no papel, por pessoal competente.
Patterson estava assim se resguardando.
* * *
Cada vez mais, Groves se considerava um estrategista. E como o uso da bomba atômica levantava importantes questões políticas, considerava-se também um estadista. Recentemente, tomara medidas contra a política de seu governo de colaborar com os ingleses em todos os assuntos referentes à pesquisa atômica. Churchill abordara o assunto particularmente com Roosevelt, durante a conferência de Yalta. O Presidente concordara que a Inglaterra deveria ser informada mais amplamente do andamento do projeto. Isso não agradara a Groves. Ele não confiava que os ingleses mantivessem os segredos atômicos a salvo dos russos. Decidira que os aliados da América receberíam o mínimo de informações possível.
Groves sabia mais sobre a nova arma do que praticamente qualquer outra pessoa. Seu trabalho fora realmente hercúleo. As fábricas que ele controlava estava entre as maiores dos Estados Unidos. Autorizara a patenteação de milhares de novas invenções, resultantes da pesquisa atômica. Contudo, todo o projeto estava agora sendo ameaçado por alguns dos cientistas cujos trabalhos pioneiros haviam sido extremamente valiosos. Groves não conseguia entender esses cientistas.
Agora, outra voz se juntava aos dissidentes. Em sua mesa, enquanto falava pelo telefone com o General George C. Marshall, no início de março, havia um memorando escrito no dia anterior para Roosevelt, pelo Diretor do Escritório de Mobilização de Guerra, James F. Byrnes. De seu gabinete na Casa Branca, Byrnes praticamente dirigia a vida econômica da nação, enquanto Roosevelt e Stimson se concentravam na política exterior e militar. Byrnes era conhecido como “o Presidente-assistente”.
A Casa Branca enviara uma cópia do memorando de Byrnes para Groves, pedindo seus comentários. Só isso deveria ser suficiente para tranquilizá-lo quanto à solidez de sua posição. O memorando era um lembrete sensato ao Presidente dos problemas políticos que inevitavelmente iriam surgir se o projeto falhasse.
Para um homem acostumado a fazer o que bem quisesse, o memorando era extremamente desagradável:
. . . despesas aproximando-se de dois bilhões de dólares, sem que haja ainda qualquer garantia definida de produção... se o projeto por acaso fracassar, será o alvo de implacáveis investigações e críticas. . . até mesmo eminentes cientistas podem continuar a trabalhar num projeto só para não reconhecerem o fracasso. Talvez seja possível continuar os trabalhos numa escala reduzida. Seja como for, não haverá mal algum numa investigação e análise imparcial por um pequeno grupo de cientistas que não estejam identificados com o projeto. Reconheço que essa análise poderá ferir os melindres daqueles que estão empenhados no projeto. Mas dois bilhões de dólares é dinheiro suficiente para se correr tal risco.
Para Groves, a sugestão de uma análise por cientistas estranhos ao projeto colocava Byrnes decididamente no campo da oposição. Groves não acreditava que houvesse alguém competente o bastante para realizar tal investigação. Parecia simplesmente outra tentativa de paralisar o projeto.
Groves terminou de fazer seu relatório para Marshall sem mencionar o memorando de Byrnes. Já ia desligar quando o Chefe do Estado-Maior perguntou-lhe se por acaso já pensara em como tirar melhor proveito do uso da bomba.
Groves já pensara a respeito, mas preferiu não expor suas idéias. Disse simplesmente a Marshall que, em sua opinião, chegara o momento dos planejadores começarem a preparar os estudos preliminares dos alvos apropriados.
Houve um momento de silêncio, antes que Marsall dissesse
— Prefiro não envolver muita gente neste assunto. Há alguma razão para que você não possa assumir o problema pessoalmente?
Groves aceitou a oferta avidamente. Mesmo em seus momentos de maior otimismo, jamais imaginara que teria a oportunidade de escolher os objetivos atômicos.
Poderia consultar, poderia ouvir conselhos, mas ao final teria a responsabilidade de indicar a cidade japonesa que seria o primeiro alvo de uma bomba atômica.
