A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 54 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo LII

 

—¿Mas como é—insistem—que, distinguindo apenas, e a curta distancia, os vultos grandes e as côres, consegue descrever, não sem alguma verdade, quadros da Natureza vastos e minuciosos, cujos originaes sem duvida lhe escapam?—Do mesmo modo,{138} pouco mais ou menos, como qualquer leitor por uma descripção poetica debuxa no seu espirito um objecto, cujo total nunca viu, mas cujas partes componentes a uma e uma lhe são todas familiares. Variando os elementos que possuo, vou compondo os quadros a meu gosto.

Mas o que sobre isto vos poderia amiudar, já versos meus o disseram, agradecendo a um pintor amigo, a Sendim, o ter-me retratado. Se os lestes, saltae as seguintes paginas; se os não lestes, e vos interessa tal investigação, aqui os tendes. A mim apraz-me reproduzil-os; são já hoje saudades de vinte e tantos annos.

Já desde Homero, em tráficos do Pindo,

amigo meu Sendim, não roda o oiro.

Versos, bustos, paineis, primor das graças,

pague-os sêcco Bretão por sommas brutas,

se muito ha que do autor deu cabo a fome.

Lisonja em metro, em marmores, em côres,

encommende-a o mimoso da fortuna;

pague com seus dobrões a gloria alheia.

Nós que, longe da terra, ao vulgo extranhos,

vivemos facil vida anachoreta

por solidões de imaginario mundo;

que os loiros para nós por nós plantados

ouvimos sussurrar por sobre o colmo

da ermidinha onde as musas nos visitam;

nós, nós, a quem deu alma a Natureza,

não terrea, não mortal, não simples alma,

de instinctos animaes fugaz composto,

mas generosa, esplendida, sublime,

mixto da etherea luz, do olor das rosas,

do gorgeio do cysne, e do profundo

bramir do Oceano, e do beijar das rolas,

e do albor melancolico da lua,

e da calma do estio, e das sonoras

bafagens tuas, Héspero, e do lume

trémulo e scismador dos longes astros,

não pomos preço vil ao que é sem preço.

Como lá n'outra edade, entre homens simplices,

colono, pescador, monteiro, artifice,

de mão a mão seus commodos trocavam,

tal dura e durará commercio nosso.{139}

Irmans, e não rivaes, as artes-bellas

apertem mais e mais seus mutuos laços;

sua origem commum, seus fins os mesmos,

impõem-lhes lei de amar-se, unir esforços,

umas ás outras realçar o encanto.

Mais, muito mais que irmans, são todas uma;

em nome, em fórma varia, é uma a essencia:

a belleza, a verdade, anceiam todas.

Pinta o Meónio, poetisa Apelles,

Phydias derrama em marmore a harmonia,

Orpheu nos magos sons esculpe os deuses.

Não ha mais que um só Deus, uma verdade,

uma belleza só; mostral-a em côres,

em figuras, em sons, em phrases podes;

são cultos de um só nume em linguas várias.

A amendoeira em flôr é primavera,

primavera é como ella o ceo macio,

primavera a violeta, os ninhos novos.

Unica e pura a eterna luz do engenho

dos sentidos no prisma se refrange,

e sai cambiada em fulgidos matizes.

Como as côres são luz, são estro as artes.

De nossa industria os fructos permutemos.

O mago teu pincel doou-me aos evos;

se os versos meus aos evos resistirem,

nos versos meus reflorirá teu nome.

¡Ah! ¡não poder eu mais! qual tu meu todo

á estampadora pedra o confiaste,

capaz de confundir maternos olhos,

¡não poder eu tambem pintar no metro

genio, vida, expressão, physionomia

de quadros, onde a mente aos olhos fala!

Desegual foi comnosco a Natureza:

amante seu feliz tu gozas d'ella,

abráçal-a com extasi, sorri-te,

descobre-te um a um seus mil encantos;

e, como se um tal bem não fosse immenso,

diz-te:—«Eis-me aqui, retrata-me, ó ditoso;

d'onde os gostos extrais, extrae a gloria.»—

¡Não assim eu! eu busco-a... ella se occulta;

chamo-a, invoco... ou não vem, ou só de longe

fugaz e esquiva se entremostra, e passa;{140}

como visão por sonhos vaporosos;

como scena confusa e namorada

de já perdido livro; como ideia

da mui longinqua infancia, que inda a medo

por sob as cans revôa ao pé das urnas;

ou como o astro da noite em selva umbrosa;

ou como as vozes de um serão do estio,

quando da aldeia as virações as levam

soltas e vagas ao curioso ouvido

de erradio viandante; ou como o vulto

de ingrata amada em vão, que evita encontros,

leve atravez das arvores refoge,

sem deixar mais de si que a viva imagem

de alva roupa esvoaçada e gostos idos!

Realiso as que a Grecia fabulára

impaciencias do Alpheu, quando entre as nevoas,

doido de amor, frenetico, debalde

a vedada Arethusa andou buscando:

«Nympha, vi-te—clamava—¡ai! ¡quero ver-te!»

e o ai, com que as florestas apiedava,

não apiedava o coração da isenta.

