A Bomba de Hiroxima
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
— Se formos atacados esta noite ou em algum outro momento do futuro, nada poderemos fazer para impedi-lo. O que nos resta é permanecermos calmos e com uma aparência animada, dando um exemplo a nossos pacientes.
Naquele noite, sozinho em seu gabinete, o Dr. Shima fez algo que um número cada vez maior de japoneses estava fazendo também. Sintonizou o rádio para ouvir a transmissão em ondas curtas irradiada diretamente de Guam, com notícias da guerra, num japonês impecável, que o Rádio Japão jamais daria.
A pena para quem escutasse as transmissões inimigas era de morte. Mas para homens, como o Dr. Shima, que cada vez acreditavam menos nas afirmativas de vitórias contínuas da Rádio Japão, os riscos valiam a pena.
A rádio de Guam fora a primeira a transmitir a notícia de que Iwo Jima caíra em poder dos americanos. Naquela noite, a voz suave do americano-japonês, falando de 2.500 quilômetros de distância, anunciou as pesadas baixas que os japoneses estavam sofrendo em Okinawa. Referiu-se em seguida aos últimos ataques a Tóquio e outras cidades. Advertiu que o Japão seria arrasado, a menos que se rendesse.
A transmissão deixou o Dr. Shima com uma sensação de intenso desespero. Voltou a sintonizar o rádio na emissora local, desligou-o, e foi para casa dormir.
* * *
Pouco depois do amanhecer daquele mesmo dia, em Kure, a esposa do comandante de submarino Mochitsura Hashimoto tentou acordar o marido. Acabara de soar um alerta de ataque aéreo, e a família tinha que ir para o abrigo.
Abraçando os três filhos pequenos, a esposa de Hashimoto tentou despertá-lo de tudo que é maneira.
O comandante continuou a dormir. Só um terremoto conseguiria acordá-lo, depois de sua última e traumática viagem.
A 2 de abril, o dia em que os americanos haviam desembarcado em Okinawa, Hashimoto recebera ordens de atacar as embarcações inimigas na área. A parte inicial da viagem já fora uma antecipação do que encontrariam pela frente. Os bombardeiros americanos haviam minado as águas costeiras do Mar Interior, tornando a viagem bastante perigosa, antes mesmo de se alcançar as águas do Pacífico. Quando Hashimoto finalmente chegou ao largo de Okinawa, fora imediatamente atacado por aviões inimigos. Durante os sete dias que permanecera nas proximidades da ilha, foi objeto de ataque por pelo menos 50 vezes. O período mais prolongado que conseguira passar na superfície durou apenas quatro horas, na escuridão da noite, tempo insuficiente para ventilar o submarino e recarregar as baterias.
Hashimoto por pouco não se encontrou com o cruzador americano Indianapolis, deixando o cenário da guerra, bastante avariado. O navio estava voltando para São Francisco, a fim de ser reparado, depois de bastante danificado por um piloto kamikaze.
Em Okinawa, o submarino I.58, como o Indianopolis, também foi atingido. Mesmo assim, Hashimoto ficou furioso quando recebeu ordens de retornar à base. Somente depois que chegou a Kure, a 29 de abril, é que soube que seu submarino era o único a voltar a salvo de Okinawa. Foi também informado de que o I.58 teria de permanecer no porto para uma inspeção meticulosa.
Cansado demais para se importar com qualquer coisa, Hashimoto foi deitar, dando instruções expressas à esposa para que não o incomodasse por motivo algum.
E agora, apesar dos gritos desesperados da esposa, ele não acordou. A mulher só ouviu quando era tarde demais o zumbido familiar dos motores de aviões.
O porto de Kure abrigava a maioria dos navios de guerra japoneses que ainda restavam. Era um alvo prioritário para os bombardeiros americanos, que regularmente atacavam o local, apesar das defesas bem entrincheiradas. Naquela manhã, o matraquear do fogo antiaéreo misturou-se novamente com as explosões ensurdecedoras das bombas.
Abraçando os filhos, a Sra. Hashimoto deitou-se ao lado do marido ainda adormecido, escutando os terríveis ruídos da guerra.
35
Precisamente às nove horas da manhã de 8 de maio de 1945, o Presidente Truman fez um discurso ao vivo, pelo rádio, para a nação americana. Na mesma hora, em Londres e Moscou, Churchill e Stalin davam as noticias a seus povos.
Os exércitos aliados, com sacrifício e devoção e com a ajuda do Deus...
A vitória na Europa estava consumada.
As palavras de Truman, pronunciadas no dia em que ele completava 61 anos, confirmavam o que cada americano queria ouvir: a Alemanha se rendera incondicionalmente. Pela primeira vez na história moderna, o totalidade das Forças Armadas de uma nação tornava-se prisioneira de guerra.
Na alegria nacional pelo Dia da Vitória, os americanos comuns esqueceram o Japão. Mas Truman não tinha esquecido. Nos 24 dias em que era Presidente, informara-se meticulosamente sobre a posição de seu antecessor em relação à rendição japonesa. Truman chegara à mesma conclusão: assim como no caso da Alemanha, a rendição incondicional era a única aceitável para o Japão. Pearl Harbor e as atrocidades japonesas contra prisioneiros de guerra americanos tornavam praticamente inevitável essa atitude inflexível.
Contudo, dentro do Departamento de Estado havia vozes argumentando que o Governo americano deveria modificar tal posição, encontrando um meio de fazer a paz com o Japão, antes que os russos resolvessem intervir e estendessem a influência soviética ao Pacífico. Em oposição a tais vozes, havia os que defendiam a tese de que qualquer indulgência era injustificada e serviría apenas para permitir que o militarismo japonês sobrevivesse.
Enquanto o debate interno prosseguia, os monitores americanos que escutavam a Rádio Japão captaram a notícia de uma declaração recente de Suzuki, o novo Primeiro-Ministro japonês. Embora secretamente incumbido pelo Imperador de acabar com a guerra, ele fizera um discurso surpreendentemente belicoso perante a Dieta japonesa, dizendo que a rendição incondicional era totalmente inaceitável. O Japão devia lutar até o fim.
Suzuki fez um apelo apaixonado ao povo:
Se os meus serviços forem recompensados com a morte, espero que os cem milhões de habitantes deste glorioso Império passem por cima de meu corpo prostrado e formem um escudo humano para proteger o Imperador e esta terra imperial do invasor.
A primeira declaração pública de Truman a respeito do Japão, desde que assumira a Presidência, foi uma resposta a Suzuki:
O povo japonês tem sentido a força dos nossos ataques em terra, mar e ar. Enquanto seus líderes e as Forças Armadas continuarem a guerra, a intensidade de nossos ataques irá aumentar cada vez mais, até a total destruição da produção industrial bélica japonesa, estaleiros e tudo o mais que sustente a atividade militar.
Quanto mais tempo a guerra durar, maiores serão os sofrimentos e desgraças que o povo do Japão irá sofrer... e tudo em vão. Nossos golpes não cessarão até que as forças militares japonesas deponham as armas, numa rendição incondicional .