* * *
A instrução de Stimson a Groves foi clara: ele devia aconselhar Roosevelt a rejeitar a proposta de Byrnes para uma investigação independente. A manutenção do segredo era de extrema importância. A Câmara e o Senado deveríam receber o mínimo de informações necessárias para garantir as aprovações das verbas. Nos últimos dois dias, os representantes nas duas casas do Congresso tinham começado a fazer perguntas sobre o Projeto Manhattan, depois das declarações do Subsecretário Patterson na Subcomissão de Déficit.
Groves ficou deliciado com o apoio de Stimson. Permitia-lhe repelir, quase que com um gesto de desafio, a sugestão de Byrnes de uma investigação independente.
Em seguida, Groves enfrentou o problema apresentado pelo Congresso. Achou que o melhor caminho era o cortês. Escreveu a Stimson informando que estava disposto a permitir que dois senadores e dois deputados dessem uma olhada no projeto.
Eu lhe mostraria as instalações que estão fora das áreas secretas, as que já são conhecidas por empreiteiros e seu pessoal. Eles poderiam assim ter uma idéia do tamanho das instalações e constatar que as acomodações que proporcionamos nada têm de exagerado. Eu poderia também mostrar algumas partes das áreas de processamento, para demonstrar as complexidades do projeto.
Para permitir essa inspeção limitada, na verdade um relutante gesto de relações públicas para levantar mais dinheiro, Groves impôs condições que seriam mais apropriadas a uma inspeção da bomba propriamente dita do que um mero vislumbre de dormitórios e cozinhas.
Não havia qualquer possibilidade de ninguém sequer se aproximar de Los Alamos. As visitas seriam a alguns locais não muito secretos do projeto atômico, cuja utilidade já estava diminuindo. Mesmo assim, as condições eram rigorosas:
Nenhum dos visitantes deve tomar qualquer anotação. As conversas conjuntas sobre as visitas só devem ser realizadas enquanto os visitantes estiverem em recintos do projeto e mesmo assim em salas onde haja toda a segurança. As informações fornecidas não poderão ser usadas em futuras conversas, formais ou informais, ou em discursos, até que as regras de segurança sejam modificadas pelo Secretário da Guerra. Algumas das perguntas a serem feitas talvez não possam ser respondidas, e os visitantes não devem questionar tal recusa.
26
Tibbets permaneceu impassível enquanto o Major William Uanna falou sem interrupção por vários minutos, lendo uma ficha depois de outra. O sumário dele era brutal e objetivo.
— Coronel, tem entre seus homens um assassino, três homens condenados por homicídio culposo e diversos casos de crimes graves. Todos estão sendo procurados pela polícia. O que pretende fazer agora?
Tibbets reformou a pergunta:
— Sei o que eu quero fazer. A questão é outra: o que você recomenda que eu faça?
Uanna estava preparado para isso.
— Farei o que achar melhor, Coronel.
— Até mesmo infringir a lei?
— Até mesmo isso.
Tibbets pôs-se a explorar outras áreas.
— Como é que homens assim foram parar numa unidade secreta como o Primeiro Esquadrão de Material Bélico?
Uanna sugeriu que fora por puro acaso que os criminosos haviam-se encontrado na unidade que acabara de se juntar ao 509.° em Wendover. Depois de escaparem de diversas prisões, os condenados provavelmente haviam concluído que o melhor lugar para se esconder era o Exército. Não deviam ter encontrado a menor dificuldade em se alistar sob nomes falsos.
— Não se esqueça de que estamos em guerra, Coronel. O Exército não faz muitas perguntas. E fica contente com todos os homens que consegue atrair.
As investigações de Uanna mostraram que os talentos mecânicos dos homens haviam sido constatados pelos “descobridores de talentos” do Projeto Manhattan, sendo providenciada a transferência deles para o Primeiro Esquadrão de Material Bélico.
