A Bomba de Hiroxima
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Hashimoto escolhera pessoalmente muitos dos 105 oficiais e marinheiros da tripulação. Alguns já tinham servido sob seu comando, no submarino que comandara anteriormente. Os homens achavam que seu comandante de 35 anos era exigente, mas justo. Ele tinha uma grande experiência em submarinos e a reputação de sobrevivência nas circunstâncias mais difíceis.
Alguns dos novatos eram muito jovens. Hashimoto considerava que tal fato era um indício do supremo esforço que a guerra estava exigindo. Mas, como os demais tripulantes, os jovens se mostravam ansiosos em cumprir as ordens com eficiência e estavam-se saindo bem.
O I.58 chegou ao ponto de submersão.
Hashimoto desceu da ponte de comando para a sala de controle. Ficou observando os preparativos finais para o mergulho. Ordens e informações eram transmitidas de um lado para outro, as campainhas de aviso soavam estridentemente.
Os motores principais foram desligados. Os motores elétricos entraram em pleno funcionamento. As válvulas de exaustão e indução de ar externas foram fechadas.
A sala de máquinas informou à sala de controle que estava tudo pronto para o mergulho. Os vigias desceram. O oficial de vigia fechou a escotilha da torre. Os homens postados nos tubos de lastro de ar informaram que estava tudo em ordem. O Imediato virou-se para o capitão e comunicou que estava tudo pronto para o mergulho.
Hashimoto deu a ordem:
— Mergulhar! Profundidade de 10 metros!
Ele observou os marinheiros abrirem as válvulas dos tanques de lastro. O ar escapou ruidosamente. O I.58 não era mais uma bóia cheia de ar. A agulha que indicava a profundidade começou a se mexer, lentamente, a princípio, depois com uma velocidade cada vez maior. Lá fora, o mar se chocava contra a torre do submarino. Depois, o barulho cessou. A torre já estava abaixo da superfície. Os motores elétricos zumbiam incessantemente.
O Imediato informou que o submarino estava submergindo sem qualquer problema.
Hashimoto ordenou que os tubos dos tanques de lastro fossem fechados. O I.58 continuou a descer. Subitamente, uma vibração intensa percorreu o submarino de um lado a outro. O Imediato ordenou que fosse nivelado. O I.58 ficou parado suspenso, na água, a uma profundidade de 30 metros.
Verificou-se meticulosamente se não havia vazamentos, se o sistema de bombas estava em ordem. Não havia qualquer defeito.
O Capitão ordenou que o I.58 submergisse ainda mais. O problema surgiu subitamente, a 60 metros de profundidade, com um jorro d’água irrompendo na sala de torpedos. A área foi imediatamente isolada.
Hashimoto deu ordens rapidamente, sem demonstrar o menor indício de preocupação, sabendo que rostos ansiosos estavam voltados em sua direção.
O I.58 nivelou e depois começou a subir, de volta à superfície. Emergindo, os motores diesel entraram novamente em funcionamento. O capitão amaldiçoou os montadores do estaleiro, que haviam sido negligentes e com isso quase provocavam um desastre de grandes proporções. A Baía de Hiroxima era bastante profunda. Não haveria qualquer possibilidade de as equipes de salvamento recuperarem o submarino. O medo que nunca o abandonava, de ser sepultado vivo no fundo do mar, fez com que Hashimoto se sentisse quase fisicamente doente. Se tinha que morrer, queria que o fim chegasse em combate. À exceção de cinco, todos os seus colegas de turma da Academia Naval estavam mortos, vítimas dos contratorpedeiros americanos. Atualmente, a expectativa de vida de uma tripulação de submarino era medida em semanas, não em meses. Era inadmissível que os trabalhadores negligentes do estaleiro de Kure contribuíssem para abreviar ainda mais o prazo.
Me não era um homem supersticioso. Mas preferia acreditar que “qualquer coisa que começa tão mal, só pode melhorar”.
Era uma filosofia confortadora e muito necessária para um comandante que sabia que suas possibilidades de sobrevivência estavam diminuindo a cada dia que passava. Sua grande esperança era a de ter a oportunidade de afundar pelo menos um navio inimigo antes de morrer.
7
O sedã verde parou nos arredores de Santa Fé, Novo México. Lansdale disse a Tibbets e Beser que tirassem as insígnias da Força Aérea. Entregou-lhes emblemas do corpo de engenharia. E explicou, embora não houvesse necessidade, com uma só palavra:
— Segurança.
O chefe de segurança mostrava-se satisfeito por lidar com Tibbets e Beser. Os dois estavam acostumados à disciplina militar, eram muito diferentes dos cientistas, que atormentavam seus agentes com brincadeiras infantis. Lansdale ainda não se recuperara da última brincadeira. Um físico conseguira dar um jeito de abrir o cofre de aço na sala de arquivos de Los Alamos e deixara um pedaço de papel por cima dos segredos atômicos que lá estavam. No papel, estavam escritas três palavras: “Adivinhem quem foi?”
Beser encontrava-se aturdido demais com os acontecimentos para pensar em fazer qualquer brincadeira. No dia anterior, fora chamado no gabinete de Tibbets. O oficial de radar reconhecera imediatamente pelos nomes os dois “visitantes importantes”. Quando estudante, ele lera diversos trabalhos de Norman Ramsey e Robert Brode, físicos famosos. Os dois haviam-no interrogado durante uma hora sobre seus antecedentes acadêmicos e conhecimentos de radar. Finalmente, Brode declarara que Beser estava em condições de realizar a missão. . . na pressuposição de que sua vida fosse dispensável.
Ninguém dissera a Beser qual era a missão, mas ele sabia que era melhor não perguntar.
No início daquela manhã, dia 19 de setembro, ele e Tibbets seguiram de avião de Wendover para Albuquerque, Novo México. Lansdale levara-os de carro para Santa Fé. E tornou a adverti-los, antes de seguir viagem:
— Vocês não têm nada a ver com a Força Aérea. Nunca ouviram falar em Wendover. Não digam coisa alguma a ninguém.
Entraram na cidade e foram parar diante de um portão de ferro, com séculos de idade. O portão foi aberto e entraram num pequeno pátio, em estilo espanhol.
Há dois anos que aquele pátio servia como ponto de recepção para alguns dos mais eminentes cientistas do mundo. Ali, homens e mulheres tomavam café e comiam bolinhos, ouvindo palavras confortadoras de uma figura maternal, Dorothy McKibben, que servia como uma espécie de recepcionista para o centro mais secreto do Projeto Manhattan: o Local Y, em Los Alamos.
Norman Ramsey estava esperando no pátio para acompanhar Tibbets e Beser até lá. Recomendou-lhes que não tratassem nenhuma das pessoas que iriam conhecer como “doutor” ou “professor”.
— Medida de segurança — comentou Beser, solenemente.
Dois fatores haviam determinado a escolha de Los Alamos para a instalação de um laboratório atômico. Era um local bastante remoto, o que facilitava a aplicação das medidas de segurança. E se, por acaso, as experiências ali realizadas resultassem numa explosão prematura, a população civil que ficaria em perigo com a liberação de radioatividade era bastante reduzida.