O que exatamente uma rendição incondicional das Forças Armadas do Japão significa para o povo japonês? Significa o fim da guerra. Significa o término da influência dos líderes militares que levaram o Japão à situação em que atualmente se encontra, à beira do desastre total. Significa o retorno de soldados e marinheiros a suas famílias, a suas fazendas e seus trabalhos. E significa que não mais será prolongada a agonia e o sofrimento dos japoneses, na vã esperança de uma vitória.
A rendição incondicional não significa o extermínio ou a escravização do povo japonês.
Era uma declaração objetiva da posição do Governo americano: a rendição incondicional ou a possibilidade de Armageddon. Transmissões em ondas curtas irradiaram o discurso para o Japão.
A advertência de Truman foi rejeitada como propaganda. A Rádio Japão repetiu que a determinação da nação era continuar a luta.
Truman só podia pensar uma coisa: eles foram avisados.
* * *
Pouco antes do amanhecer, o Prefeito Awaya e a família, juntamente com muitas outras pessoas no bairro, foram despertados pelo barulho de caminhões, berros irritados e gritos de medo.
A Kempei Tai, a temida polícia militar, continuava a afetuar as prisões que iniciara, em princípios de maio, das pessoas suspeitas de comentar particularmente que o governo deveria fazer a paz. Nos últimos 15 dias, quase 400 pessoas preeminentes haviam sido presas em Hiroxima.
Depois do discurso de Truman a 8 de maio, a Kempei Tai começara a prender todos os suspeitos de radicalismo, no Japão inteiro.
Desde então, as transmissões americanas vinham sendo um lembrete constante, para aqueles japoneses que estavam dispostos a arriscar suas vidas para escutar, de que a verdade era muito diferente do que dizia a Rádio Japão.
Muitas transmissões americanas eram feitas pelo Capitão Ellis Zacharias, da Marinha, que falava japonês fluentemente. Sua voz estava-se tornando tão familiar para muitos japoneses quanto o fora a voz da Rosa de Tóquio para os militares americanos no Pacífico.
Poucos ouvintes desconfiavam de que as palavras de Zacharias estavam sendo cuidadosamente analisadas pelas autoridades em Tóquio, à procura de um indício de que os Estados Unidos poderiam, no final das contas, mudar de idéia em relação à rendição incondicional. Para o grosso dos ouvintes, Zacarias era simplesmente um estrangeiro surpreendentemente bem informado, com uma rara compreensão de como os japoneses pensavam e se expressavam. Ele não ameaçava nem se gabava, limitando-se a apresentar os fatos inegáveis.
Em Hiroxima, a Kempei Tai realizou suas costumeiras prisões antes do amanhecer. Operando de seu quartel-general nos subterrâneos do Castelo de Hiroxima, a unidade da Kempei Tai, contando com 800 homens, tinha plenos poderes sobre todos os civis e militares na cidade. Os interrogadores recebiam um manual oficial, que tinha o título de Instruções para o Interrogatório de Prisioneiros de Guerra e no qual estavam descritas diversas torturas para o corpo e para a mente.
A Kempei Tai de Hiroxima podia aperfeiçoar suas técnicas nos civis locais que prendia. Mas os interrogadores aguardavam ansiosamente os prisioneiros americanos. Todas as unidades da área haviam sido informadas de que qualquer aviador inimigo abatido deveria ser imediatamente encaminhado ao quartel-general da Kempei Tai, nos subterrâneos do Castelo de Hiroxima.
36
Ao cair da noite de 8 de maio, Tibbets tomou alguns drinques no clube dos oficiais em Wendover e foi deitar-se cedo. Passara a dormir no clube depois que a esposa e os filhos haviam deixado a casa situada além dos portões da base. Todas as famílias dos homens do 509.° já tinham partido, em preparativos para a transferência do grupo para Tinian. Lucie Tibbets e os meninos foram para a casa dos pais dela. Tibbets, apanhado numa roda-viva de vôos entre Wendover, Washington e Albuquerque, achara que era melhor que a família ficasse longe. Estava sendo exigido ao máximo, sua mente era um turbilhão de conferências e conversações telefônicas da mais alta importância com Groves, frequentemente conduzidas em código. Enfrentava a tremenda pressão de dirigir uma organização complexa, na qual era o único que conhecia todos os detalhes do produto final. Todos os problemas iam parar em sua mesa. A todo instante, precisava tomar decisões, quer envolvendo relatório sobre aptidão de vôo, sobre motores, bombardeios, segurança ou doenças do pessoal. Tinha a sensação de que sua vida se resumia “a um maldito relatório depois de outro”.
Lucie escreveu que ela e os meninos estavam devidamente instalados com sua mãe. Tibbets ficou satisfeito. Mas sentia que, sem a esposa, a vida em Wendover era ainda mais vazia. A partida da principal equipe de terra, composta por 800 homens, para Tinian, duas semanas antes, deixara a base parecendo “uma cidade fantasma”.
Tibbets ficou contente com o pretexto de ir até Omaha, a fim de fazer o que ele classificou de “algumas comprinhas”.
* * *
Ao sul de Omaha, estendendo-se por centenas de acres, a fábrica Martins de bombardeiros era cuidadosamente guardada. Sobrevoando a fábrica, Tibbets avistou os guardas no portão principal e os homens patrulhando a cerca alta de arame farpado em torno de toda a área.
Aterrou e taxiou seu avião-transporte até a área de recepção de aviões, passando por diversos B-29 que estavam sendo rebocados dos galpões de montagem. Ficou feliz ao verificar que pelo menos na fábrica era apenas mais um dia de trabalho normal e que os operários não haviam tirado uma folga para se recuperar das comemorações pela vitória na Europa.
Na área de recepção, apresentou sua identificação a um homem de segurança e foi levado para um prédio imenso. Ali, suas credenciais foram novamente examinadas. Era proibida a entrada na fábrica de quem quer que não tivesse uma autorização especial.
Mas o nome em código Silverplate facilitava tudo. Tibbets faria algo que poucos outros aviadores teriam possibilidade: ia escolher pessoalmente o seu B-29, o aparelho que pretendia usar na primeira missão atômica.
O gerente da linha de montagem acompanhou Tibbets pela fábrica. Paravam de vez em quando e subiam nos andaimes para examinar um bombardeiro. Em determinada ocasião, Tibbets virou-se para o homem e disse que o B-29 que estavam examinando parecia perfeito.
Mas o gerente de produção sacudiu a cabeça.
— Foi feito no primeiro turno.
“Primeiro turno” significava um bombardeiro cuja montagem fora iniciada por um turno que acabara de voltar ao trabalho depois de uma folga; por homens que ainda se estavam recuperando de dois dias de bebedeiras e farras ou simples descanso. Não se encontravam nas melhores condições e de vez em quando produziam bombardeiros que não eram meticulosamente montados.
Tibbets continuou em frente.
O gerente de produção parou diante de outro B-29. Turmas de montadores enxameavam sobre a fuselagem. Lançaram um olhar rápido e curioso para Tibbets e continuaram o trabalho.