O esquadrão iria cuidar da bomba atômica quando o grupo seguisse para Tinian. Cada membro do esquadrão era um especialista. Juntos, poderiam executar, sob supervisão científica, quaisquer modificações de última hora que se tornassem necessárias. Foram precisos muitos meses para se encontrar o pessoal certo. Quase todos eram metalúrgicos ou tinham especialidades afins. Vinte e sete possuíam cursos científicos. Foram avisados, ao ingressarem no esquadrão, de que poderiam ficar sem ver a família ou amigos até que a guerra terminasse. Cada um podia escrever uma carta por dia. A correspondência era enviada para uma caixa postal especial em São Francisco, de onde era redistribuída.
O esquadrão chegara a Wendover num trem fortemente guardado. Seus integrantes tinham sido conduzidos para uma área da base cercada de arame farpado, sob a vigilância de um destacamento dos homens de Uanna.
Este explicou como localizara os criminosos do esquadrão.
— Eles estavam parecendo muito felizes, apesar das rigorosas medidas de segurança. Somente anos de prisão podem fazer com que homens reajam, dessa maneira. Foi por isso que começamos a investigar
— Eles estão trancados aqui com tanta segurança como se estivessem na prisão não é mesmo? — indagou Tibbets, pensativo.
Uanna concordou.
— Quero falar com esses homens.
Uanna não apresentou qualquer objeção.
O assassino fugitivo foi levado ao gabinete de Tibbets.
— Sabe por que está aqui?
— Não, Coronel, não sei.
Tibbets pegou uma ficha.
— Sei qual é o seu verdadeiro nome, o seu número na penitenciária federal, a quantos anos foi condenado, o dia em que conseguiu fugir. — Tibbets bateu na ficha e acrescentou: — Está tudo aqui. Quem você
assassinou, os depoimentos tomados pela polícia, seu julgamento, como entrou no Exército e chegou até aqui. Tudo, em suma.
O condenado estava aturdido demais para falar. Tibbets estendeu a ficha na direção dele.
— Pode dar uma olhada pessoalmente.
Tibbets percebeu que o homem estava tremendo. Recolheu a ficha e guardou-a cuidadosamente na pasta, olhando atentamente para o homem.
— É única ficha que existe do seu passado. O Major e eu somos a únicas pessoas que sabem que é um assassino fugitivo. Mas, pelo que parece, você é muito bom no trabalho que está fazendo atualmente. E precisamos de homens que sejam competentes em suas funções. Portanto, decidimos dar-lhe uma oportunidade. Volte para o seu trabalho. Continue a fazer exatamente o que tem feito até agora. Se não nos criar problemas, não iremos criar problemas para você. Quando a guerra terminar, nós lhe daremos a ficha e uma caixa de fósforos para queimá-la.
O aturdido condenado deixou o gabinete de Tibbets, acabrunhado demais para falar qualquer coisa.
Um a um, os outros criminosos foram levados à sala, confrontados com seus crimes e receberam ofertas similares.
Quando o último homem se retirou, Tibbets virou-se para Uanna:
— Major, não sou da polícia. Não estou interessado em levar esses homens à Justiça. Meu único interesse é terminar esta guerra. Tudo o que desejo é fazer com que esses homens trabalhem direito.
* * *
A chegada do Primeiro Esquadrão de Material Bélico causou sensação na base. Lewis resumiu sucintamente a reação geral:
— Se achamos que somos algo especial. . . então esses sujeitos são mais ainda!
Até mesmo o relaxado 509.° jamais vira uma unidade de aspecto tão pouco militar. Alguns de seus membros eram homens de meia-idade, outros falavam com um nítido sotaque estrangeiro. Alguns eram técnicos judeus que até poucos anos antes haviam trabalhado em oficinas em Berlim e Munique.
O esquadrão parecia capaz de qualquer coisa e era totalmente auto-suficiente. Trouxeram e armaram suas próprias oficinas, ligaram sua própria energia elétrica, instalaram suas ferramentas especiais. Os mecânicos do 509.°, que eram peritos em quase todas os campos, compreenderam que seus iguais haviam chegado.
