A Chave do Enigma
Capítulo XXXV
O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances, nada mais natural.
Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é que eu ideára o Banho das Graças, descripto por Narciso n'uma das suas cartas; e ali é que eu devaneei o Barquinho do lago encantado, que vós lestes n'este livro.
Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar a sós com o coração ainda{92} agitado das scenas do dormitorio do Pilar. ¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.
Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em que tudo quanto é solido, isto é, duro,—fixo, isto é, estorvo,—temido, isto é, tirannia,—elementos de que se nos compõe a vida real a todos quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas, em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos, como escravo docil aos nossos minimos desejos.
Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os. Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos continham tanta ternura como os nossos berços.
¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!
«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh, que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade. As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem; outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser; e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição. Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que tudo isto é muito verdade.
N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que embebeu a visão, e já não a perde.
¡O meu Lago, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me possam despojar!{93} ¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram elles os senhores d'aquelles dominios, mea regna!... e um sopro, que se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e estão-se rindo de revoluções do mundo: mea regnas. ¿Sabeis porquê? porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo, bens, e futuros, de nossa terra.
No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam, porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.