A Bomba de Hiroxima
Capítulo 1
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Tibbets designou Lewis para experimentar o novo bombardeiro, no que já se transformara em uma viagem rotineira, entre Wendover e o Mar de Salton. Ferebee estava a bordo em parte porque iriam lançar naquele vôo uma das preciosas “unidades engatilhadas”. Eram bombas simuladas, com o formato exato da bomba atômica e contendo o mecanismo do detonador de proximidade. Cada um desses mecanismos custava o equivalente a um Cadillac.
Além do engenheiro, havia outro novato a bordo: o Segundo- Tenente Morris R. Jeppson, do Primeiro Esquadrão de Material Bélico. Na espaçosa cabine que partilhava com o navegador e o radiotelegrafista, Jeppson instalara um painel de controle para verificar os complexos mecanismos eletrônicos internos da bomba, antes de ser lançada do avião.
Um jovem religioso e retraído, Jeppson se concentrava inteiramente em seu trabalho, indiferente aos gracejos a seu redor. Sabia que os aviadores estavam curiosos por sua presença e ansiosos em arrancar-lhe informações sobre o Esquadrão de Material Bélico. Mas não podia deixar de admirar a maneira como os homens se continham. Gostava desse tipo de disciplina.
Jeppson fizera o curso de Física. Já no serviço militar, estudara em Yale, Harvard e no Instituto Tecnológico de Massachusetts. Seu talento fora notado e requisitaram-no para o Primeiro Esquadrão de Material Bélico.
Simpatizara imediatamente com Lewis. O piloto se mostrara amistoso, sugerindo onde poderia instalar seus equipamentos e o informando sobre o que deveria esperar durante o vôo. Até agora, porém, este transcorrera sem qualquer novidade. Seu painel de controle, de onde saíam cabos ligados à bomba, indicavam que a arma estava-se comportando normalmente”.
— Dois minutos para o PA.
Lewis acusou o recebimento das palavras de Ferebee. Preparou- se para fechar as portas do compartimento de bomba, no momento em que o bombardeador comunicasse o lançamento.
O engenheiro estava debruçado sobre uma duplicata do visor Norden. Se o instrumento do bombardeador não funcionasse direito, a bomba ainda poderia ser lançada, com Ferebee ordenando ao engenheiro que puxasse a alavanca.
O engenheiro sincronizou seus movimentos com todos os ajustamentos que Ferebee estava fazendo.
Um minuto e meio para o PA.
Subitamente, o B-29 se ergueu no ar.
— Deus do céu!
O grito de Ferebee foi seguido por uma exclamação furiosa de Lewis:
— Você lançou a bomba cedo demais!
Ferebee corrigiu-o:
— Não fui eu! Deve ter sido o engenheiro!
Lewis gritou para o engenheiro pelo sistema de comunicação interna:
— Tocou em alguma coisa?
— Pensei que já estivéssemos no ponto de lançamento!
As palavras seguintes de Ferebee interromperam o fluxo de invectivas de Lewis:
— A bomba vai cair na cidade!
Ele ficou observando, paralisado, enquanto a bomba mergulhava na direção da cidade. Embora contivesse apenas uma pequena quantidade de explosivos, tendo mais lastro e equipamentos eletrônicos, a bomba pesava mais de quatro mil quilos e poderia causar danos consideráveis.
— Mantenha o curso, Bob!
Lewis continuar a voar o B-29 na mesma direção anterior.
Jeppson calculou que a bomba levaria cerca de um minuto para chegar ao solo.
Trinta segundos se passaram.
Ferebee anunciou:
— Não vai atingir a cidade!
A bomba caiu um quilômetro além de Calipatria.
Horas depois, agentes do Projeto Manhattan haviam isolado a área e procuravam pela unidade. Estava enterrada a três metros de profundidade. Foi recuperada, tratores encheram o buraco de terra. Ninguém em Calipatria jamais soube como a cidade estivera perto de ser atingida.
O vôo de volta a Wendover foi bastante tenso. As tentativas de pedir desculpas do desolado engenheiro foram recebidas com um silêncio gelado.
Em Wendover, ele foi metido num carro e levado para Salt Lake City. Ali, foi embarcado num trem por agentes do projeto e informado de que nunca mais poderia sequer aproximar-se da base aérea.
* * *
Tibbets olhava, entre furioso e incrédulo, para um dos seus oficiais que mais mereciam sua confiança, um tenente-coronel baixo e elegante. Uanna, sentado ao lado de Tibbets, continuou a interrogar o oficial:
— Admite então que pegou um B-29 sem autorização a fim de voar até em casa numa licença de fim-de-semana?
O oficial manteve a pose agressiva:
— Tenho autoridade para requisitar um avião.
A censura de Uanna foi em tom suave:
— Ninguém, em toda a Força Aérea, tem autoridade para pegar o nosso bombardeiro mais secreto e partir numa viagem de recreio.
Tibbets interveio na conversa:
— Você levou o avião e deixou-o sem qualquer vigilância num aeroporto civil durante dois dias?
— Deixei. Mas o avião estava todo trancado.
— E depois levou seu pai a dar uma volta num avião do qual a maioria dos homens desta base nem sequer pode aproximar-se?
— Meu pai gosta de voar. Achei que não havia mal algum.
Tibbets explodiu:
—• Não quero saber dos gostos de seu pai! E acho que você jamais conseguiu pensar direito em coisa alguma!
— Coronel, estou disposto a pedir desculpas. . .
— Desculpas? E pensa que isso pode resolver alguma coisa? Você infringiu todas as regras de segurança! E ainda tem coragem de chamar-se de oficial! Vou fazer um exemplo de você!
O tenente-coronel ficou calado, esperando, apreensivo.
Tomada a decisão, Tibbets não perdeu tempo em proferir a sentença:
— Tem exatamente 60 minutos para arrumar suas coisas. Um avião estará a sua espera. O destino será o Alasca. Passará o resto da guerra conversando com pinguins!
— Coronel. . .
— Diga mais uma palavra e será levado à corte marcial! E agora saia daqui!
O oficial em desgraça se retirou.
Aquele era o terceiro caso em uma semana em que tinham sido infringidos os regulamentos de segurança. Dois dias antes, a 20 de março, uma dupla de tenentes de plantão na estação de telemetria na área de bombardeio no Mar de Salton abandonara os equipamentos de medição altamente secretos e atravessara a fronteira para o México, a fim de se “divertir um pouco”. Os dois também foram imediatamente despachados para o Alasca.
Pessoalmente, Tibbets simpatizava com os três oficiais punidos. Mas, mesmo que quisesse, não poderia ter demonstrado qualquer compaixão. Isso poderia abrir as comportas, e as medidas de segurança que planejara e adotara junto com Uanna estariam irremediavelmente destruídas.
Tibbets sabia que tais atitudes não o faziam popular, mas, como dissera certa ocasião a Van Kirk, não estava “tentando vencer um concurso de popularidade”.
