A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 51 de 61

Páginas do PDF

A Chave do Enigma

Capítulo XLIX

 

 

Versos a este modo, e até somenos, brotaram por ali muitos nas temporadas luminosas, ou menos escuras; e em quasi todos elles brilhava, ou se entrevia, a estrellinha polar, para onde apontava o meu coração magnetisado.

¡Podera não! Todo o solitario tem lá sua visão de que se não desapega por mais que faça.

O poeta das tristezas não sonhava senão Roma no Ponto Euxino.

S. Jeronymo, na sua cova, batia com a pedra nos peitos, a ver se matava lá dentro seductores phantasmas de mulheres.

Eremitas na Thebaida, invocando Anjos do Ceo, eram tentados de demonios terrestres formosissimos.

Petrarca, em Valchiusa, tinha Laura morta engrinaldada sobre um altar a escutál-o.

Camões na gruta de Macau não estava sem Natercia.

Maria, nos fraguedos do Caramulo, não podia deixar de raiar-me a cada passo, como a lua, que, entre fagueira e melancolica, se encobre e descobre de continuo ao que transita por moitas e bosques; e, ou elle{130} vá, ou pare, ou retroceda, o acompanha sempre, e lhe dá a sentir, com enternecido agradecimento, que não vai só.

O mais e o melhor da minha poesia inculta dirigida a ella, não era porém o que se escrevia; era sim o que se me ia

de noite em leves sonhos que mentiam,

de dia em pensamentos que voavam;

lyrica interior, que todos, cuido eu, conhecerão, ou conheceriam alguma vez; bafagens que veem direitas do paraizo á alma, e da alma se tornam para d'onde vieram, sem deixarem cá em baixo vestigio, mais que um frémito voluptuoso no coração, que de fóra se não percebe. Vêem-se manar lagrimas sem dôr, errar pelos labios uns sorrisos não alegres, mudar cores o semblante, despegar-se dos seios um suspiro, as mãos estenderem-se á procura do que quer que seja; vê-se tudo isto, e diz-se:—É um visionario, ou está sonhando;—e não é senão um poeta, que está lendo em si o mais celestial poema que nunca houve, mas que nem elle tornará a abrir, nem outrem jámais adivinhará.

D'esses poemas fiz eu, e perdi, innumeraveis.

Fazia-os ao pendurar ritualmente no crepusculo da tarde de cada sabbado uma capella de murtas nos ramos do meu cedro, consagrado a ella, e que me parecia tão desejoso de festejál-a como eu proprio; fazia-os deitado nos povaes de tijolo de S. Sebastião, ao ramalhar das carvalheiras, pelas séstas; fazia-os regando o jardimsinho de narcisos, gradeado de canas, por baixo da fonte do passal; fazia-os encostado sosinho a deshoras pela noite velha á janella do meu quarto, que deitava para a banda do horizonte, onde devia ficar o d'ella; fazia-os ouvindo ler versos apaixonados, que todos no espirito se me traduziam, e se combinavam na minha historia, muito mais apaixonada que elles todos; fazia-os escutando lá de um oiteiro o sino das Ave-Marias, ao cessarem os trabalhos da terra, na hora em que o ceo accende, como lampada para infinitos amores, a estrella magnifica de Venus; mas sobre tudo os fazia fechado por dentro na minha Villa Viçosa de palha, junto á Pedra Branca, ao abrigo das chuvas e frios, do sol e dos{131} ventos, de rumores e distracções, livre de olhos, de ouvidos e de pensamentos extranhos, só por só com a minha ausente. Para ella renovava as flores e a agua na urna de barro sobre a mesa entre os sophás de cortiça. Ouvia-a cantar ao som da sua viola franceza; dizia-lhe extremos de brandura, que nenhuma linguagem humana traduzira; perdia-me pelos mysteriosos labyrinthos da sua sensibilidade, nunca dantes franqueados; escutava o meu nome tornado musica pelos seus labios; recostava-a n'um coxim de rosmaninho; ajoelhava-lhe aos pés em adoração; voava-lhe aos braços, e anciava morrer ali assim, porém com ella, que eu sou o irmão mais novo de Propercio:

Tunc ego, sed tecum, mortuus esse velim.

Nada me inspirava tanto como a boa da casinha, tão depressa e tão sem custo edificada, que parecera improviso de Sylphides e Sylphos, e na qual se dissera terem elles ficado; ¡que assim era prestigiosa!

Fôra sempre a minha ambição mais levantada, e algumas vezes me chegou a ser esperança tambem, o possuir vivenda minha em torrão meu, por mim delineada, feita aos meus gostos, sem visinhos mas respirando hospitalidade; solitaria, mas ridente; sem fausto, mas abundante em commodidades, em graças profusissima. Aquillo de poder um homem dizer que tem a sua cama, a sua meza, a sua lareira, e os seus livros, entre paredes e debaixo de telhas muito suas; que vive e pernoita com raizes no solo; que emfim é dono, para fruir e testar, de uma porção do terceiro planeta vindo do sol, ainda que não sejam senão poucas braças; e que o Imperador de França não é mais senhor, nem porventura tanto, das suas Tulherias... deve ser umas delicias muito grandes. Nunca as experimentei, nem experimentarei já agora; mas imagino-as; e pode-se dizer que as sonhei, sem dormir, no meu aureo salãosinho de feno.

¡Como eu ampliava tudo aquillo com a varinha de condão da phantasia! a um lado, a alcova nupcial, com suas janellas cortinadas de verde pela frondosidade do pomar contiguo; a outra parte, a saleta do fogão para o inverno, dominado aos bustos de Sapho{132} e Anacreonte, a olharem para as estatuas de Homero e de Virgilio; aqui, a livraria com a mesa para a escripta, e dois espaldares de braços; a casa de jantar com sua fonte e viveiro de aves, e a porta larga e envidraçada aberta para a horta ajardinada; e a voz de Maria, a presença de Maria, a musica do seu vestido, o calor da sua bondade alegre e vigilante, por toda a parte.

Basta, basta já de pisar folhas d'outomno que murmuravam viçosas e rescendentes por cima e em derredor, e agora me estalam pallidas e seccas por baixo de cada passo.