A Chave do Enigma
Capítulo L
Ahi fica entregue ao publico da minha terra, pelo ter em conta de amigo, a Chave do meu Enigma, assim como se põe nas mãos do melhor e mais proximo parente a do caixão doirado e funebre que desappareceu.
Como de hoje ávante nunca mais havemos de tornar a este assumpto, acrescentarei ainda algumas palavras, e as derradeiras, destinadas a acclarar outro supposto mysterio com que as trevas d'este se duplicavam.
O immortal autor da Epopeia naval portuguesa, o meu bom e velho amigo Joaquim Pedro Celestino Soares, fazendo-me a honra de me dedicar este seu recente monumento de glorias portuguezas, mostra-se maravilhado de que eu pinte, sem os ver, tantos quadros da Natureza. Muitas pessoas antes d'elle tinham manifestado egual admiração, para mim obsequiosa, e mais que obsequiosa— lisonjeira.
Suppondo que as minhas descripções de objectos visiveis, desde as Cartas d'Ecco, Primavera, Amor e Melancolia, até ás presentes paginas, conteem algum longe d'esse merito que tão benevolamente se lhes attribue, aqui está a explicação que eu posso dar d'esse phenomeno simplicissimo.
Teve a nossa criança, emquanto o foi, e segundo já vos disse, uns olhos de formoso brilho, vividos, buliçosos perscrutadores insaciaveis, e de um alcance desmedido. Mais de uma vez ouviu dizer a sua mãe, que pareciam duas janellas armadas de festa, onde a alma vinha contente lá de dentro espairecer mirando-se no Universo.{133}
Por volta dos seis annos, a segunda enfermidade, de que já vos falei, enfermidade peior que a imaginaria tysica, fechou inopinadamente aquellas janellas, deixando passar apenas, atravez, uns reflexos duvidosos de claridade, frios, desvestidos de côres, desertos, importunos; clarões, que, em vez de trazerem alimento a percepções e alegrias, só occasionavam pelo contrario dores physicas no orgão, por então só vivo para padecer. Este mesmo inutil e violento crepusculo, foi portanto necessario repulsal-o; um veo de seda negro foi lançado sobre a innocente cabeça; fecharam-se-lhe profundissimas as trevas; a victima, o meio-morto, descançou; ouvia chorar, não sabia por quê.
Se um cadaver no sepulcro podesse pensar, ¿sobre que pensaria? Sem duvida sobre o anterior viver que se lhe acabára; revolveria, combinaria de mil maneiras as ideias do preterito, como um avaro, debruçado sobre o thesoiro, mergulha os braços até aos cotovelos, e o coração até ás auriculas, no seu charco inutil de oiro e prata. A pobre criança ruminava ás escuras as visões em que se pascêra na claridade; ia-as convertendo de vagar em substancia propria. Como por fóra fazia noite, illuminava-se por dentro com quantas luzes se lhe tinham prevenido a tempo, e que ella instinctivamente espertava de continuo. O seu espirito era como a lamina photographica, ainda não inventada: recebêra as imagens; fechara-se-lhe depois a camara obscura; agora estava-as fixando em si próprio por uma chymica natural; fôra espelho, era estampa.
Passaram annos; levantou-se o veo negro; Deus apiedado tinha outra vez dito: «Faça-se a luz.» Reappareceu o dia.
¿Reappareceu? não; veio novo, diverso, de natureza extranha; uma especie de dia crepuscular; entre ledo e saudoso; mixto de realidades, verosimilhanças, conjecturas, sonhos; comparavel por ventura, sem grande impropriedade, ao que são algumas das phantasticas noites de lua cheia no estio, ou ao alvor espalhado no Elysio pelos poetas.
Pensando bem n'isto, não posso deixar de render graças á Providencia, e de descobrir n'esta sua liberalidade, e mesmo nos precedentes rigores, novas inducções para acreditar, entre mim, que toda a minha{134} predestinação era, como desde o principio me aventurei a dizer-vol-o, que não fosse eu jamais outra coisa senão cantor, e não fosse cantor senão de ternuras.
Vós, que ledes pelos vossos proprios olhos isto que vos eu escrevo por mão alheia, vós, que disfrutaes, sem a aproveitardes assaz, a dita de possuirdes uma excellente vista, sentireis por ventura alguma difficuldade em conceber aqui o fundo do meu pensamento. Ora vejamos se vol-o decifro.