A transferência de três oficiais para as vastidões geladas do Alasca serviría como freio para os outros. Mas não iria aliviar as tensões. Há seis meses que Tibbets vinha exigindo o máximo de seus homens. E até poucos dias antes, o próprio Tibbets não estava tão familiarizado com “o objetivo de todo aquele trabalho quase escravo”. Só tomara conhecimento do mecanismo nuclear ultra-secreto no interior da bomba quando Parsons chegara a Wendover pouco antes, com diversas plantas da bomba de urânio, a fim de discutir com Tibbets uma nova série de testes do detonador. Tibbets já sabia que a bomba teria cerca de três metros de comprimento e 70 centímetros diâmetro, pesando mais de quatro mil quilos. Ao ouvir as explicações de Parsons, ele ficou “espantado com a extrema simplicidade”.
O núcleo da bomba de urânio pesaria apenas 11 quilos, dividido em dois segmentos desiguais separados por quase dois metros, dentro de um cano de canhão, que era o próprio invólucro da bomba. Entre as duas massas de urânio 235 havia uma espécie de escudo resistente aos nêutrons, feito com uma liga de alta densidade. O escudo serviría para impedir que as duas massas de urânio reagissem mutuamente, o que causaria uma explosão nuclear não prevista.
A massa menor de urânio 235 pesaria apenas 2,5 quilos. Era a “bala” atômica. Quando o canhão fosse ativado pelo detonador de proximidade, essa “bala” seria disparada pelo cano do canhão até o “alvo”, a massa maior de urânio 235. O “alvo” pesaria cerca de 8,5 quilos.
Quando disparada, a força da “bala” de urânio rompería os pinos que anteriormente a prendiam no lugar, atravessaria o escudo e iria chocar-se contra o “alvo”, provocando a explosão nuclear.
Depois de toda a explicação, Tibbets teve um calafrio quando Parsons lhe disse que, apesar de todos os planejamentos e testes, os cientistas de Los Alamos ainda não tinham certeza absoluta de que a bomba de urânio iria funcionar. Tibbets recordou mais tarde como “Parsons tranquilamente disse que não se poderia ter certeza de que a arma iria funcionar. . . enquanto não fosse usada. Aparentemente, ele não achava que o risco de fracasso fosse alto. Mas a verdade é que havia.”
Desde a conversa que Tibbets não parava de pensar no que Parsons lhe dissera. E isso, juntamente com as quebras de segurança dos três oficiais, faziam com que ficasse bastante nervoso. Uma noite, Tibbets foi chamado, quando estava jantando, para interrogar um homem que se hospedara no State Lina Hotel, em Wendover. Os agentes de segurança haviam descoberto que ele se registrara com nome falso. O homem resistiu durante 30 minutos ao interrogatório de Tibbets, até que um agente interveio:
— Vamos transformá-lo num espião. E os espiões neste país sempre acabam na cadeira elétrica.
O homem então confessou. Admitiu que estava usando um nome falso, na esperança de vender supostas assinaturas de revistas aos homens da base. Foi levado a Salt Lake City e advertido de que não deveria voltar a Utah em hipótese alguma.
O incidente deixou Tibbets ainda mais preocupado. Na base, todos já estavam comentando abertamente que iriam lançar “uma grande bomba” no Japão. Tibbets achava que era apenas uma questão de tempo antes que fosse cometida uma quebra grave de segurança.
30
Mesmo ali, em Warm Springs, Geórgia, o Presidente Roosevelt não podia livrar-se preocupações com a guerra. Ao meio-dia, apareceu em seu gabinete um mensageiro especial, levando uma bolsa de couro. O correio de Washington chegara para interromper o repouso que seus médicos lhe tinham recomendado.
Havia motivos para que Roosevelt se sentisse animado. Os Aliados estavam vencendo a guerra. A Alemanha encontrava-se à beira da derrocada final. No Pacífico, 183 mil soldados e fuzileiros americanos haviam desembarcado em Okinawa.
Mas o número de mortos já era bastante alto. Naquela manhã, como sempre acontecia, o Presidente recebeu os últimos dados de baixas: 6.481 americanos tinham morrido em combate na última semana, elevando para 196.669 o total de vidas americanas perdidas na luta contra as potências do Eixo.
Roosevelt ainda estava examinando as estatísticas quando chegou Madame Elizabeth Shoumatoff, a pintora de retratos.
Roosevelt vestia colete, como ela pedira, embora não gostasse. Deixou que a pintora ajeitasse um manto sobre seus ombros. As roupas escuras contrastavam com a curiosa luminosidade das feições do Presidente. A pele parecia agora um pergaminho e naquela manhã brilhava intensamente, com uma luminosidade que parecia vir de dentro.
Subitamente, Roosevelt levou a mão esquerda à testa e apertou firmemente. A mão logo caiu ao colo, os dedos se contraindo. Ele largou o cigarro, levantou a mão direita para massagear a nuca. Fechou os olhos e começou a gemer baixinho. Depois, a cabeça pendeu para frente e o corpo resvalou da cadeira, inerte como uma marionete.
O médico do Presidente chegou momentos depois.
Às 3:35 horas da tarde de 12 de abril de 1945, Franklin Delano Roosevelt foi declarado clinicamente morto.
O mundo livre perdera um estadista, a América perdera seu líder e o Projeto Manhattan perdera, no momento mais crucial, seu protetor.
Ignorando o que acabara de acontecer na Geórgia, Harry S. Truman, 34.° Vice-Presidente dos Estados Unidos, naquela tarde agindo em sua qualidade de Presidente do Senado, parecia estar tomando anotações sobre os debates entre os senadores. Muitos achavam que tal atitude era típica da maneira como Truman gostava de fazer as coisas: ele acumulava meticulosamente todos os fatos disponíveis.
Na realidade, Truman estava escrevendo uma carta para a mãe, dando as mais variadas notícias e terminando com um lembrete:
Ligue seu rádio manhã de noite, às 9:30 horas, e ouvirá Harry fazer um discurso à nação pelo Dia de Jefferson. Creio que será transmitido em cadeia e por isso não deverá ter dificuldades em ouvir-me. O Presidente falará depois de mim e serei encarregado de apresentá-lo.
Às 4:56 horas, o Senado entrou em recesso. Truman foi ao gabinete do Senador Sam Rayburn para tomar um bourbon com água. E ainda estava ali quando o secretário de imprensa de Roosevelt, Steve Early, telefonou e pediu a Truman que fosse até a Casa Branca, “por favor”, entrando pela entrada principal da Avenida Pensilvânia.
Truman não perguntou por quê. Imaginou que Rooselvelt acabara de voltar de Warm Springs e desejava discutir algum pequeno problema com ele.
Truman foi conduzido ao gabinete de Eleanor Roosevelt, no segundo andar. Ela se aproximou dele e segurou-lhe o braço. Sua voz estava calma e controlada:
— Harry, o Presidente morreu.
Aturdido, Truman olhou instintivamente para o relógio, a fim de recordar-se do momento em que ouvira a terrível notícia. Eram 5:25 horas da tarde.
A Sra. Roosevelt voltou a falar:
— Podemos fazer alguma coisa por você, Harry? É você quem está agora com problemas!
Ela convidou-o a usar o telefone do gabinete e depois se retirou para cuidar das providências para o funeral.
Às 7:00 horas, Truman foi para o Salão do Gabinete na Casa Branca, a fim de prestar juramento. Os membros do Gabinete ficaram observando em silêncio, enquanto o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Harlan Stone, explicava a breve cerimônia a Truman.
Stone consultou um pedaço de papel e pediu a Truman que confirmasse se o “S” em seu nome era de “Shippe”.