Tibbets e o gerente de produção subiram na carlinga. Já estava quase que totalmente montada, com seus assentos de couro. Tibbets sentou-se e contemplou todo o recinto da fábrica.
A afirmação do gerente de produção foi tranquilizante:
— Este é o aparelho que está procurando!
A montagem do aparelho fora iniciada por homens que estavam na melhor fase de trabalho, quando até as porcas do banheiro mereciam uma volta extra. O gerente de produção disse a Tibbets que aquele era o melhor avião que havia na fábrica. A transação foi fechada.
Combinaram a data de entrega. Tibbets informou que mandaria Lewis e sua tripulação buscarem o aparelho.
37
Havia uma cadeira vaga na mesa de reuniões comprida naquele dia 28 de maio. Era a cadeira ao lado de Tibbets. Oficiais superiores da Marinha e do Exército e cientistas do Projeto Manhattan olharam para a cadeira vazia com uma expressão inquisidora. Tibbets retribuiu os olhares impassivelmente. Mas, por dentro, ele estava fervendo de raiva. Inexplicavelmente, Beser não aparecera para aquela importante reunião do Comitê de Alvo.
Na reunião anterior, a 12 de maio, tinham sido esclarecidos muitos detalhes operacionais importantes: o detonador de proximidade provavelmente seria ajustado para entrar em funcionamento 600 metros acima do solo; se as condições meteorológicas sobre o alvo tornassem impossível o bombardeio visual, a bomba deveria ser levada de volta, tal operação inevitavelmente envolvendo riscos para a base; se fosse necessário, por algum motivo, desfazer-se da bomba, era preciso tomar todo cuidado para que não fosse lançada ao mar em áreas ocupadas por americanos, já que “a água entrando no mecanismo irá desencadear uma reação nuclear”.
Na reunião de 12 de maio haviam sido discutidos também os alvos específicos. O palácio do Imperador, em Tóquio, chegara a ser considerado, mas não fora recomendado. Contudo, os membros do Comitê haviam concordado que “devemos obter informações para que possamos determinar a eficácia de nossa arma contra esse alvo”.
Finalmente, o Comitê se fixara em quatro cidades como possíveis alvos de um ataque atômico. Eram as seguintes, em ordem de preferência: Kyoto, Hiroxima, Yokohama e Kokura. Todas as quatro tinham sido “reservadas”, proibindo-se o bombardeio por armas convencionais. Agora, naquela terceira reunião do Comitê de Alvo, esse e outros objetivos seriam novamente analisados.
Pontualmente às nove horas, Groves ocupou seu lugar na extremidade da mesa. A reunião começou com um assistente distribuindo pastas com fichas descritivas dos alvos. Cada uma continha mapas em grande escala, fotografias de reconhecimento e dados afins. Como a reunião iria analisar também as técnicas de resgate e referências de navegação, foram distribuídos mapas do Japão e de suas águas costeiras.
Tibbets queria que Beser estivesse presente especificamente para responder a quaisquer perguntas relacionadas com radar. Permitira que o tenente voasse antes para Washington, a fim de passar o fim-de-semana com os pais, em Baltimore. Ele prometera encontrar-se com Tibbets do lado de fora da sala de conferências, antes de a reunião começar. Mas não aparecera.
* * *
Beser chegou depois que um PM havia fechado as portas da sala de conferências 4E200, postando-se diante delas.
A oficial WAC (Women Auxiliary Corps — Corpo Auxiliar Feminino), na mesa de recepção perto do PM, olhou para Beser com uma expressão desconfiada.
— Está perdido, Tenente?
— Não, não estou, se isto aqui é o Pentágono.
— Esta é uma área proibida, Tenente.
— Sei disso. E estou atrasado para a reunião.
Beser virou-se para a porta. O PM empertigou-se. A WAC levantou a voz:
— Não pode entrar aí!
Beser virou-se novamente para ela.
— Se é aqui que se está realizando a reunião do Comitê de Alvo, eles estão a minha espera!
— Está querendo que eu acredite que um simples tenente vai participar de uma reunião com todas as altas patentes que estão aí dentro?
— Mas é isso mesmo!
— Tenente, por que não vai tomar um café e esquece até que chegou perto daqui?
— Está cometendo um erro. ..
— Vá embora, Tenente!
— Está certo.
Beser afastou-se e ficou esperando do lado de fora da área de recepção. Meia hora depois ainda estava ali, quando ouviu um sussurro às suas costas. Virou-se e viu um major furioso falando com a WAC. A porta da sala de recepção estava entreaberta. O major avistou Beser.
— Você é Beser?
— Sim, senhor.
— Mas que diabo! Você deveria estar lá dentro!
— Sei disso. Mas alguém deveria ter informado isso a essa moça.
— Eles estão esperando por você para responder a uma pergunta! Entre logo!
Beser entrou na sala com a expressão mais tranquila de que era capaz.
Um capitão da Marinha estava falando. Parou no meio da frase e lançou um olhar furioso a Beser.
Tibbets fez um gesto para que Beser sentasse a seu lado. Beser começou a sussurrar uma explicação para Tibbets:
— O trem de Baltimore atrasou, não conseguiu pegar um táxi na estação e ainda por cima a WAC lá fora. . .
O capitão interrompeu a explicação de Beser:
-— O tenente está preparado para responder à pergunta?
Beser olhou ao redor, aturdido. Tibbets salvou-o da situação embaraçosa repetindo a pergunta:
— A Marinha quer colocar um submarino a três milhas da costa japonesa e emitir um feixe loran para nos orientar na aproximação do alvo. Em caso de dificuldades, o feixe loran pode servir como um farol para nos guiar até o submarino, para um possível resgate no mar.
O feixe loran era um recente e sofisticado desenvolvimento do radar, que começava a ser usado tanto pela Marinha como pela Força Aérea. O capitão dirigiu-se novamente a Beser:
— Qual é a sua opinião a respeito, Tenente?
— Acho uma merda de idéia!
O capitão ofegou. Tibbets gemeu. Os demais permaneceram num silêncio total. A voz de Groves preencheu o vazio:
— Por que diz isso?
— Senhor, não acredito que se possa manter o submarino firme o bastante para a transmissão. As ondas o farão mudar de posição. O submarino estará enfrentando o próprio movimento do mar. Além do mais, terá que estar na superfície para o loran funcionar. E não há possibilidade de ficar a três milhas da costa sem ser atacado pelos japoneses.
As palavras seguintes de Groves encerraram o assunto:
— As razões me parecem suficientes. Vamos passar para o próximo item da agenda, a posição do avião de resgate. . .
Beser virou-se para Tibbets e sussurrou, ansiosamente:
— Como me saí?
— Acertou na mosca!
* * *
Durante dois dias, no mais absoluto segredo, os melhores cérebros civis, científicos e militares dos Estados Unidos reuniram-se para considerar o futuro da bomba atômica.
O Comitê Interino, sob o olhar vigilante do Secretário da Guerra Stimson, estava realizando sua quarta e mais crucial reunião.