Os membros do novo esquadrão só saíam de sua área na hora das refeições. Eram acompanhados por vários agentes corpulentos. Todos sentavam a um canto do refeitório. Ficavam imediatamente em silêncio quando estranhos se aproximavam. Os curiosos eram firmemente repelidos.
Na noite de 7 de março, alguns dos homens do Primeiro Esquadrão de Material Bélico foram até a pista para esperar o vôo regular de Albuquerque, que estava agora sendo feito por Dora Dougherty. Se perceberam que era uma mulher quem pilotava o avião, não fizeram qualquer comentário.
Havia apenas um único passageiro no avião-transporte. Ele levou os homens do Esquadrão de Material Bélico até um B-29.
A tripulação regular do B-29 recebera ordens de responder a qualquer pergunta que o homem fizesse. Ele parecia estar interessado no desempenho técnico do bombardeiro e passou algum tempo examinando as portas do compartimento de bombas.
Ao final de sua inspeção, o homem virou-se para o pessoal do Esquadrão Bélico e disse:
— Esses aviões não estão em boas condições para a missão. Terão que ser substituídos.
Dito isso, ele passou pela tripulação boquiaberta do B-29, embarcou no avião de Dora e voltou para Los Alamos.
Pouco depois, o rumor já se havia espalhado. Beser iria recordar-se mais tarde das palavras de um colega contando o ocorrido.
— Já souberam do maluco que apareceu aqui, disse que nossos aviões não prestavam mais e tinham que ser substituídos, indo embora de novo em seguida? Parece até que ele era um general de cinco estrelas e não um capitão em uniforme da Marinha! Será que ele não sabe que estamos em guerra e que não se podem substituir aviões por dá cá aquela palha?
— Pois pode ter certeza de que vamos receber novos aviões — declarou Beser.
É que ele sabia o poder do Capitão William Parsons.
Parsons tinha sido inicialmente considerado como uma alternativa para Groves na direção do Projeto Manhattan. Ele fora a Wendover verificar os aviões que voariam a primeira missão atômica. Constatara que os vôos de treinamento constantes haviam desgastado os aparelhos. Deveríam ser trocados por modelos mais recentes. Os novos aviões teriam motores de injeção a gasolina, hélices reversíveis eletronicamente controladas, e condições gerais bem superiores a seus antecessores.
Tibbets teria em breve a melhor frota de bombardeiros que a América dispunha.
27
Na tarde de 9 de março, o primeiro de 325 bombardeiros B-29 decolou de Guam. Aquele B-29 era um avião-guia do ataque planejado por LeMay.
Onze outros bombardeiros decolaram logo em seguida. Os 12 deveríam delimitar o setor nordeste de Tóquio. O nome em código escolhido por LeMay para a operação era “Meetinghouse”, uma casa de encontro na tradução literal, e a designação de um templo em inglês. Na China, uma “casa-de-encontro” era um lugar onde se tomavam decisões importantes.
Mastigando um charuto, o atarracado LeMay ficou observando a força principal de bombardeiros decolar. Dentro de poucas horas, seu audacioso plano teria dado certo ou ele estaria em desgraça.
Os aviões-guia deveríam semear suas bombas incendiárias cuidadosamente, num gigantesco “X”, cujos braços iriam abranger vários quilômetros quadrados de uma das cidades mais congestionadas do mundo.
Nenhum dos 325 bombardeiros estava armado. Os compartimentos de bombas transportavam um total de duas mil toneladas de bombas incendiárias.
LeMay terminara suas instruções às tripulações com as seguintes palavras:
— Vocês vão realizar o maior espetáculo de fogos de artifícios que os japoneses já viram!
Poucos aviadores reagiram com entusiasmo. Certamente, muitos ainda se recordavam do primeiro ataque aéreo americano a Tóquio, em 1942. Três dos aviadores do General James Doolittle, que foram obrigados a aterragens forçadas pelos japoneses, haviam sido julgados por homicídio, considerados culpados e executados.