O sotaque arrastado de Truman soou com grande intensidade no ambiente opressivo:
— O “S” não representa nada. É apenas uma inicial.
O Presidente do Supremo Tribunal apagou o nome “Shippe” do juramento. Um assistente sussurrou a Stone que não podiam ainda começar, pois não dispunham de uma Bíblia. Todos esperaram num silencio tenso, enquanto se processava uma busca frenética na Casa Branca, até se encontrar uma Bíblia.
Às 7:09 horas, a Bíblia foi entregue a Truman, que repetiu o juramento presidencial depois de Stone:
— Eu, Harry S. Truman, juro solenemente que cumprirei fielmente os deveres do cargo de Presidente dos Estados Unidos e envidarei todos os meus esforços para preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos.
Truman impulsivamente beijou a Bíblia. Depois, fez um gesto para que os membros do Gabinete se juntassem a ele, na mesa comprida. E fez uma promessa:
— Farei tudo que estiver ao meu alcance para realizar minha missão de acordo com o que acredito que o Presidente teria feito.
Para Truman, o novo Presidente dos Estados Unidos, para todos os homens que estavam naquela sala, Franklin D. Roosevelt ainda era “O Presidente”.
Truman pediu ao Gabinete de Roosevelt que permanecesse nos cargos. Mas deixou escapar uma insinuação do que estava para acontecer ao encerrar a reunião, quando fez outra promessa:
— Assumirei plena responsabilidade por todas as decisões que tiverem de ser tomadas.
Os membros do Gabinete se retiraram. Stimson parou na porta, hesitante. Quando finalmente se dirigiu a Truman, a voz não estava muito firme:
— Sr. Presidente, preciso falar-lhe sobre um assunto de extrema urgência.
Truman assentiu.
— Quero informá-lo sobre um projeto de grandes proporções que está em andamento. . . um projeto que visa ao desenvolvimento de um novo explosivo, de poder destrutivo quase inacreditável.
Stimson fez uma pausa.
Truman ficou esperando. Mas o Secretário da Guerra não entrou em pormenores.
* * *
Em sua primeira manhã como Presidente, Truman acordou na hora habitual, 6:30 horas. Aquela sexta-feira, dia 13, iria ser quente e sufocante. Ocorreu-lhe que um Presidente dos Estados Unidos não se preocupava com previsões do tempo, a menos que afetassem questões importantes. Qualquer que fosse o tempo, ele agora teria que dirigir o país.
Na Casa Branca, Truman demonstrou imediatamente que era um homem capaz de tomar decisões rápidas. Naquela manhã, tratou rapidamente e com segurança de problemas internos, sendo informado pelos membros do Gabinete.
Às 2:30 horas da tarde, James Byrnes apareceu. Truman tinha duas perguntas para Byrnes. A primeira: Byrnes poderia preparar-lhe um relatório por escrito sobre a Conferência de Yalta? Byrnes tomara anotações para Roosevelt durante a conferência e prontificou-se imediatamente a fazer o relatório.
A segunda pergunta foi mais surpreendente. Truman começou por recordar a Byrnes que, devido à maneira como se tornara Presidente, não havia agora um Vice-Presidente. Se Truman morresse ou ficasse incapacitado para o exercício do cargo, a Constituição determinava que o Secretário de Estado deveria sucedê-lo.
Truman perguntou a Byrnes se aceitava o cargo. Era um convite surpreendente, tendo em vista o relacionamento frio anterior entre os dois. Como “Presidente-assistente”, Byrnes fora muito mais íntimo de Roosevelt do que Truman. Em algumas ocasiões, usara seu poder para tratar asperamente o Vice-Presidente. Mas, ao convidar Byrnes para ser o primeiro na linha de sucessão presidencial, Truman estava demonstrando a habilidade política que o tornava tão formidável. Queria Byrnes do seu lado e estava disposto até a comprá-lo.
Byrnes aceitou.
Depois, falando num tom de voz que Truman julgou de “grande solenidade”, Byrnes fez uma comunicação ainda mais surpreendente e misteriosa que a de Stimson no dia anterior:
— Sr. Presidente, estamos desenvolvendo um poderoso explosivo, forte o bastante para destruir o mundo. Pode deixar-nos em posição de ditar nossos próprios termos, ao final da guerra.
31
Beser, como a maioria dos homens do 509.°, tinha ouvido pelo rádio a notícia da morte de Roosevelt. Alguns escutavam o programa O Repórter Ferrell, da NBC, outros estavam sintonizados em Oeste Selvagem, da CBS. A maioria ouvia o Capitão Meia-Noite, um herói popular da ABC.
Às 5:49 horas da tarde, a primeira notícia interrompeu todos os três programas. Por volta de 6:30 horas, as emissoras locais do Utah estavam irradiando o cabograma dramático que Eleanor Roosevelt enviara para os quatro filhos, dois deles servindo na Marinha, no momento ao largo de Okinawa:
QUERIDO: PAPAI MORREU ESTA TARDE. ELE CUMPRIU SEU DEVER ATÉ O FIM. ASSIM COMO GOSTARIA DE QUE VOCÊ TAMBÉM O FIZESSE. DEUS O ABENÇOE. IODO O NOSSO AMOR. MAMÃE.
Beser desligou o rádio. A razão para assim fazê-lo era compreensível.
— Desligando o rádio, eu achava que podia negar a verdade. O Presidente Roosevelt era o homem que nos liderava há tanto tempo que era impossível aceitar imediatamente sua morte.
Naquela tarde, membros dos clubes dos oficiais e das praças da base tomaram uma decisão: não haveria jogos e ninguém beberia até que Roosevelt fosse sepultado. Eatherly surpreendeu a muitos sendo um dos mais ardorosos defensores dessa medida.
Bob Lewis fez um comentário que deixou a todos emocionados:
— Nunca conheci o sujeito. Mas sinto que perdi um grande companheiro.
Para muitos daqueles rapazes, que mal podiam recordar-se do tempo em que ele não era Presidente, era impossível compreender a Casa Branca sem Franklin D. Roosevelt. Gradativamente, porém, as conversas em Wendover, como em toda parte, foram-se dirigindo para o novo Presidente. A preocupação mais imediata do 509.° era a atitude que Truman assumiría em relação ao prosseguimento da guerra. Em Wendover, todos sabiam qual era a posição de Roosevelt. Muitos podiam até citar os discursos em que ele repisara o tema de que o inimigo deveria ser perseguido até seu covil. Roosevelt quase vivera para ver a perseguição chegar a Berlim.
Mas será que Truman estaria igualmente ansioso em conquistar Tóquio?
* * *
Uma equipe bem treinada, com o piloto Charles Sweeney e o bombardeador Kermit Beahan, levou o B-29 ao PA. Para aquele teste, estavam usando uma área de alvo improvisada nos campos de sal a alguns quilômetros de Wendover.
Dez mil metros abaixo, reunidos em torno do PA, cientistas e técnicos do Primeiro Esquadrão de Material Bélico esperavam para verificar se os últimos ajustamentos fariam com que o sistema de detonação da bomba funcionasse a contento.
A bomba que seria lançada estava cheia de lastro e com meio quilo de explosivo, o suficiente para causar uma pequena explosão aérea, a fim de que os cientistas pudessem verificar se o mecanismo de detonação funcionava mesmo na altitude prevista de 600 metros.