Estavam presentes a ela todos os cientistas que integravam o Comitê: Robert Oppenheimer, Enrico Fermi, Ernest O. Lawrence e Arthur Compton. Esses cientistas não apenas serviam como conselheiros do comitê em questões científicas como também funcionavam como veículos para as idéias de outros cientistas.
As discussões do comitê se prolongaram pelo dia l.° de junho. Seus membros ouviram atentamente o diretor científico do Projeto Manhattan revelar os detalhes dos dois tipos de bombas, a de urânio e a de plutônio. Esta última seria testada em Alamogordo, dentro de sete semanas. Como cada bomba era virtualmente fabricada a mão, os suprimentos eram bastante limitados. Assim, ficara decidido que não se iria testar a de urânio, pois se esperava que funcionasse a contento.
A bomba de urânio, como a sua irmã, alcançaria seu efeito principal pela explosão, que afetaria uma área de 1,5 quilômetro ou mais.
Em resposta a uma pergunta, Oppenheimer declarou que ela seria ideal para uso contra uma concentração de tropas ou fábricas de material bélico e que poderia “matar 20 mil pessoas”.
Pouco depois, a reunião foi suspensa para o almoço.
Não foram tomadas anotações durante a refeição e jamais se poderá saber com certeza quem disse o quê. Segundo o físico Arthur Compton, ele perguntou a Stimson se seria possível providenciar uma demonstração não-militar da bomba atômica, de tal forma que os japoneses percebessem a inutilidade de continuar a guerra.
Tanto Lawrence como Oppenheimer, pelo que se disse, encaravam a sugestão com ceticismo. Oppenheimer teria mesmo comentado que duvidava de que “alguma demonstração, por mais espantosa que fosse, conseguisse convencer os japoneses de que deveriam jogar a toalha”.
Depois do almoço, Stimson teria afirmado que nada poderia ser mais prejudicial ao nosso esforço de conseguir a rendição do Japão do que uma demonstração de advertência seguida por um fracasso... o que era uma possibilidade que não se podia descartar. Além disso, não dispomos de bombas para desperdiçar. Era vital que fosse obtido um efeito suficientemente rápido com as poucas de que dispúnhamos”.
A responsabilidade final seria de Stimson, encarregado de recomendar ao Presidente se e como a bomba atômica deveria ser usada. Particularmente, ela já tomara uma decisão. Achava que, “para se obter uma rendição genuína do Imperador e seus conselheiros militares, era necessário causar-lhe um tremendo choque, convencendo-os de nossa capacidade de arrasar totalmente o Império. Tal choque iria salvar muito mais vidas, tanto americanas como japonesas, do que poderia custar”.
O Comitê Interino chegou à mesma conclusão. Ao final de suas deliberações, apresentou três recomendações ao Presidente sobre o primeiro uso da bomba atômica.
Deveria ser usada o mais breve possível.
Deveria ser usada contra instalações militares, cercadas por casas ou outras construções bastante suscetíveis a danos.
Deveria ser usada sem qualquer advertência explícita anterior sobre a natureza da bomba.
* * *
Enquanto o Presidente estava sendo aconselhado a agir, alguns dos cientistas que haviam ajudado a construir a terrível arma ainda tentavam limitar seu uso. Alguns preferiam que o Japão fosse alertado, outros insistiam que uma demonstração pública da bomba poderia ser suficiente para levar os militaristas japoneses à rendição.
A 12 de junho, sete cientistas do laboratório de Chicago apresentaram uma petição ao Secretário da Guerra recomendando uma demonstração perante observadores de muitos países, numa região desabitada. Era o Relatório Franck, que se iria tornar o mais famoso documento relacionado com o uso da bomba atômica. O relatório foi submetido aos cientistas integrantes do Comitê Interino.
A 16 de junho, esses cientistas reuniram-se no gabinete de Oppenheimer em Los Alamos para analisar o aludido documento. Reconheceram que era uma tentativa criteriosa e honesta de apresentar todos os aspectos de um problema complexo. Mas, ao final, os cientistas comunicaram ao Comitê Interino, “pesarosos”, que “não vemos a menor possibilidade de propormos uma demonstração técnica que possa pôr fim à guerra; em nossa opinião, parece não haver alternativa senão o uso militar direto”.
O Comitê concordou com a conclusão dos cientistas. Em quatro dias, o Relatório Franck foi apresentado, discutido e rejeitado.
* * *
Enquanto isso, a 12 de junho, o General Groves recebeu uma convocação no meio da manhã para comparecer a um encontro com Stimson, no Departamento da Guerra. A primeira coisa que Stimson pediu a Groves foram os nomes das cidades japonesas que haviam sido escolhidas como possíveis alvos de um ataque atômico.
Groves hesitou. Naquela manhã mesmo, acabara de elaborar um memorando para Marshall. A referência era “Bombas de Fissão Atômica”, o documento tinha o carimbo de “ultra-secreto” e continha sumários concisos sobre os quatro alvos escolhidos: Kokura, Hiroxima, Niigata e Kyoto.
Eram as recomendações finais do Comitê de Alvo. Ao fazer a recomendação, foram levados em consideração os “fatores psicológicos”. Os membros haviam considerado desejável fazer com que o primeiro uso da bomba fosse “suficientemente espetacular para que a importância da arma seja internacionalmente reconhecida, quando a divulgação for liberada”.
Do ponto de vista psicológico, Kyoto era considerado o melhor alvo. Possuía “a vantagem de ter uma população mais instruída e, assim, em condição melhor para avaliar o significado da arma”.
Por outro lado, Hiroxima “apresenta a vantagem de ser de um tamanho tal e cercada por montanhas que provavelmente uma fração considerável da cidade será destruída”.
Groves era a favor de Kyoto. Seus habitantes, intelectuais, espalhariam rapidamente a notícia sobre o terrível poder destrutivo da bomba. Diante da ameaça, o Governo japonês teria que se render.
Groves achava que causar a rendição japonesa era uma questão militar. Assim, disse a Stimson que planejava submeter a lista dos alvos sugeridos no dia seguinte ao General Marshall, para aprovação.
— Quero ver essa lista — disse Stimson.
Groves tentou esconder seu alarma.
— Preferia não lhe apresentar o relatório sem ter antes discutido com o General Marshall, já que se trata de uma questão de operação militar.
Stimson encontrava-se há 35 anos no serviço público, grande parte trabalhando em estreito contato com Presidente dos Estados Unidos. Não estava acostumado a encontrar oposição, embora a idade o tivesse tornado tolerante.
— Trata-se de uma questão que eu mesmo vou resolver. A decisão não será de Marshall. Quero ver a lista.
Groves continuou a se esquivar.
— Está em meu gabinete.
— Então vá buscá-la.
— Vai demorar um pouco. ..
A paciência de Stimson se esgotou. Fitando Groves nos olhos, ele disse asperamente:
— Tenho a manhã inteira. Pode usar meu telefone para solicitar que lhe tragam o relatório imediatamente.
Um infeliz Groves pediu que lhe trouxessem o relatório.