As tripulações de LeMay estavam também preocupadas com as ordens de atacar em altitudes tão baixas e sem armamentos. As informações não eram confortadoras. Dizia-se que os japoneses haviam concentrado em torno de Tóquio 331 canhões de grossos calibres, 307 canhões de disparo automático, 332 caças monomotores e 105 interceptadores bimotores.
LeMay previra confiantemente que esse arsenal defensivo seria ludibriado pela tática de surpresa. Agora, ele tinha que esperar pela confirmação do General Tom Power, seu chefe de estado-maior, que estava voando num dos bombardeiros de vanguarda, com ordens de transmitir pelo rádio notícias sobre o ataque.
* * *
Os aviões-guia chegaram a Tóquio à meia-noite. A cidade estava imersa na escuridão. A previsão do tempo fora correta: o céu estava claro, um vento frio de 45 quilômetros horários fizera com que os habitantes fossem deitar mais cedo.
Voando a favor do vento, os aviões-guia marcaram a área de alvo com bombas de magnésio, napalm e fósforo, fazendo linhas quase retas através de prédios de madeira e ruas estreitas.
A força principal chegou a Tóquio meia hora depois. Nenhum caça levantou vôo, o fogo antiaéreo era mínimo. Como LeMay previra, as defesas de Tóquio haviam sido apanhadas totalmente desprevenidas com aquele ataque em baixa altitude.
Os B-29 começaram a bombardear sistematicamente a capital japonesa, ao longo dos braços do “X” formado pelos aviões-guia. Lançaram suas cargas incendiárias, aumentando ainda mais o inferno de chamas.
Cinco mil metros acima das chamas, o avião de Power circulou o alvo. E ele transmitiu pelo rádio para Guam o seu comentário:
— Está-se espalhando como fogo na campina seca... o incêndio deve estar fora de controle. . . fogo antiaéreo esporádico. . . não há oposição de caças. . .
O incêndio se espalhou e aumentou de intensidade, mandando lufadas de ar superaquecido para o céu. Os pilotos dos bombardeiros tinham a impressão, no dizer de um deles, de que estava voando "no inferno de Dante”. A turbulência do incêndio erguia os gigantescos bombardeiros por dezenas de metros, sugando-os em seguida para baixo. Os aviadores ficaram enjoados com os solavancos. Depois, uma nova sensação fê-los vomitar: o mau cheiro de milhares de corpos em chamas.
Finalmente, conforme estava planejado, às 3:30 horas da madrugada, o último B-29 largou suas sete toneladas de bombas incendiárias na gigantesca fornalha e depois voou para o sul.
Power transmitiu o relatório final:
— Alvo completamente em chamas. Fogo se espalhando muito além dos limites previstos. Toda Tóquio é visível no clarão. Sucesso total.
As chamas eram uma pira fúnebre para cerca de 100 mil almas. Aproximadamente 250 mil prédios foram destruídos, numa área de 40 quilômetros quadrados.
Dos 325 bombardeiros que criaram esse holocausto, apenas 14 não voltaram.
* * *
O plano de LeMay dera certo. O general imediatamente ordenou novos ataques a baixa altitude contra Nagoya, Osaka, Kobe e Okayama.
Durante os dois últimos meses, todos os esforços de LeMay haviam sido concentrados no desenvolvimento dessas novas táticas. Ele não tivera tempo para mais nada. . . muito menos para prestar atenção ao rumor persistente de que uma nova unidade especial estava vindo para as Marianas.
Mas agora, naquele momento de triunfo, os rumores foram confirmados. LeMay foi informado de que parte do Campo Norte, na Ilha de Tinian, estava sendo requisitada, por ordens diretas de Washington, para alojar um “grupo especial de bombardeio”.
LeMay imaginou que a nova unidade, se não chegasse rapidamente, talvez não encontrasse nada mais para bombardear além de ruínas e arrozais.
28
Em Tóquio, o QG do Alto Comando estava dominado pelo maior tumulto. Depois do ataque incendiário, o Alto Comando estava se retirando para a área mais protegida, cercada de árvores, da Academia Militar, nas Colinas de Ichigaya, na região centro- oeste da cidade.