A tripulação de Sweeney, a N.° 15, recebera instruções de Tibbets para aquele vôo de teste. Ele lhes recordou a importância e o valor de cada mecanismo de detonação, particularmente porque o sistema ainda estava apresentando problemas.
Embora Tibbets não o dissesse expressamente, estava fazendo um elogio raro a Sweeney e seus homens. Ao escolhê-los para aquela missão de considerável importância para os cientistas, Tibbets estava reconhecendo abertamente o que quase todas as outras tripulações já aceitavam: a N.° 15 era a melhor do 509.°
O único desafio partia do impetuoso Lewis e seus homens.
O relacionamento entre Sweeney e Lewis era bastante frio desde os tempos em que ambos haviam trabalhado no programa de testes do B-29 original. Lewis desconfiava de que Sweeney, irlandês de Boston, “tinha beijado a Pedra de Blarney”, a legendária pedra da Irlanda que se dizia conferir extrema habilidade na lisonja a quem quer que a beije. Era verdade que Sweeney possuía um grande encanto pessoal e que estava acostumado a tirar o que havia de melhor em todos os homens que trabalhavam com ele. O charme não funcionara com Lewis, um fracasso que Sweeney aceitara filosoficamente. Como um profissional, ele achava que Lewis era um “homem de sorte” por estar no 509.° e que tinha mais sorte ainda por servir de vez em quando como co-piloto de Tibbets.
Essa tensão pessoal aumentara o espírito de competição entre as duas tripulações.
Tibbets observava a situação atentamente. Jamais parecia favorecer indevidamente qualquer tripulação. Depois que Sweeney foi escolhido para o vôo de teste, ele pediu a Lewis que realizasse uma série de decolagens e aterragens com uma bomba de quatro mil quilos, cheia de explosivos. O exercício não era tão desnecessário como a tripulação pensou. Tibbets queria que Lewis e, posteriormente, os outros ficassem “psicologicamente preparados” para a possibilidade de um dia terem que transportar realmente uma bomba atômica.
Tibbets conhecia perfeitamente o ponto de vista predominante nos altos escalões do Projeto Manhattan: ao contrário das bombas convencionais, a bomba atômica era muito mais valiosa do que o avião ou a tripulação que a transportariam. Ele comunicou esse ponto de vista a Lewis. O jovem piloto realizou os exercícios com os mesmos cuidados e suavidade de um veterano piloto de avião-transporte da Cruz Vermelha.
Aproximando-se do ponto de alvo, Sweeney observou Lewis circulando lá embaixo. Foi nesse momento que Beahan gritou, num sotaque do Texas que o próprio Eatherly reconhecia como sendo “muito acentuado”, que o PA estava quase no centro do visor.
Beahan, um veterano de combate no exterior, como Ferebee, era um técnico altamente eficiente, conhecido pelos companheiros como “O Grande Artista”. A tripulação N.° 15 respeitava-o a tal ponto que chegava a se gabar de que ele poderia “acertar num níquel de 10 quilômetros de altura”.
Beahan pediu uma alteração mínima no curso. O co-piloto Fred Olivi, um corpulento italiano de Chicago de 23 anos, ficou observando Sweeney atender ao pedido. Olivi achava que era “quase mágica” a maneira como Sweeney e Beahan trabalhavam juntos.
A tripulação preparou-se para o familiar solavanco para cima, assim que a bomba deixasse o avião.
Aquele vôo seria a causa de outra anotação no diário ilegal que o Sargento Abe Spitzer estava mantendo sobre sua passagem pelo 509. Ele era o operador de rádio. Aos 35 anos, era encarado pelo resto da tripulação como um velho. Teriam ficado surpresos com os comentários mordazes que o gentil Spitzer fazia em seu diário a respeito dos homens com quem trabalhava. Mas até mesmo o sargento tinha de admitir que, no ar, a tripulação N.° 15 era uma unidade eficiente e bem coordenada.
— Largar bomba!
As palavras de Beahan foram acompanhadas por um pulo para cima do B-29, seguido, um instante depois, pelo início da volta de 155 graus. Simultaneamente, uma explosão sacudiu o aparelho.
O Sargento “Pappy” Dehart, o artilheiro da cauda e outro texano, gritou:
— Explodiu!
O mecanismo detonara prematuramente, menos de 30 metros abaixo do B-29. O aparelho pousou, os homens abalados. Tibbets estava esperando por Sweeney. E converteu em palavras o medo de todos:
— Vamos torcer para que isso não aconteça quando tivermos uma bomba de verdade a bordo.
* * *
No fim de semana de 21 de abril, o 509.° fez sua jornada habitual a Salt Lake City e pouco depois o oficial de plantão começou a receber as queixas habituais.
Eatherly dera a medida da noite tumultuada, ao apostar uma corrida com seu engenheiro de vôo. Os dois ficaram passando uma garrafa de uísque de um carro para outro, a cerca de 150 quilômetros horários de velocidade. A garrafa estava vazia ao chegarem a Salt Lake City.
Diversos aviadores alugaram quartos no Hotel Utah e logo estavam-se realizando festas ruidosas. Uma ruiva foi vista percorrendo os corredores do hotel, inteiramente nua, perseguida por vários aviadores de cuecas.
Na manhã de segunda-feira, a polícia de Salt Lake City estava telefonando para Wendover, a fim de apresentar a interminável relação de agressões, violações de trânsito e infrações de todo tipo.
Tibbets conseguiu apaziguar as autoridades civis. Mas os sintomas eram claros: o 509.° estava chegando a um ponto perigoso.
Era o momento de deixar Wendover.
Para Tibbets, havia uma outra boa razão para a partida. Ele chegara à conclusão de que os cientistas estavam “mexendo demais” na bomba atômica. Eles pareciam “mais preocupados em produzir uma arma perfeita ao invés de ficarem satisfeitos com a que já tinham e usá-la para terminar a guerra. Queriam melhorar o formato, realizar mais testes, fazer alterações intermináveis, antes de permitir que a bomba fosse usada em combate”.
Isso deixava Tibbets angustiado. Podia imaginar os cientistas a “mexerem” na bomba depois da guerra já ter terminado, “e tudo não teria passado de pura perda de tempo”.
A base do 509.° em Tinian já estava reservada. Semanas antes, fora dada a ordem para que um navio ficasse de prontidão em Seattle, a fim de transportar o pessoal de terra para o Pacífico. Tudo o que Tibbets precisava fazer era telefonar para Washington, usar o código Silverplate e comunicar que “podíamos estar participando da guerra”.
A perspectiva de entrar em ação era animadora. Mas a idéia do que poderia acontecer-lhe, se realmente ordenasse que o 509.° fosse mobilizado, preocupava Tibbets. “Groves poderia tirar-me do comando e mandar-me para o Alasca, até mesmo levar-me à corte marcial. ”
Mesmo assim, Tibbets pediu ao centro telefônico da base que o pussesse em contato com o Comando da Força Aérea em Washington. Assim que foi feito o contato com seu oficial de ligação, Tibbets transmitiu sucintamente sua mensagem:
— Aqui é Silverplate. Estamos prontos para partir.
