A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 53 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo LI

 

Com ser a luz uma communhão universal do Amor Divino, meza infinita em que os soes aos milhares ministram aos planetas sem conto; e aos entes sem limite de que os povoou o Omnipotente, é comtudo certo, que, assim como vão desiguaes os quinhões de luz de cada sol aos planetas e satellites que a distancias entre si diversas o rodeiam, assim tambem na esphera que habitâmos, por exemplo, a luz vem medida aos sitios, ás estações e ás horas, ás especies, aos individuos, ás edades e ás circumstancias, em proporções diversissimas, todas calculadas, todas certas, e todas em harmonia com as complicadas precisões de um systema geral e perfeitissimo.

Comparae a claridade das cinco zonas; em cada zona, a das quatro estações; e em cada estação, a das montanhas, dos valles, dos bosques, e das cavernas; a da manhan, do meio dia, da tarde e da noite. Depois em cada logar e á mesma hora, considerae no como a luz, banhando e tingindo unicamente a superficie dos corpos inorganicos, incapazes de a sentir, vai abraçar com as suas caricias os entes organisados, que n'ella, e no calor seu companheiro, parecem aspirar a vida, o amor, a alegria; a adoração, como sectarios de Zoroastro. Os vegetaes, sem olhos, a bebem, se inebriam, riem-lhe em flores, com murmurios lhe falam, com fragrancias a lisonjeiam; brincam-lhe com os raios, decompondo-os na folhagem buliçosa, resurtindo-os; alvoroçam-se com a aurora, pendem-se e fecham-se ao escurecer; despem galas no inverno; na primavera retoucam-se e amam; no estio pompeiam e triumpham. Mas n'esta mesma generalidade{135} ¡que differenças e quasi excepções! Para todos a luz é condição do ser e felicidade; mas o musgo que prospera na penumbra da Islandia, pereceria fulminado como Sémele, se o ardente sol dos tropicos o visitasse; as plantas magnificas dos tropicos, nas nossas latitudes, só temperadas, morreriam cegas á mingua de esplendores. Uma herva ala-se do fundo do fojo para o celeste amante, a quem o girasol no seu jardim vai tambem seguindo com a larga fronte doirada, que parece um retrato ephemero do bello astro, explica a fabula de Clície, e dá razão aos dois versos do Camões:

Transforma-se o amador na coisa amada

por virtude do muito imaginar.

Entretanto as grutas e os subterraneos lá teem não menos seus jardins umbrátiles, onde mil especies vegetaes, com uma só gotta de luz diluida nas trevas, alimentam e aditam a existencia.

Os animaes, se exceptuarmos algumas raras especies mais baixas na gerarchia, que parecem não ver, dado se voltem para a luz como as plantas, os animaes absorvem-n-a com delicias.

Os seus olhos são os vasos de gemmas finissimas por onde os seus espiritos a bebem; mas n'estes vasos sem conto, ¡que differenças nos tamanhos, nos feitios, nas cores, nas propriedades! Todos se enchem á immensa cascata de luz que jorra inexhaurivel: quaes em golfadas copiosas, quaes em estillas diminutas; estes, sombria, que fôra trevas para aquelles; aquelles, tão luxuosa, que cegaria a estes. A aguia devassa do alto os pormenores da campina; o insecto perscruta, com inveja dos sabios, o ignorado mundo dos infinitamente pequenos; e eximindo-se por sua tenuidade á perspicacia humana, é ainda por ventura condor, elephante, e lince para universos vivos, nem por nós sonhados, e de mil vezes mais espantosa exiguidade. Ha olhos-telescopios, ha olhos-microscopios, olhos que aproximam, olhos que afastam, olhos que alternativamente afastam e aproximam, olhos que se fitam rectos n'um só ponto, olhos que miram para todas as partes ao mesmo tempo, olhos para o dia, olhos para a noite, olhos unicos, olhos multiplices, olhos, em summa, que só a Sabedoria{136} de Quem os ideou e perfez poderia discriminar e abranger em descripção ou cómputo.