A jornada através de Tóquio era extremamente difícil, pois os bombardeiros de LeMay haviam semeado um pânico incontrolável.
Logo depois do ataque, com a temperatura nas áreas mais atingidas chegando a um calor insuportável, o desespero em escapar havia transformado cidadãos comuns em selvagens. Milhares de pessoas pularam no Rio Sumida, para morrer afogadas ou quando as chamas sugaram o oxigênio de seus pulmões. Policiais e bombeiros foram pisoteados no pânico. Imensas pilhas de cadáveres erguiam-se nas ruas da área nordeste de Tóquio.
Em menos de 24 horas, dezenas de milhares de pessoas abandonaram Tóquio, levando apenas as roupas do corpo. Deixaram para trás famílias e amigos carbonizados. Este êxodo apresentava um sério problema. Os refugiados podiam semear o pânico, causar confusão e baixar o moral.
O Major-General Seizo Arisue sentiu-se contente por não ter que lidar com tais problemas. Seu interesse imediato concentrava-se na reação do Serviço Secreto Naval ao ataque.
Eles haviam cancelado os contatos de paz com Allen Dulles. Arisue não demorou muito tempo a descobrir por quê. Longe de ficarem desmoralizados pelo ataque dos bombardeiros de LeMay, a destruição só contribuira para fortalecer a vontade de resistir dos almirantes.
O Chefe do Estado-Maior Naval, Almirante Soemu Toyoda, declarou que a única maneira de o Japão sobreviver “com dignidade”, diante de tal terror, era continuar a lutar, desfechar contra-ataques decididos, para fazer a América compreender que a nação japonesa jamais se renderia. E ele informou que a Marinha estava elaborando planos para levar a guerra às praias americanas.
A disposição no QG do Exército era ainda mais arrebatada. Oficiais de estado-maior, sedentos de vingança, elaboraram um plano de saturar as Marianas com ataques shimpu. Mas o problema de levar kamikazes a uma distância adequada para desfecharem seus ataques mortíferos era insuperável.
Avaliando a força desse ímpeto belicoso Arisue decidiu que não era o momento apropriado para falar de paz com o inimigo. E resolveu suspender seus próprios esforços de fazer contato com Dulles.
A notícia da destruição em Tóquio não chegou oficialmente a Hiroxima. A censura simplesmente se recusava a liberar os informes sobre o ataque para divulgação pelos jornais w rádios do país.
A notícia chegou a Hiroxima oficiosamente, a 12 de março, com um dos poucos trens que os civis ainda podiam usar. Uma hora depois de os refugiados de Tóquio chegarem a Hiroxima, o Prefeito Senkichi Awaya sabia o que acontecera na Capital. Usando suas prerrogativas oficiais, Awaya finalmente conseguiu, depois de horas de espera angustiante, falar com a esposa pelo telefone. Ela e as crianças estavam ilesas. Awaya determinou à esposa que voltasse com os filhos o mais depressa possível para Hiroxima, onde estariam seguros.
Sachiyo Awaya hesitou. Ela e as crianças haviam sobrevivido ao ataque. Os refugiados provavelmente estavam exagerando. De qualquer maneira, o Exército em Tóquio declarara que era improvável que os bombardeiros voltassem; e se por acaso o fizessem, da próxima vez teriam uma recepção à altura.
Awaya sabia que a qualquer momento a ligação poderia ser cortada. As telefonistas tinham autoridade para encerrar quaisquer telefonemas que não fossem de natureza militar. O Prefeito falou em tom de urgência:
— O inimigo vai voltar. Essa é a natureza da guerra. Você e as crianças devem vir para cá.
Ainda assim, a esposa relutava em deixar Tóquio. Ele apresentou então um argumento que sabia que a esposa teria dificuldade em rejeitar:
— É possível que todos nós morramos nas batalhas vindouras. Se isso tiver que acontecer, quero que morramos juntos, como uma família.
A esposa prometeu que, para começar, mandaria o filho mais velho. O rapaz de 14 anos poderia continuar os estudos numa escola de Hiroxima.