Tudo foi rapidamente providenciado. O pessoal de terra deixaria Wendover a 6 de maio, para embarcar em Seattle. As tripulações dos bombardeiros voariam até o Pacífico posteriormente.
Pouco depois, Tibbets recebeu um telefonema prioritário de Washington, determinando que voasse até lá imediatamente. O interlocutor deu um pequeno esclarecimento a respeito da convocação:
— Coronel, está metido em maus lençóis com Gee-Gee.
Gee-Gee era um dos apelidos de Groves.
Tibbets chegou ao gabinete de Groves ao final da tarde. Foi dessa maneira que ele relatou o encontro, mais tarde:
— Assim que passei pela porta, ele explodiu. Quem diabo eu pensava que era, ordenando que minha unidade fosse transferida para o Pacífico? Durante cerca de 10 minutos, repreendeu-me asperamente, gritando todos os epítetos, sem jamais se repetir. Eu nunca o vira antes tão furioso. Subitamente, parou de falar, abriu-se num sorriso e disse: “Você conseguiu fazer com que entrássemos em ação! Agora, eles não vão mais poder deter-nos!” Groves estava deliciado com minha atitude. Sem os meus aviões, os cientistas não poderiam continuar mexendo na bomba interminavelmente.
32
O convite para jantar com o oficial-comandante, Coronel Hiroshi Abe, foi uma agradável surpresa para Tatsuo Yokoyama. Até aquele momento, seu relacionamento com Abe fora distante e formal.
Mas, uma semana antes, Abe convidara Yokoyama a jantar em sua casa, perto do Castelo de Hiroxima, naquela noite de sábado. Havia uma condição: um ataque aéreo cancelaria o convite. Nas últimas semanas, houvera diversos alertas. Numa das ocasiões, os bombardeiros haviam sobrevoado em grande altitude a cidade.
Mas desde que as duas bombas haviam sido lançadas há mais de um mês, a 19 de março, Hiroxima permanecera livre de qualquer ataque.
Depois dos exercícios vespertinos, Yokoyama vestiu seu melhor uniforme e disse ao sargento onde poderia encontrá-lo.
O sargento, que era o centro de irradiações dos boatos do posto antiaéreo, sorriu efusivamente e disse que tinha certeza de que a noite de Yokoyama não seria perturbada, “porque a mãe de Truman está prisioneira em Hiroxima!”
Yokoyama ficou atônito.
Q sargento insistiu:
— Ela estava visitando a cidade quando a guerra começou e está aqui desde então!
— Quem lhe disse isso?
O sargento informou que conhecia “alguém” no estado-maior do Tenente-General Shoji Fujii, o Comandante Regional. Fujii estava mantendo a mãe de Truman no Castelo de Hiroxima, como refém contra ataques aéreos.
Q bom senso dizia a Yokoyama que não deveria dar o menor credito à informação. Mas, ultimamente, as histórias mais estranhas haviam sido confirmadas. Como aquela de que meninos de 15 anos estavam aprendendo a voar como pilotos kamikazes no Corpo Especial de Ataque. Yokoyama não acreditara, até ver alguns desses meninos no Aeroporto de Hiroxima. Ele também não acreditara na história de que mulheres idosas estavam aprendendo a afiar bambus, para usá-los como lanças, até o momento em que vira algumas se exercitando no Campo de Treinamento Leste.
Yokoyama decidiu verificar o boato sobre a mãe de Truman com o Coronel Abe.
A casa de Abe era uma residência pequena e compacta, perto do castelo. Ele era viúvo e morava com a filha. Yokoyama ficou espantado ao descobrir que era o único convidado.
Abe era um bom anfitrião, com um generoso estoque de saquê. Tranquilo e descontraído, Yokoyama indagou a veracidade da história da mãe do Presidente Truman.
Abe riu ruidosamente. Disse que desejava que fosse verdadeira, pois ela poderia então responder a algumas perguntas a respeito do filho.
Baixando a voz, Abe contou outra história a Yokoyama:
— A mãe de Truman é de Hiroxima. É por isso que ainda não fomos bombardeados. Ela pediu ao filho que poupasse esta única cidade, em todo o Japão.
Se era assim, perguntou Yokoyama, por que Hiroxima estava sendo preparada para um ataque? Qual era o propósito das faixas vazias de proteção contra incêndios?
— Ajuda a criar um clima belicoso — explicou Abe. — As pessoas que perderam suas casas estarão dispostas a lutar ainda mais ferozmente por suas vidas, pelo Japão e pelo Imperador!
Yokoyama indagou se isso significava que, depois de tantos meses de exercícios, ele e seus homens acabariam não tendo qualquer oportunidade de lutar. Se fosse assim, pediria transferência para Tóquio ou algumas das outras cidades que estavam sendo constantemente bombardeadas.
Abe tratou de acalmar o visitante e convidou-o para comer. O jantar foi servido pela filha de Abe, uma jovem adolescente, de rosto redondo e gorducha. Depois de servir as tigelas de arroz e fatias de carne e peixe, ela retirou-se para deixar os homens comerem e conversarem.
Yokoyama levantou novamente a questão de sua transferência.
O anfitrião fitou-o atentamente:
— Não o convidei para vir a minha casa a fim de discutirmos tais assuntos, mas sim algo que me é muito importante.
Yokoyama ficou calado e respeitoso, enquanto o anfitrião explicava que há muito estava impressionado com as qualidades do jovem oficial. Abe revelou que chegara mesmo a fazer algumas indagações a respeito das origens familiares de Yokoyama.
— E tudo o que descobri foi bastante satisfatório. Seus pais são pessoas honradas.
Sabendo o que estava para vir, pois tais indagações só podiam significar uma coisa, Yokoyama ficou esperando em silencio.
As palavras seguintes de Abe soaram frias e objetivas, como um homem de negócios fazendo uma proposta comercial:
— Case com minha filha e seu futuro estará garantido. Cuidarei disso.
Fazendo uma reverência solene, Yokoyama prometeu ao anfitrião que discutiría o assunto com sua família. Tais conversas eram essenciais, antes que o proposto casamento pudesse ser formalmente acertado.
Aquilo significaria uma viagem a Tóquio. Yokoyama descobriu que essa perspectiva era quase tão excitante quanto o motivo para a viagem.
* * *
Ao chegar ao Aeroporto de Hiroxima, a 28 de abril, Yokoyama foi informado de que o avião-transporte militar em que planejava seguir para Tóquio decolara antes do horário previsto. Ficou preocupado por ter perdido o avião, pois sabia quanto trabalho o Coronel Abe tivera para arrumar-lhe um lugar no vôo.
Yokoyama tentou pegar uma carona no próximo avião-transporte que seguiría para a Capital. Disseram-lhe que esperasse. Ele sentou no chão, do lado de fora da sala de operações, e aguardou que chamassem seu nome.
O Aeroporto de Hiroxima estava sendo ampliado. Era pequeno demais para as crescentes necessidades militares. Estava atravancado de aviões. Yokoyama ficou observando um avião taxiar. De um barracão nas proximidades, saiu um grupo de rapazes, todos de macacão, encaminhando-se para o aparelho. Esperando para recebê-los estava um jovem oficial-aviador, Segundo-Tenente Matsuo Yasuzawa um dos melhores instrutores da Força Aérea. Cada piloto que Yasuzawa treinava agora iria ser um kamikaze. Aqueles rapazes eram a sua última turma. A idade média deles era de 16 anos.
