A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 44 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo XLII

 

¡Que poesia deliciosa não ha-de ser a que referve na cabeça e no peito de um colonisador humano: Cadmo, Amphião, Dido, Romulo, ou Cabet! ¡Que{110} sonhos magnificos não havia de sonhar toda essa gente!

¡Pois um Fénelon a planejar Salentos!

¡Pois um Voltaire a fazer homens dos seus serranos do Jurá!

¡Pois um Goldsmith a conviver com o seu vigario de Wakefield!

¡Pois um Daniel de Foë a trabalhar com o seu Robinson Crusoé, e um Wyss com o seu ainda mais util Robinson suisso!

¡Pois o Medico da aldeia, o Vigario das Ardennas e o Cura campestre de Balzac!

¡Pois Bernardin de Saint Pierre com a sua Arcadia e a sua républica de felizes!

¡Pois os Jesuitas domesticando os selvagens do Paraguay!

¡Pois um Henrique IV a scismar com a gallinha na panella de todos os seus subditos!

¡Pois Olivier de Serres a transformar com as amoreiras a selvajaria do Vivaret em vergel de afortunados!

¡Pois a parochia de Jocelyn!

¡E muito mais e melhor que a parochia de Jocelyn, o Bispado do nosso D. Francisco Gomes do Avellar!

Meu irmão sonhou tambem, e eu com elle por conseguinte, na procura da felicidade alheia; e parece-me que o nosso affinco perseverado em certos projectos competentemente amadurecidos, e de prestimo indubitavel, alguns effeitos plausiveis haveria dado de si; porque lá n'aquellas terras ainda hoje é grande a autoridade moral e a força persuasiva de um Parocho, sobretudo quando sabem e sentem que é bom homem; ser bom homem é em seu conceito a primeira das sabedorias.

Entraram-se porém dentro em pouco os tempos a cerrar; cresceram desconfianças no futuro; vieram-se avisinhando temporaes, que por derradeiro nos arrancaram tambem a nós, depois de dispersas pelos ares as nossas utopias.

Uma d'ellas, que de certo se teria realizado, sem contradicções nem bulha, era: que nenhum morador da serra, menino, nem velho, nem adulto, nem lavradora, nem ovelheira, deixaria de aprender as primeiras lettras; para o que, lh'as iriamos levar ás suas proprias aldeias em cursos nómadas e temporarios, concertados{111} com as estações, e em harmonia com as lidas agrarias. Instruida a primeira camada, facil era, ou facil nos parecia a nós que seria, colhêr de entre ella mestres e mestras que pela modica recompensa de alguns punhados de grãos, uns arméos de linho, ou um tudo-nada de cobres, continuassem o ensino em suas terras.

¿O saber ler de que serviria, faltando que se lesse, e que valesse a pena de ser lido? Tinha-se assentado portanto em escolhermos, resumirmos, traduzirmos, simplificarmos, humanarmos, e, se tanto fosse necessario, compôrmos, opusculos destinados a darem aos nossos neophytos da religião da luz noções claras e exactas das coisas mais importantes da natureza physica, da religião, da moral e deveres mutuos; quanto bastasse de historia, e o mais que possivel fosse de carta de guia para cada uma das culturas, para cada um dos mistéres, já por ali empyricamente costumados, ou dos que se podessem com a boa vontade introduzir.

Uma typographia modesta, de um só prelo, bastava, e com um só compositor, que podia até ser um clerigo, para se não distrahirem os trabalhadores, facilitaria esta sementeira de industria e civilisação. Os pisões dos bureis, as mós dos moinhos, as galgas do azeite, e os fusos dos lagares do vinho, lá poderiam extranhar nos primeiros dias, verem levantar-se por entre elles um engenho que não deitava nem comida, nem bebida, nem vestido; mas não tardaria que descobrissem como tudo isso, e muito mais, dimanava milagrosamente da bemdita machina, a mais serviçal amiga de todas as machinas, de todas as artes, de todas as sciencias, de todos os melhoramentos, de todos os progressos, de todas as alegrias, de todas as verdades, de todas as consolações, de todas as glorias, de todos os arroteamentos, de todos os aperfeiçoamentos, de todas as conquistas.