No meio d'estas myriades de orgãos destinados a pascer-se nas lindezas e magnificencias exteriores da Natureza, foi ao homem, seu filho predilecto, que ella deu com a razão e o engenho os mais admiraveis de todos os olhos. Emquanto os dos outros viventes, afinados pelas precisões circumscriptas dos que os possuem, não transpõem limites relativos e determinados, os do homem, pelos milagres da Arte, tornam-se mais que de aguia no alcance longinquo; rivalisam com os dos insectos, mergulhando profundamente pelos abysmos da pequenez; vão buscar para o dominio da Sciencia astros sumidos nas profundezas do espaço, arcanos de anatomia nos vermes imperceptiveis, nos globulos do polen das florinhas mais tenues, nos atomos da poeira impalpavel; e dominadores da luz, pelos instrumentos com que se completam, a refrangem á vontade, e a decompõem, como a divina Iris no firmamento.

¡Entretanto a vista humana, assim mesmo dotada, quão pobre não é para saciar o animo curioso! ¡e então no seu estado natural, que myopia! ¡que imperfeição! ¡que fallibilidade! Aquelles mesmos objectos, que pelo seu volume e proximidade mais parecem estar em relação activa, passiva, necessaria, quotidiana, com o espectador, não passam de uns mascarados e uns fingidos, que, divertindo-o e ajudando-o, zombam d'elle continuamente.

¿Que é ver uma rosa, uma arvore, um edificio, um monte, o Oceano, mesmo com os olhos mais perspicazes e attentos? É receber de cada coisa d'estas uma ideia vaga, superficial, imperfeita, diminutissima, falsa. Quando não, acuda a lente a averiguar uma só petala da rosa, uma só folha da arvore, uma só pollegada do edificio, um só grão da terra do monte, uma só gotta do Oceano (mas ainda a lente não diz tudo); para logo se reconhecer com espanto que isso que se chamára ver, não passava de illusão; era um andar palpando em grosso e ás cegas alguns vultos grandes; nada mais. Se o mundo moral e intellectual nos estão inçados de mysterios, erros, e ignorancias, os aspectos do mundo physico não são menos enganosos; representa-se a comedia da vida n'um theatro já para ella de proposito armado pela{137} Natureza, com o mais ficticio de todos os scenarios: Mundum tradidit Deus disputationi hominum.

N'este cahos universal de enigmas e chimeras, o instincto de saber impacienta-se, agita-se, barafusta, sonda, investiga, conjectura; adivinha ás vezes; aspira a matar a grande esphinge, que se ri d'elle, e que não morre.

O instincto da Arte, menos ambicioso, mais pacato e mais philosophico a seu modo que o ardor scientifico, contenta-se com as brilhantes apparencias; estuda-as, sem pensar em as dissecar; e, como de todas lhe resultam harmonias, todas falam ao espirito e ao coração, sobre todas paira o ideal, de todas se reflecte o amor e a sabedoria, não precisa, nem pede mais, posto o deseje, e o aproveite quando a Sciencia o desencanta e lh'o ministra.

Reflectindo nas verdades incontestaveis e vulgares que deixâmos indicadas, tem-se logo de reconhecer que os poetas, na sua qualidade de pintores, só reproduzem apparencias, perseguem sombras; e, combinando-as e variando-as ao sabor da phantasia e do gosto, aquecendo-as de affecto, e arraiando-as de idealidade, criam para a alma, dentro n'um mundo phantastico, outro mundo ainda mais phantastico. ¿Não é assim?

Ora pois: a criança tão nossa conhecida recebêra, nos annos das primeiras e fortissimas impressões, as ideias, como vós em egual edade as recebestes, e as continuais a receber, dos objectos que aos olhos se offerecem em multidão; depois, fechada a sós com essas ideias, não as destruiu: fortaleceu-as, confirmou-as; depois finalmente, quando entre ella e o espectaculo se ergueu de novo o panno, e a scena lhe appareceu transfigurada, isto é, quando reviu menos vividos e distinctos os mesmos objectos, tirou das suas reminiscencias com que os completar.