Yasuzawa iria levá-los para uma base a cerca de 150 quilômetros de Hiroxima, em Kyushu, onde receberíam o treinamento final. Depois, partiríam para Okinawa, onde quase mil pilotos kamikaz.es já haviam morrido desde o início da invasão americana, há cerca de um mês. Tinham afundado ou danificado mais de 100 navios americanos.
Yasuzawa sabia como era extremamente importante para o Japão manter Okinawa. Ele detestava permanecer atrás das linhas, como instrutor. Recentemente, fora detido por um oficial superior no momento em que estava prestes a decolar em seu avião de treinamento, com a intenção de lançá-lo contra um B-29 que estava bombardeando a base. Yasuzawa era considerado valioso demais para ser perdido num ataque-suicida. Além de instruir pilotos veteranos sobre como voar aparelhos mais modernos, Yasuzawa possuía a rara capacidade de pegar recrutas totalmente inexperientes e ensinar-lhes os rudimentos de voar em apenas 10 dias. Os pilotos kamikaz.es estavam atualmente recebendo apenas 10 horas de instrução. Mal sabiam voar. Para haver certeza de que não perderíam a coragem no último instante, as carlingas dos aviões-suicidas eram, às vezes, aparafusadas pouco antes da decolagem. A partir do momento em que levantassem vôo, os jovens pilotos não tinham alternativa senão a morte.
Naquele dia, ao sentar-se nos comandos de seu avião de treinamento antigo, Yasuzawa achava que iria terminar a guerra ensinando crianças de escola primária a combater, embora ele próprio jamais tivesse entrado em combate.
Pouco depois o avião de Yasuzawa alçou vôo, Yokoyama observou um caça-bombardeiro naval aterrar e taxiar na direção da sala de comunicações. Os oficiais correram para recebê-lo. Da carlinga, saiu um vulto impecável, num uniforme naval branco. Era o Capitão Hitsuo Fuchida, o piloto que comandara o ataque a Pearl Harbor e era agora o oficial de operações aéreas da Marinha Imperial japonesa.
Escutando os cumprimentos respeitosos dos outros oficiais, Yokoyama calculou que Fuchida estivesse em Hiroxima para participar de uma das regulares conferências de ligação entre a Marinha e o Exército. Yokoyama fez uma reverência quando Fuchida passou por ele. O ás da aviação não retribuiu o cumprimento. Yokoyama duvidava de que Fuchida tivesse sequer notado sua existência.
Pouco depois, um oficial comunicou a Yokoyama que não haveria qualquer lugar disponível para ele nos aviões que partiríam naquele dia para Tóquio. Yokoyama deixou o aeroporto, ainda pensando em Fuchida. Seria algo para animá-lo na longa viagem de trem até a Capital.
Do outro lado de Hiroxima, em sua casa, o Prefeito Awaya escutava a esposa e o filho mais velho lamentarem as agruras da viagem noturna de trem desde Tóquio. Por diversas vezes, a composição totalmente apagada fora obrigada a parar, enquanto bombardeiros americanos passavam lá no alto.
Embora a Sra. Awaya tivesse concordado em levar o filho para Hiroxima semanas antes, só recentemente é que se tornara conveniente transferi-lo de sua escola em Tóquio para outra agregada à Universidade de Hiroxima. O casal decidira que os três outros filhos permaneceríam na Capital. A filha mais velha era casada e vivia em Kobe.
O assistente do prefeito, Maruyama, procurou tranquilizar a Sra. Awaya:
— Eles estarão seguros, enquanto permaneceram fora do centro das cidades. E aqui a segurança é total. Hiroxima não é grande. Eles bombardearão primeiro outras cidades. Quando chegar a nossa vez, a guerra já terá terminado.
* * *
O trem levando Yokoyama para Tóquio partiu às 4:00 horas da tarde. Seis meses já haviam decorrido desde que ele fizera aquela viagem pela última vez. Não estava preparado para as mudanças que podia agora observar: cidade após cidade apresentavam as marcas das bombas incendiárias. Quando se aproximou de Tóquio, nem mesmo a escuridão pôde ocultar os sinais da destruição.
Deixando a estação ferroviária de Shimbashi, Yokoyama partiu a pé para os subúrbios ao sul, onde seus pais moravam. No caminho, passou pelo Hotel Imperial. Projetado pelo extraordinário arquiteto americano Frank Lloyd Wright, o Imperial sobrevivera ao grande terremoto de Tóquio em 1923. Mas agora estava em ruínas. Mais adiante, o Ginza, o coração da vida noturna e comercial de Tóquio, era um deserto desolado de cinza e crateras.
Yokoyama compreendeu que fora enganado. Em Hiroxima, os jornais e o rádio não haviam mencionado as proporções da destruição de Tóquio. Pela primeira vez, sentiu que fora traído pelo Exército. Podia agora ver claramente que o Japão não tinha a menor possibilidade de vencer a guerra.
Finalmente chegou à residência dos pais. A casa ainda estava intacta, mas Yoyokama não pôde deixar de se perguntar por quanto tempo continuaria assim. Os bombardeiros americanos pareciam determinados a espalhar o raio de lançamento de suas bombas, até que toda Tóquio estivesse destruída. Angustiado, Yoyokama entrou no imóvel, convencido de que o Japão deveria fazer a paz ou enfrentar a extinção.
Os pais encontravam-se à sua espera. Depois que o acomodaram confortavelmente, Yoyokama contou o objetivo de sua visita: a proposta de casamento de Abe. Informou que quase nada sabia a respeito do comandante e da filha. Os velhos escutaram em silêncio, gravemente. Em seguida, o pai de Yoyokama falou. Normalmente, um casamento unindo duas famílias de militares era desejável. Mas não estavam vivendo em tempos normais. Os valores estavam mudando. Ninguém podia saber qual seria a atitude futura das pessoas em relação aos membros das Forças Armadas. Ter sido um militar podia ser uma desvantagem. Ser casado com a filha de um oficial de alta patente talvez se transformasse num fardo muito pesado.
Os pais de Yoyokama não poderiam prometer mais do que pensar no assunto, enquanto faziam as indagações necessárias a respeito dos antecedentes do Coronel Abe.
* * *
A esposa do Professor Tsunesaburo Asada fez uma reverência graciosa para o marido antes de embarcar no trem para Nara, juntamente com as famílias de outros importantes cientistas japoneses, para a segurança relativa dos campos. Nos últimos 15 dias, Osaka fora atacada três vezes por formações de B-29. Vinte por cento da cidade tinham sido destruídos.
Já no trem, a Sra. Asada virou-se e fez outra vênia para o marido. Depois, sumiu em meio à multidão de pessoas que se comprimiam nas janelas, acenando em despedida para os entes queridos que estavam na plataforma.
O professor não esperou que o trem partisse. Tinha muito trabalho a fazer. Sua longa pesquisa começara a apresentar resultados. Um dos últimos e mais modernos bombardeiros de longo alcance do Japão, o Ginga, levando uma única bomba de 750 quilos, voara até Saipan e atacara a principal base aérea americana na ilha. A bomba estava equipada com o detonador de proximidade de Asada, semelhante ao que explodira prematuramente sob o bombardeiro de Sweeney, em Wendover.