A primeira impressão de Tibbets foi de desapontamento. Ele achava que “o local de nascimento da bomba devia parecer mais com uma fábrica de grandes proporções e atividade febril”.
Viu apenas grupos compactos de construções não muito grandes numa chapada, parte do platô das Montanhas Jemez. Seis mil cientistas e técnicos, com suas esposas e filhos, viviam agora no perímetro interior das cercas altas de arame farpado. Beser achou que o lugar parecia um campo de concentração. Ao entrarem no perímetro, a impressão desagradável persistiu. Muitos prédios tinham uma aparência tosca, já que a rapidez e não o conforto fora a consideração básica. Como em Wendover, havia lugares em que se avistava a placa de ÁREA PROIBIDA ou ÁREA RIGOROSAMENTE PROIBIDA.
A espera de Tibbets e Beser, em seu gabinete, estava J. Robert Oppenheimer, o físico teórico, franzino e tímido, que era o diretor cientifico do Projeto Manhattan. Recebeu os dois homens cordialmente, mas não se mostrou igualmente efusivo com Lansdale.
Há meses que o chefe de segurança vinha brincando de gato-e- rato com Oppenheimer, por causa das ligações anteriores do cientista com diversas organizações comunistas, suas contribuições financeiras a grupos de extrema-esquerda e suas amizades com “simpatizantes”. O cientista estava sob permanente vigilância desde 15 de março de 1943. Era seguido, sua correspondência aberta, os telefonemas interceptados. O próprio Lansdale admitiu:
— Fazíamos as coisas mais condenáveis para mantê-lo sob constante e rigorosa vigilância.
Groves também interrogara Oppenheimer e constatara, satisfeito, que seu “colaborador mais chegado e mais indispensável” cortara todos os vínculos com o passado. Ordenara que fosse suspensa a vigilância permanente ao diretor científico do Projeto Manhattan.
Lansdale ignorara a ordem. Seus agentes continuaram a atormentar Oppenheimer.
Estavam vigiando o homem errado.
* * *
Naquela manhã, depois que Beser e Lansdale seguiram para o laboratório de Ramsey, Oppenheimer disse a Tibbets:
— Acho melhor você tomar conhecimento de tudo.
A caixa de Pandora estava finalmente sendo aberta para o aviador.
Ali, em Los Alamos, disse Oppenheimer, o homem estava remexendo num mundo desconhecido, levantando questões como “O que é a matéria?” e “Até que ponto pode ser curto um tempo curto?”. Ali eles falavam em milhares de toneladas de energia, como se a energia pudesse ser medida. Falavam em um milésimo e depois em um milionésimo de segundo, enquanto imaginavam meios de reduzir o próprio tempo a quase nada. Discutiam os méritos relativos da difusão gasosa e dos processos eletromagnéticos para separar o urânio 235 do urânio 238. O urânio 235 produzido só podia ser medido em quantidades mínimas.
Estavam descobrindo também a natureza especial de uma reação em cadeia e estudando o problema singular da massa crítica, como reunir duas massas de urânio 235, da potência certa, para causar uma explosão atômica, no momento certo.
Oppenheimer reduziu o problema a poucas palavras:
— O problema é o tempo, Coronel. É preciso determinar o momento exato. Se conseguirmos resolver esse problema, então começarão os seus problemas. — O cientista fez uma pausa, olhando afavelmente para Tibbets, antes de acrescentar: — Provavelmente haverá muitos outros problemas antes de a bomba explodir.
Oppenheimer explicou como tencionavam construir a bomba de urânio. Um mecanismo apropriado iria pôr em contato os dois hemisférios de urânio 235, a fim de que suas massas combinadas atingissem o ponto crítico e detonassem. A quantidade de urânio 235 a ser utilizada, os tamanhos das duas esferas, a velocidade com que deveríam colidir, o ângulo de dispersão, o alcance dos nêutrons projetados pela reação em cadeia. . . eis algumas das perguntas que ainda precisavam de resposta, explicou o cientista.
Ele se levantou e pediu a Tibbets que o acompanhasse. Foram para uma construção próxima, que não tinha qualquer identificação, a não ser uma placa onde estava escrito:
ENTRADA RIGOROSAMENTE PROIBIDA
Era ali que o Capitão Parsons e sua equipe estavam trabalhando no problema de assegurar que a bomba explodisse a uma altura determinada acima do alvo.
Oppenheimer disse que Parsons provavelmente participaria pessoalmente da primeira missão.
— Isso é ótimo — comentou Tibbets. — Assim, se alguma coisa sair errada, poderei lançar-lhe a culpa, Capitão.
— Se alguma coisa sair errada, Coronel — respondeu Parsons — não sobrará nenhum de nós para ser culpado.
Em seguida, descreveu para Tibbets uma das máquinas experimentais que haviam construído para testar a teoria da massa crítica. Um pedaço de urânio no formato de rosca era colocado na máquina, que fora apelidada de “A Guilhotina”. Depois, outro pedaço de urânio era lançado no buraco da rosca. Por uma fração de segundo, o urânio extra mergulhando pela abertura levava os dois pedaços muito perto da massa crítica. Era uma experiência extremamente arriscada. Chamavam-na “torcer o rabo do dragão”.
Parsons deu mais algumas explicações a Tibbets sobre o mecanismo da bomba.
— O objetivo é assegurar que o encontro das duas massas “sub-críticas” ocorra pela primeira vez no momento da detonação planejada sobre o alvo. As massas se irão combinar numa massa crítica, causando a explosão da reação em cadeia. Essa é a teoria. Até agora, porém, ainda não podemos ter certeza se a bomba irá funcionar como esperamos.
O capitão explicou que o núcleo da bomba não passava no fundo do “uma boa arma antiga, um canhão de cinco polegadas, com um cano de dois metros. Depois que ela tiver sido lançada do avião e estiver a caminho do alvo, uma massa de urânio, do tamanho de uma lata de sopa, será disparada pelo cano para uma segunda massa do urânio, fixada na boca.”
— E se não funcionar? — insistiu Tibbets.
— Faremos apenas um estrago mínimo no alvo e voltaremos as pranchetas a fim de começarmos a planejar tudo novamente — respondeu Parsons.
Para evitar essa perspectiva desoladora, explicou Oppenheimer, a unidade de Tibbets iria lançar bombas de teste nos meses seguintes. Isso ajudaria os cientistas a desenvolverem o formato final do invólucro da bomba, assim como os detonadores de proximidade, que determinariam a altura em que a bomba iria explodir.
Até aquele momento, os detonadores de proximidade ainda não tinham sido devidamente acertados.
* * *
Tibbets continuou a ser surpreendido por Oppenheimer durante a visita a Los Alamos. Mais tarde, passaram por outro corredor idêntico a muitos que já haviam percorrido anteriormente, com salas idênticas dos dois lados, quadros-negros cobertos por fórmulas, ocupantes debruçados em réguas de cálculos e tábuas de logaritimos.
Subitamente, o cientista estacou. A cabeça estava erguida como um cachorro a farejar caça. Ele se virou e entrou numa das salas.
Lá dentro, um homem estava sentado numa cadeira de madeira de espaldar reto, olhando fixamente para o quadro-negro. A barba estava por fazer, os cabelos estavam despenteados.