Stimson sugeriu a Groves que enunciasse os alvos.
— O alvo primário é Kyoto. . .
— Não aprovarei essa cidade.
— Sr. Secretário, creio que mudará de idéia depois que ler a descrição de Kyoto e nossas razões para considerá-la o alvo primário.
— Duvido que alguma coisa possa fazer-me mudar de idéia.
Em seguida, Stimson explicou algo que Groves não chegara sequer a cogitar seriamente:
— Kyoto é uma cidade histórica e que possui grande significado religioso para os japoneses. Visitei-a quando era Governador-Geral das Filipinas e fiquei bastante impressionado com sua antiga cultura.
Um mensageiro chegou com o relatório sobre os alvos. Groves expôs seus argumentos a favor da escolha de Kyoto, destacando, inclusive, que a cidade estava cheia de importantes fábricas empenhadas no esforço de guerra. Stimson interrompeu-o bruscamente, chamou Marshall e repetiu suas objeções à proposta de Groves.
Mais tarde, Groves escreveu o único relato detalhado do que se seguiu:
Marshall não expressou uma opinião bastante positiva, embora não discordasse do Sr. Stimson. Tive a impressão de que ele achava que isso não faria muita diferença .... Pessoalmente, eu me sentia bastante constrangido e preocupado com a possibilidade de que ele pudesse pensar que eu lhe passara por cima, num assunto que decididamente lhe competia. Depois de alguma discussão, durante a qual foi-me impossível informar discretamente ao General Marshall que não tivera culpa pelo fato de o assunto ter sido levado diretamente ao Secretário da Guerra, o Sr. Stimson declarou que não mudaria sua decisão. No decorrer da conversa, gradativamente desenvolvera a opinião de que a decisão deveria ser orientada pela posição histórica que os Estados Unidos ocupariam depois da guerra. Achava que se deveria evitar qualquer coisa que pudesse prejudicar essa posição futura. Por outro lado, eu particularmente preferia Kyoto como alvo, por ter uma área suficientemente grande para nos proporcionar conhecimentos mais amplos sobre os efeitos de uma bomba atômica. Nesse aspecto, Hiroxima não era tão satisfatória.
Ainda “constrangido e preocupado”, Groves voltou a seu gabinete. Apesar das críticas de Stimson, ele continuaria a fazer pressão pela escolha de Kyoto, mesmo depois de ser informado do que o próprio Presidente também se opunha ao lançamento de uma bomba atômica nessa cidade.
Mais tarde, Groves iria afirmar, por uma distorção de lógica um tanto dúbia, que fora o responsável pela salvação de Kyoto.
— Se não tivéssemos recomendado Kyoto como um alvo atômico, a cidade não teria sido poupada e provavelmente estaria seriamente danificada ou talvez mesmo completamente destruída, antes que a guerra terminasse.
38
Há sete dias que Lewis e sua tripulação estavam esperando em Omaha para receber o novo bombardeiro. Desde que fora escolhido Tibbets, o avião estava recebendo “cuidados especiais” e, por isso, a entrega atrasara. Enquanto esperavam, alguns dos homens haviam conquistado um grupo de mulheres e realizado uma sucessão de orgias num hotel local. Um deles meteu-se com uma mulher casada e foram surpreendidos na cama pelo marido. Na luta subsequente, a polícia fora chamada a intervir. Lewis tivera de recorrer a toda a sua diplomacia para evitar consequências mais graves. O capitão também apaziguara motoristas irados, depois que outro dos seus homens “bombardeara” os carros que passavam com garrafas de cerveja, arremessadas da janela do quarto. Quando a gerência do hotel se queixou, Lewis conseguiu acalmar seus homens.
Ao longo dos últimos meses, ele se tomara cada vez mais protetor de sua tripulação. Dentro do grupo, as barreiras de posto haviam quase desaparecido. O relacionamento entre oficiais e sargento era cordial, todos se tratando pelo primeiro nome. Socialmente, Lewis costumava passar bastante tempo no clube dos sargentos e praças, tirando sua jaqueta de oficial e vestindo uma do Sargento Joe Stiborik.
O Sargento Richard Nelson, operador de rádio de 19 anos, ficou espantado com a madeira com Lewis o tratava, como se fosse um igual. Caron achava que o piloto estava tentando formar um grupo unido e interdependente, em que todos os homens poderiam confiar uns nos outros em combate.
Nos vôos, Lewis ainda fazia tudo “pelo manual”, punindo os erros cometidos com poucas palavras cuidadosamente escolhidas. Mas não permitia que ninguém de fora criticasse o que considerava “sua tripulação”. E mais de uma vez disse a seus homens:
— Se tiverem um problema, eu o resolverei.
Antes de voarem para Omaha, o Sargento Robert Shumard, alto e de fala macia, assistente do engenheiro de vôo, foi procurar Lewis, visivelmente perturbado porque um PM matara seu cão setter com um tiro. Lewis teve um acesso de fúria, por pouco não agrediu o PM. A reação aumentou ainda mais o respeito e a afeição da tripulação por seu comandante tão pouco ortodoxo.
Alguns homens também ficavam ressentidos com a intrusão de Ferebee e Van Kirk, até mesmo de Beser e Jeppson. Nem mesmo Tibbets, nas raras ocasiões em que voava com eles, escapava a tal ressentimento. Nessas ocasiões, Lewis era “rebaixado” a co-piloto. Mesmo assim, tentava deixar bem claro que era a “sua tripulação" que estava voando o aparelho.
Caron achava que a atitude possessiva de Lewis poderia criar um problema quando Coronel fosse voar a missão. O artilheiro da cauda não tinha a menor dúvida de que seria Tibbets quem iria comandar o golpe final. Ele gostava dos dias em que Tibbets pilotava o avião.
— Ele era um verdadeiro cavalheiro, tranquilo e meticuloso. Já Bob era um excelente piloto, mas se comportava como um cowboy.
Naquela manhã de 14 de junho, na fábrica Martin, em Omaha, Lewis estava com sua tripulação regular. Era um dia memorável para todos. Gracejando e contando histórias, inspecionaram meticulosamente o novo B-29. Depois de fazer todas as verificações, o engenheiro de vôo Duzenbury declarou-se satisfeito. Lewis ordenou que a tripulação embarcasse, acionou os motores e decolou. Circulou Omaha uma vez e depois seguiu direto para Wendover.
* * *
Às 9:30 horas da manhã, os Chefes do Estado-Maior Conjunto chegaram ao gabinete de Truman. Com eles, encontravam-se também Stimson, seu assistente, John J. McCloy, e outros conselheiros presidenciais.
Por dois dias, 14 e 15 de junho, os Chefes do Estado-Maior Conjunto, os comandantes supremos das Forças Armadas, haviam aperfeiçoado os planos para a invasão do Japão, que tinham os nomes em código de “Olympic” e “Coronet”.
“Olympic” era o ataque inicial, contra o sul de Kyushu, a l.° de novembro de 1945, com uma força de 815.548 homens. “Coronet” era o plano para a invasão de Honshu, cinco meses depois, na área de Tóquio, com 1.171.646 homens.