O detonador de Asada explodira a bomba exatamente como estava planejado, cerca de 12 metros acima do aeroporto de Saipan. A destruição fora considerável. Dezenas de B-29 estacionados foram destruídos ou avariados. O piloto do Ginga tinha informado a Asada que uma boa parte da base aérea se transformara num “oceano de fogo”. As fotografias dos aviões de reconhecimento, mostrando os aviões americanos destruídos, haviam recordado os cientistas das fotos similares tiradas no Campo Hickam, em Pearl Harbor. Mas fora um momento de triunfo de curta duração.
A Força Aérea não podia mais repetir esse ataque, porque sua base em Iwo Jima estava agora em poder dos americanos. O percurso de ida e volta entre o Japão e Saipan era de 2.500 quilômetros, além do alcance do bombardeiro Ginga.
Não obstante, o detonador de proximidade de Asada era um sucesso. A Marinha determinara a produção de 20 mil. Realmente, 12 mil detonadores de proximidade seriam fabricados, muitos sendo ajustados a bombas guardadas secretamente em Kyushu, à espera de uma invasão americana. Quando isso acontecesse, ás bombas seriam explodidas na altura dos mastros dos navios de guerra e de transporte, causando o máximo de baixas que fosse possível.
Asada tinha sido elogiado por oficiais superiores da Marinha por sua invenção. Ficara extremamente satisfeito, embora secretamente que alguns dos elogios fossem tentativas de estimulá-lo. É que seu raio da morte continuava impraticável. Mas Asada não perdera o otimismo e cada vez dedicava mais tempo ao projeto.
Enquanto isso, a Marinha Imperial começava a utilizar uma nova arma.
Fora uma idéia do Dr. Sakyo Adachi, um colega de Asada, adido ao departamento meteorológico naval. Adachi recordara-se de uma coisa que era do conhecimento de todos os alunos de escola secundária do Japão: embora os grandes ventos alísios soprassem de leste para oeste, da América para o Japão, havia um outro vento, a Corrente do Japão, que soprava na direção oposta.
Adachi encheu um balão de gás e prendeu-lhe um recipiente contendo alto explosivo. A bomba-balão experimental fora solta e acompanhada por algum tempo por um caça Zero. Subira firmemente, impelida pela Corrente do Japão, seguindo depois para leste, numa jornada que a levaria através do Pacífico, passando ao norte do Havaí, e terminando na costa dos Estados Unidos.
Outras bombas-balão foram lançadas.
O radar ainda não estava avançado o bastante para indicar a aproximação de tais artefatos.
Os japoneses, é claro, não podiam saber se os balões haviam chegado a seu destino. Mas o Chefe do Estado-Maior da Marinha, Almirante Toyoda, pensando em sua promessa de levar a guerra às praias americanas, ordenara a produção em larga escala.
Muito em breve, todas as cidades americanas da Costa do Pacífico se transformariam em alvos. Havendo condições meteorológicas favoráveis, os balões poderiam chegar até mesmo a Salt Lake City e Chicago.
Nas semanas subsequentes, cerca de seis mil bombas-balão seriam lançadas. Entre as que chegariam aos Estados Unidos, a maioria cairia nos desertos da Califórnia e Nevada e nas florestas do Oregon. Nunca seria revelado oficialmente quantas vítimas causaram. E ninguém jamais saberá quantos balões japoneses, com bombas ainda não explodidas, encontram-se até hoje em áreas remotas da América do Norte.
* * *
A primeira notícia da morte de Roosevelt chegou às mãos do Chefe do Serviço Secreto do Exército japonês, Arisue, em seu gabinete em Tóquio, antes mesmo que a maioria das pessoas em Warm Springs já soubesse da ocorrência.
Desde então, Arisue vinha-se concentrando em traçar um perfil psicológico de Truman. A maioria das informações procedia do adido militar japonês em Berna, Tenente-General Seigo Okamoto, que era o elo nas malogradas tentativas de Arisue de fazer contato com Allen Dulles.
Baseado em sua informações e nas transcrições de transmissões de emissoras de rádio americanas, Arisue chegou a uma conclusão inesperada: Truman seria ainda mais implacável do que Roosevelt.
O novo Presidente americano, na estimativa de Arisue, iria “esmagar o velho” que era Primeiro-Ministro do Japão há 10 dias.
A 5 de abril, uma grave crise política, que vinha fervilhando há semanas, finalmente irrompeu em Tóquio. Nesse dia, o General Kumaki Koiso, o Primeiro-Ministro de compromisso que assumira depois da renúncia forçada de Tojo, sugeriu aos militares que lhe permitissem partilhar da tomada de decisões. Os generais recusaram. Koiso renunciou.
Foi substituído pelo Almirante Kantaro Suzuki, herói da guerra russo-japonesa, cujo corpo frágil ainda trazia as marcas de três balas, legado do tempo em que enfrentara os extremistas de direita do Exército.
Arisue ficou espantado quando Suzuki aceitou um posto em que os riscos de morte eram ainda maiores. Ficaria ainda mais estupefato ao saber que o próprio Imperador incumbira Suzuki de encontrar um meio de terminar a guerra. Esse meio, é claro, não podia ser a rendição incondicional.
Horas depois de assumir o cargo, Suzuki recebeu notícias alarmantes. O Embaixador do Japão em Moscou enviou-lhe um telegrama comunicando que o Governo soviético não pretendia renovar o pacto de neutralidade. Deixaria que o prazo se escoasse automaticamente, o que aconteceria dentro de um ano. Descobrir um meio aceitável de acabar o conflito tornava-se ainda mais urgente.
A perspectiva de o Japão negociar a paz atraía Arisue cada vez mais. No próprio dia do sepultamento de Roosevelt, no outro lado do mundo, ele soube que o Serviço Secreto Naval estava novamente tentando entrar em contato com Allen Dulles, na Suíça.
Arisue podia perfeitamente compreender o raciocínio de seus colegas da Marinha, pois coincidia com o seu. Truman era da chamada “linha dura”. Seria melhor chegar a um acordo com ele agora, quando o Japão ainda dispunha de algum poder de barganha. Os bombardeios americanos, o bloqueio no mar, a implacável barragem de fogo em terra, que estava agora a apenas 350 milhas de Tóquio, em Okinawa, onde se travava uma sangrenta batalha pela posse da última grande ilha entre o inimigo e a ilha mais ocidental do arquipélago japonês, Kyushu, todos esses fatores acabariam enfraquecendo o país a um ponto tal que não restaria alternativa senão a da inaceitável rendição incondicional.
Mas Arisue e outros moderados não achava que o Japão se devesse render incondicionalmente. Achava que, através de negociações, o Japão poderia manter alguns dos territórios que ocupara durante a guerra. Mesmo que isso fosse impossível, conseguiriam pelo menos garantias do inimigo para a segurança do Imperador e a manutenção de seu domínio onipotente.
Arisue não acreditava que a Marinha pudesse obter essa garantia fundamental em suas manobras na Suíça. Passou um cabograma secreto para Okamoto, o adido militar em Berna, determinando que redobrasse os esforços para fazer contato com Dulles.