Tibbets imaginou que talvez fosse “um dos zeladores do prédio tirando um cochilo não autorizado depois de uma noite de trabalho”.
Oppenheimer parou atrás do homem, em silêncio, olhando também para o quadro-negro, cheio de equações. Aproximou-se do quadro negro e apagou parte de uma equação. O homem na cadeira não se mexeu.
Oppenheimer escreveu rapidamente um novo grupo de símbolo. no espaço que apagara.
O homem parecia estar aturdido.
Oppenheimer acrescentou um símbolo final.
O homem levantou-se bruscamente, gritando:
— Há dois dias que venho procurando por esse erro!
Oppenheimer sorriu e saiu da sala de Enrico Fermi, deixando um dos fundadores e um dos maiores gênios da Física Nuclear recomeçando seu trabalho, entusiasmado.
* * *
Beser estava tendo “o dia mais fantástico da minha vida”. Conhecera e falara com uma dúzia de cientistas famosos que tinham sido os heróis de sua adolescência.
Hans Bethe e Ernest O. Lawrence estavam entre os que deram a Beser explicações sobre seu trabalho. Os cientistas falaram-lhe das armas estranhas que haviam imaginado para dispararem balas atômicas. Disparadas umas contra as outras, as balas devoravam-se mutuamente no impacto. Descreveram como esperavam que esse fenômeno pudesse ser usado para produzir uma explosão atômica. Falaram das temperaturas que esperavam criar e que fariam “uma luz mais intensa do que mil sóis”.
Ramsey relatou o papel que o oficial de radar desempenharia na missão. Beser aprendería a controlar o radar inimigo, para verificar se estava tentando emperrar ou detonar o intrincado mecanismo da bomba. Para entender como isso poderia acontecer, Beser iria aprender o que poucos cientistas sabiam: os menores detalhes do mecanismo de detonação da bomba, inclusive o sistema embutido de minirradar.
Nesse primeiro dia, ninguém parecia preocupado com o quanto deveríam contar a Beser. Despejaram informações em cima dele, “deixando-me afogado num remoinho científico”.
Ao final da tarde, o tenente foi apresentado a um jovem técnico casmurro, David Greenglass. Ninguém ainda desconfiava de que Greenglass acabara de roubar a primeira de muitas das plantas do projeto atômico que levaria de Los Alamos. Ele levaria inclusive os esquemas de uma lente especial crucial à detonação da bomba de plutônio, que estava sendo desenvolvida ao mesmo tempo que a bomba de urânio. Os desenhos seriam levados para a Rússia através de uma rede de espionagem altamente profissional que os soviéticos tinham conseguido estender até o interior de Los Alamos. Greenglass recebería umas poucas centenas de dólares por sua traição.
Mais tarde, Beser teria a certeza de que interrompera o técnico em suas atividades de espionagem naquela tarde.
Já estava escuro quando o oficial de radar deixou Greenglass. Com alguma dificuldade, encontrou a pequena casa de hóspedes que fora designada para os visitantes. Abriu a porta da frente e estacou abruptamente. Estendida no sofá, tomando um drinque, estava uma morena bonita, inteiramente nua. Ela largou o drinque e levantou-se.
— Em que posso servi-lo? — A voz tinha um ligeiro sotaque alemão.
Era Katherine Oppenheimer, esposa do diretor científico do Projeto Manhattan. Ela deixara a Alemanha aos 14 anos. Entre seus parentes, estava o Marechal-de-Campo nazista Wilhelm Keitel.
— Sinto muito, Madame... — Beser ficou vermelho e não conseguiu dizer mais nada. Nunca antes vira uma mulher nua.
— Está procurando por alguém?
— Estou, sim, Madame. . . Não, Madame. . . Minha... cama . isto é. . . os aposentos de hóspedes, Madame. . .
— Ficam nos fundos da casa. Entrou pela porta errada. Mas pode passar por aqui. — A Sra. Oppenheimer sentou-se e recomeçou a beber o coquetel.
Desviando os olhos, o embaraçado Beser passou, cambaleando, pela lânguida primeira-dama de Los Alamos.
* * *
O marido dela estava deixando Paul Tibbets inteiramente aturdido Os dois estavam sozinhos no gabinete de Oppenheimer, fazendo uma revisão de tudo o que o oficial tomara conhecimento até aquele momento. Ele achava que, em poucas horas, recebera “uma instrução científica melhor do que em todos os anos que passei na escola".
Oppenheimer começou a interrogá-lo. Além da interferência do inimigo, o cientista queria saber que outros riscos poderiam haver numa missão de bombardeio. Tibbets explicou que havia sempre a possibilidade de as bombas emperrarem nos compartimentos ou de detonarem prematuramente por causa de um mecanismo defeituoso. O cientista achava que tais riscos poderiam ser eliminados na bomba atômica.
Depois, ele olhou atentamente para Tibbets e arrematou:
— Coronel, seu maior problema será depois que a bomba for detonada. A onda de choque da detonação pode destruir seu avião. Infelizmente, não lhe posso dar qualquer garantia de que sobreviva à missão.
8
O barulho do geta, os sapatos de madeira japoneses que ele tanto apreciava, contra o chão de pedra, era o único ruído que se ouvia no laboratório da Universidade de Osaka do Dr. Tsunesaburo Asada, possivelmente o mais imaginativo cientista do Japão. Sua equipe já sabia que aquele hábito de arrastar os pés era um sinal de que Asada sentia-se contente.
Apoiando o peso do corpo num dos pés e depois no outro, o cientista de casaco branco examinava sua mais recente criação, um detonador de proximidade. Era semelhante no projeto e no objetivo dos detonadores que estavam sendo aperfeiçoados em Los Alamos.
Meses de trabalho tinham sido dedicados ao desenvolvimento do detonador no laboratório bem equipado de Asada. Atualmente, ele raras vezes deixava o campus, trabalhando até altas horas da noite, de vez em quando tirando um cochilo no sofá a um canto do laboratório. Não gostava de interromper seu trabalho.
O cientista japonês ainda era, como fora no início da guerra, o diretor do Departamento de Física da Universidade. Mas desde o final de 1941 que não mais ensinava. O seu talento transformara-o num dos cientistas cruciais para o esforço de guerra do Japão.
Desde 1937, Asada fizera conferências regulares no Instituto de Pesquisa Técnica Naval, em Tóquio, e no Instituto de Pesquisa Aeronáutica Naval, em Yokosuka. Além das conferências, ele trabalhara em estreito contato com as autoridades militares, antes de o Japão entrar em guerra. A 17 de dezembro de 1941, fora um dos cientistas selecionados para trabalhar no Projeto A.
Esse era o nome em código para a pesquisa atômica japonesa. Onze dias depois de o Presidente Roosevelt ter autorizado o Projeto Manhattan, os japoneses haviam entrado também na corrida, decididos a fabricar uma bomba atômica.
Asada jamais esqueceria o clima de cego patriotismo da primeira reunião depois de Pearl Harbor, no Clube Naval, em Tóquio. Houvera promessas de recursos generosos para a pesquisa atômica. A cautela dele em relação aos vastos problemas técnicos que teriam de ser superados foi ignorada. Aqueles eram os dias em que os japoneses pareciam invencíveis. Um oficial naval dissera que talvez os novos aliados dos japoneses, os alemães, poderiam ajudar. O professor ressaltara que muitos dos principais cientistas atômicos alemães eram judeus; se já não tivessem saído do país, provavelmente estavam mortos. Era possível que alguns tivessem emigrado para os Estados Unidos. Manifestara, ainda, sua opinião de que provavelmente a América tinha todo potencial para desenvolver armas atômicas.