Á beira de suas aguas fugitivas

depois cançado e triste ia encostar-se,

a procurar pelo animo saudoso

que feições enxergou, quaes poderiam

ser as mais que não viu; compunha-a toda,

linda sim, mas phantastica; e por ella

com longo affecto os eccos entretinha.

Por isso ninguem peça inteiro canto

na harpa quebrada. A voz de outros poetas

que o solte; não me assombra: a solfa inteira

perante os olhos seus se desenrola.

Minha harpa incerta, em solidões, por noite,

não apontados sons pendente exhala,

a capricho de um zephyro que adeja.

De Achilles, dos Jardins, do Eden os vates,

e dos Bardos o Bardo, Ossian, o altivo,

(pelo seu estro o juro; ¡immensa jura!)

taes não subiram, se ás geladas trevas

desde a infancia atro genio os condemnára.

Manhan da alma existencia. ¡Oh! ¡como alegre

me alvoreceste! ¡oh! plena luz, enlevo

de que o minimo insecto ignaro goza,{141}

riqueza de que é rico o mundo todo,

luz, com pródiga mão dos céos lançada,

vida, belleza, luz! palavra etherea,

a unica de um Deus no grão momento,

em que ao formado mundo erguia o panno...

¡luz! ¡luz! ¡eu te gozei na infancia minha!

¿gozei?... ¿quem te possue goza-te acaso?

não; pródigo, indiff'rente, como todos,

vi-te, desperdicei te ¡Ah! ¡quem me dera

d'essas horas doiradas um minuto,

uma só gotta d'essas fontes amplas

por este areal tão sêcco! ¡Oh! ¡com que sede

n'um só momento me vingára de annos!

¡que joias no poetico thesoiro

avido para um seculo ajuntára!

¡Como ás imagens pallidas, que á força

te arranco, ó Natureza, como arranca

o oiro entre fezes duro escravo á mina,

como a tantas imagens desbotadas,

rico legado do menino ao homem,

revivêra o matiz, o fogo, o lustre!

Então, para pintar florestas, mares,

não precisára de espreitar confuso

um ramo a folha e folha, ou já no copo,

agil movido, o rutilar da lympha.

Se ouvisse descrever a majestade

de um rosto varonil, de uma formosa

o encanto, de um menino as graças lindas,

tudo isso o variára a mente facil.

O aspecto do varão nem sempre fôra

a paterna presença. Além de Amalia,

de meus brincos pueris ligeira socia,

mais formosas houvera, e mais formosos

anjos mortaes que o meu gentil do espelho,

de olhos tão vivos, tão córado aspecto,

riso tão doce, e que eu amava tanto!

¡Saudades vans; desejos vãos e acerbos!

Se o mar, se o céo, se os campos se me esquivam,

róla a mente em seu mundo infindos mares,

campos lhe alastra de opulencia extranha,

circumvolve-o de céos fervendo em astros.

Tal de Agenor o filho a patria perde;

mas se lei deshumana o lança em fuga,

oraculo phebêu condul-o a thronos;

por Tyro que perdeu lá funda Thebas,{142}

a de cem portas nos canoros muros.

Mas a patria... era a patria; aquella Tyro...

era a Tyro da infancia; o solio, Thebas,

o Elysio, o Olympo mesmo, a não valeram.

¡Feliz o para quem da vida as portas

já se abriram sem luz! Só tem metade

do humano apego ao mundo e horror á morte:

não viu, chupando o leite, o seio amigo,

o sorrir brando, os olhos, e nos olhos

o coração materno; as irmans suas

não foram mais que uns sons; a rosa, um cheiro;

movimento, o passeio; o sol, quentura;

um monte, a estiva noite; as Graças... nada.

¡Longe outra vez, e para sempre longe,

saudades vans, desejos vãos e acerbos!

¿Que me importam canções? ¿que outrem descreva

com mais proprio matiz do mundo os quadros?

¿que tenha ou não mais azas para um voo?

¿que importa que um volume de poesia

seja um thesoiro para mim sem chave?

¿e que dos seios do animo rebentem

meus versos caudalosos, sem que eu possa

co'a propria dextra abrir-lhes a passagem,

por onde ávidas paginas inundem?

¿Não me rege inda a luz os cautos passos?

¿não me tinge inda ao perto as varias fórmas?

livros... pluma... olhos meus e dextra minha

quando jámais n'outro eu me falleceram,

n'outro eu onde os amei e os amo em dobro?

¡Graças a amor, á Natureza graças!

logrei constante, e lograrei perpétuo

nos laços fraternaes consorcio d'almas,

nos de hymeneu fraternidade nova;

meu ente n'estes entes se completa,

já bardo sou tambem... sahi, meus versos;

pura mão, don dos céos que eu pago em beijos

sollícita vos abre ao mundo estrada;

sahi, voae! da gratidão fervente

aos olhos de Sendim levae meus votos!{143}