33
Havia uma carta de Stimson em cima da escrivaninha de Truman. Chegara no dia anterior, 24 de abril.
Prezado Sr. Presidente:
Creio que é muito importante que eu tenha uma audiência imediata para tratar de um assunto altamente secreto. Mencionei o assunto pouco depois que o senhor assumiu o cargo, mas não voltei a abordá-lo, por compreender as pressões imediatas a que estava sendo submetido. Contudo, tal assunto tem tanta vinculação com as nossas atuais relações exteriores e tamanho efeito em todo o meu pensamento a respeito que considero imprescindível que seja informado de tudo, sem mais demora.
Truman marcara uma audiência com seu Secretário da Guerra para meio-dia. O Presidente ficaria feliz em ter qualquer informação que pudesse ajudá-lo a manter os russos em seu lugar. Ele demonstrara seu estilo três dias antes, quando Molotov e Gromyko, a caminho de São Francisco para a sessão de abertura das Nações Unidas, haviam passado pela Casa Branca. Truman lhes dissera que a União Soviética estava renegando os acordos de Yalta. Sua linguagem fora tão áspera e sem eufemismos diplomáticos que Molotov reagira prontamente:
— Nunca antes me falaram desse jeito em toda a minha vida!
Ao que Truman respondera rispidamente:
— Cumpra os compromissos assumidos e ninguém lhe falará desse jeito!
O Secretário da Guerra chegou pontualmente na hora da audiência. Stimson informou que estava esperando outra pessoa. Groves apareceu cinco minutos depois. Entrara furtivamente pelos fundos, para evitar as especulações dos jornalistas estacionados à entrada da mansão presidencial.
Stimson disse que a reunião era para tratar de uma bomba cujo poder igualava o de toda artilharia usada nas duas guerras mundiais.
Groves estremeceu interiormente. Avisara antes a Stimson para não enfatizar demais o poderio da bomba, pois não queria que o novo Presidente ficasse alarmado com a magnitude da nova arma.
Mas Stimson estava decidido a apresentar todos os fatos claramente. Começou a ler um memorando especialmente preparado para aquela reunião:
Dentro de quatro meses, provavelmente estará pronta a mais terrível arma de que já se teve conhecimento em toda a História da Humanidade, uma bomba capaz de destruir uma cidade inteira.
Embora tenhamos partilhado seu desenvolvimento com o Reino Unido, os Estados Unidos são, no momento, a única nação em condições de construir e usar tal arma. Pelo menos por mais alguns anos, nenhuma outra nação poderá alcançar esse estágio. Não obstante, é praticamente certo que a situação atual não poderá ser mantida indefinidamente.
Stimson explicou que a teoria para a construção de uma bomba atômica era amplamente conhecida. Ele expôs em seguida um pesadelo que poderia converter-se em realidade.
Talvez chegue o momento em que uma arma desse tipo poderá ser construída secretamente e usada súbita e eficazmente. . . Com a ajuda de tal arma, até mesmo uma nação poderosa, mas desprevenida, pode ser conquistada em poucos dias por outra nação menor. ... O mundo, em seu atual estado de progresso moral, comparado com o desenvolvimento tecnológico, pode ficar à mercê de tal arma. Em outras palavras, a civilização moderna pode ser totalmente destruída.
Truman fez uma pergunta: Stimson estava tão preocupado com a capacidade da bomba atômica de abreviar uma guerra quanto com seu papel na formulação do mundo futuro?
— Estou, Sr. Presidente.
Enquanto os três conversavam, as Nações Unidas estavam prestes a iniciar sua sessão de abertura, em São Francisco. Stimson previa a possibilidade de Truman fazer tal pergunta. E continuou a leitura do memorando:
Parece irrealista assumir-se qualquer posição numa organização de paz mundial sem se levar em consideração o poderio desta nova arma. Nenhum sistema de controle conhecido seria adequado para controlar esta nova ameaça. Tanto internamente, em qualquer país do mundo, como entre as nações, o controle desta arma será certamente um problema de extrema dificuldade e envolverá direitos de inspeção e controles internos, como nunca antes foram cogitados.
Groves jamais ouvira Stimson falar daquele jeito. Por um momento, perguntou-se se o Secretário da Guerra não se deixara contagiar pelos adversários da bomba, que haviam transformado sua vida num verdadeiro inferno, ao longo dos últimos meses. Por isso, foi com uma sensação de alívio que Groves ouviu as palavras seguintes de Stimson.
O Secretário da Guerra declarou que, apesar de tudo, era favorável a se usar a bomba contra o Japão. Se desse certo, provavelmente abreviaria consideravelmente a guerra.
A reunião terminou com Truman concordando na criação de um grupo de especialistas, que teria o nome de Comitê Temporário, com o objetivo de elaborar a legislação pós-guerra essencial e assessorar em todos os aspectos da energia atômica.
Stimson concordou em presidir este Comitê.
34
Às 6:55 horas da manhã de 30 de abril, em Hiroxima, o Dr. Kaoru Shima foi despertado por uma bomba de 250 quilos explodindo a dois quarteirões de sua clínica. Tinha caído no prédio da Companhia de Seguros de Vida Nomura. O médico pulou da cama e correu para a janela, enquanto nove outras bombas explodiam em diversos pontos da cidade, matando 10 pessoas, ferindo outras 30 e danificando 24 prédios.
O ataque fora tão rápido e inesperado que nenhum aviso fora transmitido pela rádio local e nenhuma bateria antiaérea disparou contra o solitário B-29 que largara as bombas.
O Dr. Shima foi verificar se os pacientes e a equipe tinham sofrido alguma coisa. Em seguida, deu diversos telefonemas para o Castelo de Hiroxima. Depois, esperou até a reunião habitual de sua equipe, todas as manhãs, antes de falar novamente a respeito. Sabia que era muito importante não interromper a rotina normal da clínica.
Sentado no chão, de pernas cruzadas, tomando chá e discutindo os casos em tratamento na clínica, o Dr. Shima mostrava-se tão calmo que tranquilizou toda a equipe. Somente ao final da reunião é que mencionou o bombardeio.
Embora o Exército tivesse imposto a censura total às notícias sobre o ataque, o Dr. Shima descobrira que as autoridades militares estavam convencidas de que o bombardeio fora casual.
Explicou o motivo de tal opinião: o inimigo não enviaria um bombardeiro solitário para atravessar metade do Pacífico simplesmente para lançar umas poucas bombas em Hiroxima. O B-29 certamente se extraviara da força principal de ataque, perdera o alvo original, provavelmente Kure, e se limitara a lançar suas bombas na cidade disponível mais próxima, a qual infelizmente para eles, era Hiroxima.
A equipe não ficou totalmente tranquila com essa explicação. Alguém referiu-se ao meio permanente de que os bombardeiros pudessem voltar com toda força.
O Dr. Shima sabia que a sorte da cidade, escapando até aquele momento a ataques aéreos maciços, aumentara a expectativa entre os habitantes de que tal calamidade poderia ocorrer a qualquer momento. O Dr. Shima sabia também que, “imaginando o pior”, as pessoas sentiam que poderiam evitar o desastre.
Ele próprio era um fatalista, acreditando que nada poderia fazer para alterar o que quer que o destino lhe reservasse. Naquele momento, reafirmou perante sua equipe as crenças em que sempre acreditara: