A Chave do Enigma

António Feliciano de Castilho · Capítulo 50 de 61

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A Chave do Enigma

Capítulo XLVIII

 

Sentae-vos em espirito debaixo da sua copa, se vos apraz, e ouvireis o que lhe eu cantava ao firmarmol-o tenrinho n'aquella terra benta.

Adverti porém desde já, em que não ides escutar maravilhas de poeta. São versos faceis e descuidados, como os eu então fazia para matar o tempo, e esquecido de que havia mundo.

Podéra agora tel-os retocado; ¿mas para quê? ¿e que é do valor para estar desconcertando por mera vaidade litteraria umas saudades d'estas? Hão-de ir e hão-de ficar já agora singelos e montesinhos como nasceram.—Ouvida a primeira duzia d'elles, quem lhe parecer, que deixe os outros.

¡Ó cedro, ó joven principe dos bosques,

eis-te já no teu novo domicilio,

eis-te vaidoso em pé, do sól á espera!

Gente do presbyterio, afervorae-vos,

entrançae danças, coroae-vos todos,

cantae-lhe bençãos, tumultuae-lhe em roda.

¡Gloria a Deus! ¡Como o dia vem formoso!

Anjos que protejeis a Natureza

vossa amavel irman filha do Eterno,

que entre vós repartistes as montanhas,

o arvoredo das Dryades palreiras,

e a urna fresca das occultas Náyades,

vinde, adoptae no seu primeiro dia

do filho de David a arvore antiga.

D'entre os ramosos tufos elevado

seu cume se remonte á patria vossa,

e aponte os Ceos ao pensamento humilde.

Praza o carvalho a Jove; o loiro a Phebo;

a vós o cedro; o cedro, inda saudoso{123}

e altivo do seu Libano, inda cheio

das lembranças da Biblia, inda soberbo

de hospedar em jardins, palacios, templos,

Adonai, o Rei Sabio, o Povo Eleito.

Assim glorioso e mistico, o bom cedro,

o cedro-rei, viu supplice prostrar-se

Israel ora a Deus, ora á fortuna,

aos ceos e ao mundo, á eternidade e ao tempo.

¡Oh! ¡venerando! ¡oh! ¡cresce em nossa terra!

co'a verdenegra copa não desdenhes

acoitar o singelo presbyterio.

Premeia o generoso desint'resse

do plantador que desce todo á campa.

Sagradas são as dividas do affecto;

os cuidados que assiduos te protegem,

invoca o tempo de os pagar co'as sombras.

Dias virão nos teus crescentes dias,

em que nobre ante a porta da virtude

com ternura e respeito hão-de saudar-te

os montanhezes descobrindo a fronte.

Lembrarás os antigos patriarchas,

que ao-pé da movel tenda no deserto

pertenciam aos Ceos pela esperança,

e ao patrio mundo pelo amor dos homens.

—Ali—dirão—na sésta reclinado

o pobre ancião, pastor d'estas aldeias,

ao circulo inquieto dos meninos

ensina a amar a Deus, a si, aos outros,

ás lettras, ao saber, á patria, á gloria;

e, abraçando-os risonho á despedida,

distribue co'a mão tremula aos melhores

em premio doce disputados frutos.—

—Ali—dirão tambem—sentou-se um dia,

e gabou a frescura das ramadas,

um Bispo antigo e santo; ali tomava

o seu café, resando o breviario;

meu avô, bem que rustico e indigente,

falou-lhe ali, beijou-lhe o annel e ouviu-o.

¡Que apostolo! ¡que amor! ¡que urbanidade!

essa arvore o cobriu, ficou sagrada.—

Hospede e amigo do adoptado albergue,

firma-te ao solo com raizes promptas;

exalça a fronte aerea, alto, gigante;{124}

abre os cem braços co'os tufões em lucta.

Piedoso Briarêu, não temas raio;

o raio atrôe as serras, cegue, abraze

o altivo topo ás arvores soberbas;

tu, não tremas; eu quero no futuro

que um novo talisman te adorne e ampare,

possante contra furias de elementos,

contra o machado algoz, contra demonios:

Se dos teus annos na madura força

a mão que ora te planta inda for viva,

essa mesma, já tremula e inda amiga,

inda meiga ao seu cedro, e já caduca,

no tronco te abrirá com tardo exforço

graciosa capellinha, onde sorria

um San-João, o Santo alegre do ermo:

trajo de pelles, juvenil frescura,

olhos nos Ceos, aos pés cordeiro branco.

N'essa noite poetica e devota,

em que o prazer, centuplicando aspectos,

povoa, anima, encanta o mundo inteiro;

agua e terra, ar e ceo, tudo é macio;

em que a velhice, a mocidade, a infancia,

sympathisam no vago da alegria;

em que n'alma insaciavel de delicias

se juntam com mistura inexplicavel

o saudoso passado, os bens presentes,

ao contente futuro ebrio de esp'ranças;

em que n'um laço mystico se aggregam

da vida e eternidade os pensamentos,

gozos, superstições, fraquezas, cultos,

como um ramo de rosas e ciprestes

na caprichosa mão das feiticeiras;

n'essa noite das noites invejada,

té dos casaes lá do ultimo horizonte

a ti concorrerão por toda a parte

dançantes bandos que a viola impéra.

Verás girar seus bailes rebatidos

em redor das estridulas fogueiras;

ouvirás os seus canticos em coro

devoto e namorado; a bomba foge,

zune fugindo, e solapada estoira;

o buscapé no ar caracolando

morde n'um, morde n'outro, ameaça a todos,{125}

dispersa os grupos, gasta-se raivando,

e entre os risos rebenta atroando os ares;

aqui, circula em vertice perenne

a roda leve espadanando incendios,

chovendo oiro luzente e estrellas alvas;

ali, floreia o fulgido valverde,

vulcão sonoro que arremette ás nuvens;

vôa, remonta impaciente aos astros

o ignívomo foguete estrepitoso.

¡E a musica entretanto! ¡e as doces falas!

¡e os segredos d'amor! ¡e a prece occulta!

e essa mão dada a furto, e a furto acceita!

¡e esse olhar falador! ¡e essas virtudes

da meia noite em ponto! e a flôr crestada!

¡e as sortes que a fortuna extrai ás vezes,

e muitas mais a próvida malicia!

¡e a fonte que amanhece entre descantes,

e pasma rindo de se ver c'roada

de festões verdes e enlaçadas flores!...

¡Que noite! ¡que prazeres! ¡que triumphos

te aguardam no porvir, me estão na mente!

Mas se ao neto do Libano silvestre,

se á arvore do templo, ao cedro antigo,

mais contenta sublime austeridade,

religioso é o chão que te sustenta,

santa e severa a muda visinhança.

D'esse lado, essa relva avelludada

foi chão d'egreja outr'ora, e esconde os mortos;

onde a oliveira está, surgia a torre;

bradava aos eccos dos remotos cumes

o sino da oração, lá onde agora

está cantando o melro; e pasce a ovelha,

balando o seu amor ao filho ausente,

onde a moça aldeana ajoelhada

em noite do Natal, ante o presepio

acalentava em côro o Deus Menino.

Nem portas, nem degraus, nem muros restam!

¡Um saxeo altar! ¡por tecto uma parreira!

¡e um San-Jorge musgoso entre silvados!

D'aqui, filho do antigo, o novo templo

te alveja em face. Em fundo de sepulcros

por ossos vãos enredarás raizes.{126}

¡Que vezes para o ceo voarão juntos

o perfume do incenso e o teu perfume,

o teu sussurro e os canticos da Biblia!

Escutarás por baixo do teu cume

os mysterios, a supplica chorosa,

as lições da moral, do Eterno as glorias,

o voto humilde, a gratidão serena,

o tom pesado dos funereos Psalmos,

a infancia d'entre as aguas renascida,

os protestos do amor que acceita e córa;

e o mais que o mal previne e o mal espia,

gera, vigora o bem e o bem premeia,

suavisa as dores, o prazer modera,

adoça a vida, aperfeiçoa os homens,

e por c'roa da paz a paz promette.

Assim, quasi debaixo de teus ramos,

juntarás o que a mil faria illustres:

a raça que milita, e a que triumpha;

os cultos da saudade, e os cultos vivos.

Cresce pois outra vez, cem vezes cresce.

Alto, em frente do humilde presbyterio,

torna-te a sentinella das montanhas.

Se o peregrino, attonito, espantado,

errar nos cumes alongando os olhos;

se vires muito ao longe os passos frouxos,

o curvo dorso, o pallido semblante,

e as cans sem honra do ancião mendigo;

indica-lhes a senda hospitaleira,

mostra-lhes em teu lar os seus penates;

e dize ao peregrino:—Eis a poisada;—

e ao mendigo:—Bom velho, andas perdido;

reconhece o teu fumo, a tua porta,

teu leito, os teus irmãos, teu pae, teus filhos.—

¡Oh! ¡que viver, que almo viver te aguarda!

beneficencia, paz, respeito, gozos,

¡quantos bens! ¡e esses bens quão longas eras!

Mas nós... ¡ah! nossos dias fugitivos

seculos são se á rosa se comparam,

mas passam como a rosa a par dos cedros.