O oficial da Marinha imediatamente o censurara, declarando:
— A América. . . e o Japão!
Durante um ano, ele e outros cientistas haviam estudado o problema. Tinham apresentado suas conclusões em dezembro de 1942. Levariam cerca de 10 anos para produzir “algumas armas atômicas”. Mesmo esse prazo era otimista, já que o Japão não possuía o urânio essencial.
O Projeto A fora arquivado pela Marinha, embora o Exército japonês continuasse a trabalhar de maneira irregular num projeto atômico, até 1945.
A Marinha havia iniciado o Projeto B. Asada reconheceu imediatamente o potencial. O Projeto B estava relacionado com o desenvolvimento do radar, técnicas de navegação e detonador de proximidade.
Nos últimos 18 meses, progressos impressionantes haviam sido realizados nas três divisões do Projeto B. Dois famosos navios de guerra britânicos, o Prince of Wales e o Repulse, haviam sido de grande ajuda para o desenvolvimento do radar japonês. Os dois navios tinham sido afundados ao largo de Singapura, em 1941, no auge das vitórias japonesas. Mergulhadores haviam localizado os navios no fundo do mar e realizado a tarefa hercúlea de desmontarem os aparelhos de radar de ambos. Foram embarcados para o Japão, montados outra vez e estudados pelos pesquisadores, fornecendo informações de inestimável importância.
O próprio Asada desenvolvera o detonador de proximidade. Em breve seria iniciada a produção em massa. Encerrada sua participação naquela parte específica do Projeto B, juntara-se a um grupo pequeno e seleto de cientistas que estava trabalhando na mais impressionante de todas as armas.
Estavam construindo o raio da morte.
Era uma máquina que parecia saída das novelas de ficção cientifica. Deveria projetar um raio invisível que atingiría os aviões inimigos em pleno ar, destruindo as hélices ou matando seus tripulantes.
Asada sabia que, com tal arma, o Japão poderia conquistar a vitória final. Nenhum avião estaria a salvo do raio da morte. Baterias de raio da morte estrategicamente situadas poderiam garantir a imunidade de todas as cidades japonesas a ataques aéreos. Outras baterias poderiam ser dispostas de maneira a proteger as costas japonesas de embarcações que se aproximassem. Mais tarde, a Marinha poderia instalar baterias de raio da morte em seus navios, a fim de destruir o inimigo muito longe do Japão.
O potencial era ilimitado. Já fora desenvolvido um protótipo que conseguira matar ratos no laboratório. Esse sucesso modesto enchia Asada de esperança. A próxima etapa seria experimentar o raio da morte com um mamífero maior.
9
Surprender o inimigo era a preocupação permanente do Major-General Seizo Arisue. As surpresas eram o seu negócio. Ele as criava, espalhava, previa e anulava.
Era o Diretor do Serviço Secreto do Exército Imperial, reconhecidamente o grande mestre da espionagem japonesa.
Era um homem pequeno, com uma inteligência extraordinária e um temperamento explosivo, que combinava com a voz áspera.
Mantinha um arquivo permanentemente atualizado com fichas de todos os políticos e oficiais japoneses importantes. Conhecia mais segredos do que qualquer outro homem no Exército e usava-os frequentemente para manter sua posição.
A ficha sobre Arisue, mantida por seus rivais no Serviço Secreto Naval, descrevia-o como um homem “arrogante, extremamente confiante em suas habilidades e perigosamente ambicioso”.
O relacionamento entre os dois ramos do serviço secreto era o mais frio possível. Estavam empenhados numa luta pelo poder, cada um procurando fornecer as informações mais valiosas.
Arisue estava começando a acreditar que finalmente teria a oportunidade de prevalecer, com um espetacular golpe de espionagem. Desde o início da manhã que ele estava em seu pequeno gabinete no Quartel-General do Exército em Tóquio, analisando um intrigante relatório do contato em Lisboa. Normalmente, o relatório nem teria chegado às mãos do general. Mas ele dera ordens expressas para que lhe encaminhasse “tudo o que estiver relacionado com a América”.
Algumas das informações vinham de Berlim, da Abwehr. Eram simples fragmentos já superados, recebidos pelos alemães de seus agentes em Madri e Cidade do México. Os sumários semanais da imprensa americana eram mais úteis. O serviço secreto militar japonês era assinante de 140 jornais e revistas americanos. Com grande frequência, o New York Times, o Saturday Evening Post, Collier’s, Time e Newsweek continham informações sobre movimentações de tropas e baixas em combate que ajudavam Arisue a formar um mosaico surpreendentemente acurado dos Estados Unidos em guerra. A princípio, ficara desconfiado das informações colhidas na imprensa americana. Pensara que talvez fossem uma armadilha preparada pelo serviço secreto inimigo. Mas várias vezes pudera confirmar as informações dos jornais. E não conseguia imaginar como os censores americanos permitiam que informações tão importantes fossem publicadas.
Agora, ao estudar o relatório chegado de Lisboa, ficou imaginando o que os censores portugueses teriam feito ao lerem aquilo. Provavelmente enviaram cópias aos serviços secretos britânico e americano. Ele tinha quase certeza de que isso vinha acontecendo regularmente nos últimos seis meses.
O homem de Arisue em Lisboa ouvira o rumor de que os Estados Unidos haviam iniciado um novo e gigantesco projeto de guerra.
Depois de algumas horas estudando o problema, o general chegara à conclusão de que só havia uma maneira de confirmar a informação. Precisava dar um jeito de introduzir um agente nos Estados Unidos.
Seria a operação mais difícil que ele já montara. Nenhum japonês nato poderia ficar muito tempo nos Estados Unidos sem ser descoberto. Arisue poderia pedir que a florescente rede de espionagem alemã na América do Sul providenciasse um agente. Mas talvez se passassem meses até que tudo ficasse resolvido em Berlim, especialmente agora que a maré estava virando contra Hitler. Os italianos já estavam praticamente liquidados.
Ele concluiu que não havia possibilidade de receber qualquer ajudar do Eixo.
Analisou os seus próprios recursos. Seu contato em Lisboa não estava qualificado a realizar uma missão tão perigosa. Seus homens em Madri e na Cidade do México eram recrutas locais, sem condições de serem algo mais do que simples intermediários na remessa de informações.
Brasil. . . Arisue pôs um ponto de interrogação ao lado do nome de seu agente nesse país. Era um bom agente. Mas por onde ele poderia começar?
A mensagem de Lisboa não continha qualquer pista sobre o local em que estava sendo desenvolvido o projeto e qual a sua natureza.
Os problemas eram imensos. Mas se conseguisse descobrir o que era esse novo projeto bélico americano, isso poderia reforçar a determinação do Governo de lutar até o fim.
Arisue convocou a seu gabinete o Tenente-Coronel Kakuzo Oya, chefe da seção americana de seu quartel-general. Os dois oficiais passaram o resto da tarde discutindo as possibilidades de se infiltrar um espião nos Estados Unidos.
10
As ordens foram transmitidas pelo sistema de comunicação do B-29:
— Vamos fazer tudo certinho. Eles estão observando. Não quero que ninguém comece a inventar. Certo?
A tripulação do imenso bombardeiro não respondeu ao piloto, capitão Robert Lewis. Há cerca de uma hora que vinham fazendo tudo rigorosamente de acordo com as instruções do manual. Haviam verificado o bombardeiro por fora, embarcado, verificado os pára-quedas, iniciado a contagem regressiva para a decolagem.
Duzenbury, o engenheiro de vôo, e Caron, o artilheiro da cauda, que já tinham voado muitas vezes antes com Lewis, mostravam-se surpresos com a seriedade dele naquela manhã de outono em Wendover. Conheciam o capitão como um gozador de 26 anos, que usava um quepe amassado e uma jaqueta de vôo manchada. Parecia um veterano em combate, muito embora jamais tivesse participado de qualquer ação.
Lewis estava cuidando daquele vôo como, nas palavras de Caiou, “se tivesse a bordo o Presidente e todo o Gabinete”.
Espremido na pequena torre na cauda, o artilheiro sentiu-se tentado a ligar o aparelho de intercomunicação e dizer a Lewis para relaxar.
O impulso passou. A verificação continuou.
— Equipamento em ordem, Navegador?
O sistema de intercomunicação realçava ainda mais o sotaque de Brooklyn de Lewis.
— Tudo em ordem.
O Capitão Theodore “Dutch” van Kirk, o navegador, acomodou-se mais confortavelmente no assento estofado. Imaginou quem Lewis estaria tentando impressionar. Na semana em que estava em Wendover, Van Kirk percebera que o piloto adorava uma audiência.
Tibbets tentara tranquilizar o navegador, dizendo que Lewis se comportava assim apenas como “válvula de escape à tensão, pois é um piloto nato quando levanta vôo”. Van Kirk tinha opiniões próprias a respeito dos chamados pilotos “natos”. Descobrira, com uma frequência excessiva, que eram “doidos tentando provar alguma coisa aos outros”. Esperava que Lewis não fosse desse tipo.
Lewis, por sua vez, sempre achara que todos os navegadores eram uma raça estranha, com sua crença cega de que qualquer piloto podia seguir um curso com absoluta exatidão. Naquele dia, porém, tencionava seguir automaticamente qualquer mudança de curso indicada por Van Kirk. Dessa maneira, não poderia ser culpado por qualquer equívoco.
Sentado na carlinga, observando as luzes piscarem no painel de instrumentos, o piloto experimentou novamente a sensação familiar de bem-estar. Percorrera um longo caminho.
Em sua infância nas ruas de Brooklyn, um par de punhos rápidos era muito melhor do que um sotaque de classe. Sabia que seu comportamento agressivo fora um fator negativo. Mas, ao final, até mesmo o instrutor mais exigente não pudera deixar de reconhecer que Lewis era um piloto de talento excepcional. Nunca esqueceria o orgulho do pai e da mãe ao verem-no pela primeira vez no uniforme de oficial. Também jamais deixaria de se recordar da sua própria satisfação ao caminhar por Brooklyn e ser “cumprimentado como alguém”. Depois, viera o dia memorável em que levara o legendário Charles Lindbergh a voar num B-29. Depois do vôo, o herói americano dissera que teria ficado feliz se tivesse levado Lewis em sua companhia na histórica travessia do Atlântico.
Tibbets é que contribuira decisivamente para transformar Lewis num dos mais experientes pilotos de B-29 de toda a Força Aérea. A convocação a Wendover não surpreendera Lewis. Ele escrevera no pai: “Paul precisa de mim porque sou um bom piloto.”
A modéstia, como o próprio Lewis reconhecería, não era uma de suas características mais marcantes. Mas ele possuía outra qualidade: uma grande generosidade e uma lealdade inflexível a sua tripulação, especialmente praças e sargentos. Os mecânicos o idolatravam, porque ele era capaz de infringir todos os regulamentos para proporcionar-lhes melhores condições de trabalho.
Lewis reunira sua tripulação alguns dias antes, quando o B-29 chegara, o primeiro a ser entregue em Wendover. Houvera uma intensa competição entre os pilotos para ver quem iria comandá-lo. O capitão ficara quase que infantilmente excitado quando fora escolhido. Imediatamente se pusera a falar em “minha tripulação” e “meu avião”.
Mas, para aquele vôo, Van Kirk e Ferebee haviam substituído os seus navegador e bombardeador habituais. Tibbets explicara a Lewis que Van Kirk e Ferebee iriam voar com todas as tripulações. F acrescentara uma promessa:
— Tudo voltará a ser como nos velhos tempos, Bob.
O que deixara Lewis bastante animado. Os “velhos tempos” haviam sido aqueles em que tivera um “relacionamento direto e íntimo com Paul, sem ninguém para interferir”.
Não fora o que acontecera nos 10 dias em que estava em Wendover. Ele achava que Tibbets nunca tinha tempo para sentar-se em sua companhia e conversar sobre os velhos tempos. E não ficava nisso:
— Paul não ria mais com as minhas piadas, não mais se mostrava tão tolerante quando eu cometia algum pequeno erro. Atribui tal comportamento ao nervosismo de um novo comando.
As últimas verificações para o vôo estavam terminando. Lewis perguntou a Van Kirk o tempo de vôo para o ponto inicial ou PI, a referência no mapa de onde o B-29 começaria o vôo de bombardeio. Do PI ao PA, o ponto de alvo, a distância seria de apenas alguns quilômetros. Nesse trecho da missão, o piloto trabalharia com o bombardeador, Ferebee. Ele não simpatizara com Ferebee desde o momento em que se haviam conhecido. Achava que o bombardeador “bancava o superior” falava como “um Playboy do cinema”.
Uma noite, Lewis e Ferebee haviam jogado pôquer. O piloto perdera a metade do salário de um mês. Não podia dar-se a esse luxo. Um casamento desfeito o deixara quase sem dinheiro. Em tom de brincadeira, Tibbets lhe dissera que “não saísse de sua turma”.
O coronel sabia que Ferebee era um dos melhores jogadores de pôquer da Força Aérea. Achava também que Lewis era um “mau perdedor”, uma acusação que o piloto sempre negaria veementemente, e não queria “jogos de cartas criando problemas desnecessários”.
Lewis repassou mentalmente os pontos principais das instruções que o comandante lhe dera. Deveria subir a 10 mil metros de altitude e voar para o sul, até a área de bombardeio, um lago artificial, o Mar de Salton, na Califórnia Meridional. Ali, Ferebee tentaria lançar uma bomba cheia de lastro dentro de um círculo de 200 metros, no norte do lago. Tibbets dissera a Lewis que deveria executar uma volta de mergulho de 155 graus assim que a bomba fosse lançada, voltando pela mesma direção de onde viera. E Tibbets enfatizara:
— Mantenha o curso firme e saia da área o mais depressa que puder!
O coronel esperava que a manobra fosse a solução para a sobrevivência da tripulação do avião à esperada onda de choque de uma bomba atômica. Calculara que Lewis estaria a 11 quilômetros de distância quando a bomba de teste atingisse o solo. Não explicou ao capitão o motivo para tal manobra, “porque isso implicava em dizer-lhe coisas demais, prematuramente”.
Pouco antes de embarcar no B-29, Lewis tivera outra surpresa. Beser aparecera na pista, informando que levaria cerca de 150 quilos de equipamentos no vôo.
— Não posso explicar o que se trata — dissera o tenente, de maneira jovial. — É uma questão de segurança.
Lewis ficara bastante irritado. Agora, aguardando a decolagem, o oficial de radar estava agachado no chão do B-29, atrás do banheiro, na parte traseira do aparelho, com seus analisadores de espectro, visor direcional, receptores e antenas.
Beser estava prestes a iniciar o primeiro vôo em que faria exercício de enfrentar tentativas inimigas de interferir eletronicamente com uma bomba atômica. Alguns de seus instrumentos foram especialmente modificados em Los Alamos. Durante o vôo, os instrumentos tentariam captar sinais emitidos do solo, simulando sinais de radar do inimigo. A tarefa do tenente era reconhecer, antecipar e desviar os feixes direcionais.
— Tudo pronto para acionar os motores?
Duzenbury estudou o painel a sua frente antes de responder a Lewis. Aos 31 anos, era o homem mais velho da tripulação. O sargento não perguntara a Tibbets por que o trouxera para Wendover. Para ele, era suficiente “trabalhar para o melhor cavalheiro da força aérea”.
Ele gostava também de Lewis. Depois do coronel, Lewis era o melhor piloto que Duzenbury conhecia.
— Pode acionar os motores, Capitão.
Um a um, os quatro motores de turbina Wright Cyclone entraram em funcionamento. A torre de controle autorizou Lewis a decolar. Na cabeceira da pista, ele acelerou os motores para 2.300 rpm, enquanto Duzenbury verificava os magnetos e geradores. Depois, o piloto empurrou as alavancas de aceleração à posição de potência máxima e lentamente soltou os freios. A uma velocidade de 150 quilômetros horários, exatamente como determinava o manual, Lewis alçou vôo com o maior bombardeiro que existia no mundo.
Alcançou o PI no prazo previsto. Minutos depois, Ferebe anunciou que tinha o PA em seu visor Norden.
— Lançar as bombas! Correção! Lançar a bomba!
O piloto inclinou o bombardeiro violentamente para a direita, baixando o nariz para obter maior velocidade. Um surpreso Caron, na cauda, gritou pelo sistema de intercomunicação:
— Capitão, parece até uma montanha-russa aqui atrás!
Lewis gritou em resposta:
— Eu lhe cobrarei o passeio quando voltarmos!
Beser estava ocupado demais para dar qualquer atenção à manobra. Dois de seus instrumentos haviam perdido a potência e não tinha a menor idéia da eficácia de suas contramedidas eletrônicas contra os feixes direcionais invisíveis. Desolado, ele abandonou o controle.
A bomba cheia de lastro caiu dentro do círculo. Cinegrafistas do Projeto Manhattan informaram que haviam conseguido registrar sua queda. Os filmes foram levados para Los Alamos, onde foram estudados meticulosamente pelos cientistas, ainda tentando determinar o melhor formato para a bomba.
Instrumentos de medição instalados em torno do PA calcularam que o avião estava a mais de 11 quilômetros de distância quando a bomba atingiu o solo.
Tibbets ficou aliviado. A manobra possibilitava a um avião evitar a onda de choque da bomba atômica. Ele manifestou seu alívio a um dos cientistas que estavam estudando o problema do raio de alcance da bomba.
E o homem lhe deu uma resposta que o deixou aterrado:
— Onze quilômetros, 20, 50, 10. . . É tudo a mesma coisa, porque não há meio de determinarmos a distância segura enquanto não lançarmos uma bomba atômica de verdade.
* * *
A tarde chegava ao fim quando Tibbets voltou a Wendover. Em seu gabinete, ele continuou a analisar as exigências táticas para lançar uma bomba atômica.
Embora a 21 de outubro já soubesse muito mais do que um mês antes, ainda estava longe de sentir-se tranquilizado. A natureza incerta da explosão — ninguém podia ter certeza de suas proporções — e a onda de choque prevista — outro imponderável — haviam contribuido para se excluir o uso de uma escolta de caças. Para poderem sobreviver à onda de choque, os caças teriam que estar tão longe da explosão que não poderiam proporcionar qualquer proteção no justo momento em que o bombardeiro estaria mais vulnerável. Além do mais, uma escolta de caças talvez conseguisse apenas atrair maior atenção para o bombardeiro. Tibbets tomou uma decisão.
O bombardeiro seguiría sozinho para a missão.
Isso também apresentava problemas: o fogo antiaéreo e os caças inimigos. Era provável que a última etapa da missão fosse voada sobre território ocupado pelo inimigo, talvez contando com defesa de caças. Quanto mais Tibbets pensava no problema, menos prováveis lhe pareciam as possibilidades de sucesso. Os bombardeiro poderia ser destruído muito antes de alcançar o objetivo.
Subitamente, o coronel recordou-se de sua experiência no Novo México.
Meses antes, realizara diversos vôos no Novo México para testar a suscetibilidade do B-29 a ataques de caças. Numa determinada ocasião, descobrira irritado que o B-29 que normalmente usava nos testes não estava em condições de vôo. Resolvera então voar no único B-29 disponível, um aparelho despojado dos armamentos.
Decidira voar assim mesmo apenas para dar aos pilotos de caças a oportunidade de realizarem exercícios. Mas descobrira rapidamente que o B-29 sem armamentos podia operar a uma altitude de mais 1.600 metros que os bombardeiros normais. Era mais rápido e mais manobrável. Conseguira desvencilhar-se dos caças P-47 que faziam ataques simulados. Finalmente, a uma altitude de 11 mil metros, os caças haviam desistido, já que o esforço exigido de seus motores era demasiado.
Recordando a experiência, Tibbets começou a sentir-se excitado. O fogo antiaéreo era praticamente ineficaz acima de 10 mil metros de altitude, e ele sabia que um caça P-47 era parecido no desempenho com um Zero japonês.
Se a cidade-alvo fosse japonesa, o que era bem provável, o coronel concluiu que a melhor chance seria usar na missão um B-29 sem armamentos. Removería todas as placas blindadas e todas as armas, deixando apenas as metralhadoras na cauda.
Telefonou para o hangar e determinou que as equipes de terra começassem a trabalhar imediatamente despojando os dois bombardeiros que já estavam em Wendover.
— Esta noite? — indagou o chefe das equipes de terra, incrédulo.
— Agora!
Os mecânicos acharam que a idéia era uma “loucura rematada”. Mais tarde, iriam batizar os bombardeiros desarmados de Alvo Fannie Um e Alvo Parado Dois.
11
Em formação compacta, cinco aviões voavam para leste, através do Pacífico. Todos os pilotos esperavam morrer em breve.
