A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 14 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo XII

 

¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a poesia senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo caminhando pela vida fóra, da primavera para o estio, do estio para o outomno, que já se lhe desverdece, e nem os gêlos do inverno lograrão provavelmente resfrial-o.

Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem que innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?

Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:{32}

Depois que entre os abraços delirantes

de todos os que amei findar meus dias,

sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.

Para marcar da sepultura o sitio,

sobre o cadaver que vos foi tão caro

mangeronas plantae, cuja verdura

em roda fecham variados lirios.

Na raiz funda da soberba olaia

poise a minha cabeça, e o tronco amigo

sobre mim curve a copa florescente.

Mil piteiras unidas, ostentando

na hastea vaidosa as flores amarellas,

em quadrado não grande me defendam

das incursões das cabras roedoras.

Em meu tronco se escreva este epitaphio:

Foi poeta amador da Natureza:

d'entre as sombras ancioso a procurava,

qual terno amante a bella fugitiva.

Sobre isto pendurae sonora flauta,

que se revolva á discreção do vento.

Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,

nem teixo nem cipreste; arvores quatro

quizera só no meu jardim de morte.

N'um canto a laranjeira graciosa,

que mescla util e doce, a flor e o fructo;

n'outro a figueira sob as amplas folhas

modesta occulte seus nectáreos mimos;

defronte um pecegueiro em fructos mostre

que amavel é pudor, quando enche faces

de penugem subtil inda cobertas;

no ultimo canto... (a escolha me confunde)

plantae no ultimo canto uma ginjeira;

é a arvore da infancia, até na altura;

d'esta por sua mão colhe um menino

a mui ridente baga, e ri de ufano.

Alguns tempos depois que a fria terra

meus restos encerrar, á minha olaia

vós, meus amigos, vós dareis meu nome,

pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.

Dos guerreiros nos tumulos afiem

faminta espada os barbaros guerreiros;

no sepulcro do sabio o sabio estude;{33}

e dos Reis nos marmoreos monumentos

vá sonhar a ambição grandeza e pompas;

vós soltos de freneticas loucuras

aqui vireis mil vezes visitar-me,

na amizade pensar que nos unira,

e unir-nos deverá transposto o Lethes.

¿Por que me interrompeis com taes suspiros?

¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados

em torno a mim na flórida alcatifa,

guardardes meditando alto silencio,

se d'entre as mangeronas que me cobrem

sahir acaso a borboleta errante,

¿não vereis n'ella o espirito do amigo

que vem gozar do sol a claridade?

Quando o suave rouxinol de noite

da minha olaia gorgear nos ramos,

¿não pensareis, de santo horror tranzidos,

que feito rouxinol, meus cantos sólto?

Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado

algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»

Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;

e vós direis que o meu phantasma errante,

da argentea lua á muda claridade,

á conhecida voz d'alem responde,

e em tudo encontrareis a imagem minha.

Se inda então meus costumes vos lembrarem,

se vos lembrar meu coração piedoso,

velae que em meu retiro as bellas aves

de caçador cruel cantem seguras;

Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,

só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;

careço de amorosa melodia

que me poetize o somno derradeiro;

morto que nada tem, preciza d'estas

pobres delicias rusticas, se folga

que a namorada moça, o terno amante,

juntos, ou sós, a visitál-o acudam.

Então ao som de languidos suspiros,

de alegres cantos, de amorosos versos,

de ternas queixas, de perdões suaves,

muitas vezes contente a minha sombra,

formando ao pôr do sol vermelha nuvem,

girará n'estes ares revolvendo

da passada existencia almas lembranças.{34}

Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam, inspiraram já outros desejos:

Ó terra de Colombo, um navio de esmola

do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.

Por outra regia Heroina esmolada uma escola

vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.

E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,

romeiro do progresso em balde te busquei,

retomarei de novo o undívago caminho,

e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei

pender na escola-templo os festões da poesia,

e, novo Simeão, findar a vida em paz.

Onde o homem que se humana affoito invoca o dia

direi:—«A patria é esta; aqui viver me apraz;

«apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura

co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;

saudades esparzir na minha sepultura,

e dizer: Este sim, que soube o que era amar.»

Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu. Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio

da amizade:[1]

«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.

«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates.{35} Pois nem já com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê, diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».