A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 34 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo XXXII

 

Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste. Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.

Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;

........quis enim securus amavit?

mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois? ¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!

Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi tudo.

O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas, procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.

Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então, esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel, convertia-o em provavel, e do provavel me{85} abortava o certo. ¿A paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres, merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê, mas nem por isso menos attendiveis.

Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já então se não tivessem derramado por esse mundo.

Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.