Usavam echarpes brancas amarradas sob o pescoço, bem frouxas. Por baixo dos capacetes de vôo de couro, escondido pelos óculos, cada homem usava um hachimaki, uma réplica da faixa na cabeça que os guerreiros samurais usavam tradicionalmente em combate, no antigo Japão. Naquela manhã, a faixa era o símbolo do Corpo Especial de Ataque, integrado pelos pilotos suicidas, shimpu ou "vento divino”. Mais tarde, aqueles pilotos e muitos outros como des seriam chamados de kamikazes, uma transliteração ocidental dos caracteres que em sino-japonês são pronunciados como shimpu. Os primeiros shimpu tinham sido os tufões de 1241 e 1281, os quais, segundo a lenda, salvaram o Japão da fúria dos mongóis.
Os homens escolhidos para lançarem aquele novo shimpu haviam sido comunicados antes da decolagem, horas antes, que eram "deuses sem desejos terrenos”. Seus Zeros transportavam 250 quilos de bombas. Os pilotos planejavam lançar seus aparelhos contra os navios da esquadra americana, agora apenas um pouco além do horizonte.
O plano fora imaginado apenas seis dias antes pelo Vice-Almirante Takijiro Onishi. A todos os adjetivos aplicados a esse comandante de rosto redondo: arrogante, brilhante, condescendente e intransigente, podia-se acrescentar outro naqueles últimos dias de outubro: desesperado.
Onishi não era mais o líder confiante que ajudara a planejar a agressão a Pearl Harbor; que desfechara o ataque arrasador ao Campo Clark, em Manila, praticamente liquidando a Força Aérea americana do Extremo Oriente; e que enviara seus pilotos em incursões devastadoras por todo o Pacífico.
Esses dias haviam acabado. A retaliação estava a caminho. Fora avistada uma gigantesca esquadra americana seguindo para as Filipinas. Se aquelas ilhas caíssem, as linhas de abastecimento do Japão estariam fatalmente rompidas. O almirante estava no comando da Primeira Frota Aérea, com base em Manila. Essa força, outrora impressionante, consistia agora em menos de 100 aparelhos. Mas eram suficientes para ele. A 19 de outubro, apresentara seu plano para o shimpu.
A reação de seus pilotos fora entusiástica. Os homens que sobrevoavam agora o Pacífico estavam prestes a desfechar o primeiro golpe.
Todos haviam escrito as últimas cartas e os poemas de despedida. Alguns haviam deixado testamento sumários. Cada um, de acordo com a tradição de samurai partindo para a batalha derradeira, anexara as cartas madeixas de cabelos e aparas de unhas, tudo o que deveria restar de seus corpos em terra.
Antes da decolagem, o próprio Onishi servira a cada homem o copo cerimonial de saque e oferecera um prato de peixe seco. Cada piloto pegara o copo de saque com as duas mãos e fizera uma reverencia antes de levá-lo aos lábios. Depois, o almirante entregara a cada piloto uma pequena lancheira, bento, a fim de proporcionar- lhes o conforto de uma pequena refeição final.
Às 10:45 horas, o esquadrão suicida avistou o inimigo, uma força de porta-aviões americanos, com escolta de contratorpedeiros.
Os pilotos se aproximaram, lançando pequenas folhas de estanho para confundirem os aparelhos de radar americanos. Cada piloto puxou a alavanca que preparava a bomba no aparelho para detonar.
Às 10:53 horas, o primeiro Zero chocou-se contra o convés do porta-aviões St. Lo. Avião e piloto se desintegraram, numa gigantesca explosão. Aquela era a “morte esplêndida”, rippa na saigo, que Onishi prometera.
O St. Lo começou a afundar.
Por volta de 10:59 horas da manhã de 25 de outubro de 1944, todos os cinco aviões haviam atingido seus alvos. A missão suicida foram um sucesso total.
Outras iguais se seguiríam.
12
O 393.° recebeu seu 15.° B-29 sem armamentos a 24 de novembro. O esquadrão estava agora plenamente equipado. A remoção das placas blindadas e de todos os armamentos, exceto os da cauda, não mais provocava comentários. Os pilotos haviam descoberto que isso lhes proporcionava maior velocidade e a possibilidade de operar em altitudes maiores, embora ainda não estivessem totalmente convencidos da afirmação de Tibbets de que, em combate, estariam fora do alcance do fogo antiaéreo e dos caças inimigos.
“Hoje foi um dia típico pela rotina”, escreveu Lewis aos pais. “Instruções pela manhã, em seguida exercícios de bombardeio; volta para o almoço (muito bom) e mais exercícios. Não pergunto por quê. Ninguém pergunta.”
A carta seria lida por agentes do Projeto Manhattan destacados para a agência postal da base. Eles dicidiriam se infringia ou não a segurança, antes de permitirem que fosse despachada. As muitas cartas que não passavam pelos censores iam parar na mesa de Uanna. O vigilante major certificava-se de que os autores estariam bastante assustados ao deixarem seu gabinete para serem mais cuidadosos no futuro em relação ao que escreviam para casa.
Trezentos invólucros de bombas, do tipo arrasa-quarteirão, estavam à disposição das tripulações do 393.°, para serem usados nas missões de exercício no Mar de Salton. Os cinegrafistas continuavam a filmar as bombas caindo e os aviões fazendo a volta brusca de 155 graus.
A manobra, praticada tanto para a esquerda como a direita, era o alvo de muitas especulações. Os pilotos logo descobriram que uma falha na manobra significava ficar em terra temporariamente. Tais punições faziam parte do método de Tibbets. Ele também encorajava seus pilotos a procurarem a excelência através do exemplo. Ele próprio voou diversas missões de exercício, levando Lewis como seu co-piloto e sempre realizando a manobra com perfeição.
O círculo para o lançamento da bomba foi sendo gradativamente reduzido. Agora, não tinha mais do que 120 metros de diâmetro. Ferebee demonstrara que era possível lançar uma bomba dentro do círculo de uma altitude de 10 mil metros. Van Kirk provara, em longos vôos de treinamento sobre a água, que se podia navegar com um erro não superior a um quilômetro. As oficinas funcionavam 24 horas por dia. As equipes de terra mantinham os aparelhos permanentemente em condições de vôo.
O oficial de rancho Charles Perry foi informado por Tibbets de que, se tivesse algum problema, “bastava usar a palavra Silverplate”. Perry ficou cético. Mas um dia, cansado de discutir com um almoxarifado, ele resolveu usar a palavra de código. As mercadorias chegaram horas depois. Todos os almoxarifados da Força Aérea nos listados Unidos tinham ordens de dar prioridade absoluta a Silverplate.
O 393.° tornou-se a unidade mais bem alimentada da Força Aérea. Falou-se que o comandante despachou um avião-transporte a 1.500 quilômetros de distância, a fim de buscar uma carga de frutas tropicais. Peixe fresco de Nova Orleans, Miami e São Francisco eram pratos regulares nos cardápios de Perry. Numa determinada ocasião, o próprio Tibbets fez um vôo de quase três mil quilômetros, para buscar uma carga de xícaras de café em Portland, Oregon.
Ele cuidava de seus homens também em muitas outras coisas. Quando se envolviam com a polícia de Salt Lake City, por causa de violações de trânsito ou comportamento turbulento ou se metiam com mulheres casadas locais, ele sempre intervinha... desde que a folha de serviços do homem envolvido assim o justificasse.