Para ti, de anno em anno a primavera

virá com pompa nova e novas galas;{127}

para nós, menos flores de anno em anno

lhe virão no regaço; menos fogo

nos olhos, no sorrir menos ternura.

Eu, que outr'ora a cantei, que ardi por ella,

para quem toda a alegre Natureza

era animada, meiga, inspiradora;

que doce delirava entre as violetas,

entendia o favonio e a voz das fontes,

entrava co'a andorinha em seus prazeres,

co'o rouxinol em seus segredos ternos;

que do meu estro nas visões formosas

arvoredos, oiteiros, grutas, rios,

povoava das priscas divindades,

e n'um mundo só meu, vivia todo...

hoje, ¡quão frouxa pela mente nua

sinto raiar a inspiração que imploro!

Do genio a seiva, a primavera da alma,

langue; raro floresce, a longe, a longe.

¡Como! ¡tão novo ainda, é já forçoso

que a grinalda poetica se esfolhe!

¡Lyra que apenas entoou preludios,

já desafina, e jazerá sem honra!

¿Serão estes os canticos do cysne?

Ó meus delirios, nuncios meus de gloria

¿mentieis vós? ¿ir-se-hiam para sempre

lagrimas, illusões, ternura, cantos?!

¡Ah! ¡sentir-se morrer, que acerba morte!

E tu tambem, tu morrerás um dia.

As raizes cançadas de nutrir-te

não pedirão mais succo á larga terra.

¡Adeus, ninhos d'outr'ora! adeus frescura,

sombras, sussurro ameno e cheiro alegre!

A copa verde que hospedava as nuvens,

ludibrio d'auras, arida esvoaça.

Mas ao menos feliz impresciencia,

don melhor que mil dons, te coube em sorte.

Dominas vastamente o ar e a terra,

sobes vaidoso aos ceos, á Estyge afundas,

e baqueias sonhando eternidades.

¡Ó arvore, alevanta-te! ¡desata

em nossos dias tua umbrosa pompa!{128}

Emquanto a raça ephemera dos homens

vai e vem, faz, desfaz, se eleva, desce,

tu, fixa, tu do sabio exemplo inutil,

medra pelo descanço; igual hospéda,

sorrindo sempre, as estações oppostas;

presta-te aos soes e ás luas, que sem conto

volverão sobre ti; sê caro asylo

ao favonio que em braços te adormeça,

e ás aves que em teu seio se aninharem,

e soffre ou goza o teu destino immenso.

¡Ai, nunca de teus ares dominando

pela terra de Luso oiças ou vejas

da civil guerra as armas fratricidas!

Inda agora nos eccos d'estes montes

os seus trovões sacrilegos retroam.

Inda em nossos ouvidos estremecem

quadrupedante estrepito, relinchos,

retinir d'armas, rufos de tambores,

rolar de carros, vozear de chefes,

e os gritos do clarim, pregões da morte,

¡Que esposas inda agora estão carpindo!

¡que mães, filhas, e irmans, inda hoje em lucto!

Do sangue a côr maldita inda denigre

esses campos de horror; e as sepulturas

dos sem numero extinctos nos combates,

não florirão inda esta primavera.

Do raio o fumo a Lusitania assombra.

Ó Paz, filha do Ceo, mãe da abundancia,

da innocencia e do amor irman e amiga,

alma Paz, volve a nós, que assaz é tempo.

De opulentos avós mesquinhos netos,

já não pedimos bens: aos descendentes

do povo infesto a Roma e Rei do mundo,

basta um pouco de pão em paz comido.

Sobre os antigos loiros desfolhados

caiba-lhe ao menos respirar dormindo,

¡Que ideia tão inhospita e gelada!...

¡Aguas! ¡aguas! ¡reguemos o bom cedro!

¡lá se vai por o sol! ¡cá nasce a lua!

Ó lua, vem propicia á joven planta;

e tu, doirado sol, propicio volta.{129}

¿Quem bate?... ¡parabens! dançae, folguemos?

¡eis o pobre! ¡eil-o! ¡é Deus que a nós o envia!

¡sim! da parte de Deus vem sempre o pobre.

Entrou á rega; ¡é fausto o agoiro! ¡é fausto!

enchei-lhe a taça, beberemos todos.

Conduziram-n-o ao lar; da farta ceia

leval-o-hão consolado á foufa cama.

Agora, que estou só, que apenas oiço

o mui longe cantar das fiandeiras

na aldeia d'alem-rio, ¡oh! vem... ¡sentemo-nos

ao-pé do que algum dia ha-de abrigar-nos,

candida imagem de Maria ausente!

segredarás aquella de que és sombra,

que para ella está guardada a gloria

de casar algum dia uma roseira

ao já seguro tronco. ¡Ai, doce emblema

da quêda e flórea vida, enlevo de ambos!