A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 30 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo XXVIII

 

Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a encarnar-se{73} em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.

A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus. Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.

¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar, na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se menos colossal, ao poeta, não já do Inferno, mas do Purgatorio e do Céo do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das Carmelitas?

¡Que espantosa similhança entre ella e elle!

São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e fructos de paraizo poderão achar confôrto.

Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Lœva

ejus sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me.[3]

O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.

Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.

Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras, perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das noivas para a eternidade.

Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica: mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em eremita namorado.

Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida{74} nos primeiros annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades, pegar e lançar raizes no retiro.

Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:—¡O beata solitudo! ¡o sola beatitudo!—porque para um e para a outra o ermo é egualmente povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes e mais castos.

Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.

Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.

O POETA

Tennemi Amor anni ventuno ardendo

Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,

Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme

Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.

Ornai son stanco, e mia vita riprendo

Di tanto error; che di virtute il seme

Ha quasi spento; e le mie parti estreme,

Alto Dio, a te divotamente rendo.

Pentito e tristo de' miei si spesi anni,

Che spender si doveano in miglior uso,

In cercar pace, ed in fuggir affanni,

Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,

Trammene salvo dagli eterni danni,

Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.

 

A RELIGIOSA

¡Ay! ¡que larga es esta vida!

¡que duros estos destierros,{75}

esta carcel, y estos hierros,

en que está el alma metida!

solo esperar la salida

me causa un dolor tan fiero,

que muero porque no muero.

Acaba yà de dexarme,

vida, no me seas molesta;

porque muriendo, ¿que resta,

sino vivir, y gozarme?

No dexes de consolarme,

muerte, que assi te requiero,

que muero porque no muero.

 

O POETA

Io vo piangendo i miei passati tempi,

I quai posi in amar cosa mortale,

Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,

Per dar forse di me non bassi esempi.

Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,

Rè del Cielo invisibile, immortale,

Soccorri all'alma disviata, e frale,

Él suo difetto di tua grazia adempi.

Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,

Mora in pace, ed in porto; e se la stanza

Fu vana, almen sia la partita onesta.

A quel poço di viver che m' avanza,

Ed al morir, degni esser tua man presta:

Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.

 

A RELIGIOSA

Ay! que vida tan amarga

dò no se goza el Señor!

Y si es dulce el amor,

no lo es la esperanza larga.

Quiteme Dios esta carga,

mas pesada que de azero,

que muero porque no muero.{76}

Solo con la confianza

vivo de que he de morir:

porque muriendo el vivir

me assegura mi esperanza.

Muerte, dó el vivir se alcanza,

no te tardes, que te espero,

que muero porque no muero.

¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores; esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam com lagrimas.

Valchiusa ou, como dizem, Voclusa, onde Petrarcha passa tantos annos sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.

Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.

Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.

Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher; a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.

Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; ter geminis honoribus; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a de murta, como amante.{77}

Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.

Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de Laureta.