Truman escutou atentamente, enquanto Marshall expunha os planos para a invasão. Seguiu-se uma “discussão considerável” sobre o índice de baixas previsto.
Stimson resumiu as perspectivas:
— Uma operação de desembarque seria uma luta muito longa, custosa e árdua da nossa parte. . . a região, que visitei várias vezes, deixou-me na memória a impressão de que pode ser defendida encarniçadamente.
A possibilidade de um acordo político, depois de uma advertência aos japoneses, foi levantada pelo assistente de Stimson, McCloy. Na opinião dele, havia muitos japoneses que não eram favoráveis à guerra. Se tivessem uma oportunidade, suas opiniões poderiam ser influentes.
A sugestão pegou a reunião de surpresa.
Stimson concordou que o Japão não era “uma nação composta por loucos fanáticos com uma mentalidade inteiramente diferente da nossa”. Concordava também que, antes da invasão, dever-se-ia deixar bem claro aos líderes japoneses que, se não se rendessem, seriam responsáveis pelo que aconteceria em seguida. Stimson ainda não tinha certeza se tal advertência deveria ou não estar vinculada à bomba atômica.
Os Chefes do Estado-Maior Conjunto escutaram atentamente, mas não manifestaram qualquer opinião a respeito da bomba atômica ... exceto para dizerem que, se fosse usada, deveria ser lançada sem qualquer aviso prévio. O assunto não foi esmiuçado, pois nenhum dos presentes sabia o que a bomba era capaz de fazer. E ninguém, nas palavras de McCloy, podia sequer “ter certeza, apesar das garantias dos cientistas, de que a coisa iria funcionar”.
Sem prova positiva da viabilidade da arma, era impossível planejar uma estratégia que não estivesse baseada exclusivamente nas armas convencionais.
Relutantemente, Truman aprovou os planos de invasão, sabendo que um milhão de americanos poderiam morrer em consequência de tal decisão.
A preocupação do Presidente Truman com as baixas certamente teria sido muito maior, se ele soubesse que o Serviço Secreto japonês previra os planos americanos. No exato momento em que Truman autorizava a invasão de Kyushu, os japoneses estavam despachando reforços para a ilha.
Essa concentração de tropas, incumbida de repelir os americanos, tinha agora seu quartel-general em Hiroxima.
39
Pouco depois do amanhecer de 19 de junho, um rumor surdo despertou o Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama. O barulho vinha do interior do Monte Futaba. Turmas de operários estavam usando ferramentas de ar comprimido para escavar um complexo de comunicações subterrâneo na base do monte.
A bateria antiaérea de Yokoyama ficava imediatamente acima do complexo subterrâneo, o que significava que ele e seus homens viviam, do amanhecer ao anoitecer, com um rumor surdo sob seus pés. O que fazia com que Yokoyama pensasse em tremores de terra.
A destruição que vira em sua última visita a Tóquio e a atitude dos pais em relação ao casamento proposto com a filha do comandante haviam deixado Yokoyama bastante abalado. Para piorar as coisas, ele estava longe de Hiroxima durante o segundo ataque aéreo americano à cidade. Não se sentia consolado com as palavras de seu comandante, Coronel Abe, que lhe disse que, a cada dia que passava, aumentavam as possibilidade de ele ver muita ação dentro em breve.
Abe continuava a se mostrar solícito, tratando Yokoyama como se já fosse um membro da família. Mas o tenente ainda não tinha certeza. A mãe lhe escrevera uma carta cautelosa, informando que o pai ainda investigava os antecedentes da moça. Até que tais investigações estivessem concluídas, ela recomendava ao filho limitar os contatos sociais com seu comandante. Yokoyama passara a inventar desculpas para rejeitar os convites para jantar na casa de Abe ou visitá-lo no clube dos oficiais no Castelo de Hiroxima. A tentação de ir era muito forte. Ele seria capaz de qualquer coisa para escapar ao tédio em sua bateria antiaérea.
Passava os dias, como todos os demais oficiais na mesma posição, a exercitar seus homens... e a observar Hiroxima pelo binóculo, verificando as mudanças na cidade, que a haviam transformado no grande bastião da metade ocidental do Japão. Pelas estradas, ferrovias e pelo mar, desafiando os bombardeiros e submarinos americanos, homens e suprimentos estavam chegando à cidade. Depois de treinamentos intensivos em Hiroxima, eram transferidos para seus postos avançados em Kyushu. Na cidade, no comando de todas as tropas do setor ocidental, estava o homem que fora escolhido pelo Imperador e pelo Alto Comando para salvar o Japão da derrota.
Ao pé do Monte Futaba, não muito longe da bateria antiaérea de Yokoyama, o Marechal-de-Campo Shunroku Hata instalara seu quartel-general.
Hata era um dos mais bem-sucedidos, famosos e respeitados comandantes de todo o Japão. Era chegado ao Imperador e, certa ocasião, fora mesmo considerado para Primeiro-Ministro. Em vez disso, recebera um posto talvez tão importante: foi escolhido para o comando do Segundo Exército Geral e informado de que era o único homem que poderia salvar o país da derrota ignominiosa.
A chegada dele à cidade inquietara os oficiais no Castelo de Hiroxima. Delicado, mas firme, Hata os intimidava. Com 65 anos, o Marechal-de-Campo tinha mais experiência de guerra do que todos eles reunidos. Os oficiais ficaram aliviados quando Hata decidiu não instalar seu quartel-general no castelo.
Em meados de junho, o estado-maior de Hata, com cerca de 400 homens, incluía alguns dos melhores cérebros militares do país. Planejava desfechar uma guerra de fricção como o mundo jamais conhecera.
Gradativamente, sob o comando de Hata, a Ilha de Kyushu foi sendo transformada numa fortaleza fortemente armada. Do Arquipélago Goto, ao norte, às Ilhas Osumi, no sul, estava sendo erguido um sistema de defesa interligada. As defesas visavam a causar o máximo de baixas ao inimigo. Ligando tudo, havia uma complexa rede de comunicações, controlada de Hiroxima e terminando no quartel-general de Hata.
A cidade propriamente dita era uma colméia de indústria bélica. Praticamente não havia qualquer casa que não estivesse envolvida na fabricação de peças para os aviões kamikazes, bombas, balas, rifles, pistolas.
Recentemente, fora dada ordem para que se pintasse nas paredes da cidade um novo slogan:
ESQUEÇA A SI MESMO!
DÊ TUDO
POR SEU PAIS!
A idéia de Hata era fazer com que cada homem, mulher e criança no Japão ocidental estivesse empunhando uma arma quando a invasão chegasse.
As crianças aprendiam a fazer e lançar bombas de gasolina. Estavam sendo guardadas garrafas e gasolina suficientes para se fazerem mais de três milhões dessas bombas.
Até mesmo os doentes estavam sendo mobilizados. Em Hiroxima as pessoas de cama e em cadeiras de rodas montavam armadilhas individuais contra os soldados inimigos, para serem colocadas nas praias de Kyushu.
Como força principal contra os invasores, uma batalha que estava sendo chamada de “a grande batalha”. Hata tinha 400 mil hohomens sob seu comando, muitos já instalados em suas posições em Kyushu. Minoru Genda, o planejador do ataque a Pearl Harbor, chegara recentemente, no comando de um grande e novo grupo de caças. Além disso, havia cerca de cinco mil aviões de reserva, prontos para serem usados como kamikazes.
Em Hiroxima, havia cerca de 40 mil homens aquartelados no castelo. Além do porto, em Ujina, encontravam-se mais cinco mil homens, principalmente fuzileiros, aperfeiçoando as táticas kamikazes de embarcações de superfície. Centenas de pequenas embarcações estavam sendo equipadas com motores e carregadas de explosivos, sendo escondidas em pequenas enseadas em torno da baía. Se uma força de invasão chegasse, os barcos seriam tirados de seus esconderijos, cada um com um único tripulante, suas cargas devendo explodir no impacto com os navios inimigos.
Hata achava que podia ser impossível ao Japão derrotar a América, mas também se poderia fazer com que ficasse impossível à America derrotar o Japão. Esperava que os americanos, depois de experimentarem tal recepção, fossem para a mesa de negociações, esquecendo a exigência de rendição incondicional do Japão.
40
Tibbets contemplou Hiroxima.
Os rios, pontes, porto, o castelo e os campos de treinamento militar adjacentes estavam claramente visíveis nas fotografias de reconhecimento a sua frente. Também as rodovias, ferrovias, armazéns, fábricas, quartéis e casas particulares. Aqui e ali, a urbanização era interrompida por parques e bosques. Além da cidade, ficavam as colinas, cercando Hiroxima por três lados. Proporcionavam uma barreira natural quase perfeita para conter uma explosão atômica.
Ele notou as defesas antiaéreas, uma corrente irregular de baterias, estendendo-se do Monte Futaba, a nordeste, até o porto, ao sul.
Falando calmamente e com toda autoridade, usando sua experiência acumulada de bombardeio, Tibbets apresentou seu julgamento sobre a conveniência de Hiroxima como alvo:
— Os diversos canais oferecem condições ideais. Não dão margem a qualquer possibilidade de equívoco de cidade. E pode-se aproximar de Hiroxima de qualquer direção para o bombardeio.
Os ouvintes analisaram silenciosamente a avaliação.
Tibbets continuou em sua análise meticulosa, concentrando-se nas fotografias de reconhecimento de outras cidades japonesas, espalhadas sobre a mesa de conferências do gabinete do General Henry Arnold, no Pentágono.
Aquela reunião de 23 de junho era a última de uma série, em que se haviam discutido os detalhes cruciais sobre a melhor maneira de derrotar o Japão.
Alguns dias antes, LeMay viera de avião de Guam especialmente para essas reuniões. Ele já fora informado, numa rápida visita de Tibbets a Guam, no início de junho de que seria perigoso demais para a tripulação lançar uma bomba atômica de uma altitude inferior a 7.500 metros. Em Washington, Groves havia explicado a LeMay qual era o poder provável da bomba e os motivos da escolha dos alvos potenciais.
LeMay não deixara transparecer qualquer reação quando Groves lhe dissera que a operação estaria inteiramente sob “o seu controle, sujeita, é claro, às restrições que possam ser impostas pelas instruções”. Somente Groves sabia que tais instruções seriam formuladas de tal maneira que o controle efetivo da operação permanecería em suas próprias mãos.
LeMay anunciara que gostaria de realizar a missão de bombardeio com um único avião, sem qualquer escolta de caças. Ressaltara que os japoneses provavelmente não dariam maior importância a um avião solitário voando em grande altitude, tomando-o por um aparelho de reconhecimento ou em missão meteorológica.
Groves aprovara a idéia. Não disse a LeMay que Tibbets já chegara a uma conclusão similar e que o treinamento do 509.° fora baseado nisso.
LeMay voltara para Guam acreditando que, em breve, seria responsável pelo lançamento de uma arma na qual ainda não tinha fé absoluta. Também não estava convencido de que Tibbets e o 509.° fossem a melhor escolha para a missão. Preferia que um dos seus veteranos do Pacífico se encarregasse dela, uma tripulação que já tivesse provado do que era capaz em vôos sobre o Japão.
Tibbets, ignorando inteiramente os últimos acontecimentos, voara de Wendover para Washington para comparecer àquela reunião no gabinete de Arnold. Concluindo sua avaliação das fotografias de reconhecimento, ficou esperando por perguntas de Groves e Arnold, o Comandante da Força Aérea.
As perguntas não surgiram. Os dois homens contemplaram silenciosamente as fotografias, os olhos se fixando primeiro nas imagens lustrosas de Hiroxima, depois nas de Niigata e Kokura, os dois outros alvos que estavam agora na lista de cidades japonesas reservadas para possível ataque atômico.
Groves perguntou a Tibbets com ele se aproximaria de Hiroxima.
Usando o dedo para indicar a rota sobre a fotografia, Tibbets explicou que começaria o estágio final de bombardeio de leste, aproximando-se de Hiroxima a um ângulo de 90 graus em relação ao ponto em que os rios se dividiam. Apontou para um ponto na fotografia, perto do Castelo de Hiroxima, onde o Rio Ota se dividia em tributários.
— Suponhamos que seja este o ponto de alvo. Numa aproximação transversal, qualquer das margens do rio pode servir como ponto de referência para a verificação dos cálculos finais. Se voássemos ao longo de um dos rios, o bombardeador só veria praticamente água através de seu visor. Seria muito difícil para ele determinar a aproximação do PA.
Groves permitiu-se um dos seus raros gracejos:
— Coronel, tenho a impressão de que seu bombardeador será perfeitamente capaz de avistar o alvo de olhos vendados, quando chegar o momento.
Os homens em torno da mesa sentaram-se e passaram a discutir outros aspectos do lançamento de um ataque atômico.
Groves estava-se envolvendo em discussões tão detalhadas porque achava que
. . . algumas pessoas da Força Aérea. . . demonstravam um total falta de compreensão do que estava envolvido. Pensavam que a bomba atômica seria tratada como qualquer outra arma nova: assim que estivesse pronta para uso em combate, seria entregue ao comandante na frente de combate, juntamente com uma lista de alvos recomendados, tendo este completa liberdade de ação, em tudo.
O chefe do Projeto Manhattan achava que o assunto era “complexo e importante demais para ser tratado de maneira tão superficial”; que as decisões sobre o uso deveríam ficar sob seu controle, embora admitisse que “o Presidente também partilharia delas, não tanto por tomar decisões originais, mas aprovando ou desaprovando os planos preparados pelo Departamento da Guerra”.
Observando Groves agora, do outro lado da mesa, Tibbets mais uma vez ficou impressionado, compreendendo que estava diante de um homem “capaz de mover céus e terras para poder fazer tudo a sua maneira”.
Tibbets também percebera a tática de Groves: ele “não gostava de um ataque frontal, preferindo uma investida pelo flanco”.
Tibbets, ao contrário, acreditava que a melhor solução era um ataque frontal contra qualquer problema. . . ou contra qualquer oposição. Ela achava que uma parte demasiada do seu tempo estava sendo consumida a “discutir imponderáveis”.
Mas havia um imponderável que Tibbets achava que devia ser discutido: o das prováveis condições meteorológicas prevalentes na área do alvo.
Desde abril, os meteorologistas da Força Aérea vinham preparando cartas de tempo sobre as condições que se poderiam esperar nos meses seguintes sobre o Japão. Os dados eram baseados em informações fornecidas pelo Serviço de Meteorologia dos Estados Unidos e em antigos mapas meteorológicos de observatório de Kobe para o período de 1927 a 1936.
As previsões eram sombrias. De junho a setembro, deveria haver apenas um máximo de seis dias em cada mês nos quais a visibilidade seria boa, com três décimos de nebulosidade ou menos. Haveria pelo menos 18 dias por mês em que a nebulosidade seria de oito décimos.
O bombardeio pelo radar fora cogitado e rejeitado. Depois de estudos prolongados, um especialista concluira:
É perfeitamente possível interpretar erroneamente as imagens na tela de radar; uma área rural do Japão pode ser tomada por uma cidade. Com bombardeio pelo radar e um bom operador, a chance de lançar a bomba dentro de um círculo determinado de 300 metros é de um a dois por cento. A probabilidade de se errar inteiramente a área do alvo é de 70 a 50 por cento.
Com o bombardeio visual, no entanto, “o tempo estando bom, a probabilidade de um bom bombardeador conseguir lançar a bomba dentro de um círculo determinado de 300 metros é de 20 a 50 por cento”.
Os bombardeadores de Tibbets estavam lançando regularmente suas bombas de exercício num círculo de 100 metros.
O meteorologista da Força Aérea declarou na reunião que, entre aquele momento e o Natal, agosto era provavelmente a melhor ocasião para lançar a bomba atômica, “devendo haver melhores condições meteorológicas na primeira quinzena do que na segunda”.
Tibbets gostou da sugestão seguinte do meteorologista:
— Vamos supor que não houvesse qualquer previsão anterior. A missão poderia ser realizada em qualquer dia. O bombardeiro poderia ser precedido por aviões de reconhecimento, que lhe iriam transmitindo informações sobre o tempo, durante o próprio vôo. O aparelho com a bomba poderia então seguir para o alvo que oferecesse melhor visibilidade.
Tibbets achou que era uma solução simples, sem maiores dificuldades. O próprio 509.° poderia fornecer esses aviões de reconhecimento do tempo e ele teria liberdade para tomar a decisão final no ar, livre de qualquer interferência e pressões externas e de posse das mais recentes informações meteorológicas, sobre que cidade japonesa seria bombardeada.
* * *
Levvis conteve o bombardeiro de 65 toneladas, os tanques cheios com 26 mil litros de combustível, enquanto observava o mostrador de rotações. A agulha subiu para 2.200 e permaneceu constante. O bombardeiro estremeceu, protestando contra os freios que o mantinham na cabeceira da pista em Wendover.
O co-piloto, sentado ao lado de Lewis, inclinou os flapes das asas para a decolagem. Pelo interfone, Shumard e Stiborik confirmaram que os flapes estavam em posição. Duzenbury informou que os quatro motores funcionavam perfeitamente.
Somente então, satisfeito com todas as verificações pré-decolagem, é que Lewis empurrou o manche para a potência máxima e soltou os freios.
A uma velocidade aproximada de 80 metros por segundo, o B-29 correu pela pista, levando nove homens, seus equipamentos e pertences pessoais para a mais emocionante viagem que qualquer um deles já fizera.
No compartimento de bombas, embaixo, estava o restante do uísque que Beser comprara em Cuba, além de diversas mercadorias do reembolsável de Wendover. Lewis, sempre preocupado com sua tripulação, especialmente com os sargentos, havia sugerido que guardassem no compartimento de bombas tudo o de que poderiam sentir falta no Pacífico.
Nelson levava uma pilha de livros de mistério e aventuras. Planejava ler um livro em cada missão sobre o Japão. Caron munira-se de papel de carta da melhor qualidade, a fim de escrever para a esposa. Shumard comprara uma máquina fotográfica para tirar algumas fotografias.
Os “troféus” da tripulação também estavam seguindo para o Pacífico: um par de calcinhas de garotas de Salt Lake City, uma caixa de preservativos cuja propriedade ninguém reclamava, e uma liga, presa na tábua do vaso.
Como sempre, Lewis explicara a “regra da casa” para o uso do vaso. O primeiro homem que o usasse, seria o responsável por esvaziar e limpar o balde com ingredientes químicos, ao final da viagem.
Lewis sabia que alguns tripulantes “prendiam-se para não ser o primeiro a usar o vaso”. Isso sempre o divertia, porque se acostumara a enfrentar um vôo de 10 horas sem ter que se arrastar pelo túnel central do avião para ir ao banheiro.
O capitão ergueu o bombardeiro no ar e circulou a base. Ligou o interfone e disse:
— Segurem-se! Vamos dar uma rasante sobre a torre!
Caron, na torre da cauda, segurou-se.
O B-29 deu uma rasante sobre a base. Gritando como demônios, os tripulantes encorajaram Lewis a voar ainda mais baixo. Inclinando o avião, Lewis pôs a asa de bombordo a uma distância mínima do solo e atravessou o campo a toda velocidade. Caron pensou que deviam ter “apavorado todo mundo que estava olhando, voando daquele jeito, como um caça”.
A voz furiosa do controlador na torre ordenou a Lewis que ganhasse altura imediatamente.
O bombardeiro continuou o voo em baixíssima altitude, a asa quase raspando no chão. Para Nelson, foi “um exemplo espetacular de perícia de piloto”.
Lewis levou o avião à altitude de cruzeiro e rumou para o sul. Já em Tinian, estavam mais de 1.200 homens do 509.° e 12 dos B-29 do grupo.
O excitamento a bordo do avião de Lewis era cada vez maior. Nenhum dos membros da tripulação jamais estivera no exterior, numa área de combate. A maior parte do conhecimento que tinham da guerra era através dos filmes e das reportagens do Saturday Evening Post que Caron colecionava.
Para eles, a guerra era “uma oportunidade de fazer alguma coisa pelo país”, de “levar paz ao mundo” ou, como Lewis preferia, “dar uma lição àqueles japoneses, como eles tentaram fazer com a gente em Pearl Harbor e outros lugares”.
Lewis não era um homem vingativo e sedento de sangue. Nenhum dos homens de sua tripulação pensava assim. Nas palavras de Caron, eram “apenas sujeitos como quaisquer outros, indo fazer um trabalho”.
Agora, voando para o que todos esperavam que fosse um paraíso tropical, Lewis assinalou o momento da partida de Wendover com um brado de guerra:
— Tinian, aqui vamos nós!