* * *
Uma semana depois, entre 7:30 e oito horas da manhã de 19 de março, Hiroxima sofreu seu primeiro ataque aéreo. Quatro caças- bombardeiros, decolando de um porta-aviões, sobrevoaram a cidade. Apenas duas bombas foram lançadas: uma caiu num rio, sem causar qualquer dano, enquanto a outra matou duas pessoas e destruiu suas casas.
Os aviões escaparam antes que o fogo antiaéreo pudesse ser dirigido contra eles. O incidente causou excitamento e especulações na cidade. Houve discussões veementes entre os céticos e aqueles que defendiam a teoria de que Roosevelt concordara em poupar a cidade.
Ao final os partidários da insólita teoria ressaltaram, triunfantes, que os bombardeiros não passaram sobre a cidade por uma segunda vez. As duas bombas haviam sido lançadas por equívoco. Fora por isso que os aviões se afastaram rapidamente. Como confirmação de sua teoria, os defensores da idéia de que Hiroxima seria poupada apontaram posteriormente para um fato inegável: embora soassem por várias vezes as sirenes de ataque aéreo, nas duas semanas que se seguiram, nenhum bombardeiro sequer se aproximara da cidade.
Os alarmes recentes haviam adiado a visita semanal regular aos campos do assistente do Prefeito, Kazumasa Maruyama, a fim de obter alimentos para sua esposa e para o Prefeito Awaya.
Naquela manhã, Maruyama levantou-se às cinco horas e deixou a esposa ainda dormindo no pequeno quarto conjugal. Ele escutou o rádio antes de deixar o apartamento. O rádio era muito importante. Os avisos de ataque aéreo eram irradiados pelo rádio. Fora este, com suas primeiras insinuações de uma “retirada estratégica”, que preparara os ouvintes para a perda de Iwo Jima.
O locutor parecia tão confiante quanto sempre naquela manhã. O Corpo Especial de Ataques, os kamikazes, haviam desfechado um golpe mortal contra o inimigo no dia anterior, ao largo das praias de Okinawa. Entre os muitos alvos estava o “orgulho da esquadra inimiga, a nave Indianapolis”. O nome do navio não dizia coisa alguma a Maruyama, mas ele deduziu que, por trás das palavras sonoras, o rádio estava começando a preparar o público para um fato extremamente desagradável: o inimigo alcançara as praias de Okinawa.
Se Okinawa caísse, Maruyama não tinha a menor dúvida de que o inimigo invadiría em seguida o Japão propriamente dito.
O pensamento do que isso significaria era horrível demais para sequer se cogitar. Os jornais e o rádio falavam dos soldados americanos como “demônios sedentos de sangue”. Talvez, no final das contas, ele estivesse errado ao apoiar e idéia do prefeito de trazer a família para Hiroxima. Talvez ela estivesse em situação melhor em Tóquio, protegida pela concentração maior de tropas defensoras.
Ainda pensando no dilema que a notícia do rádio criara em sua mente, o assistente do prefeito partiu para fora da cidade a pé.
Mercadorias eram mais úteis do que dinheiro para se obter uns poucos legumes e frutas para engrossar a ração legal. A partir daquele dia, as rações deviam ser reduzidas mais ainda, a porção de arroz limitada a três tigelas por dia, durante 20 dias de qualquer mês. Nenhuma comida seria fornecida para os dias restantes do calendário. A qualidade do arroz era tão ruim que Maruyama jamais o teria comido antes da guerra. O peixe, o outro alimento básico da dieta japonesa, também se tornava escasso. Os bombardeiros americanos estavam destruindo sistematicamente a frota pesqueira.
Maruyama foi muito bem recebido na fazenda. Era o fregues mais importante, entre todos os que apareciam para oferecer coisas em troca de comida. Dali a pouco, Maruyama estava sentado de pernas cruzadas, só de meias, na sala de visitas da casa da fazenda, tomando chá.
Normalmente, o fazendeiro fazia-lhe perguntas sobre a vida na cidade. Naquela manhã, era o fazendeiro quem tinha informações a dar e estava determinado a tirar o máximo proveito disso.