A imprensa no ermo, a imprensa na Residencia parochial, especie de cabana disfarçada com limeiras e rosas, não podia deixar de ser uma imprensa util, séria, e dadivosa; e ¡lembrasse-se ella de o não ser! Gostava eu de ver como se avinha para isso com o pastorinho S. Mamede, seu visinho paredes meias, com a pia dos baptisados tão limpida, com a matta além tão inoffensiva, com as sepulturas aos pés a exhalarem{112} paz e bom conselho, com os passarinhos a cantarem festa, com o sol franco por cima da cabeça a proclamar: «Vivei e amae: vede o mundo que eu vos mostro como é formoso; aproveitae-o, e glorificae ao nosso Creador.»

Os livrinhos de tal officina talvez não alongassem vôo até ás cidades (flôres de urze e amoras de silva não se levam ao mercado); mas abundariam gratuitos, inspirativos, e bemquistos, por todas as casinhas da parochia: por baixo dos tectos de palha ou lageas, como por baixo da riqueza das telhas rubras de valladío, ou da opulencia fabulosa dos tres ou quatro telhados moiriscados.

A estante do Ecclesiastico hospedaria fraternalmente entre os breviarios, o Flos Sanctorum, e as folhinhas de reza, estes opusculos do seculo. Os paes de familias os depositariam, depois de lidos, para se tornarem muitas vezes a reler, na papeleira por baixo do seu oratorio. O pastor os folhearia, ruminando elle tambem nos campos do espirito, no meio do rebanho mais bem tratado. O operario na sua officina mostraria com satisfação, entre a sua ferramenta, estes instrumentos novos, aperfeiçoadores dos artefactos e do artifice. As séstas de verão, os serões do inverno, ganhariam encantos com as leituras em commum; nos testamentos figurariam como verba, a par com maiores haveres, os volumes, que assim se iriam accumulando multiplicados pelos filhos e netos pelos tempos fóra.

Depois, os domingos, os dias santos, e os tempos mortos para a lavoira, ¡quão bem se não empregariam na cosinha, na sala da Residencia, ou na sacristia por mais espaçosa, explicando á boa gente, já avida de saber, e que affluiria a esses passatempos como ás romarias, o que elles não tivessem podido por si mesmos explicar! que para isso ali estava á mão como auxiliar, ao pé do prelo uma livraria copiosa, e continuamente acrescentada.

Aos ambiciosos do latim, do francez, da historia, das viagens, das noticias do mundo, ou mesmo da poesia, ali se dariam tambem com a melhor vontade licções, livros, conselhos.

¡Quem sabe o que em trinta, quarenta ou cincoenta annos, se não crearia por ali, onde tão pouco em tantos seculos se adiantára! ¡Que novos e prosperrimas{113} culturas pelos valles e cabeços escalvados! ¡que fabricas, talvez, servidas por aquelles rios, por emquanto ociosos! ¡que augmento nos haveres, na população, na civilidade, na convivencia! ¡que festas novas entre estes montanhezes! ¡Quantas á imitação d'aquell'outras da Suissa em honra da velhice, da virtude e dos serviços prestados á communidade pelos corações bons, pelos espiritos eleitos!

O nosso amor proprio, tanto como a nossa consciencia, aspirava a peito cheio virações de Eden, calculando e preparando tantas venturas, e tão faceis de si, quando deveras se desejam.

Até já previamos, como consequencia summamente provavel de toda esta excitação, que umas terras assim, de que nunca se ouvira soar um unico nome distincto para além do seu ultimo tojal, viriam a contribuir como as outras para o lustre futuro da Patria, com talentos aproveitados em sciencias, em artes, em litteratura, em poesia.

Dilatei-me agora n'isto, porque me pareceu que não fazia mal ficar para ahi este pequeno rebate aos curas d'almas, que para a civilisação podem mais e muito mais do que se imagina, e do que presumem elles proprios. Assim se tratasse de os criar bem, de os instruir muito, de os escolher com escrupulo, e distribuil-os com acerto pelas parochias fóra de mão, em que tudo, ou quasi tudo, jaz

ainda por tentar[5].