O Subcomandante John King empenhava-se a fundo em manter os padrões de disciplina que considerava essenciais. Mas Tibbets deixou claro que não estava muito preocupado com continência perfeitas, uniformes impecavelmente passados e sapatos brilhando. Só se interessava pela capacidade profissional de cada homem. Gradativamente, o 393.° tornou-se uma das unidades mais negligentemente uniformizada da Força Aérea. No início de novembro, o coronel apresentou um novo piloto com uma aparência extraordinária: cabelos bem curtos, rouge nas faces e batom vermelho nos lábios. O macacão de vôo folgado não dava para disfarçar o corpo cheio de curvas.
— Claro que se trata de uma mulher — disse Tibbets, ao apresentá-la. — E devo dizer que tem muito homem que não sabe voar tão bem quanto Dora Dougherty.
Dora era uma piloto veterana, que trabalhara com Tibbets no programa de teste do B-29. Voara o bombardeiro com grande habilidade e segurança, numa ocasião em que muitos pilotos homens não acreditavam inteiramente na capacidade do aparelho. Certa vez, ela deliberadamente desligara um motor na decolagem e mesmo assim levantara vôo. Em outra ocasião, pousara com um motor em chamas. Em Wendover, pilotava um avião-transporte. Às vezes, Tibbets desejava poder mandá-la comandar um B-29. Mas Dora jamais se queixava de qualquer missão.
Muitos homens estavam começando a se queixar dos programas de treinamento, as longas horas de exercícios, as constantes verificações de segurança. Acima de tudo, havia uma reclamação maior: por que ninguém lhes explicava para que tudo aquilo?
Nas palavras do Capitão King, o sentimento que se avolumava era o de que existiam “eles” e “nós”.
Ou seja, Tibbets, Van Kirk e Ferebee de um lado; e o resto do 393.° do outro.
O trio trabalhava e relaxava junto. De vez em quando, Lewis juntava-se ao grupo. Mas o relacionamento outrora íntimo entre Lewis e Tibbets estava esfriando. O coronel achava que Lewis cada vez mais tentava tirar proveito da associação passada. Não mais se divertia com as incursões impetuosas do capitão à conquista de mulheres, suas farras, a maneira agressiva com que se dedicava a tudo: o jogo de cartas, vôlei, até mesmo as conversas mais simples.
Mas, no ar, Lewis continuava a se distinguir. No final das contas, era com isso que o comandante se importava.
Beser não gostava de voar com Lewis, “porque nada tínhamos em comum”. Quanto ao piloto, não sabia por que o oficial de radar “levava tantas caixas para bordo e tentava parecer importante”.
Beser gostava do mistério que cercava sua função. Era regularmente interrogado a respeito de sua visita à Área Técnica, proibida aos demais, sem nunca deixar transpirar qualquer coisa. As viagens que ele e Tibbets faziam a Albuquerque também despertavam a maior curiosidade, inclusive porque jamais eram apresentados planos de vôo nessas ocasiões.
Em Los Alamos, o tenente recebia novas instruções sobre as complexidades das contramedidas eletrônicas. De vez em quando, voltava para Wendover com técnicos de Los Alamos. Estes passavam dias e dias na Área Técnica ajudando Beser a praticar a análise de variação de intensidade das sucessivas ondas de retorno ou a identificar a localização, velocidade e curso de um objeto refletido.
Depois que o tenente ficou familiarizado com o secreto sistema de radar da bomba, um agente de segurança foi destacado para acompanhá-lo dia e noite, sempre que deixasse a base. O homem levava seu trabalho tão a sério que até mesmo ficou montando guarda na porta do banheiro de um restaurante de Salt Lake City. O oficial de radar reagiu prontamente:
— Se você ficar parado na porta do banheiro toda vez que eu entrar, as pessoas vão começar a achar que tem alguma coisa muito esquisita comigo.
— Não posso fazer nada, Tenente. Para dizer a verdade, eu deveria entrar junto no banheiro e não ficar do lado de fora!
Beser acabou desistindo. Daquele momento em diante, iria partilhar todas as ocasiões sociais com o agente de segurança: um encontro com uma garota, um drinque, uma visita à família. Com o tempo, acostumar-se-ia a sua nova sombra.
Somente em Wendover é que ele se sentia realmente livre. Os deveres de seu guarda-costa terminavam assim que Beser entrava na base.
* * *
O inverno chegou cedo em 1944. O vento de novembro assovíava pelas planícies salgadas, entorpecendo a tudo em sua passagem.
Perry e seus cozinheiros esforçaram-se ao máximo para que o jantar do Dia de Ação de Graças fosse memorável, oferecendo purê de abóbora e um exótico ponche de frutas para acompanhar o peru assado. Para completar o repasto, o oficial de rancho ofereceu um abundante suprimento de charutos cubanos.
Naquela ocasião, todos pensavam frequentemente em Cuba. Os últimos rumores eram de que as tripulações voariam em breve para a ensolarada Havana, a fim de continuar com os treinamentos especiais.
Tibbets, como sempre, nada dizia. Groves permanecia em contato telefônico regular com ele, querendo ser informado do progresso do treinamento, pressionando e exigindo. Tibbets expunha algumas das dificuldades que encontrava para fazer com que todas as tripulações dos bombardeiros estivessem preparadas para a missão. Groves escutava, resmungava e invariavelmente arrematava:
— Dê duro neles! É para isso que está aí!
Os cientistas chegavam e partiam diariamente de Wendover, fazendo novas exigências, que envolviam frequentes mudanças. Pediram que fossem modificados os compartimentos da bomba. As bombas convencionais eram presas por correntes. Mas ficou decidido que num avião carregando apenas uma bomba atômica, grande e comprida, pesando em torno de quatro mil quilos, devia-se usar um único gancho, que proporcionasse toda segurança. Não se encontrou nenhum gancho assim. O bombardeador Kermit Beahan foi mandado à Inglaterra e trouxe de volta as especificações do gancho único usado pela RAF em seus bombardeiros Lancaster. O gancho foi adaptado e ajustado aos B-29 do 393.°.
Havia também constantes mudanças no formato e peso da bomba. Depois de cada mudança, os cientistas voltavam a Los Alamos, dizendo a Tibbets, antes de partirem, que agora estavam satisfeitos, que não pensavam em mais nenhuma mudança, que poderia planejar tranquilamente seu programa de treinamento. Mas eles acabavam voltando a Wendover alguns dias depois, pedindo novas modificações, por terem descoberto mais informações sobre o fluxo aerodinâmico ou pelo aparecimento de outros problemas que exigiam alterações no formato da bomba.
O coronel não podia deixar de compreender a exasperação do pessoal das oficinas da base, onde eram efetuadas as alterações. Havia ocasiões em que eles se mostravam quase que abertamente hostis com aqueles desconhecidos que apareciam de repente e descartavam os resultados de uma longa noite de trabalho com a mais sumária das desculpas. A situação se agravava ainda mais pela insistência da segurança para que os cientistas se apresentassem como engenheiros sanitaristas. Era um disparate que provocava os comentários mais jocosos. Proibido de responder às perguntas de seus homens, Tibbets percebia que muitos deles tornavam-se cada vez mais frios e distantes. A solidão da liderança, sobre a qual sua mãe o avisara, tornava-se cada vez mais intensa.