A Chave do Enigma
Capítulo XLVI
Tinha-me a Real munificencia do Senhor D. João VI, já em 1819, collocado em posição de fortuna, para entre poetas, e poetas portuguezes, muito invejavel: dera-me a propriedade sem onus de um dos mais pingues officios de Justiça na Correição de Coimbra. Com essa renda vitalicia, que ainda hoje durára, se não fossem as uteis refórmas introduzidas no fôro depois de 34, podia eu ter folgadamente realisado desde todo o principio o meu consorcio com Maria; mas eu tinha feito voto anterior de mim para mim, e não queria quebral-o, de deixar sempre na casa paterna, integral e incondicionado, o usufruto d'aquelle rendimento. Não era generosidade; era simples dever. Tendo pois, como se não tivesse, facilmente se imagina ¡como eu ficaria por dentro com este raiar subito da Providencia, da Providencia encarnada em amor fraterno! A chave d'oiro do meu paraizo tinha-a eu posto d'onde a não podia retomar; meu irmão acabava de me entregar outra; e com tal melindre de affecto, como tudo que d'elle vinha para mim, que recusar-lh'a eu, fôra magoal-o mais a elle, do que a mim proprio.{119}
A casinha parecia-me transfigurada em albergue de fadas.
Respondeu-se ali mesmo á carta. Antonita estava cantando uma cantiga de amores a vinte passos de distancia; a alegria e a amizade cantava no coração de Augusto; no meu, cantavam o alvoroço, o enternecimento, a amizade. Era uma hora d'aquellas de que o Céo não empresta mais de uma ás existencias afortunadas.
A carta que eu então dictei para mensageira de tão boa nova, e a que tres dias depois se lia mysteriosamente no mesmo logar aos ultimos raios de um sol magnifico, existem ainda hoje, mas não pódem ser relidas; doer-me-hiam excessivamente; hão-de ser pelo contrario queimadas com todas as outras d'este romance intimo e sagrado, logo que eu tenha concluido o presente escripto. Se alguem não comprehender por si este melindre, paciencia; eu é que me não atrevo a explicar-lh'o.
A elegia Ermitagem da montanha tinha sido poucos dias antes phantasiada ali mesmo. Junto ao convento havia tambem serras, como já vos disse:
Sola eris, et solos spectabis, Cynthia, montes.
Na desesperança, ou, quando menos, incerteza de conseguirmos jámais posse real um do outro, ¿não eram bem naturaes aquelles desejos, aquellas visões do poeta solitario no meio dos seus bosques, pensando na poetisa solitaria á sombra do seu mosteiro? ¿Que amante deixou de sonhar alguma vez que a felicidade o aguardava n'uma caverna sonegada aos olhos de todo o mundo?
A mutação maravilhosa que se me acabava de operar nas perspectivas da alma, fez rebentar o meu ultimo canto—A Esperança.
¡Ah! ¡a esperança! ¿quem? não sendo amante, ou louco, póde fiar-se nos sorrisos de tal phantasma? Os gozos, que tão proximos se me antolhavam, ainda vinham longe. ¡Ha tantas illusões d'estas na vida! teem-se os olhos fitos n'uma ventura que já se vê e se ouve tão perto, que se figura alcançavel com dois passos... e não se repara em que entre ella e nós pode haver duas ribanceiras escarpadas, e até de permeio{120} um rio sem ponte, profundo, vertiginoso, mortifero!