Maruyama fez a abertura inicial da conversa, comentando que o ataque aéreo deixara muita gente nervosa em Hiroxima. Ao que o fazendeiro declarou:
— A cidade não será bombardeada novamente.
Maruyama sorriu debilmente, mas sabia que não devia ofender o fazendeiro. Era um homem sensível e podia vender seus produtos a quem bem desejasse. Maruyama disse que esperava que seu anfitrião estivesse certo e que a cidade fosse realmente poupada.
— Vai ser mesmo! É que os americanos pretendem, quando a guerra terminar, construir aqui suas casas de veraneio! Afinal, Hiroxima é uma das cidades mais bonitas do Japão!
Maruyama cumprimentou o fazendeiro por estar a par daquela informação secreta.
— Não posso revelar como eu soube, Sr. Secretário. Mas posso informar que foi um cliente quase tão importante como o senhor que me contou. Assentindo gravemente, Maruyama levantou-se. Estava na hora de tratar de negócios. Ele abriu o embrulho de roupas usadas que trouxera. A medida que cada peça era apresentada, o fazendeiro metia a mão em seus próprios sacos e tirava o preço de compra em produtos.
Maruyama calculou que, com as roupas, comprara alimentos suficientes para o prefeito, para sua esposa e para si mesmo, por três dias. . . talvez para cinco, se a esposa fosse bastante cuidadosa. Ele trocou reverências com o fazendeiro, embrulhou cuidadosamente o que comprara, fez uma última vênia e depois iniciou a viagem de volta para Hiroxima.
Percorrera pouco mais de um quilômetro quando um camponês saiu correndo de sua cabana e gritou que o rádio acabara de anunciar outro alerta de ataque aéreo.
Incapaz de resistir, Maruyama espalhou seu próprio boato de guerra:
— Não sc preocupe. Hiroxima não será bombardeada novamente. Ainda não ouviu a notícia? Os americanos vão construir suas casas de veraneio aqui! Talvez o próprio Roosevelt apareça!
E ele continuou a caminhar rapidamente na direção da cidade.
29
O bombardeador do Grupo Tom Ferebee estava bastante relaxado ao anunciar laconicamente, como sempre fazia no PI, que diretamente a sua frente e 10 mil metros abaixo podia avistar a pequena cidade de Calipatria, à beira do deserto, na Califórnia Meridional.
Além de Calipatria ficava o Mar de Salton e a área de bombardeio do 509.°. Restavam agora apenas três minutos antes que o novo bombardeiro chegasse ao PA, o ponto de alvo. Era o primeiro dos novos aparelhos que Parsons julgara necessários. Chegara a Wendover a 9 de março e havia sido meticulosamente inspecionado por Tibbets, Van Kirk e Ferebee.
O novo bombardeiro era de fato diferente. Mesmo sem as placas blindadas, que haviam sido removidas, juntamente com os canhões, podia-se sentir que tinha uma construção sólida. Tibbets admirou as hélices reversíveis. Ferebee gostou das portas do compartimento de bombas, com um mecanismo extremamente rápido. Estavam projetadas para se fechar dois segundos depois que uma bomba fosse lançada. Isso permitiría ao avião executar a volta de 155 graus ainda mais depressa. Van Kirk apreciou o assento do navegador. Era mais confortável que o do modelo anterior de B-29.
Uma equipe de engenheiros e mecânicos voara no aparelho. A pedido de Tibbets, fizeram diversos pequenos ajustamentos. Mas um dos engenheiros não estava satisfeito com a maneira como funcionavam as engrenagens do visor de bombardeio. Ferebee disse que poderia ajustar tudo depois de alguns lançamentos de teste. O engenheiro explicou que não era assim que costumava trabalhar. Precisava ajustar ao visor uma porção de aparelhos de controle e medição, a fim de fazer o ajustamento certo. Por isso, recebera permissão de participar daquele vôo de teste, a fim de observar o visor Norden em funcionamento.